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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Mai21

A GRANDE AVENTURA

Scenas de Guerra

1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

12

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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Carta a uma mãe

 

Os comandantes dos pelotões são quem censura as cartas dos seus soldados. E' uma tarefa aborrecida e ingrata, cumprida por desfastio nos intervalos dos bombardeamentos, entre o almoço e a ronda, á luz duvidosa do abrigo.

 

Em regra, são cartas pequenas, noticiando o estado de saúde, mandando recados aos visinhos, lembrando festas de familia ou pedindo novas das moças da terra. Mas, ás vezes, a nostalgia aperta mais os ingénuos corações dos magalas, os olhos cerram-se-lhes, e as suas almas simples, como grandes borboletas de asas impalpáveis, deixam-se ir, para além dos horizontes, até qualquer cantinho risonho e florido das nossas províncias, onde porventura, àquela mesma hora, numa correspondência misteriosa de afectos, numa telepatia obscura de sentimentos, vozes aflitas rezam por eles, mãos trementes se cruzam sobre os peitos confrangidos e olhos turvos de lagrimas se erguem para alguma Nossa Senhora, com o filho morto nos braços, entre as flores de papel do velho oratorio. O magala chama então o cabo ou o camarada mais letrado, e vai espremendo o coração sobre o bocado de papel.

 

Algumas dessas cartas, feitas nos momentos de maior emoção, são squemas admiráveis da sentimentalidade nacional. Verdadeiramente, constituem o nosso «folk-lore» da guerra. As imagens cáem dos bicos da pena com a mesma simplicidade luminosa com que o dia cai sobre os campos e com a mesma brandura e graça com que a nascente corre da serra. O coração salta para a palma da mão, as lagrimas saltam para os cantos dos olhos e as palavras escorrem dos lábios, doces como fios de melaço, acalentadoras como o lume da lareira, tranquilas como um seio de irmã.

 

As cartas passam do comando da companhia para o comando de batalhão, daqui para a brigada, daqui para a estação postal, e daqui para a terra longínqua, como asas de andorinhas que buscam um beiral amigo, onde, emfim, possam soltar os seus gorgeios.

 

A carta que vai a seguir é talvez uma dessas. Apenas lhe puz algumas virgulas, emendei alguns erros de ortografia e introduzi um ou outro período para lhe dar tal ou qual feição literária. Ela aí vai, como uma andorinha, em procura dos regaços carinhosos das mães dos soldados portugueses:

 

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«Minha santa mãe:

 

«Estimo que ao receber desta esteja de perfeita saúde. Eu continuo bom, graças a Deus.

 

Escrevo-lhe numa hora de grande saudade. Tenho-me lembrado todo o dia das nossas coisas — da nossa horta, do nosso eirado, da nossa casinha. Véem-me á memoria, sem querer, os tempos da infancia, e parece-me que chego a sentir as caricias da sua mão adoçarem a febre que me queima esta pobre cabeça, sobre a qual, a cada hora, como pios lugubres de corujas, passam os grasnidos das granadas.

 

Ha bocadinho deixei-me adormecer. A gente não deve abandonar-se ao cançasso, nem pôde entregar-se ao sono. O descuido de um minuto, o desfalecimento de um instante pagam-se com a vida. E' preciso olhar para todos os lados, quase adevinhar as intenções das balas, ter todos os sentidos bem espertos, para a gente se poder defender da  morte. Mas o corpo é fraco, e muitas vezes deixamo-nos cair numa especie de amolecimento da carne, de quebrantamento do sangue, que nos faz bem. Que se lhe ha de fazer? O que tem de ser tem muita força.

 

Como lhe ía dizendo, ha bocadinho deixeime adormecer. E entre a roseta vermelha que o sol fazia dançar deante dos meus tristes olhos fechados, o seu rosto apareceu-me como que vindo do céu, com o mesmo sorriso que tinha no dia em que eu levei para casa o primeiro dinheiro que ganhei. As saudades matam-nos, minha mãe.

 

Num outro dia, numa tarde de chuva, estava eu dentro do abrigo comendo o rancho, e descançando um pouco, porque todo o dia tinha andando a compor uma trincheira arrombada pelos morteiros do inimigo, e ouvi distintamente, junto de mim, a sua voz. Já o rancho me não prestou e para ali fiquei, agachado, vendo pela boca do abrigo cair a chuva na passadeira, tomado de uma melancolia que me fazia arrefecer as veias. Resistiremos facilmente ao inimigo, mas não sei se resistiremos a isto.

 

Temos o coração maior que os outros. E' talvez a nossa desgraça.

 

Os franceses teem na frente da batalha todos os seus homens validos. Passa-se pelas  vilas e pelas aldeias e não se encontram senão mulheres e crianças cobertas de luto. Mas as crianças riem e brincam como se nada fosse, e as mulheres divertem-se com ingleses e portugueses.

 

Não entendo esta gente. Não, não é lá por falarmos linguas diferentes. Quase todos falamos já um pouco de francês e não nos é dificil compreendermos os proprios ingleses. Não é por isso. Os corações é que não se entendem.

 

O beijo é para as nossas mulheres um pecado. Pois aqui é um cumprimento. Uma mulher casada que aí fosse vista a beijar um homem que não fosse o seu marido ou o seu irmão, estava perdida. A mim, ainda ha dias uma mulher casada me beijou na presença do marido, que sorria com indiferença. E preparava-se para se me sentar nos joelhos, se eu não tivesse mais vergonha do que ela e não tivesse fugido, com as mãos apertadas na cabeça.

 

As raparigas d'ai teem medo de que nos deixemos ficar por cá, enamorados das «demoiselles». Que não tenham receio!

 

As longas horas de namoro, ao luar duma desfolhada, sob as ramos duma arvore, juntodo peitoril duma janela, tocando-se, não as faces, mas as almas, beijando-se, não as bocas, mas os olhos, e isto por muitos anos, até que se assente o dia das bodas e se vá pedir a Deus que abençoe aquele longo e manso amor, emquanto os sinos repicam alegres, e as raparigas esperam cá fóra, no adro, com os açafates cheios de flores, a saida dos noivos, — toda essa graça, toda essa luz, toda essa pureza da nossa terra são coisas inteiramente desconhecidas desta gente.

 

Ail minha Mãe! se me vejo em Portugal, bebendo a nossa agua fresca, comendo o nosso pão amargo, dormindo nas nossas duas tabuas, e se tiver a felicidade de, á volta, encontrar uma mulher saudavel e bonita que me queira e que me dê tantos filhos quantos forem os anos que vivamos, como eu serei feliz!

 

Mas quando será isso? Quando acabará esta maldita guerra? Quando é que os homens deixarão de se matar como bestas féras e por cima destas trincheiras as mãos se estenderão aos inimigos no gesto irresistível de irmãos que se reconhecem e que se perguntam a si mesmos porque ha tanto tempo se estão matando?

 

Eu sei lá, minha santa Mãe! se as suas orações, e as de tantas mães que ha pelo mundo e teem aqui os seus filhos, não fizerem nada, estou a ver que os dias e os anos se passarão sem que se veja o fim.

 

Como quer que seja, minha Mãe, o seu filho ha de saber cumprir o seu dever de português. Já fui louvado duas vezes, e os meus superiores falam de mim aos camaradas como um exemplo a seguir. Considero, no entanto, que pouco fiz. Uma vez, no aceso do combate, sozinho, porque os meus camaradas tinham sido feridos, salvei o meu morteiro, levando-o ás costas, sob o desabar da metralha, para uma nova posição. Outra vez, tendo um obuz rebentado no meio da posição e tendo fugido os meus camaradas, eu não me deixei tomar do medo e despejei sobre o inimigo todas as munições. No fim de contas, como vê, pouco fiz. Outros teem feito mais, e ou porque foram vitimas da propria heroicidade e cá ficaram estrumando esta terra estranha, ou porque as suas façanhas não foram do conhecimento dos seus superiores, ficaram no mais ingrato esquecimento.

 

E não sou só eu. Todos são portugueses. Todos sentem que é com o seu sacrifício que a Patria, a nossa outra e grande Mãe, conta para se salvar e engrandecer. Se era necessário para cá vir, não temos remedio senão olhar para a frente. Os olhos devem abrir-se bem para o largo, a alma deve desagarrar-se das raizes da vida até tocar o céu, e os braços, visto que sômos poucos, devem  animar-se de dobrada força e triplicada vontade.

 

Quando o Pae morreu, da doença que contraiu na Africa numa expedição, havia nos seus olhos uma luz interior que parecia iluminar tudo. Eu era ainda pequeno, mas essa luz arde dentro de mim, como se fosse a minha propria vida.

 

Entendo que a vida só é boa quando dela possa resultar uma lição, e Deus me livre de ter o coração tão pequenino que não me encha bem o peito, e não bata tão forte que todos lhe sintam as pulsações.

 

Eu sei, minha boa Mãe, que ao lêr esta carta hade chorar muito. Hade chorar de tristeza, por ter o seu filho tão longe, exposto aos maiores perigos, passando os mais árduos trabalhos, refugiado numa toca como um lobo, com os pés sempre agarrados á lama e a mão procurando sempre a espingarda. Mas sei que também hade chorar d'alegria por vêr que o leite que eu bebi dos seus seios bemditos não se corrompeu dentro das minhas veias e que as lições de honra que eu hauri da boca moribunda de meu Pae, indicando-me o sentido da vida e o caminho da gloria, se insuflaram dentro da minha carne como células vivas que fazem parte do meu ser.

 

Peço-lhe que, se tem de chorar, o faça emquanto eu estou ausente. Porque, quando eu fôr—e hei-de ir, que tenho fé na minha estrela e sinto que Deus me tem sob a sua guarda —quero vêr-lhe os olhos bem enxutos, brilhando de toda a sua luz e penetrando-me de toda a sua doçura e de todo o seu calôr.

 

Vou terminar. Com esta longa carta, soceguei um pouco a alma e a saudade é menos viva. E' quasi a hora do álerta, em que todos temos de ir para o nosso posto.

Deite-me a sua benção e até um dia. — Antonio».

 

 

 

Esta carta, publicada no Diário de Noticias, mereceu a uma senhora franceza, M.me Blanche Froment, que imaginou ser nossa intenção visar depreciativamente as suas compatriotas, uma outra carta, que veio também publicada no Diário de Noticias, e em que justamente se exalta o papel da mulher franceza durante a guerra.

 

Essa carta vae a seguir publicada, bem como a resposta. Quando respondemos a M.me Blanche Froment sinceramente julgámos que se tratava dum pseudónimo. Viemos depois a saber que não, e antes se tratava de uma senhora distintíssima, que casou com um ilustre artista portuguez, e que da nossa terra fez a sua segunda e egualmente querida Patria.

 

Entendemos que não é fora de proposito dar aqui á estampa essas cartas, taes quaes foram publicadas.

 

Eis a carta de M.rae Blanche Froment:

 

 

«Lisbonne, le 27 fevrier 1918.

Monsiur le Directeur.

 

Je vous serais três reconnaissaute si vous vouliez insèrer ces quelquer lignes dans votre journal si impartial et estimable.

 

Vous avez publié hier un article sous forme de lettre « Carta a uma mãe» qui blesse mes justes susceptibilités de femme française, et je viens protester hautement contre la littérature pretentieuse de Monsiur Antonio Granjo. Afin de faire ressortir les beautés de l'âme feminine portugaise, à laquelle je rends hommage de tout coeur, il ne craint pas de fouler sous le talon de sa botte le caractère et la dignité des femmes de mon pays. II écrit que ces femmes en deuil s'amusent et rient avec les soldats portugais et anglais et que celles qui sont marieés n'hesitent pas fi embrasser aussi les soldats et a s'asseoir sur leurs genoux même em présence de leur mari!-…

 

D'un fait auquel il a « peut être» présidé, il fait une géneralité, mais ce qu'il démontre surtout, c'est qu'il est totalement dépourvu de 1'usage et du savoir-vivre écessaires a lui faire discerner la différence existante entre la « femme à soldat», dont le type es connu ici comme lá-bas, et la femme française, quelle que soit sa position sociale; et ce n'est vraiment pas en ce moment oê elle donne et continue à donner 1'exemple des vertus familiales, du dévouement et du courage, qu'il convient de venir la dénigrer sous pretexte de littérature.

 

J'ajoute que la « Carta a uma mãe» n'est même pas un article patriotique et qu'il est loin d'apporter na coeur des pauvres rnères portugaises le courage, la résignation et l'espérance qui leur seraient si necessaires! Cette lettre ne peut servir qu'á les faire souffrir davantage (si cela est possible) et personne ne devrait chercher à ébranler leur foi dans l'avenir et leur espoir d'un jour prochain oú elles pourront serrer sur leur coeur ceux qui lá-bas vivent du même rêve.

 

Personne plus que moi ne partage les angoisses de ces meres douloureuses, et —j'ai de la peine à retenir des larmes de pitié quand je vois partir ces beaux jeunes hommes empcrtant dans leurs bagages les « saudades » de tous et les miennes aussi.

 

Nons savons tous que la vie est dure pour eux làbas... La guerre veut cela, et les pauvres mères tremblent des dangers qu'elles entrevoient pour leurs enfants; mais alors? Est-il necessaire de leur noircir encore la tableau?

 

Veuillez croire, Monsieur le Directeur, à mes sentiments de haute consideration.

Blanche Froment.»

 

E eis a resposta:

 

Snr. Director.

Agradeço a v. as palavras benévolas que encabeçam a carta, assinada Blanche Froment, que vem publicada no Diário de Noticias, de 28 de fevereiro, e que só hoje, 2 de março, ás 23 horas, pude ler. Tenho a minha vida, que me obriga a estar fora de casa alguns dias, e eis aqui está porque só hoje posso responder á dita carta. Aproveito a ocasião, já agora, para me desculpar perante v. e os leitores do seu jornal, da fórma irregular por que vou redigindo e mandando as minhas impressões de «turiste» das trincheiras.

 

Creio, sr. diretor, que o nome que subscreve a carta é um pseudónimo.

 

Uma senhora, mesmo francesa, dirigir-se-ia a um cavalheiro, quem quer que fosse, de um modo bem diferente. E quando faço esta restrição — mesmo francesa— não quero de maneira alguma discutir, ao menos por agora, a mulher francesa.

 

Atribuo ás praticas malthusiasnas e ás velas de Erbon, e similares, em grande parte, a situação em que se debate a França, mas esse tema servir-me-á porventura para um artigo que escreverei quando tiver vagar e oportunidade, e não está nas minhas intenções antecipar o estudo dessa materia.

 

A mulher francesa tem, sem duvida, uma moralidade e uma sentimentalidade diversas da mulher portuguesa, e, sem averiguar por ora de que lado está a inferioridade, não me parece que a qualquer senhora francesa seja legitimo julgar-se ofendida, ou sentir-se susceptibilizada, por eu fazer uma tal afirmação.

 

Os costumes portugueses não permitem que uma mulher beije outro homem que não seja o seu marido ou um seu proximo parente. E' a verdade. Os costumes franceses fizeram do beijo um cumprimento. E' também a verdade. Não ha ninguém que conheça Portugal e que conheça a França e que não saiba isto. Não é a «femme à soldat» quem usa o beijo como um cumprimento — essa criatura usa o beijo como um triste modo de vida.

 

E' esse costume francês de uma moralidade superior ou inferior ao costume português? Eu não discuti esse ponto, que aliás é perfeitamente digno de discussão, sem que a dignidade da mulher francesa possa sequer ao de leve ser atingida ou molestada.

 

Assim, uma senhora francesa jámais se podia sentir ofendida com essas minhas palavras. Desde que o beijo é um cumprimento, não ha na troca desse beijo a porção de impureza que nós, os portuguezes, lhe poderíamos atribuir. Isso será até a manifestação, por uma fórma bem gentil, duma civilização refinada e superior, que nós ainda não alcançámos, e eu desejaria que jámais alcançássemos. Por isso eu creio que se trata de um pseudónimo.

 

A carta insurge-se contra o eu dizer que as mulheres francesas, embora tenham os seus maridos e irmãos na frente, se divertem com os ingleses e os portugueses. Não quiz fazer apenas pretensiosismo literário -registei um facto. Muitas mulheres francesas chorarão, no silencio recolhido do seu lar enlutado a morte dos seus seres queridos, sem que se lembrem, de certo, de vir á imprensa fazer alarde da sua dór. Efectivamente, a dór tem os seus direitos em toda a parte; e não é porque os costumes são mais livres que as lagrimas sentidas de uma mãe, de uma esposa ou de uma irmã são menos a expressão de uma alma aflita. Mas essas pobres almas mal podem com a sua cruz, e a essas me não poderia referir eu.

 

Não precisam, essas mulheres heróicas, que em Portugal, ou noutras quaisquer paragens, venha quem quer que seja em sua defesa. Essas, conheço-as eu bem. Vi-as, nas humildes «fermes» onde acantonei, rezando e chorando, como as mulheres portuguesas. Mas a par dessas, e sem ser preciso recorrer ás lobas dos acampamentos, quantas mulheres fizeram desta hora de combate a hora alegre e despreocupada duma vida de criaturas fáceis, mais perniciosas á França do que a metralha inimiga?

 

Quanto a ver-se uma mulher casada sentar-se nos joelhos d'um soldado, na presença do marido, será, e creio bem que é, facto singular —mas vi coisas piores em França. Vi, com infinita repugnância, em quase todas as cidades da rectaguarda, mulheres venderem, na presença dos maridos, aos soldados, colecções de postais obscenos. E essas scenas despertavam em todas as almas bem formadas, e que, como eu, amavam e amam a França, a tentação de correr tudo isso a chicote, porque a França não é, e jámais será, um balcão de imundicies. Ha, porventura, alguma senhora francesa que não sinta a necessidade de purificar a França de todo esse vil comercio?

 

E' «isso» a França?  E' «isso» a mulher francesa? Quem é que o disse aqui? Eu, ao menos, não.

 

De resto, dizer que os corações portugueses não sentem como os corações francezes; que nós, os portugueses, encontramos mais poesia, mais graça e mais pureza nos costumes do nosso povo do que em qualquer outro, incluindo o francês; que as moças de Portugal escusam de recear pelos seus namorados, porque os encantos das «demoiselles» não serão bastantes para os desviar do bom caminho do lar natal — dizer isto será porventura um crime? Pôr algumas palavras, simples e honestas, angidas de amor pátrio, na bôca dum soldado português, será defeso, a nós os portugueses ?

 

Não creio, repito, que a carta em questão fosse escrita por uma senhora francesa. Mas se o foi, essa senhora deve compreender que deveres de cortezia me impedem de ir mais além. Faço justiça ás suas intenções, mas onde não houve proposito algum, nem palavra alguma que denegrisse a verdadeira mulher, francesa ou portuguesa, eu não merecia as suas recriminações. E se ha injustiça que nos fira, a nós, os  homens, é justamente a que nos vem duma mão donde supomos que só pode cair... um ramo de flôres ou um livro de orações.

 

Essa senhora não me compreendeu, como talvez me não compreenda ainda. Eu quiz, com a minha carta, espertar o patriotismo das mães portuguesas, e procurei fazê-lo duma forma que tocasse os corações. Algumas senhoras portuguesas teem-me falado da carta com as lagrimas nos olhos—lagrimas quase de agradecimento, porque as minhas palavras foram de algum modo consoladores. Mas essa senhora não compreendeu. A razão está em que nós, os portugueses, sentimos e compreendemos de maneira diferente. E' a confirmação de tudo quanto tenho dito.

 

Espero não me enganar, dizendo que se trata de um nome suposto. Se, na verdade, contra o que é de esperar, se trata de uma senhora, reconheço que é a mim que me compete pedir desculpa, e como procuro sempre cumprir o meu dever, para ressalvar essa hipótese absurda, aqui apresento, por fim, as minhas homenagens á mulher francesa, e em especial á senhora que me deu pretexto para lhas apresentar.

 

Chaves, 2—3—18.

Antonio Granjo.

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

21
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

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Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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A primeira patrulha

 

 

Marcaram-me as 24 horas para fazer a minha primeira patrulha. Tinha como objectivo patrulhar a Terra de Ninguém e inspecionar a rêde de arame inimiga. Alguns minutos antes da hora marcada os meus homens estavam prontos e reunidos no ponto de saída — na trincheira morta, entre um posto de granadeiros e um posto de fuzileiros. Faço cruzar dois foguetes sobre a linha do itenerario e um pouco depois salto o parapeito e desço até á nossa rêde de arame.

 

A nossa primeira linha formava neste ponto um angulo reintrante, e a massa irregular do parapeito fechava-se, para dentro desse angulo, num profundo poço de sombra. Pistola na mão, fico uns instantes deitado sobre os lábios duma cratera, devassando a noite. Não se ouve o menor ruido. Por entre a herva crescida espontam as cabeças dos «longs-piquets» da nossa rêde. Um cavalo de frisa, atirado para o lado, com uma cantoneira partida e o fio de ferro bambo, dá a ideia dum cadaver abandonado.

 

Faço sinal aos meus homens para que desçam. Primeiro vem o sargento, depois os outros, em fila, escorregando pela rampa suave do talude exterior do parapeito. Um foguete despedido da primeira linha inimiga abre a sua rosa de luz, que se vai desfolhando lentamente sobre os ramos despedaçados duma linha de arvores. Os homens ficam imóveis. Um deles deixou-se ficar, agachado, sobre o pequeno fosso que acompanha o talude, e faz-me lembrar uma fera preparando o salto. O ultimo foi surpreendido mesmo em cima do parapeito, e estaca, levemente curvado para a frente, com a espingarda na mão. O colete de granadeiro reveste-lhe o arcaboiço como uma couraça, o capacete rebrilha um instante como uma escama. Passa-me pela imaginação a imagem dum guerreiro antigo, guardando uma barbacã e inclinando-se para

a frente a ouvir na noite um rumor suspeito.

 

Todos os homens se alapardam nas crateras. Dos postos, algumas cabeças estendem-se para seguirem os nossos vultos. Da linha inimiga sobem agora mais frequentemente os foguetes. Como na nossa frente não se atiram «very-lights», o inimigo presume que lançámos uma patrulha e ilumina o campo.

 

Deixo passar alguns minutos, para os meus homens se familiarizarem com a situação e para não nos denunciarmos ao inimigo. Uma brisa fresca faz ondular as gramíneas que espontaneamente nasceram nesta tira de terra fartamente adubada. Para o sector da esquerda rebentaram granadas e morteiros ligeiros. Uma rajada de metralhadoras passa alta. As estrelas parecem baixar do ceu.

 

A patrulha segue. Até ao meio da nossa rede caminhamos de gatas. Depois temos de ir de rastos. A mascara dificulta os movimentos. De vez em quando um arame solto prende-se-nos às pernas. Atravessamos o ultimo sistema da nossa rede e estamos na verdadeira Terra de Ninguém — a facha, dalguns dez metros, entre as duas redes de arame.

 

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Deixaram de se ouvir as explosões das granadas e dos morteiros. Um silencio inquietante pesa sobre nós como uma barra de chumbo.

 

A nossa linha perde-se como uma vaga tinta na escuridão. O arame inimigo emaranha-se espesso e baixo, traiçoeiramente, entre as hervas. A linha inimiga, quasi enterrada na minha frente, eleva-se para a direita, onde se adivinham alguns cestões.

 

Ouvimos, na linha inimiga, o disparo de um  foguete. Os homens cingem-se à terra. O foguete ergue-se rapidamente no ar, fica suspenso um segundo e cai com uma lentidão desesperante. Num posto inimigo, viu-se uma cabeça erguer-se, inspecionar a Terra de Ninguém e baixar-se atrás do parapeito.

 

Deslizamos para a direita, seguindo o itenerario marcado. Deparamos com uma trincheira antiga, do tempo em que o campo esteve ocupado pelos alemães. Ficamos uns minutos à escuta. Um tvery-light» despedido dum saliente da nossa linha vem cair no meio de nós. Consulto o relogio. Tenho ainda uma hora deante de mim. Uma ordenança veio-me dizer que atrás dum pequeno morro, em frente, assomou um inimigo. Arrasto-me um pouco para a frente, até dentro da rede inimiga. E' um tronco despedaçado. Continuamos. Mando o sargento com dois soldados explorar a trincheira até à nossa rede e permanecer aí até retirarmos.

 

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Uma frescura matinal começa a acariciar a terra. Para a direita, no sector dos canadianos, ouve-se agora um fogo rolante; e para a esquerda, no sector dos ingleses, cinco ou ses projectores picam o ceu de feixes luminosos.

 

De repente, uma metralhadora inimiga rompe fogo contra nós. As balas cortam as hervas cerces. Uma ou outra bala, resvalando pelos fios de arame, acende algumas faiscas, que brilham na noite latejante como pequeninas fitas de fogo. Estamos descobertos. Recuamos, de rastos, a cabeça metida nas hervas, a mascara bamboleando ao lado para o peito se apoiar firmemente na terra e assim facilitarmos a marcha.

 

Junto da nossa rede de arame paramos. As rajadas de metralhadora continuam. Os foguetes cruzam-se. Alguns tiros soltos assobiam-nos aos ouvidos. Tomo as devidas medidas de segurança, instalo-me no funil duma granada e espero. As granadas de espingarda rebentam bastante à direita. O inimigo perdeu-nos a pista.

 

A impressão de segurança é absoluta. Deixamo-nos ficar, de bruços, os onvidos aplicados à terra, os olhos espreitando, entre as hastes tenras, a frente inimiga, penetrados do mistério da noite, moídos do imenso esforço daquela marcha de larvas. Um soldado vê reluzir qualquer coisa que lhe parece um capacete boche. Estende a mão e encontra um craneo com filamentos de carne podre.

 

A noite começa a adquirir a claridade leitosa da madrugada. Seguimos a nossa rede, procurando uma entrada. Numa volta, dou com o arame calcado e as estacas de ferro derrubadas. E' certamente um dos pontos por onde as patrulhas inimigas conseguem acercar-se da nossa linha.

 

Sinto o ruido dum corpo caindo na agua. E' um soldado que caiu ao poço duma antiga «ferme», da qual nenhum outro vestígio existe. Dois soldados pegam nas mãos do camarada, para o ajudarem a subir. Mas dentro do poço entrelaçam-se os fios de arame farpado e o pobre rapaz grita, porque as farpas enterram-se-lhe na carne. Com a bengala liberto do arame as pernas do soldado e os dois camaradas içam-no. Espalha-se um cheiro fétido. Aos pés do soldado vem agarrado um montão de farrapos.  A ponteira da bengala bate num osso. No poço apodrecia (ha quanto tempo?) tranquilamente um cadaver.

 

O pobre rapaz está horrivelmente pálido, e o fétido da água choca e da carne podre revolvida é insuportável.

 

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Procuro uma rampa para trepar ao parapeito.

 

Uma voz, como um murmurio, pergunta-me:

 

—Quem vem lá?

—Oficial português.

—Senha?

—Almeida.

 

Fico de pé, na base do talude, até que o ultimo dos meus homens entre. Depois, salto,

e fico um minuto sentado na banqueta, descançando.

 

Pergunto ao sargento:

 

— Falta alguém?

—Não falta ninguém, meu alferes.

 

Uma parpalhaça, a meio da Terra de Ninguém, canta. As estrelas, como o cadaver do poço, parece que apodrecem. O ceu ganha livores cadavéricos. Um pequeno nevoeiro começa a esconder as linhas inimigas. A brisa torna-se cada vez mais fresca.

 

O canto da parpalhaça eleva-se mais alto. Como nma voz de bom agoiro, esse canto acorda a atmosfera quieta, como um grito de vitória.

 

Sim, é necessário vencer!.

 

 

Continua na próxima quarta-feira.

 

 

14
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

9

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

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Nas linhas de apoio

 

Dormi hoje o melhor sôno da minha vida, nesta pequena cidade do norte da França, onde estou descansando da primeira semana de trincheira e de combate. Doze horas dormidas, sem um movimento, sem um sonho, embalado pelo troar do canhão, numa cama onde já dormiram alemães, sob um tecto esburacado pelas granadas, e onde chegava dum quintal um perfume forte de flôr de sabugueiro, constituem positivamente qualquer coisa de inédito e maravilhoso para quem passou seis dias dormindo alguns minutos, nos curtos intervalos do bombardeamento, entre dois montões de sacos de terra, a 50 metros do inimigo.

 

Não direi que valha a pena passar todas as provações apenas para gosar essas doze horas encantadoras, mas esse sono profundo, em que o corpo repousa absolutamente imóvel, como uma estatua jacente, é um dos maiores prémios concedidos aos que se batem nesta terrível guerra de esgotamento.

 

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Alguns nunca mais conseguem dormir esse sôno bendito, em que as forças se refazem e todo o organismo reganha a elasticidade e a força indispensáveis para nova prova. Alguns nunca mais teem outro sôno que não seja o horrível e continuo pezadelo da noite iluminada pelos veryleits, cortada pelos assobios das balas, abalada pelo estrondo formidável dos obuzes, das granadas explosivas e incendiárias, dos morteiros ligeiros, médios e pezados, das granadas de espingarda, dos gritos dos feridos,— da noite tragica em que o ar e a terra se revolvem e se combatem, e em que os homens, perdida a figura humana pela aposição das mascaras, são criaturas irreconhecíveis, produtos macabros de uma imaginação proteica, habitantes de um mundo plutonico, errando entre nuvens de gazes asfixiantes, numa fornalha de fogo, de ferro e de sangue. Alguns só num manicomio encontram algum socego. São os supremos desgraçados. Esses nem ao menos teem à beira dum caminho uma sepultura talhada por mãos piedosas, com uma cruz relembrando a acção em que morreram e algumas flores sêcas metidas nuns cacos de granada ou nuns frascos de conserva.

 

No meu primeiro dia de trincheira, o oficial que me acompanhava mostrou-me um pobre soldado que se agachava a cada passo atraz dos abrigos, fazendo gestos descoordenados e acompanhado por outro soldado que carinhosamente o ia amparando. Era um ribatejano, alto, desempenado, com as maçãs do rosto salientes e as pernas musculosas. Se lhe puzessem uma carapuça na cabeça, ficaria uma linda figura de campino.

 

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Aproximámo-nos dêle. Perguntámos-lhe como tinha sido aquilo. O pobre soldado estendeu os olhos vagamente para a primeira linha, desenhou com o braço comprido uma curva, agachou-se, juntou as mãos e alargou-as para significar o rebentamento do morteiro e continuou o caminho, arrastado pelo camarada. Foi o primeiro caso de loucura produzido pelos morteiros no exercito português, mas os casos são frequentíssimos nos outros exércitos.

 

De forma que ter a felicidade de possuir um sistema nervoso que resista sem abalo a tão tremenda prova, e que permita o goso celestial de um sono de doze horas seguidas — é, verdadeiramente, ser uma criatura privilegiada. Agradeço aos deuses esse sono como um dos maiores bens que me tem sido dado disfrutar na terra.

 

A noite de Santo Antonio deu-me a certeza de que se pode contar com o nosso soldado. Os portuguezes marcarão o seu logar.

 

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Pode desde já afirmar-se que o nosso soldado realisa prodígios. Possuindo qualidades de adaptação quase inverosimiveis, vai-se habituando aos métodos e aos processos da guerra de trincheira com uma facilidade admirável. Violentando os seus naturais impulsos de ofensiva, vai-se coadunando com a vida de toupeira e de sapo que a trincheira impõe; e dominando o natural receio diante do perigo desconhecido, resiste com uma paciência perfeitamente inglesa ao bombardeamento, a pé firme, entre abrigos e trincheiras já desmanteladas, sob a mais abundante chuva de metralha que a mente humana pode conceber.

 

Alguns inglezes chamam aos soldados portugueses—os Antonios. Ou seja porque essa palavra é mais fácil de pronunciar pelos nossos aliados, ou sejam porque estes saibam ser esse nome muito comum em Portugal, certo é que, a cada passo, se ouve um soldado inglês dizer para um português: «Come on, Antonio!». Pois tudo quanto se diga dos nossos Antonios é pouco.

 

Estou convencido que eles farão grandes coisas. Os erros acumular-se-ão porventura de cima, mas os de baixo salvarão tudo.  A honra nacional está nas mãos calosas e duras dessa gente miúda, e a Nação pôde estar certa de que será erguida bem alto a bandeira das quinas.

 

A morte deles resgatará muitos erros; e a sua heroicidade será porventura o sóco sangrento em que se apoie a nossa futura catedral.

 

E' o nosso sonho destas horas de repouso — a Patria, erguida tão alto, que Deus não precise de descer á terra para lhe tocar com os seus sagrados dedos.

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

31
Mar21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

7

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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A noite de Santo Antonio

 

12 de Junho de 1917.—18 horas. — Saio do comando do batalhão, acompanhado do segundo comandante, que me vai conduzir ao abrigo da 2." companhia, onde fui colocado. Atravesso uma estrada, a que os ingleses deram o nome duma artéria de Londres e passo pelo Posto de Socorros para entrar na trincheira de comunicação. Ha ainda no chão alguns vestígios do sangue de dois granadeiros que foram mortos na vespera; e ainda, dentro dum abrigo, dois homens atordoados pelas explosões dos morteiros esperam que as suas faculdades mentais e os seus nervos destrambelhados regressem à normalidade.

 

A trincheira desce. Os meus passos, batendo a passadeira, perdem-se molemente nos taludes, onde as papoilas e os malmequeres se debruçam galantemente. Um aeroplano inimigo plana alto. Uma ordenança passa em sentido contrario.

 

—Ha alguma novidade?—pergunta o comandante.

— Nada, meu comandante... — e a ordenança segue o seu destino.

 

Um «decauville» atravessa a trincheira, depois ha uma linha de água e desembocamos na segunda linha.

 

Sobre toda a superfície da terra reina uma paz absoluta. O sol agarra-se aos caules tenros das ervas como um oleo gorduroso. Uma cotovia ergue-se a toda a altura, e, depois descrever sobre as linhas alguns círculos concêntricos, começa cantando o seu hino da tarde. O canto como que faz vibrar a atmosfera luminosa, a que uma brisa leve dá a amenidade das nossas lindas tardes de outono. Uma fila de amieiros espreita por cima do parapeito da segunda linha.

 

Os soldados repousam nos abrigos. A sentinela dum posto de metralhadora, para matar o tempo, faz um catavento, ao qual dá a semelhança dum aeroplano.

 

Dobramos à esquerda. A linha vai seguindo em ziguezage. Surgem dois soldados, detraz dum través, com um pequeno caldeiro suspenso dum pau que seguram aos ombros. E' o chá. Pousam o caldeiro em cima de uma banqueta e os soldados do pelotão vão-se chegando, com os copos e os cantis. Um deles traz uma lata com algumas sopas de pão no fundo; outro engrunha os ombros, olhando desdenhosamente o grupo.

 

— Se fôsse vinho... — e encosta-se ao travez, assobiando, e olhando melancolicamente a paisagem untada de sol, a qual se estende para a rectaguarda em notas bucólicas de arvoredo.

 

Mais uns passos, atravessamos uma estrada, por cuja berma corre uma linha de abrigos, e estamos no comando da companhia.

 

Fazem-se as apresentações e fico instalado. Não dormi nada na vespera. Estou a cair de sono.

 

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20 horas. — Enfia-se para o abrigo por uma estreita abertura, em rampa, escavada no terreno. O abrigo é uma abobada canelada de ferro, protegida por sacos de terra. Há uma pequena janela para receber a luz e o ar. De cada lado, dois leitos—quatro travessas de madeira, às quais se prendeu uma rêde de arame, e o sistema alteado meio palmo do chão por uns pés arrancados aos troncos das arvores visinhas. Por baixo da janela, uma mesa feita de madeira de caixotes.

 

Trocam-se algumas palavras. Contam-se episódios. Detalha-se o serviço. E' a hora comovida da iniciação. Mas os olhos cerram-se-me irresistivelmente, e a voz lenta do segundo comandante da companhia, que me está dando as instruções necessárias, e que já m'as repetiu duas ou três vezes, embala-me como uma velha cantiga.

 

Um dos meus camaradas acordou estentoricamente os ecos do abrigo perguntando, com as mãos em porta voz, para a boca da caverna, se o jantar estava pronto. Ouvi umas palavras confusas, que presumi serem a resposta, e deixei-me estupidamente adormecer.

 

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21 horas menos 15 minutos. — Oiço um estampido enorme e sinto abalar o abrigo. Acordo. Estou só. Uma granada explode, faz oscilar o leito e um jacto de terra entra pela janela. Consulto maquinalmente o relogio. São 21 horas menos 15 minutos. Saio. Uma ordenança agacha-se atraz do abrigo.

 

Os últimos raios de sol, horizontalmente, babam a terra de uma espécie de espuma doirada. Uma andorinha perpassa, como tomada de pânico. O bombardeamento rebenta sobre as nossas cabeças com a maxima violência.

 

As granadas caem perto e vêem-se os «shrapnells» cobrirem toda a segunda linha. E' a barragem. As metralhadoras varrem as estradas e as detonações sucedem-se sobre as trincheiras de comunicação. Um estilhaço revoluteia no ar e vem cair sôbre o paracostas, fumegando ainda.

 

O comandante e o segundo comandante foram para o abrigo do telefone. Estou um minuto com êles e vou assumir o comando do meu pelotão.

 

21 horas.—Os meus homens estão já a postos. Os morteiros pesados desabam, num estrondo de derrocada, à frente da linha e os estilhaços assobiam em roda, como enormes vespas. Um sargento que comanda as guarnições das metralhadoras, abrigou-se atraz dum travez. Mando-o para o seu posto. Um minuto depois um obuz destrói o travez. Um maqueiro vem-me avisar de que ha um homem ferido. Mando uma ordenança acompanhá-lo ao Posto de Socorros.

 

A noite vai crescendo. O céu mantém ainda alguns reflexos do dia, mas pela superfície da terra as trevas rolam já como novelos de tinta. Os clarões das explosões rasgam no crepúsculo moribundo os seus caminhos de destruição e de morte. As estrelas principiam a aparecer, como pequenas lampadas palpitantes.

 

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Percorro toda a segunda linha. De roldão um posto da primeira linha invade a trincheira.

 

— 0 que ha?

 

— A primeira linha foi já evacuada e há já muitos mortos e feridos... —e o olhar do soldado, dilatado de espanto, parecia rebuscar ainda um refugio por onde se escapasse áquelle inferno.

 

Ordeno-os e ficam guarnecendo uma banqueta de combate que tem um bom campo de tiro.

 

Efectivamente, confirmando a informação do soldado, alguns foguetes luminosos sobem para a extrema direita, já da segunda linha.

 

22 horas. — Subo a uma banqueta e perscruto a noite. Na frente a rede de arame emaranha-se entre as hervas. Atrás de uma árvore parece-me ver um vulto. Desloco dois sacos de terra para abrigar a cabeça e fico uns instantes debruçado no parapeito. E' um galho mexendo-se debilmente ao sopro da brisa.

 

Começam a vir os reforços. O comandante da companhia de reserva passa, informa-se comigo da situação e segue para o comando da minha companhia. As granadas da nossa artilharia passam baixas, batendo a primeira linha inimiga e a nossa primeira linha. Uma metralhadora pesada inglesa vem tomar posição junto do meu pelotão. Por cima do crepitar das metralhadoras e do assobiar dos «schrapnells», o fragor rouco e arripiante das explosões dos obuzes e dos morteiros apodera-se da noite, que se cerra tragicamente em volta como a cortina dum abismo.

 

Chega a primeira companhia do batalhão de apoio. A trincheira povôa-se de sombras. Um soldado fuma um cigarro, resguardando a chama dentro do chapéu metálico.

 

Doem-me os musculos das pernas, de percorrer continuamente a linha. Encosto-me a um travez e olho uns minutos para a rectaguarda. Línguas chamejantes, das posições da artilharia pezada, saem do horizonte. As trincheiras de comunicação enchem-se de murmúrios, de choques de metais, de passos abafados. São as tropas de apoio, que continuam chegando.

 

Uma granada explode com um rumor surdo e sinto uma sufocação na garganta.

 

— Gaz alarme!

 

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Ponho a mascara. Os chocalhos começam a badalar. Corre pela noite, como um grito de mau presagio, a voz das trombetas, e pela linha fora as espingardas que se abandonam, para se porem as mascaras, caem pesadamente nas passadeiras, produzindo o som cavo dum corpo moribundo que tomba.

 

Depois, os soldados imobilizam-se e a trincheira parece deserta.

 

23 horas. — Os oculos da mascara embaciam-se e a cada passo preciso de os limpar, esfregando com os polegares o fole de encontro à mica. Os foguetes iluminam toda a linha.

 

Os soldados, com as mascaras, acotovelam-se nos postos, como figuras satânicas de um círculo dantesco ou resvalam entre os taludes como fantasmas sinistros dum mundo subterrâneo. Um maqueiro, às apalpadelas, procura um caminho. Largo o bocal da mascara.

 

— Que ha?

 

A minha voz sôa, aos meus proprios ouvidos, dentro da mascara, como vinda do fundo dum tumulo.

 

Ouve-se um susurro de palavras dentro da mascara do maqueiro. Consigo perceber que à direita, na companhia de reserva, uma granada incendiaria matou quatro homens.

 

A violência do canhoneio começa a decrescer sensivelmente. Não ha a menor noticia dos alemães. Nem a segunda linha foi atacada, nem qualquer posição de morteiro ou metralhadora foi assaltada.

 

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O cabo do gaz vai avisando os postos:

 

— Tirem a mascara. Já não ha gaz!

 

Respira-se. Os pulmões, o coração, as veias dilatam-se. As estrelas parecem arder duma luz nova e a propria treva parece abrir-se em luz aos olhos ansiosos. Faz-se-me mais profunda a impressão de que a guerra descambou na mais aviltante miséria e de que é necessária uma sanção para tão horríveis crimes. O sangue referve num cachão de odio e de revolta contra aqueles que rebaixaram a existência humana até a fazerem descer à atmosfera mefítica dos canos de esgoto.

 

24 horas. — Cessou o fogo rolante. Algumas granadas rebentam ainda, como os últimos rugidos da fera, mas não pode haver duvida de que passou esta primeira hora de prova. O que ha a fazer é preparar o espirito para as intermináveis e terríveis horas que se vão seguir.

 

Vou até ao comando da companhia. Ao chegar ao abrigo do telefone passa o comandante da minha companhia, o capitão Celestino Soares, acompanhado de uma ordenança.

 

— Onde vai, capitão?

 

— Ao Posto de Socorros. Estou «gazofilado»...

 

E o rosto lívido do pobre rapaz desaparece na volta da trincheira.

 

Um soldado atacado de gazes contorce-se na estrada. Agitam-se sombras na boca da trincheira de comunicação que serve a companhia da esquerda.

 

0 segundo comandante, na sua voz lenta, diz-me que ha perto de 100 baixas, que um reconhecimento lançado sôbre a primeira linha não encontrou o inimigo, e que aos primeiros alvores da madrugada se fará a reocupação pela primeira companhia, ficando o meu pelotão de apoio.

 

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1 hora. — A' esquerda, o horizonte pontua-se de chamas e a noite vibra de novo sob o canhoneio. São os ingleses que, para desafogarem a nossa frente, fazem um «raid» em grande estilo.

 

2 horas.—O canhão calou-se. A treva é já menos espessa. Distingue-se já o fundo da trincheira. Começam a vir as noticias do que se passou na primeira linha. Um pelotão, comandado pelo alferes Vilhena, desligado da companhia, manteve-se até receber em forma a ordem de retirada; um posto de granadeiros foi inteiramente aniquilado; a guarnição duma metralhadora ficou soterrada sob os destroços e as ondas de terra levantadas pelos morteiros, mas conseguiu desenterrar a metralhadora e os tambores e ganhar a segunda linha; um homem tinha endoidecido e vagueava pelas trincheiras.

 

3 horas.— A noite ia-se fundindo ao bafo da madrugada. Desenhavam-se já os ângulos das trincheiras e as filas das arvores começavam a delinear-se, além da rêde de arame. 0 nascente principiava a tiugir-se de purpura, por traz do bosque, cuja massa sombria tapava a rectaguarda inimiga como uma muralha misteriosa.

 

É para a direita, agora, que o canhão troa, bruscamente, como se o horizonte se possuísse duma convulsão epilética. É, provavelmente, um «raid» simulado dos ingleses para nos facilitar a ocupação da primeira linha.

 

4 horas. — O meu pelotão está pronto à "primeira voz. Uma ordenança vem comunicar-me que a ocupação se fez sem incidente e que é dispensada a cooperação do meu pelotão.

 

É dia claro. Meio disco do sol está já acima do horizonte. As azas das andorinhas tracejam de negro o azul ferrete do céu. Através da terra, por onde ainda parecem errar umas sombras indecisas que se vão precipitando nas ravinas ou fugindo pelas linhas de água, a luz esparge-se como um leite luminoso que os primeiros raios do sol pincelam ligeiramente de oiro. Uma nuvem, pela forma e pela côr, traz-me à lembrança o manto de Sant'Ana duma cópia de Murillo que vi em qualquer parte.

 

5 horas.—Distribue-se o café. Os soldados deixam-se adormecer nas banquetas. É ainda a hora do alerta, mas deixo repousar essas almas simples e heróicas. Um deles deitou-se ao comprido e pôs o capacete sôbre os olhos. Uma borboleta pousou-lhe um momento nos lábios, que se contraíram num instintivo movimento de repulsa, e seguiu a linha da trincheira.

 

Fui também andando. No sítio em que caíra a granada incendiária, o paracostas ficára esbarrondado e a passadeira partida. Longas pastas de saugue atestavam sôbre a banqueta e as grades de revestimento que ali tinham morrido alguns heróis obscuros. Uma papoula vermelha, que irrompera entre as travessas da grade, parecia debruçar-se sôbre a banqueta para chupar o sangue.

 

A terra espreguiçava-se num imenso bocejo de mulher que acordou após uma noite inteira de deboche. As cabeleiras verdes das arvores, acariciadas pela brisa, ondulavam brandamente sobre as terras abandonadas às ervas daninhas.

 

Um sargento contemplava fixamente as manchas de saugue. Tinha posto a espingarda a um canto e os lábios grossos de ribatejano tremiam-lhe. Os nossos olhos encontraram-se.

 

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— O' meu alferes!... Emquanto tantos aqui morreram, sem ao menos terem o consolo de enterrar a baioneta no corpo dum inimigo, em Portugal toda a noite se passou em danças e descantes...

 

Um aeroplano inglês passou, em reconhecimento, para as linhas inimigas.

 

Fitei o rapaz. Perguntei-lhe:

 

— V. deixou lá a namorada?

 

Uma lagrima apontou-lhe nos olhos negros, virou costas, pegou na espingarda e retirou-se para o abrigo.

 

6 horas.—Levantei o álerta. A lagrima do sargento como que borbulha dentro de mim. Uma onda de saudade me toma docemente o coração. Lembro-me da linda capela que os meus oito anos erigiram ao grande santo, por baixo das janelas da minha casa, sob o sorriso indulgente e o olhar vigilante de minha mãe. A linda capela! Renques de buxo emolduravam o largo; na rampa de musgo todos os santos do calendário nacional; e no alto o Santo Antonio com a sua careca luzidia, o seu capuz de franciscano, os seus sagrados pés nus metidos nas humildes sandálias, e o Menino Jesus na palma da mão, tão pequenino como o meu coração de criança...

 

Cheguei ao abrigo, tomei umas goladas de café e deixei-me cair pesadamente, como um cepo, na cama.

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

24
Mar21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

6

 

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Na catedral de Aire-sûr-la-Lys

 

Aire-sûr-la-Lys é a cidade franceza que mais anda na memoria dos portuguezes. Pelas suas ruas estreitas, pelos seus pequenos largos, onde um ou outro palacio dos tempos de Filipe II põe uma nota d'arte, curtiram-se tristes horas de saudade, dolorosas horas de revolta, febris horas de anciedade, pesadas horas de desalento.

 

Essas longas horas de França, quem as descreverá algum dia?...

 

...Os que marchávamos para a frente, nesse primeiro dia que passavamos em Aire, demorámo-nos a ver a cidade. Ao dobrar para a Grande Place, junto de uma casa renascença, encontrámos um conhecido —um capitão de artilharia que estacionava em Therouanne, com o seu grupo, à espera de ir para a frente, com a 2.ª divisão.

 

— Que ha por ahi que ver?

 

— V.V. ainda não foram ao quartel general?

 

Olhámos uns para os outros. Ninguém tinha conhecimento de que o quartel generalse houvesse instalado em Aire-sûr-la-Lys.

 

O artilheiro endireitou para a Grande Place, e, parando em frente duma livraria:

 

— Et voila!

 

Os portuguezes haviam feito dessa livraria ponto de reunião e por isso lhe davam a designação de quartel general.

 

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Alguns soldados compravam postaes ilustrados. Uma rapariga loira, dos seus 14 ou 15 anos, trocava confidencias com um alferes. Dentro do balcão, uma senhora de luto dizia preços a uma outra rapariga, palida e elegante, de olhos escuros, desse escuro-castanho que é uma transição para o verde sujo.

 

O artilheiro fez a continência à ingleza e apresentou solenemente:

 

— Madame, le sous-lientenant Granjo, ancien deputé...

 

Tive ocasião de constatar que não é apenas em Portugal que as instituições parlamentares estão em franca decadência. A grande frase só despertou na madama um leve sorriso atencioso.

 

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Era umas dessas famílias que se encontravam por acaso na zona de guerra e exploravam a retaguarda. Quando a guerra se resumia à marcha e à manobra, os exércitos levavam consigo as vivandeiras. Na atual guerra as vivandeiras foram substituídas por esta gente.

 

A senhora de luto ostenta umas ancas desmedidas e dá à boca pintada, quando fala, um geito pretencioso que lhe oculta as comissuras dos lábios. A rapariga loira, que tem o o ar desagradável das precoces, é sua filha. A rapariga de olhos escuros, que parece estar sempre representando uma pequena comedia, é sua sobrinha.

 

A mãe perdeu o marido na guerra, a filha é uma pobre inocente que geme na orfandade as desgraças do destino inclemente, a sobrinha é uma refugiada vitima da brutalidade alemã, violentada por um monstro boche, numa das aldeias das regiões invadidas, entre o estrondo dos desabamentos e a crepitação dos incêndios.

 

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A filha continua a confidenciar com o alferes. Nos seus olhos azuis, desmezuradamente grandes, os vidros, as estantes, os vultos pareciam refletir-se como sobre duas pequenas poças d'agua choca. No rosto flácido, como num fruto pisado, parece começar a surgir essa sombra vaga, subcelular, que precede a corrução. Em todo o seu corpo havia essas linhas disformes das coisas feitas pelo artificio e pela força.

 

— Au revoir, madame...

 

— Au revoir, monsieur...

 

Vagabundeámos pela cidade, examinando as gárgulas ou os frisos duma antiga casa espanhola, vendo os souvenirs de guerra que enchem as montras, ou ouvindo narrar casos das trincheiras, em que tem sempre a palavra a Morte, ou casos da retaguarda, em que tem sempre a palavra o Amor.

 

Depois do almoço, e antes que chegasse o caminhão que nos havia de conduzir ao Q. G. B., fomos visitar a catedral. E' uma enorme mole de tijolo, obra ainda da dominação espanhola, dedicada a S. Pedro.

 

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Quando entramos, viam-se filas de gennflectorios no transepto, alguns já ocupados por senhoras, envoltas em crepes, com os rostos metidos em mantilhas pretas. Estatuas de Joana d'Arc, por todos os lados, interpretando-a como pastora, como guerreira ou como santa, e uma grande estatua, em mármore, de S. Pedro, faziam pensar vagamente num museu. No primeiro altar, do lado do Evangelho, havia uma imagem de Nossa Senhora, com um desses meninos-jesus, de faces rubicundas, côr de maçã camoeza, dos nossos santeiros.

 

Pendendo para o transepto, dependurada do coro, uma grande bandeira franceza, com esta inscrição bordada a oiro: Dieu sauve Ia France!

 

Os genuflectorios povoaram-se de vultos negros. Dois oficiaes inglezes acordaram os ecos das naves com os tacões ferrados. Alguns homens, velhos, de luto, olhando o altar-mór, de joelhos e com as mãos postas, rezavam recolhidamente.

 

Sobe ao púlpito um padre. Persigna-se, murmura uma oração. Os dois oficiaes inglezes observam a tela dum retábulo. A voz do padre mal se ouve a principio. Em frente de nós, um vitral, representando um episodio bíblico, refulge numa orgia de côr. Pouco a pouco a figura do padre anima-se e a sua voz vae-se elevando, lentamente, como uma nuvem que se vae erguendo. Canta um hino à Patria, à grande e eterna França, filha dileta da Igreja, que os pecados dos homens puzeram em tamanho perigo e em tão escura turbação. A sua voz eleva-se mais e mais, sem exaltação, sem artificio, como um bronze tangido mais forte; e, pondo os olhos nas sagradas cores da bandeira, apertando o coração com as mãos ambas, o padre concita todos os francezes à defeza da Patria, num tom firme, imperativo, metálico, como uma voz de comando ou como um toque de clarim. Fez-se um silencio. O padre descreve a invasão, a derrota, o milagre do Marue. A sua palavra acende-se como um facho, quando se refere à retirada alemã, à corrida para o mar. Os seus lábios tremem, as suas faces tornam-se extremamente palidas, quando se refere aos mortos. Mas a palavra continua a sahir-lhe lentamente da garganta, com um acento que penetra as almas como um estilete. Dirige-se às mães, para que tenham o orgulho dos seus filhos mortos nas linhas de fogo; dirige-se às irmãs, para que peçam a Deus que nunca faleça a coragem a seus irmãos; dirige-se às noivas, para que tragam sempre no seio, junto da imagem do filho da Virgem, o retrato dos que se batem com elas no coração. Os mortos sentar-se-hão à mão direita de Deus Padre, todo o poderoso, gosando da plenitude da gloria e da bemaventurança; os vivos verão os grandes dias da Vitoria, entre hinos e apoteoses.

 

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Uma ou outra mulher soluça. Os olhos dos velhos que rezam prégam-se à bandeira com uma fixidez que tem alguma coisa de ferocidade. E na penumbra das naves as palavras do padre cahem como pingos ardentes, como centelhas de sangue, como gotas d'alma.

 

Os dois oficiaes inglezes fizeram estremecer novamente o silencio com os seus sapatões. 0 padre desapareceu. As vozes dum órgão resoaram pelas abobadas, como a refrigerar e consolar aquelas almas aflitas que a eloquência do padre havia sobreexcitado.

 

Algumas senhoras tinham-se já levantado e as suas faces, onde havia ainda vestígios das lagrimas, brilhavam duma serena formusura. Mas duas continuavam soluçando, as cabeças enterradas no veludo do jenuflectorio.

 

Esperei que estas também se levantassem. Havia alguma coisa de extranho, de violento e de grande na dor dessas duas mulheres.

 

Quando descobriram o rosto, reconheci que eram as creaturas da livraria da Grande Place.

 

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

17
Mar21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

5

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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Bethune

 

Para a frente

 

Ás 8 horas precisas estávamos na New Siding. Os ingleses, para servirem o acampamento, haviam prolongado a linha ferrea e feito essa nova estação. Mas só embarcaríamos às 10, porque era necessário fazer seguir primeiro uma brigada inglesa, e as 18 ou 20 vias estavam atravancadas de imensos comboios de viveres e munições.

 

Tinham ido despedir-se de nós os oficiais do batalhão. Alguns soldados da minha terra esperavam-me na passagem para me dizerem adeus. O meu batalhão! Desfeito em frangalhos, soldados para aqui, soldados para acolá, metidos à tôa dentro dos batalhões experimentados pelos combates e pelas doenças, mandados para os morteiros e para as metralhadoras, regressará da guerra sem sequer ter a sua historia. Alguns estão já por lá a apodrecer nessa terra estrangeira onde o destino os levou de armas na mão, outros foram já feridos, citados e condecorados, outros por lá andam com um numero de empréstimo, penando as saudades dos seus montes e das suas chãs, como membros dispersos dum corpo esquartejado. Pobre do 19, o belo batalhão da minha terra! Quem poderá contar um dia as façanhas dessa gente rude dos meus sitios e que andam ilustrando com o seu valor e com o seu sangue a historia dos outros batalhões?

 

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Mametz-1916

 

Um comboio composto de 50 carruagens, literalmente acoguladas de soldados ingleses, põe-se em marcha. Num vagão, um soldado improvisou uma scena de circo com uma mascara de papel.

 

— Gaz!

 

E põe apressadamente a mascara. Depois tira-a, fingindo expulsar dos pulmões grandes ondas de ar envenenado. Os tregeitos da cara e dos olhos, as atitudes clownescas que o soldado toma, fazem rir os outros a bandeiras despregadas. Um coronel inglês que assiste ao embarque ri também desembaraçadamente. E' provável que, finda a guerra, ainda todos possamos admirar este clown jnglês numa soberba pantomima, no Coliseu dos Recreios.

 

As carruagens são excelentes. Escolho um canto onde me acomodo deliciosamente. O comboio começa a andar.

 

— Adeus!

 

—Felicidades!

 

—Até breve!

 

Emfim, vamos peneirar na região do mistério e da morte.

 

Todo o dia o comboio arfou através da mesma planície. Numa ou noutra estação, uma senhora vestida de branco ou de negro distribuía café aos soldados. De vez em quando, como grandes nuvens negras que houvessem pousado na terra, os bosques surgiam, ficando logo para traz como manchas palpitantes e fugitivas.

 

A paisagem é sempre a mesma. O sôno é ainda o melhor inimigo do tempo. Dorme-se para vencer a monotonia das horas.

 

Lembro-me dum unico episodio de todo esse dia de viagem. Numa pequena estação estava uma mulher vestida de luto, com uma criança ao colo. Qualquer semelhança física acordou na mente da criança a lembrança do pai e estendeu para mim alegremente os braços. A mãe voltou-se, fazendo desviar os olhos à criança, que começou a espernear e a sacudir-se no colo até novamente voltar os braços para mim. Uma outra mulher que passava explicou:

 

 — Son pére a tombé á Verdun! Il etait si gros comme vous...

 

O comboio partiu e vi duas grandes lagrimas rolarem pelas faces palidas da pobre mãe, emquanto a criança estendia sempre os braços para mim.

 

Em Rouen começou a sentir-se o sopro da guerra. Grandes fogueiras, aquecendo os caldeiros do rancho, iluminavam um largo espaço junto da estação, ao correr da via ferrea. Os projectores rasgavam na noite os caminhos do céu à procura dos aeroplanos inimigos. Subia do rio uma brisa fresca. Oficiais e soldados passavam perdendo-se na escuridão. Ouviam-se vozes secas, de comando, batendo a treva como chicotadas.

 

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O comboio continuou a galgar a planície infinita, toda a noite e toda a manhã do dia seguinte. Em Bethune encafuaram-nos para uma carruagem blindada. A estação e a cidade tinham sido bombardeadas na noite anterior. Urna esquadrilha de observação voltava das linhas inimigas.

 

Só pelas 12 horas chegámos a Aire-sûr-la Leys, base de desembarque do nosso sector. Passaremos a noite nessa pequena cidade, cheia de vestígios da dominação espanhola.

 

Recebemos a lição de gaz no dia seguinte, em Mametz, pequena aldeia das proximidades. Numa terra de trigo, cavou-se uma larga chanfradura, onde se assentou uma grande tenda e se fizeram duas camaras de gazes, uma para os lacrimogéneos e outra para os asfixiantes. Um alferes de cavalaria faz primeiro um prelecção teórica, com certo ar catedrático, ao grupo de oficiais, entre os quais alguns oficiais superiores. A guerra subverteu de certo modo a hierarquia, e em todos os serviços muitas vezes são os inferiores que ministram instrução aos superiores. A necessidade da especialização e da divisão do trabalho, impondo novos métodos, obrigou a estas situações, com que todos se conformam de boa vontade, porque todos vêem que não poderia ser doutra maneira.

 

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Feita a prelecção, inspeccionados os aparelhos, entra-se na camara dos gazes lacrimogéneos. E' uma especie de segunda prova dos aparelhos anti-gazeos. Abre-se o deposito, e se através das junturas ou dos foles dos aparelhos passou algum gaz, e as glândulas lacrimais começaram com secreções copiosas, é porque os aparelhos não prestam e não podem já ser submetidos à prova dos gazes asfixiantes.

 

Entra-se em seguida na segunda camara. Há duas provas sérias. São, debaixo da acção dos gazes, tirar o respirador e pôr o capuz, e depois tirar o respirador e tornar a ajustá-lo, à voz de comando. Houve já alguns casos fatais.

 

Tudo correu bem, e cada qual foi saber do seu boleto para no outro dia seguir ao seu destino.

 

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Perto da povoação onde fui aboletado, Mametz, ha uma escola de aviação. As esquadrilhas iam e vinham, como bandos de grandes aves planando em vôos tranquilos sôbre os campos verdejantes. Um sol amelado doirava tudo, pegando-se às bermas das estradas, às folhas das arvores, aos tijolos das casas, às aguas correntes.

 

O canhão troava ao longe, sem cessar, e a sua grande voz, que acordava toda a terra e enchia todo o espaço, parecia que chamava à luta todos os povos.

 

 

Continua na próxima quarta-feira...

 

 

24
Fev21

A Grande Aventura

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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De Brest a Etaples

 

Não sei bem por que complicadas conveniências, aos oficiaes que vão no meu transporte não é permitido ir a terra. Engrunho os hombros.

 

 Um dos meus camaradas comenta:

 

— C'est la guerre...

 

Desembarcamos no dia seguinte e formamos no caes, à espera que se organisem os comboios.

 

Debruçados de um muro alto, os habitantes olham com curiosidade estes novos soldados do Direito, que veem do extremo ocidental, para tomarem o seu logar na linha de batalha.

 

Uma velhota vende laranjas de Sagunto, embrulhadas em reclamos da casa exportadora. Anda vestida de preto, e nos olhos azuis, magoados, tristes, parece viver a imagem de algum filho morto em combate.

 

—Madame, des oranges...

 

E procuro dar à voz uma entoação de enternecida simpathia.

 

A velhota fita-me e os seus olhos adquirem subitamente um tom duro e glacial.

 

Insisto:

 

—Madame, des oranges...

 

A mulhersinha volta as costas e afasta-se, numa grande atitude de dignidade ofendida.

 

Um dos soldados dirige-se-lhe:

 

—Mademoiselle...

 

E logo a velhota tira da cesta duas laranjas, oferecendo-as ao soldado, e arremessando-me um olhar fulminador.

 

É a primeira lição de coisas. Já sei que nesta boa terra franceza terei de considerar solteiras todas as mulheres que encontrar pelo caminho. Não se pode dizer que não haja nisso certa vantagem...

 

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Os pelotões põem-se em marcha e formam em frente dos vagões que lhe são destinados.

 

Faz-se a distribuição das rações. Verifica-se que não chegam para todos. C'estl la guerre...

 

Não é possível aguentar na forma os soldados, cançados das vigílias da travessia, sentindo ainda as tonturas do enjôo, e exaustos das longas horas de formatura. Saltam às carruagens, atirando-se uns para cima dos outros, praguejando, insultando-se, empurrando-se, largando os equipamentos, disputando-se as latas de conserva. É o rebanho humano.

 

Acondicionado o meu pelotão, espapaço-me numa carruagem de 1.ª; e é mergulhado numa

deliciosa modorra, mal percebendo as vozes dos oficiaes, as pragas surdas dos soldados, os apitos das machinas, que sinto rolar o comboio.

 

Toda a noite o comboio rolou pela planície sem fim. Como cabeleiras de sombra, as florestas ondeiam na noite, e os campos deslisam, intérminos, isóchronos, sem uma parede, sem uma ondulação, como uma imensa superfície tingida de negro.

 

Um capitão, que se sentou à minha esquerda, deixou pender a cabeça sobre o meu hombro. Um aspirante miliciano, defronte de mim, encostou-se para traz e dorme tranquilamente. Uma pequena sombra, projetada pela esquina duma mala da ordem, e que vae mal segura na rêde, põe-lhe na face um laivo de mau agoiro.

 

De vez em quando o comboio pára numa estação, vê-se o kepi de um oficial francez assomar á portinhola, e continua-se rolando na noite.

 

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Numa carruagem próxima canta-se o fado. As notas penetram na treva como soluços. A voz eleva-se, primeiro gradualmente, pastosa, cheia, quasi vertendo sangue, como um coração que uns braços aflitos fossem levantando para o céo; depois a voz baixa, devagarinho, suspendendo-se, pairando, como uma

lagrima que se fosse despejando dos olhos duma estrela. Certos soluços parecem quasi gritos, como se estivessem decepando um collo; certos queixumes mais parecem os suspiros de uma alma arrancada a um corpo moribundo. A noite possue-se de maior tristeza, a paizagem carrega-se de maior negrura e a alma abandona-se-nos mais á fatalidade do destino.

 

Ouve-se uma voz, a uma portinhola visinha, cortando uma conversa:

 

— Seja o que Deus quizer!

 

Quando aparece o dia, tudo quer ver a terra estranha, pela qual se vae combater. A planície estende-se até á linha do horizonte. Aqui e ali manchas florestaes; interminavelmente, verdes pradarias, onde pastam vacas leiteiras; campos de trigo, onde a lingua doirada de um sol ainda convalescente lambe gulosamente as hastes, espalhando a sua baba luminosa pelos regos d'agua.

 

Um soldado meu conhecido, de Barroso, passa junto da minha carruagem e despede-me o estribilho regional:

 

— O' meu alferes, isto p'r'aqui é que são terras!

 

Não se vê ninguém a trabalhar. A Terra é que oferece os seus opimos frutos ao homem. Esta gente deve viver quasi sem esforço. A agua corre por todos os lados, como sangue alegre e vivo e as sementeiras gradam por si, como nos nossos campos gradam as urzes e as estevas.

 

Pobre lavador de Traz-os-Montes, rasgando a enxadão os seios da encosta para poder comer um bocado de pão, remexendo de sol a sol, todo o santo dia, as entranhas do apertado vale para poder comer umas batatas á ceia! Pobre lavrador do Douro, transportando ás costas a terra que ha-de encher os interticios dos rochedos, onde os braços da videira se enrosquem, para que o sol toste os bagos loiros das uvas! Pobre lavrador minhoto, aproveitando as arvores para enforcar as videiras, e sachando o campo com a mesma devoção com que reza o padre nosso para se assegurar uma brôa de milho!

 

Como é que se não ha-de ter criado nesta terra uma grande civilisação, se a vida parece tão fácil que basta vivel-a?

 

Soam-nos aos ouvidos, durante o dia, nomes conhecidos de cidades, de rios, de regiões. Amolecidos, enfartados da viagem, mortos por chegar ao fim, tudo passa deante dos nossos olhos como um vago cosmorama.

 

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Não sabemos ainda para onde vamos. Em Lisboa, baldearam-nos do comboio para o transporte, como a uma carneirada; em Brest meteram-nos nos vagões como uma teoria de escravos. Começam a buzinar-nos aos ouvidos com as necessidades estratégicas e o perigo da espionagem.

 

Pelo fim da tarde, o comboio estaca deante de uns barracões de madeira. Ouve-se falar portuguez. Trepa á carruagem um oficial de infanteria 6 e anuncia:

 

— E' aqui!

 

Equipamo-nos. Apeamos. Um grupo de oficiaes inglezes observa-nos. Uns prisioneiros alemães que trabalham na construção de uma nova via suspendem as picaretas e enviesam os olhares para estes novos inimigos.

 

Quando começamos a subir para o acampamento, em coluna de marcha, com uma banda á frente, um aeroplano paira por cima de nós, como um grande abutre de azas abertas, espionando a preza.

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

 

03
Fev21

A Grande Aventura

Scenas da Guerra, por António Granjo

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

 

Nota de Abertura

Pegando na ideia de publicar aqui as crónicas que António Granjo escreveu nos inícios do séc. passado que o Luís de Boticas se encarregou de transcrever e publicar na sua rubrica das “Crónicas Estrambólicas”, que por sinal falta publicar a última (que possivelmente ainda será publicada esta semana) vamos até um livrinho que eu considero precioso das vivências da I Grande Guerra, que António Granjo viveu na primeira pessoa e publicou. Num onde se vai fazendo também alguma história da nossa cidade e que Granjo felizmente publica ainda antes da sua trágica morte na intitulada “noite sangrenta” da I República.

 

Vamos assim durante as próximas semanas publicar aqui por episódios toda essa vivência deste nosso ilustre flaviense António Granjo. Espero que apreciem.

 

Quanto à imagens são da nossa responsabilidade, imagens que vamos encontrando por aí em arquivos antigos ou imagens antigas das localidades que Granjo refere e, claro, da época, ou seja, imagens da guerra para as “scenas  da guerra” dadas em palavras por António Granjo. Também são de nossa autoria as notas de rodapé, hoje sobre outros dois ilustres flavienses que Granjo refere no primeiro capítulo de “A Grande Aventura”

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

Ao 1.° Batalhão de infantaria 19

 

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O comboio que levava tropas para Lisboa

 

Parti de Chaves, com o 1.° Batalhão de infantaria 19, na noite de 20 para 21 de maio de 1917, com destino a Lisboa, onde embarquei, em direção a Brest, no dia 27 do mesmo mez. Cheguei a Brest no dia 1 de junho, desembarcando no dia seguinte para tomar imediatamente o comboio militar que me levou ao acampamento de Etaples. No dia 9 do mesmo mez recebia guia, com outros oficiaes e alguns sargentos e graduados, para me apresentar no Q. G. do C. E. P., deixando o batalhão acampado.

 

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Acampamento de Etaples – França

 

O batalhão do 19 constituía uma unidade de deposito. Cada um seguiu para seu lado, conforme o exigiam as conveniências do serviço e as necessidades da campanha.

 

O 19 foi, porém, de todos os batalhões da Flandres, aquele que contribuiu com um maior contingente de heroísmo. Ás nossas mais belas paginas da guerra está ligado imperecivelmente algum nome do 1.° Batalhão de infantaria 19.

 

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Cena da Batalha de Neuve-Chapelle

 

A primeira vitoria sobre os alemães, em Neuve-Chapelle, foi obtida pelo alferes do 19, Antonio Teixeira, miliciano, que conseguiu repelir com o seu pelotão duas companhias alemãs, fazendo alguns prisioneiros, e por esse feito foi promovido por distinção a tenente (aos 18 anos!) e condecorado com a Cruz de Guerra e a Military Cross.

 

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Military Cross

 

O unico golpe ofensivo vibrado ao inimigo foi o raid comandado pelo capitão Ribeiro de Carvalho, do 19. Foi por isso (aos 28 anos!) promovido a major e condecorado com a Cruz de Guerra, a Military Cross e a Torre e Espada.

 

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Major Ribeiro de Carvalho[i]

 

Na ofensiva alemã de abril, os cento e tantos soldados do 19 encorporados no 15 por tal forma se houveram que foram todos louvados individualmente.

 

O Capitão Bento Roma, o maior portuguez do nosso tempo, o novo Duarte Pacheco que em Lacouture restabeleceu a nossa tradição heróica e legendaria, fôra transferido do 19 nas vesperas de partir para França e no 19 fez a sua carreira.

 

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Capitão Bento Roma[ii]

 

É por isso que as minhas primeiras palavras são para o meu glorioso batalhão. Se o destino lhe foi descaroavel, se a Historia nem sequer o encontrará como uma unidade combatente e precisará de ir buscar aos outros batalhões a noticia dos feitos dos seus oficiaes e soldados, que ao menos fique esse glorioso numero 19, que desde o Bussaco vem ilustrando os nossos fastos militares, na primeira pagina deste livro de recordações.

 

É possível que alguns olhos caíam sobre estas linhas. Desejaria que no coração do portuguez que as lesse, esse numero 19 ficasse gritando e ardendo como a propria voz da Patria.

 

 

Ao 1.º Batalhão de infantaria 22

 

Apeei-me do comboio militar na base do sector portuguez, em Aire-sur-la-Lys, a 11 do referido mez de junho. Tive ordem para me apresentar na 1ª Brigada, a fim de ...

 

Continua na próxíma quarta-feira

 

 

 

[i] António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, nasceu em Chaves em 30 de outubro de 1889 e faleceu em Lisboa em 17 de fevereiro de 1967, com o posto de Coronel. Era filho do General Augusto Cesar Ribeiro de Carvalho, também flaviense e neto do Coronel António Manuel Ribeiro de Carvalho. A.Germano Ribeiro de Carvalho, foi ministro de guerra do 39º Governo da República (1923-1924) e destacou-se posteriormente como um opositor do Estado Novo. Major, a 26 de Abril de 1919, foi feito Comendador da Ordem Militar de São Bento de Avis, a 28 de Junho de 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, a 5 de Outubro de 1919 foi feito Cavaleiro da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e a 5 de Fevereiro de 1922 foi elevado a Oficial da mesma Ordem.

 

[ii]  Bento Esteves Roma , nasceu em Chaves, 2 de Janeiro de 1884 e faleceu em Lisboa, 23 de Dezembro de 1953). Militar português, assentou praça, como voluntário, no Regimento de Cavalaria N.º 6, a 5 de Agosto de 1903 e, até 1906, tirou as preparatórias na Universidade de Coimbra e nas Escolas Politécnicas de Lisboa e do Porto. Frequentou a Escola do Exército, entre 1906 e 1909. Foi promovido a alferes, em 1909, atingindo o posto de coronel, em 1933.

 

Depois de prestar serviço em várias unidades no continente, participou no combate às incursões monárquicas. Foi mobilizado para Angola em 1912, onde permaneceu até ao ano seguinte, tendo comandado o posto de Binde, no distrito de Benguela e posteriormente o de São João do Pocolo. Em 1915, participou nas campanhas militares do sul de Angola. Regressou em 1916, sendo enviado a França para preparar a participação portuguesa na frente ocidental, junto das forças inglesas. Por ocasião da 1ª Grande Guerra Mundial e no posto de Capitão, foi para a Flandres integrado no CEP, no qual se destacou por atos de bravura, comandando a 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 13, originário de Vila Real, e chegando a ser interinamente o Comandante e por mais vezes o 2º Comandante do Batalhão. Nesta situação e na Batalha de La Lys a 9 de Abril de 1918, foi feito prisioneiro e libertado depois do Armistício. Comandou a Companhia portuguesa na Parada da vitória em Paris a 14 de Julho de 1919. No pós-guerra, organizou e instalou, em Tancos, a Escola de Instrutores de Infantaria, com o objetivo de preparar grupos de instrutores para as escolas de recrutas. Entre 1920 e 1923, sendo governador dos distritos de Cubango, Luanda, que acumulou o com o de governador interino de Moxico. Foi neste período que consolidou a ocupação de todo o território, em operações militares, numa das quais foi ferido. A 5 de Fevereiro de 1922 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. A 5 de Outubro de 1932 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Império Colonial. É, então, nomeado sub-director do Instituto Feminino de Educação e Trabalho, actual Instituto de Odivelas, tendo ocupado o cargo até 1938. Em 1949, apoiou a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República, fazendo parte da sua Comissão Central.

 

Consultas:

https://www.ordens.presidencia.pt/

https://pt.wikipedia.org/

 

 

06
Abr18

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

LEMBRANDO A BATALHA DE LA LYS, 100 ANOS DEPOIS

 

Comemora-se na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, 100 anos sobre a Batalha de La Lys.

 

Façamos uma breve síntese e um balanço final da mesma.

 

Breve síntese


Nem todos os autores coincidem quanto à hora exata do começo da batalha. Jaime Cortesão, Pina de Morais e o major Godinho apontam as 4 horas da manhã (como é, aliás, a informação que vem nos relatos dos comandantes dos batalhões dos RI 2 e RI 11, da 6ª brigada, e do batalhão do RI 2, da 6ª brigada). A maioria indica as 4 horas e 15 minutos.


Começou primeiro com um brutal e maciço bombardeamento, que mais parecia um terramoto, atingindo os postos ou sedes de comando mais recuados, como a sede do CEP, em Saint Venant, Quartéis-generais, da 2ª divisão, em Lestrem, e das brigadas, e todos os comandos dos Grupos de Baterias de Artilharia e respetivas baterias, deixando incólumes as tropas em primeiras linhas. Logo de seguida, diminuindo a distância, incidiu, como se fosse um cilindro rolante, sobre os comandos dos batalhões e todas as primeiras e segundas linhas de Infantaria.


Após um ligeiro intervalo, de novo se alargou o tiro, cobrindo-se e mantendo-se toda a área de combate, impossibilitando qualquer ligação ou contacto com as unidades. Parecia um verdadeiro inferno de metralha, uma enorme e contínua girandola de fogo atravessando os céus.


Aquilo que, num primeiro momento, pareceria um raid, de retaliação a um bombardeamento da véspera, idêntico a muitos outros que durante o mês de março se tinha sofrido, depressa o comando se apercebe de que se tratava de coisa bem mais séria, com uma outra envergadura.


Pelas 4 horas e 30 minutos, a grande maioria das comunicações ou ligações, quer telefónicas quer telegráficas, ficaram cortadas, ou por efeito do bombardeamento ou, na convicção da maioria dos relatórios dos diferentes comandos das brigadas, devido a sabotagem, com o argumento de os fios estarem enterrados a boa profundidade.


O comandante da 5ª brigada, coronel Docleciano Martins, no seu relato diz que, logo após o início do bombardeamento, ficou sem comunicações, quer para a frente, quer para trás. Apenas os comandantes do batalhão do RI 10 e do RI 17 mantinham comunicações com as suas companhias, mas às 6 e às 8 horas, respetivamente, ficaram sem elas. O comandante do batalhão do RI 4, em apoio, ficou sem ligações logo que o bombardeamento começou.


O comandante da 6ª brigada, também no seu relato, afirma que ficou sem comunicações para a retaguarda e para a frente e que apenas uma companhia da esquerda conseguiu manter comunicações por algum tempo.


O comandante interino da 4ª brigada, tenente-coronel Carlos Mardel, diz que ficou quase imediatamente sem ligações telefónicas com as unidades da frente, montando logo um serviço de ordenanças para manter os contactos com as primeiras linhas. Apenas o batalhão do RI 8 é que, até às 10 horas e 15 minutos, ainda conseguia contacto com o comando da brigada.


Simultaneamente, as estradas eram também atingidas, tornando-se intransitáveis por via das enormes crateras que os bombardeamentos provocavam.


Sem ligações telefónicas e telegráficas, e com as estradas intransitáveis ou cortadas, os serviços de estafetas, ciclistas e motociclistas, para além de muitos arriscados ou perigosos sob bombardeamento, tornavam-se muito mais demorados. Muitos deles foram atingidos por granadas, ficando mortos ou feridos.


O nevoeiro era tal que só havia visibilidade entre 30 a 50 metros, impedindo os infantes de ver donde vinha o inimigo, para contra-atacar, e a aviação de operar.


Os pombos-correio, dado o imenso nevoeiro, pouco eficazes foram; assim como os sinais óticos.


O modo certeiro como foram atingidos certos alvos, como os postos das diferentes baterias de artilharia, logo após o início do bombardeamento, não deixou dúvidas que os mesmos haviam sido referenciados.


A barragem de artilharia alemão, para além de destruir os postos de artilharia, dificultava, por outro lado, as baterias que ainda podiam fazer fogo, por dificuldade de remuniciamento, e, assim, gradualmente, foram reduzidas ao silêncio, apenas se ouvindo o troar da artilharia inimiga.


Com duas horas de bombardeamento forte pela artilharia alemã, sem ligações com os comandos e com os postos de artilharia, e com as primeiras linhas e fortificações de defesa a serem completamente varridas e destroçadas, desde muito cedo, cada unidade ficou entregue a si própria, sem qualquer direção do comando. A batalha transformou-se numa série de combates locais de iniciativa dos oficiais subalternos.


Às 7 horas, segundo Guilhermina Mota, citando Gomes da Costa, “as primeiras linhas de infantaria portuguesa eram «uma massa de escombros, de terra, de revestimentos despedaçados, amalgamados com os cadáveres das guarnições!»".


Entre as 7 horas e 50 minutos e as oito, os soldados alemães, a coberto da sua barragem de artilharia e com a ajuda do nevoeiro, saltam os parapeitos das suas trincheiras, atravessam a terra-de-ninguém, e começam a atacar os poucos homens que sobram, defendendo as posições dos restos dos batalhões de Infantaria 8, 20, 2, 1, 17 e 10.


No setor mais vulnerável, Fauquissart, a 40ª divisão britânica, às 8 horas, informa que o inimigo tinha entrado na sua primeira linha. Passado uma hora, retira do setor e deixa o flanco português, do lado esquerdo, a norte, completamente desprotegido.


Às 9 horas e 30 minutos, as forças alemãs atacam as linhas de separação entre as congéneres portuguesas e inglesas em ambos os lados - Fauquissart e Ferme-du-Bois.


Os bravos da 4ª brigada estavam preparados para receber os alemães à baioneta, mas depressa são completamente avassalados pela imensa mole de tropas inimigas, que avança em ondas sucessivas.


Às 10 horas e 15minutos, os alemães tomam Rouge-de-Bout, localidade que era defendida pela 40ª divisão britânica e infletem para sul, contornando os portugueses pelo seu flanco esquerdo. Às 11 horas, vindos da zona entretanto conquistada aos Ingleses, tomam Laventie, local onde se encontrava o comando do setor de Fauquissart.


Atentemo-nos no que diz Luís Alves de Fraga, com base no relato da ação do batalhão do RI 29, em apoio ao setor de Fauquissart, e que, na impossibilidade de o seu comandante o não poder fazer, por estar quase cego, foi elaborado pelo capitão José dos Santos e Cunha: “Pelas 4:35h de 9 de Abril o Batalhão de Infantaria 29 já tinha enviado todas as suas forças para apoio às primeiras linhas. Às 10:30h, o major Xavier da Costa, tendo reunido à sua volta o máximo possível de homens, tomou a decisão de resistir, entrincheirando-se nos drenos. Apesar da resistência, os homens foram morrendo ou ficando feridos um a um, até que os últimos tiveram que se render”. E conclui, no seu relato, o capitão Santos e Cunha: “Fácil é de ver que o envolvimento se fez neste setor, pelo flanco esquerdo, que estava apoiado em tropas britânicas, que cedeu às 8 horas e 50 minutos, tendo os portugueses cedido cerca das dez horas”.


Por seu lado, quanto ao batalhão do RI 1, em primeiras linhas no setor de Neuve-Chapelle, Luís Alves de Fraga diz que “às 9;30h chegaram as primeiras notícias de prisões nas linhas “A” e “B”. As guardas avançadas alemãs caminhavam 80 metros atrás da barragem de artilharia e varriam o terreno a tiro de metralhadora. O número de baixas foi enorme; restaram somente cinco oficiais e algumas dezenas de praças que não foram presos nem feridos”. E o mesmo autor, quanta a esta, conclui, dizendo que “a 6ª Brigada, nas linhas “A” e “B”, sofreu envolvimentos pela esquerda e pela retaguarda, e na direita, ataque frontal; não teve possibilidade de fazer chegar às primeiras linhas quaisquer reforços por falta de ligações e devido à intensa barragem”. Relata, ainda a este propósito, o comandante do batalhão do RI 5, em reserva, major Mário Constantino Oom do Vale, que, pelas 9 horas e 15 minutos “«apareceu o padre capelão Manuel Caetano, da 6ª Brigada, e uma escolta de seis soldados que me transmitiu a ordem de mandar avançar duas Companhias para reforçar cada subsetor (...)». [Contudo,] a barragem de artilharia era tão forte que foi impossível penetrá-la para correr em socorro da frente. Havia que tentar ocupar mais à retaguarda algumas posições que possibilitassem uma defesa eficiente e, simultaneamente, constituíssem uma dificuldade para o inimigo. Entretanto, pelo percurso, o comandante de infantaria 5 foi recebendo ordens para recuar com pouco mais de centena de homens que o acompanhavam. Os alemães avançavam sempre, vindos da esquerda, de Fauquissart”.


Dos oficiais do batalhão do RI 17, lado direito do setor de Ferme-du-Bois, em primeiras linhas, “só escapou de morrer ou ficar prisioneiro o tenente miliciano médico José Viana Correia. Pelas 13 horas foi feito prisioneiro o comandante da 5ª Brigada com o seu Estado-maior”.

 

 Às 9 horas, no setor de Ferme-du-Bois, as tropas alemãs estavam já muito próximas do posto de comando do batalhão do RI 10, após terem penetrado pelo setor inglês à direita, e as tropas deste batalhão, em primeira linha, ficaram envolvidas pelo inimigo à direita e pela retaguarda.

 

Às 9 horas e 30 minutos, o inimigo já penetrara as primeiras linhas e atacava em Givenchy.


Quer dizer, segundo ainda Guilhermina Mota, citando o general Gomes da Costa, as divisões em que os flancos da divisão portuguesa se apoiavam “retiravam para formarem flanco defensivo, deixando aberturas por onde o inimigo penetrou com mais facilidade".


Neste cenário, as unidades começam a desorganizarem-se e começam a verem-se soldados desgarrados, errando, depois de abandonarem os seus postos.


Gomes da Costa, depois dos alemães terem conquistado as primeiras linhas, limita-se, tão-somente, a ordenar que se mantenham as posições a todo o custo, ganhando tempo, esperando por reforços ingleses: eram 11 horas. Esperou uma hora mais, e os reforços não vieram.


Assim, toda a resistência era inútil.


Do Quartel-general do XI Corpo do exército britânico, às 12 horas e 15 minutos, ordenam-lhe que, de Lestrem, retire para Calonne.


Às 13 horas, as vagas de tropas alemãs, ultrapassadas as primeiras linhas, que, predominantemente, eram guarnecidas pela Infantaria, alcançam e tomam as posições de artilharia.


Quando o comando da 2ª divisão chega a Calonne, às 15 horas e 40 minutos, recebe ordens do XI Corpo do exército britânico “para tomar posição mais atrás na Ribeira de Lawe. Mas foi impossível formar unidades com as tropas que retrocediam completamente dispersas, desordenadas e perdidas pelos caminhos”.


Era um perigo tantos homens, desavindos na retaguarda, pela dispersão provocada pelo bombardeamento e pelo avanço da infantaria alemã, se encontrarem tão concentrados nesta povoação. Por isso, o comando retira para Saint Venant com o intuito de, aí, se reorganizar.


Como afirma Joaquim Ribeiro, citado por Guilhermina Mota: "Não houve quem organizasse a retirada. Os soldados vaguearam sozinhos; e assim entraram, desordenados, em cabelo, e até descalços, pelas povoações e cidades, dando uma triste impressão». Segundo este autor, pior que a derrota — na altura toda a frente aliada recuava - foi o caos da retirada, sem que ninguém fosse capaz de controlar a situação, ficando a ideia de uma total debandada”.


As tropas portuguesas e britânicas não conseguiram aguentar o embate de um confronto cuja proporção era de 1 para 10. E cederam à avalanche que sobre eles recaía. Milhares são feitos prisioneiros e mandados para o cativeiro.


Foram 1 500 (das cerca de 1 700) bocas-de-fogo para uma frente com cerca de 12 a 15 quilómetros. Uma enormidade! Que, contudo, segundo refere Luís Alves de Fraga, “era esta a experiência que a guerra das trincheiras vinha desenvolvendo desde os tempos já recuados de Verdun, pois qualquer ofensiva era antecedida de uma longa preparação de artilharia”, porquanto a intenção não era apenas destruir seja que obras defensivas fossem, mas, essencialmente, quebrar a vontade de combater por parte da Infantaria. O corte das ligações entre os diferentes comandos outra coisa não pretendia obter senão o retardamento dos reforços, desmoralizando e destruindo ainda mais o moral das tropas para oferecerem resistência ao combate. La Lys limitou-se a repetir um padrão conhecido nesta guerra.


Pelotões isolados ou grupos de tropas, ultrapassados pela avalanche dos alemães, combatem dia 9 de tarde e dia 10 de manhã, oferecendo resistência. E outros, muitos poucos já, ainda os vamos encontrar a combater ao lado dos aliados, na ribeira de Lawe, no dia 11, até que são mandados reunirem-se às suas tropas.


Com a «Operação Georgette», o comando inglês afirmava que as suas forças estavam de costas para a parede e que não lhes restava outra possibilidade que não fosse resistir ou morrer.


Só que, e como bem diz Mendo Henriques, o valor militar não se mede em termos só de sucesso. Os soldados portugueses resistiram durante 24 horas ao assalto dos alemães, sublinhando ter sido esta resistência um valor militar sem precedentes. E, contrariamente ao que dizem os relatórios dos Aliados, de La Lys ter sido um insucesso, os alemães consideraram uma derrota Aliada útil, na medida em que lhes atrasou a sua ofensiva.


Como se veio depois a verificar, as ofensivas alemãs da primavera foram um fracasso. E, tal circunstância, deveu-se, essencialmente, aos seguintes fatores:


  • Unificação do comando militar na pessoal do marechal Foch, permitindo aos Aliados coordenar de forma mais eficiente as suas forças, com unidades francesas a substituírem as forças britânicas nas primeiras linhas.
    • A falta de meios motorizados e meios de transporte eficientes para suportar e apoiar o avanço das tropas, o que foi uma constante alemã em toda a guerra.
    • Embora as forças alemãs de trincheiras fossem mais numerosas, estavam, contudo, menos preparadas que as unidades de elite e que foram utilizadas na Operação Michael, duas semanas antes.
    • Finalmente, o solo, com a primavera e o degelo, encontrava mole e, por isso, as posições defensivas dos Aliados tinham mais vantagem, ao poderem contar com ninhos de metralhadoras que ceifavam alemães, à medida que estes avançavam. O solo mole foi um problema grave ao avanço das tropas alemãs porque, para destruir a posição das metralhadoras, era necessário utilizar artilharia que, num terreno irregular, com muitas crateras resultantes das explosões, se encontravam cheias de água, dificultando ainda mais o avanço.


A conjugação destes fatores levou a que o avanço alemão fosse mais tarde retido, mercê ainda do reforço das unidades britânicas com tropas francesas, a sul, e belgas, a norte.

 

 Balanço final


Foi, contudo, graças ao sacrifício e à valentia de uns tantos bravos que os objetivos da ofensiva alemã, apesar de destroçarem por completo a 2ª divisão do CEP, não foram conseguidos, conforme mapa que se apresenta.

 

Eis o que nos mostra o mapa a seguir.

 

Veja-se agora o que os alemães pretendiam com a «Operação Georgette».

 


No mapa que se segue, para além de completar o que acima se reproduziu, assinala-se as unidades que mais se distinguiram nesta batalha.

 

 
Continua a não saber-se, com exatidão, as baixas ocorridas na batalha de La Lys. Segundo Luís Alves de Fraga, referindo os números adiantados por Vasco de Carvalho, em 1923, o quadro de baixas seria o seguinte:


As estatísticas do CEP “apontam para 32 oficiais mortos e desaparecidos na batalha e, em 1993,computavam-se 6 535 praças prisioneiros, mortos no cativeiro e desaparecidos, enquanto o número de sargentos ascendia a 364 prisioneiros, mortos no cativeiro ou desaparecidos”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão, como Luís Alves de Fraga, com base no quadro do livro «História do Exército Português (1910-1945): Estado-Maior do Exército», III Volume, 1994, página 123, dizem-nos que “a lista de perdas portuguesas em La Lys é de 299 oficiais e 6 684 sargentos e praças, mortos, feridos e prisioneiros, um terço da força combatente a 9 de Abril. Não se conhece o número exato de feridos, porque ficaram no terreno ocupado, mas nunca terá sido inferior a 1 500 homens. No cativeiro faleceram mais 233 militares".

 


Se analisarmos o quadro acima das baixas, o que é mais espantoso é a enorme desproporcionalidade do tipo de baixas. Tanto prisioneiro, comparativamente aos mortos, é sinal mais que evidente que o moral das tropas era muito baixo, que estavam no limite máximo do seu esgotamento físico, psicológico e anímico, perante um inimigo que se mostrava tão verdadeiramente avassalador.


Mas, se por outro lado, formos ver o balanço da ofensiva da Operação Michael, os ingleses não se podem queixar muito do que aconteceu em La Lys. A derrocada das linhas portuguesas, não foi no entanto muito diferente da que tinha ocorrido com os britânicos em 21 de Março, onde durante as primeiras horas após a violenta barragem de artilharia, se renderam 21 000 britânicos.


Isabel Pestana comenta que “a perda de milhares de militares nas fileiras portuguesas para o cativeiro alemão foi mais significativo porque contribuiu para o desfalque [já de si bastante crítico e] que se fazia sentir há muito nas unidades militares do CEP, penalizando os sobreviventes ao serem obrigados a permanecer, muitas das vezes desmoralizados, numa campanha que não via receber tropas frescas para proporcionar o descanso merecido e há tanto tempo desejado”. Aliás muitos dos acontecimentos que a seguir sucedem, como as insubordinações, não se compreendem sem a devida compreensão desta realidade.


Há uma certa tendência, entre nós, em resumir a nossa participação na Frente Ocidental àquilo que apelidamos de o desastre de La Lys. Nada mais erróneo! Estamos plenamente de acordo com Isabel Pestana quando afirma que “dois anos de campanha não se reduzem a uma batalha que, ainda por cima, não se saldou por grande número de mortos ou feridos: os combates de Janeiro a Março [de 1918] foram mais mortíferos e desmoralizadores que La Lys!”.


Bazílio Telles, no seu opúsculo «Na Flandres (O episódio de 9 de Abril)», de 1918, não o classifica como um desastre, simplesmente um mero «episódio militar». É certo que este opúsculo foi escrito quase imediatamente a seguir ao acontecimento. Contudo, no contexto dos combates que se deram na Grande Guerra, positivamente, está mais próximo de um episódio do que de um desastre, coisa que Ferreira do Amaral, mais contristadamente se lastima que, em Portugal, assim se entenda.


Os dois anos de campanha do CEP na Flandres, de duas divisões desfalcadas e desmoralizadas, pelos motivos já amplamente expostos, numa frente variável, mas extensa para qualquer exército Aliado que fosse, apesar de todos os problemas com que o comando superior e unidades de combate na Frente se debateram, não se pode considerar, objetivamente falando, num fracasso. A exemplo de outros exércitos Aliados, teve os seus altos e baixos e, como se expressou, e bem, o general Fernando Tamagnini de Abreu, quando deixou o comando do CEP, até ao dia 9 de abril de 1918, soubemos defender o nosso setor com esforço, sim, mas com valentia.


Se quisermos fazer uma análise/avaliação destes dois anos de campanha, diríamos que, em 1917, o setor português, e na terminologia de Isabel Pestana “viveu o usual ritmo alternativo de momentos de espera e de momentos de combate, mais desgastante que nas outras zonas Aliadas devido à incapacidade portuguesa de facultar descanso às tropas que [...] permaneciam demasiado tempo na Frente”. Já o ano de 1918 foi bem diferente. Agudizou-se mais a carência de homens frescos para revezar a Frente, aumentou, principalmente no primeiro trimestre o «tempo de combate», que trouxe muita desmoralização às tropas. Não admira, assim, que, quando surge o mês de março, de intensos combates, este tenha sido um mês terrível, de mortos, feridos, doentes, à mistura com medo e pânico, um verdadeiro inferno para as tropas portuguesas. É nesta altura, ainda segundo Isabel Pestana, que “acontece o maior número de mortos em campanha, muitas vezes sepultados à pressa, ou enterrados nos escombros da 1ª linha e que se enchem as ambulâncias e os hospitais com combatentes de feridas abertas, esvaídos em sangue e, por vezes, mutilados”.


Houve, positivamente, um esforço notável das nossas tropas nos primeiros três meses de 1918, como a seu tempo demos conta. E nem vale agora a pena falar dos defetistas, desertores e dos oficiais a quem faltou Honra, Valor e Lealdade. Supervalorizar certos grupos pelo seu comportamento, pouco em conformidade com os compromissos assumidos para com uma profissão e para com a Pátria, é não dar o devido valor aqueles - e foram felizmente muitos - que, com todas as suas forças, honrarem a farda que vestiam e o País que representavam, ao lado dos nossos Aliados, independentemente de quem ocupava, num momento concreto, o poder político em Lisboa.


Perante a avalanche de metralha e aquela multidão de tropas de assalto, numa desproporção tão significativa, nenhum outro exército Aliado poderia ter feito muito melhor. Com certeza que poderia oferecer mais resistência, com maior número de mortos e, possivelmente, não tantos prisioneiros, contudo, o resultado final não seria muito diferente daquele que verificámos nos dias 9, 10 e 11 de abril de 1918.


Neste ponto, e concluindo, estamos com Isabel Pestana quando afirma que “a presença portuguesa de dois anos e três meses em terras francesas (Janeiro de 1917 a Março de 1919) [não se pode resumir] a única batalha, conhecida pelos ingleses por «Armentières», e apresentada sempre com recursos a adjetivos dignos de fantásticas e literárias figuras de estilo mas a poucos factos”.


E, quanto a este ponto, não resistimos em aqui deixar o ponto de vista de um bravo, antigo combatente, polémico, mas magoado, e frontal. Ferreira do amaral «queixava-se» assim: “A agência «Reuter» germanófila dos pés á cabeça, refere em 10 de Abril a resistência que os portugueses opuseram ao avanço dos alemães e elogia a bravura com que se bateram apesar de terem perdido os apoios dos flancos, mas o cidadão português é que não vai na fita e chama-lhe o desastre de 9 de Abril! O «Times» e o «Daily» Mail», jornais ingleses, em 11 e 12 prestam a mais sentida homenagem á bravura e sacrifício com que se bateram as quatro Brigadas Portuguesas, mas o cidadão português é que não vai no jogo e insiste em chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!! O «Matin» e o Telegrame de 10 e 11 referem-se ao valor dos portugueses que se bateram na Flandres no dia 9, 10 e 11 de Abril, como se se referissem ao valor provado dos seus compatriotas, mas o cidadão português é que não vai atrás do choro... e continua a chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!!” (Amaral, 1923: 46). E continua: “Resumindo: para o general Ludendorff o ataque de 21 de Março representa um alto feito de armas, e o ataque de 27 de Maio (Chemins des Dames) representa uma grande vitória tática. E ao referir-se a 9 de Abril não se dá por satisfeito! O cidadão português não acha que Ludendorfl se mostra exigente quando aprecia o 9 de Abril? Ele que atacou com 17 Divisões à frente de Armentiéres a Bethume e só para o ataque de frente feito contra os portugueses destina 8 Divisões, é porque com alguma cousa contava pela frente. A nós pelo menos parece-nos isso. Mas o cidadão português é muito esperto, muito desconfiado, muito astuto, e não vai com essas! O 9 de Abril continua a ser um desastre!”. Para, assim, concluir: “Em Portugal todos os políticos, (sem exceção alguma), discutiram muito o 9 de Abril, mas todos eles não procuravam sinceramente salvar a honra da Nação. Toda essa miséria moral nada mais foi do que uma discussão de interesses partidários e pessoais!”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão dizem que a batalha de La Lys “deu origem à quase totalidade dos prisioneiros de guerra portugueses, que até essas data era insignificante. Antes da ofensiva de 9 de Abril havia apenas 102 prisioneiros. As estatísticas oficiais registam precisamente 7 000 prisioneiros internados nos campos de prisioneiros da Alemanha, dos quais 274 oficiais. O conjunto de mortos e feridos do CEP, que mobilizou 55 083 homens para a Flandres, foi calculado em 7 384 homens [nos dois anos de campanha, conforme quadro que abaixo se apresenta], ou seja, 13,4% dos efetivos, [portanto] abaixo da média da Grande Guerra”.

 


Para finalizar, queremos deixar aqui o ponto de vista de um velho republicano, Bazílio Telles, que, logo a seguir ao 9 de abril de 1918, assim se exprimia: “Ninguém melhor que um militar, e um militar distinto, sabe que a superioridade numérica não é sempre condição imprescindível para o êxito dum ataque. Outras condições, algumas de mais importância do que essa, influem no resultado que se teve em mira colher duma ofensiva, particularmente se acaso se lhes veio juntar algum incidente meteorológico, topográfico, ou doutra ordem, favorável aos projetos do inimigo. Igualdade de efetivos pode muito bem coadunar-se com uma vitória completa do atacante, se este conta do seu lado outras superioridades sobre as forças investidas”. E dá o exemplo de Aljubarrota. E, mais adianta, acrescenta que, “por mais que a velha organização militar se modifique, por mais que se aperfeiçoe o armamento, subsistem fatores imutáveis de vitória, que nenhum progresso material, nenhuma complicação de agrupamento de unidades, são suscetíveis de alterar de maneira apreciável, que vem a ser as qualidades, o temperamento, o caráter das populações dum certo país, seja qual for. A primeira, a imprescindível condição para vencer é possuir conhecimento completo do que é estrutural na alma dum povo, da série dos móveis, dos estímulos habituais ou transitórios capazes de a fazer entrar em vibração, tirando-lhe assim o máximo esforço no sentido que se quer. Não é só lendo tratadistas profissionais estrangeiros, que só podem ensinar o que num exercício há de exterior, é sabendo de cor a história desse povo, não unicamente a história militar, a integral, que se consegue ser um bom chefe de soldados. A técnica da profissão é a tabuada, se nos relevam este modo de exprimir; mas a história nacional é o a b c. A primeira é preciosa, a segunda é indispensável”.


Nunca ninguém manifestou grande empenho em inquirir porque foi que se venceu; todos anseiam sempre por saber porque é que se foi vencido. Aos olhos do grande público a vitória tem, ou parece ter, em si a sua razão suficiente; a si, e por si própria se justifica; é um facto que se toma sem lhe determinar as condições. A derrota exige, ao contrário, que se lhe apure os motivos, se lhe destaque até ao ínfimo pormenor os antecedentes e as fases, se lhe conheça os responsáveis, pessoais ou impessoais. Ninguém jamais regateou o preço porque se triunfou do inimigo; discute-se o último ceitil que se despendeu com uma derrota. A natureza humana é assim feita, deste barro grosseiro, em toda a parte; e nem a Geografia nem a História lhe modificaram até hoje a estrutura. Não faltam nesta guerra os episódios que nos conformam a realidade destas contraditórias exigências morais das multidões consoante se vence ou se é vencido
”.

 

Nesta guerra, na Flandres e na África, conforme enfatizámos na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, os militares do RI 19, e de Chaves, deram provas bastas de bravura, de amor e dedicação à República e à Pátria. Para além dos simples, humildes e anónimos homens que se bateram bravamente nos diferentes campos de batalha e de que a história não reza, outros há que ficaram com o seu nome bem marcado nas suas páginas, como sejam, Bento Roma, Germano Ribeiro de Carvalho e o celebérrimo soldados Milhais, o «Milhões»…

 

Contudo, num ponto, estamos de acordo com Filipe Ribeiro de Menezes, professor de História na Universidade de Maynooth, na Irlanda, na sua obra «De Lisboa A La Lys – O Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial»: “Em La Lys findou o sonho de uma República capaz de transformar os destinos de Portugal, do seu domínio colonial e dos Portugueses de todo o mundo, mobilizando todas essas forças em torno do sacrifício dos soldados nas várias frentes de combate e da valorização, pelo mundo fora, do bom nome português”.

 

100 anos volvidos, será que aprendemos efetivamente a lição, pelo que foi a história dos nossos «maiores»?...

 

António de Souza e Silva

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