Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

LEMBRANDO A BATALHA DE LA LYS, 100 ANOS DEPOIS

 

Comemora-se na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, 100 anos sobre a Batalha de La Lys.

 

Façamos uma breve síntese e um balanço final da mesma.

 

Breve síntese


Nem todos os autores coincidem quanto à hora exata do começo da batalha. Jaime Cortesão, Pina de Morais e o major Godinho apontam as 4 horas da manhã (como é, aliás, a informação que vem nos relatos dos comandantes dos batalhões dos RI 2 e RI 11, da 6ª brigada, e do batalhão do RI 2, da 6ª brigada). A maioria indica as 4 horas e 15 minutos.


Começou primeiro com um brutal e maciço bombardeamento, que mais parecia um terramoto, atingindo os postos ou sedes de comando mais recuados, como a sede do CEP, em Saint Venant, Quartéis-generais, da 2ª divisão, em Lestrem, e das brigadas, e todos os comandos dos Grupos de Baterias de Artilharia e respetivas baterias, deixando incólumes as tropas em primeiras linhas. Logo de seguida, diminuindo a distância, incidiu, como se fosse um cilindro rolante, sobre os comandos dos batalhões e todas as primeiras e segundas linhas de Infantaria.


Após um ligeiro intervalo, de novo se alargou o tiro, cobrindo-se e mantendo-se toda a área de combate, impossibilitando qualquer ligação ou contacto com as unidades. Parecia um verdadeiro inferno de metralha, uma enorme e contínua girandola de fogo atravessando os céus.


Aquilo que, num primeiro momento, pareceria um raid, de retaliação a um bombardeamento da véspera, idêntico a muitos outros que durante o mês de março se tinha sofrido, depressa o comando se apercebe de que se tratava de coisa bem mais séria, com uma outra envergadura.


Pelas 4 horas e 30 minutos, a grande maioria das comunicações ou ligações, quer telefónicas quer telegráficas, ficaram cortadas, ou por efeito do bombardeamento ou, na convicção da maioria dos relatórios dos diferentes comandos das brigadas, devido a sabotagem, com o argumento de os fios estarem enterrados a boa profundidade.


O comandante da 5ª brigada, coronel Docleciano Martins, no seu relato diz que, logo após o início do bombardeamento, ficou sem comunicações, quer para a frente, quer para trás. Apenas os comandantes do batalhão do RI 10 e do RI 17 mantinham comunicações com as suas companhias, mas às 6 e às 8 horas, respetivamente, ficaram sem elas. O comandante do batalhão do RI 4, em apoio, ficou sem ligações logo que o bombardeamento começou.


O comandante da 6ª brigada, também no seu relato, afirma que ficou sem comunicações para a retaguarda e para a frente e que apenas uma companhia da esquerda conseguiu manter comunicações por algum tempo.


O comandante interino da 4ª brigada, tenente-coronel Carlos Mardel, diz que ficou quase imediatamente sem ligações telefónicas com as unidades da frente, montando logo um serviço de ordenanças para manter os contactos com as primeiras linhas. Apenas o batalhão do RI 8 é que, até às 10 horas e 15 minutos, ainda conseguia contacto com o comando da brigada.


Simultaneamente, as estradas eram também atingidas, tornando-se intransitáveis por via das enormes crateras que os bombardeamentos provocavam.


Sem ligações telefónicas e telegráficas, e com as estradas intransitáveis ou cortadas, os serviços de estafetas, ciclistas e motociclistas, para além de muitos arriscados ou perigosos sob bombardeamento, tornavam-se muito mais demorados. Muitos deles foram atingidos por granadas, ficando mortos ou feridos.


O nevoeiro era tal que só havia visibilidade entre 30 a 50 metros, impedindo os infantes de ver donde vinha o inimigo, para contra-atacar, e a aviação de operar.


Os pombos-correio, dado o imenso nevoeiro, pouco eficazes foram; assim como os sinais óticos.


O modo certeiro como foram atingidos certos alvos, como os postos das diferentes baterias de artilharia, logo após o início do bombardeamento, não deixou dúvidas que os mesmos haviam sido referenciados.


A barragem de artilharia alemão, para além de destruir os postos de artilharia, dificultava, por outro lado, as baterias que ainda podiam fazer fogo, por dificuldade de remuniciamento, e, assim, gradualmente, foram reduzidas ao silêncio, apenas se ouvindo o troar da artilharia inimiga.


Com duas horas de bombardeamento forte pela artilharia alemã, sem ligações com os comandos e com os postos de artilharia, e com as primeiras linhas e fortificações de defesa a serem completamente varridas e destroçadas, desde muito cedo, cada unidade ficou entregue a si própria, sem qualquer direção do comando. A batalha transformou-se numa série de combates locais de iniciativa dos oficiais subalternos.


Às 7 horas, segundo Guilhermina Mota, citando Gomes da Costa, “as primeiras linhas de infantaria portuguesa eram «uma massa de escombros, de terra, de revestimentos despedaçados, amalgamados com os cadáveres das guarnições!»".


Entre as 7 horas e 50 minutos e as oito, os soldados alemães, a coberto da sua barragem de artilharia e com a ajuda do nevoeiro, saltam os parapeitos das suas trincheiras, atravessam a terra-de-ninguém, e começam a atacar os poucos homens que sobram, defendendo as posições dos restos dos batalhões de Infantaria 8, 20, 2, 1, 17 e 10.


No setor mais vulnerável, Fauquissart, a 40ª divisão britânica, às 8 horas, informa que o inimigo tinha entrado na sua primeira linha. Passado uma hora, retira do setor e deixa o flanco português, do lado esquerdo, a norte, completamente desprotegido.


Às 9 horas e 30 minutos, as forças alemãs atacam as linhas de separação entre as congéneres portuguesas e inglesas em ambos os lados - Fauquissart e Ferme-du-Bois.


Os bravos da 4ª brigada estavam preparados para receber os alemães à baioneta, mas depressa são completamente avassalados pela imensa mole de tropas inimigas, que avança em ondas sucessivas.


Às 10 horas e 15minutos, os alemães tomam Rouge-de-Bout, localidade que era defendida pela 40ª divisão britânica e infletem para sul, contornando os portugueses pelo seu flanco esquerdo. Às 11 horas, vindos da zona entretanto conquistada aos Ingleses, tomam Laventie, local onde se encontrava o comando do setor de Fauquissart.


Atentemo-nos no que diz Luís Alves de Fraga, com base no relato da ação do batalhão do RI 29, em apoio ao setor de Fauquissart, e que, na impossibilidade de o seu comandante o não poder fazer, por estar quase cego, foi elaborado pelo capitão José dos Santos e Cunha: “Pelas 4:35h de 9 de Abril o Batalhão de Infantaria 29 já tinha enviado todas as suas forças para apoio às primeiras linhas. Às 10:30h, o major Xavier da Costa, tendo reunido à sua volta o máximo possível de homens, tomou a decisão de resistir, entrincheirando-se nos drenos. Apesar da resistência, os homens foram morrendo ou ficando feridos um a um, até que os últimos tiveram que se render”. E conclui, no seu relato, o capitão Santos e Cunha: “Fácil é de ver que o envolvimento se fez neste setor, pelo flanco esquerdo, que estava apoiado em tropas britânicas, que cedeu às 8 horas e 50 minutos, tendo os portugueses cedido cerca das dez horas”.


Por seu lado, quanto ao batalhão do RI 1, em primeiras linhas no setor de Neuve-Chapelle, Luís Alves de Fraga diz que “às 9;30h chegaram as primeiras notícias de prisões nas linhas “A” e “B”. As guardas avançadas alemãs caminhavam 80 metros atrás da barragem de artilharia e varriam o terreno a tiro de metralhadora. O número de baixas foi enorme; restaram somente cinco oficiais e algumas dezenas de praças que não foram presos nem feridos”. E o mesmo autor, quanta a esta, conclui, dizendo que “a 6ª Brigada, nas linhas “A” e “B”, sofreu envolvimentos pela esquerda e pela retaguarda, e na direita, ataque frontal; não teve possibilidade de fazer chegar às primeiras linhas quaisquer reforços por falta de ligações e devido à intensa barragem”. Relata, ainda a este propósito, o comandante do batalhão do RI 5, em reserva, major Mário Constantino Oom do Vale, que, pelas 9 horas e 15 minutos “«apareceu o padre capelão Manuel Caetano, da 6ª Brigada, e uma escolta de seis soldados que me transmitiu a ordem de mandar avançar duas Companhias para reforçar cada subsetor (...)». [Contudo,] a barragem de artilharia era tão forte que foi impossível penetrá-la para correr em socorro da frente. Havia que tentar ocupar mais à retaguarda algumas posições que possibilitassem uma defesa eficiente e, simultaneamente, constituíssem uma dificuldade para o inimigo. Entretanto, pelo percurso, o comandante de infantaria 5 foi recebendo ordens para recuar com pouco mais de centena de homens que o acompanhavam. Os alemães avançavam sempre, vindos da esquerda, de Fauquissart”.


Dos oficiais do batalhão do RI 17, lado direito do setor de Ferme-du-Bois, em primeiras linhas, “só escapou de morrer ou ficar prisioneiro o tenente miliciano médico José Viana Correia. Pelas 13 horas foi feito prisioneiro o comandante da 5ª Brigada com o seu Estado-maior”.

 

 Às 9 horas, no setor de Ferme-du-Bois, as tropas alemãs estavam já muito próximas do posto de comando do batalhão do RI 10, após terem penetrado pelo setor inglês à direita, e as tropas deste batalhão, em primeira linha, ficaram envolvidas pelo inimigo à direita e pela retaguarda.

 

Às 9 horas e 30 minutos, o inimigo já penetrara as primeiras linhas e atacava em Givenchy.


Quer dizer, segundo ainda Guilhermina Mota, citando o general Gomes da Costa, as divisões em que os flancos da divisão portuguesa se apoiavam “retiravam para formarem flanco defensivo, deixando aberturas por onde o inimigo penetrou com mais facilidade".


Neste cenário, as unidades começam a desorganizarem-se e começam a verem-se soldados desgarrados, errando, depois de abandonarem os seus postos.


Gomes da Costa, depois dos alemães terem conquistado as primeiras linhas, limita-se, tão-somente, a ordenar que se mantenham as posições a todo o custo, ganhando tempo, esperando por reforços ingleses: eram 11 horas. Esperou uma hora mais, e os reforços não vieram.


Assim, toda a resistência era inútil.


Do Quartel-general do XI Corpo do exército britânico, às 12 horas e 15 minutos, ordenam-lhe que, de Lestrem, retire para Calonne.


Às 13 horas, as vagas de tropas alemãs, ultrapassadas as primeiras linhas, que, predominantemente, eram guarnecidas pela Infantaria, alcançam e tomam as posições de artilharia.


Quando o comando da 2ª divisão chega a Calonne, às 15 horas e 40 minutos, recebe ordens do XI Corpo do exército britânico “para tomar posição mais atrás na Ribeira de Lawe. Mas foi impossível formar unidades com as tropas que retrocediam completamente dispersas, desordenadas e perdidas pelos caminhos”.


Era um perigo tantos homens, desavindos na retaguarda, pela dispersão provocada pelo bombardeamento e pelo avanço da infantaria alemã, se encontrarem tão concentrados nesta povoação. Por isso, o comando retira para Saint Venant com o intuito de, aí, se reorganizar.


Como afirma Joaquim Ribeiro, citado por Guilhermina Mota: "Não houve quem organizasse a retirada. Os soldados vaguearam sozinhos; e assim entraram, desordenados, em cabelo, e até descalços, pelas povoações e cidades, dando uma triste impressão». Segundo este autor, pior que a derrota — na altura toda a frente aliada recuava - foi o caos da retirada, sem que ninguém fosse capaz de controlar a situação, ficando a ideia de uma total debandada”.


As tropas portuguesas e britânicas não conseguiram aguentar o embate de um confronto cuja proporção era de 1 para 10. E cederam à avalanche que sobre eles recaía. Milhares são feitos prisioneiros e mandados para o cativeiro.


Foram 1 500 (das cerca de 1 700) bocas-de-fogo para uma frente com cerca de 12 a 15 quilómetros. Uma enormidade! Que, contudo, segundo refere Luís Alves de Fraga, “era esta a experiência que a guerra das trincheiras vinha desenvolvendo desde os tempos já recuados de Verdun, pois qualquer ofensiva era antecedida de uma longa preparação de artilharia”, porquanto a intenção não era apenas destruir seja que obras defensivas fossem, mas, essencialmente, quebrar a vontade de combater por parte da Infantaria. O corte das ligações entre os diferentes comandos outra coisa não pretendia obter senão o retardamento dos reforços, desmoralizando e destruindo ainda mais o moral das tropas para oferecerem resistência ao combate. La Lys limitou-se a repetir um padrão conhecido nesta guerra.


Pelotões isolados ou grupos de tropas, ultrapassados pela avalanche dos alemães, combatem dia 9 de tarde e dia 10 de manhã, oferecendo resistência. E outros, muitos poucos já, ainda os vamos encontrar a combater ao lado dos aliados, na ribeira de Lawe, no dia 11, até que são mandados reunirem-se às suas tropas.


Com a «Operação Georgette», o comando inglês afirmava que as suas forças estavam de costas para a parede e que não lhes restava outra possibilidade que não fosse resistir ou morrer.


Só que, e como bem diz Mendo Henriques, o valor militar não se mede em termos só de sucesso. Os soldados portugueses resistiram durante 24 horas ao assalto dos alemães, sublinhando ter sido esta resistência um valor militar sem precedentes. E, contrariamente ao que dizem os relatórios dos Aliados, de La Lys ter sido um insucesso, os alemães consideraram uma derrota Aliada útil, na medida em que lhes atrasou a sua ofensiva.


Como se veio depois a verificar, as ofensivas alemãs da primavera foram um fracasso. E, tal circunstância, deveu-se, essencialmente, aos seguintes fatores:


  • Unificação do comando militar na pessoal do marechal Foch, permitindo aos Aliados coordenar de forma mais eficiente as suas forças, com unidades francesas a substituírem as forças britânicas nas primeiras linhas.
    • A falta de meios motorizados e meios de transporte eficientes para suportar e apoiar o avanço das tropas, o que foi uma constante alemã em toda a guerra.
    • Embora as forças alemãs de trincheiras fossem mais numerosas, estavam, contudo, menos preparadas que as unidades de elite e que foram utilizadas na Operação Michael, duas semanas antes.
    • Finalmente, o solo, com a primavera e o degelo, encontrava mole e, por isso, as posições defensivas dos Aliados tinham mais vantagem, ao poderem contar com ninhos de metralhadoras que ceifavam alemães, à medida que estes avançavam. O solo mole foi um problema grave ao avanço das tropas alemãs porque, para destruir a posição das metralhadoras, era necessário utilizar artilharia que, num terreno irregular, com muitas crateras resultantes das explosões, se encontravam cheias de água, dificultando ainda mais o avanço.


A conjugação destes fatores levou a que o avanço alemão fosse mais tarde retido, mercê ainda do reforço das unidades britânicas com tropas francesas, a sul, e belgas, a norte.

 

 Balanço final


Foi, contudo, graças ao sacrifício e à valentia de uns tantos bravos que os objetivos da ofensiva alemã, apesar de destroçarem por completo a 2ª divisão do CEP, não foram conseguidos, conforme mapa que se apresenta.

 

Eis o que nos mostra o mapa a seguir.

 

Veja-se agora o que os alemães pretendiam com a «Operação Georgette».

 


No mapa que se segue, para além de completar o que acima se reproduziu, assinala-se as unidades que mais se distinguiram nesta batalha.

 

 
Continua a não saber-se, com exatidão, as baixas ocorridas na batalha de La Lys. Segundo Luís Alves de Fraga, referindo os números adiantados por Vasco de Carvalho, em 1923, o quadro de baixas seria o seguinte:


As estatísticas do CEP “apontam para 32 oficiais mortos e desaparecidos na batalha e, em 1993,computavam-se 6 535 praças prisioneiros, mortos no cativeiro e desaparecidos, enquanto o número de sargentos ascendia a 364 prisioneiros, mortos no cativeiro ou desaparecidos”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão, como Luís Alves de Fraga, com base no quadro do livro «História do Exército Português (1910-1945): Estado-Maior do Exército», III Volume, 1994, página 123, dizem-nos que “a lista de perdas portuguesas em La Lys é de 299 oficiais e 6 684 sargentos e praças, mortos, feridos e prisioneiros, um terço da força combatente a 9 de Abril. Não se conhece o número exato de feridos, porque ficaram no terreno ocupado, mas nunca terá sido inferior a 1 500 homens. No cativeiro faleceram mais 233 militares".

 


Se analisarmos o quadro acima das baixas, o que é mais espantoso é a enorme desproporcionalidade do tipo de baixas. Tanto prisioneiro, comparativamente aos mortos, é sinal mais que evidente que o moral das tropas era muito baixo, que estavam no limite máximo do seu esgotamento físico, psicológico e anímico, perante um inimigo que se mostrava tão verdadeiramente avassalador.


Mas, se por outro lado, formos ver o balanço da ofensiva da Operação Michael, os ingleses não se podem queixar muito do que aconteceu em La Lys. A derrocada das linhas portuguesas, não foi no entanto muito diferente da que tinha ocorrido com os britânicos em 21 de Março, onde durante as primeiras horas após a violenta barragem de artilharia, se renderam 21 000 britânicos.


Isabel Pestana comenta que “a perda de milhares de militares nas fileiras portuguesas para o cativeiro alemão foi mais significativo porque contribuiu para o desfalque [já de si bastante crítico e] que se fazia sentir há muito nas unidades militares do CEP, penalizando os sobreviventes ao serem obrigados a permanecer, muitas das vezes desmoralizados, numa campanha que não via receber tropas frescas para proporcionar o descanso merecido e há tanto tempo desejado”. Aliás muitos dos acontecimentos que a seguir sucedem, como as insubordinações, não se compreendem sem a devida compreensão desta realidade.


Há uma certa tendência, entre nós, em resumir a nossa participação na Frente Ocidental àquilo que apelidamos de o desastre de La Lys. Nada mais erróneo! Estamos plenamente de acordo com Isabel Pestana quando afirma que “dois anos de campanha não se reduzem a uma batalha que, ainda por cima, não se saldou por grande número de mortos ou feridos: os combates de Janeiro a Março [de 1918] foram mais mortíferos e desmoralizadores que La Lys!”.


Bazílio Telles, no seu opúsculo «Na Flandres (O episódio de 9 de Abril)», de 1918, não o classifica como um desastre, simplesmente um mero «episódio militar». É certo que este opúsculo foi escrito quase imediatamente a seguir ao acontecimento. Contudo, no contexto dos combates que se deram na Grande Guerra, positivamente, está mais próximo de um episódio do que de um desastre, coisa que Ferreira do Amaral, mais contristadamente se lastima que, em Portugal, assim se entenda.


Os dois anos de campanha do CEP na Flandres, de duas divisões desfalcadas e desmoralizadas, pelos motivos já amplamente expostos, numa frente variável, mas extensa para qualquer exército Aliado que fosse, apesar de todos os problemas com que o comando superior e unidades de combate na Frente se debateram, não se pode considerar, objetivamente falando, num fracasso. A exemplo de outros exércitos Aliados, teve os seus altos e baixos e, como se expressou, e bem, o general Fernando Tamagnini de Abreu, quando deixou o comando do CEP, até ao dia 9 de abril de 1918, soubemos defender o nosso setor com esforço, sim, mas com valentia.


Se quisermos fazer uma análise/avaliação destes dois anos de campanha, diríamos que, em 1917, o setor português, e na terminologia de Isabel Pestana “viveu o usual ritmo alternativo de momentos de espera e de momentos de combate, mais desgastante que nas outras zonas Aliadas devido à incapacidade portuguesa de facultar descanso às tropas que [...] permaneciam demasiado tempo na Frente”. Já o ano de 1918 foi bem diferente. Agudizou-se mais a carência de homens frescos para revezar a Frente, aumentou, principalmente no primeiro trimestre o «tempo de combate», que trouxe muita desmoralização às tropas. Não admira, assim, que, quando surge o mês de março, de intensos combates, este tenha sido um mês terrível, de mortos, feridos, doentes, à mistura com medo e pânico, um verdadeiro inferno para as tropas portuguesas. É nesta altura, ainda segundo Isabel Pestana, que “acontece o maior número de mortos em campanha, muitas vezes sepultados à pressa, ou enterrados nos escombros da 1ª linha e que se enchem as ambulâncias e os hospitais com combatentes de feridas abertas, esvaídos em sangue e, por vezes, mutilados”.


Houve, positivamente, um esforço notável das nossas tropas nos primeiros três meses de 1918, como a seu tempo demos conta. E nem vale agora a pena falar dos defetistas, desertores e dos oficiais a quem faltou Honra, Valor e Lealdade. Supervalorizar certos grupos pelo seu comportamento, pouco em conformidade com os compromissos assumidos para com uma profissão e para com a Pátria, é não dar o devido valor aqueles - e foram felizmente muitos - que, com todas as suas forças, honrarem a farda que vestiam e o País que representavam, ao lado dos nossos Aliados, independentemente de quem ocupava, num momento concreto, o poder político em Lisboa.


Perante a avalanche de metralha e aquela multidão de tropas de assalto, numa desproporção tão significativa, nenhum outro exército Aliado poderia ter feito muito melhor. Com certeza que poderia oferecer mais resistência, com maior número de mortos e, possivelmente, não tantos prisioneiros, contudo, o resultado final não seria muito diferente daquele que verificámos nos dias 9, 10 e 11 de abril de 1918.


Neste ponto, e concluindo, estamos com Isabel Pestana quando afirma que “a presença portuguesa de dois anos e três meses em terras francesas (Janeiro de 1917 a Março de 1919) [não se pode resumir] a única batalha, conhecida pelos ingleses por «Armentières», e apresentada sempre com recursos a adjetivos dignos de fantásticas e literárias figuras de estilo mas a poucos factos”.


E, quanto a este ponto, não resistimos em aqui deixar o ponto de vista de um bravo, antigo combatente, polémico, mas magoado, e frontal. Ferreira do amaral «queixava-se» assim: “A agência «Reuter» germanófila dos pés á cabeça, refere em 10 de Abril a resistência que os portugueses opuseram ao avanço dos alemães e elogia a bravura com que se bateram apesar de terem perdido os apoios dos flancos, mas o cidadão português é que não vai na fita e chama-lhe o desastre de 9 de Abril! O «Times» e o «Daily» Mail», jornais ingleses, em 11 e 12 prestam a mais sentida homenagem á bravura e sacrifício com que se bateram as quatro Brigadas Portuguesas, mas o cidadão português é que não vai no jogo e insiste em chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!! O «Matin» e o Telegrame de 10 e 11 referem-se ao valor dos portugueses que se bateram na Flandres no dia 9, 10 e 11 de Abril, como se se referissem ao valor provado dos seus compatriotas, mas o cidadão português é que não vai atrás do choro... e continua a chamar-lhe o desastre de 9 de Abril!!!” (Amaral, 1923: 46). E continua: “Resumindo: para o general Ludendorff o ataque de 21 de Março representa um alto feito de armas, e o ataque de 27 de Maio (Chemins des Dames) representa uma grande vitória tática. E ao referir-se a 9 de Abril não se dá por satisfeito! O cidadão português não acha que Ludendorfl se mostra exigente quando aprecia o 9 de Abril? Ele que atacou com 17 Divisões à frente de Armentiéres a Bethume e só para o ataque de frente feito contra os portugueses destina 8 Divisões, é porque com alguma cousa contava pela frente. A nós pelo menos parece-nos isso. Mas o cidadão português é muito esperto, muito desconfiado, muito astuto, e não vai com essas! O 9 de Abril continua a ser um desastre!”. Para, assim, concluir: “Em Portugal todos os políticos, (sem exceção alguma), discutiram muito o 9 de Abril, mas todos eles não procuravam sinceramente salvar a honra da Nação. Toda essa miséria moral nada mais foi do que uma discussão de interesses partidários e pessoais!”.


Mendo Castro Henriques e António Rosas Leitão dizem que a batalha de La Lys “deu origem à quase totalidade dos prisioneiros de guerra portugueses, que até essas data era insignificante. Antes da ofensiva de 9 de Abril havia apenas 102 prisioneiros. As estatísticas oficiais registam precisamente 7 000 prisioneiros internados nos campos de prisioneiros da Alemanha, dos quais 274 oficiais. O conjunto de mortos e feridos do CEP, que mobilizou 55 083 homens para a Flandres, foi calculado em 7 384 homens [nos dois anos de campanha, conforme quadro que abaixo se apresenta], ou seja, 13,4% dos efetivos, [portanto] abaixo da média da Grande Guerra”.

 


Para finalizar, queremos deixar aqui o ponto de vista de um velho republicano, Bazílio Telles, que, logo a seguir ao 9 de abril de 1918, assim se exprimia: “Ninguém melhor que um militar, e um militar distinto, sabe que a superioridade numérica não é sempre condição imprescindível para o êxito dum ataque. Outras condições, algumas de mais importância do que essa, influem no resultado que se teve em mira colher duma ofensiva, particularmente se acaso se lhes veio juntar algum incidente meteorológico, topográfico, ou doutra ordem, favorável aos projetos do inimigo. Igualdade de efetivos pode muito bem coadunar-se com uma vitória completa do atacante, se este conta do seu lado outras superioridades sobre as forças investidas”. E dá o exemplo de Aljubarrota. E, mais adianta, acrescenta que, “por mais que a velha organização militar se modifique, por mais que se aperfeiçoe o armamento, subsistem fatores imutáveis de vitória, que nenhum progresso material, nenhuma complicação de agrupamento de unidades, são suscetíveis de alterar de maneira apreciável, que vem a ser as qualidades, o temperamento, o caráter das populações dum certo país, seja qual for. A primeira, a imprescindível condição para vencer é possuir conhecimento completo do que é estrutural na alma dum povo, da série dos móveis, dos estímulos habituais ou transitórios capazes de a fazer entrar em vibração, tirando-lhe assim o máximo esforço no sentido que se quer. Não é só lendo tratadistas profissionais estrangeiros, que só podem ensinar o que num exercício há de exterior, é sabendo de cor a história desse povo, não unicamente a história militar, a integral, que se consegue ser um bom chefe de soldados. A técnica da profissão é a tabuada, se nos relevam este modo de exprimir; mas a história nacional é o a b c. A primeira é preciosa, a segunda é indispensável”.


Nunca ninguém manifestou grande empenho em inquirir porque foi que se venceu; todos anseiam sempre por saber porque é que se foi vencido. Aos olhos do grande público a vitória tem, ou parece ter, em si a sua razão suficiente; a si, e por si própria se justifica; é um facto que se toma sem lhe determinar as condições. A derrota exige, ao contrário, que se lhe apure os motivos, se lhe destaque até ao ínfimo pormenor os antecedentes e as fases, se lhe conheça os responsáveis, pessoais ou impessoais. Ninguém jamais regateou o preço porque se triunfou do inimigo; discute-se o último ceitil que se despendeu com uma derrota. A natureza humana é assim feita, deste barro grosseiro, em toda a parte; e nem a Geografia nem a História lhe modificaram até hoje a estrutura. Não faltam nesta guerra os episódios que nos conformam a realidade destas contraditórias exigências morais das multidões consoante se vence ou se é vencido
”.

 

Nesta guerra, na Flandres e na África, conforme enfatizámos na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, os militares do RI 19, e de Chaves, deram provas bastas de bravura, de amor e dedicação à República e à Pátria. Para além dos simples, humildes e anónimos homens que se bateram bravamente nos diferentes campos de batalha e de que a história não reza, outros há que ficaram com o seu nome bem marcado nas suas páginas, como sejam, Bento Roma, Germano Ribeiro de Carvalho e o celebérrimo soldados Milhais, o «Milhões»…

 

Contudo, num ponto, estamos de acordo com Filipe Ribeiro de Menezes, professor de História na Universidade de Maynooth, na Irlanda, na sua obra «De Lisboa A La Lys – O Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial»: “Em La Lys findou o sonho de uma República capaz de transformar os destinos de Portugal, do seu domínio colonial e dos Portugueses de todo o mundo, mobilizando todas essas forças em torno do sacrifício dos soldados nas várias frentes de combate e da valorização, pelo mundo fora, do bom nome português”.

 

100 anos volvidos, será que aprendemos efetivamente a lição, pelo que foi a história dos nossos «maiores»?...

 

António de Souza e Silva

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

CENTENÁRIO DA PARTIDA DO 1º BATALHÃO DO RI 19

PARA A FLANDRES-GRANDE GUERRA

 

 

Numa publicação, saída na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, dávamos conta não só do contexto nacional deste conflito como referíamos a participação dos militares do Regimento de Infantaria 19 (RI 19) na Grande Guerra.

 

No próximo dia 23, por ocasião dos 100 anos da partida do 1º Batalhão do RI 19 para a Flandres/grande Guerra, será lançado, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves, o livro da nossa autoria Grande Guerra - Enquadramento Internacional.

 

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Deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) as singelas palavras do Prefácio que, em 2015, escrevíamos:

 

“Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

 

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

 

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.

 

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

 

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

 

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

 

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

 

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

 

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

 

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

 

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”.

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerra Mundial).

 

Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças, do outro diferente.

 

Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos de há 100 anos terão algum sentido e valido a pena.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

CAPOTE DE GUERRA

Estarei eu por aqui por causa do capote que o meu avô António Moreiras usou na Grande Guerra?

Esse mesmo que lhe serviu de mortalha em 1976!

 

A 11 de novembro de 1917, o destino do Corpo Expedicionário Português na Grande Guerra ficou, dramaticamente, traçado, na reunião do Oberst Heeresleitung na Marie de Mons, sob o comando do general alemão Erich Ludendorff.

 

A entrada dos Estados Unidos na guerra, foi o motivo que justificou a intensificação da ofensiva alemã na Frente Ocidental. A Alemanha queria ganhar a guerra antes que os americanos entrassem no teatro das operações.

 

A primeira das ofensivas decididas para essa frente, naquele conselho de guerra, teve lugar em março de 1918, aproveitando as tropas provindas da frente oriental por força do Tratado Tratado de Brest- Litovsk, assinado com a Rússia em março de 1918.

 

Na presunção de bom tempo, os alemães escolheram a primavera para o golpe final, centrando o primeiro esforço na região do Somme. A estratégia consistia em flagelar esta zona de união entre o exército britânico e o francês. Através de pequenas ofensivas noutros pontos, fixavam as tropas inglesas para que não pudessem acorrer ao Somme. Daí que desde março, o setor português começasse a ser atacado em força, fazendo crer que se concentraria aí a força principal da guerra.

 

Ora os nossos Lãzudos que ocupavam o setor do rio Lys, começaram a sentir, a partir de março, um recrudescer inusitado da intensidade de guerra e cortavam prego quase todos os dias, com a frequência da metralha dos boches.

 

Na noite de 11de março de 1918, parte da linha da frente no subsetor de Fauquissart, próximo de Laventie, era ocupada pelo Batalhão de Infantaria 20 de Guimarães, que fazia parte da célebre Brigada do Minho, que havia de ser dizimada na noite de 9 de abril. Na linha B, por essa ocasião, encontrava-se parte do Batalhão de Infantaria 3 de Viana do Castelo do qual fazia parte António Pereira dos Santos 1º Cabo de Infantaria com o nº 814. Fora mobilizado em Agosto, pelo Regimento de Infantaria 19 de Chaves e colocado em 23 de novembro de 1917 na 4ª companhia do 1º Batalhão de Infantaria nº 3 de Viana do Castelo.

 

Na retaguarda, ao abrigo dos perigos mais eminentes, embora cumprindo um papel fulcral na guerra, que era o de tratar dos feridos, por isso não era considerado um cachapim, estava colocado um Capitão médico, mobilizado também pelo RI 19 de Chaves. Tratava-se do Dr. Adelino Augusto Fernandes, já com 41 anos de idade, colocado na ambulância nº 1 em 4 de agosto de 1917 e nomeado Chefe dos Serviços de Saúde da 6ª Brigada de Infantaria em 7 desse mesmo mês.

 

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Uma vez nas trincheiras, os soldados iniciavam um calvário diário de convívio com a metralha. Os dias eram violentíssimos sob o ponto de vista físico, mas sobretudo psicológico. Porém, à medida que o corpo, mais até o espírito, se iam habituando àquela estranha forma de vida, o convívio com o sofrimento e a morte ganhavam novos contornos sob pena de ser insustentável tal inferno.

 

A Avenida Afonso Costa, como era chamada, jocosamente pelos militares, a Terra de Ninguém, era o espaço entre as primeiras linhas Aliadas e as alemãs, bem como todo o ambiente bélico que a rodeava, tinham o aspeto desolador que o romance de José Rodrigues bem relata:

 

“A terra estendia-se pelo campo quase plano, desértico e desolado, ao mesmo tempo molhado, enlameado, sujo. Até onde os olhos podiam ver o solo era revolto, árido, tudo se encontrava queimado, o chão apresentava-se esburacado pelas crateras de granadas de obuses e esventrados por minas, aqui e ali se viam-se poças de água e lama donde emergiam ferros contorcidos, um ou outro cadáver humano em decomposição, ossos, botas com os pés decepados lá dentro, farrapos de uniformes, ratazanas mortas a boiar. As únicas coisas de pé naquele tenebroso mar de desolação eram as redes enrodilhadas de arame farpado, árvores calcinadas sem folhas e com os troncos carbonizados, paredes incompletas do que outrora foram casas e não passavam agora de tristes e irreconhecíveis ruínas.”[1]

 

O dia-a-dia na trincha era horrível, desumano. Quando chovia, o que era vulgar na Flandres, os soldados tinham de lutar, comer e dormir, semanas a fio, ensopados e engaranhados. A lama estava por todo o lado. A desmoralização e a doença ia aos poucos desgastando a moral dos infelizes combatentes. Para além dos boches, os piolhos não deixavam descansar ninguém. As ratazanas, grandes como gatos, e os corvos, negros como a fuligem, tornavam ainda mais pesada aquela cruz, pois roíam e debicavam os cadáveres dos camaradas que à vista dos vivos jaziam, semienterrados, na Terra de Ninguém. Na própria trincheira os bichos roedores disputavam o espaço e mesmo a comida dos infelizes expedicionários.

 

A convivência diária com os elementos bélicos, ligados ao sofrimento e à morte, destroçavam a mínima réstia de esperança que os iluminasse: a imagem da morte tornava a vida um martírio como bem nos relata Pedro Freitas:

 

“Os cadáveres de soldados, mulas, cavalos e mais fragmentos macabros, são em abundância e em verdadeiro estado de putrefacção. Espalhados à superfície da terra, incomodam-nos, horrorizam-nos. (…) O apetite desaparece (…). [Os] engulhos de enjoo [são frequentes] por ter-se topado com uma perna ou cabeça a granel de mistura com a pá ou a picareta.”[2]

 

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O espaço nas trincheiras era exíguo e a orientação muito difícil, sobretudo à noite. Para além disso, os rigores naturais da vida na frente, no que respeita ao terreno e ao clima, afetavam profundamente os militares. A ausência generalizada de hábitos de higiene pessoal, ou a dificuldade em os praticar, ajudavam a propagar pragas de piolhos, pulgas e outros parasitas, espalhando o desconforto e a doença.

 

Aos momentos de espera seguiam-se os momentos de combate. Os primeiros eram ocupados na limpeza das armas, no remuniciamento, na faxina, na construção e reparação das trincheiras, em breves momentos de descanso, ao que se juntavam os serviços de vigília e de patrulhamento. Constituíam estes espaços de tempo, momentos de grande desgaste físico e psicológico, como nos diz Rodrigues dos Santos:

 

“O que inicialmente não parecia passar de uma fantasia irreal transformou-se agora em perigo letal, deixou de ser brincadeira e começou a ser pesadelo. Vieram os tremores, o suor, o horror, a impotência. Matias começou gradualmente a perceber que a guerra era feita de oitenta por cento de tédio e rotina, dezanove por cento de frio polar e um por cento de puro horror, o mesmo horror que naquele momento o paralisava, a si e aos seus companheiros. Fugir dali estava fora de questão, mesmo que os regulamentos militares o permitissem. Os abrigos encurralavam-no, é certo, mas sempre ofereciam alguma protecção. Lá fora, sob a tempestade de aço e fogo, suspeitava que não seria possível sobreviver muito tempo.”[3]

 

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Os momentos de combate, eram aqueles em que se respondia ao fogo inimigo e se esperava a morte a cada minuto. A capacidade destruidora de armas novas como a metralhadora e sobretudo o gás tóxico, sujeitavam os homens a grandes tensões emocionais. De tal forma que nem a pena de morte, por fuzilamento, instituída para os desertores, retirava da mente dos soldados a possibilidade do cavanço. O medo, a que a gíria da malta chamava cortar prego, mitigava a ponderação da fuga sempre presente na mente dos combatentes mais fracos.

 

As relações estabelecidas entre os combatentes entrincheirados, baseavam-se num crítico equilíbrio entre os momentos de espera, os mais frequentes, e os de combate. As relações de amizade cultivavam-se na presunção de que a desgraça, partilhada, se suportaria melhor. Porém, durante o combate, aflorava o instinto individual de sobrevivência e era cada um por si. Apesar disso, as manifestações de solidariedade eram mais frequentes do que à primeira vista se possa supor, como se verá.

 

A gestão temporal na frente, obrigava a ritmos de vida desconhecidos e originais. A luz solar definia os limites temporais de dois momentos charneira nas suas vidas: o a postos da noite, uma hora antes do anoitecer e o a postos da manhã, na madrugada de cada dia. A noite era o tempo mais difícil e de maior aperto psicológico. O silêncio imposto, o arraial de very-lights e o trovão dos canhões era constante e assustador. À noite, o inimigo fustigava mais. O a postos da manhã desvendava o horror da metralha que teve lugar nas trevas da noite. Apesar de tudo, a luz do sol descansava a alma dos guerreiros que tinham resistido, intactos, a mais uma etapa no fio da navalha.

 

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O a postos daquela noite de 11 de novembro, no front de Fauquissat, tinha sido calmo e sem qualquer novidade. Tudo foi conferido e cada militar ocupava o seu posto para fazer face às surpresas da noite. O frio era cortante e o crepúsculo fazia adivinhar mais uma noite de intenso sincelo. Como se isso não bastasse, os desgraçados soldados que aguentavam a noite ao sereno conviviam com o perigo sempre presente de um bombardeamento de morteiros ou de um raid alemão que os dizimasse. Havia, por isso, que estar alerta e ocupar os postos de vigia acima do parapeito observando com muita atenção as movimentações dos boches do lado de lá do Campo de Ninguém.

 

Não seria ainda meia-noite quando a besta deu os primeiros urros! Primeiro uma saraivada de morteiros ligeiros, talvez para corrigir o tiro uma vez que rebentaram ainda longe da primeira linha, depois uma chusma de morteiros mais pesados que faziam tremer o chão e cortar prego aos nossos infelizes soldados que se enterravam quanto podiam na lama gelada para se safarem dos estilhaços. Por fim, morteiros pesados que onde caiam arrasavam. Por volta das duas da manhã, um desses morteiros graúdos caiu em cheio na Linha B e apesar do zingue-zague da trincheira, desfez o corpo dos soldados mais próximos, feriu gravemente outros e soterrou muitos deles. Os maqueiros foram chamados em socorro, mas não davam vazão ao sofrimento, de forma que foi preciso mobilizar todos os efetivos de saúde que estivessem mais próximos.

 

O nosso Cabo António estava na linha C, perto do abrigo do comando, onde, entretanto, tinha chegado o Capitão médico Adelino Augusto. O Capitão deslocou-se da retaguarda por reconhecer que os maqueiros não dariam vazão a tanto sofrimento. Porém, com a pressa de socorrer os infelizes, vinha desprevenido. As botas em mísero estado e o capote tinha ficado esquecido com a pressa no abrigo da retaguarda. Quando o Cabo soube que o Capitão Fernandes estava ali em trânsito para a linha B, foi ter com ele e ofereceu-lhe as suas botas e o seu capote para que ele pudesse deslocar-se em melhores condições. Assim foi. No regresso, o reconhecimento do seu gesto de altruísmo foi tal que, para além de muito agradecimento, o médico quis saber quem era aquele Cabo e anotou os seus dados pessoais.

 

Como o Cabo António e outros 6 500 camaradas dos cerca de 25 000 que a 2ª Divisão tinha na frente naquela noite, também o Capitão Fernandes foi feito prisioneiro, um mês depois, na célebre batalha de La Lys. Nunca mais se encontraram, uma vez que os oficias prisioneiros da Citadelle de Lille seguiram juntos para Rasttat na Floresta Negra e mais tarde para Bressen. Os praças-de-pré (soldados rasos, cabos e sargentos) foram dispersos por vários campos por esse império alemão que se entendia até à longínqua Rússia.

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A Grande Guerra acabou a 11 de novembro de 1918, o Cabo Santos regressou a Chaves em fevereiro de 1919. O Capitão Fernandes regressou no Pedro Nunes em finais de dezembro de 1918.

 

Passado alguns meses e já na peluda, na sua terra natal, Amoinha Nova, António Moreiras, como era conhecido, recebeu uma missiva de Adelino Fernandes, já Major, para que, indo a Chaves, o visitasse na sua Casa de Saúde em Santo Amaro. Assim foi, António aproveitou a primeira feira e foi ter com o Major médico.

 

O Dr. Adelino recebeu-o com grande estima e após uma longa conversa as recordar a guerra, mandou chamar o seu filho Augusto Fernandes, também ele médico. Depois de lhe contar o sucedido, recomendou-lhe que doravante deveria considerar o senhor Antoninho Moreiras como um grande amigo da família. Assim foi até à sua morte, infelizmente prematura, como já havia sido a de seu pai.

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O Major Dr. Fernandes faleceu em 28 de Maio de 1943, com apenas 67 anos de idade, passando o seu filho a ser o médico da família sem que alguma vez tivesse cobrado um único tostão pelos serviços de saúde prestados.

 

Por isso, a 9 de maio de 1957 nasci eu, neto do Cabo António, na Casa de Saúde do Dr. Fernandes em Santo Amaro. Um privilégio, num tempo em se se nascia em casa aos cuidados das parteiras curiosas, com todos os ricos inerentes.

 

Talvez eu deva a vida àquele gesto, longínquo, do meu avô e ao seu capote, pois diz a minha mãe que o parto foi tão difícil que só sobrevivi porque o Dr. Fernandes, que me tirou a ferros e me fez respirar, quando as enfermeiras já me tinham dado como perdido, estendendo-me numa cama para a salvarem a ela!

 

– Já que o filho não se salva, salve-se sequer ao menos a mãe – diziam elas!

 

“Faz o bem e não olhes a quem” - Diz o povo e digo eu, fosca-se!...

 

Coisas da guerra!

 

Gil Santos

 

[1]Cf. José Rodrigues dos Santos, A filha do Capitão, Lisboa, Gradiva, 2007, p. 229.

[2]Cf. Pedro de Freitas, As minhas Recordações da Grande Guerra, Lisboa, L.C.G.G., 1935, p. 51.

[3]Cf. José Rodrigues dos Santos, 2007, Ob. Cit. p. 251.

 

 

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2015

A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial - De Chaves a Copenhaga

Vamos então ao tal post referente à apresentação do livro «A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial - De Chaves a Copenhaga», de autoria de Gil Manuel Santos e Gil Filipe Santos, com a transcrição na íntegra do texto de apresentação proferido pelo Prof. José Machado, ao qual desde já agradecemos por tê-lo disponibilizado para publicação no blog.

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Santos, Gil Manuel; Santos, Gil Filipe (2014) A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial De Chaves a Copenhaga. Âncora Editora. Fundação Vox Populi. Lisboa.

 

O piolho é inteligente

Companheiro do soldado

Por morder tão fortemente

Deve ser condecorado

 

O corned beef afamado

Zangou-se com o feijão

Foi dado incapaz o vinho

Anda de licença o pão

 

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 Prof. José Machado na apresentação do livro em Chaves, no passado dia 31 de janeiro

 

Estas duas quadras foram-me transmitidas pelo doutor Avelino Lestra em 4 de Abril de 2009, a propósito das agruras passadas pelos soldados e das circunstâncias em que o foram na I Grande Guerra Mundial, acontecimento que aqui nos volta a trazer, quase cem anos passados, por causa dos incómodos que a mesma causou e continua a causar, tantas são as semelhanças de mundo que hoje aproximamos dela e tantas são as consequências inquietas de nos terem ficado em guarda os documentos memoriais daqueles que a fizeram e a sofreram. O neto e o bisneto do soldado António dos Santos herdaram o livro da inquietação e agora andam a dá-lo a ler a nós todos que ainda guardamos alguma memória da fala que o veicula, essa linguagem da oralidade rural, esse pronunciamento dialectal da nossa língua mãe, a arca de todas as nossas criações. Eu já dissera em outras ocasiões quanto este documento manuscrito fora meu encanto de ler, ouvindo nele essa forma de falar que os puristas sempre consideram produto de incompletas ou ausentes aprendizagens escolares, mas que os poetas e linguistas e etnólogos hão-de considerar viveiro de cognição, retrato de lugar, estado de alma, expressão vital.

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Gil Santos vestindo o personagem de seu avô, combatente da I Guerra Mundial

 

(uma oralidade arcaizante, não só na escrita de vocábulos, mas também na construção das frases, nesse estilo exclamativo e lamentativo de Fernão Lopes Oh que, ó, ó, ai, ai que, nesse amalgamento de palavras, nessa inversão dos elementos da frase: virgo – eis - aqueis – alembrar – espedir – feluge – adervetir – bagas – esbruçar – aispera – terpar – desapiar-se – esbagoar – atromelizar - tolheitos – imporem – esbandalhados – nada ouve por deus crer – cribar – estermozo – nevoeira – plaino – estardalhada – lonjura – dejejuar – devérias – necidade – espormentar – podendo eis que tanto tinham com quê – inleticidade – ingrunhar – tamoeiros – afazer-se – mesturar – à escapula – terboada – chamiças – lisquinha – cacabinas - mourões – joeiras – bejocarias – astrever – cabotar – monjir – comestivos – leva unicamente o que menos puder levar para melhor se poder desenvolver – bagar – catar – ficar em nu – escabado – avivar – rebotezinho -)

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Considero muito feliz nesta edição o trabalho de entretecer o relato do manuscrito com a história, tomando-o como fio condutor da investigação, citando-o amiúde e dando-lhe a mancha gráfica sanguínea de prova absoluta. Agora vou-me fixar nas obsessões da escrita deste homem que foi à guerra e veio dela para deixar ainda muito por dizer, porquanto o que verdadeiramente passou só Deus o saberá. Passou, cá temos então o verbo nuclear de todo o relato do soldado António, verbo pleno de valores semânticos, quase em absoluto realizado, apenas lhe faltando o sentido de passamento pessoal final, mas concretizado que foi em todos aqueles que caíram ao seu lado ou que viu em todos os estados de configuração do que é morrer em guerra. Em que obsessões me fixei então como leitor? Em primeiro lugar no próprio processo intrínseco à oralidade da escrita que consiste na repetição circular de palavras e expressões para dizer o que pretende; a repetição na oralidade é a prova, a marca do vivido, a sua expressão total. O recalcado, pela repetição é que ganha o sentido pleno. Os traumas requerem a circulação, a perífrase, a repetição, para veicularem as vivências que os

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Grupo Coral Allegretus de Braga com atuações a abrir e fechar a apresentação do livro

 

originaram. O sujeito da enunciação é um jovem adulto, lavrador, basicamente escolarizado, mobilizado de urgência para a vida militar e para uma situação de guerra fora do seu país e complexamente justificada como sendo a favor da pátria em perigo. O sujeito da enunciação vai viver intensamente dezoito meses e vai verbalizar esta intensidade do vivido com a linguagem que traz de sua infância e adolescência e vida aldeã. No resultado final, o discurso apresenta alguns casos de assimilação e de adaptação vocabular, integra alguma linguagem militar primária, mas é todo estruturado a partir da linguagem matricial da ruralidade, da terra, da lavoura. É nesta massa discursiva que ganham dimensão cinco áreas da cognição forçada que a guerra obriga o sujeito a fazer: uma, a expressão da saudade, outra a expressão da fome, outra a expressão do medo, outra a expressão da sobrevivência, outra a expressão da consciência militar. Na expressão da saudade, ouvimos o soldado a reunir as palavras para nos falar da dor da separação dos pais e dos irmãos e dos vizinhos, ouvimo-lo também integrar neste espedimento e nesta despedida as terras do seu lugar (Ao passar dizia adeus / às terras que cultivava…), as mesmas terras a quem se dirige no regresso: (Como estais veigas tão belas / Pensei mais de vos não ver…), numa revelação religiosa da integração dos valores queridos, transcendentes, em nome dos quais aceita ir dar a vida (recusando a ideia de fuga ou

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 Gil Santos, também cantor, aqui num "fado de guerra"

suicídio). Serão os pais, mas será também a sua aldeia a estar sempre presente na expressão deste sofrimento da distância, lembrando, nos momentos de esconjuro do inimigo, as festas do natal, do carnaval e da Páscoa, lembrando a beleza ímpar do lugar onde nasceu. Na expressão da fome, o pão é o vocábulo paradigma de toda a construção discursiva: ter pão, comer pão, arranjar pão, distribuir o pão. É em torno do pão, símbolo de toda a alimentação que a guerra provê ou cerceia, que esta vivência da guerra adquire simultaneamente a função traumática e a função heróica: (o nosso comandante encontrou-nos carregados de pão como ouriços-cacheirosÓ fome, fome, que és tão negra; verdadeiramente só te conhece quem por ti passa de vérias, mas de vérias… e viram que íamos cegos com fome…). A expressão do medo resulta de uma descrição das manobras militares a partir da linguagem mais chã, com recurso parco a vocábulos da esfera militar. Nesta expressão do medo sobressai a experiência do espanto com a artilharia, sobressai o cansaço das marchas e deslocações, sobressai o terror perante os corpos mutilados e mortos, sobressai o desespero das orações, sobressai o calculismo das sortidas à terra de ninguém. A presença de metáforas da vida quotidiana, como as covas dos castanheiros para referir o resultado das granadas, como as máscaras de carnaval para referir as máscaras anti-gás, como o recurso intensivo à metáfora da sorte, espelham bem como ele nos faz perceber a violência do não dito que foi a guerra em si. (Trouxe meu corpo sãozinho / é muito de alegrar / como é a guerra só acredita / quem porela assim passar…). A expressão da sobrevivência é dada por um discurso pontuado de ironias (a fartura podia-se bem com ela…), com uma descrição genérica dos procedimentos que, sobretudo na situação

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acompanhamento musical – Um dos temas foi a Marcha de Chaves

 de preso, determinaram a resistência física. Nesta organização discursiva sobressai a descrição da higiene corporal, o suor, as mudanças de roupa, os banhos, as desinfecções de roupas e enxergas, com referências aos piolhos e à qualidade do caldo, à lama das trincheiras, às condições de descanso ou de sono, pontuadas por alguma comicidade. O sujeito faz-nos perceber as dificuldades por que passou num estilo sumário de referências ao que come e às vezes em que o faz ou não faz, aos cuidados a ter com os guardas, às ajudas dos soldados franceses, às manhas de relação uns com os outros. É nesta área da expressão da sobrevivência que estão as peripécias mais divertidas, o que já diz da tenacidade rural em que foi preparado para a vida e das vantagens narrativas que no após guerra se podem tirar quando se tiver de falar da guerra. É nesta área de expressão que está também uma consciência irónica do que é mais difícil de suportar, se a guerra, se a sobrevivência (Fui meter-me na miséria / não faltando à verdade; deixei de combater balas / e fui lutar com a necessidade…) Finalmente a expressão da consciência militar, o sujeito constrói um discurso linear de cumprimento de ordens e de realização das manobras, sem dar qualquer sinal de que devia explicar ou justificar (cumprir o dever de soldado / bem me custou a cumprir…Em defesa da liberdade / compri minha obrigação / combati enquanto pude / contra o malvado alemão…).

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 Gil Santos num momento da apresentação do livro

 Neste aspecto o seu discurso tem de ser lido como cumprimento de um dever que remete o leitor para a procura de justificações a outro nível. Contudo a vivência da situação de prisioneiro deu ao sujeito matéria suficiente para a crítica não só ao inimigo mas também aos seus comandantes e superiores e até ao país na sua esfera de poder político. Este modo de expressar o descontentamento com o governo da república, ao fim e ao cabo com Portugal, pode revelar uma consciência crítica discursiva posterior à vivência dos acontecimentos, mas muito coerente com ela. O resultado final desta narrativa é o oferecimento aos leitores de uma experiência singular de vivências (esta a triste vida de um 1º cabo na Grande Guerra de 1917 e 1918) que, não problematizando os dados adquiridos nem avançando a defesa de qualquer tese, termina com a alegria do regresso ao seio materno, à terra, à Pátria, (Trouxe vitória e liberdade / não há riqueza maior) com a convicção de que só Deus saberá o que ele passou, de outra forma seria preciso um missal.

 

José Machado / Braga / 2015

 

 

 

 

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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2015

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O VALENTE MILITAR, O REPUBLICANO INDEFETÍVEL E O FIEL CAMARADA

ANTÓNIO GERMANO GUEDES RIBEIRO DE CARVALHO

 

I

 

Faz exatamente amanhã 100 anos que, de Chaves, o 3º Batalhão do RI 19, partiu para o sul de Angola, no âmbito da 2ª Expedição, comandada pelo general Pereira d’Eça, para, a partir de Moçâmedes, se dirigir para o Baixo Cunene, e combater os alemães da antiga Darmalândia (atual Namíbia), depois do incidente fronteiriço de Naulila, e a sublevação dos nativos, que os alemães implementaram, contra a soberania portuguesa.

Em meados de 1917, parte para a Frente Ocidental, Flandres francesa, um outro batalhão do RI 19 (o 1º), depois de a Alemanha ter declarado guerra a Portugal em março de 1916, constituindo o 2º Depósito de Infantaria do Corpo Expedicionário Português (CEP).

Não atuando este 1º Batalhão do RI 19 como uma unidade autónoma na Frente, a sua função, no teatro de operações da Frente Ocidental, era fornecer, às unidades em primeira linha, os militares que tivessem dado baixa naquelas unidades - nomeadamente, ou por licença, ou por doença ou morte.

Em muito pouco tempo, após a sua chegada a Flandres, praticamente todos os militares do 1º Batalhão do RI 19 estão nas linhas da Frente, integrados nas diversas unidades que combatiam - a sua grande maioria nos batalhões da 1ª, 2ª e 3ª Brigadas, da 1ª Divisão.

De muitos militares que do RI 19 se distinguiram na Flandres, vou hoje falar de um em especial.

Face à leitura que fazemos da História e das suas fontes, cada autor tem a sua preferência. A minha vai para António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho.

António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho foi mobilizado no RI 19, em 1917, para a Frente Ocidental, Flandres.

Integrava a 4ª Companhia, daquele 1º Batalhão, como comandante da mesma.

Logo que chega a Flandres, cedo teve de substituir um seu colega no Batalhão de Infantaria nº 21 (BI 21), da Covilhã, como comandante de Companhia. Naquele Batalhão e na companhia que comandava foi encontrar conterrâneos seus, de Chaves.

Deve-se à sua inteligência, valentia e ardor patriótica a iniciativa do maior - e com mais sucesso -, combate de infantaria (raid) levado a cabo pelas tropas do CEP durante a campanha na Flandres na Grande Guerra.

 

II

O Raid de 8 para 9 de maço de 1918 (*)

Peguemos nas palavras de um antigo combatente flaviense, também oficial do BI 21, e da companhia do capitão António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, alferes Alípio José da Cruz Oliveira, ator/interveniente neste raid, quando, em 1955, trinta e sete anos depois, nos descreve aquele cenário de guerra e os momentos vividos neste raid.

Sobre a nossa participação, no teatro de operações, começa por dizer: “Foi a 2 de Abril de 1917 que os primeiros infantes de Portugal penetraram no sistema defensivo [as trincheiras]. Dois meses depois, a 4 de junho, aguentaram, magnificamente, o primeiro embate a sério do inimigo. E o coração da guerra continuou batendo, ora com relativa calma, ora com violência, por vezes, brutalíssima, até que, ao declinar o rigorosíssimo inverno que, para os Portugueses, foi espantoso flagelo, as artilharias e morteiros de trincheira, de parceria com as metralhadoras, deram em não mais se calarem. O infante não podia dormir uns momentos porque a sua vigilância era permanente; passava seis dias consecutivos naquele inferno! Toda a sua capacidade de resistência, moral e física, estava ali posta à prova. O alemão, incansável e persistente, bombardeava, minuto a minuto, o sistema de trincheiras, à retaguarda, quaisquer pontos, ainda os mais recônditos. A sarabanda era contínua e, para cúmulo, as Linhas portuguesas, eram frequentemente investidas com raids enérgicos, de audácia sem limites”.

Quanto à figura do militar, alferes de infantaria, deixa-nos esta bem impressiva imagem: “O Alferes de infantaria, na 1ª linha, tinha, pois, de estar na plenitude do espírito ofensivo, da coragem, da audácia, da intrepidez, em suma, do arrojo e da valentia, com absoluta ausência de fatuidade, para ser o espelho das máximas virtudes militares - abnegação de santo e fulguração de herói”.

E, face a um Corpo de exército depressivo e amedrontado com a mastodôntica força huna, pequenos laivos da antiga e brava fama lusitana se levantam, inconformados pelo torpor provocado por uma vida de toupeira, querendo mostrar a valentia da raça de um povo pequeno, de alma grande, e, inconformado, desabafa: “Havia que pôr cobro a tal estado de cousas. O brio militar nacional impunha-nos uma desforra dura, mais enérgica ainda, um castigo severo em que ficassem vincadas, duma maneira que não oferecesse dúvidas a ninguém, as qualidades de valentia dos nossos soldados que, no dizer de Napoleão, são dos melhores do Mundo. E assim aconteceu. O General Gomes da Costa [...] interpretando fielmente o anseio de todos os que no CEP prezavam a sua farda, escolheu a 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria 21 [...] para dar execução a um desforço sensacional”.

Determinados para a ação, relata-nos os seus preparativos: “A 7 de Março, desse ano de 1918, tivemos pessoalmente a honra de, com o comandante António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho - um oficial de panache, ilustrado e de méritos invulgares - ouvirmos do prestigioso general o seu plano, que era de um ataque em forma a esse inimigo teimoso, que nos agredia sem tréguas [...] Mas que eram os «raids»? Eram operações que consistiam no assalto às linhas adversas, na mira de destruir, causar baixas, colher identificações. Na sua preparação, cuidadosa e metódica, realizavam-se vários trabalhos: escolhia-se o objetivo, fixava-se o efetivo atacante, elaborava-se o projeto, estudava-se a colaboração de artilharia, procedia-se a ensaios. À aviação competia a recolha de fotografias pormenorizadas da área que sofreria o «raid». Os oficiais que tomaram parte na ação de 9 de Março de 1918 puderam constatar o bom serviço produzido por fotógrafos da aviação britânica sobre comunicações nas trincheiras inimigas, bifurcações, cruzamentos, minas, postos de snipers, abrigos. Sabido que depois do alvorecer - do A postos - havia já condições menos favoráveis para a realização de operações desta natureza, escolheu-se a hora zero para noite cerrada ainda. Foi tomada, também, em linha de conta a situação atmosférica”.

O objetivo fixado era: “(...) dada ordem à Companhia de Assalto para, na madrugada do citado dia 9, executar um raid sobre as linhas alemãs com o fim principal de fazer prisioneiros e destruir um «decauville»”.

O ataque foi efetuado a partir do setor de Ferme-du-Bois em direção às trincheiras alemãs, conhecidas pelos nomes de «Sally Trench» e «Mitzi Trench». A companhia era constituída por um efetivo de 154 homens, divididos em quatro pelotões:

  • 1º Pelotão (esquerda), comandado pelo tenente Henrique Augusto;
  • 2º Pelotão (centro), comandado pelo alferes Vitorino Rodrigues Corvo;
  • 3º Pelotão (direita), comandado pelo tenente Luís de Souza Gonzaga;
  • 4º Pelotão (reserva), comandado pelo alferes Alípio Cruz de Oliveira.
  • Uma seção de Engenharia, da 3ª companhia de Sapadores Mineiros, comandados pelo alferes Costa Alemão, com a missão de transporte e emprego de explosivos.

Os pelotões de infantaria estavam organizados em grupos de corta-arame, metralhadoras, fuzileiros, granadeiros e limpadores de trincheiras.

A execução do raid é-nos assim descrita pelo nosso antigo combatente: “A ordem de operações, para a madrugada de 9 de Março de 1918, foi rigorosamente cumprida. O comandante Ribeiro de Carvalho começou por distinguir em quatro fases a sua execução: 1) - Estabelecimento em posição de espera, fora das nossas trincheiras; 2) - Avanço sobre a 1ª linha do adversário; 3) - Luta dentro da trincheira inimiga; 4) - Regresso às nossas trincheiras. [...] Foi de Ferme-du-Bois II que o «raid» se executou. Pelas 4 horas, debaixo de mil precauções, saltámos os parapeitos, atravessámos as defesas acessórias e, de rastos, pela terra-de-ninguém fora, fomos ocupar as covas donde, na hora zero, largaríamos para o assalto. [...] Meia hora antes os pelotões estabelecer-se-iam à saída dos arames, abrigados nas covas dos morteiros, evitando despertar a atenção adversa. Iniciada a operação, cada pelotão, precedido dum grupo de praças das mais resolutas, munidas de tesouras corta-arames, avançaria em duas vagas, seguindo na primeira os limpadores de trincheiras [...]. A nossa artilharia, sempre duma precisão matemática admirável, à medida que se avizinhava o momento decisivo, aumentava gradualmente a velocidade de tiro, alvejando as linhas alemãs em toda a extensão do setor português. Silvavam sem interrupção as balas das metralhadoras dos dois campos. Roncavam fortemente os morteiros [...]. Chegadas as quatro horas e cinquenta e cinco minutos, toda a artilharia do CEP, fez fogo de barragem sobre a frente a assaltar e sobre os pontos donde poderia surgir o contra-ataque. As armas automáticas varriam os entrincheiramentos. A potente artilharia pesada inglesa, deixando rastos rutilantes no espaço, batia a retaguarda alemã. Bem colados ao terreno, víamos o inimigo a vinte e cinco metros de nós, de pé, nos parapeitos, sondando o negrume da noite. Retínhamos o respirar como se fosse possível o inimigo ouvir o tic-tac do nosso coração. Os cinco minutos de barragem foram terríveis. Das trincheiras alemãs saíam, de toda a parte, projéteis iluminantes, enquanto saraivadas de balas vinham doidamente cair à nossa volta em uivos temerosos. O fogo saído das linhas aliadas passava uns centímetros acima das nossas cabeças, em lufadas ciclónicas, indo estoirar com fragor estupendo, uns metros adiante. Nesses minutos infernais, que Dante não imaginou, consultávamos os relógios de pulso,

 

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e certificar-nos da marcha acelerada para a hora zero e cosíamo-nos à terra, ainda mais, na impressão de que, se os monstros destruidores baixassem um milímetro, ficaríamos reduzidos a cisco [...]. A hora zero do ataque seria às cinco horas. [...] Chegou a hora grande. A artilharia portuguesa acalmou-se durante segundos para alongar o tiro [...]. Nesse instante supremo erguemo-nos de chofre e, feitos demónios, carregamos sobre o adversário. Os cento e vinte infantes lançaram-se ao assalto com denodo e galhardia, cobrindo os vinte e cinco metros, que os separava da linha alemã, desesperada, frenética e raivosamente, na ânsia de rapidamente vencerem. Depressa se precipitaram nas misteriosas trincheiras. Ato contínuo fez-se ouvir o concerto das granadas de mão a praguejarem maldições, o matraquear arrepiante das metralhadoras ligeiras e o rugir antipático dos tiros de espingarda e de pistola, disparados à queima-roupa. O feroz ambiente, realçado pela escuridão, aumentou até ao infinito o nosso furor, a nossa sanha de destruição, de aniquilamento, de morte. Lutámos como pudemos, à coronhada, à baioneta, a tiro, à granada, a murro, a pontapé. Transformámo-nos em feras selváticas. O soldado só é digno desse nome quando vende cara a vida porque ela pertence inteiramente à Pátria. A luta corpo a corpo dá instintos maus e desumanos. Aos portugueses de 9 de Março, não faltou arrojo, audácia, bravura e valentia. Aquele punhado de militares, pundonorosos, encarnou a alma de Viriato [...] O inimigo, valente e duro, nunca sonhara que tirássemos a desforra num ataque inopinado e impetuoso. Parecia desconhecer que o soldado português de hoje, quando devidamente comandado, opera os mesmos prodígios que os doutras épocas [...] O soldado alemão, incorruptível, dinâmico, de antes quebrar que torcer, bateu-se encarniçadamente contra os que, nessa madrugada heroica o arremeteram com cóleras leoninas. Preferiu morrer no seu posto a render-se. Foi devido à resistência sem par, desses soldados, nossos inimigos, que não pudemos regressar às nossas linhas com tantos prisioneiros quantos eram os defensores das trincheiras que atacamos. Singelamente prestamos aqui a homenagem do nosso respeito e da nossa maior admiração à memória dos alemães que souberam morrer”.

A força alemã opositora era o 260º regimento de Infantaria alemã.

Cumprido o objetivo do raid, há que dar execução à 4ª parte da operação traçada pelo comandante da força - o regresso às trincheiras - e avaliar-se do impacto da ação do inimigo atacante: “Devemos salientar que, quanto à nossa gente, não houve, na operação, mortos ou desaparecidos, facto este que se pode considerar milagroso. Todos regressamos a salvo, contando o ativo de vinte e cinco feridos, alguns de gravidade, estando entre estes o tenente Gonzaga e o autor destas descoloridas palavras, que era alferes”.

E o epílogo da ação é descrito pelo então alferes Alípio de Oliveira da seguinte forma: “A infantaria acabava de escrever a página mais brilhante do Corpo Expedicionário Português em França”. E, quanto ao comandante da força do raid, escreve: “ O capitão António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, verdadeiro «Gentleman», muito culto, demostrara as suas brilhantíssimas e excecionais qualidades de chefe. Os seus oficiais, sargentos e praças depositavam nele ilimitada confiança, seguindo-o contentes porque o seu talento, a sua grandeza de alma, o seu caráter nobilíssimo e imaculado, o seu maravilhoso espírito de camaradagem e a sua calma e refletida heroicidade, se lhe impunham absolutamente”. E quanto aos seus restantes camaradas: “O tenente Luís de Sousa Gonzaga, o saudosíssimo e já lendário Gonzaga, sans peur et sans réproche, fora sublime. O tenente Henrique Augusto de Lacerda batera-se com bravura e intrepidez. O soldado Baltazar jogara a sua baioneta com tanta gana que erguera com ela um dos antagonistas de ocasião, como se tratasse de uma rês. O «Montanhaque» correra sobre um alemão, que ostentava a Cruz de Ferro, esmurrando-o e trazendo-o às costas para as nossas linhas. O «Correcional», audazmente se apoderara duma metralhadora, cuja guarnição fora dizimada. Tantos e tantos episódios de bravura se deram a atestar o vigoroso impulso do ataque dos portugueses!”.

Obviamente que se trata do relato de uma pessoa que foi ator/combatente na ação. Tantos anos depois volvidos, o coração, os afetos e as memórias, em relação a um meio em que a morte estava sempre presente e a recordação dos camaradas que com ele viveram aquele dantesco mundo, constantemente a cheirar a morte, «pesam» mais e não são para esquecer nunca. E a razão, muitas vezes, pode sofrer da falta de objetividade que, nestas coisas, sempre se exige. Mas na guerra devemos essencialmente falar de quem a faz e a sofre - que foram estes homens. Se atentarmos no relatório, que superiormente, e normalmente se faziam, para enviar ao ministério da Guerra, o essencial dos factos, relatados pelo antigo combatente, aqui estão. O que está a mais é o coração de um combatente, que fala.

E a testar o feito estão as palavras do marechal Sir Douglas Haig, comandante superior dos exércitos britânicos, quando escreve aos representantes superiores do CEP: “Queira aceitar as minhas calorosas congratulações pelo excelente resultado do raid executado na manhã do dia 9 do corrente pelas tropas portuguesas ao Sul de Neuve-Chapelle”.

Luís Alves de Fraga, um historiador da Grande Guerra, refere-nos que o objetivo da ação teve como finalidade perfeitamente expressa “manter elevado o moral das tropas da 1ª divisão e obrigar o inimigo a temê-las”. Embora o objetivo que este autor expressa não seja aquele que vem transcrito no relato que acabámos de citar por Alípio de Oliveira, não nos parece, de todo, que haja aqui qualquer divergência ou contradição. Na verdade, para além dos objetivos específicos de cada raid - os que Alípio de Oliveira referiu - o objetivo geral de todos eles era o de manter o moral elevado das tropas, intimando o inimigo. E isto quanto mais se tratava de uma ofensiva de iniciativa portuguesa.

Diz ainda Luís Alves de Fraga, quando fala deste raid, que “é através da análise das recompensas que se dão aos militares que se pode avaliar a importância de uma operação e o comportamento da tropa nessa ação”. Este raid foi o que teve o maior número de louvores, promoções por distinção e distribuição de medalhas de Cruz de Guerra, sendo, pelo comandante da 1ª divisão do CEP, propostos 12 louvores, e atribuição de medalhas de Cruz de Guerra, e 10 promoções por distinção a militares, levadas ao comandante do Corpo do exército para que fosse este a fazê-lo, dando mais importância ao feito.

E, no dizer de Carlos Palmeira, um antigo combatente e expedicionário a Flandres do RI 19, “do épico raid de 9 de Março de 1918, cabe ainda mais glória a Infantaria 19”. Na verdade, o comandante que liderou a força do raid - António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, capitão do BI 21 do CEP, era flaviense, filho do então coronel Ribeiro de Carvalho. Por esta sua ação, o capitão Ribeiro de Carvalho é promovido a major por distinção, promoção publicada na Ordem do Exército nº 5 (2ª Série), de 30 de março de 1918. Além da promoção por distinção e condecoração com a Cruz de Guerra de 1ª classe e Cavaleiro da Legião de Honra, ao major António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, pelo comando do batalhão de Infantaria nº 21, foi-lhe concedida a Torre e Espada, por Ordem do Exército nº 15, (2ª Série), de 1920.

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Integrando o BI 21, e a força do raid português, estavam mais dois militares do RI 19:

  • Albano Joaquim Couto - louvado, promovido a 1º sargento por distinção; condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe e a Military Medal inglesa;
  • Joaquim Estorga Salgado, 2º sargento - louvado; condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª classe e com a Military Medal inglesa.

 

III

O republicano indefetível e o fiel camarada

Um outro militar do RI 19, e ardoroso republicano, mobilizado para Flandres no mesmo Batalhão e na mesma Companhia de António Germano Ribeiro de Carvalho, foi o tenente Porfírio da Silva. Sendo comandante da 1ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 34, de Mangualde, e 2º comandante daquele Batalhão, um raid de iniciativa alemã, a 14 de março de 1918, uma granada traiçoeira tira-lhe a vida.

Porfírio da Silva, natural da vila de Montalegre, era um fiel e convicto republicano. Hernâni António Cidade, na História de Portugal, Vol. VII, Edição Monumental, a propósito na incursão monárquica, por Chaves, dirigida por Paiva Couceiro, no dia 8 de Julho de 1912, a certa altura, diz: “Um destacamento avançou pelo norte do espaldão da carreira do tiro, com o tenente Ornelas de Vasconcelos. Logo se travou vivo tiroteio entre os atacantes e a companhia do tenente Barreira (Infantaria 19), distinguindo-se no combate, da parte dos fiéis, um contramestre, e o sargento Porfírio da Silva”.

É em honra deste patriota e republicano, decorridos quatro anos do seu passamento, precisamente a 14 de março de 1922, que se dá lugar a uma «Sessão Solene, na Sala da Biblioteca do RI 19, em memória do tenente Porfírio da Silva, que foi daquele regimento, morto gloriosamente em combate com os alemães na Flandres em 14 de Março de 1918», assim reza o frontispício da Ata da Sessão Solene daquele dia 14 de março de 1922, seguida do descerramento de um quadro com o seu busto.

 

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Naquela Sessão Solene, tomaram da palavra o general Ribeiro de Carvalho, entretanto Presidente da Câmara Municipal de Chaves, seu filho, o major António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, o capitão Souza Dias, o tenente António J. Granjo, o sargento-ajudante Fernandes, o 1º sargento Silva Pereira e o 2º sargento Varela. Dos discursos entretanto proferidos, vamos citar dois pequenos extratos dos mesmos, precisamente do general Ribeiro de Carvalho e de seu filho, major António G. G. Ribeiro de Carvalho.

Diz o general Ribeiro de Carvalho, a certa altura: “(...) estamos aqui reunidos para prestar homenagem ao tenente Porfírio da Silva que morreu, honrando a Pátria, pelo seu grande amor à Liberdade. É bem merecida esta homenagem: o tenente Porfírio da Silva era ativo, zeloso e valente, era um bom chefe de família, era um bom republicano. Conheci Porfírio da Silva como 1º sargento deste regimento e recordo bem que, quando da organização da defesa de Chaves no combate de 8 de Julho de 1912, não lhe tendo pertencido fazer parte da companhia que se opôs ao avanço dos rebeldes monárquicos, Porfírio da Silva dirigiu-se-me com lágrimas nos olhos solicitando-me que o deixasse incorporar na referida companhia. Queria bater-se pelo seu ideal: e, por esta forma, foi um dos bons elementos para alcançarmos a vitória daquele dia, que se encontra estampada na bandeira deste regimento”.

Por sua vez, seu filho, major António G.G. Ribeiro de Carvalho, a dado passo, afirma: “É necessário decorar os vivos com as honrarias que ganharam, é necessário sobretudo cercar os mortos da auréola que merecem [...] Não ficaria bem com a minha consciência senão tomasse parte nesta homenagem tão grata ao meu coração de português e de republicano. Nela se faz a exaltação do amigo, do companheiro que comigo comungou do mesmo ensejo idealista, que viveu as duras horas de incerteza, os arrebatamentos da esperança, as próprias cegueiras da fé! [...] Porfírio da Silva soube sempre distinguir nas escalas das afeições qual a que merecia os seus sacrifícios: e assim, sendo amantíssimo da família, por mais de uma vez sacrificou esta ao seu ideal político e definitivamente ao supremo ideal da honra portuguesa. As suas últimas palavras «Morro como um português!» falam eloquentemente acerca do conceito em que a sua alma tinha a nobreza de Portugal. São palavras de orgulho e íntima satisfação, perante a morte, definindo a têmpera de uma alma. «Morro como um Português!». [...] Propositadamente trouxe aqui os meus filhos. Quis dar-lhes um exemplo educativo pelo qual, na sua alma infantil, ficassem para sempre gravados dois factos: primeiro, o sacrifício da vida feito à Pátria por um herói; segundo, a exaltação desse herói feita pelos camaradas que com ele combateram e serviram. Qualquer deles contem em si uma lição e é das lições fornecidas pelos homens e pela natureza que se formam as almas e definem os caracteres. Aquele que ides ver foi um homem que morreu pela Pátria; aqueles que o cercam são a garantia mais sólida da sua integridade e por ela queimarão em qualquer momento o sangue, a vida, a família e todos os bens do Mundo!”.

Muitos flavienses conhecem mais e devotam mais atenção ao velho general Ribeiro de Carvalho e a figura do seu filho - um bravo soldado, um indefetível republicano e a humanidade e nobreza deste caráter - ficou na penumbra da História, «esquecida», quem sabe se de propósito, nos «arquivos» com que a História se tece, mas para sempre «morto»!

E, daqui, faço um apelo e manifesto um pesar: procuram-se homens desta fibra nos novos e velhos recantos desta antiquíssima urbe flaviense que, de tão «empertigada» dos feitos dos seus antanhos, tão esquecida anda das suas memórias e pouco valor já dá aos exemplos de vida que nos legaram.

 

IV

Síntese biográfica de António G. G. Ribeiro de Carvalho

Nasceu em Chaves a 30 de Outubro de 1889. Estudou no Colégio Militar, na Escola Politécnica e na Escola do Exército onde cursou Infantaria que concluiu em 1909. Serviu em Moçambique e depois em França, integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP), onde se distinguiu por feitos em combate, o que lhe valeu a promoção por distinção ao posto de major e a obtenção de altas condecorações, nacionais e estrangeiras. No regresso a Portugal, em 1919, tomou parte nas operações em Trás-os-Montes contra os revoltosos monárquicos onde uma vez mais se destacou e foi ferido.

A par da carreira de oficial do Exército desenvolveu intensa atividade política. Primeiro, ainda no período denominado de Nova República Velha, como ministro da Guerra entre 18 de Dezembro de 1923 e 26 de Fevereiro de 1924, depois como deputado em 1925 pela Ação Republicana e mais tarde contra a Ditadura Militar e o Estado Novo, conspirando, em diversas ocasiões, para os derrubar.

Foi por isso preso em 1930 e 1933, abatido ao efetivo do Exército em 1931 por ter sido considerado desertor e dele demitido em Março de 1933. Exilou-se para fugir à perseguição que lhe foi movida pelas autoridades e evitar o cumprimento de uma pena de seis anos de desterro a que foi condenado. Porém, em 1939, regressou a Portugal e entregou-se, tendo nessa altura sido novamente julgado e condenado a dois anos de prisão correcional, suspensa por igual período. Posteriormente, em 31 de Outubro de 1959, pediu para ser reintegrado no Exército, o que lhe foi concedido no ano seguinte com o posto de coronel, ao abrigo de uma amnistia concedida, em 1950, pelo Governo.

Morreu a 17 de Fevereiro de 1967.

 

***

 

(*) As citações foram extraídas das seguintes obras:

  • Afonso, Aniceto; Gomes, Carlos de Matos (Coordenadores) (2013). Portugal e a Grande Guerra - 1914-1918. Vila do Conde: Quidnovi;
  • Arquivo Particular dos Familiares do Tenente Porfírio da Silva - Ata da Sessão Solene realizada no dia 14 de março de 1922, na sala da Biblioteca do R. I. 19 em memória do Tenente Porfírio da Silva, morto no combate com os alemães, na Flandres, em 14 de março de 1918;
  • Oliveira, Alípio de (1955). “O «Raid de 9 de Março de 1918 na Flandres”, in: Anuário de Chaves nº 6, pp. 27 a 31;
  • Palmeira, Carlos (1935). A Acção de Infantaria nº 19 na Grande Guerra. Chaves: Tipografia Mesquita;
  • Peres, Damião (Dir.) (1935). História de Portuga, Volume VII. Barcelos: Edição Monumental/Portucalense Editora;
  • Síntese biográfica de António G.G. Ribeiro de Carvalho http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/recursos/biografias/item/4449-carvalho-ant%C3%B3nio-germano-guedes-ribeiro-de-1889-1967

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Curiosidades da Grande Guerra

 

Falar, escrever ou estudar a Grande Guerra (GG) é matéria que me prende. Primeiro porque pouca coisa se sabe sobre a participação portuguesa na GG e o que se sabe pouco ou nada se valoriza; depois porque, pese embora estar volvido um século sobre o seu início, algumas das suas consequências ainda nos são muito próximas. Também porque quanto mais se descobre mais admiração merecem os heróis portugueses e em particular os flavienses que nela participaram.

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 Gil Santos numa apresentação do seu livro "A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial"

 

Já publiquei bastante sobre a GG, inclusive neste espaço. Não me cansarei de continuar a fazê-lo, enquanto me derem essa oportunidade e for capaz de cantar, como sei, a saga desses heróis que a pátria, ingrata, lembra nesta moda do centenário.

 

Sobre esta guerra há curiosidades que merecem atenção e nos ajudam a perceber quão penosa deveria ter sido a participação destes homens humildes, arrancados às suas terras e ao seu gado, num país longínquo e estranho, a lutarem por uma causa que ninguém lhes explicou e contra um inimigo cujas ofensas não vislumbravam. Até por isso foram heróis e merecem a nossa admiração e, sobretudo, o preito de homenagem que sejamos capazes de emprestar à sua memória.

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 Cerca de três quartos da população portuguesa em 1917 não sabia ler nem escrever. Também por aqui se pode avaliar que os nossos soldados não sofriam apenas com os tiros e as bombas, o frio a fome e a doença. Também o isolamento da família e dos amigos os martirizava. E mesmo quando um dos muitos analfabetos queria mandar uma carta, confrontava-se com dois sérios obstáculos. O primeiro era o de arranjar quem lha escrevesse e ter de pagar por isso e outro o de assegurar que o que se escrevia passava na censura militar a que as carta estavam sujeitas.

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Por isso delicie-se o leitor, como eu me deliciei, com uma carta censurada que o soldado José Martins, natural de Casas Novas, em Chaves, escreveu, ou pediu que escrevessem, para a sua mãe Baltazara Correia:

 

frança, 11 do 8 de 1918

Minha Crida e Saudosa mãe Com muito gosto e prazer lancei mão ha pena Somente para Saver da sua emportente Saude e Juntamente a toda a nossa familia pois que eu fico bem Graças A Deus minha mãe tenho [ilegivel] que [ilegivel] de licença peço-lhe que me mande 30 milrreis que com algum que eu tenho para ver se lá vou que este dinheiro não se gasta todo mas é preciso mostralo [ilegivel] Alguma demora / Pellos Cumboios tellos para gostar não esteja arreperare para a diracão mande-mo o mais breve que possa que tem de vir num chéque mande-mo numa carta rezistada que elle não-se perde que os meus colegas tambem o teem recevido aver-se vou a essas terras que estes lêdroes não nos deixão lá ir que as tropas já-se revoltarão que até os entregarão as englezes que eu [riscado] ahi não gostava de ver os defuntos mas agor já não me custa nada que se vêêm morrer todos os dias. / Minha mãe tenho para lhe dizer que no dia nove de abril que tevemos um combate que tivemos de Cavar todos que todo o C.E.P. cavou e se os Alemães dão outro avanço o C.E.P. acavou que atté tive de [ilegivel] a minha roupa toda que ande-mos 5 dias que não comemos nada e a nossa roupa da cama era o chão andemos 22 dias com mantas e a nave e o gelo a cair que o encoento nos escapemos muitas graças que muitos meus camaradas lá ficarão como foi o Antonio Pialho que ficou com a cabeça cortada. E o Albaro da tia Izabêl tambem morreu ó está prezioneiro e o Elias e outro cabo de Rebordondo estes morrerão da nossa terra hôra o José Chiscaro ficou bôm e o Antonio Jorge ficou sem novidade que eu estive depoes do combate com elles agora já há muito tempo que não estive com elles e não esteja com quidado em mim que eu estou muito longe das trinxeiras que estou ao pé de Paris num depozito de bagagens não me falta couza alguma muitos abraços deste Seu filho José Martins. A Deus A Deus”.

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 Papel de carta

 

Também os militares, em contacto com a novidade da língua francesa, queriam mostrar à família que já sabiam falar e escrever francês. Veja-se o exemplo seguinte de uma carta escrita por José Papagaio à sua irmã para mostrar que já dominava o franciú:

 

“France, 2-2-1918

Ma chere frére:

Te participe que muá parlè tré bian le franciú. Há bocú de madamuaseles joli. Mangè tujur cornobife è une cigarrete à jur. Camones tré simpatiques, muá achete á un anglé un par de palhetes até ô genú aveque cordons è muá doné á lui une garrafe de picles.

Muá émé agore un madamuasele è apre la guerre fini partir Portugal aveque muá fiancé. Les mules du Parque boné santé.

Bocú de souvenirs de ta frere.

 

José Papagaio

 

E esta escrita para uma namorada francesa:

 

“Laventi 15/9/1917

Mademousel Catherin

Moá goute que vu dite se gout de fiancê avec moa.

Moá esperê que vu reponde a moá na bolta de lá posta. Escusamoá de moá nam enqurêr bien Francês.

Andreer de moa”

 

Belarmino de Figueiredo

Soldado nº459, 3ª Compª Inf 14

 

Também a sexualidade dos combatentes, muito bem abordada na obra Das Trincheiras com Saudade de Isabel Pestana, é dos aspetos mais curiosos e menos estudados da guerra. O jogo da sedução ocupava grande parte do tempo livre dos militares. O fenómeno explica-se por uma complexa multiplicidade de fatores, aos quais não será estranho o afastamento prolongado das esposas e das namoradas, a idade dos combatentes e ainda o espaço essencialmente masculino e militarizado da zona de guerra. Esta brutalidade do conflito armado contrastava com a simpatia das demoiselles francesas que, avidamente, procuravam para reparação das emoções esfrangalhadas. A língua falada, curiosamente, não constituía qualquer obstáculo quando se ansiava ferir, com a seta do Cupido, o coração das donzelas da Flandres. O françanhês ou patoá, mistura esquisita da língua pátria com o francês, servia, a preceito, a comunicação dos sentimentos e dos afetos. Diferentes técnicas de sedução eram utilizadas de acordo com a arte e o engenho de cada um, confundindo-se neste jogo o sedutor e a seduzida.

 

Vejamos:

 

“Voltei-me para ela [casada mas com marido na linha da frente francesa] e disse-lhe: Moi nuit bater com os dedos no fenêtre ... Compris? (E o soldado acompanha a expressão fazendo modo de bater como os nós dos dedos). Vous faire assim com fenêtre ... Compris ? (e o “Lisboa “ faz com as suas mãos o gesto de quem abre uma janela) e moi. moiselle (remata o “Lisboa”, dando um assobio e escaulindo uma mão pela outra) tout de suit. compris ?”

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 José Rodrigues dos Santos no seu romance A Filha do Capitão, descreve a este propósito da sexualidade, uma situação caricata que é paradigmática do papel que o sexo podia desempenhar no equilíbrio emocional dos homens combatentes e que também mostra bem a miséria a que se sujeitavam os nossos combatentes:

 

“Os lãzudos caminhavam agora pelos movimentados passeios da principal avenida de Merville. (…) Seguiram pela avenida até chegarem a um edifício cor de tijolo perante o qual se aglomerava um considerável número de soldados, era a porta do bordel, Le Drapeau Blanc.(…).Os soldados faziam fila, eram à vontade, mais de uma centena (…) cada um esperando a sua vez.. (…) O bordel tinha sido montado pelas próprias autoridades francesas para servir as tropas daquele sector e o Drapeau Blanc era apenas um dos muitos existentes na retaguarda das linhas aliadas. Havia bordéis para oficiais, mais discretos e caros, (…) os soldados contentavam-se com versões industrializadas e despachadas, (…) verdadeiras fábricas de sexo massificado e em série.

– Então? (…) vieram às buscates?

– Viemos pois, – confirmou (…)Victor.

– Mas ainda vai levar um bom bocado.

– Quantas buscates estão lá dentro?

– Disseram-me que são três.

– Somos cento e vinte e elas são três, dá quarenta homens para cada buscate. A cinco minutos cada pinadela, dá duzentos minutos, mais coisa menos coisa, (…) portanto só temos de espera três horas.

E é se queres! – riu-se Victor.”

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Quem tiver interesse por este tema, muito mais poderá ouvir no lançamento em 2ª edição do livro A Saga de um Combatente na I Guerra Mundial – de Chaves a Copenhaga, que acaba de sair, e que vai ser lançada em Chaves na Biblioteca Municipal, a 31 de janeiro.

Gil Santos

 

 

Nota: Todas as imagens publicadas neste post  foram fornecidas por Gil Santos.

 

 

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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A SAGA DE UM COMBATENTE NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

DE CHAVES A COPENHAGA

introdução

 

O avô António, paizinho como gostava de ser chamado, era um homem simples. Apenas um António como tantos, sem fama, sem proveito e sem glória! Esteve em dezassete na guerra de catorze e, ao jeito do João Ninguém, Soldado da Grande Guerra, repousa no eterno silêncio dos desprezados. Para além de herói, que outro nome lhe poderemos dar, questiona Menezes:

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“Que nome poderei eu dar aos simpáticos soldadinhos, aqueles trigueiraços que das oito províncias acorreram de mochila às costas, sem faltar ao embarque para honra dos seus batalhões? Nem «serrano», nem «lanzudo», nem «gambúzio», nem «folgadinho». Baptizá-lo-ei, muito simplesmente, com o nome de João Ninguém, incarnando assim, nesta modesta alcunha, aquele português que nas horas difíceis tudo faz para Maior glória da pátria e a quem muitos esqueceram, chegada a hora dos benefícios e compensações”[1]

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 Não adornavam os seus ombros de miliciano os galões da oficialidade, mas somente as divisas de um 1º Cabo de Infantaria. Não lhe coube a sorte do cachapim, para fazer a guerra na recoca a colher os louros do front. Era apenas um dos muitos milhares que não mandava, obedecia! Foi um reles praça-de-pré da malta da trincha no Corpo Expedicionário Português.

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 Teve a desdita de nascer em tempo de guerra. Sem padrinho que o livrasse, sofreu no corpo e na alma as agruras de um destino cruel que não mereceu. E, como se não bastasse o pavor quotidiano da morte, ainda viveu as maiores privações nas trincheiras. Experienciou, inclusivamente, o miserável estatuto de prisioneiro de guerra. Do Reno à Silésia, passando pela Prússia Oriental, vivenciou o ódio do boche sob a forma da desonra, da doença, da fome e do abandono. Da rija têmpera do granito do Brunheiro, venceu as maiores adversidades e, como o carvalho das touças do Planalto, sobreviveu a uma beligerância que nunca lhe explicaram e que ele pas compris. A guerra escacholou-lhe a alma, como o morteiro a Terra de Ninguém. Marcou-lhe o ritmo para o resto da sua vida. E de tal forma que não recordamos sesta, serão ou passeio d’acavalo, sem a eterna presença das suas memórias. A sua narrativa precipitava-se como os morteiros à pilha cão: orgulhosa, fria e medonha, porém, sempre admirável e bela. A resenha era tão real que trazia consigo o cheiro à pólvora, ao gás mostarda e à maçã assada. As suas palavras remedavam o matraquear da costureira e, por vezes, até passavam a sensação da coceira provocada pelas migalhas de pão com pernas, que chegavam a ser do tamanho de chícharos.

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 Aqui daremos conta das suas memórias de gambúzio. Fá-lo-emos com a mesma emoção e o mesmo realismo com que foram escritas na trincha pelo próprio punho. As vivências, relatadas em primeira mão, genuínas, hão de arreganhar como ouriços maduros. Delas verterão as palavras como as castanhas: luzidias, escorreitas e cristalinas. A ingenuidade das suas expressões, lavradas como quem as diz, transporta-nos a uma realidade pura, ausente dos subterfúgios da escrita elaborada que desconhecia. Não se especte, por isso, literatura arrevesada. Seria até injusta tal exigência. De um homem simples, nascido nos corgos do Brunheiro, que poderíamos esperar? Muito se lhe deve por saber ler e escrever. Raríssimo privilégio para o seu tempo. Muito fez ele, movido, certamente, por uma vontade incomensurável de trazer à saciedade a sua vivência de serrano. Fê-lo com a mesma coragem com que foi aos arames ou cortou prego, a mesma abnegação com que lidou com os arraites do boche e a mesma fé com que sobreviveu à metralha e ao cativeiro. Quem sabe até se com a mesma ironia com que teria troçado dos kilt das mademoiselles de tranchée!

 

E versejou:

          Para quem nunca tinha visto                                 Perguntei se naquele campo

         Fogo de tantas maneiras                                        tinham arrancado castinheiros

         Foi uma entrada bonita                                          e responderam-me que eram covas

         Que eu tive nas trincheiras.                                   de granadas e morteiros.

 

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Quisemos, por isso, convocar na integra o seu Diário de Guerra e publicá-lo em fac-simile, para que não se perca cibo. Desta feita, cremos oferecer o encanto no seu estado mais puro. Os nossos escritos, em segunda mão, jamais conseguiriam proporcioná-lo.

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 Para que melhor se entenda o propósito, estruturámos a obra na correspondência cronológica do manuscrito do combatente. Assim, no início de cada capítulo, identificamos a paginação que no Diário lhe corresponde.

 

O objetivo da primeira parte deste livro, é o de contextualizar/esclarecer a leitura principal do Diário, a mais significativa.

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 Não se pense que foi tarefa fácil reconstituir, com o rigor que se exigia, a saga do nosso toupeira! As lacunas naturais do relato e o difícil acesso à raríssima informação do Arquivo Histórico Militar e do Geral do Exército, foram obstáculos sérios, exatamente por se tratar de um António Ninguém, com um nome igual a tantos outros!

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 Contudo, a nossa persistência, o crédito das suas vivências, mas sobretudo a nossa curiosidade pela descoberta, conseguiram afastar todos os escolhos. Desta forma, que cremos digna, contamos, com ele, a epopeia na Grande Guerra. Apesar de tudo, o que indagámos e aqui vertemos é, do nosso ponto de vista, bastante para engrandecer os feitos de quem emprestou à pátria, ingrata, tanta dor!

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 Queremos, no entanto, que esta saga vá mais longe. Que reze, também, por todos os que, ignorados, douraram a glória de quem os mandou para a trincheira.

 

Neste primeiro centenário da Grande Guerra, acreditamos que esta obra dignificará a memória de quantos empenharam a pele pela pátria imerecida!

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 À sua tenacidade e inteligência devemos o orgulho da portugalidade, ao avô António a existência. Só isso basta para esta justa homenagem.

 

Reconheçamo-la como um humilde tributo à sua coragem, um hino imperfeito à sua sobrevivência e um preito inopioso à sua memória.

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[1] Cf. Menezes Ferreira, João Ninguém Soldado da Grande Guerra, Impressões Humorísticas do cep, 1917-1919, Lisboa, Serviços Gráficos do Exército, 1921, p. 14

 

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Sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

A saga de um combatente na Grande Guerra

De Chaves a Copenhaga

 

A participação de Portugal na Grande Guerra, é um assunto arredado do interesse e do conhecimento de muitos portugueses. Infelizmente o Estado Novo branqueou esta participação e durante muitos anos tentou alhear os portugueses destes acontecimentos e ignorar quantos neles participaram.

 

Passou quase um século sobre esta catástrofe mundial que provocou mais vítimas mortais do que a população portuguesa da atualidade. Portugal esteve lá. E mais, muitos flavienses estiveram lá!

 

 

Hoje, em jeito da comemoração do centenário da guerra, publica-se muita coisa. Vêm à luz inúmeros documentos e muitos acontecimentos escondidos ou ignorados. Aproveitam-se, e bem, as redes sociais para a sua divulgação[1]. Nós, já o fazíamos antes. Com a publicação da obra De Chaves a Copenhaga – a saga de um combatente quisemos homenagear não só o nosso combatente António, como todos os que participaram no conflito armado, com especial destaque para o Batalhão de Infantaria 19 e os seus militares.

 

 

É nesta senda que surgirá, em agosto próximo, a 2ª edição, melhorada, daquela obra, agora com nova cara e novo título. Dela fará parte a introdução de que a seguir damos nota em primeira mão. Fala do combatente António, dos seus camaradas e de todos que temos obrigação de prestar vassalagem a estes heróis, nem que mais não seja, através do conhecimento e do estudo das peripécias da sua participação:

 


 

 

O avô António, paizinho, como gostava de ser chamado, era um homem simples. Apenas um António como tantos, sem fama, sem proveito e sem glória! Esteve em dezassete na guerra de catorze e, ao jeito do João Ninguém, Soldado da Grande Guerra, repousa no eterno silêncio dos desprezados. Para além de herói, que outro nome lhe poderemos dar, questiona Menezes:

 

“Que nome poderei eu dar aos simpáticos soldadinhos, aqueles trigueiraços que das oito províncias acorreram de mochila às costas, sem faltar ao embarque para honra dos seus batalhões? Nem «serrano», nem «lanzudo», nem «gambúzio», nem «folgadinho». Baptizá-lo-ei, muito simplesmente, com o nome de João Ninguém, incarnando assim, nesta modesta alcunha, aquele português que nas horas difíceis tudo faz para Maior glória da pátria e a quem muitos esqueceram, chegada a hora dos benefícios e compensações”[2]

 

Não adornavam os seus ombros de miliciano os galões da oficialidade, mas somente as divisas de um 1º Cabo de Infantaria. Não lhe coube a sorte do cachapim, para fazer a guerra na recoca a colher os louros do front. Era apenas um dos muitos milhares que não mandava, obedecia! Foi um reles praça-de-pré da malta da trincha no Corpo Expedicionário Português.

 

 

 

 

Teve a desdita de nascer em tempo de guerra. Sem padrinho que o livrasse, sofreu no corpo e na alma as agruras de um destino cruel que não mereceu. E, como se não bastasse o pavor quotidiano da morte, ainda viveu as maiores privações nas trincheiras. Experienciou, inclusivamente, o miserável estatuto de prisioneiro de guerra. Do Reno à Silésia, passando pela Prússia Oriental, vivenciou o ódio do boche sob a forma da desonra, da doença, da fome e do abandono. Da rija têmpera do granito do Brunheiro, venceu as maiores adversidades e, como o carvalho das touças do Planalto, sobreviveu a uma beligerância que nunca lhe explicaram e que ele pas compris. A guerra escacholou-lhe a alma, como o morteiro a Terra de Ninguém. Marcou-lhe o ritmo para o resto da sua vida. E de tal forma que não recordamos sesta, serão ou passeio d’acavalo, sem a eterna presença das suas memórias. A sua narrativa precipitava-se como os morteiros à pilha cão: orgulhosa, fria e medonha, porém, sempre admirável e bela. A resenha era tão real que trazia consigo o cheiro à pólvora, ao gás mostarda e à maçã assada. As suas palavras remedavam o matraquear da costureira e, por vezes, até passavam a sensação da coceira provocada pelas migalhas de pão com pernas, que chegavam a ser do tamanho de chícharos.

 

 

 

Aqui daremos conta das suas memórias de gambúzio. Fá-lo-emos com a mesma emoção e o mesmo realismo com que foram escritas na trincha pelo próprio punho. As vivências, relatadas em primeira mão, genuínas, hão de arreganhar como ouriços maduros. Delas verterão as palavras como as castanhas: luzidias, escorreitas e cristalinas. A ingenuidade das suas expressões, lavradas como quem as diz, transporta-nos a uma realidade pura, ausente dos subterfúgios da escrita elaborada que desconhecia. Não se especte, por isso, literatura arrevesada. Seria até injusta tal exigência. De um homem simples, nascido nos corgos do Brunheiro, que poderíamos esperar? Muito se lhe deve por saber ler e escrever. Raríssimo privilégio para o seu tempo. Muito fez ele, movido, certamente, por uma vontade incomensurável de trazer à saciedade a sua vivência de serrano. Fê-lo com a mesma coragem com que foi aos arames ou cortou prego, a mesma abnegação com que lidou com os arraites do boche ea mesma fé com que sobreviveu à metralha e ao cativeiro. Quem sabe até se com a mesma ironia com que teria troçado dos kilt das mademoiselles de tranchée!

 

E versejou:

 

Para quem nunca tinha visto                    Perguntei se naquele campo

Fogo de tantas maneiras                          tinham arrancado castinheiros

Foi uma entrada bonita                            e responderam-me que eram covas

Que eu tive nas trincheiras.                      de granadas e morteiros.

 

 

Quisemos, por isso, convocar na integra o seu Diário de Guerra e publicá-lo em fac-simile, para que não se perca cibo. Desta feita, cremos oferecer o encanto no seu estado mais puro. Os nossos escritos, em segunda mão, jamais conseguiriam proporcioná-lo.

 

Para que melhor se entenda o propósito, estruturámos a obra na correspondência cronológica do manuscrito do combatente. Assim, no início de cada capítulo, identificamos a paginação que no Diário lhe corresponde.

 

 

O objetivo da primeira parte deste livro, é o de contextualizar/esclarecer a leitura principal do Diário, a mais significativa.

 

Não se pense que foi tarefa fácil reconstituir, com o rigor que se exigia, a saga do nosso toupeira! As lacunas naturais do relato e o difícil acesso à raríssima informação do Arquivo Histórico Militar e do Geral do Exército, foram obstáculos sérios, exatamente por se tratar de um António Ninguém, com um nome igual a tantos outros!

 

Contudo, a nossa persistência, o crédito das suas vivências, mas sobretudo a nossa curiosidade pela descoberta, conseguiram afastar todos os escolhos. Desta forma, que cremos digna, contamos, com ele, a epopeia na Grande Guerra. Apesar de tudo, o que indagámos e aqui vertemos é, do nosso ponto de vista, bastante para engrandecer os feitos de quem emprestou à pátria, ingrata, tanta dor!

 

 

Queremos, no entanto, que esta saga vá mais longe. Que reze, também, por todos os que, ignorados, douraram a glória de quem os mandou para a trincheira.

 

Neste primeiro centenário da Grande Guerra, acreditamos que esta obra dignificará a memória de quantos empenharam a pele pela pátria imerecida!

 

À sua tenacidade e inteligência devemos o orgulho da portugalidade, ao avô António a existência. Só isso basta para esta justa homenagem.

 

Reconheçamo-la como um humilde tributo à sua coragem, um hino imperfeito à sua sobrevivência e um preito inopioso à sua memória.

 

Gil Santos



[1] https://www.facebook.com/groups/114833731880655/

[2] Cf. Menezes Ferreira, João Ninguém Soldado da Grande Guerra, Impressões Humorísticas do cep, 1917-1919, Lisboa, Serviços Gráficos do Exército, 1921, p. 14

 

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Sexta-feira, 6 de Junho de 2014

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

UMA SUMÁRIA REFLEXÃO À VOLTA DO CENTENÁRIO DA GRANDE GUERRA

 

I

Comemora-se, a partir do dia 28 de Julho próximo, o Centenário da que é mais vulgarmente conhecida por Grande Guerra.

 

E o seu nome está bem atribuído, porquanto, sob os escombros daquilo que mais tarde se veio a designar por I Guerra Mundial outra coisa não é que a primeira parte da bem designada Grande Guerra que, de 1914 a 1945, assolou o Mundo inteiro, em geral, e a Europa, em especial.

 

Os anos de 1918/19 a 1938 não são mais que um simples interregno em que, nesse ínterim, se organizaram e propulsionaram as forças criadas no final da primeira parte da Grande Guerra, com a criação do fascismo, do nazismo e do comunismo.

 

Nos anos que antecedem a eclosão da Grande Guerra 1914-1918, encontramos aí uma multiplicidade de razões, fatores e protagonistas que, de alguma forma, nos fornecerão motivos de reflexão. Não só para tentar explicar aquela guerra e a que, depois, com ainda tanta ou mais ferocidade, impacto e ódio, lhe sobreveio, mas sim, e principalmente, nos fornecer pistas (histórias) para a compreensão do mundo em que hoje em dia vivemos e, em particular, do Portugal que hoje em dia somos.

 

Porque, necessariamente, da história devemos tirar lições.

 

Lições que servirão para que, fundamentalmente, encontremos razão, novos nortes ou horizontes que nos habilitem a encontrar e projetar, com visão, clara e lúcida, um novo e promissor futuro num mundo não de nações ou pátrias mas de povos e culturas, empenhados vivamente na construção de uma nova Humanidade.

 

As «guerras» que hoje em dia devemos travar é para a construção da paz. De uma nova paz. Não para o fim da mesma, com há 100 anos!

 

Mas, para isso, temos de hoje volver um pouco o nosso olhar para o passado. Revisitá-lo.

 

Não para encontrarmos os algozes ou culpados. Outrossim para nos elucidarmos, compreendermos as razões das coisas.

 

E entendermos que todos nós, como cidadãos somos responsáveis.

 

Porque é perigoso, muito perigoso, deixar os destinos dos povos nas mãos de uns poucos «iluminados».

 

Num mundo cada vez mais complexo, heterodoxo e multicultural, mas com forças centrípetas, poderosas e homogeneizadoras, não há políticos «heróis» para nos salvar!

 

Só a cidadania ativa, empenhada, participativa - e determinada - é que nos fornece a chave para o sucesso e a verdadeira paz e desenvolvimento, com equidade, justiça e sem exclusões.

 

Urje, na sociedade de hoje, assumir: a constatação da diversidade; o reconhecimento da diferença; a assunção do conflito como elemento consubstancial a qualquer comunidade ou sociedade. E que, só pela constatação dessa diversidade, diferença e conflito, é que um diálogo sério e profícuo pode ser assumido. Trabalhando como interpares, sem resquícios de qualquer imperialismo ou subserviência. Deixando para trás conceitos caducos de honra e heroicidade.

 

O combate «feroz» que temos pela frente é contra o egoísmo individual e das nações/pátrias e a procura do interesse que, pese embora as diferenças, diversidade e conflitos, tidos não como perversos mas como normais, tenhamos em conta o fundamental que é a natureza humana e a preservação do nosso planeta, berço onde nascemos e para onde, um dia, regressaremos.

 

II

 

Todos os dias dizemos, nas «horas de ponta» que o «Monumento» é uma despaciência, em termos de trânsito.

 

Não há nenhum flaviense que não tenha passado pela avenida dos Aliados, que liga o «Bacalhau» ao «Monumento».

 

Todos os anos, no dia 9 de Abril, presenciamos cerimónias à volta do «Monumento».

 

Quando nos dirigimos ao «Cemitério Velho» nele encontramos um talhão com a designação dos «Antigos Combatentes».

 

Pergunta-se:

 

Porventura os flavienses sabem por que razão existe o «Monumento»; a avenida dos Aliados, as cerimónias do 9 de Abril e o «Talhão dos Combatentes»?

 

E que reflexão tais factos lhes sugerem?

 

Já, algum dia, nos interrogámos sobre o significado de tudo isto?

 

Nosso intento é este: tendo por fundo a Grande Guerra, aliás já suscitada pelo último artigo do amigo e colaborador nesta rubrica - Gil Santos - iremos abordar, daqui para a frente, nos posts da nossa autoria desta rubrica, a Grande Guerra, tentando enquadrar aquele conflito, a participação portuguesa naquele palco de guerra bem assim a quota-parte de esforço dos nossos valentes ou bravos transmontanos que, do RI 19, partiram para África e para a Frente Ocidental Europeia (Flandres).

 

António de Souza e Silva

 

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Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

 

CHAVES NA GRANDE GUERRA

O Batalhão de Infantaria nº 19

 

De Chaves A Copenhaga, a saga de um combatente, é uma obra publicada em 2008 pela editora Prefácio, patrocinada pela Câmara Municipal de Chaves e que se encontra há muito tempo esgotada. O título até pode parecer estranho, sobretudo aos mais familiarizados com a temática da Grande Guerra. Trata-se, porém, de uma publicação inédita de valor histórico elevado (a crer na avaliação dos especialistas sobre o diário publicado em fac-simile) de um combatente flaviense, que interessou à Fundação Vox Populi para se associar às comemorações do centenário. Por isso, esta Fundação vai patrocinar, integralmente, a sua republicação, oferecendo um exemplar a cada uma das mais de mil escolas do país, o que acontecerá em Agosto e promovendo igualmente um concurso de trabalhos académicos a realizar pelos seus alunos no próximo ano letivo. A segunda edição da Saga será publicada pela editora Âncora (a mesma que publica Bento da Cruz) sob o título: A saga de um combatente da Grande Guerra - De Chaves a Copenhaga. A Vox Populi vai patrocinar ainda um estudo de opinião, inédito, a realizar a nível nacional pela Marktest, sobre os conhecimentos que os portugueses têm sobre a Grande Guerra.

 

Não é fácil, à primeira vista, perceber o que é que Chaves e Copenhaga possam ter em comum no que se refere à Grande Guerra. Chaves situa-se no coração de uma província ostracizada de um país minúsculo e periférico do sudoeste europeu que participou diretamente na guerra; Copenhaga é a capital de um Estado da Europa do norte, outrora Reino da Dinamarca. Pois foi exatamente a Grande Guerra que uniu estas cidades! Pese embora a Dinamarca ter sido neutra naquele conflito mundial, Copenhaga recebeu e acarinhou alguns prisioneiros portugueses que em trânsito desde a longínqua Prússia Oriental se dirigiam para Cherburgo em França, onde o Corpo Expedicionário, ou melhor o que restava dele, regressou ao solo pátrio.

 

Veja-se uma pequena parte do que a esse respeito escreveu António no seu diário de guerra publicado em fac-simile naquele livro:

 

 

 

 

 

 

 

Algumas centenas destes militares portugueses, prisioneiros dos alemães, mortos, feridos, gaseados ou apenas combatentes sem novidade, foram mobilizados pelo Batalhão de Infantaria 19, sito em Chaves.

 

Das peripécias da Grande Guerra conta-vos o livro, o seu diário e a sua contextualização, aqui queremos, apenas, dar nota, ainda que sumária, da mobilização das forças do 19, bem como de alguns excertos, curiosos, de missivas escritas (e apreendidas) por combatentes transmontanos na Flandres francesa. Antes, porém, queremos dar-vos conta de que das visitas a todos os lugares onde esteve o nosso avô António e que se estendem da Vestefália à Prússia Oriental, faltava-nos apenas a Flandres, o sítio onde lutou integrado no Batalhão nº 3 de Viana do Castelo. Pois tivemos oportunidade, nesta Páscoa, de a visitar: Estivemos em Lille, Armantières, Saint Venant, Richebourg, Lacouture, Fauquissat, Neuve Chapelle, Merville, Paradis, Laventie. Nesta última vila sentimos forte emoção, porque tivemos oportunidade de pisar o exato lugar de Red House, onde o nosso avô foi feito prisioneiro dos boches nessa malvada manhã de 9 de Abril de 1918 na célebre Batalha de La Lys.

Mas vejamos como chegaram à Flandres e a África os combatentes da nossa cidade/região:

 

A participação do BI19 de Chaves não se encontra autonomizada uma vez que não foi unidade mobilizadora enquanto tal. Os seus efetivos militares foram constituir depósito de reserva para colmatar de baixas noutras unidades, como refere Júlio Machado:

 

“Nenhum dos Regimentos de Chaves [cavalaria e infantaria] tomou parte directamente em qualquer das campanhas da primeira Grande Guerra Europeia. Porém os seus soldados e oficiais nela intervieram largamente integrando outros batalhões de outros regimentos, e sempre de forma a deixar memorável a sua presença nas diversas frentes da batalha”[1]

 

No entanto e apesar disso, a mobilização das forças desta unidade deu-se em quatro momentos:

 

O primeiro constou da mobilização para Moçâmedes, no sul de Angola, em começos de janeiro de 1915. A 17 de janeiro as praças foram sorteadas, a 24 regressaram do período de gozo de licença, a 28 seguiram para Lisboa, a 31 embarcaram para África e a 31 de março de 1916 regressaram a Chaves nesse mesmo ano com apenas três baixas.

 

O segundo momento resultou da mobilização de um primeiro Batalhão para a Flandres. Largou de Chaves às 24 horas do dia 21 de maio de 1917, integrando alguns oficiais e praças regressados da campanha de África no ano anterior. Constituiu o segundo Depósito de Infantaria do Corpo Expedicionário Português (CEP).

 

Vejamos a Ordem de Serviço nº 139 que no dia anterior mandou publicar o comandante desta unidade, o devoto republicano coronel Augusto César Ribeiro de Carvalho:

 

regimento de infantaria nº 19

chaves 20-maio-1917

ordem de Serviço nº 130

 

“Devendo marchar para Vidago amanhã àmeia noite o 1º Batalhão dêste regimento, afim de seguir ao seu destino, constituindo o 2º Depósito de Infantaria do cep determino que se observe o seguinte:

 

a) Amanhã ao toque do recolher as praças comparecerão com o uniforme de campanha (dolman e calção de lã, grevas e 1º barrête) e a essa hora terão já o capote colocado na mochila e dentro desta e no saco, todos os artigos de fardamento que lhes estão distribuídos.

 

b) Em seguida à chamada, as praças receberão a ração fria, a raçãode reserva e o vinho, devendo a distribuição ser feita por secções, afim de se efectuar com a maior rapidês, procedendo-se em seguida á distribuição do café.

 

c) Às 22h 3om as praças estarão em forma completamente equipadas e conduzindo cada qual o seu saco para fardamento e em seguida conduzidas á parada do quartel, onde o Batalhão se achará formado ás 23 horas.

 

d) É absolutamente proibida a entrada no quartel, desde o toque do recolher, a indivíduos da classe civil.

 

e) Comparecerão no quartel ás 23 horas todos os oficiais e sargentos do regimento que não mobilizaram. Comparecerá também a Banda de Música com o uniforme nº 5, afim de acompanhar o Batalhão até fora da vila.

 

f) Amanha à hora da parada da guarda serão rendidos todos os cabos e soldados mobilizados que estiverem de serviço nas companhias, por praças não mobilizadas, os quais tomarão conta dos artigos em carga nos diferentes alojamentos e pela sua existência ficarão responsáveis.

 

Os senhores comandantes das companhias mobilizadas mandarão hoje para a secretaria nota do número de praças não mobilizadas de que necessitam para os diferentes serviços.

 

g) Antes da marcha os senhores comandantes das companhias entregarão relações das praças que faltarem à chamada”[2]

 

Este Batalhão, tal como estava determinado, seguiu de comboio até Lisboa onde embarcou para Brest. O comando desta força estava entregue a um major que era acompanhado por quatro capitães, entre eles o médico flaviense Adelino Augusto Fernandes, sete tenentes, trinta e um alferes, um sargento-ajudante, quatro primeiros-sargentos e quarenta e sete segundos-sargentos. Desconhecemos o número de cabos e praças. De Brest seguiram para Etaples de comboio, onde receberam a instrução em falta para a entrada no front. Quase todo o efetivo foi distribuído por outros batalhões na hora do combate. O Batalhão nº 15 de Tomar teve, no entanto, o bom senso de reunir os adidos do 19 num único pelotão. Aí se destacou o célebre soldado Milhões[3].

 

O terceiro momento prende-se com a segunda mobilização para a Flandres. Esta incorporou o nosso combatente António e era constituída, provavelmente, por apenas dois pelotões[4]. A 29 de agosto de 1917, os militares foram sorteados e avisados da partida. No dia seguinte, a pé, seguiram para Mirandela onde apanharam o comboio para Bragança a fim de mobilizarem com o Batalhão de Infantaria nº 30 daquela cidade. Aí chegaram a 1 de setembro pela uma hora da madrugada. De acordo com os dados constantes da Folha de Matrícula de António, gentilmente cedida pelos serviços do Arquivo Geral do Exército, no dia 1 de setembro de 1917 “passou ao Regimento de Infantaria nº 30 - Bragança - por ordem do Comando da 6ª Divisão do Exército - Vila Real - fazendo parte do grupo de companhias deste Regimento destinadas a reforçar o CEP.” Foi integrado na Primeira Companhia do 1º Batalhão com o nº 814.

 

No dia 7, vestiram roupa de mobilizados e no dia seguinte seguiram para Lisboa. No dia 10, pelas 11 horas, chegaram à capital. No dia 12, partiram num vapor inglês para Brest na Bretanha francesa, onde chegaram a 15. Daí até Ambleteuse, já na Flandres, demoraram três dias de comboio. Permaneceram aí até 20 de novembro em instrução. Nessa data, seguiram para o front e foram adidos a outros batalhões na zona de Neuve-Chapelle.

 

De acordo com os dados da Folha do CEP e do Boletim de Alterações nº 54, que a seguir se exibem, no dia 23 de novembro, António foi transferido para a 4ª Brigada – Brigada do Minho – onde foi incorporado na 4ª Companhia do 1º Batalhão do Regimento de Infantaria nº 3 de Viana do Castelo, com o nº 584. A sua Placa de identificação tinha o nº 62413.

 

 

folha do cep de antónio pereira dos santos

 

 

 

boletim de alterações de antónio pereira dos santos

 

 

O nosso combatente, com muita mágoa, foi parar, sozinho, a essa célebre Brigada do Minho. A que mais sofreu na Batalha de La Lys. Da solidão e do desenraizamento destes infelizes soldados nos fala Carlos Palmeira desta forma:

 

Quantas vezes êsses malfadados combatentes se lamentavam por não verem a seu lado um único graduado ou simples soldado da sua unidade, e, para não lhes faltar a coragem devida naquelas horas nostálgicas, ou talvez para recordar a bravura do seu regimento nas campanhas anteriores, os intrépidos militares do 19,cantavam por vezes, mesmo em plena 1ª linha, este hino que Gastão Souza Dias escreveu com purêza de mestre e êles aprenderam na parada do quartel logo nos primeiros dias de instrução e depois entoavam com veemência nas marchas dos exercícios finais:

 

Regimento de tanta firmêza,

De tão nobre e leal patriotismo,

Onde é culto esta doce nobrêza

De morrer numa acção de heroismo,

 

Não existe, não há certamente!

Que seus feitos e altas façanhas

Só são próprias da raça valente

Que nasceu para cá das montanhas.

 

CORO

Dezenove é o seu nome de glórias,

O mais belo da nobre infantaria!

Aumentemos com brava galhardia

Seu legado de tão grandes vitórias!

 

Nós fizemos o Oito de Julho

E mostramos o nosso valôr

Esmagando a traição e orgulho

Dos que á Pátria votavam rancor!

 

E se alguem preguntar a maneira

Como foi nossa fé triunfante,

Apontemos da nossa bandeira

Suas letras em ouro brilhante![5]

 

 

 

 

O quarto e último momento, refere-se ao facto de terem embarcado em Lisboa, em princípios de 1918, com destino ao norte de Moçambique, 1 tenente, 7 alferes, 4 segundos sargentos e 7 cabos. Desconhece-se o número de praças e a data do respetivo regresso.

 

Não conseguimos afirmar que a unidade se tivesse notabilizado enquanto tal. Porém, reconhecemos razão a Carlos Palmeira quando afirma a este propósito que:

 

“Pondo de parte o incomensurável e duplo sacrifício destes modestos defensores do Direito e da Justiça, dignos da mais sincera admiração, alguns bibliógrafos da guerra, ousam afirmar que as glórias praticadas por oficiais e praças dos Depósitos de Infantaria pertencem às unidades onde os mesmos as praticaram. Será assim? A minha opinião é absolutamente contrária, e, sem receio de errar, direi que essas glórias pertencem individualmente aos militares que as praticam, e no seu conjunto, são exclusivas das unidades a cujos quadros pertenciam os mesmos militares, não sendo lógico cercear esse direito aos Depósitos de Infantaria, visto que todos os seus oficiais e praças eram apenas considerados em deligência nas unidades em que se iam encorporar na frente”.[6]

 

Em termos globais, as baixas do 19 cifraram-se em 33 mortos na campanha de Angola e 48 na da Flandres. À sua memória encontramos testemunho nas paredes da Torre de Menagem, precisamente na muralha fronteira à antiga parada do 19, onde juraram fidelidade à pátria estes heróis esquecidos!

 

homenagem aos mortos da grande guerra

 

 

E pouco mais se sabe sobre a participação do Batalhão. No entanto, parece-nos o bastante para percebermos que também os flavienses souberam honrar a pátria como testemunha e reconhece o monumento da nossa cidade dedicado a esta saga bélica.

 

Muitos destes heróis passaram a guerra sem enviarem uma única notícia para os seus entes queridos. Mais de três quartos dos soldados eram analfabetos e para o conseguirem tinham de pagar a quem o fizesse. Porém, ainda assim, algumas cartas chegaram ao nosso conhecimento, por terem sido retidas pela censura militar. Pela curiosidade que representam, selecionamos alguns excertos que aqui reproduzimos. Missivas escritas por/para gente da nossa terra:

 

Minha querida mãe Muito estimo que ao receber esta minha carta que esteja gosando uma perfeita I felis saúde em companhia das minhas queridas manas pois eu ao fazer desta fico bom graças A Deus.

António da Purificação, soldado do C.E.P., França, 28 Julho 1918, p. 1 [para Margarida dos Santos, Carreira de Vinhais, Trás-os-Montes, Portugal – mãe].

 

“O Pai mandou-me dizêr que este ano houve pouco azeite, só sete cântaros; mas ainda assim com o porquinho remedeiam; o antónio adiaram-no para Junho estou a ver que espetam com êle em infantª; o abílio foi prezo em Vila Pouca d’aguiar e não tornei a saber mais nada”

 

1º Cabo João d’Azevedo, França, 22 Março 918, Vila Pouca de Aguiar [para o irmão Manuel d’Azevedo]

 

Sobre as licenças (não) concedidas aos militares, incluímos, a seguir, uma curiosa carta do soldado José Martins, natural de Casas Novas no concelho de Chaves, para a sua mãe Baltazara Correia:

 

“frança, 11 do 8 de 1918

 

Minha Crida e Saudosa mãe Comuito gosto e prazer lancei mão ha pena Somente para Saver da sua emportente Saude e Juntamente atoda a nossa familia pois que eu fico bem Graças A Deus minha minha mãe tenho [ilegivel] que [ilegivel] de licença peço-lhe que me mande 30 milrreis que com algum que eu tenho para ver se lá vou que este dinheiro não se gasta todo mas é preciso mostralo para-se [ilegivel] Alguma demora / Pellos Cumboios tellos para gostar não esteja arreperare para a diracão mande-mo o mais breve que possa que tem de vir num chéque mande-mo numa carta rezistada que elle não-se perde que os meus colegas tambem o teem recevido aver-se vou a essas terras que estes lêdroes não nos deixão lá ir que as tropas já-se revoltarão que até os entregarão as englezes que eu [riscado] ahi não gostava de ver os defuntos mas agor já não me custa nada que se vêêm morrer todos os dias. / Minha mãe tenho para lhe dizer que no dia nove de abril que tevemos um combate que tivemos de Cavar todos que todo o C.E.P. cavou e se os Alemães dão outro avanço o C.E.P. acavou que atté tive de [ilegivel] a minha roupa toda que ande-mos 5 dias que não comemos nada e a nossa roupa da cama era o chão andemos 22 dias com mantas e a nave e o gelo a cair que o encoento nos escapemos muitas graças que muitos meus camaradas lá ficarão como foi o Antonio Pialho que ficou com a cabeça cortada. E o Albaro da tia Izabêl tambem morreu ó está prezioneiro e o Elias e outro cabo de Rebordondo estes morrerão da nossa terra hôra o José Chiscaro ficou bôm e o Antonio Jorge ficou sem novidade que eu estive depoes do combate com elles agora já há muito tempo que não estive com elles e não esteja com quidado em mim que eu estou muito longe das trinxeiras que estou ao pé de Paris num depozito de bagagens não me falta couza alguma muitos abraços deste Seu filho José Martins. A Deus A Deus.

 

Paz às suas almas e glória aos seus feitos.



[1]Cf. Júlio M., Machado, Crónica da Vila Velha de Chaves, Chaves, Câmara Municipal de Chaves, 1994, p. 325.

[2]Cf. Carlos Palmeira, A Acção de Infantaria 19 na Grande Guerra, Chaves, Tipografia Mesquita, 1935, pp. 49-50.

[3]Soldado Aníbal Augusto Milhais, nascido em Valongo, Murça, em 9 de junho de 1895. Em 9 de abril em Huit Maisons, protegeu heroicamente com a sua metralhadora a retirada de inúmeros patrícios. Foi condecorado com a Ordem Militar da Torre Espada, a Cruz de Guerra de 1ª Classe e a Cruz do Rei Leopoldo da Bélgica, Faleceu em 4 de junho de 1970.

[4]Dizemos isto com a convicção de que se esta força era comandada por dois aspirantes (Antero Alves e Augusto Dias) tratar-se-ia provavelmente de apenas 2 pelotões cada um comandado por um desses oficiais. Cf. Carlos Palmeira, Ob. Cit., p. 79.

[5]Cf. Palmeira Carlos, Ob. Cit. pp. 57-58.

[6]Cf. Carlos Palmeira, Ob. Cit., p. 58.

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publicado por Fer.Ribeiro às 14:11
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