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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Ago16

Intermitências

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O Arquipélago

 

 

Existe uma ilha onde devo chegar, mas desconheço-lhe o paradeiro. Sei da sua existência, mas nunca ninguém lá esteve para me indicar a direcção que devo seguir para encontrá-la. Desde que desconfio que ela seja o meu lugar neste mundo, procuro incessantemente o caminho para lá chegar.

 

Por enquanto, continuo a percorrer o arquipélago. Navego sem fim à vista, enfrento tempestades, sigo rotas erradas, por vezes naufrago e devo reconstruir outro barco, mas sei que não posso abandonar esta viagem e regressar ao porto seguro. À chegada, está o meu destino e a minha razão de ser.

 

O Arquipélago.jpg

  Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

Esta ilha está dentro de mim mesmo. Esta ilha sou eu. Esse território é um mundo, o meu mundo, aquele onde sou. Alguns chegaram muito longe nas suas explorações, muitos ficaram às suas portas, a maioria desconhece que existe um território assim. Eu vagueio pelo arquipélago, sulcando cada onda com paciência. Em cada naufrágio, a minha fé é a minha única tábua de salvação. Desconheço o paradeiro da ilha onde devo chegar, nem sei se algum dia a alcançarei, mas já ter chegado a este arquipélago é a minha bonança.

 

Sandra Pereira

 

 

09
Ago16

Intermitências

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A Vida é um Milagre

 

 

“Um dia, vais ter a certeza de que a vida é um milagre. Depois, ao constatares que aconteceu uma vez, vais-te dar conta de que pode acontecer duas, ou três, ou mais e mais... Começas a acreditar no surreal, pois vês que tudo mesmo é possível e não são apenas ideias e sonhos. Começas a ver a beleza das coisas e a sonhar mais alto. A partir daí, só tens de aprender a controlar a tua impaciência – pois os milagres acontecem no momento justo e não quando tu desejarias –, a tua preguiça, a tua inércia, os teus vícios, os teus impulsos... Quando o conseguires, te garanto meu filho, passarás a desfrutar plenamente da beleza e do surreal que é a vida. Irá aparecer da nada gente no teu caminho que também já conhece essa verdade, e então serás verdadeiramente feliz. Lembra-te: essa felicidade não irá depender do que tens, mas apenas do que sentes.”

 

Quando a minha avó me disse estas palavras, pensava que eram histórias de encantar, para me dar ânimo para aguentar as amarguras da vida. Estávamos sentados debaixo do pomar do jardim de sua casa e ela estava gravemente doente. Nesse dia, ela quis transmitir-me o que a vida lhe tinha ensinado em 80 anos. Fora um caminho largo, difícil e sofrido, disse-me, mas agora sabia do que se tratava a vida e sentia-se em paz e feliz, mesmo após a morte do meu avô.

 

A Vida é um milagre.JPG

Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

 

 “Eu penso coisas, mas digo e faço totalmente o contrário... Não consigo controlar”, respondi-lhe.

 

“Até aos 30 anos não tens de te preocupar, tudo aquilo que fizeres é para aprender. Tem paciência. Quando isso acontecer, lembra-te de sorrir e de que tudo o que dás volta a ti, tanto o positivo, como o negativo.”

 

E é isto. O legado da minha avó era difícil de atingir, mas simples de entender. Para mim, o facto dela ter existido já era um milagre.

 

 

Sandra Pereira

 

 

24
Mai16

Intermitências

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O Umbigo

 

Esta é a história de um umbigo.

 

Este umbigo já foi feliz e também já foi triste, mas nunca este umbigo foi tão grande e livre como é hoje.

 

Sempre quis ver o Sol brilhar, sentir o vento e refrescar-se com a água, mas nem sempre a vida lhe foi fácil. A maioria das vezes, era-lhe negada essa liberdade, mesmo que o Sol brilhasse, o vento soprasse ou a água o convidasse a resfrescar-se. Viveu durante muito tempo na escuridão, só, dentro do próprio umbigo, reprimido.

 

Com o tempo, tudo foi mudando, veio a liberdade. Viva a liberdade! Viu o Sol brilhar, sentiu o vento e refrescou-se com a água. Uma e outra vez. Tantas vezes! Quis mais liberdade. Conheceu e começou a relacionar-se com muitos outros umbigos. Quis mais liberdade. Porque contentar-se com o Sol, o vento e a água se podia obter mais para o seu próprio umbigo?

 

O Umbigo.jpgLago di Como, Itália, Maio 2016 - Foto de Sandra Pereira

 

E então chegou a tecnologia. Essa ilusão maravilhosa, que prometeu que tudo seria possível, e mais próximo, e mais rápido, e melhor. Na verdade, nunca foi tão fácil sentir-se próximo de todos os outros umbigos deste planeta. Mas com tantas possibilidades, o umbigo cresceu demasiado e nem se dava ao tempo de saborear cada coisa. Queria viver muito, queria experimentar tanto, queria provar tudo!

 

Nesta euforia, o umbigo não desfrutava realmente do seu umbigo nem se dava conta se apreciava o que vivia, experimentava e provava, ou se o que vivia lhe aportava uma vitória pessoal, uma aprendizagem, uma evolução. O umbigo não era capaz de simplesmente.... fazer escolhas. O umbigo tinha oficialmente ganho a liberdade, mas também a angústia de não saber o que fazer com ela. Começou a sentir-se confuso, e pressentiu o mesmo sentimento nos outros umbigos que conhecia. Só que nenhum se atrevia a quebrar a euforia dos tempos modernos nem a maravilhosa ilusão da liberdade, da proximidade, a magia do instantâneo. Como todos os outros, o umbigo voltou-se cada vez mais para o próprio umbigo.

 

A euforia abrandou, mas o umbigo não se rendeu à insatisfação do próprio umbigo. Era livre! Simplesmente deixou de correr atrás da ilusão do tempo e abandonou-se à sua passagem...

Sandra Pereira

 

 

26
Abr16

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Primavera

 

Nada de novo nos últimos meses. Os dias seguiam-se uns aos outros, sem surpresas, rotineiros. Ia para o trabalho, voltava para casa, sempre de cabeça baixa e olhos no chão. Que vida esta, pensava, escravo do trabalho...

 

Nada de novo nos últimos meses. Não tinha feito amigos novos, não tinha conhecido lugares novos, não tinha tido conversas interessantes, não tinha aprendido nada de novo. Ia para o trabalho, voltava para casa, sempre de cabeça baixa e olhos no chão. Que vida esta, pensava, escravo do trabalho e do lugar onde vivo...

 

Primavera.jpg

 Fotografia de Sandra Pereira

 

“Pode por favor olhar para mim quando lhe falo?”

 

Levantou a cabeça e viu uma bonita senhora servir-lhe o café acompanhado de um belo sorriso. “Não olhe para o chão a não ser que estejam aí as estrelas!”.  Ele agradeceu e decidiu seguir o conselho.

 

Saiu à rua e levantou os olhos. Viu um ceú azul, árvores em flor, pássaros a cantar, cães humidelmente alegres, e rostos de pessoas. Alguns sorridentes, muitos não. Olhou nos olhos cada rosto que se cruzava com ele. Não todos, porque muitos também andavam sempre de cabeça baixa e olhos no chão ou no telemóvel. Mas quando lhe retribuíam o olhar, sentia sempre um arrepio. Parecia que conhecia cada pessoa com que se cruzava, que sabia o que pensavam e sentiam. Pareciam-lhe tão humanos... quanto ele.

 

Sorriu. Era Primavera.

 

Sandra Pereira

 

12
Abr16

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Uma definição de amor

 

Um dia, perguntei por uma definição de amor. Queria ser capaz de não usar a palavra em vão. Queria ser capaz de reconhecer e proteger o seu verdadeiro sentido e valor, num mundo que tantas vezes o esquece e o ignora.

 

Perguntei a amigos e desconhecidos. “O amor é lindo”, “O amor é eterno”, “O amor é inexplicável”. Sempre frases vagas, lugares comuns, ou pensamentos de filósofos famosos. Apercebi-me que não obteria resposta perguntando cara a cara. Porque, para muita gente, é tão difícil e desconfortável falar de amor?

 

Então, pensei que nem todos seriam capazes de explicá-lo porque nem todos o tinham alguma vez sentido verdadeiramente ou nunca tinham pensado em defini-lo realmente, com o seu próprio coração, sem frases feitas ou ideias pré-concebidas.

 

Uma definição de Amor.JPG

Monastério Budista, Parc del Garraf, Barcelona, Fevereiro 2016

Fotografia de Sandra Pereira

 

Então, pensei em quem poderia dar-me uma definição de amor por escrito. Seria certamente mais fácil.

 

Do lado feminino, recebi uma definição de amor.

 

“Com as suas imperfeições, ele faz-me crescer como pessoa. E aceita as minhas imperfeições para crescer também. Só por amor. Só por essa força estranha e poderosa que é o amor. E o que é o amor? É luz? É energia? É interligação cósmica de matéria orgânica? É reacção química? São partículas quânticas complementares? Instinto maternal, fraternal? Porque amamos tanto? Porque somos capazes de sentir um amor incondicional durante a vida inteira? Que força é essa do amor, a única capaz de vencer a razão?”

 

Do lado masculino, recebi uma definição de amor.

 

“O amor é alguém que seja capaz de suportar-me além de mim próprio. O amor é amar alguém, seja como seja, faça o que fizer. É amá-la e pronto. Amá-la toda a vida e pronto. Não é uma escolha. Amor é amar sem razão”.

 

Então, senti que um dia também eu seria capaz de dar uma definição de amor. Quem mais, senão a minha mãe e o meu pai, poderia dar-me a certeza de que o amor é uma forte vibração universal que nada nem ninguém pode controlar?

 

Sandra Pereira

 

 

22
Mar16

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A Vida é Perigo

 

 “O que farias se não tivesses medo?”

 

Nessa manhã, quando leu esta frase, parou de ler o jornal. “O que eu faria se não tivesse medo...”. Na verdade, podia resumir todos os medos num só: o medo de existir. Eram muitos os filósofos e esotéricos que apontavam para o medo de existir, mas nenhum enumerava medidas para combatê-lo. Esse medo parecia uma sujidade da qual não se libertava senão com muito esforço.

 

O assunto não lhe saía do pensamento. Decidiu abordar o tema com um amigo dedicado à espiritualidade. “Para isso”, defendia o amigo, “haveria que parar tudo e começar a escutar-se a si próprio... começar a usar o coração para decidir e razão para planificar...”. Mas para ele, tudo isso era difícil de pôr em prática. Escutar? Alguém teria de lhe ensinar as palavras do coração, porque as desconhece. Por outro lado, pensou segundos depois, se lhas tivessem ensinado, seria incapaz de dizê-las.

 

A Vida e Perigo.jpg

 Castelldefels, Catalunha, Espanha, 24 de Dezembro 2015 - Foto de Sandra Pereira

 

Escutar. Ou melhor, escutar-se. Esse era o primeiro passo que ele ia dar para perder o medo de existir. Tentou escutar-se. Rápido se deu conta que, para ouvir algo vindo do seu coração, necessitava aprender a calar. Ao fim de poucos dias, as pessoas à sua volta estranhavam o seu silêncio, supondo que devia encontrar-se triste ou doente, mas a verdade é que a sua vida começou a fluir e tudo o que lhe sucedia, sucedia naturalmente. Assim, tornava-se mais fácil detectar e identificar o medo. Depois, só tinha de decidir se queria enfrentá-lo ou não.

 

Num desses dias, a mãe estranhou-lhe o silêncio e perguntou-lhe que triste acontecimento atormentava o seu ser.

 

“O que farias se não tivesses medo?”, respondeu-lhe.

 

“A minha avó sempre disse que o coração de um homem necessita acreditar em algo e crê mentiras quando não encontra verdade que acreditar. Eu só acredito no que sinto. O que faria se eu não tivesse medo? Talvez o mesmo que fiz até agora... A vida é perigo”.

 

Sandra Pereira

 

 

08
Mar16

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A Decisao.jpg

 

             A Decisão

 

               “Para.

               Escuta.

               Escolhe um caminho.

               Decide qual com o coração.

               Planifica-o com a razão.

               Escolhe uma paixão. E ama a tua escolha.”

 

                 Sandra Pereira

 

 

 

 

23
Fev16

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O Impossível

 

“Vida dura e injusta, mundo complexo. Desculpa. Parece impossível.”

 

Não queria acreditar. Olhou-me nos olhos e indignou-se:

 

“Impossível? O impossível apenas demora um pouco mais de tempo a cumprir-se. Não te habitues a rotinas. Não te habitues a coisas inúteis ou em excesso: pesam muito e atrasam-te no caminho. Não te habitues ao impossível. Percorre todos os caminhos, mesmo os errados. Falha, aceita e segue. O único impossível é viver com medo.

 

O Impossivel.jpg

Ubatuba, Brasil, Dezembro 2014 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Impossível? O impossível apenas demora um pouco mais de tempo, mas não te habitues a pensar que vais viver para sempre. Da-te conta que estás presente neste mundo.”

 

Sandra Pereira

 

 

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