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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Jul15

Discursos Sobre a Cidade, por José Carlos Barros

JCB

 

UMA OBRA NOTÁVEL SOBRE AS PEDRAS QUE FALAM

 

José Carlos Barros

 

Isto lembrou-me o Professor Santos Júnior. Eu tinha uns dezasseis anos, ele andava nos oitenta. Metia-me na mobilete do meu tio Albino e rumava a Carvalhelhos, esperava-o no lóbi da estalagem, acompanhava-o depois ao Castro dos Mouros. E ouvia-o, invariavelmente fascinado, a contar histórias que as pedras lhe contavam. A perceber que as pedras falam, que as pedras podem falar. As pedras fincadas que faziam parte da estrutura defensiva, lá mais em baixo, na vertente, a caminho da ribeira; as rampas interiores de acesso às muralhas; os fossos; as casas de planta circular ou rectangular. Histórias: estruturas habitacionais que acolheriam os rapazes para que ficassem debaixo de olho quando começavam a ser rapazes; materiais enterrados, escondidos, a mostrar que as populações momentaneamente vencidas, em fuga, esperavam regressar um dia e talvez então vencer quem antes julgara tê-las vencido; vestígios de luta, talvez da luta decisiva, derradeira: pedras soltas que teriam sido arremessadas, parte de uma muralha derruída...

 

Isto lembrou-me o Professor Santos Júnior e o tempo em que andava atrás dele, fascinado, em Carvalhelhos, a descobrir que as pedras guardavam e desvendavam segredos, contavam histórias antigas da vida comum, do quotidiano, dos sonhos, dos medos, das aspirações dos homens: que falavam, portanto... E isto é um calhamaço, capa dura e mais de quinhentas páginas, ai uns bons dois ou três quilos de mapas, fotografias e textos: Aquae Flaviae - I. Fontes epigráficas da Gallaecia meridional interior. Tarefa «árdua e ingrata», esforço talvez nunca «suficientemente valorizado por quem deveria sê-lo» -- lamenta-se por antecipação o autor, Antonio Rodríguez Colmenero, na introdução à obra epigráfica (edição da Câmara Municipal de Chaves, s/d), certo da desproporção entre as exigências do estudo deste nosso passado remoto e o reconhecimento público dos resultados dele.

 

Será assim, é o mais certo. E, no entanto, não deixará de haver um conjunto mais ou menos alargado de leitores que lhe agradecem, e muito, e tanto! -- a ele, ao autor destas «Fontes epigráficas» -- o labor de nos dar a ler as pedras que contam histórias: histórias, neste caso, de um território que tem Aquae Flaviae como centro -- «epicentro romanizador de prestígio» em redor do qual giravam as restantes nove civitates que estão mencionadas no Padrão dos Povos.

 

Vamos, aos poucos, vagarosamente, virando as folhas deste livro, passando uma página, depois outra -- e estas pedras, nas inscrições às vezes já quase ilegíveis, devolvem-nos pessoas e paisagens e desvendam-nos histórias dessa relação quotidiana das pessoas com o meio em que vivem e com as divindades a que prestam culto.

 

Culto a Baco, por exemplo, se a zona é propícia ao cultivo da uva e as vinhas abundam, como em Vila Nova da Veiga, por exemplo, onde uma dedicatória ao «Pai Libre» não deixaria de traduzir o muito gosto pela pinga por parte do invocante.

 

Culto a Vénus, como no caso da ara encontrada em Chaves com uma dedicatória de Lúcio Avito «devido a um sonho que teve».

 

Culto a Diana, como no caso das epígrafes do Capitão Severo ou de Fábio Saturnino, que certamente se davam, com sucesso, ambos, à actividade cinegética.

 

E por aí fora: inscrições votivas ou funerárias, epígrafes viárias ou jurídicas, inscrições honoríficas... Aras que ao longo do tempo serviram de suporte para um lagar ou de coluna de varanda, estelas funerárias de rara beleza estética (antropomórficas, como a de Santo António de Monforte; com ramos de oliveira a flanquear um sol, como a de Vilartão; de frontão curvo, muito simples, em xisto, como a de Segirei...), miliários como o de Antigo de Arcos, encontrado no alto da serra do Pindo e que marcava as 59 milhas desde Braga, a inscrição votiva de Valdanta, encontrada na capela da Granjinha, e que, na dedicatória à «Tutela do Município dos Aquiflavienses», testemunha (se ainda necessário fosse prová-lo) a municipalidade de Aquae Flaviae em época romana...

 

Pedras que falam, que nos contam histórias, que nos desenham os mapas de um território que assim passamos a conhecer melhor e que assim passa a pertencer-nos mais.

 

 

15
Mai15

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

UM OUTRO LUGAR

 

um conto de José Carlos Barros

 

 

Nasci em 1963 e saí de casa dezasseis anos depois. Na minha família quase não existiam lágrimas nem risos. Desconhecíamos o sobressalto. O mundo corria tão devagar que nos era possível surpreender o momento exacto em que as flores brancas das acácias-bastardas, erguidas do outro lado da rua, numa plataforma mais elevada, irrompiam para anunciar o fim do Inverno. Os meus pais quase nunca falavam; e quando falavam, entre eles e connosco, era em voz baixa, num tom que parecia misturar o apaziguamento e a melancolia. O silêncio de dentro era o mesmo silêncio de fora. Vivíamos numa rua larga de terra batida que não levava a lado nenhum, como se a Vila terminasse ali. Enxertada em ângulo recto na estrada nacional, em frente ao edifício do Grémio da Lavoura, a rua subia por entre propriedades agrícolas até a uma curva a partir da qual se bifurcavam dois caminhos: um seguia para a banda do nascente e o outro para noroeste, que era de onde, quase sempre, soprava o vento e chegavam as chuvas. Mas nunca ultrapassávamos esse ponto e nunca nos interrogámos sobre as razões que levavam a isso. Nas nossas brincadeiras de infância, quando passávamos tardes inteiras a brincar aos cobóis, ou ao guarda e ao pilha, era como se houvesse um acordo implícito de demarcação de fronteiras que nos impedia de passar além desse lugar. O mesmo havia de acontecer mais tarde, já adolescentes: não recordo ninguém, de carro ou a pé, de motorizada ou de bicicleta, que, subindo a rua, não tivesse dado meia volta ao chegar à Curva da Mina.

 

A biblioteca do meu pai ia crescendo ao ritmo de um ou dois livros por ano. Em 1979, quando saí de casa, constava de cinquenta e sete volumes. Nas duas prateleiras de baixo, por autores, quarenta e nove livros alinhavam-se numa rigorosa ordem alfabética, de Manuel Asturias a Jonathan Wilde. Na prateleira de cima, onde havia apenas oito volumes, dir-se-ia, não se dando o caso de ocuparem sempre a mesma posição ao longo do tempo, que a ordenação era arbitrária. O primeiro, a contar da esquerda para a direita, era o tomo VIII de uma edição em castelhano dos Sermões do Padre Luys Burdalue (en el que se contienen los SERMONES para los Domingos, Lunes, Miercoles, Jueves, y Viernes, desde el Jueves de la Segunda Semana de Quaresma, asta à el Viernes de la Quarta Semana, inclusivamente). Publicado em Amberes, em 1740, a custas de Marcos-Miguel Bousquet, devia ser uma relíquia de família trazida pela minha bisavó, uma espanhola muito católica, que já não cheguei a conhecer, nascida num pequeno pueblo dos arredores de Valladolid e que, conta-se, passava o tempo a chorar e a rezar. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, vinha logo a seguir. Cervantes, nesta prateleira, era o único autor com direito a dois volumes: do Quixote constava uma edição portuguesa, com tradução dos Viscondes de Castilho e de Azevedo e as conhecidas ilustrações de Gustavo Doré gravadas por H. Pisan, e outra, em castelhano, publicada em Buenos Aires no ano de 1943 pela Editoral Sopena Argentina. Seguiam-se-lhe Ficções, de Jorge Luis Borges (na aclamada tradução de Carlos Nejas), Anna Karenina, de Tolstoi, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, e Alegria Breve, de Vergílio Ferreira. Foi nesta estante de três prateleiras que aprendi a ler e era nesta estante que estavam todos os livros, cinquenta e sete, que li até fazer dezasseis anos e sair de casa.

 

Eu estava sentado numa manta, a jogar ao monopólio com o Ramiro e o Sérgio, quando vi o meu irmão pela última vez. Era uma tarde muito quente de fins de Junho de 1977 e nós estávamos assim, a aproveitar a sombra das acácias-bastardas, quando o meu irmão, de quem raramente se ouvia uma palavra, passou por nós, parou por instantes e, olhando por cima do ombro, disse: «O futuro já existe.» Achei, sem nenhuma razão plausível, que era imprescindível fixar os olhos do meu irmão nesse brevíssimo instante em que nos olhou por cima do ombro. Olhei: e vi que os seus olhos estavam vazados. Quando ele se virou e recomeçou a caminhar pela rua acima, eu continuava a ver esses olhos vazados e continuava a ouvir essa frase como se alguém tivesse falado do fundo de um poço. Hoje penso que o meu irmão se havia fechado irreversivelmente às coisas exteriores por impossibilidade de acertar o seu tempo com o tempo dos outros. Porque talvez o meu irmão já estivesse num outro lugar: «O futuro já existe.» O certo é que foi a última vez que o vi, ainda que a memória dos seus olhos vazados continue presente como nessa tarde muito quente de Junho de 1977. E neste momento, tantos anos depois, quero acreditar que o meu irmão já não levava consigo memórias nenhumas, e que, de olhos vazados, subindo a rua a caminho da Curva da Mina, o havia tocado a graça do esquecimento. Porque o meu irmão ia a caminho de um outro lugar e a memória do passado é a que deve causar a primeira pena das almas condenadas.

 

Não me lembro de se ter falado do desaparecimento do meu irmão. Em casa continuou o mesmo silêncio de sempre: um silêncio espesso, uma vibração imperceptível do ar. O meu pai passava o tempo a ler, embora nunca tirasse um livro das duas prateleiras de baixo: os livros que escolhia, invariavelmente, eram os da prateleira da estante onde não se alinhavam mais do que oito volumes. Às vezes penso que lia o mesmo livro várias vezes seguidas, reiniciando a leitura logo que chegava à última página, ou então que retrocedia e avançava à procura de uma passagem precisa, por não me parecer provável que o processo fosse aleatório. A minha mãe, por outro lado, estava quase sempre sentada ao pé da janela da sala, puxando a cadeira mais para trás ou para diante, mais para a esquerda ou para a direita, conforme as estações do ano e as horas do dia derramavam a luz quase a pique ou a estendiam, oblíqua, leve, difusa, quase a misturar-se à obscuridade da casa. Mas a maior parte das vezes era como se não existisse. Eu entrava na sala à procura da minha mãe, e a minha mãe não estava: sobre a mesinha ao lado da cadeira de verga viam-se apenas dois novelos de lã, um azul, outro cinzento, as agulhas longas e uma espécie de tapete bicolor cada vez mais pequeno, como se o tricot devesse sobretudo ao laborioso, lento, trabalho de destrançar as malhas; eu entrava na cozinha à procura da minha mãe, e a minha mãe não estava: sobre o fogão via-se uma chaleira com água quase a ferver, e eu ficava muito tempo à espera e a minha mãe não chegava, e a água da chaleira continuava assim, quase a ferver, como se fosse possível continuar a ser aquecida sem nunca atingir o ponto de ebulição. Certa vez, num dia radioso de Verão em que a minha mãe estava no fundo da sala, junto à janela, vi com espanto que a luz a atravessava como se ela fosse transparente. Como se, aos poucos, estivesse a ficar invisível. Apeteceu-me gritar. Apeteceu-me chamá-la. Mas era como se o tempo tivesse parado e as coisas acontecessem apenas fora de nós.

 

Não posso dizer que tenha lido todos os livros da biblioteca do meu pai. Porque deixei alguns a meio; porque, encontrando outros mais monótonos ou repetitivos, mas ainda assim fascinantes, saltava algumas páginas ou, mesmo, um ou outro capítulo, depois de lhe passar os olhos de viés. Fosse como fosse, nessa altura eu não podia saber que os livros das duas prateleiras de baixo faziam parte de uma biblioteca impossível. A verdade é que, desde que saí de casa, em 1979, nunca mais encontrei nenhum desses quarenta e nove livros nem vi referência a um único desses onze autores. Tudo começou quando, certa vez, já muito tempo depois de ter saído de casa, me apeteceu reler alguns dos meus livros preferidos: Tratado Sobre a Impossibilidade das Graças, por exemplo, de Jorge Castilho Azevedo Ferreira, edições A Curva da Estrada; ou Os Lugares que Mudam de Sítio, de Vergílio Leão Rosa, edições Pretérita. Pesquisei, interroguei, corri tudo e não encontrei uma única referência aos títulos, aos autores, às editoras. E, no entanto, ambos os livros estavam na biblioteca do meu pai: li-os, mais do que uma vez, de uma ponta a outra. Por isso passei alguns anos sem conseguir compreender: não era fácil compreender que o espólio da biblioteca do meu pai não pudesse ter mais do que oito volumes e sete autores, e que, simultaneamente, constasse de cinquenta e sete volumes e dezoito autores.

 

No princípio, quando tinha onze anos, doze, as coincidências entre a vida e a literatura pareciam-me normais. Os livros, para mim, limitavam-se a descrever as coisas que já tinham acontecido e as coisas que haviam de acontecer. Como se tudo já estivesse escrito nas páginas dos livros. Por isso não comecei por estranhar quando, no Discurso Sobre as Evidências, de Luís Guimarães Borges (edições Esporão, 1964), os pormenores de um acidente de bicicleta do protagonista pareciam descrever o meu próprio acidente de bicicleta, ocorrido mais de dez anos depois da publicação do volume. Por isso não estranhei quando, imediatamente após o desaparecimento do meu irmão, recordei um trecho de A Avenida Imensa em que, no final do sexto capítulo, podia ler-se: «E foi então que ele subiu a rua como se deixasse o mundo atrás de si: os olhos vazados, a passada lenta, a expiar as culpas dos outros. Era uma tarde muito quente de fins de Junho: três rapazes estavam sentados numa manta e olhavam-no sem compreenderem que o futuro e o passado se misturavam nesse momento até à impossibilidade da reconciliação.» E quando a minha mãe desapareceu, em 1978, não achei estranho que, algum tempo depois, ao ler A Aurora Última (edições Valdarada, 1965), se falasse de uma mulher «de longos cabelos» que deixava o mundo, e as palavras do mundo, numa manhã em que «a neve cobria os telhados das casas e os caminhos que não levavam a lado nenhum».

 

Lembro-me do momento exacto em que vi a minha mãe pela última vez. Foi em Dezembro de 1978. A neve caía desde a noite anterior até cobrir de branco as coisas todas: os telhados, as árvores, os caminhos. Eu acordara tarde, era um sábado, e abrira ligeiramente a janela do quarto para sentir o frio a entranhar-se-me vagarosamente no corpo. E foi então que a vi: a minha mãe subia a rua a caminho da Curva da Mina e a imagem dela ia-se diluindo na quase cerração do ar. E não deixava pegadas na neve: era como se já tivesse caminhado nessa rua há muito tempo, como se o tempo tivesse coberto de neve as passadas que dava. Penso ter gritado: «Mãe.» Mas talvez apenas tenha permanecido em silêncio, a replicar o silêncio de fora, a replicar o silêncio da casa. Eu olhava e o corpo da minha mãe, mais do que a diluir-se na poalha fina, parecia começar a ficar transparente, invisível. Como se estivesse a desaparecer de si mesma. Não sei. O que sei é que em casa não se falou do assunto. O que sei é que o meu pai continuava a passar os dias a ler, um livro, depois outro, retirando-os da prateleira de cima, onde não havia mais do que oito volumes e sete autores declarados. O certo é que, na mesinha ao lado da janela da sala, havia duas agulhas e dois novelos de lã, um azul, outro cinzento, como se o destino, que é o futuro, esperasse que alguém se sentasse na cadeirinha de verga e começasse a tricotar um tapete bicolor.

 

Foi uma vizinha que me telefonou, no ano em que estamos, 2014, a dar notícia da morte do meu pai. Tinham passado mais de trinta e quatro anos desde que saíra de casa. Vivo na Bélgica, em Antuérpia, e os negócios quase me impediram de chegar a tempo do funeral. Um avião para o Porto, depois um carro alugado. Entrei na igreja e estranhei, contra a tradição, a meio do elogio fúnebre, ver o caixão fechado: a tampa fechada sobre o corpo do meu pai. A missa já decorria. Não perguntei a ninguém por que razão o rosto do meu pai estava escondido sob uma tábua. Não perguntei, e recordei um texto antigo segundo o qual um féretro era o andor em que, nos triunfos, se levavam os despojos dos vencidos. E não tive coragem de pedir que abrissem o caixão: tinha a certeza de que, abrindo-o, se veria que não havia ninguém lá dentro. Como se o meu pai nunca tivesse existido ou não pudesse existir.

 

A vizinha Ermelinda, condoída em lágrimas, lamentando-se de a vida ser assim como é, entregou-me a chave da casa dos meus pais. Regressado do cemitério, ouvidas as condolências todas, entrei na casa de que saíra no afastado ano de 1979. Era como se entrasse num templo. A salinha de baixo, a escadaria em madeira a ranger sob os meus passos, o corredor, a sala, a cadeira, a mesinha onde permaneciam as agulhas e os dois novelos de lã, a cozinha, o meu quarto, o quarto do meu irmão mais velho, o quarto dos meus pais. E a estante dos livros. Havia jurado nunca mais olhar essa estante, essas três prateleiras, as lombadas desses livros. Mas não resisti, aproximei-me, olhei a prateleira de cima, com oito volumes, e as duas prateleiras de baixo. E foi então que descobri, além dos cinquenta e sete títulos, um outro: O Futuro já Aconteceu, de Henri-Marie Nikolayevich. Puxei da cadeirinha de verga da minha mãe, que continuava ao pé da janela da sala, e abri o livro. Começava assim: «Uma vizinha deu-lhe notícia da morte do pai. Nessa altura, em 2014, trabalhava em Amberes -- a que outros chamam Antuérpia. Quase não chegou a tempo das cerimónias fúnebres. Entrou na igreja já com a missa adiantada e estranhou que o caixão, contra a tradição, estivesse fechado.» Parei a leitura. Não queria acreditar. Mas, por outro lado, as peças encaixavam: os livros das duas prateleiras de baixo contavam a história da minha família, ou talvez a história do mundo: o que já tinha acontecido; o que, um dia, mais tarde, mais cedo, havia de acontecer.

 

Fui à procura de uma mala grande. Enchi a mala imensa, de couro, do meu pai, com os cinquenta e oito livros da biblioteca. Arrastei-a a custo, guardei-a na bagageira do carro alugado. Tinha um voo marcado, no Porto, para as dez da manhã do dia seguinte. Eram duas da tarde. E não resisti: talvez nunca mais tivesse uma oportunidade assim. Fui à loja do chinês, junto ao mercado, e comprei três rolos, quinhentos metros cada, de fio de nylon. E subi a rua da infância, da adolescência, até à Curva da Mina. Não havia ninguém em redor, não se ouvia um ruído. Espetei no chão um prego caibral e, no prego, dei um nó ao fio do primeiro novelo. Havia dois caminhos. Segui pelo que levava ao nascente, deixando, atrás de mim, o fio estendido. Não havia árvores, não havia matos, não havia ervas: a paisagem nua, sem nada, sem o ondulado dos montes, sem o vinco das ribeiras ou dos rios. A própria terra parecia esboroada, peneirada até ao pó de giz, até à limalha mais fina. Até ser tudo branco, tudo liso, tudo irreconhecível. E eu deixava o fio atrás de mim e continuava. Sempre a direito. E depois o novelo terminava e eu espetava no chão um outro prego e continuava a caminhar, sempre a direito, deixando o fio de um outro novelo atrás de mim. E já o fio do terceiro novelo estava a terminar quando cheguei à Curva da Mina: ao ponto de partida. Procurei o prego espetado no chão, mas o prego tinha desaparecido. Talvez o meu irmão se tivesse perdido nesse caminho e regressado ao ponto de partida. Talvez a minha mãe se tivesse perdido nesse caminho e regressado ao ponto de partida. Talvez tivessem regressado. Talvez se tivessem perdido para sempre. O certo é que o caminho não levava a lado nenhum.

 

Olhei então o caminho que seguia na direcção do noroeste. Apeteceu-me avançar, deixar-me perder nele ou encontrar-me, descobrir finalmente aonde levava, compreender os segredos que guardava. Decidi-me. Hesitei. Desisti. Porque, levasse aonde levasse, terminasse ou não no ponto de partida, tivesse ou não um princípio e um fim, pareceu-me então evidente que esse era o caminho que levava ao mundo do esquecimento e das ausências.

 

Nessa noite, no Porto, no hotel, preparei-me para passar a noite inteira a ler o último volume da biblioteca do meu pai: O Futuro já Aconteceu, de Henri-Marie Nikolayevich. Peguei na mala e achei-a estranhamente leve. Abri-a. E descobri com espanto que estava quase vazia. Lá dentro, em vez dos cinquenta e oito livros que tinha arrumado, havia apenas oito: os oito volumes da prateleira de cima da biblioteca do meu pai.

 

 

Nota: este texto foi originalmente publicado no livro «O Lado de Dentro do Lado de Dentro» (edição da «Associação de Ideias para a Cultura e a Cidadania», Horta, 2015), no âmbito do projecto «A Poesia não tem Grades».

 

 

18
Abr15

Hoje vamos ao teatro

carai.jpgA este não podia faltar, primeiro porque tenho a certeza que fala de nós, da nossa gente, mesmo não conhecendo a peça, mas não fosse ela de autoria de José Carlos Barros, o mesmo que uma vez por mês deixa aqui no blog um "discurso sobre a cidade", homem das prosas mas principalmente da poesia, a sua praia, mais que reconhecida pela sua qualidade e pelos prémios que tem vindo a arrecadar ao longo da sua carreira literária.

 

José Carlos Barros também é um dos nossos, embora residente lá ao fundo de Portugal, no Algarve, é natural de Boticas mas também um pouco de Chaves, onde estudou no Liceu e fez o ensino secundário mas também amizades antes de partir para se licenciar em Arquitetura Paisagística.

 

Da sua já larga obra, maioritariamente em poesia, vai fazendo um pezinho na prosa, no romance onde o “Prazer e o Tédio” depressa passou a tela de cinema para agora se estrear no teatro com a sua obra “Carai valha-me Deus” que mais logo, às 21H30 será apresentado em Chaves, no Auditório do Centro Cultural.

 

Como ainda não vi a peça apenas posso deixar aqui aquilo que serve de sinopse para Chaves — Comédia que gira à volta do dinheirinho que vem da Europa e do uso que dele é feito. Um divertido espetáculo com um apresentador azarento e uma personagem que nem é para ali chamada: a inabalável Mulher-Que-Faz- Renda.”

 

Assim, se estiver em Chaves e não tiver programa para logo à noite, faça como eu e vá ao teatro. Encontramo-nos lá!

 

 

10
Abr15

Discursos Sobre a Cidade, por José Caslos Barros

JCB

 

 

Sete Parágrafos sobre a Paisagem

 

José Carlos Barros

 

  1. Os que estão em cima olham tão de alto que deixam de ver

 

Nasci em Boticas e Boticas é uma vila rodeada de aldeias por todos os lados. Nasci, portanto, no mundo das Aldeias.

 

Mas, rodeado de aldeias por todos os lados, nasci na vila. E para os meninos da vila, no meu tempo, "ser das aldeias" era uma expressão que se usava de modo depreciativo a remeter para gente atrasada, ignorante, parola. Nós olhávamos de cima os das aldeias como os de Chaves nos olhavam a nós ainda mais de cima e os de Lisboa tão alto a todos que, não se distinguindo já entre aldeias e vilas, cidadezinhas e capitais de distrito, metiam tudo no mesmo saco e, afagando o umbigo, resumiam: "o resto é paisagem".

 

  1. O que não se move é como se não existisse

 

Isto da paisagem (ou da Paisagem, conforme os casos) quase sempre coloca problemas de definição. Há quem ache que a paisagem é o panorama que se vê de um alto olhando um vale ou o retrato que se tira de uma baixa olhando o cimo de um monte. Não falando já de quem, posicionando-se no Terreiro do Paço -- no Terreiro do Paço de facto ou no Terreiro do Paço metafórico (em ambos os casos orientando o país no seu todo com os resultados excelentes que sabemos e nos vai sendo dado assistir) --, acha que "o resto é paisagem". Quer dizer: a inutilidade, a excrescência, o que sobra, o que não interessa.

 

Ora, em todas estas acepções -- o panorama ou o cenário, a excrescência --, à paisagem está subjacente o conceito de coisa estática: a paisagem como coisa afastada das pessoas que se movem e a transformam, ou são transformadas por ela.

 

Este entendimento é uma chatice porque dá razão à asserção do Paço. Ou seja: só o Paço interessa porque (a ser assim) o resto -- que é a paisagem -- não bole nem um cibo. E, não bulindo, é, de facto, uma inutilidade e uma excrescência.

 

  1. O que vem de mais longe

 

"É verdade que uma paisagem [escrevi eu certa vez num outro lugar] é quase sempre o resultado do que fizemos dela: do modo como desviámos ou represámos águas, arroteámos florestas, cortámos pedra e erguemos paredes. Mas é a força dos lugares

 

(mesmo depois do primeiro olhar de um homem sobre as encostas e os vales, mesmo depois da primeira mão modeladora, mesmo quando do que eram ficou um irreconhecível retrato)

 

o que prevalece e se impõe sobre a obstinação e a vontade, o esforço e a audácia de procurar afeiçoar a um corpo o que vem de mais longe que a mão e a ideia de construir uma casa e um terraço virado aos dias de Verão. Deus, provavelmente, é a resposta (uma resposta) a esse incontornável poder dos lugares sobre os homens."

 

A Paisagem, pois, não é senão o resultado dessa relação entre as condições prévias determinadas pelo território e a acção transformadora do Homem. Ainda que o Homem -- a crer no texto acima -- mande menos do que o Lugar...

 

  1. Os livros deviam ser oferecidos nas ruas

 

Eu era muito novo quando o meu pai comprou em Boticas, na Fotografia Ricardo, o primeiro livro de António Lourenço Fontes. Não havia em Boticas, nesse tempo, nenhuma livraria, nenhuma papelaria, nenhum quiosque onde se vendesse um livro. Pois este lá estava na casa dos retratos, encostado à porta, na rua, exactamente ao lado de onde agora é o Arsénio, num escaparate com uma portinhola em vidro fechada por um aluquete, com a capa a amarelar de o sol lhe bater uma boa parte do dia. E esse livro, para mim, foi uma revelação, porque explicava que havia uma relação forte entre o Homem e o Lugar, e que essa relação -- de que em última análise resulta uma Cultura e uma Paisagem -- era dinâmica. Bulia.

 

O resto, afinal, não era necessariamente nem uma inutilidade nem uma excrescência -- ainda que fosse paisagem...

 

  1. Às vezes já somos as coisas que ainda não sabemos

 

O livro do António Lourenço Fontes tinha um canastro na capa e os canastros em utilização eram coisa de gente atrasada, ignorante, parola. Fui-o folheando a baralhar-me: o livro valorizava o que, moços da vila, depreciávamos; falava das crenças, da religiosidade popular, das tradições, dos trabalhos agrícolas -- e eu, de súbito, a render-me à descoberta de uma gramática que era a base de compreensão de um mundo fascinante, culto, mágico, ligado à terra e ao céu, à raiz e à nuvem, a gente de rosto altivo, a um universo, enfim, de que me sentia afastado e a que simultaneamente, contraditoriamente, desejava pertencer -- ou como se, num certo sentido, já pertencesse.

 

  1. Conhecer e mudar

 

Alexandre Cancela d' Abreu definiu o Ordenamento do Território (coisa actualmente de doutores e engenheiros) como "o processo que, no passado, envolvia um complexo somatório de acções em toda uma comunidade culta -- no sentido de desenvolvimento dos conhecimentos e das capacidades intelectuais para intervir no meio que a rodeia e de que faz parte -- profundamente enraizada no seu território".

 

Essa comunidade culta, "profundamente enraizada no seu território", é a gente das Aldeias. Gente que construía Paisagens com o cuidado de quem sabia que o Homem, apesar de tudo, manda sempre menos do que o Lugar.

 

  1. A morte das Aldeias

 

"O grande problema do País é a morte das Aldeias" -- disse, aqui há uns tempos, o Professor Gonçalo Ribeiro Telles.

 

O problema é que há pouca gente para dar por isso.

 

 

13
Mar15

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

Três Histórias do Sul

 

José Carlos Barros

 

 

[NOTA: Em vez de um discurso sobre a cidade, em vez do regresso às memórias dos lugares onde nasceu e cresceu – hoje, neste espaço, excepcionalmente, o autor escreve sobre os lugares onde vive.]

 

  1. A cor dos olhos dos peixes

 

Foi quando alguém reparou que o barco «Proa dos Mares de Monte Gordo» trazia dois sargos de olhos azuis. Nunca ninguém tinha visto um sargo com os olhos azuis. E não era um azul acinzentado, ténue. Era um azul intenso e ao mesmo tempo quase transparente. Um azul que parecia vir de longe. Um azul que misturava o azul do céu e o azul do mar nas tardes claras dos primeiros dias de Junho. As pessoas iam-se juntando à volta do barco e já todos tinham opiniões sobre a cor dos olhos dos peixes. Um turista fez-se ouvir e disse, numa pronúncia nortenha, que a cor dos olhos dos peixes era como a cor dos olhos das pessoas: «Há peixes com olhos berdes, cinzentos, castanhos, bermelhos, quase negros, azuis.» As pessoas olhavam o turista e dividiam-se entre mandá-lo calar ou pregar-lhe um estacaço. Foi então que alguém se lembrou de chamar o Mestre Carreço, velho lobo-do-mar, homem sábio e experimentado nas artes da pesca e nas coisas do mundo. Ele veio e perguntaram-lhe se alguma vez tinha visto um sargo com os olhos azuis. Mestre Carreço puxou de um cigarro e olhou à roda sem compreender muito bem o que fazia ali tanta gente a discutir a cor dos olhos dos peixes. Fez-se silêncio. Mestre Carreço acendeu o cigarro, olhou de novo à volta, expirou o fumo vagarosamente e só então respondeu: «Olhos azuis? Não sei. Tenho mais de sessenta anos de mar e nunca fui capaz de olhar de frente os olhos dos peixes.»

 

  1. Como se uma luz o tivesse perdido

 

Continuava a tempestade e os barcos não iam ao mar. Os homens ficavam na praia a arremendar as redes e a beber cerveja. Por isso quase não acreditaram quando viram o Lúcio a sair para o mar de pesca como se estivesse alucinado. Como se uma luz o tivesse perdido. O «Proa dos Mares de Monte Gordo» passou milagrosamente a rebentação e depois aparecia e desaparecia na espuma das vagas caveadas. Até que desapareceu de vez. A neblina veio e poisou nas águas e escondeu a linha do horizonte. Os homens ficaram o dia quase todo a olhar na direcção do mar a procurar os sinais de um barco que vai ao fundo ou se desmantela na força da tormenta. Mas nada. O mar continuou assim durante uma semana e durante uma semana os homens continuaram em terra. Até que a bonança começou a anunciar-se e decidiram que no dia seguinte regressariam à pesca. Mas nessa tarde, já de mar-chão, o Augusto deu de vaia: «Olha o Proa dos Mares de Monte Gordo!» Os seus gritos ouviam-se a toda a lonjura da baía. Os pescadores correram a ver o barco do Lúcio, quase parado a não mais de duas braças de distância como se estivesse à espera de varação. Olhavam e viam o barco a aproximar-se devagar. Mas não havia sinais do Lúcio. Ao leme vinha apenas uma sereia. Uma sereia de rosto muito claro, longos cabelos soltos sobre os ombros e o corpo verde e azul a irradiar uma luz que se espalhava nas águas e no areal.

 

  1. O barco fantasma

 

Dizia-se que o Garrajola enlouquecera na manhã de cerração em que vira um barco fantasma. Por isso todos temiam esses dias em que a névoa se espalhava no areal e poisava nas águas. Ninguém se atrevia a ir ao mar. Os pescadores ficavam fechados em casa ou rumavam ao café a beber cerveja e a jogar ao pablo ou à espadilha. Mas a questão dos barcos fantasmas acabava por dominar as conversas e Mestre Carreço era chamado a explicar mais uma vez que eles vinham em busca de passageiros para as suas viagens em direcção a lugar nenhum. Umas vezes levavam as pessoas fisicamente, outras vezes em espírito. Como no caso do Garrajola: levaram-lhe o espírito e deixaram-no assim, no areal, com os olhos vazios e parados no tempo. Mestre Carreço falava e ficavam todos muito sérios. À excepcão de Ramiro. Ramiro ria-se e dizia: «Mó, isto me parece a história da Carochinha e do Ratão.» Nessa tarde, quando acabou o jogo do pablo, viram-no sair do café e fez-se silêncio. Parranita, o irmão de Ramiro, levantou-se da mesa de jogo. A névoa começava ligeiramente a erguer-se quando saiu à rua e o viu a virar à esquerda na rotunda do «Deus Me Proteja». Seguiu-o à distância e encostou-se à muralha. Ramiro atravessava o areal e aproximava-se da zona de rebentação. Parranita olhava e, de súbito, a poucas braças da praia, viu um barco desenhado nas suas formas difusas: o cavername estreito e muitos mastros estranhamente iluminados por uma luz irreal. Ramiro olhava fixamente na direcção do barco e continuava a caminhar pelo mar adentro. Parranita vozeou e correu ao seu encontro. O sol, entretanto, ia afastando a névoa e o barco fantasma desaparecia no horizonte. Ramiro já tinha a água acima da cintura quando o irmão o agarrou e disse: «Estás louco?» Trouxe-o de volta ao areal e repetiu: «Estás louco?» Mas Ramiro parecia ausente de si mesmo e não dizia nada. Parranita olhou-o e um grito saiu-lhe da garganta. Um grito de terror que atravessou a praia e as paredes das casas ao olhar o rosto do irmão: os olhos de Ramiro tinham deixado de brilhar e pareciam vazados e parados no tempo.

 

 

06
Fev15

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

EU SE ME APANHO EM SEGIREI, NA VIDA REAL...

 

José Carlos Barros

 

Não surpreende que as instituições e os mercados reajam em coro, afinados, defendendo-se da afronta de alguém que faz parte do mesmo grupo de sócios se atrever a dizer em voz alta que não há apenas, sempre, um único caminho.

 

O quê? Não há apenas UM caminho?...

 

E embora quase todos achemos que há sempre outros caminhos, e que é legítimo invocar a possibilidade de sair da estrada principal e chegar ao destino por caminhos diferentes, a verdade é que olhamos de lado alguém que acaba por decidir sair da estrada principal e procura chegar ao destino por caminhos diferentes. É que não nos temos que não comentemos logo, por dentro quase sorridentes, já à espera do tombo:

 

"Ui, este VAI-SE ESPALHAR..."

 

E o mais certo é que se espalhe. Porque sabemos que os caminhos, fora da estrada principal, estão cheios de buracos: abertos pelo sistema global de posicionamento. Porque sabemos que, fora da estrada principal, as informações dos sinais e das placas estão destrambelhadas: rasuradas, encriptadas, pelo sistema global de posicionamento. Porque sabemos que quem for por aí muito dificilmente chegará ao destino: porque a forma de chegar ao destino é o sistema global de posicionamento quem a define.

 

Não nos ocorre que pudéssemos, em conjunto, IR TAPANDO OS BURACOS e acertar as informações dos sinais e das placas desses caminhos. Talvez depois já pudéssemos andar neles. Mas não, não nos ocorre: nós não embarcamos em CONTOS DE CRIANÇAS; a infância já foi há muito tempo, já vai longe, e as carrinhas da Gulbenkian já não param nas aldeias e nas vilas, uma vez por mês, ao fim da tarde, com os Irmãos Grimm nas lombadas.

 

E, de resto, todos temos GPS — mesmo quando, neste caso, nem o encomendámos. Seja como for: se o GPS nos diz que o caminho é aquele, vamos nós agora inventar e afrontar o sistema de posicionamento global (também conhecido por Demontage-System der Peripherieländer)?

 

Pois o GPS, ocorre-me agora, é uma boa metáfora do nosso tempo: andamos todos pelos mesmos caminhos. Pelo mesmo caminho. Em fila, uns atrás dos outros. Porque o GPS nos dá a garantia de que não nos perdemos. E o preço que pagamos por essa segurança até nem é muito alto: o preço que pagamos por essa segurança é apenas o de nos ser impossível ENCONTRARMO-NOS A NÓS MESMOS. Porque só nos podemos encontrar se por um momento estivermos perdidos. E o GPS, se nos estivermos quase a perder, num ai nos propõe darmos meia-volta e regressarmos ao trilho.

 

Quer dizer: o GPS do nosso tempo, entendido de um modo metafórico e ainda mais global, comandado pela abstracção dos mercados, não apenas nos propõe darmos meia-volta se sairmos do rego: melhor dizendo, INTIMA-NOS a dar meia-volta. Porque senão, abstracto mas simultaneamente eficaz nas coisas práticas, leva-nos a um caminho cheio de buracos como quem conclui:

 

"Ai agora quero ver como te desenrascas desta. Eu não te avisei que desses meia-volta? Armas-te em esperto e desanco-te o rating.”

 

Deixámos de viver no mundo real — esse em que se procuram equivalências entre as necessidades e as respostas a essas necessidades. Hoje é tudo feito por GPS: carregamos num botão de início de viagem e O SISTEMA diz-nos por onde devemos ir (e a gente nem discute — pois se não existem outros caminhos senão O Caminho)... Talvez, enfim, o GPS, na jornada, nos leve em direcção a um precipício. Mas, mesmo assim, podemos estar sossegados: o sistema garante que nos oferece um airbag ou uma rede ou almofadinhas: o trambolhão pode ser grande, de escacha-pessegueiro, mas não partimos a merda de um osso, uma clavícula, uma vértebra: CAÍMOS D’ ALTO, mas sem fractura exposta: só crescentemente moídos do lado de dentro. Não nos dá remédios de curar — mas garante-nos ANESTESIAS FIXES.

 

O que é que mais queremos?

 

O ponto é que andemos todos no mesmo caminho. Um caminho cada vez mais abstracto, cada vez mais virtual, cada vez mais fora da vida real — mas segurozinho; sem riscozinhos escusados. Assim, com diminutivos e tudo, como deve-de-ser.

 

Ora a mais perfeita metáfora deste sistema (o tal Demontage-System der Peripherieländer) foi-nos dada ontem, no noticiário televisivo, por uma jovem senhora de visita à serra da Estrela. Pergunta o jornalista:

 

"Então, nunca tinha visto neve?"

 

E ela, sorridente, feliz de ver a neve concreta:

 

"Não. Quer dizer: NA VIDA REAL nunca tinha visto."

 

Porque ela tem a consciência de que, a não ser em visita à serra da Estrela, e às escondidas do memorando e da Trindade Cifrona, como foi, em segredo — já não nos é dado há muito andar na vida real.

 

E, mesmo assim, que fale mas é baixinho. Que ainda se fode. Quando for a dar conta metem-lhe a neve no facebook – E É UM PAU. Porque se os mercados disserem que não podemos ver a neve na vida real — fazemos o quê? Compramos aos alemães uma máquina de fazer neve e montamos a dita no quintal, por baixo de um telheiro, precatados de ninguém dar por ela e o mau tempo não lhe estragar os rolamentos da engrenagem?

 

09
Jan15

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

ISTO SÓ EM VILARINHO

 

José Carlos Barros

 

Foi há seis anos que dona Marquinhas anunciou o propósito de recuperar a tradição do presépio de Vilarinho que antigamente se montava no Largo da Escola. Fez as contas à reforma e às poupanças e começou por adquirir a imagem do Menino Jesus em tamanho natural. E, passados quatro meses, a Nossa Senhora. E depois, espaçadamente, o São José, o burro, os Reis Magos, o pastor, as ovelhas. Seis anos nisto até que a 12 de Dezembro último, enfim, se começou a montagem. Todos muito rendidos à emoção, quase a epifania, quando se dá um revés. Diz a Lena: «Ó Marquinhas, carai, então os teus Reis Magos, os três, são brancos co-má-gente? Não saberás que um era preto retinto?»

 

Lá teve, pois, que se encomendar a Braga, com pedido de urgência, um preto. A temer-se, tão em cima da hora, que já nem chegasse a tempo. Quis Deus que chegasse: a 23. E logo nessa tarde, sem demoras, se recomeçaram os trabalhos de colocação das figuras: já o serrim nos caminhos, já o papel azul de lustro nas ribeiras, já o musgo no resto.

 

Até que a Lena se apercebeu da falta da vaca: «Olha-me um presépio só com o burro.»

 

Outro revés. Este pior: anunciada a inauguração, o padre Martins convidado à bênção, as rabanadas e as filhoses de jerimum à espera.

 

Mas foi então que o Tó Maluco, o único declarado no nome de entre os doze que existem na terra, se fez ouvir: «Descansem. Eu é falar com o doutor e resolve-se tudo.»

 

Diz-se que em todas as terras há um maluco. Em Vilarinho são doze. Quem o afirma é o doutor Augusto, que parece que se inclui nas contas. A Marquinhas também ninguém a tira do rol. Isto, somado ao Tó, é ver-se a quem a coisa começava a ficar entregue.

 

O certo é que a 24, ao anoitecer, o Artur Vicente estacionou a camioneta no Largo da Escola e viu-se a descarregar e a fazer deslizar sobre o musgo, ajudado pelo doutor Augusto e o Tó Maluco, um vulto de pescoço alto.

 

E hoje, 25 de Dezembro, não sendo ainda meio-dia, já o povo das aldeias à volta, e mesmo de Chaves, pois tão longe e rapidamente andou a notícia, se acotovela em redor do presépio.

 

É quando alguém diz: «Isto só os malucos de Vilarinho.»

 

Inveja. Porque o certo é haver acima de duzentas pessoas a olhar, deslumbradas, o único presépio do mundo com quatro Reis Magos e uma girafa, desaparafusada na noite anterior do carrossel que o Artur Vicente estaciona durante o Inverno no jardim do doutor Augusto, a fazer de vaca.

 

[Texto publicado originalmente na revista SÁBADO, nº 556, edição de 23 a 29 de Dezembro de 2014]

 

 

05
Dez14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

Um Conto de Natal

 

José Carlos Barros

 

 

"Este dava era um bom Pai Natal..."

 

E riam-se todos.

 

As opiniões sobre o Raposo extremavam-se. Diziam uns que não funcionava de nenhum dos mecanismos da molécula, outros que era fino como um alho e que a levava era-bem-boa a fazer-se de tolo.

 

O certo é que, não digamos mais, ao menos um parafuso lhe faltava. Quer dizer: não era normal dormir-se ao relento a maior parte do ano, e nuns telheiros derruídos, quando vinha a geada ou a neve, a restante. Sobretudo vindo das famílias de que vinha, com nabais e casa de sobrado. Não era normal, pois, que uma pessoa assim se marginalizasse voluntariamente e comesse quando calhasse, daquilo a que chamava "óquemedão", passando fome. E, sobretudo, era difícil compreender o orgulho: embora às vezes vendo-se que quase nem se segurava de pé com a fraqueza, andava ainda assim de peito de tal modo feito, e de nariz arrebitado, que chegava a rejeitar folar e um copo de tinto de Anelhe, é um supor, quando era tempo de Páscoa, ou uma talisca de presunto em sendo qualquer altura do ano, se lhe diziam: "Ó Raposo, então não aceitas um copo e não petiscas um cibo?"

 

"Que não", respondia o artista: "Ainda aqui tenho nos dentes a remoer uns restos de arroz de lebre a correr do almoço."

 

Capaz do orgulho, imagine-se, o Raposo. Como se na aldeia o orgulho não fosse um exclusivo dos Monteiros, que, diz-se, eram milionários no sentido acima de literal de terem, à ordem, no Soto Mayor, mais de cem mil contos de réis.

 

Percebe-se que a alguns só faltasse elevá-lo aos altares, como exemplo, e que a outros, talvez também como exemplo, lhes apetecesse apenas mirá-lo a afogar-se numa poça de água funda a ver se, já com as goelas entupidas, e a respirar pelas guelras, o cara de carai não pedia um pau a que se segurasse.

 

O Raposo tinha uma barba abundante e cabelos já grisalhos sobre os ombros. Não admira, na matança do Guto, discutindo-se os pormenores da noite de consoada na Junta de Freguesia, que se tenha alvitrado:

 

"Este dava era um bom Pai Natal..."

 

E riam-se todos.

 

O Raposo aparecera, estrategicamente, no exacto momento em que, colocada a toalha de linho sobre o bicho-falecido, chegavam as duas travessas de sarrabulho. Passara adiante a tarefa de agarrar-se o reco saído da loja, a correr no pátio, fixado pelas patas traseiras que se levantavam para que escoucinhasse em vão, e assim se colocasse sobre a tábua. Passara adiante a tarefa de segurá-lo, aguentando-se-lhe os ímpetos, quando começava a cuincar de a faca do mestre sangrador, enterrada até ao cabo num único e certeiro movimento, lhe exigir o grito ritual que ecoava no vale e atravessava as paredes largas das casas. Passara adiante as tarefas de se chamuscar o morto, com os feixes acesos da palha de centeio, e de raspá-lo, amaciado o couro a poder de água e sabão azul, com pedras-pómus ou de granito muito lisinhas da erosão. Aparecera o Raposo, pois, já tarde das horas, dizendo,

 

"Carai, que me atrasei, até vos peço desculpa",

 

estrategicamente, no momento exacto em que as mulheres deambulavam com o sarrabulho e poisavam as duas travessas sobre o lombo do cadáver. E, estrategicamente, o Raposo, como se o intimassem da cozinha a ajudar nas tarefas do almoço, desapareceu quando as travessas do sarrabulho ficaram vazias, sentando-se lá dentro, no escano, em redor do lume, a ditar sentenças:

 

"Isto, a matança do porco, dá uma trabalheira que digo-vos eu."

 

Era assim o Raposo: guicho como um alho, orgulhoso, arredio. Trabalhos de forquilha ou enxada -- desviava-se. Tudo o que fosse vergar a mola -- bô tu. Vivia de expedientes: ajudar a acender um forno, uns recados à Vila -- que tinha bom pé e com gosto fazia ele os seis quilómetros para cada lado --, ajudar num casamento a espalhar até à igreja o tapete de rosmaninho e alecrim. Mais ó-de-resto -- espera aí que o pai-já vai. Tarefas de engaço, ai isso sim, quando muito, a esmiuçar a terra dos jardins do Pereira.

 

O presidente da Junta, o Mateus, tinha aquela coisa com ele de que, ao menos nas alturas festivas, todos éramos iguais. Ou devíamos ser. Era conhecido por lhe puxar ao sentimento, mais cristão, dizia-se, do que as beatas que pediam esmolas para se fazerem arquinhos de orquídias na Páscoa. Bom homem, não havia que se lhe dissesse. Por isso se lembrara de organizar um jantar de consoada comum ao povo da aldeia, na escola, fechada desde que as crianças começaram a ser menos do que os velhos.

 

No almoço da matança do Gusto, pois, intimou o Raposo: "Tu vê lá se te inscreves." E o pessoal a rir-se: "Ui, o que ele dava era um Pai Natal de primeira, as barbas já as tem, só lhe faltaria a farda."

 

Mas o Raposo poisou os talheres -- quer dizer, o garfo -- no prato, e fez-se um inusitado silêncio para que se ouvisse a dizer:

 

"Pois inscrevo-me, e o polvo é à minha conta."

 

As pessoas não sabiam se deviam rir ou chorar. Mas o tom do Raposo era o de quem não brinca em serviço. E ficou tudo suspenso das palavras dele. Já se sabe: na noite de consoada não há-de faltar a couve-galega, a batatinha cozida e o bacalhau -- postas do lombo, quase de mão de travessa. Mas o polvo, ai isso, é a cereja no cimo do bolo. Polvoreiras de doze quilos, doze bracinhos de textura fina à unidade, ventosas protuberantes, bem definidinhas -- ai isso é a cereja.

 

O pessoal embasbacado:

 

"Ó Raposo, tu e as tuas teorias filhas-da-puta."

 

E ele:

 

"Já disse o que tinha a dizer. O polvorinho é comigo, e não é preciso acrescentar mais nada."

 

O Mateus, contra as dúvidas generalizadas, deu a coisa como certa: "Se ele o diz."

 

E veio o 24. Na escola, o átrio transformado em cozinha com uma bancada improvisada, ligada à água corrente, e um fogão industrial de dois bicos, começaram as mulheres às quatro da tarde a preparar a ceia: as batatas descascadas, as couves guiadas, o bacalhau demolhado, as filhoses de jerimum a fritar, as rabanadas, os sonhos de parida. E eis que aparece o Raposo: uma polvoreira que só visto, que dava gosto ver.

 

Foi um sucesso: este Mateus ainda vai a presidente da Câmara. Só ele. Ninguém como ele sensível ao social, justo, equitativo, capaz de unir o povo sem que a política destrambalhe as relações. Capaz de integrar.

 

E o Raposo -- qual Pai Natal qual caralho -- ali de peito feito, nariz arrebitado, a trazer à consoada colectiva uma polvoreira como nunca se vira.

 

O resto não interessa à história: que em casa dos Monteiros, nessa noite, não haja polvo -- eles, diga-se, os únicos que não se inscreveram para a festa do povo -- que-sa-foda; que as criadas da casa, seis, andem numa roda viva a perguntar onde raio pára o molusco -- que-sa-foda; que o Cunha, quando pela terceira vez um enviado dos Monteiros entra na casa comercial de alimentos e derivados a perguntar onde raio pára a encomenda do octópode, insista que o Raposo levou a polvoreira encomendada há dois meses a mando da senhora Monteiro -- é o menos.

 

O certo é que na escola se come, esta noite, 24 de Dezembro, um polvinho como nunca se viu, tenrinho que dá gosto, e que o Raposo, besuntado do azeite de Vila Flor a escorrer-lhe das beiças, tem um sorriso de inocente-macaco como se fosse o Menino Jesus, talvez a pensar na ceia dos Monteiros (milionários acima do literal), irremediavelmente falhada, com bacalhauzinho e couve galega, é certo, mas polvinho a puta-que-os-pariu.

12
Set14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

 

AS TRUTAS DO RIO TERVA EM 1758

por José Carlos Barros


1.
Corria o ano de 1758 quando, a mando do Marquês de Pombal, foi enviado um inquérito aos bispos de todas as dioceses do reino para que os respectivos párocos respondessem a um conjunto de 60 perguntas. O objectivo, claro, era a obtenção de um conhecimento aprofundado do território nacional.

"Boticas nas Memórias Paroquiais de 1758" (excelente livro da responsabilidade de José Viriato Capela e Rogério Borralheiro, editado pela Câmara Municipal de Boticas em 2001) colige as respostas dos párocos das catorze freguesias que então se inscreviam no actual território do concelho (que apenas seria criado em 1836, resultando de freguesias desanexadas aos concelhos de Montalegre e de Chaves, bem como ao extinto Couto de Dornelas).

Fui ler as Memórias. O exercício é excelente: não tanto para conhecermos melhor o território -- mas, sobretudo, para procurarmos perceber o modo como cada um dos párocos o olhava.

E interessaram-me as trutas... Será que era possível, pelas respostas ao item das espécies que trazia o rio em maior abundância, saber se os bons homens se dedicavam à pesca das trutas e se, pescando ou não, as comiam? E se, comendo-as, as apreciavam particularmente?

Talvez não. Mas não custava tentar.


2.
Uma coisa parece óbvia: ao pároco de Bobadela, Reitor António Álvares Monteiro, e ao de Sapiãos, Domingos Gonçalves, os salmonídeos não iam parar à mesa. Ou porque não gostassem de trutas, ou porque os paroquianos respectivos lhes faziam segredo das que capturassem num rio que -- como de seguida se confirmará -- as tinha, e às vezes bem jeitosas. Pois o que respondem ambos ao item das espécies que se criavam nos rios da freguesia? O de Bobadela que o rio "não tem pescarias" e que, quando muito, "cria algumas bogas". Trutas, portanto, nicles. O de Sapiãos que, quando muito, o que ali se cria "sam algumas bogas piquenas"...

Acontece que a montante, no mesmo exacto rio Terva, a sua existência é referenciada pelo pároco de Ardãos; e, a jusante, pelo da Granja e pelo de Boticas (então freguesia do Eiró)...

Já se vê que há aqui estrangeirinha...

Passemos adiante o pároco de Boticas (Eiró), que devia ser pouco adepto de peixinho na mesa, seguindo provavelmente o velho ditado de Deus ter encarnado ao terceiro dia, e não empeixado... Parece, de facto, mais adepto do salpicão ou da carne da peça do que dos peixes de rio, cujas diferentes espécies não distinguia muito de certo -- e conhecia apenas de ouvir dizer. É ver o texto da resposta: "Criam-se nelle peixes a que chamam trutas e outra espécie a que chamam boguas".

"Peixes a que chamam trutas" -- imagine-se...

E regressemos, portanto, a quem nos pode aclarar a história: ao vigário Joam Gonçalves, pároco da Granja.

Este, mais do que certo, havia de gostar de intercalar a vitela e o porco com peixinho de rio e de mar... Veja-se:

Todos os seus restantes colegas, ao item de ser ou não a freguesia um porto de mar, respondiam o óbvio e em abreviado: que não. Pois ele não se teve que, além da negativa,  não o lamentasse. Eis o teor da resposta: "Nam hé porto de mar por ficar Viana na distancia de dezassete légoas, e o Porto vinte." E acrescenta, lamentoso do péssimo estado de conservação a que ali chegariam o carapau e o congro, lá de tempos a tempos largos: "E por isso as mais das vezes temos o peixe só na aptencia e quando chega, a todos tira a vontade."

As respostas ao inquérito demonstram que o vigário Gonçalves não apenas apreciava particularmente o peixe (embora de costume tivesse que quedar-se pela apetência) como era especialista na matéria da pesca. Das bogas, por exemplo, afirmava que "por mais meuda que seja a rede passam sem lezam alguma". Ou seja: limpinhas. Isto só podia vir da experiência própria...

E quanto às trutas, ainda que as refira, no essencial, como "pequenas", especifica que algumas são de "bom tamanho" -- e que "essas nem os fregueses quando as pescam gostam que os párochos o saibam pello gosto que lhe acham".

Já se vê a estrangeirinha: pároco que não andasse de olho nos fregueses -- não esperasse que lhe levassem trutas à mesa...

De onde facilmente se retira, além de lorpas, serem certamente muito distraídos os párocos de Bobadela e de Sapiãos...

Por isso, de montante para jusante, no mesmo exacto rio, ficará a saber-se em Lisboa que: a) o Terva, no troço correspondente à freguesia de Ardãos, tem trutas; b) depois, atravessando as freguesias de Bobadela e de Sapiãos, deixa de as ter; c) depois, ao chegar à Granja, aparecem de novo, e "algumas de bom tamanho"; d) e a seguir, já em Boticas, continuam a aparecer, embora o respondente das Memórias as desconheça tanto à mesa que se limite a dizer que no rio se criam uns peixes "a que chamam trutas".

Aquilo, já se vê, devia ter metido uma certa confusão ao padre Luís Cardoso, responsável pela organização geral das perguntas e das respostas...

Mas é assim a vida -- e isto só demonstra que as coisas, mais do que serem o que são, muitas vezes são aquilo que vemos; e as trutas, nos diferentes troços do Terva, existiam ou não conforme os párocos gostassem mais ou menos delas -- ou, sobretudo, fossem mais ou menos lorpas.

 

 

18
Jul14

Discursos Sobre a Cidade

 

 

O USO DOS VENENOS

Em vez do habitual texto de José Carlos Barros, que uma vez por mês aparece nesta secção, decidimos trazer um poema e a notícia, em primeira mão, do seu regresso à poesia. De facto, e depois da publicação de dois romances ("O Prazer e o Tédio", edição Oficina do Livro, 2009, e "Um Amigo para o Inverno" -- finalista do Prémio Leya -- edição Casa das Letras, 2013), está previsto o lançamento, nos primeiros dias de Agosto, de um livro de poemas editado pela editorial Língua Morta. Com duzentas páginas -- o que actualmente é invulgar na edição poética --, este livro, além de alguns inéditos, traz-nos a sua poesia desde "Uma Abstracção Inútil", livro publicado em Évora no já afastado ano de 1991.

"O Uso dos Venenos" é o título do novo livro de poesia de José Carlos Barros, cuja edição temos o prazer de anunciar aqui em primeira mão. E é desse mesmo livro, de que em breve traremos mais notícias, que se retira o poema que hoje deixamos aos nossos leitores.



AS FESTAS DO SENHOR DO MONTE

O parecer do meu avô era o
de que o vinho deixado no frigorífico
quebrava. Nas vésperas
do Senhor do Monte ia durante
a noite à ribeira e alinhava as garrafas
entre os seixos e as ervas
altas. A meio da festa
gostava de tirá-las da seira
de vime desviando os
fentos ainda húmidos e despejar
num copo de vidro esse
líquido vivo e ligeiramente fresco
que olhava à transparência. No último
sábado de Julho o calor agarrava-se
à pele e ficava durante
muito tempo poisado nos terreiros
de saibro. Depois da procissão
os peregrinos estendiam os liteiros
nas sombras do pinhal
enquanto não fosse o tempo
de se aproximarem dos coretos a
ouvir os metais e a percussão
das filarmónicas. O meu avô começava
por essa altura a ficar impaciente
e a insistir no regresso
a casa. E recusava-se a aceitar
as bebidas tiradas das arcas
frigoríficas cheias de gelo
com a certeza de
que o vinho e a vida e o amor
quebravam quando eram
aquecidos ou arrefecidos
por métodos artificiais.

 

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