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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Abr19

A Pertinácia da Informação

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Quando era criança houve um tempo em que tinha tempo para observar e aprender.

 

Sempre gostei de observar as formigas. A sua completa indiferença à minha presença não me impediam de imaginar vidas privadas intensas, lá dentro, no formigueiro. Pois, na verdade as formigas só não me ligavam nenhuma a mim como também não se importunavam umas às outras. Raras vezes me lembro de ver duas formigas juntas, de ferente uma para a outra, como quem parou para uma amena cavaqueira. Nunca as vi chocar de frente, nem nenhuma no caminho da outra. Nunca as vi aos pares, assim como quem de mãos dadas dá um passeio ou usufrui do seu tempo de ócio. 

 

Eu ficava ali… enternecida a ver as formigas.

 

Por mais que as observasse e por muito que delas viesse a entender, de nada me valeu. Nem as consegui salvar a elas nem ao homem que tentava vezes sem fim incendiar o formigueiro. As formigas jamais irão sair das suas definidas rotas, como subjugadas a um destino inalterável. O homem aguarda, teme ou anseia uma morte inadiável.

 

Medo.

 

O medo é uma coisa estupida que nos ensinaram para não perder a vida e que nos impede de viver. As formigas não têm medo mas também não percebem os perigos. Não têm se quer uma noção de valor próprio e vive agarradas aos seus cereais como umas fanáticas… um dia há-de chegar o apocalipse e elas nas tintas para isso.

 

“A senhora está muito metálica!” Foi a primeira vez que eu ouvi isto. Não se referia à roupa, era a voz. E por falar em voz, há vozes que são mesmo assim bonitas e roufenhas, eu já sabia disso, mas foi uma questão de amor e preocupação.

 

Acreditam que não acerto uma? Às vezes acho que era melhor continuar a observar as formigas…  é o que faço, uma vez que à semelhança do formigueiro aqui tudo está tão bem estruturado que qualquer intromissão será indiferente.

 

Ou talvez não.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

 

 

 

28
Mar19

A pertinácia da Informação

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Seca, uma grande seca

 

Não podermos crescer e alongar os braços como os ramos é mais que aborrecido, é uma terrível e enorme seca. Mas, de momento nem as arvores alongam os braços por causa da poda e por causa da seca.

 

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que monitoriza o clima de Portugal Continental e as situações de seca, refere que se verificou um aumento da área em seca em relação ao final de janeiro, indicando a seguinte distribuição percentual do índice de seca no território: 4.8 % na classe de seca severa, 57.1 % na classe de seca moderada e 38.1 % na classe de seca fraca. (IPMA, 2019).

 

Obviamente ler estes valores é duplamente uma enorme seca.

 

Quando falamos em alterações climáticas, os órgãos de decisão só lhe prestam alguma atenção se misturamos nesse discurso o impacto económico negativo que o fenómeno climático implica, bem como as perdas elevadas por riscos extremos que podem porém causar crescimento negativo do PIB Agrícola. Todo o discurso parece refletir uma incompatibilidade entre economia e ambiente e às vezes quando o bom senso parece não ter dúvidas sobre o facto de que a água, o ar, a biodiversidade… o planeta em geral é algo sagrado a ser conservado para as próximas gerações, ao nível dos órgãos de decisão ainda se discutem planos de ação de investimento que reconheçam que a reorientação dos fluxos de capitais para atividades mais sustentáveis, mas para isso ainda é preciso chegar a um entendimento comum sobre o significado de “sustentável”.

 

Ou seja, em suma para quem detém o poder económico o ambiente resume-se a uma enorme seca.

 

A ideia de que a responsabilidade do desastre ecológico é do comportamento individual, em relação à natureza, afasta-nos da causa principal do seu desequilíbrio e esconde a responsabilidade do sistema social ao qual estamos submetidos. A produção deveria funcionar para a satisfação das necessidades humanas, pois essa relação com a natureza é fundamental para a própria manutenção da vida. Porém, no capitalismo, que busca o lucro em tudo que produz, essa relação com a natureza sofre modificações profundas. Cada vez mais, a produção deixa de atender às necessidades humanas para manter ou aumentar os lucros dos empresários.

 

Se estivermos atentos percebemos que os desastres ambientais estão sempre ligados ao capitalismo nas causas ou nas consequências, pois mesmo tratando-se de fenómenos naturais, os efeitos mais terríveis ocorrem nas populações mais pobres. 

 

Podíamos dizer mais, muito mais… mas quem devia ler informação com pertinácia… acha tudo isso uma grande seca.

 

Vou buscar um pouco de água, que no escritório até é grátis! Em casa a que corre nas torneiras e a que vem no garrafão paga-se. Por enquanto, refletindo um pouco sobre este assunto, até tem pagamos um preço acessível, de tal modo que não nos questionamos porque temos que pagar um bem que provém da natureza e é essencial à vida. Não perdemos um segundo do nosso tempo para nos apercebermos que a nossa sobrevivência esta nas mãos de alguém e por isso não somos livres…

 

Mas isso ainda não vai ser no nosso tempo… por isso não vamos pensar muito nesta enorme seca.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

14
Mar19

A pertinácia da Informação

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Este sistema não presta!

 

Contava alguém, como quem diz: Era uma vez…

 

«O nosso avô gostava imenso de nós, como de resto a grande parte dos avós, fazia-nos sempre uma festa quando nos via – o que também era raro. Todos os avós, em geral, mimam os netos como se estes fossem umas criaturas fofas até qualquer idade. Mas, um dia, o meu falecido avô disse algo que me deixou, no mínimo, baralhada. Em conversa com o meu pai, acerca das tarefas agrícolas, mais concretamente sobre a falta de ajuda e como recorria a nós, as suas duas filhas, para colmatar essa falta, o meu avô disse: - As raparigas não prestam!

 

Naquele instante, julguei que o nosso amável avô estava apenas a tentar aliviar-nos da carga de tarefas que nos impediam de estudar e brincar como crianças. Enganava-me, pois na verdade o que o nosso amável e doce avô pretendia explanar era que do seu ponto de vista achava mesmo que “as raparigas não prestavam”, pois as raparigas tinham uma “utilidade limitada” a tarefas que não faziam a fortuna da casa, isto claro, se não dessem para o torto e “aparecessem em casa de barrigada[1]”! Pois, porque as raparigas eram isso mesmo, uma espécie de investimento de fundo perdido.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Obviamente, conservava a sua opinião em simultâneo com as “festas enormes” que nos fazia, como de resto qualquer avô que gosta das suas netas. Para que fique claro ao leitor: o avô gostava de nós, mesmo que fossemos raparigas.

 

- Até podem ser trabalhadoras, sim é verdade!- admitia ele. Mas nunca levariam para frente nem o nome nem a casa de família. Ele, ao menos tinha tido sorte, teve muitos rapazes, a não ser a minha mãe e minha tia.

 

Claro que o meu pai não concordou completamente com ele! Prova disso foi que continuou a levar-nos para fazer todas as inumeráveis tarefas no campo, na construção… contudo sempre a pedir-nos que escondêssemos a porcaria do cabelo dentro do boné e para assim termos um aspeto menos feminino.»

 

Ironia à mistura, este era um relato qualquer, em qualquer sítio.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Com estas e outras experiências aprende-se, mesmo que não se queira, aprende-se com a observação com a imitação, como explicam Brandura e posteriormente Miller & Dollard, todo o contexto e interação social determinam a aprendizagem.

 

“Uma vergonha!” - Dizia Bruno Vitorino acerca das sessões de esclarecimento para sensibilizar alunos de 11 anos sobre diferentes orientações sexuais. Dizia ele e diria o nosso avô! Claro que é uma vergonha e um perigo iminente, correndo-se o risco de se educar mesmo para a igualdade e para a não descriminação, ou ainda e muito pior: para uma vivência saudável da sexualidade!

 

Conseguimos construir a sociedade que queremos através da educação. Para educarmos precisamos saber que sociedade pretendemos construir. Nós sabemos que queremos uma sociedade em que se possa viver em liberdade, em paz, em solidariedade e unidos na diferença. Mas será que o regime patriarcal em que vivemos quer isso?

 

Quantas vezes ainda vamos ouvir: “As raparigas não prestam para isso.”, “Se fosses menina ias fazer ballet…”, “Aqui é melhor não contratarmos mulheres!”, “Para este posto de trabalho fica bem uma menina”… ? São estas coisas pequenas e sem importância e tantas outras que vamos repetindo todos os dias que vão construindo a sociedade.

 

Há cabeças que pensam de uma forma assustadora que sempre me faz duvidar se estão a falar a serio. Tenho sempre esta reação com racistas e o mesmo ar chocado com os e as machistas. Mas a sociedade continua a contribuir para essa reprodução de estereótipos através das escolas, através dos programas televisivos, através da própria justiça!

 

Este sistema não presta!

 

Lúcia Cunha Pereira

 

[1] Barrigada: Ficar gravida.

 

28
Fev19

A pertinácia da Informação

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Vejo-te no rosto alguma fadiga, embora não seja o corpo que esteja cansado, parece-me que seja qualquer coisa da alma, talvez.

 

São infinitas e diárias as constantes batalhas. Mas, era tão bom sentir esse aguilhão persistente que nos estimula a mente, bem como, experimentar o afago seguro da paixão que nos impulsiona a derrubar o muro, a insistir, a sobreviver e vencer… essa eterna luta em mudar o mundo e alcançar sempre algo que seja melhor.

 

Que seria melhor? Uma festa viva, daquelas de todos os dias, sem grandes exageros. A não ser que fosse essa a vontade!

 

Vêm-me à memória um brinquedo de infância de tons vermelhos, verdes, amarelos; a destoar entre a terra barrenta, uma pedra cinzenta, ervas e flores à mistura. Eram momentos furtivos de brincadeira. Nós não sabíamos, mas esses eram momentos perfeitos e quando tudo ainda podia acontecer. Revitalizemo-nos nas memórias de infância.

 

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Vejo-te. Interpretas na perfeição esse papel, mas eu já vi incontáveis vezes esse mesmo sorriso, o tique da mão ligeiramente erguida a uma distância razoável, sem impor e quase sem expressar nada. Até já sei que é contar uns breves 5 segundos e a seguir vais dizer aquela frase. Sei que é necessário o figurino mas se eu pudesse dizer o que penso agora mesmo diria sem grande enfado que podíamos ir todas e todos para casa e ler o teu discurso em folhas de papel. O efeito seria exatamente o mesmo. Não o digo em tom de reprova, mas antes de desolação.

 

 Falta-me ouvir alguém com alma, que diga toda ela, com a boca, com os olhos e do âmago das entranhas, que vamos trabalhar e aprender em conjunto para mudar o que faz falta mudar. Que o diga toda ela na sua expressão de rosto e no gesto das mãos e que ainda por cima acredite nisso!

 

Mas eu já não sou capaz de olhar para as coisas com o amor que sentia antes e se me ponho a sentir sinto-me triste com as árvores que florescem antes do tempo e as videiras nuas assemelham-se a desespero. Eu abomino o desespero!

 

Talvez seja a vez das heras e das trepadeiras em geral engolirem as casas e transformarem o território num imenso vazio verde azeitona.

 

Às tantas, perdi-me numa rua qualquer, que afinal também se chama Rua central – todas as terras têm uma rua central – esta desemboca no cemitério. Não é macabro, é apaziguador: o sol incide num angulo perfeito onde há uma oliveira, o cemitério e A Mãe. Não é macabro, é como um problema com o início do seu fim.

 

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  É só a vida em si mesma. De que vale a pena esta viagem se não for para nos erguer? O teu olhar não o diz, mas a falta de brilho na voz denuncia cansaço.

 

Anda, o início é agora e eu também estou aqui alinhada contigo.

Lúcia Pereira da Cunha

 

14
Fev19

A pertinácia da Informação

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Os velhos

 

Os velhos são os outros – dizemos nós.

 

Mas os velhos também somos nós, com as peles enrugadas, e nós, fugimos dos velhos e de sê-lo.

 

Os velhos não são velhinhos. São as Donas Maria, Ilda, Cândida… e os Srs. Ernesto, Luis, José… podem ter imensos nomes, tantos quantos os que existem, os de todas as pessoas do mundo quando chegam a uma certa idade. Porque os velhos não são uma espécie exclusiva, somos só nós com outra idade. Será da nossa exclusiva responsabilidade virmos a ser o que seremos.

 

Vejo-lhes rostos de gente, uns felizes, outros apáticos, um ou outro descontente… como noutro dia qualquer na vida de um homem ou de uma mulher. Não vale a pena romantizar que um velho é um tesouro e que todo o velho vale ouro. Cada um vale o que vale. Um velho é um sábio? Tudo depende do que estás disposto a aprender.

 

De uma coisa eu tenho a certeza as vidas velhas são livros maiores, mas tudo depende do que cada um conseguiu viver e do que cada outro nele consegue ler.

 

Não é justo enclausurar o outro ou todo aquele que tem vontades próprias. O pior de tudo é sermos aprisionados, seja em que idade for e em que circunstância.

 

Nunca gostei de mordaças nem de atilhos, desengane-se quem se leva pela aparente inocuidade – e na verdade também não há nocividade – mas a serenidade é apenas sensatez, há dentro uma opinião ponderada sobre cada coisa que me toca, que toco e que me diz respeito, como um mudo em geral sobre o qual respiro, não sozinha é verdade, mas também ocupo o meu q.b. de espaço. Digamos: penso, logo existo, se existo logo pondero. Assim, pergunto-me se será justo engolir mais colheres de sopa do que aquelas que consigo, mastigar os legumes de que não gosto, falar com quem não me interessa? 

 

“Mas eu estava a dormir!” disse o que dela restava ainda num subtil brilho do olhar ainda de um azul claro bonito. “ Se está a dormir acorda!” Qual o móbil de tal castigo designado, esse de não sermos donos de nós mesmos depois de termos conquistado a sabedoria à custa da dura experiência?

 

Se hoje tivermos que falar do amor, é aqui que faz sentido essa forma de gostar do outro que não pode ser se não altruísta porque se concretiza em felicidade por fazer bem ao outro. Como fazer bem ao outro se não respeitando-o e consequentemente a sua vontade? 

 

Ah, essa coisa do amor é como as plantas espontâneas que só nascem quando e como elas querem! Não é realmente uma coisa para todos…

 

O amor não ata, não dói, não obriga, não castiga, não abandona… e nunca desaparece se algum dia foi amor.

 

De resto, o primeiro verdadeiro amor deve ser por nós mesmos e sem este nunca seriamos capazes de amar mais ninguém, porque amar implica liberdade a nossa e a do outro. Amar-nos a nós mesmos não é incompatível com o amar o outro! Amar é um dar que nos aporta algo e nunca a falta. Se amamos não fazemos sacrifício, porque o que quer consigamos fazer aparta-nos felicidade. Se estivermos a dar e isso nos trouxer desconforto e infelicidade… isso não é amor. Ninguém que nos ame nos obriga ao que quer que seja e amar o outro não nos pode tirar dignidade…

Lúcia Pereira da Cunha

 

31
Jan19

A pertinácia da Informação

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Demagogia, (in) defesa e pamonhas!

 

Se algo me revolta, até me ferir as entranhas e fazer queimar o esófago, é a acusação de demagogia quando estamos a falar de direitos, princípios, em suma dignidade e respeito. Dizia alguém há pouco tempo “Muito bem, defendem ensino superior gratuito, mas isso é demagogia, pois não é possível, nem financeiramente sustentável!”

 

A questão é sempre a mesma: a abominável fiança!

 

Vivemos presos a um paradigma que nos asfixia. A humanidade criou uma espécie de inferno, onde labuta incessantemente para manter acesa e a boa temperatura a fornalha de onde saem as chamas desse inferno.

 

Basicamente destruímos o planeta onde habitamos, criamos desigualdades abismais na distribuição de bens, provocamos ou estimulamos o sofrimento, a fome e a indignidade no semelhante… mas, ao menos valha-nos o esforço para que as contas batam certo.

 

Eu vi, numa espécie de Hierofania, como se sentou o anjo cansado de nos aturar. Puxou de uma mortalha e pôs-se a fumar. Podia ter pensado, enquanto alinhava direitinho o tabaco, o filtro e toda a substância, sobre o papel de arroz, equilibram tudo habilmente levava até aos lábios num ritual minucioso, e aí ao de leve colava com uma nesga de saliva as duas pontas do papel formando um belo e elegante cilindro. “Esta espécie é desconcertante!” Diria de si para si de forma tão eloquente… ou se calhar não, e o que pensava deixo-o à vossa imaginação para que tenham mais qualquer coisa para fazer, além de falar mal da vida dos outros – é que sempre poderiam falar, também, de vez em quando!

 

Aparentemente o provir é caótico e o devir anedótico.

 

A entrada de Armando Vara na prisão foi anunciada ao minuto quase com a mesma emoção de um reality show e com um “ora vai”, “ora não vai”… e finalmente foi! A maior parte já quase nem se lembrava porque é que o homem ia dentro! Desde que começou o processo Face Oculta, uma prima, do primo de um amigo meu entretanto casou, tive um filho, divorciou e até já esteve para encetar novas núpcias… E, até tenho outro desconhecido distante que entretanto já esteve a trabalhar temporariamente, em diversos sítios, realizou alguns cursos de aprendizagem daqueles formam jovens para um emprego qualificado, posteriormente realizou 3 estágios, na sequência dos mesmos cursos de aprendizagem. Mas, enfim, vistas bem as coisas o que são 11 anos? Nada, ninharias, se não vejam-se as listas de espera para certas consultas de especialidade no SNS!

 

Fico a pensar como terá respondido o Vara o desafio do Facebook: Como era há 10? E agora?

 

Só tenho pena não ter sido brindada com a capacidade de desenhar, que bela caricatura… Falta-me o engenho porque de inspiração a realidade abunda. Pois se Vara entra ou não entra, já o Lima nunca vai! Eu admiro a persistência desta gente em não desistir de uma defesa da sua inocência. Isto na (in)justiça é tudo tão surreal que eu acharia normal alterar a semântica de algumas palavras. Assim para além de justiça, inocência, também incluiria defesa numa alargada gama de palavras que alterariam o seu significado.

 

Falando de defesa vem-me à memória o Conselho de Defesa Nacional, aquele em que dois deputados andaram à pancada nos corredores do parlamento. Diz que foi entre o Ascenso Simões e o Joaquim Raposo, também diz que o Ascenso é um jovem dado a acalentar ânimos…

 

Li algures no Voz de Trás-os-montes, que o homem do eleito pelo PS no circulo de Vila Real apresentou um conjunto de propostas para alterar o funcionamento do parlamento, de modo a simplificar o regime e incrementar a transparência… eu cá temo que ele passe a fazer daquilo uma espécie de wrestling… assim sendo eu até lhe podia sugerir que usasse um nome mais artístico, por exemplo Aceso Simões e aquilo como diz o povo: “já só lá vai à pancada”!

 

Agora o que me preocupa mesmo é sobre o que é que se falou nesse afamado Conselho de Defesa Nacional… é que os alertas automáticos da vária impressa só falam dos tabefes em que o João Soares aparece como apaziguador!

 

Entretanto vejo outra caricatura: o coronel Alves Pereira disse esta quarta-feira que o furto de Tancos é coisa feita por amadores "um bando de amadores". Querem ver que andamos a brincar? Então o roubo é coisa de amadores e a defesa? É coisa de pamonhas?


Lúcia Pereira da Cunha

 

Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político.


"demagogia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/demagogia [consultado em 11-01-2019].

27
Set18

A Pertinácia da Informação

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Piano, piano...

 

Devagar, mas sem parar.

 

Diz-se que no final, o que sobrevive é a música. Oxalá soubesse cantar! Talvez seja capaz de ouvir: fora e dentro de mim. Além disso, tenho a certeza que te vou fazer ouvir o canto das aves, nas palavras que pintar algures, numa página qualquer que saberás que é para ti.

 

Piano, piano...

 

Às vezes, acho que me falta a falta de escrúpulos e a capacidade para tocar na imundice sem parecer que estou suja. Mas, talvez não me faça realmente falta e o que falte é gente que não se suje e que tenha escrúpulos.

 

Não são poucas as vezes que ouço fora e dentro de mim o Cântico Negro de José Régio. Desde que o li percebi que, pelo menos os primeiros versos, me assentavam que nem uma luva – a mim e a uns quantos talvez, nada de extraordinário.

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

(…)

 

“Porque não deixas isso e pensas em ti?” ou “Que ganhaste com isso até agora?” Oiço isto constantemente, embora estas humildes palavras não tenham a mesma grandiosidade como nos versos anteriores, eu convenço-me que há alguma preocupação e afeto à mistura, ou apenas uma frustração de quem vêm um jardim abandonado.

 

Mas, afinal é suposto ganhar algo só e apenas para mim? Não seria suposto ganhar algo para todos? Não é suposto conquistarmos justiça para todos? Às vezes parece que não.

 

Como se diz “Não desistas”, quando tudo indica que deves desistir?

 

O segredo para não se desistir é ter essa pitada de loucura e uma mescla de lucidez. O que no fundo, visto de fora, parece só estupidez.

 

Piano, piano...

 

Um dia, vais perceber.

 

Eu podia apresentar argumentos contados, calculados e especificados... mas prefiro, hoje, deixar-te só alguns sentimentos meios pintados, meios cantados.

 

Para já, é tudo, assim apenas pela metade.

 

Piano, piano...

 

O que importa é seguir, ainda que, por agora, só fale para quem sente e talvez fale para quem possa ouvir futuramente.

 

Piano, piano...

… si va lontano

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

20
Set18

A Pertinácia da Informação

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Assim são os porcos, assim somos nós!

 

 

Os arbustos secaram e pressinto que o outono deve estar a chegar. Talvez.

 

Mas, a forma como o tempo e o movimento das coisas acontece mudou. Talvez seja outono, mas algumas árvores não deram fruto e não há uvas nas videiras.

 

Entendo que algumas coisas vão mudar, mas não compreendo a pressa. Posso ser eu que estou a entender mal. Estou fora do mundo ou o mundo fora de mim, ultimamente tenho essa sensação.

 

Era suposto o que está certo, o que é injusto tivesse voz… e que essa voz fosse a dos próprios injustiçados… Mas, possivelmente só sentirá o grito no dia do dilúvio, ou quando as margens se aproximarem até as águas desaparecerem, e então será tarde.

 

Coloquei-me solidaria com ele, admiti que não era justo ter tão pouco tempo para cada tarefa. Não deu tempo que me alongasse, respondeu: “Que havemos de fazer? Não somos nós que mandamos!”

 

Claro que não somos nós que mandamos, somos nós que obedecemos… e um dia podíamos não obedecer.

 

Os arbustos secaram e a desordem da natureza que não sabe se chegou ou outono ou se ainda vem a primavera, deixa-me angustiada.

 

A angústia é um sentimento estranho. Eu diria que é quase como um pedacinho de látex que ficou esquecido dentro de nós. Porquê esta comparação? Pois bem, é por causa de uma peripécia que uma amiga próxima me contou. A peripécia, aconteceu com uma amiga de outra amiga dela, que por sua vez lhe pediu encarecidamente segredo. O estranho caso trata-se de um fragmento de luva que ficou dentro do corpo dessa amiga da amiga, aquando de um exame médico íntimo, a partes íntimas da paciente, que era amiga da amiga. Não sei, mas imagino, que essa amiga da amiga da minha amiga, se tivesse sentido como o estranho local de trabalho onde alguém esqueceu a ferramenta. Imagino que se tenha sentido como o contentor amarelo… ou seja, qualquer coisa que não fosse ela mesma, para não sentir a estranheza de ter uma coisa estranha na sua entranha. A angústia é isso: uma sensação provocada por uma coisa fora do sítio, fazendo-nos sentir impróprios, apertados dentro de nós mesmos. Neste caso só se resolveria se passássemos a ser o contentor amarelo, ou nos adequássemos à condição própria de local de trabalho, ou ainda qualquer outra condição que nos seja imposta e nos seja estranha.

 

 

Que havemos de fazer? Ficou-me a fazer eco no cérebro, no momento em que mandei o cérebro embora porque o acontecimento poderia ser chocante para a sua compreensão. Estava ainda a ponderar os eu regresso e vejo de a notícia: “Trabalhadores da corticeira acusada de “castigar” funcionária estão solidários com a empresa.” Reli, de certeza que era um lapso do jornal, ultimamente há erros fortuitamente, em qualquer lado, até aqui! Será pela quantidade de textos que se produz, pela velocidade com que mudam os assuntos e pela necessidade de inundarmos o Mundo com tanta informação pertinente. Escrevesse como quem faz alheiras numa produção em serie… (Nem quero imaginar o que vai lá para dentro!).

 

Mas, não me enganei. O título, desta vez, não tinha gralhas, pelo menos de sentido, embora para mim não fizesse sentido nenhum!

 

No entanto, não era nada que eu não conhecesse. Esta perversão das situações é tão antiga como a caça às bruxas. “Que podemos fazer nós?” pois, nós obedecemos e somos uma corja fraca, escumalha de gente que adequa à condição de escravo. A nossa preguiça, desmazelo, lerdeza faz-nos ser ignóbeis, asquerosos porcos a chafurdar na lama porque não nos valemos nem para defecar fora da gamela onde comemos. Aos porcos não lhes interessa o que comem, onde comem, nem quem lhe dá de comer, vivem no estrume, chafurdam na lama…  é lhes indiferente a solidariedade ou dignidade. Assim, são os porcos. Assim somos nós, que quando uma colega, funcionário da mesma empresa, é reintegrada por ordem do tribunal, depois de ter sido despedida ilegalmente, acedemos em participar numa espécie mobbing, não lhe dirigindo a palavra, sendo coniventes com “castigos” que implicam usar espaços menos adequados como WC, ou ficar encarregada de carregar e descarregar a mesma palete várias vezes.

 

Não vale a pena esperar que nos salvem, porque não vai chegar nenhum Messias! Se chegar, o Messias não é um ser magicamente poderoso que atira bolas de fogo pelas mãos aos maus. Não vale a pena falar de criminalização do assédio no local de trabalho, na verdade, o assédio moral em contexto laboral pode subsumir-se à aplicação do n.º 1 do artigo 154.º-A do Código Penal, aditado pela lei n.º 83/2015, de 05 de Agosto, que tipifica o crime de “Perseguição”, o qual, nos termos gerais, pode integrar condutas que enformam a definição de “assédio moral” contemplada no Código do Trabalho. Como diz Joana Neto, o assédio moral no local de trabalho já é crime.

 

As soluções, para estas práticas contra a dignidade da pessoa humana, não residem apenas na sua criminalização, mas antes na quebra do silêncio e na vontade de deixarmos de ser como os porcos.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

13
Set18

A Pertinácia da Informação

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“El aprendiz de Jinete, 1978”.

 

 

Vai adiantada a noite. E eu tenho sede... esgotei todos os bons reserva, não me resta nada que me entusiasme verdadeiramente, para ler.

 

O meu estado de agitação é-me muito bem merecido. Quem me mandou a mim voltar a fazer asneira? Quem me mandou rebolar em estrume convencida que era um manto de flores?

 

Errei. Errei e ponto final. Que mal há no erro? Apenas a estupidez de o repetir. É certo que às vezes escutamos verdadeiros pensamentos filosóficos e profundos da boca de alguns pastores, mas isso não significa que todos eles sejam versejadores natos! Sinto-me estúpida, como uma citadina, de visita ao campo, vê e analisa, do seu ponto de vista citadino, anunciando sofisticação onde não há e obras primas onde só há a simplicidade natural da utilidade de cada coisa: “Que coisa fantástica este recipiente que quase se assemelha a uma chávena de chá gigante... consigo fabular uma cena de gigantes e anões em torno deste objeto...” “Isto? Isto é um penico!”

 

 

É fantástico conhecer pessoas e mobilizá-las para a sua emancipação! Mas que raio de palavreado, que soa quase um martelar vazio!? Quem me manda a mim procurar almas nas rochas e sentimentos profundos nos legumes? Um pepino, é apenas um pepino, que serve apenas para pepinar. Uma vez pepinado, acabado. Que há de vulgar em comer um pepino insípido? Nada, absolutamente nada. Faz parte da dieta de verão, comer de vez enquanto uma salada de pepino. Não se esteja à espera que o pepino se torne agora em algo mais gourmet!

 

 

Preciso, urgentemente, tomar um banho em algo sofisticado... não sei, algo que me retire do lodo e das areias movediças. Continuo a rebuscar nas prateleiras e parece-me tudo visto, gasto, desinteressante… olho e faço uma radiografia instantânea: está tudo percebido.

 

Num catálogo, sobre O surrealismo em Portugal, aparece escarrapachado o título: o tempo devolve-nos memórias. Penso e repenso. A expressão não significa que recuperamos memórias com o tempo, é bem mais que isso. Entendo que o tempo nos devolve as memórias que prendeu, mas nessa devolução possivelmente o objeto já perdeu características originais... o tempo devolve um objeto nosso de que ele se apropriou, mas ao devolve-lo percebemos que provavelmente o lesou, modificou ou alterou alguns pormenores. As memórias são sempre construções e são por vezes desencandadoras de uma espécie de serendipidy aquando do seu retorno.

 

Por isso, às vezes faz falta emprestar os nossos pensamentos ao tempo para que ele faça o seu trabalho sobre eles. O tempo transforma a nossa dor de luto, a nossa ânsia de luta, a nossa espera de amor. O tempo não só deteriora como uma criança descuidada a quem emprestamos um brinquedo, o tempo também repara e remenda como as avós ou mães que se munem de habilidades e paciência e arranjam o fecho estragado, pregam um botão que caiu, acrescentando uma reda ou um remendo... e acabam por recriar a nossa peça em algo que até acabamos por achar piada e voltamos a endossar. O tempo faz redescobertas de sentimentos e sabores.

 

Eu preciso que o tempo trabalhe em pouco tempo. Eu escravizo o meu tempo e ponho-o todo o tempo a trabalhar para mim. O meu tempo tem que ser um assessor infinitamente talentoso e que me tenha uma enorme devoção. Preciso de um tempo que reconheça em mim todo o valor que justifique o seu esforço e empenho em me apoiar. Qual coaching seria capaz?!

 

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 Eugenio Granell – El Aprendiz de jinete

 

Folheio o catálogo. Sempre gostei dos trabalhos inseridos no surrealismo. As formas das gravuras têm aquele traço especial que eu, cá para nós, que ninguém nos ouve, só pode ser do efeito do ópio... se não, como é que todos desenham aquelas formas moles que escorrem entre as telas e as folhas de papel?! Formas fundidas de um universo onírico... eu gosto, sim senhor, mas aquilo era do ópio, quase de certeza!

 

O que está no catálogo, também vi no museu... há uma de António Pedro, sem título de 1940 que me volta a causar a mesma tristeza que antes. Olho e vejo um não sei quê de decadência, brutalidade carnal, frieza... explicitamente parecem dois corpos nus com todas as suas franquezas a nu, possivelmente um feminino e um masculino. No feminino deixa-me desconfortável o peito descaído e a postura de uma coluna curvada, característica de quem tem já alguma idade... o prego na língua e a destreza com que parece movimentar as peças num tabuleiro de damas, alheia ao que se passa atrás de si, onde se encosta um corpo grande, masculino, que parece menos decadente. Tudo isto num cenário semelhante a uma margem de um rio, onde, me parece surgir também, um enigmático túnel ao fundo.

 

Fujo dessa gravura e de tudo o que me representa.

 

Prendeu-nos a atenção uma aguarela de Risques Pereira, sem data e sem título. Recordo-me que ela me disse que era sobre o Principezinho. Realmente, se reparar bem, posso ver a raposa e principezinho... até parece que esticam os braços para se conseguirem tocar, mas nunca se tocam... possivelmente.

 

Sigo, folheio o catálogo e recordo Pedro Omo. Tanto antes, como agora, parecem-me evidentes os falos e não sei bem... mas talvez sejam ânus e não vaginas...    Seria isso que via um pastor? E ali, no Eugénio Granel, veria um cavalo? Sentir-se-ia cheio de razão depois de ler o título “El aprendiz de Ginete, 1978”. Eu vejo o cavalo, mas imagino naquela sobra do dorso um aprendiz encolhido e receoso e há uma figura mais clara em que vejo um mestre pomposo, onde lhe distingo um enorme nariz empinado... o único que se safa mesmo é o suposto cavalo, cheio de formas elegantes e cores bem escolhidas. Tem um padrão bonito.

 

Ora se os autores das obras estavam cheios de ópio quando as elaboraram eu estou cheia de mim quando as observo.

 

E, recordo, mais uma vez, uma frase: “Eu queria um livro que falasse sobre mim...”

 

Se esperamos encontrar ou estabelecer uma ligação com os outros através da descoberta de uma condição universal de consciência, estamos tramados. Temos que ir realmente devagar para ouvir, acompanhar e entender. Nem sempre as histórias falam de mim, nem contam aquilo que eu vejo nelas. Quanto menos cheia de mim mesma me dirijo às coisas, mais consigo ver nelas. Também tento ver através dos olhos dos outros, e por isso pergunto-me que veria o pastor? Mas, sem a presunção citadina que todo o pastor é um versejador e que em cada cavaleiro há um sussurrado de cavalos. Às vezes há mesmo só bosta e moscas.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

06
Set18

A Pertinácia da Informação

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Se fizeres algo, faz como deve ser. Coloca de imediato os pontos e as vírgulas no devido lugar. Faz tudo exatamente como deve ficar.

 

Quando sonhares, sonha o sonho todo. Se é para ser, seja, seja-se em grande e até ao infinito.

 

Passamos a vida – curta, por sinal – a amarrarmo-nos e a amarrar… às vezes também marramos e depois, ou até durante, dói.

 

Amarramos os outros com medo que nos fujam, com receio de ficarmos sós na penumbra da nossa ignóbil existenciazinha. Receamos crescer, prendemo-nos às nossas limitações, não procuramos caminhos, paralisamos e como se isso não fosse já suficientemente inútil obrigamos os outros a ficar atolados nas lamas das nossas dúvidas, dos nossos medos e cobardias. Infrutífero, extremamente infrutífero!

 

Nós viemos nascer tal como nascem as abóboras: germinou a pevide, fez-se plântula e depois planta; desabrochou generosamente a flor, com seus néctares viscosos e húmida; penetraram-lhe o pólen, no estigma e estilete; fez-se fruto, cresceu abóbora grossa e vigorosa… pena que não se lhe comam as carnes alaranjadas da abóbora menina, ora em compota, filhós ou cremosas sopas! A este destino esta reservada a vida de uma abóbora. Fantástico, não é?! O legume veio à Terra com o propósito de estimular as minhas papilas (ou as suas). Imagine-se a abóbora recusar-se a crescer e a ser abóbora menina em plenitude?!  Infrutífero, eximiamente infrutífero!

 

 

No nosso ciclo de vida, distinguem-nos das Cucurbitaceae, apenas os aspetos que naturalmente nos diferenciam, de resto, a necessidade de cumprirmos o que somos e vem dentro de nós, é exatamente a mesma. À semelhança do vegetal, que cresce e desenvolve as deliciosas “carnes” alaranjadas, também nós devemos crescer em todo ímpeto aquilo que somos e quem somos, na harmonia com o que nos rodeia, sem medos e sem queixumes.

 

Seres humanos, pássaros e nabos reunimo-nos todos na semelhança que nos irmana: viemos todos com o mesmo propósito de sermos, deixarmos ser e ajudarmos a ser.

 

Portanto, em cada ato do nosso propósito, em cada momento da nossa vida, seja-se.

 

Sejamos até à exaustão e o bouquet será do mais inimaginável de fermoso.

 

Mas, parece-me que há vidas paradas de propósito. Vidas que se obstinam na perseguição de muros. Ora, os muros nunca nos deixaram passar! Tomar caminhos murados e teimar em ir contra eles faz-nos parecer estólidas moscas que teimam em bater nos vidros, uma e outra… e outra vez, até que o tempo as pare, porque se lhes acabou o tempo.

 

Às vezes, há quem não entenda que por ali não é o caminho e teime em açambarcar para si a admiração, a afeição, a alma e o amor de alguém, que por sua vez, não tem em si mesmo nem o que ele procura, nem procura o que o outro tem. Infrutífero, absolutamente infrutífero!

 

Já se diz, em algum lado, que ninguém é de ninguém, e na verdade não somos de, mas sim, vivemos com, em proximidades reguladas pelas nossas próprias vontades.

 

Quanto tempo se perde ao teimarmos ter a vida que concebemos no nosso entendimento, mas sem criar as verdadeiras circunstâncias da sua existência!?

 

Mas, o pior de tudo, são aqueles seres que acham saber perfeitamente o que seria o ideal para os outros, melhor que eles mesmo. Assim, apresentam-se eles próprios como os extremosos cuidadores, legítimos vencedores de duelos e autoproclamados a própria verdade e salvação. Esses, são nada mais que moscas que embatem em vidraças. Mau para os outros, a quem soltam injúrias: “Hás de arrepender-te!”; “Vais descobrir que tiveste em tua presença o elixir da tua salvação e o recusaste! Depois, então será tarde!”

 

Ora um verdadeiro herói não precisa de chamar a si as suas glórias, nem um verdadeiro salvador se regozija com a vingança.

 

Mau para os outros, mas péssimo para si mesmo, pois se bem que atropela e prende o outro, também não aprende nem contorna o muro para seguir o seu caminho.

 

Infrutífero, definitivamente infrutífero.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

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