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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Jun19

A pertinácia da informação

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Á minha frente o dia ficou escuro. Sob uma faixa de verde, bonita, há uma enorme desarrumação. Sempre abominei a desarrumação, não tanto aquela doméstica e quase inevitável. A arrumação é quase como uma espécie de decência e decoro, não tolero que não haja um mínimo. O meu mínimo é aquilo que acho exigível e fundamentalmente necessário.

Hoje chego à constatação que tenho vivido restrita a uma estreita faixa onde há uma espécie de dialética externa onde o meu valor me faz puxar para cima e a vontade dos outros me empurra para baixo. Nem mesmo quando o que faço seja para benefício dos outros, é de tal forma enorme o temor que eu saia dessa faixa e que consiga fazer algo mais por todos e todas…

É um sentir duro do que tem sido a vida. Ás vezes apetece-me perguntar aleatoriamente se a das outras pessoas, daquelas que desconheço, é diferente. Mas, normalmente chego à conclusão que viver nesta dialética é a norma, e, certamente a responsabilidade dela sair é apenas minha. É uma questão de maior esforço. O resto são circunstâncias. Não me agrada desculpar-me com circunstâncias. Cada vez que te atiras contra um muro para saíres podes sempre ir apanhando maior balanço, construir engenho para subir ou voar… mas também terás que ver até que ponto as circunstâncias são injustiças. Há sempre o bom senso.

Na vida ser-se ótimo, bom ou excelente só importa se o que fizermos com isso nos importa. O que importa aos outros poucas vezes importa muito… para os outros só importa o que estes perceberem que lhes possa oferecer benefício. Ás vezes há excelentes pessoas com ótimas qualidades que podem fazer coisas muito boas pelos outros… mas se os outros não perceberem que isso lhes seja benéfico… serão apenas excelentes coisas, com excelente qualidade sem qualquer utilidade. Refiro isto como algo factual, não que eu concorde.

O dia continua escuro, mas há céu de vários tons daqui até ao horizonte, e para lá do horizonte ainda há muito céu.

Chegou com aquela pose e ativou-se em mim aquele pensamento: mais do mesmo. Não, não é preconceito… sei lá, se calhar é… Mas como posso explicar? É todo um conjunto de aspetos: o tipo de carro em que chega, a conversa que faz à porta antes de entrar ou a forma exibicionista (ou acanhada) com que se termina (ou prolonga… ou se desembaraça) de uma chamada… e por fim, o tom pejado de tantas coisas quase inomináveis e que me recuso a enumerar com que solta num enorme sorriso branco: “Menina, muito bom dia!”

Cada vez me sinto menos apta para engolir sapos… sim, eu sou uma rapariga que nunca gostou de engolir sapos e que andou a fingir que comia sapos… mas inevitavelmente vomitei-os. Mas começa-me a preocupar duplamente esta situação, por um lado não me sinto confortável no papel de quem se sentou numa escrivaninha numa atenta análise cujos resultados não têm efetivamente qualquer efeito avaliativo. Um posto de seleção em nenhures que não seleciona para coisa nenhuma, é só um posto de passagem onde as pessoas vazias vão passando e eu me espero a não lhes abrir portas e obrigo-as a circular. Não, não é agradável, mas também não é culpa minha. Não tenho pachorra para engolir sapos ou nem eu mesma ser uma pessoa que passe na escrivaninha de outro minucioso pseudo-avaliador de coisas nenhuma, também não passo no filtro que retém a vulgaridade a futilidade. E é assim que se cria a solidão, uma solidão confortável, agradável, quase macia, o Paraíso do Silêncio. Se era bom que não houvesse silêncio? Era, certamente, mas apenas se o vazio fosse pejado de música e luz.

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

02
Mai19

A pertinácia da informação

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A liberdade e o medo

 

Sede.

 

A sede é uma sensação terrível. A sede deixa-nos inertes e tira-nos a vontade de coisas. Depois da sensação áspera e quente na boca, nos lábios, na língua... segue-se um cansaço. O terrível cansaço que acompanha, talvez seja, apenas, o natural cansaço de quem caminha.

 

Ando há alguns dias a ouvir: “as pessoas têm medo”. Não compreendo o medo, nem entendo a sua origem. Afinal, o que é a liberdade? Que liberdade é esta que conserva medo? Não entendo este acto condescendente, como se de um dócil e fácil acatar do flagelo se tratasse. Pessoas prostradas com sede da liberdade que não ousam beber.

 

Recuso-me a beber a sede, molho os lábios insistentemente e olho de cabeça erguida em frente. Porque não é de mim que se trata, mas sim de todo o elemento humano uno. Que faria eu sem amor? Sentimo-lo cada vez mais forte e maduro esse amor que nos torna livres e confiantes sem nos devorarmos como se fossemos sôfregos amantes.

 

Cada dia é um novo crescer. Oxalá um dia a luta não me traga novidade, sinal seria que nada mais havia para fazer.

 

Que esta seja uma primavera cheia de flores e rebentos para vencer o tempo.

 

Nada das repulsivas vicissitudes me tirou as virtudes, nem o fátuo poder me alucinou o caminho. Vamos devagar, mas não vamos devagarinho, sabemos sempre qual é o nosso caminho.

 

Nenhum ruído nos confunda do que é correto, mas, sentimos que com amor cada vez vamos estando mais perto.

 

Não desisto da ideia de que era aqui, também, nestas paredes abandonadas e no meio destas fragas, o lugar de fazer crescer flores dentro das pessoas para criar um novo jardim.

 

Não temos urgência de exércitos de armas meu amor, urge ensinar a não ter medo e ajudar a crescer.

 

O medo prende-nos as palavras e ceifa-nos como a razão ceifa o que nos motiva. Ficamos assim, aos solavancos, como se tivéssemos uma mão cheia de palavras que não somos capazes de soltar.

 

 

A liberdade de fazermos o que achamos que devemos fazer prende-nos à responsabilidade de encarar de frente todas as consequências.

 

 Sermos livres e responsáveis pelo nosso caminho só é perigoso para quem nos pretende dominar.

 

 

Diz que há corvos a voar sobre as terras

E que a coruja pia na noite

Deixai-os voar

Procuram as sementes

Que tivemos que enterrar

 

Perdoo-te porque erras

E quando erras és grande

 

E se a coruja pia

Nesta noite fria

Será porque não ouve na escuridão vazia

O som da minha voz para te abraçar

 

Lúcia Pereira da Cunha

11
Abr19

A Pertinácia da Informação

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Quando era criança houve um tempo em que tinha tempo para observar e aprender.

 

Sempre gostei de observar as formigas. A sua completa indiferença à minha presença não me impediam de imaginar vidas privadas intensas, lá dentro, no formigueiro. Pois, na verdade as formigas só não me ligavam nenhuma a mim como também não se importunavam umas às outras. Raras vezes me lembro de ver duas formigas juntas, de ferente uma para a outra, como quem parou para uma amena cavaqueira. Nunca as vi chocar de frente, nem nenhuma no caminho da outra. Nunca as vi aos pares, assim como quem de mãos dadas dá um passeio ou usufrui do seu tempo de ócio. 

 

Eu ficava ali… enternecida a ver as formigas.

 

Por mais que as observasse e por muito que delas viesse a entender, de nada me valeu. Nem as consegui salvar a elas nem ao homem que tentava vezes sem fim incendiar o formigueiro. As formigas jamais irão sair das suas definidas rotas, como subjugadas a um destino inalterável. O homem aguarda, teme ou anseia uma morte inadiável.

 

Medo.

 

O medo é uma coisa estupida que nos ensinaram para não perder a vida e que nos impede de viver. As formigas não têm medo mas também não percebem os perigos. Não têm se quer uma noção de valor próprio e vive agarradas aos seus cereais como umas fanáticas… um dia há-de chegar o apocalipse e elas nas tintas para isso.

 

“A senhora está muito metálica!” Foi a primeira vez que eu ouvi isto. Não se referia à roupa, era a voz. E por falar em voz, há vozes que são mesmo assim bonitas e roufenhas, eu já sabia disso, mas foi uma questão de amor e preocupação.

 

Acreditam que não acerto uma? Às vezes acho que era melhor continuar a observar as formigas…  é o que faço, uma vez que à semelhança do formigueiro aqui tudo está tão bem estruturado que qualquer intromissão será indiferente.

 

Ou talvez não.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

 

 

 

28
Mar19

A pertinácia da Informação

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Seca, uma grande seca

 

Não podermos crescer e alongar os braços como os ramos é mais que aborrecido, é uma terrível e enorme seca. Mas, de momento nem as arvores alongam os braços por causa da poda e por causa da seca.

 

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que monitoriza o clima de Portugal Continental e as situações de seca, refere que se verificou um aumento da área em seca em relação ao final de janeiro, indicando a seguinte distribuição percentual do índice de seca no território: 4.8 % na classe de seca severa, 57.1 % na classe de seca moderada e 38.1 % na classe de seca fraca. (IPMA, 2019).

 

Obviamente ler estes valores é duplamente uma enorme seca.

 

Quando falamos em alterações climáticas, os órgãos de decisão só lhe prestam alguma atenção se misturamos nesse discurso o impacto económico negativo que o fenómeno climático implica, bem como as perdas elevadas por riscos extremos que podem porém causar crescimento negativo do PIB Agrícola. Todo o discurso parece refletir uma incompatibilidade entre economia e ambiente e às vezes quando o bom senso parece não ter dúvidas sobre o facto de que a água, o ar, a biodiversidade… o planeta em geral é algo sagrado a ser conservado para as próximas gerações, ao nível dos órgãos de decisão ainda se discutem planos de ação de investimento que reconheçam que a reorientação dos fluxos de capitais para atividades mais sustentáveis, mas para isso ainda é preciso chegar a um entendimento comum sobre o significado de “sustentável”.

 

Ou seja, em suma para quem detém o poder económico o ambiente resume-se a uma enorme seca.

 

A ideia de que a responsabilidade do desastre ecológico é do comportamento individual, em relação à natureza, afasta-nos da causa principal do seu desequilíbrio e esconde a responsabilidade do sistema social ao qual estamos submetidos. A produção deveria funcionar para a satisfação das necessidades humanas, pois essa relação com a natureza é fundamental para a própria manutenção da vida. Porém, no capitalismo, que busca o lucro em tudo que produz, essa relação com a natureza sofre modificações profundas. Cada vez mais, a produção deixa de atender às necessidades humanas para manter ou aumentar os lucros dos empresários.

 

Se estivermos atentos percebemos que os desastres ambientais estão sempre ligados ao capitalismo nas causas ou nas consequências, pois mesmo tratando-se de fenómenos naturais, os efeitos mais terríveis ocorrem nas populações mais pobres. 

 

Podíamos dizer mais, muito mais… mas quem devia ler informação com pertinácia… acha tudo isso uma grande seca.

 

Vou buscar um pouco de água, que no escritório até é grátis! Em casa a que corre nas torneiras e a que vem no garrafão paga-se. Por enquanto, refletindo um pouco sobre este assunto, até tem pagamos um preço acessível, de tal modo que não nos questionamos porque temos que pagar um bem que provém da natureza e é essencial à vida. Não perdemos um segundo do nosso tempo para nos apercebermos que a nossa sobrevivência esta nas mãos de alguém e por isso não somos livres…

 

Mas isso ainda não vai ser no nosso tempo… por isso não vamos pensar muito nesta enorme seca.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

14
Mar19

A pertinácia da Informação

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Este sistema não presta!

 

Contava alguém, como quem diz: Era uma vez…

 

«O nosso avô gostava imenso de nós, como de resto a grande parte dos avós, fazia-nos sempre uma festa quando nos via – o que também era raro. Todos os avós, em geral, mimam os netos como se estes fossem umas criaturas fofas até qualquer idade. Mas, um dia, o meu falecido avô disse algo que me deixou, no mínimo, baralhada. Em conversa com o meu pai, acerca das tarefas agrícolas, mais concretamente sobre a falta de ajuda e como recorria a nós, as suas duas filhas, para colmatar essa falta, o meu avô disse: - As raparigas não prestam!

 

Naquele instante, julguei que o nosso amável avô estava apenas a tentar aliviar-nos da carga de tarefas que nos impediam de estudar e brincar como crianças. Enganava-me, pois na verdade o que o nosso amável e doce avô pretendia explanar era que do seu ponto de vista achava mesmo que “as raparigas não prestavam”, pois as raparigas tinham uma “utilidade limitada” a tarefas que não faziam a fortuna da casa, isto claro, se não dessem para o torto e “aparecessem em casa de barrigada[1]”! Pois, porque as raparigas eram isso mesmo, uma espécie de investimento de fundo perdido.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Obviamente, conservava a sua opinião em simultâneo com as “festas enormes” que nos fazia, como de resto qualquer avô que gosta das suas netas. Para que fique claro ao leitor: o avô gostava de nós, mesmo que fossemos raparigas.

 

- Até podem ser trabalhadoras, sim é verdade!- admitia ele. Mas nunca levariam para frente nem o nome nem a casa de família. Ele, ao menos tinha tido sorte, teve muitos rapazes, a não ser a minha mãe e minha tia.

 

Claro que o meu pai não concordou completamente com ele! Prova disso foi que continuou a levar-nos para fazer todas as inumeráveis tarefas no campo, na construção… contudo sempre a pedir-nos que escondêssemos a porcaria do cabelo dentro do boné e para assim termos um aspeto menos feminino.»

 

Ironia à mistura, este era um relato qualquer, em qualquer sítio.

 

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Fotografia de Lúcia Pereira da Cunha

 

Com estas e outras experiências aprende-se, mesmo que não se queira, aprende-se com a observação com a imitação, como explicam Brandura e posteriormente Miller & Dollard, todo o contexto e interação social determinam a aprendizagem.

 

“Uma vergonha!” - Dizia Bruno Vitorino acerca das sessões de esclarecimento para sensibilizar alunos de 11 anos sobre diferentes orientações sexuais. Dizia ele e diria o nosso avô! Claro que é uma vergonha e um perigo iminente, correndo-se o risco de se educar mesmo para a igualdade e para a não descriminação, ou ainda e muito pior: para uma vivência saudável da sexualidade!

 

Conseguimos construir a sociedade que queremos através da educação. Para educarmos precisamos saber que sociedade pretendemos construir. Nós sabemos que queremos uma sociedade em que se possa viver em liberdade, em paz, em solidariedade e unidos na diferença. Mas será que o regime patriarcal em que vivemos quer isso?

 

Quantas vezes ainda vamos ouvir: “As raparigas não prestam para isso.”, “Se fosses menina ias fazer ballet…”, “Aqui é melhor não contratarmos mulheres!”, “Para este posto de trabalho fica bem uma menina”… ? São estas coisas pequenas e sem importância e tantas outras que vamos repetindo todos os dias que vão construindo a sociedade.

 

Há cabeças que pensam de uma forma assustadora que sempre me faz duvidar se estão a falar a serio. Tenho sempre esta reação com racistas e o mesmo ar chocado com os e as machistas. Mas a sociedade continua a contribuir para essa reprodução de estereótipos através das escolas, através dos programas televisivos, através da própria justiça!

 

Este sistema não presta!

 

Lúcia Cunha Pereira

 

[1] Barrigada: Ficar gravida.

 

28
Fev19

A pertinácia da Informação

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Vejo-te no rosto alguma fadiga, embora não seja o corpo que esteja cansado, parece-me que seja qualquer coisa da alma, talvez.

 

São infinitas e diárias as constantes batalhas. Mas, era tão bom sentir esse aguilhão persistente que nos estimula a mente, bem como, experimentar o afago seguro da paixão que nos impulsiona a derrubar o muro, a insistir, a sobreviver e vencer… essa eterna luta em mudar o mundo e alcançar sempre algo que seja melhor.

 

Que seria melhor? Uma festa viva, daquelas de todos os dias, sem grandes exageros. A não ser que fosse essa a vontade!

 

Vêm-me à memória um brinquedo de infância de tons vermelhos, verdes, amarelos; a destoar entre a terra barrenta, uma pedra cinzenta, ervas e flores à mistura. Eram momentos furtivos de brincadeira. Nós não sabíamos, mas esses eram momentos perfeitos e quando tudo ainda podia acontecer. Revitalizemo-nos nas memórias de infância.

 

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Vejo-te. Interpretas na perfeição esse papel, mas eu já vi incontáveis vezes esse mesmo sorriso, o tique da mão ligeiramente erguida a uma distância razoável, sem impor e quase sem expressar nada. Até já sei que é contar uns breves 5 segundos e a seguir vais dizer aquela frase. Sei que é necessário o figurino mas se eu pudesse dizer o que penso agora mesmo diria sem grande enfado que podíamos ir todas e todos para casa e ler o teu discurso em folhas de papel. O efeito seria exatamente o mesmo. Não o digo em tom de reprova, mas antes de desolação.

 

 Falta-me ouvir alguém com alma, que diga toda ela, com a boca, com os olhos e do âmago das entranhas, que vamos trabalhar e aprender em conjunto para mudar o que faz falta mudar. Que o diga toda ela na sua expressão de rosto e no gesto das mãos e que ainda por cima acredite nisso!

 

Mas eu já não sou capaz de olhar para as coisas com o amor que sentia antes e se me ponho a sentir sinto-me triste com as árvores que florescem antes do tempo e as videiras nuas assemelham-se a desespero. Eu abomino o desespero!

 

Talvez seja a vez das heras e das trepadeiras em geral engolirem as casas e transformarem o território num imenso vazio verde azeitona.

 

Às tantas, perdi-me numa rua qualquer, que afinal também se chama Rua central – todas as terras têm uma rua central – esta desemboca no cemitério. Não é macabro, é apaziguador: o sol incide num angulo perfeito onde há uma oliveira, o cemitério e A Mãe. Não é macabro, é como um problema com o início do seu fim.

 

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  É só a vida em si mesma. De que vale a pena esta viagem se não for para nos erguer? O teu olhar não o diz, mas a falta de brilho na voz denuncia cansaço.

 

Anda, o início é agora e eu também estou aqui alinhada contigo.

Lúcia Pereira da Cunha

 

14
Fev19

A pertinácia da Informação

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Os velhos

 

Os velhos são os outros – dizemos nós.

 

Mas os velhos também somos nós, com as peles enrugadas, e nós, fugimos dos velhos e de sê-lo.

 

Os velhos não são velhinhos. São as Donas Maria, Ilda, Cândida… e os Srs. Ernesto, Luis, José… podem ter imensos nomes, tantos quantos os que existem, os de todas as pessoas do mundo quando chegam a uma certa idade. Porque os velhos não são uma espécie exclusiva, somos só nós com outra idade. Será da nossa exclusiva responsabilidade virmos a ser o que seremos.

 

Vejo-lhes rostos de gente, uns felizes, outros apáticos, um ou outro descontente… como noutro dia qualquer na vida de um homem ou de uma mulher. Não vale a pena romantizar que um velho é um tesouro e que todo o velho vale ouro. Cada um vale o que vale. Um velho é um sábio? Tudo depende do que estás disposto a aprender.

 

De uma coisa eu tenho a certeza as vidas velhas são livros maiores, mas tudo depende do que cada um conseguiu viver e do que cada outro nele consegue ler.

 

Não é justo enclausurar o outro ou todo aquele que tem vontades próprias. O pior de tudo é sermos aprisionados, seja em que idade for e em que circunstância.

 

Nunca gostei de mordaças nem de atilhos, desengane-se quem se leva pela aparente inocuidade – e na verdade também não há nocividade – mas a serenidade é apenas sensatez, há dentro uma opinião ponderada sobre cada coisa que me toca, que toco e que me diz respeito, como um mudo em geral sobre o qual respiro, não sozinha é verdade, mas também ocupo o meu q.b. de espaço. Digamos: penso, logo existo, se existo logo pondero. Assim, pergunto-me se será justo engolir mais colheres de sopa do que aquelas que consigo, mastigar os legumes de que não gosto, falar com quem não me interessa? 

 

“Mas eu estava a dormir!” disse o que dela restava ainda num subtil brilho do olhar ainda de um azul claro bonito. “ Se está a dormir acorda!” Qual o móbil de tal castigo designado, esse de não sermos donos de nós mesmos depois de termos conquistado a sabedoria à custa da dura experiência?

 

Se hoje tivermos que falar do amor, é aqui que faz sentido essa forma de gostar do outro que não pode ser se não altruísta porque se concretiza em felicidade por fazer bem ao outro. Como fazer bem ao outro se não respeitando-o e consequentemente a sua vontade? 

 

Ah, essa coisa do amor é como as plantas espontâneas que só nascem quando e como elas querem! Não é realmente uma coisa para todos…

 

O amor não ata, não dói, não obriga, não castiga, não abandona… e nunca desaparece se algum dia foi amor.

 

De resto, o primeiro verdadeiro amor deve ser por nós mesmos e sem este nunca seriamos capazes de amar mais ninguém, porque amar implica liberdade a nossa e a do outro. Amar-nos a nós mesmos não é incompatível com o amar o outro! Amar é um dar que nos aporta algo e nunca a falta. Se amamos não fazemos sacrifício, porque o que quer consigamos fazer aparta-nos felicidade. Se estivermos a dar e isso nos trouxer desconforto e infelicidade… isso não é amor. Ninguém que nos ame nos obriga ao que quer que seja e amar o outro não nos pode tirar dignidade…

Lúcia Pereira da Cunha

 

31
Jan19

A pertinácia da Informação

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Demagogia, (in) defesa e pamonhas!

 

Se algo me revolta, até me ferir as entranhas e fazer queimar o esófago, é a acusação de demagogia quando estamos a falar de direitos, princípios, em suma dignidade e respeito. Dizia alguém há pouco tempo “Muito bem, defendem ensino superior gratuito, mas isso é demagogia, pois não é possível, nem financeiramente sustentável!”

 

A questão é sempre a mesma: a abominável fiança!

 

Vivemos presos a um paradigma que nos asfixia. A humanidade criou uma espécie de inferno, onde labuta incessantemente para manter acesa e a boa temperatura a fornalha de onde saem as chamas desse inferno.

 

Basicamente destruímos o planeta onde habitamos, criamos desigualdades abismais na distribuição de bens, provocamos ou estimulamos o sofrimento, a fome e a indignidade no semelhante… mas, ao menos valha-nos o esforço para que as contas batam certo.

 

Eu vi, numa espécie de Hierofania, como se sentou o anjo cansado de nos aturar. Puxou de uma mortalha e pôs-se a fumar. Podia ter pensado, enquanto alinhava direitinho o tabaco, o filtro e toda a substância, sobre o papel de arroz, equilibram tudo habilmente levava até aos lábios num ritual minucioso, e aí ao de leve colava com uma nesga de saliva as duas pontas do papel formando um belo e elegante cilindro. “Esta espécie é desconcertante!” Diria de si para si de forma tão eloquente… ou se calhar não, e o que pensava deixo-o à vossa imaginação para que tenham mais qualquer coisa para fazer, além de falar mal da vida dos outros – é que sempre poderiam falar, também, de vez em quando!

 

Aparentemente o provir é caótico e o devir anedótico.

 

A entrada de Armando Vara na prisão foi anunciada ao minuto quase com a mesma emoção de um reality show e com um “ora vai”, “ora não vai”… e finalmente foi! A maior parte já quase nem se lembrava porque é que o homem ia dentro! Desde que começou o processo Face Oculta, uma prima, do primo de um amigo meu entretanto casou, tive um filho, divorciou e até já esteve para encetar novas núpcias… E, até tenho outro desconhecido distante que entretanto já esteve a trabalhar temporariamente, em diversos sítios, realizou alguns cursos de aprendizagem daqueles formam jovens para um emprego qualificado, posteriormente realizou 3 estágios, na sequência dos mesmos cursos de aprendizagem. Mas, enfim, vistas bem as coisas o que são 11 anos? Nada, ninharias, se não vejam-se as listas de espera para certas consultas de especialidade no SNS!

 

Fico a pensar como terá respondido o Vara o desafio do Facebook: Como era há 10? E agora?

 

Só tenho pena não ter sido brindada com a capacidade de desenhar, que bela caricatura… Falta-me o engenho porque de inspiração a realidade abunda. Pois se Vara entra ou não entra, já o Lima nunca vai! Eu admiro a persistência desta gente em não desistir de uma defesa da sua inocência. Isto na (in)justiça é tudo tão surreal que eu acharia normal alterar a semântica de algumas palavras. Assim para além de justiça, inocência, também incluiria defesa numa alargada gama de palavras que alterariam o seu significado.

 

Falando de defesa vem-me à memória o Conselho de Defesa Nacional, aquele em que dois deputados andaram à pancada nos corredores do parlamento. Diz que foi entre o Ascenso Simões e o Joaquim Raposo, também diz que o Ascenso é um jovem dado a acalentar ânimos…

 

Li algures no Voz de Trás-os-montes, que o homem do eleito pelo PS no circulo de Vila Real apresentou um conjunto de propostas para alterar o funcionamento do parlamento, de modo a simplificar o regime e incrementar a transparência… eu cá temo que ele passe a fazer daquilo uma espécie de wrestling… assim sendo eu até lhe podia sugerir que usasse um nome mais artístico, por exemplo Aceso Simões e aquilo como diz o povo: “já só lá vai à pancada”!

 

Agora o que me preocupa mesmo é sobre o que é que se falou nesse afamado Conselho de Defesa Nacional… é que os alertas automáticos da vária impressa só falam dos tabefes em que o João Soares aparece como apaziguador!

 

Entretanto vejo outra caricatura: o coronel Alves Pereira disse esta quarta-feira que o furto de Tancos é coisa feita por amadores "um bando de amadores". Querem ver que andamos a brincar? Então o roubo é coisa de amadores e a defesa? É coisa de pamonhas?


Lúcia Pereira da Cunha

 

Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político.


"demagogia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/demagogia [consultado em 11-01-2019].

27
Set18

A Pertinácia da Informação

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Piano, piano...

 

Devagar, mas sem parar.

 

Diz-se que no final, o que sobrevive é a música. Oxalá soubesse cantar! Talvez seja capaz de ouvir: fora e dentro de mim. Além disso, tenho a certeza que te vou fazer ouvir o canto das aves, nas palavras que pintar algures, numa página qualquer que saberás que é para ti.

 

Piano, piano...

 

Às vezes, acho que me falta a falta de escrúpulos e a capacidade para tocar na imundice sem parecer que estou suja. Mas, talvez não me faça realmente falta e o que falte é gente que não se suje e que tenha escrúpulos.

 

Não são poucas as vezes que ouço fora e dentro de mim o Cântico Negro de José Régio. Desde que o li percebi que, pelo menos os primeiros versos, me assentavam que nem uma luva – a mim e a uns quantos talvez, nada de extraordinário.

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

(…)

 

“Porque não deixas isso e pensas em ti?” ou “Que ganhaste com isso até agora?” Oiço isto constantemente, embora estas humildes palavras não tenham a mesma grandiosidade como nos versos anteriores, eu convenço-me que há alguma preocupação e afeto à mistura, ou apenas uma frustração de quem vêm um jardim abandonado.

 

Mas, afinal é suposto ganhar algo só e apenas para mim? Não seria suposto ganhar algo para todos? Não é suposto conquistarmos justiça para todos? Às vezes parece que não.

 

Como se diz “Não desistas”, quando tudo indica que deves desistir?

 

O segredo para não se desistir é ter essa pitada de loucura e uma mescla de lucidez. O que no fundo, visto de fora, parece só estupidez.

 

Piano, piano...

 

Um dia, vais perceber.

 

Eu podia apresentar argumentos contados, calculados e especificados... mas prefiro, hoje, deixar-te só alguns sentimentos meios pintados, meios cantados.

 

Para já, é tudo, assim apenas pela metade.

 

Piano, piano...

 

O que importa é seguir, ainda que, por agora, só fale para quem sente e talvez fale para quem possa ouvir futuramente.

 

Piano, piano...

… si va lontano

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

20
Set18

A Pertinácia da Informação

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Assim são os porcos, assim somos nós!

 

 

Os arbustos secaram e pressinto que o outono deve estar a chegar. Talvez.

 

Mas, a forma como o tempo e o movimento das coisas acontece mudou. Talvez seja outono, mas algumas árvores não deram fruto e não há uvas nas videiras.

 

Entendo que algumas coisas vão mudar, mas não compreendo a pressa. Posso ser eu que estou a entender mal. Estou fora do mundo ou o mundo fora de mim, ultimamente tenho essa sensação.

 

Era suposto o que está certo, o que é injusto tivesse voz… e que essa voz fosse a dos próprios injustiçados… Mas, possivelmente só sentirá o grito no dia do dilúvio, ou quando as margens se aproximarem até as águas desaparecerem, e então será tarde.

 

Coloquei-me solidaria com ele, admiti que não era justo ter tão pouco tempo para cada tarefa. Não deu tempo que me alongasse, respondeu: “Que havemos de fazer? Não somos nós que mandamos!”

 

Claro que não somos nós que mandamos, somos nós que obedecemos… e um dia podíamos não obedecer.

 

Os arbustos secaram e a desordem da natureza que não sabe se chegou ou outono ou se ainda vem a primavera, deixa-me angustiada.

 

A angústia é um sentimento estranho. Eu diria que é quase como um pedacinho de látex que ficou esquecido dentro de nós. Porquê esta comparação? Pois bem, é por causa de uma peripécia que uma amiga próxima me contou. A peripécia, aconteceu com uma amiga de outra amiga dela, que por sua vez lhe pediu encarecidamente segredo. O estranho caso trata-se de um fragmento de luva que ficou dentro do corpo dessa amiga da amiga, aquando de um exame médico íntimo, a partes íntimas da paciente, que era amiga da amiga. Não sei, mas imagino, que essa amiga da amiga da minha amiga, se tivesse sentido como o estranho local de trabalho onde alguém esqueceu a ferramenta. Imagino que se tenha sentido como o contentor amarelo… ou seja, qualquer coisa que não fosse ela mesma, para não sentir a estranheza de ter uma coisa estranha na sua entranha. A angústia é isso: uma sensação provocada por uma coisa fora do sítio, fazendo-nos sentir impróprios, apertados dentro de nós mesmos. Neste caso só se resolveria se passássemos a ser o contentor amarelo, ou nos adequássemos à condição própria de local de trabalho, ou ainda qualquer outra condição que nos seja imposta e nos seja estranha.

 

 

Que havemos de fazer? Ficou-me a fazer eco no cérebro, no momento em que mandei o cérebro embora porque o acontecimento poderia ser chocante para a sua compreensão. Estava ainda a ponderar os eu regresso e vejo de a notícia: “Trabalhadores da corticeira acusada de “castigar” funcionária estão solidários com a empresa.” Reli, de certeza que era um lapso do jornal, ultimamente há erros fortuitamente, em qualquer lado, até aqui! Será pela quantidade de textos que se produz, pela velocidade com que mudam os assuntos e pela necessidade de inundarmos o Mundo com tanta informação pertinente. Escrevesse como quem faz alheiras numa produção em serie… (Nem quero imaginar o que vai lá para dentro!).

 

Mas, não me enganei. O título, desta vez, não tinha gralhas, pelo menos de sentido, embora para mim não fizesse sentido nenhum!

 

No entanto, não era nada que eu não conhecesse. Esta perversão das situações é tão antiga como a caça às bruxas. “Que podemos fazer nós?” pois, nós obedecemos e somos uma corja fraca, escumalha de gente que adequa à condição de escravo. A nossa preguiça, desmazelo, lerdeza faz-nos ser ignóbeis, asquerosos porcos a chafurdar na lama porque não nos valemos nem para defecar fora da gamela onde comemos. Aos porcos não lhes interessa o que comem, onde comem, nem quem lhe dá de comer, vivem no estrume, chafurdam na lama…  é lhes indiferente a solidariedade ou dignidade. Assim, são os porcos. Assim somos nós, que quando uma colega, funcionário da mesma empresa, é reintegrada por ordem do tribunal, depois de ter sido despedida ilegalmente, acedemos em participar numa espécie mobbing, não lhe dirigindo a palavra, sendo coniventes com “castigos” que implicam usar espaços menos adequados como WC, ou ficar encarregada de carregar e descarregar a mesma palete várias vezes.

 

Não vale a pena esperar que nos salvem, porque não vai chegar nenhum Messias! Se chegar, o Messias não é um ser magicamente poderoso que atira bolas de fogo pelas mãos aos maus. Não vale a pena falar de criminalização do assédio no local de trabalho, na verdade, o assédio moral em contexto laboral pode subsumir-se à aplicação do n.º 1 do artigo 154.º-A do Código Penal, aditado pela lei n.º 83/2015, de 05 de Agosto, que tipifica o crime de “Perseguição”, o qual, nos termos gerais, pode integrar condutas que enformam a definição de “assédio moral” contemplada no Código do Trabalho. Como diz Joana Neto, o assédio moral no local de trabalho já é crime.

 

As soluções, para estas práticas contra a dignidade da pessoa humana, não residem apenas na sua criminalização, mas antes na quebra do silêncio e na vontade de deixarmos de ser como os porcos.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

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