Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

A Pertinácia da Informação

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Abril e a pós-modernidade

 

 

Estamos no final de abril, aconteceu tudo assim, de repente. O sol e o calor chegaram no tempo deles, mas estávamos desprevenidos. Esta azáfama do dia-a-dia é um falso movimento, na verdade permanecemos no limbo. “E quanto tempo dura o limbo?” – perguntava alguém.

 

Eu, não sei quanto tempo dura, mas estou farta dele. Suponho que há etapas a superar para se chegar aqui ou ali. Ter consciência disso às vezes é paradoxal. Não há tempo… já vai tudo muito para além da última palavra que eu acabei de dizer. Isto é a característica própria da Pós-modernidade, a época em que vivemos. A Pós-modernidade é cheia de desencanto e questionamento, procurar a verdade ou as somas das verdades é como procurar uma estaca onde nos agarrarmos num naufrágio. A sociedade está naufraga entre a comunicação ruidosa e o consumo voraz.  

 

Desço a rua, oiço uma música contagiante, daquela que tem batida e apetece dançar… ora, tem um nome este tipo de música, como têm as outras, mas eu desconheço e penso no facto como algo vergonhoso “eu devia saber isso!” O sentimento é mesmo esse, a necessidade de dominarmos todos os assuntos: “Eu preciso saber sobre tanta coisa…” Temos necessidade de saber sobre tudo e não porque sejamos génios, mas apenas pessoas vulgares que devem estar corretamente informadas.  Vem-me à mente Abel Salazar, foi um homem completo, ao nível de qualquer um do seu tempo e do seu nível, em qualquer parte do mundo. A ditadura manteve-o cativo na sua própria casa, impediu de investigar, de lecionar… mas não impediu de ser. No entanto, penso como é perigoso ser-se genial mas fora do sítio, num pais provinciano. Foi acusado de corromper os seus alunos: “influência deletéria da sua ação pedagógica”. A caça às bruxas é uma constante ao longo da história. A invejazinha, a cobiçazinha, de gente pequena… mas o que é, é. Também há quem não seja genial e na sua exagerada medida pense que sim, se sinta perseguido e injustiçado… há ainda quem aspire a sê-lo e por isso nunca será, porque a genialidade é algo que acontece porque acontece e depois tem que se manter com trabalho e disciplina… Mas isso é outro assunto.

 

Hoje quase que precisamos ser uma coisas parecida com genialidade, precisamos ser algo que biologicamente é impossível. Precisamos ser máquinas, que não somos e por isso… rebentamos.

 

Lá está: faz falta uma política de civilização e de humanidade, como nos vão alertando alguns sociólogos. Morin, fala um pouco de tudo isto em “Rumo ao abismo?”. O autor acha que a conceção maniqueísta domina os espíritos e se confunde com racionalidade, a interdependência das sociedades é cada vez maior, mas em vez de ser feita na base da solidariedade, ela gera a sua autodestruição, a comunicação é cada vez mais intensa, mas sem dar azo ao entendimento.

 

Contudo, acredita que a porta para o improvável está aberta, e isso traz-lhe esperança… e a mim também.

 

As miúdas que dançam, ao som da tal música, têm corpos pequeninos… fico assustada. Na minha cabeça está aberta à discussão e ao debate: “A sociedade está a contribuir para um crescimento saudavel e adequado das crianças e das jovens? Estamos a contribuir para a adultização das crianças? Há uma erotização errada da infância através dos diversos produtos que se vendem: os desenhos animados com silhuetas finas, as letras das músicas...  Ou será que é natural deixar o corpo movimentar-se, exprimir-se… se calhar é só medo infundado da mudança... ou é apenas a constatação de que não podemos controlar nem travar esta intricada e complexa movimentação veloz da pós-modernidade?

 

 A minha mente exige-me uma resposta rápida, uma solução eficaz para aquele choque momentaneo. Sou confrotada com a necessidade de desdramatizar, de desproblematizar ou encontrar o caminho pelo menos para a prevenção do problema, se não para a sua solução. Mas a solução não vem em doses unicas. A pluralidade exige soluções singulares e personalizadas... exige tempo, calma e ponderação.

 

Entretanto já estamos a falar linguagens diferentes e entre mim e eles existe um fosso abismal! Estes, são mais crescidos e até parecem responsáveis... pelo menos, vieram imprimir os trabalhos, à última da hora é verdade, mas estão preocupados com a entrega dos mesmos. Um deles tem consigo um trabalho encadernado e leio na capa “Relatório de Biologia”. Falam de videos no youtube de outros a jogarem jogos?!Terei entendido bem? Sim, há youtubers a dar dicas sobre como jogar alguns jogos... e eles vão passar o feriado a ver alguns... discutem sobre o que será melhor se ver os nacionais ou os internacionais. Um deles diz que há um que é o melhor de Portugal, mas fica sem argumentos porque o outro diz que não tem assim atnatas visualizações. Bem, se calhar a conversa não foi bem assim.… dentro da linguagem que eu ainda conheço, ou de acordo com os meus subsunssores foi assim que interpretei a coisa... às tantas eles passaram o tempo todo a falar sobre outa coisa qualquer... lamento, eu cá entendi isto e assim vos conto.

 

Mas em que epoca vivo afinal? Eu realmente sou parola não entendo de nada! No outro dia, tentei falar com outros... afinal a nossa música era “tipo, muito má!” era mais “a letra era tipo, muito explicita” ... eu fiquei toda feliz a pensr que iamos ter tema para conversa, afinal no outro dia falaram em filmes de David Lynch... mas não, isso já foi tipo há bué de tempo... antes do Natal! Claro, eles fazem um ar de asco, como se a minha parolice de cota os fosse contagiar! Caio então na dura realidade: estou qualquer coisa parecida com uns biscoitos fora de validade – comem-se, mas não são a mesma coisa que antes.

 

E agora? Agora, olha, vamos aceitar os factos e ser uns biscoitos com algum tempo, sim, mas com outras propriedades. Já sofri alguns naufrágios e lá me tive que salvar, agora toca a perceber com a maior rapidez possível e clarividência de pensamento como se comporta a ondulação nesta epoca conturbada, e, dentro do possível, ensinar os outros a nadar o melhor que sei. Isto, terá que ser o suficiente. De resto, terão eles que saber fazer o seu melhor. Terei que confiar que serão capazes, como tivemos que ser nós e por isso é preciso recordar-lhes e insistir todos os dias que são eles que vão ter que nadar a vida deles.

 

Se me for possivel, tentarei mudar as ondas da pós-modernidade: exigir e construir políticas de civilização e de humanidade. Mas isso, já não vai depender só de mim, nem vai lá apenas com muito amor.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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Quinta-feira, 12 de Abril de 2018

A Pertinácia da Informação

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 “Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

Há uma necessidade tremenda de continuar, a todo o custo, há que que continuar.

 

Sabem aquele momento em que as forças já se foram, mas ainda temos a tarefa por concluir? Pois, é nesse momento que é preciso continuar.

 

É preciso ver as pedrinhas bonitas no caminho e reparar nos pormenores. Não há truques absolutamente nenhuns, não há fantasias, não há ilusões, alegorias ou metáforas. Apenas certezas. O que é, é mesmo, o que tem que ser, tem mesmo de ser.

 

Eu gosto de alimentar as pessoas e gosto de ser alimentada com algo nutritivo para a alma e para a mente. Algo novo, algo que ainda não sei. Gosto como se pronuncia alimentar em inglês, gosto do som “feed”. Há sentimentos que se exprimem melhor noutras línguas… às vezes vêm-me à mente palavras para dizer o que penso e não sei de onde vêm. Outras vezes, há palavras que servem para nos libertar e exprimirmos o que pensamos, sem realmente se dizer algo. Então fazemos poesia.

 

Claro que não me podia deitar sem antes dizer o que sinto ou o que penso, que quase acaba por ser o mesmo.

 

Há muitos tipos de exercícios e tarefas que fazemos ao longo da vida, cada qual com o seu grau de exigência, com as suas normas... mas nós não somos feitos apenas de um desses mundos, somos o seu conjunto e devemos evoluir no sentido de termos em nós todo o cosmos e sermos todo o cosmos naquilo que fazemos, ou seja, a nossa experiência terá que ser cada vez mas abrangente para que a vivência na terra seja plena e para que tenhamos atingido o um elevado grau da compreensão das coisas e de nós mesmos… ou então não.

 

Seja como for, a minha vida monocromática, seria uma autêntica porcaria. Estas experiências que me têm acompanhado não cabem apenas num punhado de folhas com análises e quadros. Nem a minha vivência destes momentos se pode a resumir apenas a dois ou três aspetos delas – seria muito redutor.

 

O Mundo, tem mundos, e é preciso entender de várias matérias para se compreender a relação entre todos eles.

 

Vejo nas suas caras um pouco de tudo. A imagem acompanha-me e lembro-a ao final do dia e no momento do duche, penso: “Todas as mulheres deviam amar os seus corpos antes que as doenças e a idade lhos leve. Todas devíamos ter uma foto nuas… um desses nus bonitos, um quadro pintado de nós mesmas por inteiro e com amor, um quadro que tivesse todos aspetos da nossa vida para lá dos nossos seios redondos que um dia o cancro nos pode levar.”

 

Antes que seja tarde, será melhor sorrir, mas sorrir com vontade. Nunca fui capaz de dizer ou fazer nada por fazer.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O que é a orientação? Que bussola melhor que uma boa consciência, daquela cheia de vigor e consistência?

 

“A senhora é bonita! Ela não acredita. Provavelmente qualquer pessoa diria o que fosse preciso afim de conseguir o que pretende. Eu percebo esse pensamento e agora, calmamente, porque ao fim de algum tempo acabamos por amadurecer e aprender a respirar, a esperar e a dizer com toda a frontalidade aquilo que realmente é verdade: “A senhora é mesmo bonita!”

 

Então ela percebeu que estou a ser sincera e responde: “Quando era nova sim, era bonita!”

 

“Quem é bonita é sempre bonita.” – retorqui.  Era verdade o que eu dizia. Acabou por me contar dos companheiros, do marido… mas contou outras coisas que disse e outras que não disse. A senhora era realmente daquelas pessoas bonitas, com quem estamos bem.

 

 

Mas as conversas devem ter continuidade. “As pessoas desacreditam, se não dermos continuidade.” Esta é uma daquelas verdades de La Palisse que os inexperientes e os papagaios repetem incessantemente, sem na verdade perceberem absolutamente nada sobre pessoas. Não há nada pior que Papagaios-perus-pavões... se há algo que me apaixona nas pessoas é facto delas serem grandes,  eu sou assim exigente, só me dou com gente realmente grande e só são realmente grandes quando lhes percebo a modéstia e a humildade, mas intolerante me confesso: é me insuportável a falta de humildade, mesmo que até, por ventura, haja algumas qualidades... o exibicionismo, o pseudo-narcisismo, deitam tudo por terra. Pior que génios arrogantes, são os Pavões-secos, sem nada para dar, considerando-se a eles mesmos a última batata do universo. Nesse caso o efeito é apocalíptico. Com certeza que têm direito às suas vidas e fazem parte da deliciosa diversidade do ser humano... mas, a mim causam uma certa intolerância. Lamento. Ultimamente descobri que provavelmente sou, literalmente, intolerante a diversas substâncias. A doutora explicou que “às vezes o nosso organismo vai-se tornando cada vez mais intolerante a determinados princípios, com o decorrer do contacto prolongado.” Isto é, em silêncio o nosso organismo vai aguentando, por exemplo, as carradas e carradas de lactose que vamos ingerindo ao longo da vida sem saber que nos faz mal, até que há um momento que basta uma pequena dose e o efeito é catastrófico. Se não é assim, é algo do género e pode-se aplicar a diversas situações, caso não esteja clara a metáfora.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

No dia anterior tínhamos ido àquela aldeia. É sempre assim, difícil, quando não levo referencias, e sou apenas uma pessoa a fazer um trabalho qualquer. Acabo por ter que contar mais eu sobre mim, do que eles sobre eles mesmos. Acho bem e perfeitamente adequado, o mundo não é seguro. “Ao que foi preciso chegar! Velhos e fracos e sós...” Não era suposto haver gente tão cruel, capaz de enganar, roubar... Não era suposto haver gente que não reconhece nos mais velhos esse estatuto que lhes confere respeito… sinto isso nas caras, e nas escassas palavras. Vai falando comigo, vai olhando para fora de casa, estica-se da varanda para ver se vem alguém mais comigo. Explico, volto a explicar, mostro as provas: declarações, documentos, inquéritos... isso não lhe importa, não sabe ler nem escrever, e não lhe interessa. Não, certamente que não lhe interessa e tem toda a razão! Para que raios lhe interessa, afinal para que raios faço isto? Ainda que no final do processo chegue a um grupo de ideias bem consistentes, ainda que consiga fundamentar de alguma forma algo que tenho vindo a sugerir, ainda que eu possa vir a sugerir a algo que de algum modo possa vir a melhorar essas vidas... já não vou a tempo!

 

No dia seguinte, havia um cão preso junto às escadas. Estou certa que alguém a aconselhou a isso. Eu sei do que a casa gasta. Oh se sei. Mas isso que raios importa!?

 

“Agora também já não vale muito a pena pensar nisso, claro que fiz o que devia na minha vida, claro que tenho que estar satisfeito.” Diz-me com bonomia.

 

Sinto-me sempre envergonhada. Malditos académicos! -  Penso. - Não percebem nada das pessoas. Claro que eu percebi que certamente se ele pudesse recomeçar a sua vida, algo faria diferente. Mas está ali tudo tão arrumadinho... e depois, já não há tempo, talvez. Eu pondero e avalio a resposta como deve ser – valha-me a sensibilidade e o bom-senso.

 

  O pior de tudo é ir embora com coisas importantes por fazer. E vão ficar muitas: os filhos com as suas vidas por arranjar. Quando se é um verdadeiro ser humano e pai, os filhos preocupam. Nunca se percebe a importância de se estar vivo ou não até se ter filhos. Uma coisa é estar-se vivo para vivermos por nós e para nós, pelos nossos sonhos, desejos, ambições... outra é estar pelos que precisam realmente da nossa ajuda para vingarem, para crescerem… para sobreviverem. Olho para eles, vejo a profundidade do seu ser nos olhos, sob pálpebras enrugadas pelas intempéries e pelo tempo, como os velhos troncos dos castanheiros, e da cor das eternas fragas dos montes. No seu âmago vejo a angústia causada pela preocupação causada porque os filhos não estão bem.

 

O que é “estar bem”?  É ter emprego: “Se ao menos houvesse alguma fábrica…” A ideia, eu diria, é alegadamente do Fordismo.

 

Temos que fazer por estar bem, e resolver aquilo que já não é da sua incumbência. Temos que explicar que vamos construir um mundo novo, que será diferente do que projetaram para nós, pois esse já não existe e não nos serve no contexto atual. Mas, vamos encontrar um em que vamos ficar bem... e oxalá eles tenham envelhecido e crescido em amor e generosidade para perceberem que precisamos ser felizes e que os padrões do que é certo e do que errado não encaixa bem naquilo que lhes ensinaram. Talvez não estejamos dispostos a aguentar o mesmo que eles e elas, não porque somos fracos, mas porque estamos a lutar por algo melhor... Ou seja, estamos indiretamente a dizer que o que eles tiveram foi mau e não serve para nós. Começam a pensar que no fundo temos vergonha deles e eles próprios se envergonham e se põem em causa. Não querer o mesmo modo de vida delas, é dizer-lhes e recordar-lhes que elas se anularam desde que nasceram, que viveram para servir o pai, os irmãos e os maridos...

 

“Se teria feito algo diferente? Eu acho que não… agora também já não vale a pena pensar-se nisso, ele não é verdade?!”

 

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

Troveja. Um relâmpago corta o céu. Há quem pense que os raios quebram as fragas.

 

Ás vezes é preciso ter coragem para eclodir das várias metamorfoses. Há quem o tenha feito ao logo das suas vidas e estão convictos que não poderia ter sido melhor, fizeram o tudo o puderam e melhor que conseguiram.

 

Ás vezes acho que os que vêm atrás de mim engolem demasiado depressa, sem mastigar e sem saborear... não sei... espero perceber em breve quem é a juventude, aqueles os que vieram depois de mim.

 

Dizia uma daquelas senhoras bonitas, numa outra terra dessas também cheia de paredes de granito e rajadas de vento e chuva: “ É uma pouca vergonha! Tem algum jeito? Olhe-me essas calças esburacadas… ” e ela, escutava a senhora bonita com paciência e dizia a sorrir, com carinho: “Bote-me aqui um remendo ti’Ana!” O que provocou na velhota um sorriso franco e uma mudança de tom: “Gosto muito desta menina.” Espero que um dia venha a ser uma senhora bonita, como essa sua vizinha que me apresentou.  Esta pelo menos eu pressinto que saberá tomar boas decisões, talvez porque tenha convivido com a ti’Ana... a ti’Ana era bonita e no seu tempo até era tramada com os rapazes... mas não fez disparates!

 

Eu adoro quando lhes vai saindo, com brilho nos olhos, essas deixas de que foram namoradeiras ou namoradeiros. Sou quase que catapultada para os tempos em que as vidas eram feitas de cantares nas eiras, muito trabalho… mas muitos enredos interessantes, afinal não era tudo assim tão austero e púdico! Ainda bem. Há os que contam histórias. Esses são os que foram e são mais felizes. Pressinto que tomaram boas decisões.

 

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O que são boas decisões? São as que nos fazem sentir bem, felizes. Um bem para sempre, mas sem estarmos sempre bem. São as que nos deixam em segurança... são as que não nos põem em perigo. São as que não nos fazem mal a nós nem aos outros, agora e amanhã. É esta coisa do imediato que me assusta neles, esta coisa de quererem experimentar tudo e já. De quererem tudo agora e bom... comerem sem mastigar e sem saborear... Que se aprende assim?

 

 

Para ter o seu primeiro carro, teve que “passar algum lingote”. Mas há outras histórias do género... não me são de todo estranhas.  O primeiro carro foi um 805... e eu atiro-me com esta: “Um Fiat?” - Por acaso saiu-me bem! Tenho que ir pesquisar sobre carros, tenho que saber sobre imensas coisas... ou que julgam? Não se pode conversar sobre coisas tão importantes se não soubermos escutar bem, mas também é preciso demonstrar que sabemos de que falam. Modéstia à parte, eu até sei do que falam, a maior parte das vezes. Quando não sei pergunto e eles gostam de me ensinar. Claro que algumas vezes, na sua ótica eu até devia saber bem mais, mas dado que eu até moro na cidade, às tantas não sei, e é me perdoado o facto de eu não saber.

 

Fica envergonhado, de certo modo, por não saber ler e escrever, mas eu tranquilizo-o, não com uma falsa compreensão ou com algum paternalismo, o que digo é por senti-lo assim: “Tomara eu ter a sua cabecinha! E saber também o que senhor sabe!”

 

E ele percebe que eu estou a dizer a verdade e anui, dizendo que, ainda tem um amigo, que sempre lhe disse que ele tinha boa cabecinha.

 

“Deseja retomar a orientação? Sim ou não?”

 

O GPS coloca-nos duvidas existênciais, quem diria!

 

Todos sabemos perfeitamente a onde queremos ir. Tudo tem a ver com a razão porque queremos chegar. Não há truques absolutamente nenhuns… é tudo uma questão de onde temos o coração e o que pretendemos amar.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
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Quinta-feira, 29 de Março de 2018

A pertinácia da informação

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Cultura, avestruzes, vacas… e pão!

 

“Ele grita para lhe conseguir chamar a atenção e pelos vistos conseguiu e o seu amor é consumado ali mesmo em plena planície. Com o tempo podem ficar juntos, ou, como seria normal irão separar-se.” É com este relato empolgante sobre o acasalamento das avestruzes que começa o meu serão.

 

Estou, há uns dias, em estado de latência como uma semente à espera do degelo. Não é inércia, é apenas a mente ocupada com outra tarefa - uma questão de planeamento mais atento. E às vezes os acontecimentos dramáticos acabam por se tornar ruído, em vez de impulsionarem mudanças, pela falta de consistência na sua abordagem. Se virmos bem, já nada nos surpreende e somos como uma espécie de adictos que têm necessidade de aumentar a sua dose para que haja um efeito substancial. Às vezes já não sei se a dose não faz efeito ou se há um cinismo permanente que faz olhar para aquilo que sabemos que não vamos mudar - pelo menos hoje não – mas sabemos o que existe, porque existe e essencialmente já sabemos o que querem de nós, como nos querem usar, manobrar, ludibriar… e como, pelo menos agora, não podemos fazer nada para mudar assistimos a tudo com… o sorriso da Mona Lisa.

 

O silêncio não significa resignação, pelo contrário: é treino e preparação. De todo o modo é tempo disso mesmo: silêncio e intervalo.

 

É quaresma.

 

Sim, é quaresma e nota-se, mas caso alguém não tenha notado, é preciso impor essa ideia e divulga-la até nos ter entrado na cabeça. Com uma divulgação intensiva do evento a mensagem por uns ela é completamente deglutida, engolida e às vezes assimilada, para outros, porém, passa a ser ruido e imposição… Eu cá nunca me dei bem com a imposição, com a frase feita nem com o é porque é… se me interessa verifico, analiso e testo. Mesmo que não pareça às vezes somos subversivos – sementes em latência. Isso de seguir em rebanho a escutar a mesma doutrina, pode resultar bem com algumas pessoas, mas dificilmente resulta com as ovelhas com pensamentos próprios… elas até podem ir ali alinhadas, mas ninguém lhes comanda a liberdade do que pensam. Depois há quem diga que tem importância o debate e a discussão… mas juro que até hoje nunca vi ninguém disposto a aprender e a interiorizar mudanças a partir da profícua discussão.  Repare-se: há os que vão impor a sua fantástica doutrina, esses falam forte, rosnam e nunca escutam realmente, há os que não têm ideia nenhuma e vão com enormes ouvidos buscar um discurso bonito e oco para debitar num lugar qualquer, e há os que vão atentos em busca de utopia… estes, desgraçados debatem-se na construção de argumentos, vão com tudo e com boa fé, acham que é ali que se alteram paradigmas  mas esbarram com os muros da vaidade e da arrogância ou com os discursos bonitos e ocos… o circo foi montado com um espetáculo pré-definido e o público que é sorteado para ir participar no espetáculo… na verdade já estava concertado nos bastidores.

 

Alguém dizia há uns dias que o passatempo mais usual da maior parte das pessoas era ver televisão e achava esse facto deprimente. Eu acho, porém, que as pessoas são deliciosamente diferentes. Cada um que faça como entender… e se formos falar em cultura… então a discussão é longa e complexa. Começamos pela sua origem etimológica: cultura vem de cultivo no sentido do cuidado dispensado ao campo ou ao gado. A história do conceito confunde-se com a evolução do vocábulo, a certa altura o termo passa a ser usado como metáfora e posteriormente torna-se o vocábulo usado com significado de cuidar o espirito. A evolução do conceito evolui com a Sociologia, com o paradigma das ciências sociais – sim porque a sociedade deve ser entendida como ela é, mas à luz de paradigmas atuais… há ainda muita gente que olhe os factos à luz do positivismo, há ainda quem olhe a sociedade numa perspetiva restritamente funcionalista e venha invocar, em jeito de ressurreição, premissas desatualizadas… mas isso é assunto para outra crónica… Continuando com a noção de cultura, mais tarde Tylor vem dizer que ela deve ser descritiva e não normativa e é adquirida de forma inconsciente. Boas irá dizer que não existe uma cultura, mas culturas e faz enaltecimento ao respeito e à tolerância entre culturas. A certa altura percebe-se que só faz sentido falar em cultura no contexto de uma sociedade. Lévi-strauss vem dizer que ela é um conjunto de sistemas simbólicos de uma sociedade. Durkheim não utiliza o termo socialização, mas coloca a questão sobre como o indivíduo se torna membro da sociedade e como se vai sentir identificado com ela, assim ele acha que a educação ou sistema educacional, em cada sociedade, transmite aos indivíduos que a compõem o conjunto das normas sociais e culturais que garantem a solidariedade. Tal como Person sinto que nesta perspetiva há um certo constrangimento da sociedade sobre o individuo que o limita e que o pressiona a adotar determinadas posturas.

 

Continuo com o serão, acompanhada com RTP2, estou emersa em várias leituras e no meio de imensos conceitos. Está a dar uma curta metragem “Animal Politico”, trata de uma vaca urbana com uma vida agradável que um dia se apercebe de “um vazio existencial profundo, uma sensação estranha que nunca tinha sentido antes” como diz ela a certa altura. A vaca faz a sua vida rotineira: vai às compras, vai ao ginásio, vê TV em família (pais e irmã). Mas, então, decide deixar a sua vida confortável e partir em busca de Iluminação, de respostas para o sentido da vida. Fico a pensar se o bicho esteve em circunstâncias que tivessem posto em risco a sua integridade ou causado sofrimento… Eu já apascentei vacas turinas como aquela, não me parece que ela estava muito feliz a fazer aquelas figuras tristes de pessoa urbana. Talvez por isso a meio do filme aparece uma ruiva nua com umas botas giras à cowboy, e mais à frente a vaca passa a ser interpretada por alguém que veste o disfarce de vaca. A certa altura a vaca cita Buda “A vida não é uma pergunta a ser respondia é um mistério a ser vivido.” E emociono-me especialmente quando ela diz “eu queria encontrar um livro sobre mim mesma numa prateleira para eu pegar e ler”. A vaca continua a sua saga em busca da iluminação e diz a determinado momento: “O caminho para a iluminação bem que podia ser bonito e agradável.”

 

Eu acho que anda muita gente confundida com os conceitos básicos em geral, como acontece com a noção de cultura, à semelhança do que diz Denys Cuche no livro “A noção de cultura nas ciências Sociais”, parece-me que se vê cultura em tudo, fala-se de crise de identidade e relaciona-se com crise cultural. As crises culturais são crises de identidade? Será que alguém espera encontrar a mesma identidade para todos? E o que para mim acaba por ser de certo modo pernicioso é que esta problemática seja deslocada para a discussão do enfraquecimento do modelo de Estado-nação, da integração política supranacional e de certa forma da globalização da economia. Cuche acha que a questão da identidade é uma moda recente e se vai tornar no prolongamento do fenómeno da exaltação da diferença. É possível que sim, e que não. Na verdade… a cultura é um conceito que só faz sentido na interação e na socialização, e estamos perante fenómenos de socialização diferentes: mais globais, mais rápidos, menos profundos… talvez. Os fenómenos sociais cada vez são mais complexos, mais velozes, sem espaço para a reflexão, mais difíceis de perceber de prever.

 

Edgar Morin fala da Cultura de massas, fala da forte e importante influência da cultura da propaganda e estimulação do consumo, fala de como se tornou mais importante a produção que a criação. E nós vivemos aprisionados neste novo paradigma. Como se uma mão paternal escolhesse e ao mesmo tempo um monstro colossal nos empurrasse.

 

As pessoas não saberão o que as faz felizes, não faz parte da democracia deixar as pessoas escolher?

 

No sábado fomos ao MACNA (Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso) com o objetivo de ver a exposição do designer João Machado: A arte da Cor. Já tinha visto alguns cartazes da sua autoria, nomeadamente os Cinanima - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, que são da sua autoria, mas não conhecia muito mais da sua obra. O gosto pelo pode nascer pela forma de tentarmos dar diferentes usos aos objetos e diferentes significados às realidades, é um exercício interessante do uso da criatividade. Mas ainda mais interessante quando a criatividade está a aliada a subversão… e eu adoro a subversão! Foi uma visita agradável. Reparei, na agenda cultural que havia uma atividade destinada às escolas, destinada a todos os níveis de ensino… mas, afinal, era apenas para as escolas públicas. Vou ter que perceber o motivo. De qualquer modo, conseguimos assistir à exibição de algumas curta-metragens do festival do ano passado. Foi bom. Poderei falar mais sobre isso depois. Interessante conhecer outro autor, interessante ver ou rever curtas e longas-metragens de um festival cujo cartaz é elaborado pelo autor das obras… Está bem, e é para isso e muito mais que o edifício foi construído e os profissionais estão lá a trabalhar. Isso é uma parte do tanto que se pode fazer e pode ser. 

 

Estes últimos dias falou-se muito sobre a cultura. “A cultura é da responsabilidade do estado”, “A cultura tem que ser paga” os “atores tem que ser pagos”. Eu acho que sim, que tudo merece respeito e dignidade e acho que o estado deve cuidar de muitos serviços públicos nomeadamente o serviço cultural. Mas também acho que nem tudo tem que ver com dinheiro se não… estamos a ver apenas a produção em vez de dar espaço à criação e no meio tempo estraga-se o verdadeiro propósito: fazer pensar, recriar, evoluir para a felicidade… que no fundo é aquilo que cada um acha que é melhor para si mesmo. Portanto, que haja diversidade e que se promova e apoie essa diversidade. Mas eu ainda quero falar mais sobre isto. Ainda vou falar mais sobre isto. Mas agora não, a vaca vai dormir, parece-me a mim que a protagonista do “Animal politico” vai descansar um pouco… não vou ver como isto acaba, hoje, mas talvez amanhã. Hoje também vou descansar. Nem sei como às vezes resisto, deve ser coisa do amor.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:37
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Quinta-feira, 15 de Março de 2018

A Pertinácia da Informação

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Dias de chuva, vendaval e… touros

 

Os dias de chuva e vendaval nunca me assustaram o suficiente. Também nunca foram relativamente sérios em nenhum lado onde os vivi.

 

Assusta-me a impossibilidade física de me levantar, de me erguer, de continuar… não há nada pior que estarmos doentes. Errado, há sim algo pior: estarem doentes os que amamos.

 

Aprendi que é melhor não nos queixarmos demasiado, pois as coisas podem piorar.

 

Ainda não eram 11 horas e já tinha recebido cinco currículos. Cada vez é mais intensa a procura de emprego, e são todas as idades. Os mais jovens vêm atrelados a um pai ou a uma mãe… ou então não vieram, veio a mãe ou o pai. Os jovens parece que foram criados num mundo completamente fora do mundo real: com expectativas tão altas e sem expectativas algumas. “Ele diz que está farto, que não o querem em lado nenhum!” – dizia uma vez uma mãe.

 

Havia alturas em que eu ficava aborrecida e pensava para mim mesma: “Vens à procura de trabalho traz ao menos um C.V.”; “Vens à procura de trabalho, ao menos fala… precisas da mãe e do pai para pedir trabalho para ti?!”

 

Mas depois fui entendendo a realidade. Que se pode dizer a uma pessoa a quem levantamos todas as manhãs, que quase ajudamos a vestir até aos vinte anos, a quem demos o que podíamos e o que não podíamos… porque achamos que devíamos dar… que se pode dizer de um momento para o outro: “Desculpa, o mundo não é como te ensinamos que era.”

 

Até os da minha geração viveram assim. Por exemplo, sempre achamos que eramos iguais em oportunidades e obrigações, nomeadamente em questões de género. Mas não era assim. Quantas raparigas cresceram, estudaram, tiraram formações superiores… são mulheres cultas, inteligentes, bem formadas… No entanto as expectativas foram-se moderando e moldando com as dificuldades. Não conseguiram as carreiras que julgavam que poderiam ter apenas pelo seu esforço, competência e dedicação, algumas viram-se em situação de desemprego, outras, apesar de terem trabalho fora de casa, acabaram em situações semelhantes às mães e avós: relegadas para um papel secundário em casa em que o marido é o chefe da casa, pois é quem ganha mais, com o acréscimo de que as tarefas domésticas também são apenas ou na maioria da responsabilidade delas. Em alguns casos os maridos são até menos cultos, menos formados…. Estes, estando em desvantagem de discussão em termos intelectuais, respondem como lhes ensinou o instinto e cria-se o choque… Os casos de violência, de assédio, de desigualdade… de desrespeito são cada vez mais… dramáticos? Será que há mais denúncia? Mas para mim o maior drama é que ainda existam esses casos e que a sociedade não evolua. Às vezes parece-me que, pelo contrário, involuiu, quando vejo as jovens embrenhadas em modos vida cada vez mais superficiais que perdem em autoestima, autoconfiança e em amor próprio… temo que se percam os direitos adquiridos, sucessivamente, por outras mulheres e outras gerações. Além disso, acredito que a questão não passa apenas pela mudança legislativa, nem me sinto confortável com medidas legislativas de descriminação positiva, colocam-me numa posição de diferença e acentuam a necessidade de um reconhecimento que não é universal, em suma, dão-me a entender que, para a maioria, eu não tenho os mesmos direitos. Partindo de pressupostos de equidade, a oportunidade de ocupar determinado lugar deve ser equacionada de acordo com as capacidades e competências de cada candidato e as exigências do lugar. Depois, devia de haver sim, a sensibilidade e a obrigação de adequar as condições laborais às características de cada um, aí sim, haveria paridade e integração. Às tantas os C.V.’s deviam ser assexuados… e, de modo algum, se deveria indicar no momento que se concorre a uma vaga qualquer tipo de incapacidade. Só depois de selecionado, pelas suas capacidades e competências, as condições laborais seriam adequadas às necessidades… ou não, porque se vivêssemos num mundo realmente inclusivo: os edifícios estavam feitos a pensar em quem usa cadeira de rodas, em quem é invisual, em quem é pai, em quem é mãe, em quem tem pessoas ao seu cuidado… etc. etc.

 

Nunca gostei daquele jeito das mães e das avós: “Tens que o saber levar”… Mais, eu por mim, também mataria Sherazade, como o fez da escritora libanesa Joumana Haddad em Eu Matei Xerazade: Confissões de Uma Mulher Árabe em Fúria, porque, tal como a ela, repugna-me a ideia de que a mulher tem que ter capacidade de negociar o que deveria ser seu por direito e ser apenas por que é, como se o homem fosse detentor do poder de decisão num plano acima do dela.

 

Eu cá não sei se perderia a noite a contar histórias… de todos modos hoje passei a noite a sonhar com touros, não sei se pelas mazelas da febre ou se por causa da Assunção Cristas. Ora, por curiosidade vou sempre ler a algum lado o significado dos sonhos, e a explicação tem sempre os mesmos contornos, neste caso sonhar com touros é bom presságio – boa! -  mas em determinadas circunstâncias anuncia traição – bolas - e noutras… lá vem uma qualquer alusão de cariz sexual – balelas!  Ora, as pessoas inteligentes não andam às turras com estas coisas.

 

As pessoas inteligentes debatem com bom senso e chegam a consenso. E era assim que se iria debater a Descentralização: Entre o bom senso e o consenso, no dia 10 de março na aula Magna da UTAD. Mas, confesso que ainda não estou bem esclarecida sobre o que será melhor… e pelos vistos eles também não. Valha-lhes ao menos estarem de acordo que se deve tomar um caminho, e que há boas perspetivas para o consenso. Resta saber para onde, como frisou várias vezes Pedro Soares, deputado do Bloco de Esquerda. A verdade é quem no emaranhado de palavras, fiquei sem perceber se o que se pretende é uma municipalização, uma regionalização… o quê afinal? Fica claro é que esta preocupação de resolver problemas de assimetrias, de fomentar unidades de investigação em vários sítios, falou-se em fomentar o espírito de coletividade, dar mais competências às freguesias, criar serviços de proximidade e da consciência de não fazer as mesmas políticas nos mesmos sítios… Mas, às vezes fiquei com a impressão que nesse mundo dos debates há uma espécie de autismo coletivo em que se fala de um mundo só deles… e a minha certeza disso foi quando ouvi que o despovoamento não é dramático!

 

Ainda esperei, como o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que ao serem lidas as conclusões algo mais me ficasse esclarecido, uma vez que só assisti a parte do debate.

 

Não havendo nada mais , debati com a minha parceira de casa, que tem seis anos, e teve o bom senso de dizer para irmos ao cinema e chegamos a um consenso democrático, que no final do debate iriamos ver “A Patrulha dos Gnomos” – muito educativo por sinal.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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Quinta-feira, 1 de Março de 2018

A Pertinácia da Informação

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A inércia dos corpos inertes

 

Não sei se o que sinto é inércia ou preguiça. Segundo a primeira lei de Newton um corpo permanece parado ou em movimento retilíneo uniforme a não ser que uma força seja aplicada sobre ele. Não há dúvida que somos corpos… metaforicamente falando, e não só, estamos parados ou em movimento uniforme, devido à inércia, e disso eu tenho a certeza.

 

Estamos à espera de uma força maior que nos retire do estado de repouso, fatidicamente à espera do D. Sebastião. Amanhã, sim amanhã farei. Às vezes, poeticamente, somos uma bola que rebola e acaba por parar em algum sitio “a mor” da ação do atrito.

 

Supostamente, quando estamos mal, o nosso instinto, ao menos esse, motiva-nos a mudar. Mas nós parecemos bestas domésticas, que, de tão maltratadas, nos resignamos e continuamos a puxar à nora em silêncio… Com um ou outro gemido e às vezes. Enquanto tivermos algum feno e palha nada mal. Em consequência de cada um de nós nos irmos acomodando com uma pouca palha lá se vai o espírito de solidariedade e o pensamento a longo prazo.

 

Vem a propósito disto, de bestas e de inércia, a notícia de que Berlusconi volta à “cena política”, o senhor apareceu no Teatro Manzoni, em Milão, onde foi muito aplaudido. Enquanto ouvia no noticiário as barbaridades do costume – a pérola desta vez foi dizer que a política é segunda atividade mais antiga do mundo e que muito se assemelha à primeira -  eu só pensava: “O indivíduo tem uma grande carrada de base na cara e uma cabeleira extremamente negra e volumosa, o que o distingue, nitidamente, do Trump.” O senhor, que já tem 81 anos, foi primeiro-ministro da Itália, e está proibido de se candidatar até 2019, foi condenado, por um tribunal de Nápoles, a três anos de prisão, por corrupção de um senador, mas lidera a Força Itália, aliada das duas maiores formações da extrema-direita. Afinal, a minha associação dele a Trump não é de todo descabida, o homem inspirou-se no lema de Trump, diz a notícia a 25 de Fevereiro no Euronews e, por isso, “colocará os italianos em primeiro se chegar a chefe de governo”.

 

António Damásio chegou à brilhante conclusão que “se não houver educação maciça, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”, referiu o neurocientista, numa entrevista ao Público a 31 de outubro de 2017. Uma conclusão engraçada e que vende livros… e confesso que estou a ficar farta dos livros, das palavras e dos autores. Confesso que estou a ficar farta da falta de ação, da resolução... Estou certa que não chegará a salvação das brumas, nem do sol… Estou certa que vem aí a primavera e tudo continuará a ser inverno se eu não fizer algo para mudar de estação, eu e cada um de nós.

 

A inércia dos corpos inertes é inevitável, mas nós ainda temos vontade, ou não?

 

Para além de ouvir as papaias do costume de Berlusconi, houve outras notícias, que todos ouvimos, mas claro “eram longe”. Umas eram longe e outras ainda não eram significativamente connosco – porque nós ainda temos alguma palha. Depois veio o futebol. A propósito de futebol, foram condecorados e muito bem os flavienses do Futsal – aqueles que ganharam um troféu importante. Achamos muito bem. No mesmo fim-de-semana, a irmã de um conhecido foi a uma prova de atletismo ao Algarve, no âmbito do desporto escolar. A viagem parecia nunca mais terminar. Quando chegaram ficaram “hospedados” num pavilhão onde dormiram em sacos cama, no chão. Acho que é uma experiência enriquecedora. Oxalá ela seja muito resiliente e consiga ganhar algum troféu muito importante daqui a uns anos e faço votos que também seja condecorada pela presidente da câmara dessa altura. Aliás, ela e todos os outros jovens atletas do nosso concelho – que se tornaram seres humanos intensamente resilientes, não só pelas características inerentes à própria natureza do desporto, mas todas as outras condicionantes.

 

Mas, falaram também do lamentável episódio do Matheus Pereira, jogador do GDC… e o comentário que oiço ao meu lado, de alguém que ouvia a noticia, foi: “O senhor foi para o hospital em Chaves?”

 

Não, não fui eu quem pensou isso, foi outra pessoa, que estava a ouviu o noticiário. Mas eu confesso que fiquei a pensar a seguir: “Céus, se uma de nós tiver algo grave e for de urgência… se calhar podemos morrer!”

 

Ah, não! Que alarmismos… além disso ainda estamos bem: “Temos alguma palha e respiramos!”

 

Às vezes a inércia tem algo a ver com o amor: falta de amor-próprio!

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

A pertinácia da informação

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O Carnaval não é para brincadeiras

 

Hoje tinha programado falar de eventos culturais, pois considero que as atividades culturais de um município que envolvem toda a comunidade devem contribuir para promover algo de educativo, num contexto festivo, certamente, mas que não esqueça aspetos culturais, identitários da História local, por exemplo.

 

Assim, queria falar de Carnaval e explicar porque acho que o Carnaval não é para brincadeiras. Sou a primeira verificar que há imenso trabalho envolvido na conceção, organização e realização de eventos como o Desfile de Carnaval realizado pelas escolas e associações em parceria com uma Autarquia. Mas, precisamente por saber desse esforço da parte de todos os intervenientes, gostava que este tipo de eventos fosse mais produtivo no sentido da verdadeira envolvência de toda a comunidade para o efeito que serve: a cultura, e já agora que seja algo identitário.

 

Eu não abordo sempre o mesmo assunto porque sim, nem porque o fui beber a algum sítio e não sei mais que dizer! Falo de cultura identitária porque acho que é isso que nos faz ter raízes, e como já expliquei inúmeras vezes, numa época em constante movimento e transformação precisamos de um referencial uno e forte que não nos deixe perder, num emaranhado de informação e num mundo global. Esse referencial são os valores e os princípios que nos ligam à noção e à essência de ser Humano. Só entenderemos o que é um ser humano se entendermos a nossa história, se soubermos de onde vimos, se nos aceitarmos e nos preservarmos com o que de melhor temos.

 

Educar para valores é uma obrigação de todos, com diferentes graus de responsabilidade com certeza, mas onde as atividades culturais do município, organizadas pela autarquia, escolas e associações, são uma excelente oportunidade para articular esforços entre todos e promover princípios e valores identitários.

 

Antes de começar a realizar o que quer que seja faço perguntas, e se tivesse que organizar uma atividade como um Desfile de Carnaval, com jovens e crianças das escolas e associações, perguntava: O que é o Carnaval? E o que é o Carnaval para nós, flavienses?

 

Acho que eu mesma sempre tive dificuldades em responder a essa questão. Dir-me-ão que Carnaval é para as crianças se divertirem e se mascararem do que quiserem… muito bem, concordo, também é isso. Por isso as crianças me respondem: “Se ficasse na escola a brincar com os meus amigos era melhor”. As crianças têm quase sempre razão e dizem a verdade, seria melhor para elas não apanharem frio, seria melhor para os professores, que não teriam esse trabalho, seria melhor para os pais não gastarem dinheiro e viverem com a culpa de não os poderem ir ver ao desfile… etc. etc. Eu sei do esforço que fazem os professores em participar num evento do género, será efetivamente profícuo passar noites a coser fatos para as criancinhas? Não seria melhor trabalhar com tranquilidade e com tempo, com jogo e com brincadeira certamente, valores e princípios? Como? Isto parece muito vago, não é? Mas já repararam que ninguém sabe muito bem como se brincava ao Carnaval antigamente? Se calhar não se “brincava ao Carnaval”! Como evoluiu o Carnaval ao longo da nossa História? E na nossa tradição local? Eu até acho que se calhar nós nem sabemos muito bem o que é o Carnaval! Nenhuma das minhas duas avós falava bem do Carnaval. Como é que a nossa cultura Judaico-Cristã convive com a folia do Carnaval?

 

Já habitei em sítios onde se olhasse lá para fora via foliões e barulho e fanfarras a esta hora da tarde, mas, aqui, hoje não vejo nada. Há quem tivesse aproveitado o dia para descansar, para visitar a família ou para fazer o que bem lhe pareceu. Porque se insiste em obrigar as escolas a organizar desfiles de Carnaval que acontecem em dias que nem os pais das criancinhas podem ver, pois estão a trabalhar? Eu sei, acabo de dizer algo perigoso! Politicamente, perigoso. Mas só afirmo o que muita gente também pensa. Quem ganhou realmente com isso [o desfile de Carnaval deste ano]? E volto a frisar, para quem ainda não entendeu onde quero chegar: devem certamente fazer eventos com as escolas e com a comunidade, mas que efetivamente respondam aos propósitos que servem. Que propósitos servem os desfiles de Carnaval das escolas?

 

Reparem, nós não sabemos muito bem o que é o Carnaval, no fundo parece que não sabemos muito bem quem somos e queremos fazer, mas queremos fazer coisas cada vez mais espetaculares, criativas e singulares… exatamente como se faz em todos os outros sítios. São as modas, talvez. Mas a verdade é que cada vez que que se pede a alguém “Elabore x” a tendência primeira é ir ver como já se fez “um x qualquer noutro sitio”. Mas às vezes não se olha para nós mesmos e não se acredita em nós mesmos… Portanto fazemos desfiles de Carnaval porque se fazem desfiles de Carnaval e não se acredita que seriamos felizes se não os fizéssemos. Assim, todos entram na palhaçada. É um stress e uma trabalheira absurda, sou a primeira a solidarizar-me com todos, até mesmo com o poder local, sei de vereadores cujo momento mais difícil da carreira política foi decidir se saía desfile ou não por causa da chuva que todos os anos teima em cair ou não! Vá-se lá saber porquê, o raio das condições climatéricas da nossa terra, teimam em nos deixar sempre meio apreensivos no Carnaval! Sei, ainda de professores e educadores que passam noites a coser e talvez depois lhes faltem forças para “educar e ensinar” no dia seguinte, como gostariam de fazer. Sei de funcionários diversos que se esforçam tanto e depois acham terrível vir alguém dizer mal, como estou aparentemente a dizer. Mas não estou! Estou solidária, e é por estar solidária que acho que as pessoas se deviam convencer que aquilo que não é natural e que é difícil e que causa stress… é porque se calhar não deve ser, ou então deve ser feito e bem feito. Queremos Carnaval? Então vamos estudar o que é o Carnaval. O nosso e o do mundo.

 

Vamos explicar e sem vergonha o que é o nosso Carnaval Flaviense. Vamos transmiti-lo. Vamos orgulhar-nos dele. Se chegarmos à conclusão que não temos um carnaval… assumamos que não temos, sem vergonha e sem medo. Compreendamos que factos históricos nos fizeram não ter. Através das escolas e as associações, em parceria, vamos explicar a nossa história e deixemos brincar livremente as pessoas e as crianças como queiram.

 

Queremos uma “marca”? Marca não, confesso que o conceito de marca me deixe um pouco reticente… Então digamos, queremos uma imagem e dar continuidade à imagem identitária? Então temos que abrir os olhos e ver o que temos! E não nos faltam coisas de que nos orgulhar. Façam-se eventos festivos que promovam essa imagem, que transmitam esses valores às gerações futuras… Se queremos um desfile de Carnaval, terá que ser num dia em que todos possam assistir ao mesmo. As entidades envolvidas devem poder negociar dias de dispensa ou férias para poderem participar e organizar… e com o tempo as pessoas acabarão por querer a participar voluntariamente. Um grande evento emblemático deve reunir esforços para o ser. Mas terá que ser precisamente o dia de Carnaval? Nós temos outras festas ao longo do ano! E temos festividades próprias da cidade… onde se ensina às crianças e aos jovens o que é o dia 8 de Julho? Porque se festeja o Halloween e não se cantam os reis? Porque não se conhece a lendas das duas chaves, a lenda das cinco chaves, da Maria Mantela, da Moura encantada… e porque não se dá continuidade aos eventos? Meus senhores, isto aqui não é o pequeno império dos pequenos Imperadores nem o Pequeno Feudo dos Senhores Feudais! Não brinquem com o Povo!

 

Ensinem os jovens identificar-se com a sua terra, a preservar a sua cultura e a querer ficar e lutar por um sítio melhor.

 

As tradições podem ser reinventadas ou readaptadas, faz parte da evolução… mas algo se deve manter. E lá vamos nós a Espanha, para dar exemplos, como o caso dos jovens de algumas localidades espanholas (Galegas) que embora absorvam tudo o que de bom e de mau tem a pós-modernidade, continuam a cantar a Rianxeira e frequentemente fazem parte de grupos de folclore.

 

Não sei… talvez seja amor, ou se calhar bom senso e bom gosto.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

A Pertinácia da Informação

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De pôr-do-sol a pôr-do-sol

 

Não reparo bem na casa, mas fico com a sensação que há uma mistura de casa antiga com algum cimento nas paredes e alguns azulejos. O conjunto é desarmonioso. A organização do espaço, salvo raras exceções, como por exemplo quando não há autonomia para o organizar, reflete a maneira de estar das pessoas que o ocupam ou das que o possuem.

 

Não é importante a comodidade para além daquela lareira e dos velhos escanos.

 

A cara está enrugada e a pele escurecida, mas, à medida que a conversa se prolonga, consigo vê-la com nitidez e bem definida: uma personalidade vincada.

 

A Fé. A Fé é algo forte, uma crença à medida de cada um. Que mal tem? Que mal tem se nos faz bem? Ela diz que a nossa Senhora de Fátima a ajudou durante a operação e, por isso, envia-lhe, religiosamente, “dez contos” sempre que alguém vai lá. Questionei-a sobre a necessidade da Nossa Senhora receber esse dinheiro: “Acha que lhe faz falta?” Ela respondeu séria e convicta: “Pois sim, se não como eles iam fazer aqueles prédios todos, lá em Fátima?”

 

Nunca foi lá. Mas não sente falta. Ninguém a visita, mas também não lhe faz falta, sempre viveu a contar apenas consigo mesma. Não fosse estar velha e as doenças… mas da vesicula ficou bem.

 

Que mais tem para me contar? Absolutamente mais nada, mas eu que faça as perguntas que eu é que sou a entendida. Assim o entende ela.

 

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Antigamente? Antigamente não havia absolutamente nada: crianças descalças na rua, batatas e couves cozidas no pote e carne gorda grelhada no lume. Havia crianças? Havia, ter muitos filhos era ter muita mão-de-obra. Havia muitos rebanhos, havia vacas, colhiam-se batatas para vender… vendiam-se cordeiros na sua época. O cordeiro assado era presença assídua nos banquetes, todos o mencionam.

 

“Tenho forno, sim senhora”, diz-me na sua habitual segurança, “coze?” [pergunto se coze pão], já não coze, mas assou cordeiro há uns tempos, no Natal, quando teve cá a família. “Não, não cozo, mas não vou deitar o forno abaixo.”

 

Certamente.

 

As aldeias são assim, povoados fantasmagóricos de gente e histórias. Não se vê ninguém, pouco passa das 17:30, em pouco tempo já todos jantaram. Sai fumo de algumas chaminés e o resto são ruinas. Havia um pombal… imaginamos um magnifico quiosque, um posto de venda de souvenires… nós somos assim: sonhadores.

 

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 “E a menina a mor de quê faz tantas perguntas?” Achei que não tinha escutado bem, peço para repetir e, por fim, admito a minha ignorância e digo que não percebo nem conheço a expressão. Já ganhei o dia, penso feliz: apropriei-me da expressão, como uma menina de uma caixinha de música.

 

Gesticula muito e fala alto. Dá pancadinhas no braço e às tantas dou com ele a apertar-me a mão num passou bem demorado. Tusso e preciso da mão direita. É uma personagem interessante, muito requisitado em todas as áreas. Poderia dizer-se que é daqueles que nascem para mexer e movimentar. O homem movimentou, fez e aconteceu. No dia seguinte conta-nos para além das informações necessárias “a mor” do meu trabalho, pergunta se vimos “a pedra” – foi graças a ele que não a deitaram a baixo. Vai-nos buscar o livro. Então entendi.

 

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 Fotografia de Emanuel  Teixeira

 

É mais uma das tantas aldeias, mas uma das que vejo e calcorreio. Calcorreamos em desespero. Olhamos para as coisas, vemos potencial e não entendemos porque outros não o viram.

 

Apetecia-me morar naquela casa e “tu” podias morar na outra ao lado, têm uma varanda- ponte, há cada coisa tão engraçada!

 

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Fotografia de Emanuel Teixeira

 

Mas o desânimo, o desgaste e desilusão são tão grandes que me apertam o coração – estragado de um mau jeito de amor a causas, talvez. Quando isso acontece, tenho dificuldades em fugir ao que sinto e olhar de frente essa realidade de abandono.

 

As pessoas precisaram de ir embora, à procura de melhor vida… à procura de vida! Trabalhar em quê? Os terrenos são férteis, podiam-se ter feito projetos agrícolas interessantes … e dá-se-me um nó na garganta e uma dor nas articulações dos dedos que teclam. A seu tempo, serei concisa.

 

Há uma escola – o edifício. Reparo que nunca vejo crianças. Em tempos houve crianças, as tais que corriam descalças, as tais que eram uma mão-de-obra fundamental para as famílias. Houve um tempo que foi preciso construir uma escola e depois veio outro tempo em que foi preciso fechar a escola. Uma vez ouvi-te dizer: “Ó minha linda, claro que fizemos bem fechar as escolas… aquelas criancinhas infelizes sozinhas uma professora e uma criancinha… coitadinha… Ah numa escola grande com mais crianças, isso sim! Até ficou mais feliz!” Claro que me revoltei e disse tudo aquilo que penso quando a na maior parte do tempo estou calada e a fazer cálculos no fígado. Agora explica-me como pode alguém querer voltar para uma aldeia onde não há escola, onde não há transportes… e tudo se justifica porque já não há gente.

 

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Se calhar a lógica é essa: não haver gente em lado nenhum. Talvez o que se pretenda mesmo seja não haver música, nem risos, nem palavras de amor. A lógica é vestir a albarda e pôr o açaimo enfiar as palas e puxar. Com o tempo eu moldo-me à cadeira, ao frio e o frio a mim.

 

Mas ele continuou a explicar as façanhas e as aventuras. Dá uma imagem dele mesmo como um indivíduo perseverante e fazedor do bem comum. Aprendi com alguém que devemos evitar o “eu” em algumas circunstâncias discursivas. Fico a saber, ao fim de algumas conversas que houve um tempo em que se faziam trocas sem moedas. Aos galegos levavam castanhas e de lá traziam ovos, por exemplo. Há algumas anedotas que se vão repetindo nas conversas como aquela de alguém que “comeu os ovos antes que os guardas a apanhassem”.

 

E no meio do cenário fantasmagórico, ali está ela: “a pedra” que ele “salvou”. Graças a ele não derrubaram a pedra. Mas a Sinagoga foi-se.

 

Em 1998 foi editado um livro por um grupo de pessoas empenhadas em fazer um levantamento do património histórico e cultural da zona, a fotografia e a explanação evidenciam essa preocupação e esse interesse em preservar as coisas importantes. Mas porque será que o levantamento e registo desses roteiros não surtiram outro efeito? Seria preciso que alguém mais percebesse o valor das coisas e a “pertinácia da informação” dos livros exclusivos para pessoas exclusivas… seria preciso que as pessoas do concelho percebessem a importância dada às coisas importantes da sua terra, tipo o efeito espelho: “Que bonita a minha terra no livro!”, “Que bonita a minha terra na televisão!” . E, depois era preciso alguém a fazer com que se visitassem esses sítios, e para que alguém visitasse os sítios era preciso haver que ver nos sítios, que comer e onde comer e maneiras fáceis de ir. E depois era preciso “insistir”, “insistir muito”, coisa que nós transmontanos sabemos fazer, ou pelo menos aprendemos a fazer ou vimos fazer: “não querem comer nada?”, “ora comam!” e foi assim que eu, então lá peguei nos doces e meti ao bolso e disse muito obrigada. Eu habituei-me a pensar que é de má educação aceitar, mas também aprendi uma vez que é ofensivo recusar o que nos oferecem insistentemente. Já fiz outros trabalhos em que é preciso fazer preguntas “a mor” de qualquer coisa, mas nunca me senti como se andasse a cantar os reis. Venho com os bolsos cheios de tangerinas, surtidos… chocolates e até uma madalena. Eu adoro madalenas, são doces flor.

 

Pergunto-me e pergunto-vos como é possível? Pelos vistos deve haver algo errado comigo por ficar tão indignada. Mas, por muito que me esforce não consigo ficar indiferente e seguir em frente sem primeiro espernear um pouco. E se calhar é muito pouco e devia ser mais.

 

Uma vez perguntei: “Mas como é que essas casas antigas com relógios de sol, outras com brasões, com histórias… como é que estão a cair?” a resposta foi óbvia: os donos.

 

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As casas são dos herdeiros. Os herdeiros moram e trabalham longe. Às vezes as nossas vidas fazem-nos quebrar laços, há zangas e desamores com as famílias, nas famílias… somos do mesmo sangue, talvez, mas de almas diferentes e, por isso, há entendimentos que são impossíveis e roturas para sempre. As roturas dolorosas exigem distância, das pessoas do passado e desprendimento das coisas. As casas abandonadas escondem também esses dramas e esses segredos. Ficam histórias por contar e as histórias são importantes por serem por si só ensinamentos. As casas nunca são vendidas, nunca são recuperadas. Não se vendem porque não há entendimento, não se vendem porque se pedem preços impossíveis… seria justo haver uma lei que desse ao Estado a tutela dos bens que se deixam ao abandono, sempre que sejam considerados de interesse histórico cultural e identitário? Não sei. Era preciso confiar nos órgãos decisores.

 

Sou precisamente assaltada por esse pensamento quando vejo a placa torta na estrada – até parece que alguém a torceu de propósito! Sou assaltada e aos saltos, porque tenho a sensação há uns tempos para cá que todos os sítios onde vou estão cheios de buracos, não há um asfalto direito.

 

Paro. Saio e vou ver. “ON OPERAÇÃO NORTE”, “Designação do projeto: Saneamento básico XXXXXX”

 

Tiro fotografia.

 

O céu está negro, cheio de nuvens, e o Sol, com esforço procura projetar alguns laivos de luz. Acho que o sol está a ficar cansado pelo esforço que faz em iluminar os homens.

 

Saneamento básico? Estamos em 2018, tiramos escolas, reduzimos transportes, não tornamos os sítios atrativos… e ainda estamos a tratar de saneamento básico!? Já vem tarde, não é?  Os emigrantes fizeram casas bonitas conforme os gostos. Foram sonhos construídos no deserto, por vários motivos, mas um deles tem a ver com o facto que ninguém orientou essa construção. Uma construção de sonhos arrancados do sacrifício – eu sei, eu entendo. Se calhar agora o saneamento não vai ser útil, há casas e fossas feitas a cotas diferentes… há casas que nunca vão ligar os esgotos à rede pública… e há sítios onde afinal nunca foi concretizado o tal projeto de saneamento básico… mas isso fica para outro dia.

 

Eu, e peço desculpa por não dizer nós, continuo a viagem, porque agora vou sozinha. Se calhar vou de carroça, não oiço os eixes chiar por causa da carga que levo, nem as rodas de ferro a fazer barulho… mas este raio de trupitar das estradas está dar-me cabo da paciência: buraco… buraco… buraco.

 

Continuo a achar que há uma solução, e peço desculpa por rimar, mas eu acho sempre que é a educação. Ainda continuo a acreditar no desenvolvimento e no crescimento do ser Humano e na “pertinácia da informação”. Não sei porquê, mas acho que deve ser Amor.

 Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018

A Pertinácia

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De caminho para Chaves começo a pensar: porquê morar em Chaves?

 

É terça-feira, um dia normal da semana, mas com a rotina matinal um pouco alterada. Já fiz parte das tarefas, mas ainda preciso de passar pela pastelaria e de meter combustível. Dou a volta ao quarteirão e paro mesmo em frente à pastelaria: “meia dúzia de pastéis de Chaves”. Aos 18 anos percebi que os tais pastéis com carne picada, que eu até nem apreciava muito, eram uma iguaria singular e típica da minha terra. O chamado “doutor”, que não era mais que um colega de curso mais velho, virou-se para mim e disse: “Caloira, sabe o que é um Chaves?” e eu pensei: “Cromo, os habitantes de Chaves são flavienses.” E pus a minha expressão típica de quem diz com uma abominável impaciência e saturação: “Lá vem mais do mesmo”. Então percebi que os “Chaves” eram os vulgos pastéis de carne. O bom de ir ao Hospital de Sto António, no Porto, é que passo à beira do antigo edifício da faculdade de ciências, onde tenho boas memórias. Bem que podia gastar o dinheiro que me vai custar a ida ao Porto para fazer algo mais prazeroso. Vejámos. Vou ao Porto ao hospital de Sto António, a uma consulta, mas tenho um hospital a dois passos da casa onde moro, contudo não tenho aí todos os recursos necessários para resolver o meu problema. Assim, tenho que faltar um dia inteiro ao trabalho, o que é desagradável para mim, para os patrões e para os colegas. Se fosse ali ao lado de minha casa, na pior das hipóteses, perderia apenas parte da manhã ou da tarde ─ mal menor. Depois, desgasto o meu carro, gasto gasolina e pago portagens… Fico cansada. A primeira vez perguntei ao médico que para lá me encaminhou: Sr. Dr. mas se vou fazer uma cirurgia ao Porto… há transporte? Há alguma comparticipação? Não havia, e podia ter ficado por ali com a conversa. Mas eu explanei bem o meu ponto de vista, argumentei, dissequei o problema e, uma vez que ele concluiu que era uma injustiça e a sua resolução estava para lá do seu alcance, decidiu que era inútil pensar em embrenhar-se no sistema e alterar decisões administrativas e burocráticas… decisões politicas… e soltou então esta pérola: “Ó menina, sabe que lhe digo: arranje um namorado – não lhe deve ser difícil – e que lhe dê boleia!”. Ora era o que mais faltava! Fiquei duplamente revoltada.

 

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Já estou de regresso, de uma das já inumeraveis idas aquela instituição, onde também os especialistas técnicos e todos se queixam da inadequação e ausência de recursos e ferramentas de trabalho, mas onde, mesmo assim, em comparação com o nosso hospital é tudo mais sofisticado e a vontade de investigar e estudar é motivada pela proximidade com a ciência e com a tecnologia, com os centros de investigação e com as universidades.

 

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Ligo o rádio. Está a ser transmitido o primeiro debate quinzenal de 2018 com o primeiro-ministro. Ao fim de algum tempo já estou saturada de ouvir Hugo Soares do PSD. O homem dá-lhe com o mesmo assunto, uma e outra vez: que Francisca Van Dunem disse, em entrevista, sobre a Constituição prever um mandato longo e um mandato único para a procuradora-geral da República Joana Marques. Será impressão minha ou estes indivíduos não sabem o que dizer? Pouco mais e já parece uma Assembleia-Municipal qualquer… fico farta, revoltada, às vezes os assuntos são tratados com uma leviandade como se qualquer um pudesse fazer política.

 

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Estou no Alvão, é agora a intervenção da Catarina Martins, do nosso Bloco de Esquerda. Este é o ponto mais alto da viagem. Como de costume, o Bloco fez o seu trabalho de casa: estudou investigou, traz números e observações pertinentes. Vem falar dos problemas que afetam os portugueses no momento – oportunidade. As pessoas estão doentes e estão doentes porque têm frio. Há problemas na saúde, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está bem e a EDP está praticar preços exorbitantes… as pessoas não podem ligar aquecimento, além disso a EDP anunciou que não pretendia pagar os 69 milhões de euros, devidos em 2017, pela Contribuição Extraordinária Sobre a Energia.

 

O Bloco fala com oportunidade e tráz dados. Fala das rendas excessivas da EDP e dos 385 milhões que o governo podia e não investiu no SNS. Eles sabem que o valor não foi investido e estudaram todas as fórmulas das finanças e economia que relacionam o défice a dívida e resultado: -  eram possíveis as duas coisas, investir no SNS e melhorar esses indices. É o que importa esclarecer.

 

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Costa responde. Costa diz que estamos no caminho. Costa diz que o mal vem de trás, que diabo, o mal vem sempre por trás ou de trás. Depois, já foi feito muito, contrataram-se técnicos, enfermeiros… Catarina disse que há os especialistas necessários para entrar mas estão à espera do ok das finanças. O Costa fala de décimas… e o meu carro deu-me o sinal cor de laranja, se a minha filha estivesse aqui até ela sabia: “Mamã tens que meter gasolina”.

 

A gasolina aumentou. Lá vou eu abastecer novamente – tenho a mania de abastecer pouco de cada vez, é que me dá a sensação que gasto menos… e penso: miséria, sou uma rapariga miserável! E pelos vistos a única solução era … “arranje mas é um namorado!”. O Costa, não se importa com esta rapariga miserável, mas eu tenho dignidade e respeito por mim mesma, eu mereço essa dignidade, como merecem os doentes que estão nas urgências, como merecem os profissionais de saúde, enfermeiros que não veem os filhos crescer, médicos nas urgências com mais de 60 doentes para antender… merecem dignidade os que morrem em casa isolados nas aldeias, idosos, sozinhos, porque os filhos têm que ir para fora trabalhar, porque os filhos não têm tempo; merecem respeito os que querem morar onde são felizes mas não têm os meios necessários que teriam noutros sitios! Merecem dignidade as grávidas que têm que se deslocar a Guimarães, porque é aí que há o melhor equipamento de obstetrícia, o melhor em pediatria e neonatologia… mas onde aí faltam técnicos, onde aí todos correm para atender a todas e pelos vistos: chove…

 

É a vez do PCP. Visualizo o sinal “perigo de nevoeiro”. Esta parte da viagem é assombrada pela neblina. Neblina e passado andam sempre juntos no meu imaginário. Algo terá de Sebastianismo. Tenho pressa de chegar. O homem comete um ato falhado diz “campas” em vez de “camas”. O assunto é a mesma Saúde. Eu acho que o Jerónimo está rouco, pode estar doente.

 

Agora vem a Cristas do CDS. A senhora parece que esteve a ouvir a Catarina com atenção. Na escola, talvez na primária havia colegas que repetiam as respostas dos outros: “O que gostavas de fazer nas férias?”, e os menos criativos e mais preguiçosos respondiam “Também quero brincar, como o Carlinhos.” E pelos vistos o Costa acha o mesmo que eu.

 

Paro para meter gasolina. É esta a melhor altura.

 

Volto à estrada. A Heloísa Apolónia, diz algo que eu tenho repetido inúmeras vezes: os edifícios não estão construídos de forma adequada. Sim, cara Apolónia, devia haver outro tipo de exigências na construção e incentivos para remodelar as casas. Ela fala de incentivos para por “janelas duplas” – e instintivamente corrijo em voz alta “vidros duplos”. “Estou a ficar velha” penso. Continuo a ouvir a Heloísa. Eu não entendo como é possível vivermos numa região tão fria e as casas, tão caras para comprar ou com rendas tão altas comparativamente ao que ganhamos, terem piores condições que as casas tradicionais! Pelo menos as casas antigas, entre outras coisas, pensadas para proteger do tempo rigoroso, tinham lareiras e ficavam sobre os estábulos dos animais o que sempre dava algum calor.

 

Mas nem as casas particulares nem os edifícios públicos, e “há escolas onde chove e onde as crianças levam cobertores paras as salas”… a Heloísa já não tem tempo de explicar tudo e enumerar os diversos exemplos, “acabou o seu tempo senhora deputada”.

 

E eu tenho pressa de chegar ao fim, porque tenho pouco tempo para chegar.

 

Fui ao Porto e vim. Gastei imenso dinheiro para fazer a viagem, isso custa no meu orçamento. Se quero ser bem cuidada, como estou a ser devo continuar a fazer isso. Não devia ser necessário deslocar-me. Mas há quem diga que não tenho muito de que me queixar e que podia ser pior, ou então a conversa termina com um: “A menina devia arranjar um namorado que lhe desse boleia!”

 

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Entretanto o debate quinzenal com o primeiro-ministro está quase a chegar ao fim, falaram mais alguns, não ouvi, o rádio não estava bem sintonizado. O PAN falava das suiniculturas que poluem o Liz, e dos boletins de voto em braille…

 

Não podemos nascer pobres, nem cegos, nem surdos… nem longe não sei de onde.

 

Estou quase a chegar e no cenário de desgraça solto uma gargalhada. O Costa diz qualquer coisa do género, a propósito da intervenção do PSD: “os senhores levantam-se de manhã e pensam: o que vamos perguntar? Então dão uma vista de olhos aos jornais, vêm o noticiário, vão as redes sociais…”

 

Pois, o problema é que é mesmo assim que acontece.

 

E porque havia de morar em Chaves? Eu acho que deve ser amor.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:45
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