Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Jun16

15 - Chaves, era uma vez um comboio

800-texas

 

Locomotiva

 

A ti

A primeira vez que te vi na estação,

Abafei minha grande emoção.

 

Sentida

Por grandeza maquinal,

Por existência real.

 

A tua presença

Tudo silenciava:

Gente que chegava, gente que partia,

De rostos negados pela vida.

 

Só tu existias ali.

 

Num breve instante,

A tua força férrea

Carregava vidas do nada.

 

 

Partias…

 

Então o nada era o tudo

 

E sorriam…

Para ti.

 

Rita Gonçalves

 

r-CP0095

 Cp0095 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

08
Jun16

14 – Era uma vez um comboio

800-texas

 

“O Nosso Comboio”

 

Tudo é negro. Os edifícios têm veias escuras que lhe escorrem pelos alçados, as crianças têm rostos enegrecidos. Tudo é negro do fumo das fábricas, do ferro utilizado na cidade, da angústia iminente que a sufoca. O ar é tão denso que mal se respira, a poluição e desgraça entra-nos pelos pulmões como uma película viscosa que asfixia. Os sons da cidade misturam-se numa cacofonia irritante que eu já não consigo reconhecer. Mas no fundo, lá bem ao fundo eu ouço. Ouço um som que reconheço. Não me traz boas memórias mas, no meio da perdição, traz-me uma lembrança. Ouço os sons estridentes, metálicos, quase sofríveis. O fumo sai negro, tenebroso, expelido de forma violenta. À medida que me aproximo vejo a velha estação ferroviária, em ferro retorcido, onde o comboio engole impiedosamente aqueles que partem.

 

Algumas crianças riem, excitadas, ansiando pela viagem. Os adultos, esses, choram em silêncio pelos que ficam e pelo que deixam. Fazem-se promessas, que sabem que ninguém vai cumprir, dão-se beijos e abraçados, tentam-se aquecer corações já há muito gelados, destinados a estilhaçar.

 

r-cp0014.jpg

 

O comboio apita, estala e geme quase obscenamente no meio de tanta dor. Os revisores correm e gritam ordem, quase tão automaticamente quanto a velha máquina metálica ruge, desejosa de partir. De olhos vidrados, num rosto apagado pela angústia, já não se permitem ver o que se passa em redor, sentir o sofrimento dos passageiros. Tudo o que veem, tudo o que ouvem, perde-se nesse vazio sentimental que todos aprendemos a ter. E é assim que continuam, dia após dia, a encaminhar os passageiros para o comboio, como se de um carrasco se tratasse. Apáticos, tristes, miseráveis como todos nós.

 

Por fim, a maquineta maquiavélica já engoliu todos os seus passageiros. Contrastando com o metal enegrecido, veem-se bracinhos alvos de crianças a acenar, rostos lívidos de quem parte e já não volta. Rostos de revolta, de sofrimento, de uma saudade ainda precoce.

 

O comboio arranca, sacudindo as suas almas fervorosamente. A paisagem desvanece-se rapidamente pela janela, sem termos tempo de a absorver nos sentidos, para que, um dia mais tarde se nos for permitido, a possa recordar. Lembro-me de ter aberto uma janela e timidamente esticar-me para sentir o cheiro dos campos, o cheiro da chuva na terra acabada de plantar, o cheiro da minha cidade.

 

CP0009.jpg

 

Depois fiquei, junto a tantos outros, cabisbaixo a matutar, enquanto os soluços do comboio embalava o meu próprio choro e me roubava à minha vida.

 

 

PS: O texto pretende transmitir o ponto de vista de pessoas que tiveram de partir para outras cidades e outros países de comboio. Refere-se, sobretudo, às fugas consequentes da Segunda Guerra Mundial, altura em que o medo e a opressão sugavam a felicidade das pessoas. Esta visão, pesada e triste acerca de um comboio, pretende transmitir o lado negativo de uma invenção que trouxe muitas mais-valias. No entanto, como há sempre o reverso da medalha, há que evidenciar também as coisas más para que nunca nos esqueçamos que nem tudo é perfeito.

 

Numa visão claramente exagerada, pode-se também ilustrar um problema actual e cada vez mais comum – a emigração. Retrata aqueles que trabalharam para construir uma vida, num país que amam, junto aqueles que amam e têm de abandonar tudo porque já nada é certo.

Nordeste.AL.

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

06
Mai16

11 - Chaves, era uma vez um comboio

800-texas

 

Chaves, era uma vez um comboio - Um poema de Laura Freire

 

r-cp0097.jpg

CP0097 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Pedras Salgadas, Portugal, Slide 35 mm

 

“…fumegando…”

 

28 de Agosto de 1921

 

Chegaste, fumegando…

Amodinho…

Tímido, perante a multidão que te esperava…

Enquanto os “VIVA's” eram abafados pelo repenicar do teu apito…

Incansável…

Ofegante…

Com sede de água e fome de carvão…

Rasgaste as serras para cá chegar…

Depois, foi o silêncio de todos…

De todos os que serviste…

E partiste, fumegando…

 

1 de Janeiro de 1990

 

Laura Freire

 

r-CP0046.jpg

 CP0046 – Locomotiva: CP E207, Data: 1971, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

 

29
Abr16

10 - Chaves, era uma vez um comboio

800-texas

 

r-cp0026.jpg

 

Poema de José Carlos Barros

in O Uso dos Venenos,

edições Língua Morta,

Lisboa, Agosto de 2014

 

NO TEMPO DOS POEMAS

 

Deixávamos as moedas no carril e ficávamos à espera a

olhar com o fascínio de quem é surpreendido num fim de

tarde pela presença de naves alienígenas num espaço de

silêncio e rarefacção a ver as rodas metálicas do comboio a

espalmá-las até ficarem assim nas mãos em concha de um

de nós como se tivéssemos recolhido enfim a prova irrefu-

tável dos milagres. Foi/

há tantos anos/

a senhora da bandeirinha vermelha perguntava se nunca

tínhamos visto um comboio/

lembro-me era no tempo dos poemas/

um verso podia ser também a moeda espalmada nos carris

da estação do caminho de ferro de Vidago/

tudo se misturava na mesma nuvem volátil de irrealidade

e sobressalto.

 

 José Carlos Barros

 

r-CP0034.jpg

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

19
Abr16

9 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

Os comboios também se abatem

Da memória dos comboios aos comboios da memória

 

A primeira imagem que tenho de um comboio não é bem de um comboio mas do meu querido e saudoso pai fardado de militar da GNR agarrado ao corrimão do varandim da última carruagem a sorrir e a ficar cada vez mais pequeno até se transformar numa sombra e depois num ponto e ser engolido pela escuridão do pequeno túnel que atravessa a avenida Nuno Álvares e desaparecer da minha vista enquanto uma nuvem escura de fumo subia no ar e se escutava o apito estridente do Texas a ir-se, pesado e lento, a caminho da Régua.

Depois devo ter ficado triste por algum tempo, que é o normal quando o nosso pai se vai embora e nós temos para aí três ou quatro anos e o mundo nos assusta porque está repleto de aborrecidos e incógnitos adultos e, como se isso fosse pouco, de crianças inoportunas e concorrentes em afetos e brincadeiras.

A minha saudosa e querida mãe deve-me ter pespegado um, dois ou mesmo três beijos bem repenicados e esdrúxulos nas faces, ou na testa, e eu devo ter corrido, como um pardal ferido de asa, numa tentativa de espalhar a angústia que sempre me assaltava, e ainda assalta, nestas ocasiões. Só que agora já não corro porque não fica nada bem a um homem de 56 anos pôr-se a fugir para não chorar quando se despede dos filhos, dos familiares mais chegados ou dos amigos do coração.

 

cp0018.jpg

 CP0018 - Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Ponte do Tâmega (Curalha), Portugal, Slide 35mm

 

A seguir devo ter ido a caminho da minha aldeia, para ao pé da minha querida e saudosa avó, brincar junto às margens do rio, sozinho ou mal acompanhado por um primo meu, estouvado de todo, naquele engano de alma ledo e cego que a infância não deixa durar muito.

Peço desculpa por estar para aqui a dissertar sobre a minha infância, que pouco vale, pois o que tenciono mesmo é falar de comboios.

A verdade, verdadinha, é que o comboio e a minha infância de facto coincidiram.

E ambos já se foram há muito tempo, tanto a infância como o comboio, para meu próprio mal e para o mal de todos os flavienses que dele nos socorríamos para nos desembaraçarmos, por algum tempo, dos montes e da nossa condição provinciana, espavorida e aflita.

A minha segunda imagem de um comboio é muito diferente, tanto na perspetiva como na intensidade afetiva. O sentimento é o oposto. Do sorriso do meu pai passa para o choro compulsivo da minha mãe.

Tudo começou em Lisboa quando a minha mãe recebeu um telegrama da família a comunicar que o seu pai, e meu saudoso e querido avô, de quem mal me lembro, estava muito doente e que se o queria ver ainda com vida, pela última vez, tinha de ir com urgência à terra.

 

CP0036.jpg

 CP0036 - Locomotiva: CP E202, Data: 1974, Local: Tâmega, Portugal, Slide 35mm

 

A notícia provocou nela um terramoto que deu origem a mais de 24 horas de choro ininterrupto.

Se uma coisa a minha mãe conseguia fazer muito bem era chorar. Podemos dizer que tinha essa obsessão. A minha mãe posta a chorar era uma fonte inesgotável de lágrimas, suspiros e lamentos.

Recebeu a dolorosa notícia sentada na mesa da sala de jantar, que partilhávamos, lá para os lados da Rua Presidente da Arriaga em Lisboa, perto do quartel das Janelas Verdes, com uma velha embirrenta, que possuía um gato que eu perseguia obsessivamente (estão a ver, a obsessão é uma herança de família) por causa de ser tão mimado e mijão que me punha os nervos em franja.

Apanhei muita porrada por causa do gato. Mas nunca deixei de o perseguir e de lhe dar alguns amigáveis pontapés sempre que conseguia aproximar-me dele. A maldade, mesmo afetuosa, sei-o agora, desabrocha na infância.

Pois foi nessa mesa que a minha mãe recebeu a trágica notícia e se pôs de imediato a chorar como uma Madalena. Escusado será dizer que também eu comecei a lacrimejar, não tanto porque a morte do meu avô me atingisse muito, pois para uma criança de três ou quatro anos a morte é quase um faz de conta, um processo reversível. Só mais tarde é que nos apercebemos que essa ida é irrevogável.

 

CP0004.jpg

  CP0004 - Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

Como ia dizendo, a minha mãe começou a chorar e assim continuou toda a viagem de comboio, que, na altura, era a única forma de nos deslocarmos de Lisboa até Chaves em tempo útil.

Viajámos no comboio mais rápido que havia, pelo menos entre Lisboa e o Porto. E a minha mãe sempre a chorar. Lembro-me (Amarcord) que vínhamos sentados do lado esquerdo da carruagem. Do meu pai não me recordo.

Lembro-me (Amarcord) dos assentos de napa castanha, de o céu estar pintado de cinzento, do cheiro a carvão, dos olhos inchados da minha mãe e das suas lágrimas grossas e pesadas. Mas do meu pai não me lembro. Nem uma única imagem. E ele de certeza que vinha connosco.

É assim a memória. Traiçoeira. Seletiva. Apenas dessa forma se justifica a eliminação da imagem do meu pai. Apenas me recordo da minha mãe a chorar e a chorar e a tornar a chorar. E eu a chorar também. Sei que sempre que a minha mãe chorava eu também lacrimejava. E ela vendo-me lacrimejar, pensando que eu não conseguia aguentar a dor da morte do meu avô, pois não sabia que eu lacrimejava apenas por causa de a ver chorar a ela, chorava ainda mais.

O meu pai deve ter vindo toda a viagem calado. Era homem de poucas falas. Muito metido em si. A fumar, uns a seguir aos outros, os seus cigarros sem filtro. A minha mãe nem se preocupou em comprar a água fresca das bilhas de barro para bebermos, nem a regueifa de Valongo e muito menos os rebuçados da Régua. Naquela altura apenas conseguimos saborear o sal das nossas lágrimas. E aquelas eram, asseguro-vos eu, que me fartei de as provar, bem mais salgadas que as mais salgadas águas do mar.

 

CP0007.jpg

 CP0007 - Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

O comboio transportou-nos, mais a nossa dor, sem um queixume. Também sem um afago. Na verdade, por muito que isso nos tivesse custado na altura, os comboios são bons é a transportar pessoas de um lado para o outro, não a evidenciar sentimentos.

O comboio não chorava, só gemia quando travava nas estações. Cada um é para o que nasce.

Quando chegámos à Torre de Ervededo já as pessoas regressavam do cemitério. O meu avô jazia dentro de uma arca de madeira debaixo de uns bons palmos de terra. Tanta pressa para nada. A minha mãe desmaiou. Dessa vez mesmo a valer. E digo isto porque ela era propensa a ter pequenos desfalecimentos estratégicos, e teatrais, para chamar a atenção. Era muito dada ao drama. Penso que teria dado uma boa atriz.

Chorava com facilidade, desmaiava em bom estilo e pronto desembaraço e também cantava muito bem o fado e outras cantigas românticas, em moda na época. E era muito bonita. Sim, digo isto com alguma vaidade, mas também com muita verdade. A minha saudosa e querida mãe era uma mulher bonita de se ver. E a quem disso tiver dúvidas, aí estão as fotografias para o confirmar.

 

CP0009.jpg

  CP0009 - Locomotiva: CP E212, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Posso afirmar, porque é inteiramente verdade, que passei uns dias entre a reza e o choro, entre a tristeza e a desilusão, entre o credo e a salve-rainha. O meu tio mais velho disso se encarregou. E com muito empenho. Por alguma coisa lhe chamavam o Reza. O povo, como todos sabemos, não emprega o seu saber em vão. Tem mais que fazer.

De uma coisa estou certo, e seguro, se forem as orações o que colocam uma alma no Céu, o meu avô está lá sentadinho nas primeiras filas a ouvir o Criador a enumerar as suas memórias eternas. Só não sei é se delas fazem parte os comboios. Mas das minhas fazem parte sim… Senhor. Esta é a prova provada.

Viajei mais algumas vezes com o meu pai e a minha mãe de comboio. Em todas elas, sem exceção, bebemos água fresca das bilhas, adquirimos regueifas de Valongo e chupámos os doces rebuçados da Régua, dos quais arrancávamos os papéis que os embrulhavam com algum custo, pois o melaço era muito pegadiço. E de seguida chupávamos os papéis e os dedos. Naquela altura não havia espaço para as boas maneiras, nem para o desperdício. Eram outros os tempos.

Jovem, e já estudante em Chaves, utilizei o Texas para ir de passeio até Vidago, ou até Curalha, tomar banho junto ao velho moinho. E ainda para me deslocar a Vila Real assistir a algumas reuniões partidárias. A revolução a isso nos convocava.

 

CP0013.jpg

 CP0013 - Locomotiva: CP E41, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

De uma coisa sou testemunha, os comboios, honra lhes seja feita, eram pouco dados a ideologias: tanto transportavam os reacionários, como os revolucionários e até os indiferentes, que são sempre a maioria. Ao nosso, tal independência, de pouco ou nada lhe valeu. Foi imobilizado e mandado para a sucata sem terem isso na devida conta.

O que o matou foram os tempos modernos e o liberal argumento de que a velocidade e a economia são quem manda em tudo. Como tinha de percorrer serras e montes aos ziguezagues, a velocidade tinha que ser à moda antiga. Mas uma coisa garanto, nele ninguém enjoava. E ali para os lados de Vidago, o nosso patusco Texas até possibilitava, aos mais aventureiros, a possibilidade de irem às uvas e regressarem ainda a tempo de o apanhar novamente em pleno andamento, que era lento e disciplinado.

Na altura da minha juventude revolucionária, o comboio devia de andar um pouco nervoso, intuindo o seu futuro, que todos sabemos não ser futuro nenhum, apesar de já não se mover a carvão, mas sim a diesel e por isso um pouco mais rápido. 

Lembro-me (Amarcord) que ceifou a vida a dois jovens da minha idade, na passagem de nível junto ao Asilo dos Velhinhos, que viajavam dentro de uma carrinha que se lhe atravessou à frente no preciso momento em que ia a passar. Um teve morte imediata e até lhe andaram a apanhar as vísceras espalhadas pelas pedras da linha férrea. O outro, que era quem conduzia o veículo, morreu em pleno voo de helicóptero entre Chaves e o Porto.

 

CP0016.jpg

 CP0016 - Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

O primeiro morava no Bairro Operário, que distava apenas algumas centenas de metros da passagem de nível. O segundo vivia a menos de cinquenta metros.

Mas o drama não conclui aqui. A primeira pessoa que tentou socorrer os jovens era o pai do rapaz que foi esmagado debaixo das latas da carrinha e das rodas de ferro do comboio. E a segunda fui eu que, quando comecei a ver, e a perceber o que via, tive de me virar para o lado para vomitar e chorar.

A fúria do comboio ainda se abateu mais duas vezes nessa passagem de nível sobre dois carros e os respetivos condutores. Ao primeiro, que era vizinho meu, residente no Bairro do Brasileiro, que ficava um pouco mais perto da passagem de nível do que o Bairro Operário, o comboio apenas projetou o seu carro contra um muro. O homem, aflito, mas sem nenhum ferimento, e armado da sua razão, ainda se deslocou à Estação para exigir uma indemnização à CP, ou, quiçá, um carro em condições de andar. Só que a porca saiu-lhe mal capada. Foi ele quem foi considerado culpado do acidente e obrigado a pagar os danos provocados no comboio.

Esse meu vizinho tornou a fazer-se encontrado com o comboio (a cada um a sua obsessão), só que dessa vez na passagem de nível de Vidago. A história repetiu-se: carro para o ferro velho e indemnização à CP. Todos o tentávamos consolar, ele podia dar-se por sortudo, enfim, do mal, o menos. Afinal tinha saído são e salvo dos dois duelos com o comboio. Vão-se os anéis fiquem os dedos.

O segundo abalroado pelo comboio, na passagem de nível do Asilo, foi, curiosamente, pois a história tende a repetir-se, um senhor que morava apenas a cem metros da passagem de nível. O carro também foi para a sucata, como sucedeu às duas viaturas do meu vizinho, mas este abalroado teve menos sorte, apesar de não ter sido esmagado pelo comboio, ficou sem uma das pernas do joelho para baixo. Também ele foi obrigado a pagar os poucos estragos provocados no comboio. Do mal, o menos.

 

CP0017.jpg

  CP0017 - Locomotiva: CP E205, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

As duas últimas vezes que andei no nosso extinto comboio foi quando tivemos de ir, eu e a Luzia, trabalhar para o Alentejo. Connosco também foi o João Vasco, tinha nessa altura um ano. A todos nos custou a viagem. Daqui até Alvalade Sado eram mais de 24 horas de viagem. Com esperas longas e desesperantes, pelo menos para um bebé pouco habituado a dormir fora de horas, agora obrigado a estar sem correr e brincar durante um período de tempo dilatado.

Quando chegámos ao Barreiro, o meu filho recusou-se, pura e simplesmente, a entrar de novo no comboio. Metia o pé no degrau da carruagem, recusava-se a subir e berrava como só ele o sabia fazer. Comprei-lhe uma bonita mota de coleção, a ele que naquela altura não colecionava nada, e para mim adquiri o primeiro romance de José Saramago, Levantado do Chão.

Tive de me socorrer da força. Ele, pouco habituado a tudo aquilo, sobretudo ao meu tratamento, começou a chorar e não mais se calou até chegamos perto do destino. Lembro-me (Amarcord) do meu filho vermelho de exaustão a soluçar, já sem forças, apenas envergando a proteção plástica de fraldas, no colo da mãe, também ela desesperada e chorosa.

Isto foi à ida. Na volta, nas férias do Natal, entre o Porto e a Régua, viajando em primeira classe, sobretudo por causa do nosso filho, recordo-me (Amarcord) de ter comprado o Avante, jornal que nunca li, mas muitas vezes adquiri por dever militante, em conjunto com o Bisnau, um periódico humorístico que lia com muito agrado, e de ter colocado a voz da classe operária a servir de capa enquanto lia o Bisnau, embuçado no interior, numa tentativa de provocação serôdia aos ajaezados burgueses que, enluvados com pelica preta e chapéu domingueiro, liam o Comércio do Porto. Nenhum deles, para minha desilusão, reagiu à provocação, ou se sentiu sequer incomodado, ou ameaçado, pois, estou em crer, tinham mais em que pensar.

 

CP0019.jpg

 CP0019 - Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal.

 

Depois do Natal lá fomos nós novamente de comboio até Alvalade Sado, com uma interrupção ainda antes de chegarmos a Curalha, para desentupimento da linha, por causa de um deslizamento de terras, motivado pelas fortes chuvadas noturnas.

Nas Pedras Salgadas o comboio teve mesmo de parar, porque tinha havido um descarrilamento com um comboio ascendente que transportava gado bovino. A espera foi tão longa que tivemos de alugar um táxi para nos levar à Régua, para aí podermos apanhar o comboio que nos poderia transportar ao nosso destino. A partir daí a viagem decorreu sem mais percalços.

Viajámos na companhia do meu cunhado e de um outro amigo, na altura ambos a cumprir o serviço militar. Um nos arredores de Lisboa e o outro em Beja.

Foi a esse amigo que ouvi relatar um episódio que a todos nos pôs bem-dispostos. Contou-nos a sorrir que mesmo antes de vir passar o Natal à terrinha tinha acabado de cumprir o castigo a que fora sujeito pelo seu sargento quando um dia, treinando a vara de porcos que tinha a seu cargo, exigiu aos seus subordinados a marcha e outras coisas afins.

 

CP0021.jpgCP0021 - Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal.

 

Foi quando ordenava à vara: “Atenção pelotão, apresentar armas”, que apareceu o seu superior e, assistindo em silêncio ao exercício, no final ordenou ao subordinado: “Caro recruta, pode mandar destroçar o pelotão. E de seguida não se esqueça de passar pelo meu gabinete.”

Dessa vez até o meu filho se riu, enquanto o comboio continuava o seu caminho caras a Lisboa. Passado pouco tempo o comboio que nos ligava à Régua foi extinto.

Anda por aí muita gente a tentar criar associações de defesa disto e daquilo e a tentar salvar as espécies em vias de extinção. Do comboio ninguém se lembrou. Com o abate do nosso comboio ninguém se escandalizou.

 

Deixamo-lo morrer sem apelo nem agravo.

 

Para sempre.

João Madureira

 

*****************************

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

18
Mar16

7 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Muitas vezes, acabados de deitar, éramos acordados sempre com a mesma pergunta:

 

- “Querendes ir ó contrabando?”

 

Sabíamos não ser uma pergunta, por isso, sem responder, levantávamo-nos e lá íamos nós em direcção ao ponto de recolha. Habitualmente, um curral em Vilarinho da Raia. Aí eram-nos distribuídas as nossas tarefas para essa noite de acordo com as capacidades que já tivéssemos demonstrado.

 

Sabíamos também haver sempre algum perigo inerente a estas actividades, pois nem todos os guardas-fiscais estavam a “dormir”, mas o dinheiro dava-nos jeito para as nossas pequenas coisas.

 

cp0107.jpg

 CP0107 – Locomotiva: CP E205, Data: 1973, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Eram noites de Inverno e, por serem mais longas, permitiam, quando necessário, fazer mais do que uma viagem.

 

Eram noites frias, escuras, que serviam para disfarçar as nossas silhuetas e combiná-las com as sombras da vegetação que ladeava os caminhos por onde passávamos.

 

Mas, sobretudo, eram noites sem luar. O único brilho permitido era o pálido e suave tremeluzir das estrelas.

 

Para mim, as noites preferidas eram as de chuva. É certo que não tínhamos as estrelas, mas não restavam dúvidas quanto às noites serem mais frias, mais escuras e muito, mas muito mais silenciosas.

 

O som da chuva abafava os nossos passos. Também o “martelar” dos cascos dos animais e algum balido ou relinchar, que escapasse ao cansaço que se acumulava, deixavam de ecoar no vazio da noite.

 

Essencialmente, trazíamos ovelhas e cabras velhas, mas também cavalos, machos e burros, todos estes também com um longo percurso de vida ou com graves mazelas que os impedia de continuar a cumprir as suas funções.

 

cp0117.jpg

  CP0117 – Locomotiva: Não identificada, Data: Não datado, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Tal como a passagem obrigatória pela nossa Aldeia – Outeiro Seco. Aqui, já os caminhos que percorríamos variavam. Ou para não utilizarmos sempre o mesmo, ou porque sabíamos que um deles estava a ser guardado, ou para dividirmos a “carga” para o caso de sermos apanhados pela Guarda Fiscal.

 

Nessa altura, os caminhos da nossa Aldeia eram transitáveis, não como hoje em dia, onde nem uma pessoa passa. Das nascentes brotavam águas límpidas, cristalinas, puras, onde qualquer Ser Humano ou animal podia saciar a sua sede sem receio, não como hoje em dia, em que tanto as nascentes, como as linhas de água estão poluídas pelos esgotos (provenientes dos parques empresariais) que correm a céu aberto e tudo infestam.

 

cp0165.jpg

  CP0165 – Locomotiva: CP E205, Data: Outubro de 2001, Local: Azpeitia, Espanha Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Saíamos de Vilarinho da Raia com um destino muito preciso: a estação dos comboios em Chaves, onde carregaríamos o gado nos vagões com destino aos matadouros do Porto (ou pelo menos era o que se constava).

 

De Vilarinho da Raia seguíamos em direcção a Vila Meã e dali ao Cotrão. Ao chegar ao Cotrão, caso ainda não nos tivessem sido dadas indicações, deveríamos seguir um de dois itinerários ou dividir o gado pelos dois.

 

Aquele que mais utilizávamos era o que seguia pelo Alto Silveira, Almeirinho, Senhor dos Desamparados e Mina.

 

O outro vinha pelo caminho da Teixugueira, Caminho da Torre, Moucho e Mina.

 

A partir da Mina, o percurso era o mesmo: seguíamos em direção ao Papeiro, Mãe d'Água, Poços de Volfrâmio, Santa Cruz, Forte de São Neutel, Bairro Verde e, finalmente, estação dos comboios.

 

cp0123.jpg

  CP0123 – Locomotiva: CP E205, Data: 22 de Julho de 1976, Local: Vila Real, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

A estação estava sempre envolta em vapor, fumo e, porque não dizê-lo, mistério, que se acentuava com a escuridão da noite. Nunca vimos lá ninguém. Embora não tivéssemos interesse nenhum, presumo que o motivo fosse o de assim não poderem ser identificados. Os únicos ruídos que se distinguiam claramente eram os das caldeiras e do espezinhar do gado que, talvez por adivinhar o seu destino, se recusava a entrar nos vagões.

 

Havia rampas já colocadas para carregar as ovelhas e cabras nos vagões de bordas baixas (abertos) e outras para carregar nos vagões fechados os cavalos, machos e burros. O gado era encartado como sardinhas em lata. Diziam que o que interessava era o número de cabeças que chegava ao destino e não o estado em que estivessem.

 

cp0131.jpg

  CP0131 – Locomotiva: CP E202, Data: 1965, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

As noites eram todas semelhantes…

 

Já de regresso a casa, às vezes a-modos de despedida, ouvia-se o apito estridente e o som metálico da locomotiva que assim anunciava a sua partida. A aurora já se renovava, dando início a um novo dia e, talvez, a mais uma noite semelhante a tantas outras.

 

A verdade é que nunca viajei no nosso comboio, mas sinto muito a sua falta e lamento que todas as infra-estruturas tenham sido abandonadas ou destruídas por quem dirigia ou dirige os destinos da nossa Região, amontoando num espaço exíguo meia-dúzia de objectos, destruindo com elas as memórias de uma linha.

Humberto Ferreira

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

02
Fev16

4 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

O Texas do Corgo

 

Este texto deveria ser um poema, pois é na poesia que costumo chorar a dor, o amor, as paixões, as perdas, as saudades… mas sob revolta, nunca os consegui escrever.

 

cp0012.jpg

 CP0012 – Locomotiva: CP E205, Data: Não datado, Local: Chaves, Portugal, Slide 35mm

 

Desde sempre pensei que a Linha do Corgo se deveria chamar Linha do Tâmega, coisas minhas mas também da lógica das linhas ferroviárias estarem associadas à proximidade dos rios e de “correrem” ao longo da sua corrente, e daí, se o Rio Tâmega que nasce nas proximidades de Chaves desagua no Rio Douro, também a nossa linha que nascia junto ao Rio Tâmega, deveria assumir o seu nome ao desaguar na linha do Douro. Mas, repito, isso eram coisas minhas mas nunca lhe dei grande importância, pois a linha adotou o nome de outro rio ao qual também estou sentimentalmente ligado, quase desde que nasci - o Corgo - mais propriamente a Parada do Corgo, ali mesmo juntinho à nascente do rio, terra dos meus avós paternos e do meu pai e, é graças a essa aldeia que,

 

cp0138.jpg

  CP0138 – Locomotiva: Não identificada, Data: 1977, Local: Veiga de Vila Pouca de Aguiar, Portugal, Slide 35mm

 

também desde que nasci, comecei a ser um passageiro frequente do nosso comboio, o “Texas”, como carinhosamente o alcunhávamos. No entanto a minha primeira recordação do comboio remontará aí para os meus cinco anos de idade, precisamente quando no apeadeiro de Parada do Corgo comecei a ver ao fundo da reta de Zimão uma barulhenta bola de fumo negro e que, ainda por cima, apitava, e quanto mais se aproximava, o fumo aumentava, os barulhos tornavam-se mais intensos, os apitos mais fortes e estridentes até que uma montanha andante de ferro, com um nariz vermelho, estava ali, mesmo em cima de nós. Escusado será dizer, que lá no fundo nos meus cinco anitos, fiquei borradinho de medo, agarrado à saia da minha mãe.

 

1600-parada (215).jpg

 Apeadeiro de Parada do Corgo (ou Aguiar)

 

Com o tempo fui-me habituando àquele monstro amigo que me levava a visitar os meus avós e me trazia de regresso à casa de Chaves. Depois também foi através dele que vi pela primeira vez o mar e fui pela primeira vez à nossa praia (Póvoa de Varzim), tudo de comboio, depois paras as piscinas de Vidago e das Pedras Salgadas. Fui e vim da tropa de comboio, e já nos anos oitenta, quase até ao dia da sua morte, fazia viagens frequentes a Lisboa e se para lá ia de autocarro direto, o regresso fazia-o quase sempre na comodidade do comboio, e quer fosse de verão ou inverno, a Linha do Corgo, da Régua a Chaves, depois da regueifa e dos rebuçados de açúcar torrado, era feita na varanda do comboio, mas há uma viagem, a última, que nunca mais esquecerei, não por saber que era a última, pois não sabia então que passado pouco tempo, traiçoeira e irrefletidamente a linha iria ser encerrada, mas porque nessa viagem tive uma companhia inesperada à varanda, uma companhia que a família (mulher e filhos) tinha deixado na estação da Régua para apanhar o comboio para Chaves, uma companhia que eu há anos já admirava e da qual tinha saudades, sobretudo da sua sabedoria, do seu amor à poesia e do seu conversar. Era o meu antigo professor de português do Liceu, o Dr. José Henriques, que ainda antes do 25 de abril de 74, através da poesia e dentro das quatro paredes da sala de aulas nos falava da liberdade. Foi a minha última viagem na Linha do Corgo e a última conversa com o meu antigo professor, espaçada de silêncios, explicados pelo êxtase da apreciação da paisagem ou pela apanha e descarga de passageiros nas estações e apeadeiros.

 

cp0015.jpg

  CP0012 – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Tenho saudades da Linha do Corgo, do comboio, de viajar à varanda e, só lamento, revoltado, que os de Lisboa nos o tivessem roubado, ou pior ainda, assassinado, sem o mínimo respeito pela sua história e pelas populações que servia.  

 

Fernando DC Ribeiro

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

 

19
Jan16

3 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

NOSTALGIA

 

Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-me tão presente como se fora hoje. Vejo o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços nela apoiados, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente. Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pascoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro. Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz. Era a Ponte do Granjão. Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens. Nela passava o comboio. E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia.

 

cp0003.jpgCP0003 – Locomotiva: CP E209, Data: Março de 1974, Local: Corgo, Portugal, Slide 35mm

 

Estava-se mesmo a ver que o rapaz, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali. Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

 

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

 

cp0021.jpgCP0021 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo. O seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento, um vem comigo conhecer o mundo.

 

E um dia partiu mesmo.

 

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da «descoberta». Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças. Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que hoje é: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

 

cp0010.jpg

CP0010 – Locomotiva: CP E209, Data: 23 de Março de 1974, Local: Chaves, Portugal, Slide 35mm

 

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, de partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

 

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador, solidário, castiçamente ibérico e sonhador.

 

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo «navegar». Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

 

cp0005.jpg

 CP0005 – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser.

 

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos. E que nos indique um rumo. Um novo caminho.

António de Souza e Silva

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

07
Jan16

1 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

1 - Chaves, era uma vez um comboio…

 

No sangue dos flavienses, para além do rio Tâmega, há outros rios que contribuem para a sua fluidez. Um que corre feito com um tantinho de nevoeiro e outro tanto de água das caldas, outro com um cheirinho do Brunheiro e os aromas de um pastel de Chaves, entre outros ingredientes q.b. para temperar o sangue deste vale. A contrariá-lo só mesmo os maus ventos, e não são aqueles que costumam andar na boca do povo: - “de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”. Esses são castelhanos. Os nossos, quando muito seriam galegos, que sim, fazem um frio de rachar quando à galega lhe dá para parir, os mesmos que ajudam a fazer a cura dos nossos presuntos e fumeiro, pelo que até devemos ficar agradecidos por esse frio de rachar, que, se chegassem até Lisboa, a capital entrada logo em estado de emergência de alerta VERMELHO, mas que nós suportamos por estarmos habituados. Não, nenhum desses ventos nos incomodam a têmpera, os únicos que incomodam são os que sopram de Sul, dos fecha a roda de Vila Real, tanto, que até o nosso Tâmega quando chega a Vidago começa a desviar-se para o Minho, só para não ter de passar por lá.

 

1-chaves - 1921.jpgChegada a Chaves do primeiro comboio – 28 de agosto de 1921

 

Mas o que é que todo este palavreado tem a ver com o comboio? – Calma que já lá vamos. Regressemos de novo aos fecha a roda. Quis o destino que quando fui mobilizado para o serviço militar obrigatório o meu destino fosse Vila Real. Como se não bastasse ser obrigado a ir à tropa, ter de interromper os estudos e abandonar a minha cidade, das largas dezenas de destinos possíveis, tinha de me calhar logo Vila Real. Azar o meu, mas por pouco tempo, pois havia um destino mal amado, onde só iam parar os castigados, contestatários e afins que por sinal aceitava voluntários – os Açores. A decisão não foi difícil de tomar, pois entre ter de ficar em Vila Real a 60 km de casa e a de ter de ir para o meio do Atlântico a 2000 km de casa, optei pelo mar, e lá fui eu de voluntário para Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira.

 

2- 1600-texas (22)

 

Bom, direis vós outra vez, e o que é que isto tem a ver com o comboio? – Pois, além de ter ido de comboio de Vila Real até Lisboa para apanhar o avião para a Ilha Terceira, nada ou quase nada, porque os Açores nem sequer têm comboio e é aí que eu queria chegar. Então é assim: Um certo dia uma camarada meu de tropa, natural a ilha de S.Miguel foi mandado para o continente para tirar um curso qualquer, que não recordo, e que até nem tem importância para a história. Curso esse que era ministrado em Coimbra. Da Ilha Terceira a Lisboa a viagem de avião C-130 Hercules não era novidade nenhuma para quem entre ilhas estava habituado a viajar de avião, a novidade só chegou quando o meu camarada de tropa teve de apanhar o comboio de Lisboa para Coimbra e vice-versa, no regresso. Tanta foi a novidade que quando ele, no bar da tropa, se punha a falar do comboio do continente, havia logo uma roda de camaradas de tropa para ou ouvir falar dos encantos do comboio. – “Aquilo tem bar, corredores, casas de banho e vai a uma velocidade que se olharmos para fora até perdemos o tino e vemos tudo a andar…”. Para rematar, quando eu estava por perto, ainda acrescentava: - “ e eu, quando vou para a minha terra, costumo ir na varanda do comboio”. Embora fosse verdade, penso que nunca me levaram a sério. Ora finalmente chegamos ao comboio e ao que falta no primeiro parágrafo deste texto, é que para além do rio Tâmega, do nevoeiro, dos pasteis, do presunto e das águas das caldas, também o comboio fazia parte do nosso ser flaviense e, embora texas, sentíamos orgulho por termos comboio e fazermos parte da rede ferroviária nacional. Mas de pouco nos valeu, pois o comboio foi o primeiro roubo que Lisboa (Cavaco Silva) nos fez, e a linha do Corgo, em vez de ser modernizada como se pedia,  foi das primeiras a fechar para dar lugar ao negócio das autoestradas e outros negócios dos amigos dos transportes.

 

3-1600-4194

 

Hoje do comboio para além das saudades e das recordações, resta-nos um museu e a antiga Estação convertida em edifício municipal. Um museu que, pelo significado que o comboio teve para Chaves, merecia mais dignidade, mas, fiquemos agradecidos só por existir.

 

 

4 - CP-E-204--E-208-Dep_Chaves_1972_web.jpg

Chaves, oficinas, 1972

 

Com isto inicio aqui uma nova crónica no blog Chaves, que não irá ter dia marcado, antes, irá colmatar a ausência de uma ou outra crónica que não chegou até nós no dia marcado. Também não sei quanto tempo durará, mas pelo menos ficam garantidas 14 crónicas, tantas quantos os textos que constam do livro “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, publicado pela Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura em agosto de 2014, com fotografias cedidas por Humberto Ferreira, que detém os direitos de autor sobre as mesmas.

 

5-texas-matadouro.jpg

O comboio a passar junto ao antiga matadouro, com Chaves ao fundo

 

Pois então, quando menos esperarem, cá estarei de novo com mais comboio, o nosso velho e saudoso texas, e pela certa que iremos além daquilo que está publicado em livro.

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Fer.Ribeiro

      Pois não sei, mas posso tentar saber.

    • Anónimo

      O post está muito bom. Já agora aproveito para per...

    • TELMO A.R.RODRIGUES

      Cara amigo Luis Sancho o meu é Telmo Afonso R. Rod...

    • Anónimo

      Parabéns pelo seu trabalho, que é de louvar. Sobre...

    • Anónimo

      Gostaria imenso de obter a genealogia da família A...

    FB