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As portadas das janelas do sótão dum vizinho batem furiosamente… Há muito que o prédio se encontra desabitado e à venda. Há tanto tempo como a placa de “platex” que oscila na varanda e que a agência imobiliária lá segurou com uns arames, para anúncio de venda, viu o papel lá colado se desgarrar e ir parar a um ignoto destino.
A chuva fustiga os vidros das janelas e o vento anuncia o Outono recém-chegado e traz um clamor longínquo dos derradeiros e acidentados dias dum Verão quente, nos quais a pacatez proverbial do país se viu submersa por uma vaga de revolta que encheu avenidas e ruas da capital e de algumas cidades.
Em frente do edifício que aloja uma delegação do FMI, agentes da polícia de intervenção instalaram um perímetro de segurança, protegendo as instalações da ira dos populares. Como os manifestantes engrossem, surgem petardos e arremesso de objectos. Uma moça destaca-se do ajuntamento que grita, percorre os poucos metros que a separa do cordão policial e abraça um polícia. O acto espontâneo, ou não, é captado por um fotógrafo, que a fará circular pela internet.
Fotografia de Nuno Botelho/Expresso
Não vou dizer que não senti um arrepio de emoção quando escutei velhas consignas de um Abril desbotado com o decorrer dos tempos, como folhas secas, que os tristes e sonolentos varredores camarários, pela madrugada, mal repostos e saídos do aconchego dos lares, amontoam na berma, pachorrentamente, para que o carro do lixo que os segue atrás e a alguns metros, ronceiramente, as recolha.
Os jornais fizeram primeiras páginas a condizer e os mais ingénuos acreditaram que isso podia ser um começo… Claro que os sinos tocaram a rebate e uma das medidas mais contestadas do Governo, se assim se pode qualificar, ou todas elas, como na rua aconteceu, foram objecto de uma análise do vetusto Conselho de Estado, tendo os venerandos conselheiros, numa reunião que contou com a esclarecedora intervenção do ministro das finanças e entrou pela noite dentro, à excepção do Dr. Mário Soares que saiu antes, sem que a imprensa tenha noticiado se chegou a se pronunciar – mas cremos que sim –, exprimiram as suas respeitáveis opiniões.
Nos dias prévios, à convocação desse Conselho, o presidente dum dos partidos da coligação governamental, ministro de estado e titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, reduzira-se a um mutismo, apenas quebrado portas a dentro dos muros partidários, tendo os seus pares do secretariado multiplicado as intervenções contra aquela medida governamental.
Finda a reunião, caída a TSU, o senhor Presidente da República declarou oficialmente a crise política enunciada entre os partidos da coligação governamental, inexistente; aliás, como declarara, dias antes, durante uma visita que fizera à província, creio que a um campo de golfe.
Compreendia o descontentamento popular, não podia ignorá-lo, mas como também dissera nos primeiros e tímidos rebentos de insatisfação popular, não era ingénuo…
Entretanto a CGTP manifestou-se no Terreiro do Paço.
Alguns partidos da oposição, com representação parlamentar, declararam a intenção de apresentar uma moção de censura ao governo. Outro, maioritário na oposição, declara que a moção apenas serve os partidos que apoiam o governo… enfim, a direita…
Um consultor do governo apelida de ignorantes os empresários e um destes responde-lhe que nunca trabalhou na vida…
Doem-me as costas… ou tudo de uma só vez …
Na praça permanecem ainda as esplanadas.
Praça que continua a ser conhecida como jardim, embora deste apenas reste umas quantas árvores, que constituem testemunhas oficiais do equilíbrio reclamado entre a preocupação ambiental e o novo ordenamento urbano. Novo ordenamento urbano foi a designação que escolhi, e pode-se dizer que me esforcei, para definir a politica monótona, de tanto repetida, de tudo reduzir a espaços planos e empedrados, o que antes era um jardim com um pequeno lago no meio, canteiros, plantas, floreiras com hidranjas, duas filas de árvores, contornado por uma via, e à direita e à esquerda mais um renque de árvores, nos passeios, junto aos edifícios.
Antigo Postal Ilustrado do Jardim das Freiras
É fim da tarde. No exterior dos cafés, nas mesas, jazem cinzeiros, pequenos pratos com chávenas manchadas de uma espuma castanho-escura nos rebordos, garrafas de plástico vazias, que os empregados se esqueceram de levantar. Grupos de três, quatro pessoas, ainda se encontram na esplanada, sentados, próximo da entrada para o interior do café e outros ligeiramente mais afastados, os braços apoiados nos tampos das mesas ou recostados na parte de trás dos assentos, junto ao vidro das montras corridas.
Reformados, professores nos intervalos ou fim das aulas, um ou outro a fazer tempo entre os afazeres diários, a consulta ao dentista, esperar pelos netos ou filhos que saem da escola, da mulher que nunca mais vem das compras ou do cabeleireiro, outros, simplesmente numa pausa do flanar pelas ruas.
Quem passa, apercebe-se sem dificuldade dos retalhos das conversas.
Duas senhoras ainda jovens, o chão coberto de sacos de papel, conversam animadamente e por momentos soltam gargalhadas, que as fazem encostar para trás, uma, os braços estendidos, a outra com eles cruzados no busto e a ambas baixar perigosamente a orla da blusa junto aos seios.
Numa mesa próxima, alguém levanta o rosto enfronhado nas páginas dum jornal desportivo, dá um jeito aos óculos, quase na ponta do nariz e regressa à leitura.
“ …Parece que saiu do partido e vai candidatar-se à Câmara…” – Escuta-se.
“ Como não o escolheram, escolheu-se.” – Diz o companheiro de mesa, a coçar a calva.
“ Olha qué capaz de tirar muitos votos ao outro…” E faz sinais de assentimento com a cabeça, ao mesmo tempo que pensa no genro desempregado e se talvez não seja o melhor momento…
“Quês ver, co gajo me vai multar… Isto, umas vezes pode-se estacionar, outras não…”
– Levanta-se apressadamente e ainda é possível ouvi-lo:
-“ Oh… senhor agente, só foi o tempo de ir ali registar o euromilhões…” E por lá fica à volta do agente.
Mais além.
“ Isto só lá vai com os militares.” E acrescenta, certo de ser bem escutado:
- “Não tenham dúvidas!”
Próximo, alguém se move um pouco na cadeira e olha para o lado, sem evitar o que um amigo, que por certo, ainda arrasta um pouco a perna direita, restos de um rebentamento duma mina no Ultramar, lhe confiara ironicamente sobre quem acabara de falar.
“ Sem esse homem, Portugal teria sofrido uma derrota afrontosa em África, o 25 de Abril nunca se teria dado e o 25 de Novembro teria sido um fiasco...”
Num canto da esplanada, próximo já da montra dum estabelecimento de roupa.
“ Os gajos estão à rasca, mais um apertão e lá vão todos de escantilhão…”
“ Como na Grécia…”
– Observa alguém que bebe em pequenos sorvos o café, e limpa atabalhoadamente os pêlos da barba que quase lhe cobrem os lábios, com as costas da mão.
“ Esses são uns filósofos!”
“ Pois é, lá nasceu a democracia e a pena de desterro…” – Responde o de barbas e que ainda conserva a chávena de café nos dedos.