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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Mar21

Reino Maravilhoso - Alto Douro

Douro e entre os montes

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O DOIRO

 

Começa em Miranda e acaba na Foz, este calvário. Começa em pedra e água, e acaba em pedra e água. Como nos pesadelos, não há nenhum intervalo para descansar. Entra-se e sai-se do transe em plena angústia.

 

No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e sangue. Drama cruciante e ciclópico, que é o embate de duas forças brutas no primeiro acto, um corpo-a-corpo de vida ou de morte no segundo, e uma espécie de triunfo da fatalidade no terceiro, como pano do mar a cair.

 

As coisas grandes têm uma arquitectura grande e uma significação maior ainda. Assim acontece com esta moralidade grega, onde os Sísifos e os tonéis das Danaides são ao natural, que, mercê da sua configuração íntima e fisionómica, de simples acidente corográfico ascende à transcendência dum purgatório, com almas condenadas às galés dos barcos rabelos e às penas dos saibramentos.

 

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Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos. Basta sentir no corpo, uma só vez, a dentada daquelas fragas que devolvem ao céu, agressivamente, a luz recebida, ou molhar os pés na levada barrenta que o garrote dos espinhaços tenta estrangular, para se ver que não há desgraça maior dentro da pátria, nem semelhante via-sacra de meditação. De ponta a ponta do ano nenhuma bênção possível mitiga a crucificação do sofrimento. No Verão, um calor de forja caldeia o xisto e transforma a corrente numa alucinação de lava a mover-se; no Inverno, até os olhos das videiras choram de frio. Beleza não falta em qualquer tempo, porque onde haja uma vela de barco e uma escadaria de Olimpo ela existe. Mas a própria beleza deve ser entendida. Não é subir aos restolhos de Lagoaça, contemplar o abismo, e quedar-se em êxtase. Não é espreitar de S. Salvador do Mundo o Cachão da Valeira, e sentir calafrios. Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em S. Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a S. Leonardo de Galafura ou ao miradoiro de S. Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.

 

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Ser nesse chão árido e hostil um novo criador de vida, dar aí uma resposta quotidiana à morte, transformar cada ravina em parapeito de esperança e cada bagada de suor em gota de doçura – eis o que o Titã ensinou aos homens, e o que Zeus lhe não perdoou. Por isso o seu perfil rebelde é o próprio perfil dos montes, do seu coração mordido corre o sangue da perpétua agonia, e da boca das suas criaturas agradecidas se levanta um protesto indignado. Mas o céu é surdo. E enquanto a águia do destino continua a devorar o gigante, de croças e tesouras na mão, ou arregaçados nos lagares, ou de vindimeiro às costas, os discípulos do grande revoltado vão-no vingando, seguindo-lhe a lição.

 

Patético, o estreito território de angústia, cingido à sua artéria de irrigação, atravessa o País de lado a lado. E é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo.

 

Miguel Torga, in Portugal (1950) – O Doiro

 

 

 

 

04
Mar21

Reino Maravilhoso - São Leonardo de Galafura

DOURO E ENTRE OS MONTES

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Apenas umas palavrinhas de abertura, pois as restantes serão do grande Poeta do Douro, do Reino Maravilhoso e de Portugal - Miguel Torga. As palavrinhas vão para esta proposta de um passeio a um dos mais belos miradouros sobre o Rio Douro – São Leonardo de Galafura. Com partida como sempre desde Chaves, a proposta é para uma manhã, ou uma tarde, chegam bem para esta visita, mas, uma vez que está no Douro, aproveite mesmo o dia todo, pois nas proximidades de São Leonardo de Galafura não falta que ver, sempre com o Douro por companhia.

 

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Até amanhã!

 

 

 

 

 

 

01
Dez20

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Cidade de Chaves

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Já há muito que não vínhamos aqui com esta rubrica, mas com esta coisa da pandemia e de começar a ter saudades do passado, mesmo que recente, ressuscitou-nos a vontade de trazer aqui mais um bocadinho do Chaves de ontem e o Chaves de hoje, um pouco inspirado, ou em tudo, por uma passagem do diário de Miguel Torga, a respeito da nossa cidade no ano de 1960, quando este senhor que está para aqui a teclar esta escrita, tinha visto a luz pela primeira vez há 5 meses e 4 dias.

 

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Eu que até gosto de Torga e que até o considero o maior escritor e poeta a cantar Portugal, que conheceu e calcorreou o seu território e conheceu a sua gente, principalmente do nosso Portugal interior e mais profundo. Eu que como flaviense me senti sempre muito honrado por Miguel Torga nos incluir (Chaves e a região) tantas vezes no seu diário e que até nos descreve e inclui no Reino Maravilhoso que ele criou para nós. Eu um Torgónamo assumido, quando li uma das passagens que escreve no seu diário em 26 de setembro de 1960, que até elogia a gente de Chaves, não gostei mesmo nada daquilo que ele escreveu sobre a cidade de Chaves. Fica já a seguir, com o que não gostei a negrito e sublinhado.

 

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Chaves, 26 de Setembro de 1960

 

Há terras, como Aveiro, por exemplo, impregnadas de não sei que dignidade específica. É uma espécie de irradiação ética, que compensa largamente o forasteiro de todos os desconfortos e desilusões urbanas que nelas sinta. Chaves pertence a essa família. Apesar de feia, suja e desfigurada, o espírito sente-se aconchegado dentro dos seus muros. O prazer que os sentidos não gozam na pureza dos monumentos, na grandeza das praças e no desaforo das avenidas, encontra-o a alma na atmosfera de sanidade humana que respira na mais abafada e miserável ruela.

Miguel Torga, in Diário IX

 

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Fiquei com esse nó atravessado na garganta até ao dia de hoje, em que fui vasculhar e procurar no arquivo fotográfico do blog Chaves Antiga imagens de Chaves do ano de 1960, onde por sinal até encontrei bastantes imagens, onde depois de as ver e analisar muito bem, despido de sentimentalismos e bairrismos, com o olhar neutro e virgem, tal como Torga viu Chaves na época, só tenho que pedir desculpas, talvez perdão a Miguel Torga. Ele tinha toda a razão, Chaves era feia, suja e desfigurada, ou melhor, a cidade estava  feia, suja e desfigurada, embora fosse a cidade que sempre tinha sido até aí e que ainda hoje é (refiro-me apenas ao Centro Histórico), aliás hoje, o nosso centro histórico até está bem mais desfigurado que nos anos 60 do século passado, só com uma diferença, passou a ser uma cidade mais limpa, asseada e embelezada, principalmente no que diz respeito ao seu património histórico e monumental (fortes, castelo, jardins e espaços verdes, rio, ponte romana e edifícios públicos, igrejas e capelas) e felizmente, a grande maioria dos edifícios privados, pelo menos os mais emblemáticos, têm e estão a ser reconstruídos.

 

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Penso que o próprio Miguel Torga, que nos últimos 20 anos da sua vida passou a vir a Chaves frequentemente, pelo menos uma vez por ano, se apercebeu dessa alteração na cidade de Chaves e que se viesse hoje pela primeira vez a Chaves, com o seu olhar sem que os olhos perdessem a virgindade original diante da realidade e o coração, não diria que Chaves hoje é feia, suja e desfigurada, antes pelo contrário, mas sem esquecer os pecados nela cometidos e alguns que estão por resolver, refiro-me aos mamarrachos de betão e a algum casario que há anos estão em ruinas ou completamente degradados, como o que fica a seguir, que por sinal são as vistas principais que se podem ver desde o Hotel de Chaves recentemente, e que não devem ser nada agradáveis de ver para o turista que pela manhã se aborda da janela para ver como está o dia… Ficam duas imagens para contraste, com pecados de hoje, mas também belezas dos anos 60, bem mais bonito que o atual espaço, pois nem tudo era feio, sujo e desfigurado, talvez exceções, mesmo ao que aqui se disse.

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Pelas imagens que foram ficando de Chaves no ano de 1960 e Chaves dos últimos anos dá para ver que a cidade foi melhorando o seu visual sem se alterar, bem mais limpa, bem mais bonita, uma cidade que hoje se recomenda e que para mim, como flaviense e sem qualquer bairrismo, não há cidade igual à nossa e é a cidade mais bonita do mundo, só o raio do bicho corona é que está cá a mais…

 

 

 

26
Nov20

REINO MARAVILHOSO - PINHÃO

Douro e Entre os Montes

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PINHÃO

 

Nesta rubrica do Douro e entre os montes, hoje vamos até uma localidade que quase entra pelo Rio Douro adentro – o Pinhão.

 

Vamos já ao mapa e itinerário para ir e vir do Pinhão, num passeio feito com partida e regresso à cidade de Chaves. No mapa aparecem duas alternativa de itinerário, a nossa recomendação, como sempre, é ir para o Pinhão por um dos itinerários e regressar a Chaves pelo outro. Passeios estes que são sempre para fazer nas calmas, em maré de apreciação e contemplação, para um dia.

 

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E agora fica um pouco sobre o Pinhão, com aquilo que se diz na página oficial do Município de Alijó, ao qual pertence a freguesia do Pinhão.

 

A Freguesia do Pinhão encontra-se situada no coração da Região Demarcada do Douro, e é ladeada pelos rios Douro e Pinhão, situando-se deste modo na rota do Vinho do Porto.

Elevada a Freguesia em 1933, foi pioneira na rede eléctrica e iluminação pública, sendo a primeira freguesia do distrito de Vila Real a ter telefone, correio permanente e água canalizada.

 

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 Em 1934, foi criada a primeira Casa do Povo do Distrito em parceria com a freguesia.

 

Devido à sua situação geográfica, Pinhão tornou-se um importante entreposto comercial, sobretudo para o transporte do Vinho do Porto, primeiro em Barcos Rabelos, depois em vagões pela Linha do Douro e finalmente em camiões cisterna, o que permitiu a esta localidade um rápido desenvolvimento, alcançando o estatuto de centro económico geográfico da Região demarcada do Vinho do Porto.

 

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Hoje, o Pinhão, visando essencialmente o comércio e o turismo, oferece aos seus visitantes costumes, usos seculares, tradições, vindimas, adegas tradicionais, artesanato e sobretudo a famosa paisagem em socalcos das vinhas durienses.

 

Esta localidade possui ao nível do património, uma Estação de Caminhos de Ferro ornamentada com azulejos datados de 1937 que foram encomendados à fábrica Aleluia, sendo dos mais belos de Portugal, constituído por 24 painéis com motivos vitivinícolas, documentando a labuta do trabalhos durienses. A Ponte Rodoviária sobre o rio Douro projectada por Gustave Eiffel no século XIX, a Ponte Metálica Ferroviária, ponte sobre o rio Pinhão, a Igreja Matriz, Cruzeiro, Barco Rabelo, velhos solares, Quintas com visitas em veículos todo-terreno e sobretudo as paisagens durienses que convidam os turistas a visitas sazonais com especial realce para as vindimas e lagaradas.

 

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Não devemos esquecer o rio Douro, sempre convidativo para um passeio de barco avistando-se as quintas das bem conhecidas casas produtoras de vinhos generosos, assim como a Linha do Douro com realce para o Comboio Histórico a Vapor.

 

A festa anual em honra a N.ª S.ª da Conceição acontece no segundo domingo de Julho, atraindo milhares de crentes a esta Vila.

 

No plano gastronómico destacam-se o cozido à portuguesa, o cabrito assado no forno, doces conventuais, bolo borrachão, vinhos finos e de mesa, compotas e mel.

 

No artesanato são famosas as miniaturas do Barco Rabelo, a latoaria típica, mantas, colchas, rendas, bordados, cestos, chapéus, olearia, balsas e pipas.

 

Principais associações: Comissão de Melhoramentos do Pinhão, Clube Pinhoense, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Pinhão, Associação de Lavradores e Produtores do Vinho do Porto.

 

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“Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.”

Miguel Torga in “Reino Maravilhoso”

 

 

Consultas: http://www.cm-alijo.pt/pagina/72 em2 5/11/2020

 

 

08
Abr19

De regresso à cidade, com chuva

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De regresso à cidade, com chuva e um poema de Torga, a fazer pandã!

 

 CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

 

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer...

 

In Diário II - Miguel Torga

 

 

28
Mar19

De poldra em poldra...

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Não quero acreditar no sobrenatural e quando às vezes, as circunstâncias da vida, me podem levar a pôr a hipótese de poder acreditar, depressa desmonto a teia de pensamentos que me levam a tal. Hoje, por exemplo, passei parte da noite a pular de pensamento em pensamento como se estivesse a pular de poldra em poldra as poldras do rio, num vai em vem de quem chega à outra margem e regressa de poldra em poldra à margem de origem, assim continuamente… Entre mãos tinha a publicação dos posts de hoje, o responder ao mail de um amigo, aparentemente coisas de rotina, em que só custa começar, depois é só navegar por aí fora até chegar a bom porto. O problema é quando o nosso barco encalha num banco de areia e por mais que se insista em sair de lá, mais se enterra… mas num de repente, zás, abrimos o arquivo de fotografias e logo a primeira que vemos, dizemos, é mesmo esta. Instintivamente e sem qualquer razão,  levantamo-nos, vamos à estante dos nossos livros de companhia, mandamos mão a um livro qualquer, abrimos ao acaso numa qualquer página, começamos a ler a partir de um ponto qualquer e quando chegamos ao fim, vemos que eram mesmo aquelas as palavras que nos faltavam, que queríamos, que procurávamos para desencalhar e para parar de vez com o vai e vem da travessia das poldras. Foi assim que encontrei a imagem de hoje e as palavras para a ilustrar,  que agora vos deixo:

 

Coisa limitadora, a amizade!! Sobretudo negativa, no ponto de vista intelectual. Ou é uma contínua transigência, ou uma fonte de arrelias. Só a oposição anónima — inimiga, no fundo — estimula e faz criar. Diante dela, o espírito voa como entende. Nem há direcções proibidas, nem poços de ar pessoais, onde se cai com o coração na boca.

 

Parece à primeira vista  que seria justamente de um convívio pacífico, diário, fraterno, que sairia o tónico ideal de que todo o artista necessita. Mas não. Sem falar no cansaço a que somos atreitos, e que ao cabo de certo tempo deseroíza tudo — poemas e virtudes —, criando à volta de cada obra ou de cada atitude um vácuo de aceitação amorfa, neutra, habitual, por temperamento e por motivos de vária ordem a nossa vida individual e social, passados os breves dias da mocidade, entra num túnel crepuscular de anedotas e digestões. E, naturalmente, uma presença ou consciência de que possa perturbar esse nirvana é olhada com enfado. Daí que instintivamente cada qual vá limando, até sem dar por isso, as arestas do seu espírito, para não levantar atritos. A guerra perpétua é impossível, tanto nas relações dos povos, como nas das criaturas. E surge insensivelmente o compromisso: nem se medem as irregularidades do caudal criador, para não ofender, nem se agitam as águas estagnadas do afecto, para não perturbar. Ora um artista não pode limar as arestas de maneira nenhuma. Pelo contrário. Se os outros envelhecem, desistem, e por cansaço ou piedade o poupam a críticas e a desilusões, ele é que precisa de estar sempre vivo e alerta. E eis a mortificação. Sedento de calor humano e agrilhoado ao seu destino de inquietador, o desgraçado vê-se entre a espada e a parede. Para ser fiel aos sentimentos, tem de parar; para não trair a sua estrela, tem de prosseguir. E nessa incómoda carroça de duas rodas, que caminham em direcções opostas, lá vai ele, umas vezes a esconder o que faz, outras a ler uma página como quem espeta um punhal ou arrisca a própria vida.

Miguel Torga, In Diário VI

 

12
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pelas serras com Torga

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Mais uma ida até ao Barroso aqui tão perto, mas mais uma vez sem termos por cá qualquer aldeia e até temos uma preparada em imagem, mas ainda lhe faltam as palavras para as quais não tivemos tempo de lhe alinhavar as letras. Assim, hoje vamos mais uma vez para o Barroso, sim, mas aquele que é feito de serras e montanhas e água que corre, que cai, que estaciona entre o penedio. Vamos fazer nossas as palavras de Miguel Torga, não só por também nós comungarmos da sua paixão telúrica, mas por serem também palavras inspiradas por imagens como as que deixamos hoje, aliás algumas delas foram tomadas enquanto se falava de Torga e de como tão bem entendíamos e sentíamos as suas palavras quando estamos no seu ambiente natural.

 

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É possível que esta paixão telúrica que me faz divinizar as fragas, os rios e os carvalhos signifique, afinal de contas, que não consegui desembaraçar-me da placenta de ovelha que o destino me atirou à figura, como certo inimigo fez a Maomé. Mas não me desagrada a hipótese.

 

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Estou sinceramente convencido de que a realidade campestre nem é inferior à outra, nem se lhe  opõe. Por detrás das pedras roladas e das ravinas, pulsa o mesmo coração inquieto a vida. A solução, portanto, consiste apenas em auscultá-lo com a finura de ouvido que é obrigatória nas consultas citadinas. E a mágoa que me punge não é ser montanhês por devoção: é de não ser capaz de revelar todos os mistérios que se escondem nas dobras da estamenha.

 

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Bem rústicas parecem as urzes, e a abelha tira das suas flores mel perfumado. Nada mais agressivo do que um silvedo, e o melro faz o ninho no meio dele.

 

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O mal é nosso e, neste caso, meu particularmente. Confundimos a casca com o sabugo. Talvez porque só temos casca e não merecemos a graça de comungar à mesa onde Collete recebia o corpo eucarístico da natureza. Ela, sim, podia exprimir o cataclismo de cada fecundação e decompor o arco-íris  de cada primavera. Através do sacramento do amor e da entrega, real e substancialmente, os seres e as coisas passavam a fazer parte da sua humanidade profunda e falavam depois pela sua boca.

 

Miguel Torga, In Diário VII

 

 

 

07
Jun16

Ocasionais - Duas ou três colheres de "Chá de Urze com flores de Torga"

ocasionais

 

₮ Duas ou três colheres de “Chá de Urze com flores de Torga” ₮

 

LETREIRO

 

Porque não sei mentir,

Não vos engano:

Nasci subversivo.

A começar por mim

(Meu principal motivo

De insatisfação),

Diante de qualquer adoração,

Ajuízo.

Não me sei conformar.

E saio, antes de entrar,

De cada paraíso.

 

(Miguel Torga)

 

 

 

TORGA foi um português, um Transmontano estranho, esquisito.

Como tantos outros.

Apenas mais famoso.

Deixou uma obra literária enorme.

Para muitos dos seus pares da escrita foi enorme.

Para alguns seus pares da poesia, uma incómoda insignificância.

Tenho lido algumas (bastantes) considerações acerca de TORGA.

Se o seu feitio desagrada, a sua escrita encanta.

 

Perante este aparente paradoxo, tenho contido o meu entusiasmo de deixar duas ou três palavras na Caixa de Comentários do meu BLOGUE Favorito: “CHAVES – olhares sobre a cidade”, da autoria de um Flaviense distinto, Fernando Ribeiro.

 

O fim de “Chá de Urze com flores de Torga”, tomado sempre com tanto paladar, leva-me ao atrevimento, respeitoso e humilde, de deixar aqui, num cantinho de uma casa que me tem acolhido, uns alinhavos paradoxais (que pretendo levemente redundantes e suavemente contraditórios) acerca de MIGUEL TORGA.

 

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MIGUEL TORGAandava sempre com a telha”.

Entendeu que a vida foi desde sempre demasiado dura e madrasta com ele.

Tinha veneração pela Natureza. Mas não «gramava» as pessoas.

 

A amizade era um sentimento que detinha enquanto lhe durasse a conveniência do amigo. E essa conveniência resumia-a ao essencial, ao imediato.

 

Tinha medo de alimentar esse sentimento, pois considerava-o um sentimento nivelador, igualizador, e ele, TORGA, prezava profundamente a diferença, e, até, a originalidade.

 

Aborrecia-o a proximidade das pessoas.

Só aceitava a presença delas se estivessem de passagem apressada.

Todavia, a distância entre ele e a gente contraditava o sentimento de aspereza e de desdém da proximidade.

 

À distância, TORGA via as pessoas como entes que a Natureza criou para com a sua dor e sofrimento, o seu trabalho e canseira, o seu suor e as suas lágrimas, o seu canto e sorriso, a sua veneração e humilhação, o seu sacrifício e poesia, se sentisse glorificada.

 

TORGA era um fingidor.

 

Julgou-se a realização da profecia bíblica dum tal Isaías: ser semente saída de Jacob (Jacó) e o herdeiro dos montes, vindo de Judá!

 

Jorge de Sena, em correspondência com Eduardo Lourenço, escreveu, 1955, «olhe que o Torga é, para mim, a imagem do que a poesia não deve ser!».

 

MIGUEL TORGA «desviava-se», quanto a mim, da moda literária «em moda».

 

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 “Só os homens livres são

muito gratos uns para os outros”

 

Poucos lêem TORGA; menos, os que reflectem no que ele escreve; quase ninguém quer aprender com ele.

 

Custa-me a indiferença com que os Flavienses tratam vizinhos ou visitantes que tanta e tão prestimosa afeição demonstram pela «cidade», pela Região, pela NOSSA TERRA.

 

MIGUEL TORGA ainda não foi celebrado em CHAVES como tanto merece.

 

Para os «ignorantes», para os distraídos, para os «esquecidos» e para os ingratos, neste Blogue tem o seu autor vindo a lembrar uma «obrigação» mais do que justa e digna.

 

Mas, com gente-gentalha, medíocre, inculta, mal-agradecida, e que faz da impostura e da cretinice o seu modo de vida, a dirigir os destinos do Município, não admira a inconsequência da verdade.

 

Se, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA, há corações reconhecidos a MIGUEL TORGA, também abundam, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA (e um ou dois, já seria uma «abundante abundância»!) algumas mentes obscenas, iconoclastas, videirinhas, para quem TORGA só merece lembrança e surdo aplauso quando lhes convém, para adorno da sua biliosa e estéril vaidade e disfarce da sua tremenda hipocrisia e imposturice.

 

TORGA, Pessoa e Saramago estão na moda de muita, demasiada, gentinha e gentalha medíocre, mas tão lesta em fingir de super-sumo da intelectualidade, da cultura, das Artes e das Letras, usando e abusando de chavões e «adverbialices» como se tivessem descoberto a equação definitiva da “Teoria de Tudo”, como se fossem alguns dos raros a compreender o último Teorema de Fermat.

 

Então, a um peralvilho altamente conceituado, nómada por todos os territórios que lhe cheirem a unto ou a margarina, perito na insinuação, afinal um dos «cromos» mais exemplares deste «jardim à ….», que, daí ou de qualquer lugar, faz estação ou cais de embarque para as suas surtidas tão narcisistas quão impostoras,  só lhe falta mesmo proclamar, com paráfrase: "Tenho uma demonstração maravilhosa da magnificência, da imortalidade e da importância de Miguel Torga, para a Região (não escreve NORMANDIA TAMEGANA porque não vai a tempo de atribuir-se o neologismo, como tanto se tem aproveitado em fazer com outros) que esta margem é demasiado estreita para conter."

 

Há por aí um pivete baboso, espertalhão   -   não fosse ele o exemplar perfeito do «gosmista», do impostor, do falso amigo, do «amigo da onça», e do hipócrita    -    que, por ter dado boleia a TORGA até Monterrey, já se considera «o maior» conhecedor de TORGA!

 

Este e outros que tais, bem que se mordem sempre que neste Blogue aparece, habitualmente, às 4ªs feiras, “Chá de Urze com flores de Torga”: é que eles não são capazes, não sabem mostrar, ou demonstrar, um sentimento de gratidão, de reconhecimento, de admiração por quem lhe sé superior.

 

A soberba fá-los ter por si próprios uma opinião «mais vantajosa que o que seria justo acerca de si mesmos», e, consequentemente, a inveja, que transportam jung(u)ida à soberba, entristece-os com a felicidade e o prestígio de TORGA, e de Outros!

 

Em TORGA, como em Camões e em Pessoa, encontramos nos seus poemas a força sobrenatural que justifica o orgulho de «ser Português»!

 

Na poesia e na prosa de TORGA encontramos toda a profundidade da alma e do coração dos Portugueses!

 

Bastar-nos-ão as carinhosas e eloquentes palavras escritas no seu Diário, e que no Blogue “CHAVESOlhares sobre a Cidade” têm vindo a ser reproduzidas, para que, na “Cidade de Trajano”, uma justa homenagem lhe fosse feita a MIGUEL TORGA.

 

 

ǂ

 

E com este «sim e não», ou aparente «não e sim», um e outro aparentes do que é aparente, pequenino esforço meu para espreitar o que toda a gente sabe sobre TORGA, e de quase toda (essa) gente se esquece, e eu, timidamente, ando a aprender, deixo o meu agradecimento a quem comunga da minha gratidão a quem honra e prestigiou, e prestigia e honra, a NOSSA TERRA, a NORMANDIA TAMEGANA, TRÁS-OS-MONTES e PORTUGAL.

 

 

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...

 Rezava o padre-nosso que sabia,

 A pedir-te, humildemente,

 O pio de cada dia.

 Mas a tua bondade omnipotente

 Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...

 E a minha voz crescia

 De emoção.

 Mas um silêncio triste sepultava

 A fé que ressumava

 Da oração.

 Até que um dia, corajosamente,

 Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

 Saborear, enfim,

 O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

 Santificado seja o vosso nome.

{Miguel Torga]

 

 

M., Um de Junho de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

 

01
Jun16

Chá de Urze com Flores de Torga - 133

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Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-s-sebastiao (854)

 

E terminam aqui as referências às terras de Barroso, concelho de Boticas e Montalegre. Concluídas que estão as referências ao Barroso e Chaves, a partir de hoje a rubrica “Chá de Urze com Flores de Torga” deixará de estar aqui no blog todas as quartas-feiras. Mas continuará, ocasionalmente, sem dia certo, não só com trechos dos diários, mas também outros textos e notícias, de preferência com referências transmontanas e com o sentir transmontano como Torga o sabia fazer tão bem.

 

As próximas quartas-feiras darão lugar a uma nova rubrica, ainda em preparação, mas até que surja aqui, não faltarão motivos flavienses para preencher o espaço dos dias de feira em Chaves.

 

 

25
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 132

1600-torga

 

Tourém, Barroso, 2 de Setembro de 1990

 

LIMITE

 

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompassado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-tourem-360-486

Tourém (composição com duas imagens)

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

 

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

 

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

 

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