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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Abr19

De regresso à cidade, com chuva

1600-(42582)

 

De regresso à cidade, com chuva e um poema de Torga, a fazer pandã!

 

 CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

 

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer...

 

In Diário II - Miguel Torga

 

 

28
Mar19

De poldra em poldra...

1600-(48236)

 

Não quero acreditar no sobrenatural e quando às vezes, as circunstâncias da vida, me podem levar a pôr a hipótese de poder acreditar, depressa desmonto a teia de pensamentos que me levam a tal. Hoje, por exemplo, passei parte da noite a pular de pensamento em pensamento como se estivesse a pular de poldra em poldra as poldras do rio, num vai em vem de quem chega à outra margem e regressa de poldra em poldra à margem de origem, assim continuamente… Entre mãos tinha a publicação dos posts de hoje, o responder ao mail de um amigo, aparentemente coisas de rotina, em que só custa começar, depois é só navegar por aí fora até chegar a bom porto. O problema é quando o nosso barco encalha num banco de areia e por mais que se insista em sair de lá, mais se enterra… mas num de repente, zás, abrimos o arquivo de fotografias e logo a primeira que vemos, dizemos, é mesmo esta. Instintivamente e sem qualquer razão,  levantamo-nos, vamos à estante dos nossos livros de companhia, mandamos mão a um livro qualquer, abrimos ao acaso numa qualquer página, começamos a ler a partir de um ponto qualquer e quando chegamos ao fim, vemos que eram mesmo aquelas as palavras que nos faltavam, que queríamos, que procurávamos para desencalhar e para parar de vez com o vai e vem da travessia das poldras. Foi assim que encontrei a imagem de hoje e as palavras para a ilustrar,  que agora vos deixo:

 

Coisa limitadora, a amizade!! Sobretudo negativa, no ponto de vista intelectual. Ou é uma contínua transigência, ou uma fonte de arrelias. Só a oposição anónima — inimiga, no fundo — estimula e faz criar. Diante dela, o espírito voa como entende. Nem há direcções proibidas, nem poços de ar pessoais, onde se cai com o coração na boca.

 

Parece à primeira vista  que seria justamente de um convívio pacífico, diário, fraterno, que sairia o tónico ideal de que todo o artista necessita. Mas não. Sem falar no cansaço a que somos atreitos, e que ao cabo de certo tempo deseroíza tudo — poemas e virtudes —, criando à volta de cada obra ou de cada atitude um vácuo de aceitação amorfa, neutra, habitual, por temperamento e por motivos de vária ordem a nossa vida individual e social, passados os breves dias da mocidade, entra num túnel crepuscular de anedotas e digestões. E, naturalmente, uma presença ou consciência de que possa perturbar esse nirvana é olhada com enfado. Daí que instintivamente cada qual vá limando, até sem dar por isso, as arestas do seu espírito, para não levantar atritos. A guerra perpétua é impossível, tanto nas relações dos povos, como nas das criaturas. E surge insensivelmente o compromisso: nem se medem as irregularidades do caudal criador, para não ofender, nem se agitam as águas estagnadas do afecto, para não perturbar. Ora um artista não pode limar as arestas de maneira nenhuma. Pelo contrário. Se os outros envelhecem, desistem, e por cansaço ou piedade o poupam a críticas e a desilusões, ele é que precisa de estar sempre vivo e alerta. E eis a mortificação. Sedento de calor humano e agrilhoado ao seu destino de inquietador, o desgraçado vê-se entre a espada e a parede. Para ser fiel aos sentimentos, tem de parar; para não trair a sua estrela, tem de prosseguir. E nessa incómoda carroça de duas rodas, que caminham em direcções opostas, lá vai ele, umas vezes a esconder o que faz, outras a ler uma página como quem espeta um punhal ou arrisca a própria vida.

Miguel Torga, In Diário VI

 

12
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pelas serras com Torga

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montalegre (549)

 

Mais uma ida até ao Barroso aqui tão perto, mas mais uma vez sem termos por cá qualquer aldeia e até temos uma preparada em imagem, mas ainda lhe faltam as palavras para as quais não tivemos tempo de lhe alinhavar as letras. Assim, hoje vamos mais uma vez para o Barroso, sim, mas aquele que é feito de serras e montanhas e água que corre, que cai, que estaciona entre o penedio. Vamos fazer nossas as palavras de Miguel Torga, não só por também nós comungarmos da sua paixão telúrica, mas por serem também palavras inspiradas por imagens como as que deixamos hoje, aliás algumas delas foram tomadas enquanto se falava de Torga e de como tão bem entendíamos e sentíamos as suas palavras quando estamos no seu ambiente natural.

 

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É possível que esta paixão telúrica que me faz divinizar as fragas, os rios e os carvalhos signifique, afinal de contas, que não consegui desembaraçar-me da placenta de ovelha que o destino me atirou à figura, como certo inimigo fez a Maomé. Mas não me desagrada a hipótese.

 

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Estou sinceramente convencido de que a realidade campestre nem é inferior à outra, nem se lhe  opõe. Por detrás das pedras roladas e das ravinas, pulsa o mesmo coração inquieto a vida. A solução, portanto, consiste apenas em auscultá-lo com a finura de ouvido que é obrigatória nas consultas citadinas. E a mágoa que me punge não é ser montanhês por devoção: é de não ser capaz de revelar todos os mistérios que se escondem nas dobras da estamenha.

 

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Bem rústicas parecem as urzes, e a abelha tira das suas flores mel perfumado. Nada mais agressivo do que um silvedo, e o melro faz o ninho no meio dele.

 

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O mal é nosso e, neste caso, meu particularmente. Confundimos a casca com o sabugo. Talvez porque só temos casca e não merecemos a graça de comungar à mesa onde Collete recebia o corpo eucarístico da natureza. Ela, sim, podia exprimir o cataclismo de cada fecundação e decompor o arco-íris  de cada primavera. Através do sacramento do amor e da entrega, real e substancialmente, os seres e as coisas passavam a fazer parte da sua humanidade profunda e falavam depois pela sua boca.

 

Miguel Torga, In Diário VII

 

 

 

07
Jun16

Ocasionais - Duas ou três colheres de "Chá de Urze com flores de Torga"

ocasionais

 

₮ Duas ou três colheres de “Chá de Urze com flores de Torga” ₮

 

LETREIRO

 

Porque não sei mentir,

Não vos engano:

Nasci subversivo.

A começar por mim

(Meu principal motivo

De insatisfação),

Diante de qualquer adoração,

Ajuízo.

Não me sei conformar.

E saio, antes de entrar,

De cada paraíso.

 

(Miguel Torga)

 

 

 

TORGA foi um português, um Transmontano estranho, esquisito.

Como tantos outros.

Apenas mais famoso.

Deixou uma obra literária enorme.

Para muitos dos seus pares da escrita foi enorme.

Para alguns seus pares da poesia, uma incómoda insignificância.

Tenho lido algumas (bastantes) considerações acerca de TORGA.

Se o seu feitio desagrada, a sua escrita encanta.

 

Perante este aparente paradoxo, tenho contido o meu entusiasmo de deixar duas ou três palavras na Caixa de Comentários do meu BLOGUE Favorito: “CHAVES – olhares sobre a cidade”, da autoria de um Flaviense distinto, Fernando Ribeiro.

 

O fim de “Chá de Urze com flores de Torga”, tomado sempre com tanto paladar, leva-me ao atrevimento, respeitoso e humilde, de deixar aqui, num cantinho de uma casa que me tem acolhido, uns alinhavos paradoxais (que pretendo levemente redundantes e suavemente contraditórios) acerca de MIGUEL TORGA.

 

ǂ

 

MIGUEL TORGAandava sempre com a telha”.

Entendeu que a vida foi desde sempre demasiado dura e madrasta com ele.

Tinha veneração pela Natureza. Mas não «gramava» as pessoas.

 

A amizade era um sentimento que detinha enquanto lhe durasse a conveniência do amigo. E essa conveniência resumia-a ao essencial, ao imediato.

 

Tinha medo de alimentar esse sentimento, pois considerava-o um sentimento nivelador, igualizador, e ele, TORGA, prezava profundamente a diferença, e, até, a originalidade.

 

Aborrecia-o a proximidade das pessoas.

Só aceitava a presença delas se estivessem de passagem apressada.

Todavia, a distância entre ele e a gente contraditava o sentimento de aspereza e de desdém da proximidade.

 

À distância, TORGA via as pessoas como entes que a Natureza criou para com a sua dor e sofrimento, o seu trabalho e canseira, o seu suor e as suas lágrimas, o seu canto e sorriso, a sua veneração e humilhação, o seu sacrifício e poesia, se sentisse glorificada.

 

TORGA era um fingidor.

 

Julgou-se a realização da profecia bíblica dum tal Isaías: ser semente saída de Jacob (Jacó) e o herdeiro dos montes, vindo de Judá!

 

Jorge de Sena, em correspondência com Eduardo Lourenço, escreveu, 1955, «olhe que o Torga é, para mim, a imagem do que a poesia não deve ser!».

 

MIGUEL TORGA «desviava-se», quanto a mim, da moda literária «em moda».

 

ǂ

 

 “Só os homens livres são

muito gratos uns para os outros”

 

Poucos lêem TORGA; menos, os que reflectem no que ele escreve; quase ninguém quer aprender com ele.

 

Custa-me a indiferença com que os Flavienses tratam vizinhos ou visitantes que tanta e tão prestimosa afeição demonstram pela «cidade», pela Região, pela NOSSA TERRA.

 

MIGUEL TORGA ainda não foi celebrado em CHAVES como tanto merece.

 

Para os «ignorantes», para os distraídos, para os «esquecidos» e para os ingratos, neste Blogue tem o seu autor vindo a lembrar uma «obrigação» mais do que justa e digna.

 

Mas, com gente-gentalha, medíocre, inculta, mal-agradecida, e que faz da impostura e da cretinice o seu modo de vida, a dirigir os destinos do Município, não admira a inconsequência da verdade.

 

Se, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA, há corações reconhecidos a MIGUEL TORGA, também abundam, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA (e um ou dois, já seria uma «abundante abundância»!) algumas mentes obscenas, iconoclastas, videirinhas, para quem TORGA só merece lembrança e surdo aplauso quando lhes convém, para adorno da sua biliosa e estéril vaidade e disfarce da sua tremenda hipocrisia e imposturice.

 

TORGA, Pessoa e Saramago estão na moda de muita, demasiada, gentinha e gentalha medíocre, mas tão lesta em fingir de super-sumo da intelectualidade, da cultura, das Artes e das Letras, usando e abusando de chavões e «adverbialices» como se tivessem descoberto a equação definitiva da “Teoria de Tudo”, como se fossem alguns dos raros a compreender o último Teorema de Fermat.

 

Então, a um peralvilho altamente conceituado, nómada por todos os territórios que lhe cheirem a unto ou a margarina, perito na insinuação, afinal um dos «cromos» mais exemplares deste «jardim à ….», que, daí ou de qualquer lugar, faz estação ou cais de embarque para as suas surtidas tão narcisistas quão impostoras,  só lhe falta mesmo proclamar, com paráfrase: "Tenho uma demonstração maravilhosa da magnificência, da imortalidade e da importância de Miguel Torga, para a Região (não escreve NORMANDIA TAMEGANA porque não vai a tempo de atribuir-se o neologismo, como tanto se tem aproveitado em fazer com outros) que esta margem é demasiado estreita para conter."

 

Há por aí um pivete baboso, espertalhão   -   não fosse ele o exemplar perfeito do «gosmista», do impostor, do falso amigo, do «amigo da onça», e do hipócrita    -    que, por ter dado boleia a TORGA até Monterrey, já se considera «o maior» conhecedor de TORGA!

 

Este e outros que tais, bem que se mordem sempre que neste Blogue aparece, habitualmente, às 4ªs feiras, “Chá de Urze com flores de Torga”: é que eles não são capazes, não sabem mostrar, ou demonstrar, um sentimento de gratidão, de reconhecimento, de admiração por quem lhe sé superior.

 

A soberba fá-los ter por si próprios uma opinião «mais vantajosa que o que seria justo acerca de si mesmos», e, consequentemente, a inveja, que transportam jung(u)ida à soberba, entristece-os com a felicidade e o prestígio de TORGA, e de Outros!

 

Em TORGA, como em Camões e em Pessoa, encontramos nos seus poemas a força sobrenatural que justifica o orgulho de «ser Português»!

 

Na poesia e na prosa de TORGA encontramos toda a profundidade da alma e do coração dos Portugueses!

 

Bastar-nos-ão as carinhosas e eloquentes palavras escritas no seu Diário, e que no Blogue “CHAVESOlhares sobre a Cidade” têm vindo a ser reproduzidas, para que, na “Cidade de Trajano”, uma justa homenagem lhe fosse feita a MIGUEL TORGA.

 

 

ǂ

 

E com este «sim e não», ou aparente «não e sim», um e outro aparentes do que é aparente, pequenino esforço meu para espreitar o que toda a gente sabe sobre TORGA, e de quase toda (essa) gente se esquece, e eu, timidamente, ando a aprender, deixo o meu agradecimento a quem comunga da minha gratidão a quem honra e prestigiou, e prestigia e honra, a NOSSA TERRA, a NORMANDIA TAMEGANA, TRÁS-OS-MONTES e PORTUGAL.

 

 

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...

 Rezava o padre-nosso que sabia,

 A pedir-te, humildemente,

 O pio de cada dia.

 Mas a tua bondade omnipotente

 Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...

 E a minha voz crescia

 De emoção.

 Mas um silêncio triste sepultava

 A fé que ressumava

 Da oração.

 Até que um dia, corajosamente,

 Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

 Saborear, enfim,

 O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

 Santificado seja o vosso nome.

{Miguel Torga]

 

 

M., Um de Junho de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

 

01
Jun16

Chá de Urze com Flores de Torga - 133

1600-torga

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-s-sebastiao (854)

 

E terminam aqui as referências às terras de Barroso, concelho de Boticas e Montalegre. Concluídas que estão as referências ao Barroso e Chaves, a partir de hoje a rubrica “Chá de Urze com Flores de Torga” deixará de estar aqui no blog todas as quartas-feiras. Mas continuará, ocasionalmente, sem dia certo, não só com trechos dos diários, mas também outros textos e notícias, de preferência com referências transmontanas e com o sentir transmontano como Torga o sabia fazer tão bem.

 

As próximas quartas-feiras darão lugar a uma nova rubrica, ainda em preparação, mas até que surja aqui, não faltarão motivos flavienses para preencher o espaço dos dias de feira em Chaves.

 

 

25
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 132

1600-torga

 

Tourém, Barroso, 2 de Setembro de 1990

 

LIMITE

 

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompassado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-tourem-360-486

Tourém (composição com duas imagens)

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

 

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

 

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

 

18
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 131

1600-torga

 

Carvalhelhos, 3 de Setembro de 1989

 

Horas e horas de correria por este Barroso a cabo, num Domingo de romarias, na mira de assistir a mais uma vez uma chega de toiros. Mas não fui feliz. Em todas as aldeias visitadas, o grande acontecimento tinha já acontecido. Restavam dele apenas o doce sabor do triunfo ou o amargo da derrota. Na pega ribatejana, outra expressão da nossa virilidade e vitalidade, é o pegador que está em causa ao saltar para dentro da arena. Aqui, é a povoação inteira que se revê na luta entre o boi e o boi rival. E o desfecho do combate diz respeito a todos. Por isso, se vence, o deus testicular é festejado até ao delírio, se fraqueja e se rende, é amaldiçoado até às lágrimas.

 

Celebração colectiva, a turra é a mais sagrada cerimónia que se pode presenciar nestas paragens, onde cada acto tem a profundidade dos tempos primordiais e não há divindade sem terra nos pés. E eu sou uma natureza religiosa, sedenta de transcendente, que aprendeu nas grutas de Altamira que ele pode ter a figuração de um bisonte e é sempre uma resposta luminosa a perguntas obscuras do instinto.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

1600-montalegre (1169) -1

 

 

Montalegre, 1 de Setembro de 1990

 

Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?

 

— Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

11
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 130

1600-torga

 

Serraquinhos, 14 de Setembro de 1975

 

O Barroso coberto de gado. Os mais diversos bichos a granel nos mesmos pastos, nos mesmos eidos, nos mesmos currais. Bois, ovelhas, cães, cabras, burros, porcos e galinhas no mesmo cordial convívio. E pus-me a pensar na fácil comunhão da condição viva, em encontra-me com difícil harmonia da condição social. A fraternidade de que não somos capazes nós os homens, simples como o bom dia entre seres sem cromossomas permutáveis.

 

Miguel Torga, In Diário XII

 

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Pitões das Júnias, Barroso, 8 de Setembro de 1983

 

Só vistas, a aspereza deste ermo e a pobreza do mosteiro desmantelado. Mas canta dia e noite, a correr encostado às fundações do velho cenóbio beneditino, um ribeiro lustral. E os ascetas e o poeta que se digladiam em mim, de há muito peregrinos desta solidão, mais uma vez se conciliam no mesmo impulso purificador, a invejar os monges felizes que aqui humildemente penitenciaram o corpo rebelde e pacificaram a alma atormentada. O corpo a magoar-se contrito no cilício quotidiano da realidade e a alma a ouvir de antemão, enlevada, a música da eternidade.

 

Miguel Torga, In Diário XIV

 

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Covas do Barroso, 8 de Setembro de 1987

 

Uma bonita imagem de Nossa Senhora de Rocamador na igreja matriz, e o forno do povo ainda quente  e a reacender da última fornada. Um lavrador, quando me viu ougado, meteu a navalha a uma broa e fartou-me. O comunitarismo, por estas bandas, não é uma palavra vã. Significa solidariedade activa em todos os momentos. Até a fome turística tem direito ao pão da fraternidade.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

04
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 129

1600-torga

 

Boticas, 17 de Setembro de 1970

 

Um lauto e demorado jantar, a que assisti de talher praticamente cruzado, num enjoo renitente do estômago e do cérebro. Quanto mais a fome crónica de Portugal se farta, mais repugnância sinto pelos guisados. É que, sem almejar finuras de espírito ou Banquetes de Platão e de Kierkegaard, também me não resigno a que saiam sempre delas, ou raciocínios que parecem eructações, ou Ceias dos Cardeais.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

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Boticas, 7 de Setembro de 1973

 

O mundo de frustrações que ia naquela alma! Que vai em todas as almas, afinal, mesmo se o não revelam. Nunca ninguém lhe ouvira queixume, um lamento, uma confidência. Tudo nela era descrição e compostura. E há pouco, inesperadamente, traiu-se. Falava-se de chegas que se realizam aqui no Barroso.

- Sabe o que fazem aos toiros vencidos? – perguntei.

- Não faço ideia.

- Abatem-nos.

- Porquê?

- Porque deixaram de simbolizar o poder da virilidade.

- Deviam fazer o mesmo a certos homens…

E foi como se uma flor serôdia de orgasmo se abrisse na sala.

 

Miguel Torga, In Diário XII

 

 

27
Abr16

Chá de Urze com Flores de Torga - 128

1600-torga

 

Montalegre, 11 de Janeiro de 1970

 

Avisado por um amigo de que havia hoje cá na terra uma chega de toiros, meti-me a caminho debaixo dum temporal desfeito, e tanto teimei com a chuva, o vento e o granizo, que consegui chegar a horas de assistir ao combate. E valeu a pena. Se há em Portugal meia dúzia de espectáculos que merecem ser vistos, este é um deles. Primeiro, as bichezas, depois de nove voltas propiciatórias à capela do orago e da sanção da bruxa, a sair dos respectivos lugarejos, rodeadas pela juventude dos dois sexos, enquanto o sino toca a Senhor fora e o mulherio idoso reza implorativamente aos pés do Santíssimo; a seguir, a chegada dos cortejos ao toural da vila, as cerimónias preliminares do encontro — vistoria rigorosa dos animais (não tragam eles pontas de aço incrustadas nos galhos), a escolha do piso, etc.; finalmente turra — os dois bisontes enganchados, cada qual a dar o que pode, no esforço hercúleo de não perder um palmo de terreno, ou ganhá-lo, apenas cedido. Turra que dura eternidades de emoção, e só termina quando uma das bisarmas fraqueja, recua, e acaba por fugir.

 

1600-montalegre (371)

 

Não é, contudo, a luta gigantesca, apesar de empolgante, o que mais diz ao espectador forasteiro. É o halo humano que a envolve, os milénios de ancestralidade que ela faz vir à tona da assistência. Símbolo de virilidade e fecundidade, o boi é na região o alfa e o ómega do quotidiano. Cada povoação revê-se nele como num deus. Vitorioso, cobrem-no de flores; derrotado, abatem-no impiedosamente. Quando há minutos a turra acabou, depois de viver numa tensão de que a palidez de um padre a meu lado era a síntese, toda a falange que torcia pelo vencido parecia capada.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

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