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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Fev19

O Barroso aqui tão perto - Fiães do Rio

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montalegre (549)

Com o domingo quase a terminar mas ainda a tempo de cumprir a promessa de trazer aqui mais uma aldeia do Barroso, hoje fica Fiães do Rio, com apenas uma imagem, pois Fiães já aqui teve o seu post completo. E o porquê de a trazer aqui hoje Fiães?  A resposta é simples, mas tem estória. Acontece que esta imagem foi tomada há cinco anos, mais precisamente no dia 7 de junho de 2014, às 14H48, e sei isto pelo EXIF[i] da foto e porque a imagem foi tomada num passeio que a Associação de Fotografia Lumbudus fez ao Barroso, e também sei que a imagem foi tomada em andamento,  desde o autocarro que nos transportava e pela hora a que foi tomada iriamos a caminho de Pitões das Júnias. Sabia isto tudo, mas como a minha máquina não tem GPS, não consegui identificar qual a aldeia que tinha fotografado.  Mas não desisti de descobrir e durante estes cinco anos, de vez em quando, lá ia planando com o Google Earth por cima das aldeias que tínhamos passado. A imagem estava entre duas outras imagens, uma da Barragem dos Pisões e outra já de Pitões das Júnias. Daí tinha no trajeto (visível à fotografia)  as aldeias de Brandim, Contim, São Pedro, Sezelhe, Travassos do Rio e Covelães, no entanto nenhuma delas se enquadrava na imagem, principalmente porque na triangulação que fazia da imagem, faltavam-me sempre duas aldeias que aparecem em segundo plano na fotografia. Hoje teimei mais que nas últimas tentativas de descoberta e lembrei-me que o condutor do autocarro poderia não ter feito o trajeto que eu faria se fosse a conduzir, tanto mais que nessa altura não conhecia tão bem o Barroso como hoje conheço e na viagem do autocarro, nesse troço da viagem, fui distraído com a animação do interior do autocarro. Dai estudei um itinerário alternativo que o condutor pudesse ter tomado, e de facto em São Pedro poderia ter optado por ir para Pitões das Júnias via Barragem de Paradela, o que me alargava o leque de aldeias. Assim, a seguir a São Pedro, teria as aldeias de Vilaça, Fiães do Rio, Loivos, Paradela,  Outeiro, Parada de Outeiro, Paredes do Rio, Covelães e Travassos do Rio. E lá fui de novo planando com o Google Earth. Vilaça não era, Fiães do Rio, ora bem se a imagem tivesse sido tirada desde … as aldeias ao fundo poderiam ser… o recorte das montanhas também, e comparando em pormenor a fotografia e o Google Earth tudo encaixava. Não havia dúvidas, a imagem era de Fiães do Rio.  Feliz pela vitória alcançada e porque esta semana passada não tive tempo de preparar o post completo para mais uma aldeia, fica então esta imagem de Fiães do Rio que, por sinal, sempre gostei, desde que a vi.

 

E é tudo, mas se é amante de fotografia e ainda está na fase de aprender umas coisas, não deixe de ler a nota de rodapé, pois ficam lá umas dicas para poder aprender umas coisas.

 

Fica também o link para a abordagem completa anteriormente feita à aldeia de Fiães do Rio:

( https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619)

 

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[i] Para quem não sabe, o EXIF (iniciais de Exchangeable Image File Format) de uma fotografia digital, comummente falando, poderemos dizer que são uma série de informações que ficam registadas no ficheiro da fotografia e que poderão ser vistas através de vários programas, como por exemplo no photoshop ou mesmo em locais onde aloja a fotografia, como no nosso caso acontece no FLICKR. Pois essas informações vão desde a marca da máquina fotográfica e lente que utilizou para a tirar, bem como a velocidade, abertura, iso, etc , data e hora em que foi tirada, software com que foi tratada e data de tratamento, ect.etc.etc, mais uma série de outras informações, ao todo são mais de 100 as informações que ficam registadas, incluindo o local onde foi tomada e o autor da fotografia, mas aqui, apenas se a máquina tiver GPS incorporado e se o autor registou o seu nome na máquina. O EXIF é muito útil para quem gosta de fotografia e quer aprender ou aprofundar conhecimentos sobre fotografia, pois nele estão todas as informações sobre como o fotógrafo regulou a máquina para tomar determinada imagem. Claro que há fotógrafos que não gostam de partilhar essa informação e escondem-na, não permitindo que se veja, mas há sempre formas de lá chegar.  Só para terem uma ideia da informação do EXIF, deixo aqui o EXIF da imagem deste post:

 

Nikon D2X

Nikon AF-S DX Nikkor 18.0-200.0 mm  f/3.5-5.6

  • Abertura ƒ/7.6
  • 18.0 mm
  • Velocidade 1/250
  • ISO 250
  • Flash (desligado, não disparado)
  • Make - NIKON CORPORATION
  • Orientation - Horizontal (normal)
  • X-Resolution - 300 dpi
  • Y-Resolution - 300 dpi
  • Software - Adobe Photoshop CC 2015 (Windows)
  • Date and Time (Modified) - 2019:02:18 00:31:33
  • Artist – Fernando DC Ribeiro
  • Copyright – Fernando DC Ribeiro
  • ISO Speed - 250
  • Exif Version - 0221
  • Date and Time (Original) - 2014:06:07 14:48:10
  • Date and Time (Digitized) - 2014:06:07 14:48:10
  • Exposure Bias - 0 EV
  • Max Aperture Value - 3.5
  • Metering Mode - Spot
  • Light Source - Unknown
  • Sub Sec Time - 37
  • Sub Sec Time Original - 37
  • Sub Sec Time Digitized - 37
  • Color Space - Uncalibrated
  • Sensing Method - One-chip color area
  • File Source - Digital Camera
  • Scene Type - Directly photographed
  • CFAPattern - [Red,Green][Green,Blue]
  • Custom Rendered - Normal
  • Exposure Mode - Auto
  • White Balance - Auto
  • Digital Zoom Ratio - 1
  • Focal Length (35mm format) - 27 mm
  • Scene Capture Type - Standard
  • Gain Control - None
  • Contrast - Normal
  • Saturation - Normal
  • Sharpness - Normal
  • Subject Distance Range - Unknown
  • Lens Info - 18-200mm f/3.5-5.6
  • Lens Model - 18.0-200.0 mm f/3.5-5.6
  • Compression - JPEG (old-style)
  • Thumbnail Offset - 978
  • Thumbnail Length - 5036
  • Coded Character Set - UTF8
  • Application Record Version - 65242
  • Date Created - 2014:06:07
  • Time Created - 14:48:10+00:00
  • IPTCDigest - 0f21698ef38e431377808326400d168f
  • Displayed Units X - inches
  • Displayed Units Y - inches
  • Global Angle - 30
  • Global Altitude - 30
  • Photoshop Thumbnail - (Binary data 5036 bytes, use -b option to extract)
  • Photoshop Quality - 8
  • Photoshop Format - Progressive
  • Progressive Scans - 5 Scans
  • XMPToolkit - Adobe XMP Core 5.6-c067 79.157747, 2015/03/30-23:40:42
  • Creator Tool - Ver.2.00
  • Rating - 0
  • Metadata Date - 2019:02:18 00:31:33Z
  • Lens ID - 139
  • Image Number - 154212
  • Approximate Focus Distance - 7.94
  • Distortion Correction Already Applied - True
  • Lateral Chromatic Aberration Correction Already Applied - True
  • Vignette Correction Already Applied - True
  • Color Mode - RGB
  • ICCProfile Name - Adobe RGB (1998)
  • Document ID - adobe:docid:photoshop:807f9259-3314-11e9-ae4e-b1f09143f087
  • Original Document ID - C579EEB82AF310B3EF6076CC1A9C21D6
  • Instance ID - xmp.iid:528f0a1a-3447-724e-83fe-550e4b3660f2
  • History Action - derived
  • History Parameters - converted from image/x-nikon-nef to image/tiff
  • History Instance ID - xmp.iid:e072b6dc-d020-dd41-a7b8-3fcbaaea65f9
  • History When - 2019:02:18 00:11:49Z
  • History Software Agent - Adobe Photoshop Camera Raw 11.0 (Windows)
  • History Changed - /
  • Derived From Instance ID - xmp.iid:213c266e-df5b-c94e-b8fa-dfa0307c01de
  • Derived From Document ID - xmp.did:64cbe2d0-c5fe-9542-ac15-5c917ec2be6e
  • Derived From Original Document ID - C579EEB82AF310B3EF6076CC1A9C21D6
  • Format - image/jpeg
  • DCTEncode Version - 100
  • APP14 Flags0 - (none)
  • APP14 Flags1 - (none)
  • Color Transform - YCbCr
  • Camera ID - 82
  • Camera Type - Digital SLR  

 

10
Fev19

O Barroso aqui tão perto - Codeçoso da Venda Nova

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Nesta nossa peregrinação pelo Barroso hoje vamos até Codessoso ou talvez Codeçoso ou ainda Codessoso do Arco, ou mesmo Codessoso da Venda Nova, pois sinceramente não sei qual é o topónimo correto, dependendo da fonte onde for beber, o topónimo aparece grafado nestas quatro formas. Para mim é Codessoso da Venda Nova, isto por conveniência e para distinguir a aldeia de outras da proximidade que adotaram o mesmo topónimo, como é o caso de Codessoso da União de freguesias de Meixedo e Padornelos também do concelho de Montalegre, ou Codessoso do concelho de Boticas ou ainda Codessoso de Celorico de Basto. No entanto, no que resta do post, para não estar sempre a escrever Codessoso da Venda Nova, vou ficar-me só por Codessoso.

 

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Também esta aldeia tem direito ao seu merecido post aqui no blog, mas, para ser sincero, esteve para não acontecer assim, pois inicialmente tinha programa que esta aldeia entrasse em conjunto com a Venda Nova e Padrões, pela simples razão que não tinha fotos suficientes da aldeia para justificar uma publicação isolada. Tal como já tive oportunidade de o dizer aqui noutras ocasiões, às vezes o cansaço, as condições meteorológicas e a falta de inspiração, tolhem-nos ou toldam-nos um levantamento fotográfico como deve de ser, sobretudo quando tal acontece durante o período da tarde, que cada vez mais me convenço que as tardes não são amigas da fotografia, exceção para a hora doirada do entardecer.

 

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A primeira vez que fui a Codessoso com intenção de a fotografar, aconteceu em junho de 2017, recordo que foi um dia de muito calor. Dei uma volta pela aldeia que se localiza mais junto à barragem, fiz os registos que me atraíram e depois atravessei a estrada e entrei na restante aldeia, de onde saí sem nenhuma foto. Já depois de ter decidido que Codessoso não estaria aqui sozinha, numa descida para a Venda Nova vindo de Salto,  o meu olhar foi atraído pelo conjunto da aldeia que se via ao longe. Chegado a casa, revi novamente as fotos que tinha em arquivo de Codessoso e verifiquei que talvez estivesse a ser injusto com esta aldeia. Aí ficou decidido que faria nova passagem por lá para ver o que me tinha escapado.

 

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No dia 29 de dezembro passado fui propositadamente a Codessoso, e aí sim, não só tomei alguns registos dentro da aldeia, como subi novamente ao lugar da Venda Nova desde onde a aldeia se poderia ver no seu todo e dei-me conta que seria imperdoável não ter feito estes novos registos, com realce para o conjunto que se vê desde esse local e para a composição que desde aí se conseguia em, numa imagem apenas, dar a conhecer a magia que o Barroso tem. Refiro-me à composição da primeira imagem que abre este post   que mostra algumas das singularidades do Barroso verde e agreste, da água, rios e albufeiras, do endeusamento das suas serras, no caso a Serra do Gerês que se vê em último plano, da pequena península onde mora o tal Codessoso junto à barragem. Uma imagem que mostra bem esta pérola do Reino Maravilhoso.

 

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Como diz Torga, “Reinos Maravilhosos (…) O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”, vou fazendo o exercício de não esquecer estas palavras de Torga, mas tal como disse no início, às vezes, por cansaço, falta de inspiração ou mesmo até desleixo, perdemos essa tal virgindade original do nosso olhar, e para o Barroso temos que ir sempre puros, virgens, senão corremos o risco de nos passar ao lado e perdemos “a magnificência da dádiva”.

 

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Pintado assim o Barroso como uma pérola do Reino Maravilhoso quase somos levados a crer que é o paraíso, e até poderia ser, mas não o é. É terra difícil de se viver,  de tão ingrata que é, chega a doer, não só viver nela como ainda o é mais ser obrigado deixá-la para trás, pela necessidade que fala mais alto, e tudo poderia ser diferente, se o sol, como dizem, nascesse para todos, mas não!

 

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Sem ignorar o que atrás disse, passemos à frente, pois existe sempre a esperança de que um dia se faça justiça, afinal de contas esta sina já não é de hoje e tal como como os de lá de baixo dizem que nós já estamos habituados ao rigor dos nossos invernos também vamos estando habituados ao resto, que até pode ser mentira, mas pelo menos alimenta o nosso orgulho… e por mim, antes orgulhoso do que conformista.

 

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Vamos então até ao Barroso aqui tão perto, pois vamos esquecendo que este blog é feito a partir da cidade de Chaves e que estas incursões no Barroso, não são mais que um convite a uma visita à descoberta das belezas barrosãs, que essas ninguém lhas tira.

 

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Pois então vamos lá, até Codessoso da Venda Nova e a melhor referência é mesmo a Barragem da Venda Nova, que como já referimos Codessoso em parte, é mesmo uma península que entra pela barragem adentro, mesmo antes de se chegar à Venda Nova.

 

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Quanto ao itinerário a seguir, o mais convidativo para lá chegarmos bem e depressa é mesmo a Estrada Nacional 103 Chaves-Braga, mas como para estes passeios não devemos ir com pressas, eu recomendo mesmo uma das outras alternativas.

 

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Desta vez e de modo a podemos desfrutar da imagem de boas-vindas à aldeia de Codessoso com o postal que se vê desde o alto da Aldeia da Venda Nova, proponho o itinerário via Boticas e Salto. Com saída de Chaves pela EN103 até Sapiãos e aí rumamos em direção a Boticas, tomamos depois a R311 em direção a Salto, sem entrar em Salto, pois antes deveremos tomar a estrada que nos levará à Venda Nova e de regresso à EN103. Chegados à Venda Nova, viramos em direção a Chaves e logo a seguir, quase junta à Venda Nova temos Codessoso. Para o regresso a Chaves, aí, poderá vir sempre pela EN103. Mas fica o nosso habitual mapa para melhor orientação.

 

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E vamos ver o que os documentos, livros e outros dizem sobre Codessoso, começando pelo livro Montalegre que nos leva par “O último enforcado em Montalegre”. Como o texto é longo, se quiser retome o post após a citação, mas recomendo a leitura, pois é história é interessante:

 

O último enforcado em Montalegre

 

Diz-se que quem conta um conto aumenta um ponto. Hoje, o conto não pára por aí. Há quem, ao recontar o conto e até a história, lhe aumente meia dúzia de pontos.

Todavia, o último enforcado em Montalegre constitui um facto histórico graças ao meu inolvidável amigo, José Jorge Álvares Pereira, que em boa hora decidiu resgatar às garras do mito e da lenda, atendo-se aos documentos escritos duma testemunha contemporânia e que assistiu à execução da pena.

O texto que aparece entre aspas é fruto da tradição, o que vai em itálico é do Padre José Adão dos Santos Álvares, que o publica na Revista Universal Lisbonense, tomo II, página 142-144, e que Álvares Pereira consultou.

Há apenas duas coisas que o próprio tribunal não dilucidou e que o pobre criminoso (como em toda a matéria acusatória) não se importou em esclarecer: é o nome oficial do criminoso e a confissão dos crimes de que foi acusado.

Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “nasceu, em 1815, José Fernandes, filho natural de Senhorinha Fernandes. Tinha uma irmã, igualmente filha de pai incógnito e a que a história não recorda o nome”. Estes Fernandes eram conhecidos pela alcunha de “Gaios de Codessoso” que, entre nós, as famílias também podem ter alcunhas.

Como o rapaz não se dedicasse a nenhum ofício e andasse sempre de vago, puseram-lhe a alcunha de “Bagueiro”. Aliás, é termo muito ofensivo, que se dá também aos burros e que o resto do país mal conhece enquanto tal. Os nossos dicionaristas ignoram-no por completo com tal sentido. Não admira pois que o próprio correspondente da revista, mas não o tribunal, lhe juntasse ao nome a alcunha “Begueiro”, pronunciada (e escrita) à moda do Minho. A verdade é que o homem, de  22 anos, de relações cortadas com o trabalho e sem rendimentos teria de arranjar meio de subsistir. “Roubava”.

Encontrando-se um dia na taberna das Alturas, viu ali entrarem para comer dois viajantes de Braga: a “viúva Inácia Joaquina e o menor Francisco Baptista”.

 “Diz-se que tinham ido a Chaves buscar uns magros tostões que dois canteiros seus familiares ganhavam na reconstrução das muralhas. Comida a bucha, a mulher pagou e disse ao taberneiro: Graças a Deus que ainda aqui levo trinta reis! Saíram mas foram logo seguidos pelo Bagueiro que lhes apareceu, fora do povo, oferecendo-se para lhes indicar o melhor caminho para Braga. Quando chegaram ao descampado enorme, onde mora a Senhora do Monte, o Bagueiro pediu à mulher os trinta mil reis! Quando a viúva lhe ia a dizer que só tinha trinta reis, já caíra morta. O mesmo aconteceu ao rapaz logo a seguir. Foi preso, um mês depois, na taberna de Codessoso. Conduzido à Senhora do Monte, onde ainda estavam os cadáveres, confessou apenas que os tinha acompanhado. Foi julgado, quase quatro anos após o crime e condenado à pena de morte na forca. A execução da pena demorou mais um ano e meio; aconteceu a 17 de Setembro de 1844, devido ao pedido de clemência dirigido à rainha D. Maria II. Pedido rejeitado.

Corre entre nós a versão ridícula de que o condenado, já no patíbulo, terá pedido a presença da mãe para se despedir. Então, em vez do beijo de despedida, ter-lhe-ia cortado o nariz com uma feroz dentada. Episódio inventado e torpe.

A sentença resume-se ao seguinte: É acusado o réu José Fernandes, solteiro, trabalhador… primeiro, de ter num dos dias do mês de Abril de 1838, na serra das Alturas, assassinado e roubado a Inácia Joaquina… e Francisco Baptista…; segundo, havendo-os previamente enganado… e fazendo-lhes crer que havia passagem de tropas nas Alturas (sic) e que deviam evitá-las; terceiro, de ter, na ocasião em que foi preso, em uma taberna do lugar de Codessoso da Venda Nova, no dia 21 de Maio 1838, sido encontrado com um pau de chuço, uma choupa e uma faca de ponta aguda.

Circunstâncias agravantes apontadas no libelo:

 … ao se encontrar junto aos cadáveres dos assassinados um chapéu velho pertencente ao réu;

… se ter visto a este nos últimos dias do mês de Abril um capote velho cor de pinhão que algumas pessoas asseveraram tê-lo visto ao falecido Francisco Baptista;

… sendo conduzido o réu ao lugar em que se achavam os cadáveres… já meios consumidos e devorados, ali confessou ter acompanhado os referidos indivíduos assassinados por caminhos transversais;

… finalmente, … o réu padece notas de opinião de ladrão, salteador e assassino.

Alusão do juiz à defesa do réu:

- Defende-se o réu alegando que é um cidadão bem comportado, que ganha a sua vida honestamente por meio do trabalho e que nunca padeceu notas de ladrão, salteador ou assassino e que nunca usara de armas defesas e que as que foram encontradas na casa em que foi preso não eram suas.

- Portanto, pelo que dos autos consta em vista da decisão do júri e os princípios de direito criminal em que me fundo, condeno o réu José Fernandes, solteiro e jornaleiro do lugar de Codeçoso da Venda Nova, a morrer morte natural para sempre, levantando-se para esse fim uma forca no lugar do Toural desta Vila. Pague o mesmo réu as custas dos autos.

Audiência geral em Montalegre, 21de Janeiro de 1842.

João Carlos de Oliveira Pimentel

O autor do relato desta execução é o padre José Adão dos Santos Álvares que também se assinava José Adão dos Santos Moura. Foi filho do médico José dos Santos Dias, ambos naturais do Cortiço, freguesia de Cervos. O Padre, ao tempo, paroquiava São Vicente da Chã e era correspondente de várias publicações além da Revista Universal Lisbonense. Ao enviar a notícia 3502 à Revista prestou-nos um excelente serviço enquanto barrosões e cidadãos. Contudo, comete pequenos lapsos exclusivamente devidos ao isolamento em que as povoações viviam. E parece que soou a hora de relatarmos apenas o que realmente é, sem ofensa para ninguém, nem receio de dizer a verdade.

O réu chamava-se José Fernandes, por alcunha o Vagueiro, filho de Senhorinha Fernandes, da casa dos Fernandes, por alcunha os Gaios, de Codessoso do Arco, antiga freguesia de São Simão e, agora, lugar da freguesia de São Pedro da Venda Nova. O vocábulo Begueiro foi importado do Minho. Os Barrosões, querendo significar o animal de carga, o burro, dizem vagueiro, ou melhor Bagueiro . E era assim que chamavam ao José, dos Gaios de Codeçoso – o Bagueiro!

Veio o réu da cadeia da Relação, no Porto, (onde alguns anos depois foi cair o célebre romancista Camilo mais a sua paixão). Trazia uma escolta de cinquenta soldados de Infantaria nº2 e foi despedir-se de sua mãe e da irmã a Codeçoso continuando em direcção à Capelinha da Senhora do Monte. “Consta que a sua infeliz mãe, uma desgraçadinha viúva o seguiu longo tempo na mais viva consternação e que obrigada a tornar para trás, caiu de cama onde se conserva”. Assim se rejeita a tradicional cena do beijo uma vez que a mãe não assistiu à execução. 

O Bagueiro chegou a Montalegre, “no dia 13 de Setembro de 1844, pelas 10 horas e entra logo na prisão. Fuma constantemente e bebe água”.

Dia 1, ao meio-dia, chegam os executores; ele vê-os das grades da prisão e deixa a meio a refeição. Prestam-lhe apoio religioso (e psicológico) quatro padres, revezando-se ao longo do dia.

 “No dia 16 ouve três missas e comungou. A seguir deita-se e perde quase todo o alento de que vinha dando mostras. Para o fim do dia revela extremo abatimento; mostra-se compungido mas resignado; recita jaculatórias e beija repetidamente um crucifixo; não come, só bebe água. Enquanto batem as horas, conta-as e faz saber o tempo que lhe resta de vida. Reconcilia-se várias vezes porque quer morrer como cristão”.

“Diz-se que, de madrugada, as sentinelas adormeceram e ele veio ao Toural ver o patíbulo onde seria executado. Regressado à prisão acordou as sentinelas e disse-lhes que não fugira porque queria pagar os seus erros e ser recebido no paraíso”.

No dia 17 voltou a confessar-se. “São onze e meia; chega a irmandade da misericórdia e os executores com alva e corda entram; não desanima; vestem-no, cingem-lhe o baraço; ele se presta com toda a resignação e ajuda a acomodar as voltas da corda na prisão das mãos; saem para a praça do Toural, a pequena distância, a misericórdia com o painel de Nossa Senhora, um minorista com um crucifixo voltado para o padecente; segue-se este caminhando a pé acompanhado dos eclesiásticos… e os dois executores de casaco e calça preta… Chegam à Capela de São Sebastião, na dita praça onde o capelão da misericórdia celebra o santo sacrifício da missa; aqui o padre Manuel Caetano faz uma alocução ao réu e ao povo toda de sentimento e compunção… Dirigem-se para o centro da praça onde se ergue o patíbulo… o padre reza e exorta a uma forte confiança na protecção da Senhora e com breves e patéticas orações o anima a subir. Simões, o executor mais novo, o esperava já no cimo do patíbulo. O padecente pede novamente água, e depois ele próprio, com voz sonora e inteligível pede perdão a todos: dá adeus ao mundo, implora a protecção de Maria Santíssima… cede custosamente o crucifixo; lança-lhe o algoz o capuz.

… num choro geral e extraordinários alaridos dos espectadores anunciaram que tudo estava consumado. A execução diz-se que fora pronta; mas não tanto quanto por ventura o pede a humanidade.

O cadáver foi pela Irmandade da Misericórdia conduzido ao cemitério da Matriz”. A tudo isto assistiu, às carrachuchas de seu pai, uma criança de sete anos que foi meu avô. Dizia ele que a administração concelhia envidava esforços no sentido de que cada família se fizesse representar nas execuções das penas de morte “pela cabeça de casal” e o seu herdeiro mais jovem mas “em idade de razão”. Fica assim justificada uma assistência de cinco mil pessoas, o que constituía um terço da população residente no concelho de Montalegre por esse tempo.

A título de nota marginal, cumpre saber que estiveram presentes dois executores, vulgo carrascos. Um deles era o carrasco oficial e legal, natural de Capeludos de Aguiar, de seu nome Luís Negro. Foi um facínora abominável e soldado dos dragões de Chaves. Condenado à morte na forca viu a sua pena comutada em prisão perpétua ao aceitar, com paga por cabeça, o ofício de carrasco no funcionalismo dos tribunais. Mas, afinal, o Negro não tinha a alma tão negra como o pintavam! O padre José Adão não quis ver a execução toda mas nós sabemos que quem lançou o capuz ao réu foi o Simões (figura sinistra que pensamos ter sido um tal José Ramos Simões, assassino confesso e condenado à pena máxima. Foi-lhe também comutada a pena por ter aceitado ser executor de Alta Justiça. Era ele a quem o Negro pagava para lhe fazer o serviço e, pelos vistos, fazia-o bem por ser de avantajada estatura. Lançou-se, abraçado ao condenado, para que com o seu peso a morte lhe chegasse mais depressa. O Luís Negro, carrasco legal, pagava portanto do seu bolso a quem fizesse tal serviço e desse o fatal abraço ao condenado! É o que diz o Visconde de Ouguela no seu trabalho “O último carrasco”; o Camilo, nas “Noites de Insónia”, o dá a entender e o padre José Adão na sua notícia para a revista e eu aprendi de meu pai e tios.

De todo o modo, o Luís Negro não levou muito trabalho, desse dia em diante, com execuções, a norte do Mondego. Com efeito, só pagou e recebeu estipêndio em mais duas execuções: a do Manuel Pires, natural da Rua, concelho de Sernacelhe, salteador e assassino conhecido por Russo da Rua, enforcado a 8 de Maio de 1845. O último acto rancoroso do comportamento ferino do Russo deu-se “quando já pendente nos ares e cavalgado do verdugo, mordê-lo rijamente na perna esquerda!” Dessa dentada safou-se o Luís Negro! Finalmente, a 19 de Setembro de 1845, no Largo do Tabulado, em Chaves, assistiu à execução de José Maria, o Calças. Andava, por esse tempo, muito acesa a luta contra a pena de morte. Para crimes políticos somos nós os pioneiros pois abolimo-la, em 1852 e para os crimes civis, em 1867.

Todavia, após a Patuleia foram rareando as condenações à pena capital e essas eram comutadas em penas perpétuas ou de degredo para as costas de África.

Mas Luís António Alves, por alcunha o Negro, executor de Alta Justiça, cumpriu integralmente a sua pena pois morreu na cadeia do Limoeiro, na primavera de 1874, vinte anos depois do Vagueiro de Codessoso. Paz às suas almas.

 

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Só a titulo de curiosidade, refere-se no documento que atrás fica transcrito o último enforcamento em Chaves, o de José Maria, o Calças, em 19 de setembro de 1845, que ao que consta por cá (em Chaves), era natural da aldeia de Faiões, que muitas vezes, erradamente, também se diz ter sido o último enforcado em Portugal. Mas não, o último condenado à morte em Portugal e último enforcamento, foi o de José Joaquim Grande e aconteceu em 22 de abril de 1846. A pena de morte para crimes civis só seria abolida em 1 de julho de 1867, no entanto o código de justiça militar em Portugal manteve a pena de morte, que só seria abolida no pós 25 de abril, mais precisamente em 1976.

 

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Por falar em mortes e mesmo sem haver pena de morte para tal, o facto é que o comunitarismo barrosão nas suas várias formas em que existia, também está condenado à morte, esta natural, vítima da modernidade, mas também do despovoamento rural. Boi do povo, por exemplo, penso que já não existe nenhum, fornos do povo ainda vão existindo, alguns ainda utilizados esporadicamente, vezeiras, a única que vi nos últimos tempos foi em Santo André, não sei se existirão mais. O que caiu em desuso quase total foram os tanques e lavadouros coletivos, hoje secos, sem água, apenas servindo para algumas expressões de “arte de rua”, revolta ou denúncias…

 

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Até a natureza parece, ou está mesmo a ser vitima da modernidade, pelo menos em algumas irregularidades relacionadas com o tempo meteorológico, contudo, continua fiel a si própria quando nos surpreende com os seus fenómenos naturais, como os seus arco-íris, as suas auroras boreais, os seus reflexos (como o da última imagem), autênticas obras de arte, mas também aqui, principalmente nestas últimas, para as ver,  também é preciso “que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”. Pois essas manifestações de arte estão lá, só não as vê quem não quer ou quem não pode.    

 

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Continuemos ainda com a documentação disponível sobre Codessoso, agora com aquilo que diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Codessoso do Arco

 

Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

Era e é uma família toponímica abundante, com derivações e flexões e significa um local de codessos, planta semelhante à giesta. Do latino cutissu (originalmente do grego cytissu) > codesso.

Este Codessoso já se chamou do Arco (e foi sede de freguesia, sob o orago de São Simão) devido à célebre Ponte Romana. Com Argote foi elevado à categoria de Praesidium, mansione da via prima, por manifesto erro de contagem das milhas romanas que aquele arqueólogo cometeu no que foi imitado por vários outros que o seguiram de olhos fechados como José Pinheiro e mais uma dúzia deles os tais que não vão às fontes!

 

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Aqui volto de novo à questão da forma como o topónimo desta aldeia é grafado, e eu até sou do que vai às fontes, aos tanques, às minas e até torneira e chego a esta altura do campeonato completamente baralhado. A mim tanto me faz que seja Codessoso como Codeçoso, é-me indiferente, gostaria mesmo de saber é qual deles é o correto  O Autor da “Toponímia de Barroso” é perentório quando a respeito desta aldeia afirma (o sublinhado e realce é meu):  Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

 

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O mesmo autor, no livro Montalegre reforça esta mesma ideia quando a respeito do “O último enforcado em Montalegre”, artigo que neste post transcrevemos atrás na integra, afirma (o sublinhado e realce é meu) : “Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “ . No entanto a bota não dá com a perdigota, nesse mesmo artigo do enforcado o autor escreve 6 vezes Codessoso com SS e 3 vezes Codeçoso com Ç. Mas no mesmo livro, ao todo, Codessoso com SS aparece 12 vezes, com Ç aparece 6 vezes, duas das quais, quando aborda a freguesia da Venda Nova, onde se afirma Os sublinhados e realces são meus): “ Lugares da freguesia: (4) Codeçoso, Padrões, Venda Nova e Sanguinhedo.” E logo a seguir, no texto:

“A nova sede de freguesia substitui o lugar de S. Simão de Codeçoso de Arco e passou a chamar-se São Pedro de Venda Nova, tendo andado anexa a Santa Marinha de Ferral. A antiga igreja que fora transferida do vale da igreja para Venda Nova acabou por ser afogada, como toda a povoação e o cemitério pelas águas da barragem que foi inaugurada em 1950, com pompa e circunstância e onde, no desfazer da festa, afogaram dez pessoas!”

 

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Ainda o Codeçoso ou Codessoso, se fizermos um exercício e formos diretos à caixa de pesquisa na página oficial do Município de Montalegre, Codessoso com SS aparece-nos 2 vezes enquanto que Codeçoso com Ç aparece-nos mais de uma centena de vezes, sobretudo em documentos oficiais, como atas e outros. Ora, agora que estou a finalizar este post, caio na realidade e dou o dito por não dito, pedindo desculpas pela minha falta de coerência. Assim, no texto que é de minha autoria, onde escrevi Codessoso com SS deveria ter escrito Codeçoso com Ç, e este é definitivo: CODEÇOSO .

 

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 E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- https://www.cm-montalegre.pt/ (Consultado em 10-02-2019)

 

 

27
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Montalegre e a Feira do Fumeiro

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Vamos lá até ao Barroso aqui tão perto, num dos dias em que todos os caminhos vão dar a Montalegre, desta vez para a Feira do Fumeiro, a 27ª edição. Assim sendo, hoje não há aldeias, pois também elas estão em Montalegre, e também não há itinerários recomendados, pois qualquer um serve desde que se chegue até à Vila de Montalegre e à feira do fumeiro.

 

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Embora o nosso destino seja a feira, há tempo ainda para umas recomendações, pois a feira hoje no seu 4º dia, abrirá as portas pelas 10h da manhã e só encerrará às 20h. Há, portanto, muito tempo para feirar e para muito mais. Assim não vale a pena irmos cegos pela feira e até à feira, quero eu dizer, que pelo caminho também podemos ir em maré de apreciação, se lhes apetecer, têm tempo para passar e até parar algumas aldeias que nos vão ficar pelo caminho. Digo passar pelas aldeias, pois se formos simplesmente pela estrada que dá acesso a Montalegre, e suponho que desta vez todos irão via São Caetano, a estrada passa ao lado das aldeias. Se as quiser visitar, terá mesmo de sair da estrada principal, depois é só passar e parar se assim o entenderem, sem ser necessário voltar para trás, pois todas elas têm entrada e saída para a estrada principal.

 

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Chegados a Montalegre há também algumas visitas obrigatórias, que tanto poderão ser feitas de manhã como de tarde. Claro que o castelo é uma dessas visitas obrigatórias e a caminho dele o Espaço Padre Fontes do Eco-Museu do Barroso. Castelo que na sua intimidade tem uma leitura, mas à distância tem outro encanto, nem melhor nem pior, simplesmente diferente. Um dos pontos de apreciação obrigatória é logo imediatamente antes de entrarmos em Montalegre, após passarmos Meixedo. Vale a pena parar para uma foto, que esteja sol ou chuva, com neve ou sem ela, pois, a não ser que esteja nevoeiro cerrado, dá sempre uma boa foto. Tal como desde o miradouro da Corujeira, se não souber onde é, pergunte, pois também é um dos locais de visita obrigatória e desde onde se podem lançar olhares para muito mais além de Montalegre.

 

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Com isto tudo já devemos estar na hora do almoço, onde neste dia é obrigatório comer o cozido à barrosã, que até poderá ser parecido ao cozido à portuguesa, mas que fica a léguas de distância. E perguntarão em que é o cozido à barrosã é diferente do cozido à portuguesa? - Pois em nada, mas em tudo. Começando pela qualidade do fumeiro, das batatas e das couves, e porque não, da água que vai cozer tudo. É que há fumeiro e fumeiro, batatas e batatas, e couve e couves. E no Barroso não se brinca com os sabores, têm de ser genuínos, com batata barrosã, couve barrosã e fumeiro barrosão. E nisto do fumeiro, quem é apreciador, sabe que de terra para terra (local para local ou região para região) o fumeiro é diferente, é assim um bocado como o vinho, é todo bom, mas diferente. Por falar em vinho, o Barroso não produz vinho, mas nos restaurantes e nas casas dos barrosões, em geral, bebe-se do melhor vinho que vai à mesa. Eles sabem sempre onde há para se abastecerem.

 

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Mas mesmo sendo parecido, o fumeiro é sempre diferente e de terra para terra os gostos também diferem. Claro que os produtos alimentares de cada região vão fazendo parte da nossa dieta alimentar desde que nascemos, pois começámo-los logo a comer, ou melhor, a mamá-los da teta das nossas mães. Eles irão ser responsáveis pelos nossos sabores e gostos.

 

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Pessoalmente, na minha dieta, sempre esteve o fumeiro de Chaves e o do Barroso, ambos de excelência, mas com pormenores que faziam toda a diferença e que só mais tarde comecei a entender. Um deles, são por exemplo as filhoses de sangue, que no Barroso fazem a delícia dos pequenos almoços e vão enganando o estomago durante todo o dia, e que em Chaves não se fazem e, a grande maioria do pessoal, nem sequer sabem que existem ou como são. Sorte a minha, que com mãe de Montalegre, pai de Vila Pouca e descobertos os sabores de Chaves, lá em casa fazia-se uma mistura de fumeiro com os sabores que mais gostávamos, onde as filhoses de sangue nunca faltavam. Quanto à batata e a couve, nestas três regiões aqui faladas (Barroso, Chaves e Vila Pouca) são de qualidade, e são estes produtos, em geral, que também fazem a diferença à mesa.

 

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Há ainda outras iguarias que fazem a diferença nestas coisas do fumeiro da região, algumas delas ligadas e nascidas nas necessidades das barriguinhas de tempos felizmente passados, em que era preciso inventar um pouco para levar comida com sabor à mesa, com o pouco que havia para comer. Hoje, algumas delas,  são consideradas iguarias, como por exemplo os milhos, mas outros há, que ainda hoje fazem parte da dieta, sabores e gostos de alguns, que ainda não chegaram às mesas dos restaurantes…  

 

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E ficamos por aqui, já com água na boca. Fica também o destaque do programa da feira para hoje, pois a qualquer hora, estando cá na terrinha ou na proximidade do Barroso, ainda lá podem dar um pulo.

 

 

 

 

13
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Chã e São Vicente da Chã

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No “Barroso aqui tão perto” de hoje vamos até à Chã, ou melhor, até São Vicente da Chã, ou ambas, penso eu.

 

A passagem das aldeias do Barroso aqui pelo blog tem-se feito de maneira aleatória, isto porque alguma metodologia teria de seguir para as trazer aqui. Pensei inicialmente fazê-lo por ordem alfabética, mas para isso, na altura em que iniciámos esta rubrica, teríamos de ter o levantamento de todas as aldeias, o que não era o caso. Como sempre gostamos de ser surpreendidos, optámos por sortear a aldeia a estar aqui todos os domingos. Com alguma batota pelo meio, assim foi sendo. Acontece que a Chã calhou-nos em sorteio algumas vezes, mas tivemos de passar à frente e fazer novo sorteio, tudo isto porque desde início tive a dúvida de se a Chã e  São Vicente seriam duas aldeias, ou apena uma. Estudando a geografia do local e a proximidade daquilo que eu pensava ser São Vicente e a Chã, a distância entre ambas era tão pouca que me convenci ser apenas uma aldeia.

 

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Pois sendo então uma única aldeia, outra dúvida surgiu. Qual era afinal o topónimo da aldeia? Apenas Chã, apenas São Vicente ou São Vicente da Chã?  

 

Na verdade a Chã é toda uma pequena região que em termos toponímicos, vai aparecendo colada como apelido ao topónimo principal, tal como Travassos da Chã ou Castanheira da Chã, além de a Chã ser a freguesia de uma série de aldeia. Foi talvez por isso, o ser freguesia, que me induziu em erro ou dúvida, pois em princípio, sendo freguesia, seria também aldeia, mas não é obrigatório que assim seja. Aliás no concelho de Chaves acontecem alguns casos idênticos em que a freguesia não é aldeia, como é o caso da freguesia de Stº António de Monforte  à qual pertencem as aldeias de Curral de Vacas e Nogueirinhas.

 

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Assim, teremos mesmo de chegar à conclusão que aqui se passa o mesmo, ou seja, o topónimo da nossa aldeia de hoje será São Vicente da Chã, em que a Chã é também freguesia e região. Pois é por aí que vamos hoje, com fotografias de São Vicente da Chã mas aproveitando para falar um pouco de toda a freguesia e desta pequena região dentro do Barroso que dá pelo nome de Chã.

 

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São Vicente da Chã é uma velha conhecida minha que vem do tempo em que aí me apeava da carreira Chaves-Braga para apanhar a ligação para Montalegre. Se bem recordo penso que assim passou a ser a partir de meados dos anos 70, pois antes recordo também que o apeadeiro e ligação a Montalegre se fazia a partir do Barracão para depois seguir via Gralhós.

 

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Mas vamos então à Chã (região e freguesia) para depois ficarmos nos pormenores de São Vicente da Chã.

 

Ora a Chã, como o seu significado indica:

 

chã 
(latim plana, feminino de planus-a-um, plano, liso, uniforme, chato, fácil)

- Chão

 - plano ou extensão plana de terra.

- planície; planura; chapada; chada

- planalto

 

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E de facto assim é, todas as aldeias que pertencem à freguesia da Chã estão em terras pouco acidentadas, em planalto a rondar a cota dos 900 metros de altitude. Conhecendo a região, penso mesmo que a Chã (região) vai muito além dos limites da freguesia e bem se poderia estender para todo o planalto do Larouco e outras freguesias vizinhas que estão todas em terra de planalto na cota aproximada dos 900m de altitude

 

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Quanto à freguesia da Chã e segundo consta na página oficial do Município de Montalegre, temos o seguinte:

 

Ainda ostenta evidentes vestígios da sua importância constante nos tempos medievais e clássicos.

Cinco das suas doze povoações receberam a visita da estrada Romana – a XVII do Itinerário de Antonino: Penedones (Santo Aleixo), Travaços, São Vicente, Peireses e Gralhós. Pouco mais jovem que a via Romana é a ara que recentemente se achou em São Vicente – sinal inequívoco de que no outeiro (altarium) onde o cristianismo ergueu o templo românico, séculos antes, os povos que nos antecederam, aí adoravam o seu “Deus Óptimo Máximo”.

O mesmo lugar foi também do interesse dos reis de Portugal que o ofereceram como comenda às freiras de Santa Clara com mais duas freguesias anexas, num total de dezasseis povoações. O actual templo da freguesia é bem digno da mais atenta visita devido à obra patente dos Pintos de Donões, exímios artistas de Barroso.

 

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Outros dados da freguesia:

- Área: 51 km2

- Densidade Populacional: 14.7 hab/km2

- População Presente: 752

- Orago: S. Vicente

- Pontos Turísticos: Igreja Românica e Inscrição votiva a Júpiter (S.Vicente); Ponte Velha (Peireses); Sepulturas Antropomórficas e Ara (Penedones); Via Romana (Gralhós); Cascata de Fírvidasl; Parque de lazer de Penedones.

- Lugares da Freguesia (12): Aldeia Nova, Castanheira, Fírvidas, Gorda, Gralhós, Medeiros, Peireses, Penedones, São Mateus, São Vicente, Torgueda e Travaços da Chã.

 

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Pois aqui nos pontos turísticos, penso que são muito modestos e bem lhe poderiam acrescentar outros tantos, mas há pelo menos mais três pontos turísticos ou de interesse que seria obrigatório mencionar, deixando a paisagem natural de parte. Pois esses três pontos são: a Barragem dos Pisões; a gastronomia (restaurantes);  e as duas aldeias dos colonos (Aldeia Nova e S. Mateus), sem esquecer, claro, a arquitetura tradicional transmontana/barrosã das restantes aldeias.

 

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São Vicente da Chã

Ainda antes de entrarmos nos pormenores, fica um conselho ou alerta – Não se deixe levar a crer que São Vicente da Chã é aquilo que vê desde a Estrada Nacional 103 ou da estrada que liga esta a Montalegre, pois não é assim, aí apenas verá o que é mais recente. As suas preciosidades, estão mesmo na e à volta da sua Igreja Românica, mas para isso, terá de sair da estrada nacional, tomar a estrada secundária (M509-1) e 250m à frente, abandonar esta última, virando à esquerda até chegar à Igreja Românica a apenas 150m. Aí sim, temos tudo, a cereja e o bolo.

 

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Quanto à igreja Românica, para mim, é uma das mais interessantes que o Barroso tem, e nem sequer vimos o seu interior. Principalmente o enquadramento, mesmo com a torre sineira separada da igreja a esconder a sua fachada principal, ou será antes, com a torre sineira separada, mas a fazer parte da fachada principal da igreja.

 

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Como dissemos não é só a igreja Românica, mas também o seu enquadramento e casario à sua volta logo seguido da exuberância do verde barrosão, que quando é verde é mesmo verde, cheio de frescura que as terras com água lhe dão. Neste conjunto, mais uma pérola do Barroso, apenas um reparo. Tal como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa, e esta lá está, em forma de telhado em fibrocimento na construção mesmo em frente à igreja (15m). Não é por nada, mas destoa do conjunto, no entanto é de fácil reparo e ouro sobre azul, no reparo, era o telhado retomar a sua cobertura original, o colmo, nem que fosse e só para memória futura ou para a história das coberturas de colmo. Claro, eu sei que se trata de uma construção particular e que (talvez) não se possa exigir tal ao seu proprietário, mas aqui, como o interesse até é público e turístico, as pessoas são sensíveis a alterações e o Município, através ou com a Junta de Freguesia, poderiam e deveriam contribuir para a substituição e preservação do espaço envolvente da igreja.   

 

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Depois deste pequeno conjunto que não é mais que o centro histórico de São Vicente da Chã, temos a paisagem, com muito verde, sobretudo de lameiros limitados por estremas de arvoredo autóctone, principalmente na baixa que liga à aldeia de Torgueda da Chã. Mais além, já na estrada que liga a Montalegre, outro tipo de cultivo, menos verde. Também nesse trajeto, um monumento religioso chama a atenção de quem passa.

 

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O tal monumento, de construção recente, de um lado, no canteiro relvado, numa placa tem inscrito “Grande Jubileu – Ano 2000” e do outro lado, noutra placa, uma mensagem religiosa: “Mistério da fé para a salvação do mundo! / Glória a vós que morrestes na cruz e agora viveis para sempre. Salvador do mundo, salvai-nos, vinde Senhor Jesus”

 

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Vamos agora ao itinerário para chegar até São Vicente da Chã, como sempre a partir da cidade de Chaves e que não tem nada que enganar, pois fica mesmo junto à Estrada Nacional 102 que liga Chaves a Braga. Por curiosidade o nosso itinerário de hoje é idêntico ao do último fim de semana onde mais uma vez optamos pelas estradas secundárias em vez da estrada nacional, ou seja, via São Caetano/Soutelinho da Raia, Meixide após a aldeia outra pela estrada da esquerda até Serraquinhos, passar ao lado de Viade tomar a direção do Barracão e estramos na EN103 em direção a Braga, logo a seguir temo a Aldeia Nova do Barroso e um pouco mais à frente São Vicente da Chã. Mas fica o nosso mapa para melhor orientação.

 

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Vamos agora ao que dizem os livros e documentos.  Iniciando pelo livro “Montalegre”:

 

“Sinais dos tempos”

Vários outros monumentos da romanização se descobriram e permanecem cá testemunhando a sua origem e finalidade: marcos miliários em (Padrões, Currais, Travaços e Arcos) aras romanas em (Vilar de Perdizes, Pitões e São Vicente da Chã) estelas funerárias (Vila da Ponte/ Friães), o célebre Penedo de Rameseiros (Vilar de Perdizes) e outros.

 

Padre José Adão dos Santos Álvares (séc. XIX) nasceu no Cortiço, filho do anterior, em 1814. Foi correspondente muito conceituado de vários jornais e revistas do Porto, Braga e Lisboa. Foi pároco de São Vicente da Chã, onde jaz, e arcipreste de Montalegre. Descreveu com realismo os últimos momentos de vida de José Fernandes, o Bagueiro, último condenado à morte em Barroso, que subiu ao cadafalso em 17 de Setembro de 1844.

 

O vale do Regavão, que bordeja a freguesia pelo sul e nascente, dá passagem à via prima, aqui assinalada por um miliário gigante que depois se transformou na cruz de Leiranque. Não longe desse local houve um pisão – que passou a topónimo da barragem e mais acima a antiquíssima Vila de Mel, provavelmente a primeira “statio” (São Vicente da Chã seria a segunda ) entre as cidades de “Praesidium” e “Caladunum” – “mansiones” da dita via imperial.

 

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Quanto à “Toponímia de Barroso” temos o seguinte:

 

CHÃ

É um corónimo: nome de uma região!

Chã, como já se disse (veja Cabril) vem do adjectivo latino PLANA > CHÃ, o que implica subentender  um substantivo terra ou seara: terra chã!

 

Quanto a S.Vicente na mesma obra temos:

 

SÃO VICENTE teve culto remoto. O célebre mártir de Saragoça já gozava honras de templo importante e antiquíssimo na própria cidade de Braga. Diz o ignorado mas interessante sabedor, Almeida Fernandes, em “Cadernos Vianenses” TV (1980) pp.285, que os cultos antigos (como S. Vicente) vieram substituir cultos pagãos.

-1258, «in collatione Sancti Vicencii de Chaa» INQ 1517.

Em S. Vicente da Chã foi encontrada uma ara dedicada ao deus olimpo Júptiter Óptimo Máximo, em 2004, o que vem confirmar o que Almeida Fernandes afirma. São Vicente é o orago da extensa freguesia da Chã que, com suas anexas de Morgade e Negrões, constitui Comenda das Clarissa de Vila do Conde. Também é orago de Contim e de Campos (esta, depois de desmembrada de São Martinho de Ruivães) e foi-o  da antiquíssima freguesia extinta que teve o nome de São Vicente d’ O Gêres, junto de Pitões e a que estupidamente vão chamado Juríz.

 

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Na “Toponímia Alegre” incluída na “Toponímia de Barroso”, temos o seguinte:

 

Chã – São Vicente

Ruim sítio, ruim gente,

Coelheiros de Medeiros,

Ciganos os de Peireses,

Pretinhos de Travaços de Chã,

Cruz-veigas de Gralhós,

Viajantes de Penedones,

Carvoeiros de Castanheira,

Torgueiros de Torgueda,

De Fírvidas são salta-pocinhas e

Arranca-torgos de Codessoso da Chã.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- "chã", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/ch%C3%A3 [consultado em 13-01-2019].

-   https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ch%C3%A3 (Consultado em 13-01-2019)

- https://www.cm-montalegre.pt/pages/451 (Consultado em 13-01-2019)

 

06
Jan19

O Barroso aqui tão perto - Viade de Cima

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Em 10 de setembro passado (2018) iniciávamos esta rubrica assim: “Vamos lá a mais uma voltinha pelo Barroso, que fica aqui tão perto e que é sempre um encanto andar por ele em constante descoberta. Hoje vamos até uma das 3 aldeias que têm como topónimo Viade, neste caso, Viade de Baixo.”. Isto foi em 10/09/18, em 06/01/19, hoje, mantemos o texto, só trocamos a sua última palavra para “Cima”, ou seja, em vez de irmos até Viade de Baixo, vamos até Viade de Cima.

 

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É de prever que as três aldeias com o topónimo de Viade fiquem próximas umas das outras, e de facto assim é. Viade de Cima fica a apenas 300m de Viade de Baixo, só que um pouco mais acima, mais alta, poucos metros mais alta, talvez o “de cima” se deva ao ser “a seguir”, pois para se chegar até Viade de Baixo temos que passar obrigatoriamente por Viade de Baixo, isto por estrada normal, pois a monte, as coisas podem ser diferentes.

 

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Estou agora a iniciar a escrita deste post e parto sempre para este trabalho em branco, ou seja, inicio o post e depois é que vou à procura de informação sobre a aldeia. Não foi assim que aprendi que as coisa se deveria fazer, pois academicamente falando deveria previamente reunir toda a informação disponível, analisá-la, selecioná-la e depois sim, partir para o texto final, mas como este não é um trabalho académico, tenho alguma liberdade de escrita, e gosto de ir descobrindo as coisas, surpreender-me com elas e partilhar a emoção do momento, contudo, neste caso, prevejo que o discurso não será muito diferente daquele que tive com Viade de Baixo, à exceção de nesta última aldeia ter tido a ajuda preciosa de uma “filha” da terra.

 

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Voltando ao Viade, topónimo comum às três aldeias, suponho que aquele Viade que ainda nos falta abordar seja o mais antigo, aquele que dá pelo topónimo de Antigo de Viade, e que a seguir tivesse surgido ao lado, a pouco mais de 800 metros a aldeia de Viade de Baixo e depois a de Viade de Cima. Mas esta afirmação não tem qualquer base de apoio, sou apenas eu a supor. Dadas as distâncias que separam as três aldeias, bem poderia ser apenas Viade, com o bairro do lado e o bairro de cima, mas não é assim, e se elas estão separadas, por alguma razão será, ou seria, pois a coisa já não é de hoje.

 

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Mas tal como dizia no post de Viade de Baixo, isto de um topónimo principal se repetir em aldeias vizinhas é muito comum em Portugal, aliás no concelho de Montalegre não é caso único, pois nas Penedas (de baixo, do meio e de cima) repete-se o mesmo, também no concelho de Chaves acontece nas Assureiras (de baixo do meio ou de cima). E outras há que adotam o mesmo topónimo principal e acrescentam “Vila” a um deles, que pela lógica a “Vila” será acrescentada à mais recente. Em Chaves, por exemplo, acontece em Nantes e Vilar de Nantes ou Oura e Vila Verde de Oura, acrescentando aqui, que as três Assureiras atrás referidas (de baixo, do meio e de cima), em tempos idos, eram a Vila de Baixo, do meio e de Cima. Curiosidades que pretendem apenas ir ao encontro da origem dos lugares.



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Mas neste caso de Viade, embora exista o Viade de Baixo e o Viade de Cima, a outra aldeia dá pelo topónimo de Antigo de Viade. Quanto ao significado (origem) do topónimo principal “Viade”, é comum às três aldeias, daí repetirmos o texto que deixámos para Viade de Baixo e que rezava assim, conforme consta na “Toponímia de Barroso”  :

 

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VIADE

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

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Quanto a Viade de Cima, na “Toponímia de Barroso” , consta o seguinte:

 

Viade de Cima

A raiz é a mesma de Viade de Baixo, contudo esta localidade não está documentada a não ser no A.H.P. como “Byade de Cima”.

 

E perguntarão, o que é o A.H.P.? - Pois não sei, confesso a minha ignorância, mas como sou curioso fiz uma pesquisa rápida na NET e só me apareceram duas entidades com estas iniciais, o AHP de Associação Hoteleira de Portugal e o AHP de Analytic Hierarchy Process, contudo, puxando pela mioleira, penso que será o AHP do Arquivo Histórico Português, também poderá ser o AHP de Arquivo Histórico do Porto, com a certeza que não é do Arquivo Histórico de Vila Real, porque se assim fosse,  seria AHVR. Seja como for, no H.H.P. está lá “ Byade de Cima”...

 

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Falta a “Toponímia Alegre” da qual não vamos transcrever todo o texto, apenas referir as partes em que Viade é referida, exceto uma que fora do contexto é forte e injusta para a aldeia, tanto mais que não sabemos a que Viade de refere (antigo, de baixo ou de cima). Então diz assim:

 

Uma mulher de Viade:

Mandei fazer uma capa

Ao pisoeiro d’ Ablenda:

Ninguém se finte nos homes

Que os homes são má fazenda!

 

As outras referência, são alcunhas dos de Viade:

 

(…)

Esfola-cabras de Viade

Arribadas de Viade de Cima

(…)

Pica-sinos de Viade

 

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Como sabem fazemos estes posts/convites de visita ao Barroso a partir da cidade de Chaves, daí traçarmos sempre os nossos itinerários para chegar até ao nosso destino. Pois desta vez para o nosso itinerário de ida, vou recomendar-vos a estrada do S. Caetano, mas hoje recomendo que a primeira paragem se faça aqui, no Santuário deste Santo, para uns momentos de estar, de reflexão se quiser  ou nem que seja para encher uma garrafa de água fresca (ontem prometi parar no S.Caetano e a promessa está cumprida). Pois a seguir temos de Soutelinho da Raia, sem entrar na aldeia, imediatamente antes de aparecer a placa a anunciar o concelho de Montalegre, há um enorme rochedo junto à estrada, que é de paragem obrigatória, pois é desde aí que se vê todo o planalto do Larouco a rematar na serra. É desde este ponto que a Serra do Larouco mostra todo o seu endeusamento. Eu não fiz promessa de lá parar, mas a grande maioria das vezes paro por lá para tomar a minha dose de contemplação, mas desta vez como já parámos no S.Caetano, aqui seguimos em frente até Meixide.

 

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Em Meixide, no final da aldeia a estrada bifurca-se, com ambos os destinos dirigidos a Montalegre. Devemos optar pela estrada da esquerda em direção a Pedrário e Sarraquinhos, nesta, logo na entrada devemos entrar dentro da aldeia, atravessá-la e sair em direção a Zebral. Todas esta aldeias são interessantes, assim, se algum motivo o convidar a parar, pare, pois temos tempo para chegar a Viade de Baixo. Depois de deixarmos Zebral de lado sem entrar nela, seguimos em direção a Vidoeiro, uma das aldeias dos colonos de Salazar, deve ignorar as placas para o Cortiço, mas se passar por lá também fica a caminho, e a pouco mais de 1 km está na “estação de serviço” do Barracão, já na EN103 (estrada Chaves-Braga).    

 

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Aqui começa a segunda parte do nosso itinerário que servirá para ir e mais tarde regressar. Estando no Barracão é só seguir pela EN103 em direção a Braga. Vai passar pela Aldeia Nova do Barroso (outra das aldeias dos colonos de Salazar), por S. Vicente da Chã, por Travassos da Chã (ao lado), por Penedones e Parafita e logo a seguir aparecem as placas a indicar a entrada para Antigo de Viade, mas não é este o Viade do nosso destino de hoje, assim, continue pela EN103 e oitocentos metros mais à frente, aí sim, terá a indicação da entrada em Viade de Baixo e de Cima, à direita. Logo após Viade de Baixo já estamos no nosso destino. Mas fica o mapa por via das dúvidas.

 

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E agora as nossas impressões sobre Viade de Cima. Fomos lá pela primeira vez em 25 de maio de 2016, já a meio da tarde, num dia muito quente e já depois de termos feito uma paragem em Viade de Baixo. Sabíamos que das três aldeias de Viade esta era a mais pequena e que o levantamento fotográfico seria breve, e embora o levantamento até fosse breve, a nossa estadia prolongou-se mais que o previsto, tudo porque logo à entrada da aldeia o manejo de um fuso e uma roca nos fez parar, coisa que eu já não via desde puto, quando em casa da minha avó a via, pasmado, a manejar com mestria uma nuvem de lã a ser transformada num fio de lã.

 

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Parámos. Quem manejava, também com mestria, a roca e o fuso era a D. Maria Pires, então com 86 anos e que hoje, espero que continue com a sua simpatia e arte de bem receber à barrosã, terá 88 anos, vivia com o seu marido então com 93 anos. Ficámos encantados a ver o fio de lã a nascer e a enrolar-se no fuso, igualmente com o fio a formar-se a partir de uma nuvem de lã apegada à roca. Claro que entre a contemplação e apreciação a conversa ia rolando. Gente nova na aldeia , não havia, agora só velhos, os filhos todos para fora. Já não recordo quantos disse ter, mas recordo que um, tinha restaurante em Lisboa, lá onde param os artistas e o teatros, presumi ser o Parque Mayer, mas para o caso nem interessa.   Nem que fosse só por esta conversa e pela mestria do manejo da roca e o fuso a fazer fio de lã, a ida a Viade de Cima já tinha valido a pena.

 

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Mas tinha mais, primeiro a paisagem com vistas lançadas para a barragem dos Pisões e para a Serra do Barroso, com os cornos do Barroso quase no alinhamento da aldeia. Mas também a verdura dos seus campos chamavam a atenção da objetiva, idem para o casario tradicional de granito à vista, pena os abandonos e as ameaças ou mesmo ruinas, mas no geral, é mais uma aldeia barrosão que não deixa ficar mal o Barroso e que merece uma visita.

 

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Como aldeia pequena que é Viade de Cima, era de prever não haver muita literatura sobre a povoação e de facto assim é. Nos nossos locais habituais de pesquisa, nada consta, nem no livro “Montalegre”, ou aliás, aí consta a nome da aldeia mas apenas para mencionar que é um dos lugares da freguesia de Viade de Baixo. Informação que hoje em dia já não é correta, pois hoje, após a reforma administrativa das freguesias, passou a ser União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas. Fora esta referência, apenas encontrámos um texto do Padre Lourenço Fontes, intitulado “ O Reino das 7 maravilhas é Barroso” onde entre as mil e uma maravilhas do Barroso, apresenta os  “7 Canastros: Vila da Ponte, Outeiro, Cervos, Viade de Cima, Paredes do Rio, Mourilhe”

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas, hoje apenas uma,  e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

30
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Ano de 2018

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Hoje é dia da nossa habitual rubrica dos domingos  “O Barroso aqui tão perto”.  Acontece que neste fim de semana até são os  seus dois dias dedicados ao Barroso, pois ontem (sábado) andámos todo o dia  por lá em recolha de algumas imagens em falta e à descoberta de alguns pormenores, e hoje (domingo) calha-nos a publicação do post. Um pouco apertado para o podermos dedicar a uma aldeia, é que entre escolher imagens, fazer pesquisas para o texto e elaborar o post,  demoramos sempre umas largas horas, trabalho que costumamos fazer aos sábados e às vezes ainda se prolonga para domingo. Na impossibilidade de o fazermos, optamos por um post alternativo, também dedicado ao Barroso, mas em jeito de balanço, por um lado, dando conta de todas as publicações que fizemos este ano, por outro, dando conta  daquilo que nos falta fazer nesta aventura de deixar aqui todo o Barroso, para já apenas o Barroso do Concelho de Montalegre, embora pontualmente também já vá surgindo o Barroso de Boticas.

 

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Cascata de Cela Cavalos

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Trecho de Currais

Então para este post em que não vamos ter tempo de trazer aqui uma aldeia, nem de selecionar novas fotografias, vamos deixar aqui algumas imagens daquelas que fomos deixando aqui durante todo o ano, uma seleção com algumas imagens que nos deu gozo registar, mas também uma listagem das aldeias que já abordámos até hoje bem como as aldeias ou temas que faltam passar por aqui.

 

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Fafião - Escultura do lobo

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Serra do Larouco vista desde a Serra do Leiranco

Assim, desde janeiro até dezembro deste ano de 2018, deixámos por aqui 45 publicações com aldeias e temas do Barroso:

 

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Mas para terminarmos o concelho de Montalegre, ainda nos faltam percorrer muitos caminhos, aqui no blog, pois no terreno já foram todos percorridos, exceção para alguns pormenores e temas que também aqui queremos trazer, mas que por várias razões ainda não pudemos ir aos locais ou abordar os temas, principalmente por falta de disponibilidade nossa ou de terceiros e pela dificuldade dos acessos.

 

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Ponte da Misarela

Para já, daquilo que já temos em recolha, do concelho de Montalegre faltam ainda passar por aqui:

 

- As 6 aldeias dos colonos, nomeadamente: Aldeia Nova do Barroso; Aldeia Nova de S.Mateus; Aldeia do Alto Fontão; Casais da Veiga; Criande e Vidoeiro.

- Antigo de Viade

- Barracão

- Borralha (Minas)

- Cabril

- Lama da Missa

- Paradela do Rio

- Peireses

- Pisões

- Pitões das Júnias

- Salto

- Chã (S.Vicente)

- Tourém

- Viade de Cima

- Vila da Ponte

- Vilar de Perdizes

- Sede do Concelho - Montalegre

 

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Alminhas - EN103 próximas da aldeia de Padrões

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Entardecer na Barragem dos Pisões

Claro que o Barroso não se esgota no concelho de Montalegre,  nem nas suas aldeias e vilas. Muito temas há que merecerão uma abordagem mais específica e outro tipo de tratamento, por isso, enquanto este blog existir, continuará a ter os domingos e/ou outros dias para abordar esses temas, assim tenhamos nós disponibilidade e meios para o fazer e eles passarão por aqui. À nossa maneira, claro, carregados de boas intenções, com os nossos defeitos, mas, também algumas virtudes havemos de ter e, sempre, com a mesma dificuldade de ter acesso à informação que gostamos de partilhar. Contudo, a ideia é mesmo mostrar o Barroso de modo a servir de convite a uma visita, a esse (este) Barroso que temos aqui tão perto, lembrando que este blog é made in Chaves, mas  na companhia dos nossos vizinhos e com o espirito de boa vizinhança, afinal de contas todos eles pérolas do colar chamado Reino Maravilhoso, tal-qual Miguel Torga tão bem o descreveu. Fica um cheirinho:

 

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Reigoso

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

(...)

Miguel Torga, In Reino Maravilhoso

Se quiser ter acesso a todo o texto do “Reino Maravilhoso” de Miguel Torga, com ilustração nossa (fria de inverno), clique aqui.

 

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Sacoselo

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Sirvoselo

Pelas minhas contas teremos ainda localidades do Barroso de Montalegre pelo menos para mais meio ano, mas é natural que o restante Barroso, o de Boticas e/ou outras localidades de outros concelhos que pertencem igualmente ao Barroso comecem também a ter lugar aqui no blog, no entanto, o Barroso de Montalegre continuará por aqui após publicação de todas as suas localidades, não com posts tão completos como o têm sido até aqui, mas com algumas imagens que merecem ser partilhadas e que não couberam nos respetivos posts das localidades a que pertencem, ou então imagens que não são propriamente de localidades mas temáticas, como o poderão ser a neve, a água, albufeiras e rios, as cascatas, as serras, a fauna e flora, usos e costumes comunitários, pessoas, festas e tradições,  etc, O Barroso tem um manancial de informação e imagens quase inesgotável,  ad aeternum.

 

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Mulher com capa de burel em Travassos do Rio

 

E com esta me bou!

 

Mais uma vez fica também o aviso de que as imagens de hoje não são inéditas, é uma seleção (1 dúzia)  das que foram publicadas ao longo deste ano de 2018 nesta rubrica “O Barroso aqui tão perto”. Outro aviso é o de que neste post apenas foram mencionadas as aldeias que passaram por aqui no ano de 2018 e as que faltam passar. As restantes aldeias já foram abordadas nos anos anteriores, pois desde o ano de 2013 que temos feito publicações regulares sobre as aldeias do concelho de Montalegre, publicações essas que têm link na barra lateral deste blog. Estão lá todas as aldeias do Barroso por ordem alfabética, tal como no memu superior do blog, mas aí estão no botão “Barroso”, mas aí, estão por ordem cronológica de publicação.

 

 

 

 

 

23
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Cavalos, Chãos e Vila Boa

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” não vamos para uma aldeia ou localidade, nem duas, mas para três que até poderiam ser mais ou apenas uma. Vai ser difícil de explicar e justificar em palavras esta decisão, e vai-me obrigar a uma introdução explicativa que talvez não explique nada em particular, mas um todo que é real, de um Barroso feito de Barrosos, aqui e hoje a uma escala mais pequena que se vai ficar pelas três localidades que hoje vamos aqui, e que são elas:  Vila Boa, Cavalos e Chãos.

 

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Umas palavras em jeito de introdução

Seguindo o terreno, sem olhar a estradas e caminhos, de Norte para Sul, temos Vilas Boas, a seguir Chãos e depois Cavalos, mas tudo isto, no terreno, é muito confuso. Se não fossem as placas indicativas da estrada e sabermos que estas três localidades existiam, eu diria que estava em Cabril, ou bairros de Cabril. Não é por nada, mas entre Vilas Boas e Cabril são apenas 800 metros e é entre estas duas localidades que se localizam Cavalos e Chãos.

 

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Já perceberam que estamos num outro Barroso dentro do Barroso, é o Barroso de um povoamento mais disperso que se vai desenvolvendo em linha, no caso, numa linha paralela ao Rio Cabril, em terras baixas com cotas entre os 250 m de altitude junto ao Rio Cabril, ou seja, e só para termos uma ideia e uma comparação, são 100m abaixo da cota do Vale de Chaves, mas como aqui não estamos a falar de vales mas de localidades adossadas à encosta da montanha com pendente para o Rio Cabril, Vila Boa (lá muito mais no alto) atinge a cota dos 390m  (idêntica à cota das terras mais baixas de Vilar de Nantes ou Samaiões, ainda do Vale de Chaves).

 

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Claro que o que deixo atrás em nada corresponde à realidade que se vive in loco, pois quem ler as palavras que deixei vai ficar com a ideia que andamos por outras paisagens, mas não é assim. Como disse estas aldeias ou localidades situam-se numa encosta de montanha com pendente para o Rio Cabril, na sua margem esquerda, mas mesmo em frente, a outra pendente da montanha na margem direita do rio, vai acima dos 1400m de altitude, é que mesmo em frente temos a grande muralha e imponência da Serra do Gerês. Isto é complicado de explicar e descrever em palavras, há mesmo que ir ao local para ver e sentir este ambiente e como o verde vivo da vegetação da margem direita do Rio Cabril se vai transformando numa paisagem sem vegetação onde os grandes rochedos são reis e senhores assumindo um colorido próprio com vários matizes ténues que terminam ou não a confundir-se com o próprio céu, dependendo da luz e da meteorologia do dia, havendo dias de chuva em que a grande serra nem se deixa ver. Há portanto que ir por lá várias vezes e em várias épocas do ano.

 

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É, o Barroso é assim, não lhe chegava pertencer ao Reino Maravilhoso que Torga tão bem descreve, como tem de ter todo um colar de pérolas matizado, isto quando à natureza não lhe dá para cobrir tudo com um manto branco, como se Deus fizesse um intervalo na vaidade destas pérolas coloridas para descansar a vista na pureza do branco. Da maneira como vou pintando esta tela do Barroso, quase parece que se vive no paraíso, mas não é bem assim, pois são terras de vida difícil que chegam a doer, onde sobretudo se sobrepõe um sentimento telúrico, com uma vida fortemente ligada ao chão, à terra que os viu nascer e os fez para a vida de viver o Barroso onde cada habitante é um Barrosão e não um Barrosinho,  ou como Torga diz no “Reino Maravilhoso”: “Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão.”

 

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Cavalos, Chãos e Vila Boa

Vamos então às nossas três localidades de hoje.

 

Esta descoberta do Barroso que há anos me propus fazer, foi feita em muitas etapas, com roteiros previamente definidos e mais ou menos pensados para um dia completo. Passei por estas localidades algumas vezes, ainda antes de fazerem parte do roteiro do dia. Numa dessas passagens, uma placa da estrada chamou-me a atenção, é que a mesma nunca me tinha aparecido nos meus mapas de estudo nem nos mapas turísticos de Montalegre. Cavalos, era o que estava escrito na placa e fui andando à espera que a aldeia surgisse mas quando dei conta estava em Cabril. Isto, segundo o registo da fotografia que então tirei à placa, aconteceu em julho de 2016.

 

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Passado 1 ano, mais precisamente em agosto de 2017, finalmente Vila Boa, Cavalos e Chãos, entre outras, calharam no roteiro do dia. Parámos em Vila Boa, coisa breve, pois a vila é boa mas pequena e de seguida tocámos o carro para Cavalos, mas a placa de Chãos fez-nos sair da estrada para fazermos primeiro o seu registo, e lá fomos até Chãos, igualmente pequena, a uns escassos 200 ou 300 metros abaixo de Vila Boa. Registámos algumas imagens e bota de novo para trás, para Cavalos. De regresso à estrada mais principal, fomos registando o que fomos vendo com interesse para a nossa objetiva. Passados uns escassos 200 a 300 metros estávamos em Cabril. Voltamos atrás, voltamos à frente e era mesmo assim. Cheguei à conclusão que Cavalos é assim como o efluente de um rio, desagua em Cabril.

 

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Assim, as nossas imagens de hoje são apenas destas três localidades correndo o rico de algumas delas já serem mesmo de Cabril, o que por aí nem há mal nenhum, pois todas estas localidades pertencem à freguesia de Cabril, mas paramos na sua entrada, pois Cabril irá ter aqui o seu próprio post, e para breve, pois já são poucas as aldeias do concelho de Montalegre que nos faltam abordar.

 

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Itinerário e localização

Quanto à localização o assunto já está mais ou menos abordado. Sabemos que as três aldeias ficam juntas a Cabril, já é uma boa referência, mas indo pela habitual referência dos rios e das barragens, as três aldeias ficam também próximas do Rio Cabril, na sua margem esquerda, imediatamente antes deste rio, teoricamente,  desaguar no Rio Cávado, pois na prática já desagua na barragem de Salamonde.

 

Quanto ao itinerário para chegarmos a esta três aldeias, como sempre a partir de Chaves, é via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia, depois Montalegre, aqui desce-se ao campo de futebol e continua-se sempre por esta estrada até à aldeia e barragem de Padrela. Aqui atravessa-se o paredão da barragem para a outra margem e seguimos sempre por essa estrada, a única que existe até chegarmos As nossas aldeias de hoje, mas antes terá de passar (sempre ao lado) de Sirvozelo, Cela, Lapela, Azevedo, Xertelo, Chelo e Bosto Chão, logo a seguir será Vila Boa, uma das nossas aldeias de hoje, as outras duas, são logo a seguir. Mas fica o nosso habitual mapa.

 

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Quanto aos topónimos, vejamos o que nos diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Cavalos

O topónimo chega-nos de “cavalo” (pelo latino popular caballu) mas com outros significados. Assim, pode o nome dever-se ao facto de se tratar de sítio de pedras cavaleiras ou penedos encavalados; Pode também referir-se a muitos animais dado que a categoria social dos habitantes o exigia. Com efeito,

- 1258 «se algum destes habitantes tiver cavalo, escudo e lança, defenda o seu tributo…» como como se afirma nas INQUIRIÇÕES de 1258. Tanto uma como outra explicação, ambas se ajustam ao topónimo e estão em consonância com os topónimos anteriores e seguintes. A zona cabrilense é cheia de penedos sob os quais os seus habitantes fazem ainda hoje as suas adegas de verdinho e aguardentes afins.

 

Chãos

Plural de chão – por planu. É adjectivo e pressupões o substantivo campos, prados.

 

Vila Boa

Villa < Vila e Bona < Boa. Não aparece nas inquirições nem no Arquivo Histórico Português (1531). Esta Vila Boa pertence a Cabril.

 

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Quanto à “Toponímia Alegre”, temos:

 

“Apelidos” de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava-touças de Sertelo,

Escorricha-picheis de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Bufos de Vila Boa,

Lagartos de Fontaínho,

Cinzentos de Chãos,

Carrapatos de Cavalos,

Paparoteiros da Vila

Dente-Grande da Ponte,

Pousa-fois na Chã de Moinho,

Raposos de Busto-Chão,

Esfola-vacas de São Ane,

Ferra-bestas de Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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 Na Etnografia Transmontana I, de Lourenço Fontes,  aparecem os “apelidos de Cabril”, lá intitulados como “Alcunhas da Freguesia de Cabril” e com algumas variantes, uma delas diz respeito a Chãos e Cavalos não aparece:

 

Alcunhas da Freguesia de Cabril

 

Moeda falsa de Lapela,

Vinho-azedo de Azevedo,

Cava touça de Xertelo,

Escorricha capichés de S. Lourenço,

Rabões de Chelo,

Lagartos de Fontaínho,

Bufos de Vila Boa,

Cinzeiros de Chãos,

Dente grande da Ponte,

Esfola vacas em Soane,

Pousa fois em Chão de Moinho

Ferra bestas em Pincães,

Putaria de Fafião.

 

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E o livro “Montalegre” o que nos diz sobre as nossas aldeias de hoje!?

 

Em relação a Vila Boa e Cavalos,  apenas a referência de pertencerem à freguesia de Cabril e à sua altitude, mas isso já nós o dissemos atrás.

 

Quanto a Chãos, temos uma referência ao Penedo do Touro, mas como são abordados outros penedos na região, transcrevemos todo o parágrafo:

 

São igualmente célebres por serem incomuns: o penedo do Esporão (S. Lourenço Cabril), a Laje dos Bois (Lapela-Cabril) o Penedo da Pala (Cela-Outeiro) o Penedo da Caçoila (Pedrário-Sarraquinhos) A Casa dos Mouros ( Morgade), o Penedo Sagrado (Salto) A Mesa do Galo (Borralha-Salto), o Penedo da Caldeira (Vila da Ponte), o Castelo (Fervidelas), A Fraga, os Cornos da Fonte Fria, Altar de Cabrões (Pitões), o Altar da Moura (Frades-Cambezes) A Pedra Bolideira (Ponteira – Paradela), o Penedo do Touro (Chãos-Cabril) “ ao abrigo dele se podem defender das inclemências do tempo mais de duzentas cabras”, os Pedralhos (Vila da Ponte) onde escreviam o nome os emigrantes para o Brasil, alguns dos quais nunca regressaram à terra, a Pedra da Gola Furada e a Pedra que Tine (Seselhe), o Penedo Buraco da Serpe (São Ane - Cabril) e uma infinidade de outros mais ao longo do concelho de Montalegre.

 

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Ficamos por aqui, mas antes ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

18
Dez18

O Barroso aqui tão perto - Travassos do Rio

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Ontem deixámos uma amostra no blog da nossa aldeia convidada de hoje para esta rubrica de “O Barroso aqui tão perto”. Uma amostra e simultaneamente um desafio. Tratava-se da primeira imagem que abre o presente post e o desafio era descobrir de que aldeia se tratava. Ninguém respondeu, mas o mais certo é que ninguém a tivesse reconhecido, mesmo tratando-se de uma aldeia bem conhecida.

 

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Estas aldeias do Barroso, dependendo de onde se veem, mudam de feições. Têm este dom de se travestir, mais para encantar do que para baralhar. Têm também o dom de ao longe nos provocarem e despertar em nós a vontade de as visitar e de conhecer a sua intimidade. Entendamos a coisa como um convite, e o primeiro que dela recebi, já foi há muitos anos, inícios dos anos setenta do século passado, ainda eu era um puto, mas já olhava para as pequenas manchas de casario que floriam no meio das montanhas verdes. Aconteceu na primeira vez que fui a Tourém, não à ida, mas no regresso, quando ela se dá a conhecer na descida para Covelães.  

 

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Revelado o segredo, hoje logo no título do post, entremos então na nossa aldeia de hoje, que dá pelo nome de “Travassos” e pelo apelido de “do Rio”, ou seja,  Travassos do Rio, e é do Rio porque pertence ao conjunto de aldeias que adotam este apelido por se localizarem junto ao pequeno vale que se desenvolve ao longo do Rio Cávado a jusante da Vila de Montalegre, mas também para se distinguir da outra aldeia que é também Travassos, mas no caso Travassos da Chã, esta última juntinha à Barragem dos Pisões.

 

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Continuemos então com o nosso itinerário para chegar até lá e com a sua localização, agora mais precisa,  onde não há nada que enganar, pois fica junto a um dos principais trajetos pelo interior do concelho de Montalegre, na margem direita do Rio Cávado, já dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês e imediatamente a seguir a aldeia de Sezelhe. Assim, o nosso itinerário a partir de Chaves é feito via estrada de S. Caetano/Soutelinho da Raia até Montalegre. A partir da Vila desce-se até ao campo de futebol e depois vamos passar ao lado de Donões (à direita) ao lado de Cambeses do Rio (à esquerda), ao lado de Mourilhe, Frades e Sezelhe (todas à direita). Curiosamente a estrada não atravessa nenhuma destas aldeias, passa-lhes sempre ao lado. Em Sezelhe, atenção às placas no cruzamento, dever-se-á seguir em frente e logo a seguir (a 1Km), estamos no nosso destino.  Mas fica o nosso mapa e itinerário para melhor localização.

 

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Se formos daqueles que antes de parar para os pormenores, gosta de dar uma volta geral à aldeia, pela certa que a sua atenção recairá sobre uma torre sineira que existe no meio de um largo, muito peculiar, pois trata-se de uma torre sineira sem igreja ou capela por perto e foi erguida em honra/homenagem, uma torre de culto ao boi do povo, tendo mesmo esculpida numa das suas fachadas a cabeça de um touro, mas também (li algures mas hoje não encontrei a referência) por não existir outro sino na aldeia, sino que nas aldeias sempre teve as suas funções de convocar o povo para vários fins, ou lançar avisos em caso de necessidade, como os sinais em caso de morte de um seu habitante, mas também, e no caso reforçado, para convocar o povo quando o boi partia para as chegas em terras vizinhas.

 

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Todos os barrosões conhecem a importância que tinha o boi do povo e quais as tradições, festa e outros que estavam a ele ligadas, mas para quem não sabe, recordemos aquilo que se diz ao respeito do boi do povo e do comunitarismo destas aldeias barrosãs na Etnografia Transmontana I, do Padre Lourenço Fontes para melhor se entender a sua importância:

 

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O BOI DO POVO

 

Dentro do culto dos animais, o que mais sobressai em Barroso é o Boi do Povo. Diz Miguel Torga em Diário X, localizando Serraquinhos:

«Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que deus vivo, de rico e pobres, de alfabetos e analfabetos é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis, cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora, sem lhe pedir outros milagres, que não sejam os da força e da fecundidade… Um deus a quem se dão gemadas de cerveja, para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.»

O boi do povo é a amostra mais válida do comunitarismo barrosão.

Tem boas cortes, bons palheiros e celeiros, pastos, lameiros de feno, lamas, terras de centeio, milho, poulas, etc.. Todas estas propriedades são do boi do povo, grande senhor feudal, mais rico que muitos dos habitantes da aldeia. O boi é propriedade do povo. Cada aldeia, segundo as posses, os caprichos, e o número de vacas, tem um, dois, três e quatro bois comuns. São comprados pelo povo ou seus representantes, com o dinheiro de todos. Vendem um que dá para comprar outro mais novo e sobra dinheiro, que entra para comprar alimentos ao boi ou, despesas comuns.

 

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PASTOR DO BOI

O boi tem um pastor do povo. É pago pelo povo, em alqueires de centeio, segundo o número de cabeças de gado, de cada lavrador. A vida subiu e hoje os pastores nem por um alqueire, por cabeça, querem guardar o boi. Quando uma terra tem muitas vacas ainda vale, mas com os tractores e florestas reduziu esse número e o pastor ganha menos. Há terras que além do pastor pagam ao tractor, especialmente por ocasião de chegas. O pastor ou sua mulher ou filhos pastoreiam  todo o dia o boi. Em Cambezes quando é o tempo das ferranhas de centeio, o boi anda à roda do povo e vai pastar, hoje, na ferranha de um lavrador, amanhã na de outro, até dar a volta e completar as rodas de cada lavrador, que variam segundo o número de vacas. Quanto mais vacas, mais pasto têm de dar ao boi. O pastor é o que tem a chave da corte do boi e é ele que abre a porta quando a vaca vai ao boi, ou nega a chave e o boi, quando a vaca anda estragada. A cobrição faz-se na rua pública, ao anoitecer.

 

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CHEGAS

São as chegas o verdadeiro desporto, se assim se pode chamar, que o Barrosão adora. Deixa tudo, percorre, a pé, as maiores distâncias, para ver uma chega de bois, que não conhece. Uma chega consiste (…) na luta entre dois bois do povo, de terras diferentes, ou da mesma terra.

Antes da chega o tratador aumenta a ração diária do boi. A juventude e outros  pedem grão, milho, farinha, farelo, batatas, feno para tratar o boi para a chega. Por vezes roubam as espigas de milho, as caixas de centeio das suas famílias ou de estranhos ou de terras vizinhas, para dar ao boi. Chegam a tirar da boca para não faltar ao boi, que é preciso engordar para ganhar. A emulação e rivalidade aparece quando um boi ganhou a outro na chega, ou quando os bois são do mesmo peso, ou têm de lidar, ou qualquer razão válida para poder desafiar o de outra terra. Começa a pensar-se na chega e a fogueira ateia-se. A mocidade, que tem certo direito no boi, pois é ela que o trata, pensa em ir contratar um adversário. Este concorda ou não, e pede prazo, para tratar o seu boi. Por fim, pede-se o placet à Junta ou regedor da freguesia de cada boi contendente, que nem sempre o dão, mas a chega faz-se. Combina-se o local, que tem de ser descampado, a meio das duas aldeias digladiantes. O boi que vai turrar convém estar totalmente fechado na corte oito dias, para no dia da chega sair mais bravo.

 

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E sobre as chegas, continua:

A chega é habitualmente a um Domingo ou dia santo, de tarde pelas 3 horas. De manhã na corte ou fora preso a uma árvore, afiam-lhe as pontas nos cornos, primeiro com navalha afiada, depois com grosa de vidro, a raspar. Alguns para que fira e faça fugir o adversário aplicam-lhe pontas de aço, nas extremidades. Alguns ainda dão vinho e cerveja ao animal, para que vá mais furioso. Durante a noite azougam-no, ou colocam-lhe a pele de uma vaca ou vitela no lombo, para que ai cheirar o inimigo, este fuja de pasmo e medo. Entretanto na missa, lembra-se aos santos o pedido de vitória para o boi da nossa terra. Fazem-lhe promessas, orações, responsos e votos de ansiedade, para que toda a corte do céu esteja do lado do nosso boi. Diziam na última chega em 3 de Fevereiro de 1974, entre Vilar e a Vila: Nossa Senhora da Saúde se ponha do lado do nosso boi, e respondiam outros, no meio das refregas da chega: Senhor da Piedade esteja pelo nosso. Fazem apostas de 100$00 ou mais.

E chega a hora da partida. Toca o sino da aldeia ou o do boi para juntar o povo e tocam o boi ao local previsto e marcado, de comum acordo.

 

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Ainda as chegas de bois:

À saída da corte pode sair um pouco bravo, então tocam outro companheiro para que não fuja. E toda a gente de pau na mão, rodeia o ídolo, fazem prognósticos de vitória ou derrota, e uns atrás, outros adiante, homens e mulheres, pequenos e grandes, velhos e velhas aí vai tudo, caras alegres, desafiando um e estimulando outro para animar e lhe dar peito para ganhar.

Se passam em frente a alguma capela, igreja, ou nicho das almas, não deixam de fazer a sua petição esperançada, ou dar a sua esmolinha aos santos ou às benditas almas que obtenham a vitória. Transitando por alguma aldeia, deitam sal e, cruz nas ruas por causa da bruxaria ou mau olhado, à ida e à vinda. Não podem passar por algum rio se não perde o azougue e a força.

Chegam os animais ao campo, já repleto de gente em círculo largo. Entra um, de cada extremo do campo e ao mesmo tempo. É a entrada triunfal onde ambos e dois esperam os louros. Cada boi é acompanhado do pastor, que empunha o seu pau de lodo, para apoiar e animar o boi, apesar de serem muitos os que nessa hora, desejariam estar ao lado do seu preferido, para lhe dar força e o ir enfurecendo: é boi, é boizinho!

 

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Continuamos com as chegas:

Fazem ou não, uns momentos de carranca, com as caras, viradas, e pouco a pouco ou de repente conforme a inspiração de momento, pegam-se de frente, com a maior violência possível, procurando ferir e rasgar o companheiro, com as hastes, bem aguçadas. É o momento de mais atenção dos milhares de espectadores, que de todas as aldeias mais afastadas vieram assistir. Se não fora a Guarda Republicana, o povo crescia e rodeava os bois, como acontece nas chegas que se fazem de noite, em que há poucos espectadores. 5, 10, 15, 30 minutos é o geral de tempo que os gladiadores se entretêm a disputar a força. Houve um ou dois casos em que um matou o adversário, que era de Parafita.

 

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E continua:

No geral apenas há a lamentar uns ferimentos mais ou menos graves, na superfície da pele. Quando as forças já estão bem medidas e houve sobreposição de um boi, o outro começa a olhar para o lugar por onde entrou, se tem tempo, e vai recuando, até que foge. O vencedor corre furioso a ver se o apanha. Intervêm logo os pastores e conterrâneos, com paus no ar, para os apartarem. E os da terra vencedora rodeiam o seu boi, sem medo. É o maior frenesi o da vitória. As raparigas e rapazes dão vivas: viva o nosso boi, viva! E depois de lhe verem as feridas, tocam cada qual o seu boi para a sua terra. Os vencidos, com a «beiça» e os vencedores cantando, uns diante, outros atrás do boi. Se podem, enfeitam-no com fitas, ramos, flores, bandeiras vermelhas, cordões de ouro, notas de conto, etc.. Chegando ao povoado, o boi vai, em procissão, dar a volta às ruas da aldeia, ovacionado por todos que dizem: abençoado boi e grão que comestes! Há festa com baile para todos e vinho à discrição pago pelos entusiastas e apostantes.

 

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Por fim, ainda sobre as chegas:

Ganha uma vitória, logo outros, que têm na aldeia um boi do povo, que foi já vencedor, pensam em desafiar aquele para outra chega a ver qual é o campeão.

Antigamente no fim das chegas havia barulho. Ao fim das chegas dos bois, chegavam-se os homens. Todos levavam paus e discutia-se a força, o direito de ganhar, qualquer ilegalidade e toca a dar paulada à direita e à esquerda. Hoje a Guarda tira paus a quem os leva e já não há perigo de se pegarem os homens, por causa dos bois.

 

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Assim, tal e qual como atrás descrito, recordo as chegas do Sr. da Piedade entre os bois da Portela e da Vila, ou da Portela ou da Vila com outras aldeias, a festa à volta do vencedor e as «beiças» dos perdedores, mas recordemos que a Etnografia Transmontana – I,  foi publicada em 1974, isto para vos dizer que a tradição da chega dos bois, hoje,  já não é aquilo que então era.  As chegas ainda existem no Barroso, agora disputa-se um campeonato, mas os bois já não são comunitários, já não são do povo, já não representam as suas aldeias. Hoje são de proprietários particulares, alguns até nem são barrosões.  Mantêm-se as chegas, mas perdeu-se toda a tradição e festa comunitária que a elas estavam ligadas. Coisas dos novos tempos, mas também ela uma consequência do despovoamento das aldeias.

 

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Mas isto já não são coisas de hoje, Miguel Torga, no seu diário, em 29 de agosto de 1991, registava o seu lamento num escrito que hoje também ele repousa transcrito em placa colocada na base da torre do boi e onde se pode ler:

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

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E sem mais demora que esta coisa começa a alongar-se e se nos entusiasmamos temos aqui latim para uma semana, passemos às nossas habituais abordagens que repetimos em cada aldeia, como por exemplo saber o que nos diz a “Toponímia de Barroso” ao respeito da nossa aldeia convidada:

 

Travaços do Rio

 

A grafia com ss é ridiculamente errónea visto que toponimicamente não fica abonada por qualquer forma escrita antiga.

A raíz latina trabe é evidente, significando trave, com sufixo aço; trata-se, por conseguinte, de local onde abundam árvores para construção, elegantes e de boa madeira com as quais os povos primitivos, à falta de pedra próxima em quantidade, faziam muitas vezes resistentes paliçadas defensivas à roda das casas do castro.

Alguns dos mais antigos documentos concernentes ao território Barrosão dizem respeito ao termo desta localidade como já afirmei noutros trabalhos e de que destaco a célebre doação feita por Aloito e sua mulher Bonela a São Rosendo em

- 953 «ipsa villa qui vocitant Travazos…prope rivulo Catavello» T.de C., I, de Andrade Cernada, Santiago de Compostela, 1995. Pág. 7/12.

Como o rio desse nome entre Larouco e a foz do Regavão era o Catavelo não restam dúvidas quanto ao Travaços de que se fala!

 

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E como sobre Travassos nada consta na “Toponímia Alegre”, faço eu um apontamento.

Mais uma vez a Toponímia de Barroso vem “contrariar” aquilo que é oficial e popularmente aceite e em vigor, refiro-me ao topónimo da nossa aldeia de hoje que em todo o lado o vejo escrito (página oficial da Câmara Municipal, CENSOS, e outra literatura e documentos) com sendo Travassos (com ss) e não Travaços  (com ç). A título de curiosidade para nós flavienses, na direção oposta a este Travassos-Travaços encontramos um caso idêntico, mas ao contrário, ou seja Valpassos como antigamente se escrevia, hoje escreve-se Valpaços. E afirmei “idêntico” sem ter bem a certeza de se o é, pois como cidadão comum falham-me estas preciosidades eruditas da evolução da nossa língua, coisa que nem quero aprofundar, pois para confusão já me chega ser obrigado a escrever segundo o novo acordo ortográfico, daí, aceito as coisas como elas hoje são, e neste post, o Travassos com que iniciei vai continuar a ser Travassos até ao fim.

 

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Passemos ao livro “Montalegre” aqui também Travassos grafado como Travaços, mas embora seja uma exceção aos escritos comuns, não é exceção nenhuma, pois o autor da “Toponímia de Barroso” é o mesmo do livro “Montalegre”, é portanto uma questão de coerência. Mas diz então o livro “Montalegre” a respeito de Travassos do Rio:

 

O boi do povo em Barroso é o símbolo máximo da vida comunitária, da virilidade, da fecundidade, da força e da honra da freguesia. No castelo de São Romão gravaram uma cabeça de boi, há milhares de anos, em sinal do culto que lhe devotavam; no século passado, os de Travaços do Rio, terra de memórias firmes e longas, gravaram a cabeça do boi campeão numa torre que lhe dedicaram. Não há muitas décadas, dezenas e dezenas de bovinos faziam novenas à roda da Capelinha do Santo António de Viade que os protegera de doenças e desastres. As inseminações artificiais retiraram à “divindade de cornos” o poder dos testículos mas não impediram que os barrosões continuem a praticar o seu desporto favorito que são as chegas. Até estão organizadas num campeonato ao longo do ano! Se os leitores forem ao futebol, em Montalegre, verão a assistir umas cem ou duzentas pessoas; se esperarem para ver uma chega de campeões, tenham cuidado!...não sejam atropelados por alguma multidão de cinco ou seis mil pessoas cheias de emoção!

 

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Uma outra referência à aldeia, ainda no livro “Montalegre” é a respeito de um seu ilustre:

Filipe José Gonçalves Andrade (séc. XVIII) nasceu em Travaços do Rio, em 173. Foi médico e cirurgião – mor do Reino do Algarve. Traduziu do francês a “Memória a respeito da peste” e faleceu, com oitenta anos, em Cabril, Montalegre. Foi agraciado com o hábito da Ordem de S. Tiago em 1791.

 

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E ainda mais uma referência no livro “Montalegre”

 

A criação de gado foi tão importante que os de Travaços do Rio ergueram a meio do povo uma torre ao boi campeão. Os seus habitantes devem sentir-se orgulhosos também porque Travaços é, depois de Salto, a terra barrosã referida em documentos autênticos e mais antigos: trata-se de dois documentos do Tombo de Celanova, na Galiza, referentes a doações destinadas ao Mosteiro e ambas no termo de Travaços, datadas, respectivamente, dos anos 93 e 976, sendo que numa delas é doadora a própria mãe do bispo São Rosendo! Há 103 anos!

 

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E o nosso entusiasmo vai ficar por aqui, mas antes ainda uma referência a mais duas preciosidades que encontrámos em Travassos do Rio e que ficam nesta duas últimas imagens, a primeira uma senhora com a capa de burel vestida, um abrigo para o frio e para a chuva, como era o caso no momento em que tomámos a foto, capa que embora ainda se vá vendo ao longo do Barroso, já começa a rarear. A outra preciosidade, por sorte de uma porta aberta que nos facilitou a imagem, é a de uma malhadeira, que também já é rara e cuja invenção é atribuída a Júlio dos Santos Pereira, que embora natural de Valpaços, fez de Chaves a sua terra de residência (sobre a invenção da malhadeira, notícia aqui: https://www.jn.pt/arquivo/2005/interior/flavia-criativa-de-volta-13-anos-depois-494764.html

 

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E ficamos por aqui sem uma referência ou imagem das cascatas Barrondas, tudo porque não fomos lá e não temos imagens, mas ficam para um post futuro. Fica prometido. Ficam também as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre.

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana II - Comunitarismo do Barroso, edição do autor, Montalegre, 1977.

 

 

03
Dez18

De Vila Nova até Sidrós e a Ponte do Diabo

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No “Barroso aqui tão perto” de hoje vamos até um daqueles (Barrosos) que nos fica mais distante, com uma abordagem um bocadinho diferente daquilo que é habitual, pois em vez de uma aldeia, vamos ter duas, mas também um capítulo especial dedicado a uma das pontes mais afamadas da região, com direito a lendas e até a “milagres” do diabo, daí também ser conhecida como a Ponte do diabo ou Ponte da Misarela.

 

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Vamos então até Vila Nova e Sidrós, as aldeias, e até à Ponte da Misarela. A razão ou desculpa, de as juntar aqui hoje é simples – ficam todas perto entre si. Claro que só isto não seria razão, e até, bem poderiam vir aqui individualmente, aliás a Ponte da Misarela já teve aqui um post no blog, mas hoje é obrigatória mais uma abordagem.

 

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VILA NOVA e SIDRÓS

Na realidade tive de juntar as aldeias porque não tinha imagens suficientes para as deixar aqui individualmente. Talvez pudesse juntar Sidrós e a Ponte da Misarela, mas depois é que ficava mesmo sem imagens para Vila Nova. Tudo porque além das aldeias serem pequenas, também, talvez por falta de inspiração nas vezes que passei por Vila Nova e Sidrós não encontrei ou tive tempo para recolher mais motivos, mas costumo dizer, porque é verdade, que são coisas do subconsciente para me obrigar a voltar a estas localidades mais uma vez, e podem crer que vou voltar, pois a Ponte da Misarela não é senhora para uma só visita e para chegar até ela, lá teremos que passar por Vila Nova e Sidrós, e quem sabe,  na próxima vez pode acontecer que a inspiração esteja em alta.

 

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Continuemos com a localização destas duas aldeias para de seguida passarmos ao itinerário para lá chegar.

 

Ambas as aldeias estão implantadas na encosta da montanha  que desce para as curvas que o Rio Cávado faz imediatamente antes de entrar na barragem de Salamonde, bem próximas do rio, a apenas 200 metros deste. Mas tal como noutras localidades ribeirinhas do Rio Cávado, dada a vegetação e o declive do terreno, não se sente a sua presença.  

 

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Localiza-se também no limite sul do concelho de Montalegre, igualmente a 200 metros da aldeia de Sidrós, a linha de água que passa sob a Ponte da Misarela, serve de linha fronteira do concelho, tendo do outro lado o concelho de Vieira do Minho. Simultaneamente, é também limite da província de Trás-os-Montes, iniciando-se do outro lado da linha de água a província do Alto Minho. Curiosamente, não é limite do Barroso, pois as aldeias do concelho de Vieira do Minho mais próximas do concelho de Montalegre ainda são consideradas aldeias barrosãs e integrantes do território de Barroso. Com isto, poderemos dizer que embora a maior parte do território de Barroso pertença ao concelho de Montalegre e Boticas, estende-se ainda até aos concelhos de Vieira do Minho, Ribeira de Pena e Chaves.

 

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E por falar em Chaves, é daqui que partimos sempre para estas incursões no Barroso. Como vamos em maré de passeio e descoberta, a menor distância nem sempre conta para alcançarmos os nosso destinos. Vamos mais pelo fator interessante, principalmente o da paisagem, mas também o das localidades que se atravessam. Poder-se-á dizer que a via principal que atravessa o Barroso (a EN 103) nos poderia levar a todos os destinos do seu território, mas como quase sempre acontece com as vias principais, nem por isso são as mais interessantes. Poderão ter melhores condições, serem mais rápidas, menos distantes, mas às vezes sabe melhor andar pelas estradas secundárias.

 

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Pois desta vez para chegarmos a Vila Nova, Sidrós e à Ponte da Misarela, também poderíamos seguir pela EN 103, mas além de ser o mais longo (80km), é também o menos interessante. O mais curto é mesmo o itinerário via concelho de Boticas pela EN103+N311 (71.5Km), mas nós optámos pelo intermédio em distância (75Km), via Soutelinho da Raia, Montalegre, Paradela (barragem) via estradas municipais EM507 e EM508. Porquê!? Ora porque é dos trajetos mais interessantes do Barroso, por se passar ao lado da Serra do Larouco, por montes de aldeias tipicamente barrosãs, por passar por Montalegre e ao lado mas gozando das vistas do Parque Nacional da Peneda-Gêres e Serra do Gerês. Além disso, este trajeto resume aquilo que é o Barroso em termos físicos e orográficos, atravessando o agreste planalto da base da Serra do Larouco para a partir da Vila de Montalegre começarmos a entrar em pequenos vales entre montanhas que vão aumentando de verdura conforme vamos deixando Montalegre para trás, verdura essa que quando entra na Serra do Gerês para abruptamente para dar lugar ao reino do penedio, tudo isto e muito mais numa viagem de apenas 70 km.  

 

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Passemos agora aos topónimos de Vila Nova e Sidrós que nas primeiras impressões poderíamos dizer que Vila Nova teria surgido ao lado ou próxima de Villas mais antigas e Sidrós tem sabor à sidra da maçã. Mas isto sou eu a reinar, o que conta é o que está na “Toponímia de Barroso”. É para lá que vamos:

 

Vila Nova

Traz o nome com ela: há não muitos anos chamava-se Vila Nova de Sidrós, sinal de que alguns moradores de Sidrós se apartaram mais para junto dos seus campos formando um novo aglomerado populacional que, aliás, não é tão novo como isso. Aliás, Vila Nova pode muito bem ter começado devido à proximidade com o Cávado e, não havendo, como não havia até ao século passado nenhuma ponte por aquelas brenhas, a travessia do rio fazia-se em barcas. Uma frente a Vila Nova e outra, um pouco mais a poente, entre Frades e Cabril. E daí o topónimo: a “vila” se Nova.

 

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Sidrós

Não se entendem os toponimistas na etimologia deste lugar. Proponho Sudro e Sudros. A origem de sudro é desconhecida, mas são  vários os locais desse nome em Barroso e todos eles muito propícios a enxurradas. Na Vila da Ponte há Porto Sudro e Sudro em Pitões e Outeiro.

Ora a nossa povoação em 1258 NQ 1523 escrevia-se Sudroos, evidentemente diminutivo e plural do nome comum sudro.

Isto é, o Porto Sudro é a passagem onde ocasionalmente correm enxurradas e, portanto, fica surro, isto é, o local torna-se uma surreira com sujidade de godos e lamas. Em Sidrós, sítio atreito a enxurradas, a mesma coisa, com a modificação fonética corrente de passar o u a i por simples abrandamento. Assim sendo a grafia do topónimo não pode começar-se por C como é óbvio, mas por S.

 

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Ora bem, quanto aos meus palpites, o primeiro andou próximo, quanto ao segundo esparramei-me na lama da surreira. Era bem mais romântico Sidrós derivar da sidra da maçã que fresquinha cai melhor que ginjas e dá uma moca interessante do que derivar do surro da surreira, mas nem sempre o que parece é, daí aceitarmos que assim seja, aliás a zona (encosta da montanha onde se encontra Sidrós e Vila Nova) é bem conhecida por trágicas enxurradas, como, se bem me lembro, referi no Post de Covelo do Gerês,  aldeia próxima ainda na mesma encosta de montanha.

 

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E o que nos diz a “Toponímia Alegre”. Ora para Vila Nova temos uma quadra com cucos:

 

O cuco e mai-la cuca

Vieram ambos de fora:

O cuco vem da Ponteira

E a cuca de Vila Nova

 

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Ainda na "Toponímia Alegre" para Vila Nova mas também para Sidrós, a prosa é um pouco mais longa:

 

Nomes do “Rio” intermédio:

 

Carabunhas de Vila Nova,

Conspiradores de Covelo,

Rabinos de Loivos,

Peixeiros de Sidrós,

Papa-ventos de Ferral,

de Viveiro não sai graeiro,

Carrapatos dos Pardieiros,

Borra-Ladeiras de Santa Marinha,

Carvoeiros de Nogueiró.

Dizem os de Ponteira:

Fomos a ParadelaSidrós

Davam-nos caldo

E não tinham tigela!

 

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Passemos agora às nossas pesquisas.

Na internet sobre Vila Nova encontrámos um pequeno vídeo sobre a aldeia onde ficámos a saber da existência de uma Associação – Associação Amigos de Vila Nova. Fica um link para o vídeo:

 

https://www.youtube.com/watch?v=uyqfD41aHvU

 

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Sobre Sidrós, graças à Ponte da Misarela, encontrámos algumas referências, uma que nos leva até à festa da Ponte da Misarela, ao que consegui apurar acontece no início de julho e e já vêm acontecendo desde 2012. Fica link para mais informação sobre estas festas:

https://www.cm-montalegre.pt/pages/823?news_id=4042

 

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No livro “Montalegre" encontrámos algumas referências a Vila Nova. Uma no capítulo “A grande rota das barragens”:

Em Sanguinhedo, a estrada começa a subir, passando por Padrões, até ao coroamento da barragem, continuando à direita pela EN 103-8. Daqui desça para Vila Nova e Sidrós, aldeias empoleiradas na garganta panorâmica do Rabagão. Nesta última aldeia pode visitar a Ponte do Diabo – ou da Misarela, que se ergue sobre os penhascos do leito do rio Rabagão. Aqui vê-se a ponte medieval da Misarela que, segundo a lenda teria sido construída pelo Diabo. Por ela passaram os franceses fugitivos, a quando da segunda invasão, chefiada por Soult.

As barragens do Parque Nacional da Peneda Gerês

Está-se assim na periferia do Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), cuja entrada acontece um pouco mais à frente, junto à central hidroeléctrica de Vila Nova de onde  se pode contemplar o majestoso panorama da barragem de Salamonde.

 

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Outra referência a Vila Nova, refere-se à Central Elétrica existente, próxima da aldeia, apontada como ponto de interesse turístico e outra referência, no capítulo dedicado à freguesia de Paradela, numa referência à Barragem de Paradela e Venda Nova:

Na sede da freguesia demora uma barragem que assume uma grande novidade em termos de construção: o dique enorme foi erguido com pedregulho a granel, betonado a montante e com um sistema inovador de descarga num funil gigante associado ao túnel de profundidade. Tal como as da barragem da Venda Nova, as suas águas vão em tubarias gigantes fazer mover as turbinas da Central de Vila Nova produzindo energia hídrica.

 

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PONTE DA MISARELA – Ponte do diabo

Passemos agora a esta lendária mas também histórica ponte da Misarela, também conhecida por ponte do diabo, que faz parte do imaginário das lendas, da estórias barrosãs e consagrada em alguns romances e obras de importantes escritores portugueses, como no “Terra Fria” de Ferreira de Castro, também referida, incluindo as lendas nas Etnografias Transmontanas do Padre Lourenço Fonte entre outras. Mas, uma vez que ao respeito desta ponte temos quase tudo resumido no livro “Montalegre”, passamos à transcrição:

 

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As lendas constituíram desde sempre uma das mais fascinantes facetas da nossa cultura. A literatura oral barrosã conta, no seu impressionante espólio, com muitas lendas, algumas de inexcedível urdidura. Por isso, é a título de mero exemplo que contamos, aqui e agora, a lenda de Misarela, nas duas variantes populares mais correntes. Como todas as lendas a sua principal característica é estar relacionada com a ponte, naquele lugar belo–horrível, e abordando um tema de invulgar premência para o barrosão medieval: a constituição de uma família numerosa, com braços para o pastoreio, para a lavoura e para os serviços caseiros. É uma narrativa com razão de ser. O carácter étnico, ou seja, o carácter barrosânico desta lenda, é o carácter deste povo que a criou, que a acolheu e nela espelhou uma forma arcaica da liturgia do baptismo cristão. É possível identificar aqui as características das lendas? Terá um fundamento histórico a nossa lenda? Sem dúvida! Desde logo a ponte sobre o Regavão que, de início, era de madeira e, talvez só no século XVIII, de pedra; depois o baptismo dos nascituros que teriam de se chamar Senhorinhas e Gervásios, conforme o sexo - nomes próprios de nobres figuras regionais, da parcialidade dos Sousãos, senhores da terra barrosã e das redondezas minhotas e galegas, no século X e XI. Fica assim a nossa lenda situada no espaço e no tempo, duas características primordiais das lendas. Mas nela, como exige o maravilhoso popular dá-se o aparecimento do demónio e, igualmente, o maravilhoso cristão, na pessoa do padre que representa Deus.

 

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Lenda da Misarela

Um fidalgo duriense (há quem diga um criminoso) fugia desalmadamente aos beleguins do rei que injustamente o perseguiam e acusavam de traições. Quando chegou à Misarela o Regavão ia de monte a monte, medonhamente tempestuoso pelas chuvadas invernais. Vendo-se acossado e sem poder passar a corrente pediu a intervenção divina e de todos os santos que conhecia. Em vão. Não conseguia prosseguir a fuga. Lembrou-se então de invocar o poder do diabo em gritos desesperados:

-“Satanás! Satanás!

Passa-me que te dou a alma!”

E o diabo, aparecendo num estarrinco do trovão, respondeu:

-“Passarás, passarás, sem olhar para trás!”

 

No mesmo instante estendeu-se à sua frente uma ponte que o fidalgo (ou criminoso) atravessou. Mal pôs o pé na encosta fronteira, atrás de si, a ponte ruía com enormíssimo estrondo no abismo vertiginoso.

E assim fugiu à ira do monarca o tal fidalgo (ou criminoso) que decidira exilar-se em Barroso. Por aí viveu muitos anos ainda mas sempre roído de remorsos e angústias por ter dado a alma ao diabo.

Quando chegou a hora da morte mandou chamou o padre para se confessar. E contou-lhe o seu pecado. O padre absolveu-o, depois de exigir que confessasse toda a verdade e pensou que talvez fosse possível refazer a ponte sem grandes sacrifícios…

Tomou a caldeirinha da água benta e o hissope (há quem diga que foi uma laranja onde meteu água benta depois de lhe tirar do interior os favos por um orifício) e dirigiu-se uma noite ao local indicado pelo moribundo, invocando o diabo:

-“Satanás! Satanás!

Passa-me que te dou a alma!”

E repetiu-se a cena: o diabo (ao ribombar o trovão) apareceu e respondeu-lhe:

-“Passarás, passarás,

sem olhar para trás!’’

 

Num ápice reaparece entre dois penedões enormes a ponte. O padre começou a atravessar aspergindo água benta sobre a construção! (Também se diz que largou a laranja a rolar pela ponte! Eduardo Noronha, na sua obra “A marqueza de Chaves” diz que o padre aspergiu água benta da caldeirinha com um ramo de alecrim).

E assim ficou benzida a ponte! Nesse mesmo instante o diabo desapareceu como aparecera deixando no ar fortíssimo cheiro a enxofre, pez e incenso ( Noronha diz enxofre e salitre)… mas a ponte ficou de pé. Por isso há quem lhe chame Ponte do Diabo e Ponte do Salvador, mas para o nosso povo é a Ponte de Misarela, lugar mítico, mágico e sagrado.

As mulheres grávidas, com medo de abortar, dirigiam-se à ponte ao anoitecer e esperavam pacientemente que se verificassem duas coisas: que não passasse animal algum depois do pôr- do- sol e que a primeira pessoa a passar se dispusesse a baptizar o feto que trazia na barriga. Se tais condições se verificassem, a pessoa passante colheria das profundezas, com uma vasilha segura por uma corda, um pouco de água e, logo ali, regava o ventre da mulher desenhando cruzes e pronunciando ao mesmo tempo o ensalmo:

“Eu te baptizo pelo poder de Deus

e da Virgem Maria!

Padre-Nosso e Avé-Maria!

Se fores meninha (menina)

Serás Senhorinha;

Se fores rapaz Serás Gervás (Gervásio)”.

 

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A verdade é que são ainda muitas as pessoas que carregam esses chamadouros, saídos das noites passadas na ponte da Misarela!

 

A ponte da Misarela não deve ser conhecida apenas pela sua lenda nem por ser um sítio de beleza admirável ou simples cartaz turístico. É um local histórico que nos honra como povo amante da liberdade e cioso do seu sagrado chão.

As numerosas forças napoleónicas foram aqui acossadas, na muito tempestosa noite de dezasseis de Maio de 1809, às mãos de 800 paisanos barrosões, que esperaram em vão a chegada de reforços, porque as tropas anglo – portuguesas de Wellesley nunca chegaram. Desse facto há ecos no cancioneiro popular:

“Chorai meninas de França,

Chorai por vossos maridos,

Na ponte da Misarela

eram mais mortos que vivos!”

 

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A ponte deve também ser recordada porque lá se deu, em 25 de Janeiro de 1827, um recontro importante entre as tropas realistas do general Silveira e as tropas constitucionais do coronel Zagalo.

 

Ainda na Misarela, no dia 18 de Setembro de 1838, se feriu a cruenta batalha em que os liberais, liderados pelo General Antas, derrotaram as tropas cartistas do marechal Saldanha, do duque da Terceira e do barão de Leiria.

 

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Ainda sobre a lenda da ponte  e algumas estória reais, fica um interessante artigo (link) para:

 

MONTALEGRE: OS FILHOS DO DIABO

Ler mais em: https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/montalegre-os-filhos-do-diabo

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/montalegre-os-filhos-do-diabo , Consulta de 02/12/2018

https://www.cm-montalegre.pt/pages/823?news_id=4042 - Consulta de 02/12/2018

https://www.youtube.com/watch?v=uyqfD41aHvU - - Consulta de 02/12/2018

 

 

 

 

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12
Nov18

O Barroso aqui tão perto - Sanguinhedo

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Como já sabemos que os finais de outono, todo o inverno e inícios de primavera, meteorologicamente falando, o tempo não é muito certo, em geral agendamos as nossas descobertas do Barroso para quando temos garantias de haver bom tempo e mais luz. Pois então, com alguma antecedência, marcámos o dia 12 de maio de 2017 para a descoberta de mais um pouco do Barroso, na qual tínhamos também incluído no nosso itinerário a aldeia de Sanguinhedo.

 

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Mas os dias do mês de maio também não são muito certos, é conforme lhes dá, e quando lhes dá para o torto, é mesmo para o torto o dia todo. Foi assim, bem torto, chuvoso e até com algum frio que nasceu aquele 12 de maio de 2017. Os parceiros de viagem ainda interrogaram se mantínhamos o dia para a fotografia e descoberta de mais algumas aldeias do Barroso. Claro que sim, em maio não podia chover todo o dia, algumas abertas haveríamos de ter… mas não tivemos, no entanto,  já que andávamos por lá, fizemos frente à chuva, ao frio e ao vento e embora as máquinas fotográficas até nem gostem de chuva, as fotografias adoram, ficam mais brilhantes, mais misteriosas, diferentes. Cumprimos a nossa missão e isso é o que interessa.

 

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Quanto a Sanguinhedo, já nos tinham falado da aldeia, como sendo uma das aldeias, a primeira completamente despovoada no concelho de Montalegre. Mal deixámos a EN103 para tomar a rampa de acesso à aldeia, com o temporal a cair sobre nós e as primeiras casas a surgirem no nosso horizonte, quase tivemos a sensação de  não estranhar o despovoamento. Parámos o carro para descansar da subida, olhámos para trás e eis o primeiro impacto, agradável, mesmo  debaixo de um céu ameaçador, a paisagem impressionava, ninguém podia ficar indiferente ao que se via. Olhando melhor para as primeiras casas, um pouco estranhas e fora do habitual no Barroso, acabavam também por fazer um conjunto simpático e igualmente interessante.

 

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A aldeia parecia começar e terminar ali, logo após aquilo que se via. Avançámos a pé mais um pouco e deparámos com um placa pousada em cima de umas pedras, encostada às paredes de uma das casas “Horse & Move – B&C Equitação”.  O Azul elétrico da placa atraía o nosso olhar e o lettering despertava-nos a curiosidade, para além disso demos conta de que a rua e a aldeia continuavam por ali acima. Os companheiros de viajem avançaram na direção que a placa indicava e eu, entrei no carro e avancei até ao final da rua que era também o final da aldeia e mal parei, fui recebido por um cão, amigável e simpático, troquei umas impressões com ele para ficarmos à-vontade, já sei que nunca me respondem, mas entendem-me sempre.

 

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E estava eu ainda de conversa com o cão, enquanto ia tirando a máquina fotográfica do carro e o guarda-chuva, o que provoca um certo embaraço andar e manejar as duas coisas, quando surge um homem vindo de uma das casas. Claro que vi logo que não era o fantasma da aldeia abandonada, pois via-se bem que era bem real, mesmo que viesse de cabeça coberta e o rosto naquele dia escuro ficasse à sombra do carapuço. E as minhas primeiras palavras dirigidas ao aparecido, ainda antes de o cumprimentar, foram de espanto: “Pensei que já não vivia aqui ninguém!?”. Que não!  Disse-me o aparecido, que vivia ele, a mulher o(s) filho(s), 10 cavalos e alguns cães, os que iam aparecendo e ficando por lá. Pela resposta deu logo para entender que o aparecido não era barrosão, embora falasse português, era um português esquisito, que deu mote para a próxima pergunta: — O senhor não é de cá, pois não!?. Pois não, não era, tinha vindo da Holanda à procura de uma propriedade para se poder dedicar aos cavalos. Era veterinário, gostava dos animais e da natureza e embora a intenção dele fosse outra região do país, calhou conhecer aquele cantinho do Barroso e apaixonar-se por ele, onde tinha tudo para aquilo que queria, e por ali ficaram.

 

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No entretanto,  os meus parceiros de viagem chegaram e ficaram tão espantados quanto eu fiquei quando viram o aparecido, que viemos depois a saber chamar-se Casper,  que vivia com a mulher, Brigitte, que entretanto também apareceu, ela professora de equitação. Bem, para o levantamento fotográfico da aldeia bastariam uns 20 minutos, mas a conversa foi rendendo, os anfitriões eram simpáticos, mostraram-nos as instalações, apresentaram-nos os cavalos que estavam lá mais à mão, um deles o halibute (fixei o nome por ser curioso) e acabámos por ficar por lá cerca de duas horas, se bem recordo.

 

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Um ano e uns meses já é muito tempo para recordar pormenores da conversa que tivemos, mas recordo ainda terem-nos falado de uma atividade com barcos de recreio na barragem da Venda Nova, que fica a penas 120m da aldeia, ou seja, entre a aldeia e a barragem, praticamente apenas temos a EN103. Recordo ainda terem falado em turismo rural, que tinham algumas das casas preparadas para este fim. Fui à net, pesquisei e lá está, pelo menos no “Booking.com” onde encontrei uma descrição sobre as instalações, que suponho ser da responsabilidade dos proprietários (holandeses), pelo menos a julgar por um pormenor do texto que deve estar relacionado com o ainda não dominarem convenientemente o português, refiro-me a este pormenor que irão ver no texto que a seguir vou transcrever: “existem estábulos para cavalos nos quartos”.  

 

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Pois aqui fica a transcrição daquilo que está no “Booking.com”

 

Quinta da Riba

Situada em Sanguinhedo, a Quinta da Riba é uma propriedade que providencia passeios a cavalo, com um total de 10 cavalos lusitano. Existem estábulos para cavalos nos quartos e um dos proprietários é um instrutor de equitação.

Entre as várias comodidades desta propriedade estão um jardim e um terraço. Está disponível acesso Wi-Fi gratuito. Os quartos deste alojamento de turismo rural estão equipados com um guarda-roupa. Os quartos estão completos com uma casa de banho partilhada, enquanto algumas unidades da Quinta da Riba também possuem uma área de estar.

Todas as manhãs é servido um pequeno-almoço continental na propriedade.

Uma variedade de actividades populares estão disponíveis na área em redor do alojamento, incluindo caminhadas. A propriedade também é um abrigo para cães.

Braga fica a 41 km da Quinta da Riba. O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a 76 km deste alojamento de turismo rural. 

Esta propriedade também tem uma das localizações melhor pontuadas em Sanguinhedo! Os hóspedes estão mais satisfeitos com ela do que com outras propriedades da mesma área.

Este alojamento é recomendado pela boa relação preço/qualidade em Sanguinhedo! Os hóspedes têm mais por menos dinheiro em comparação a outros alojamentos nesta cidade.

Falamos o seu idioma!

 

Para saber mais sobre esta unidade, nem há como consultar os seus sítios na net:

 

Páginas da Horse & Move – Sanguinhedo - Portugal

Internet: http://horseandmove.123website.nl/

Facebook: https://www.facebook.com/horseandmove/

 

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No texto que atrás foi ficando, já fica um pouco ou quase tudo a respeito da localização de Sanguinhedo. Já dissemos que fica junto à Barragem da Venda Nova, junto à EN103, a 41 Km de Braga e a 76 Km do aeroporto Sá Carneiro. Falta dizer que fica a 500 metros da Venda Nova e a 61,8 km de Chaves, mas a seguir deixamos o melhor caminho para lá chegar a partir de Chaves, logo seguido do nosso habitual mapa.

 

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Pois embora Sanguinhedo fique junto à EN103 e bastaria tomar esta estrada em Chaves, seguir sempre por ela até à Venda Nova (Barragem) e logo a seguir quatrocentos e tal metros) virar à esquerda para a nossa aldeia de hoje, não é este o itinerário que vou recomendar, pois esse será o da N311, por ser mais curto e para mim o mais interessante, no  entanto já sabem que eu recomendo sempre um caminho para ir e outro para vir, e o regresso, esse sim, recomendo a EN103. Mas que decide não sou eu e vocês tomarão aquele que entenderem. Falta só referir que a N311 é a estrada que liga Boticas a Salto, ou seja, caso seja este o itinerário escolhido, terão de tomas a EN103 em Chaves até Sapiãos, aí abandonam a EN103 e viram para Boticas, atravessam esta vila e seguem em direção a Salto, mesmo antes de chegar a Salto terão de virar à direita em direção à Venda Nova. Há sempre placas informativas, não há nada que enganar. Por este itinerário são 61.8 Km pela EN103 são 68.7 Km. Fica o nosso mapa.

 

sanguinhedoo-mapa.jpg

 

Vamos agora ao que encontrámos nas nossas pesquisas, onde como sempre o livro “Montalegre” é de consulta obrigatória. Pois no referido livro só encontrei duas referências a Sanguinhedo, uma quando se refere o roteiro das barragens e outra em relação ao Padre Domingos Barroso, que transcrevemos:

 

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Padre Domingos Barroso (séc. XIX) nasceu na quase erma povoação de Sanguinhedo, em 1889. Assinalado praticante das actividades cinegéticas, devemos-lhe o apuramento da raça canina dita “perdigueira”. Devido a tal escreveu “O Perdigueiro Português,” obra publicada em duas edições e muito elogiada. Escrevia muito bem, em estilo desempenado e limpo e colaborou em diversos órgãos de comunicação social escrita.

 

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Achámos estranho não aparecer nenhuma referência quanto à freguesia a que pertence, que deduzimos ser a Freguesia da Venda Nova. Fomos até essa parte do livro e lá aparece a aldeia grafada como Sangunhedo (sem o i). Mais por curiosidade do que por dúvida, fomos consultar o site do Município de Montalegre, que na pesquisa nos remete para o livro “Montalegre”, ou seja, voltámos ao mesmo, mas há sempre a “Toponímia de Barroso” para tirar dúvidas, e aí esclarecemos aquilo que já sabíamos, que Sanguinhedo é mesmo Sanguinhedo, só não sabíamos é que era do Arco, ou seja, Sanguinhedo do Arco, mas vamos à “Toponímia de Barroso” ver o que por lá se diz ao respeito.

 

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Sanguinhedo do Arco

Este topónimo tem percorrido o mesmo caminho de Sabuzedo, mas a partir do nome comum SANGUINHO + EDO – SANGUINHEDO. Apesar disso o povo pronuncia muitas vezes Sangunhedo  e refere o topónimo ao nome de um santinho: São Gunhedo, o que é um acto de crença inexplicável! E a tal santinho dedicaram as alminhas  do lugar que estão junto à Estrada Nacional 103.

 

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Ora com mais esta do São Gunhedo lá tive de ir à procura das alminhas para deixar aqui e que tinha arquivadas com as da aldeia de Padrões, mas como não quero que aqui falte nada, aqui estão as referidas alminhas:  

 

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Ainda integrado na “Toponímia de Barroso” está a “Toponímia Alegre” onde aparece uma quadra dedicada a Sanguinhedo:

 

Adeus, adeus, Sanguinhedo

És de ladeiras ao fundo;

Quem lá vai tomar amores

Vai-se despedir do mundo.

 

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No Dicionário do mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, encontrámos mais uma referência a Sanguinhedo:

 

MONUMENTOS, ACHADOS HISTÓRICOS E LOCAIS DE INTERESSE

De entre os monumentos destacamos: os diversos dólmenes e antas, já assinalados. Estes monumentos tumulares de pedra foram construídos, entre nós, no período que se situa nos fins do Neolítico, com prolongamento pela Idade do Bronze; os castros são povoações fortificadas, localizadas em colinas de difícil acesso e, de preferência, junto a cursos de água, onde os povos viviam em relativa tranquilidade e se poderiam defender de outras tribos. A cultura castreja teve larga difusão no Barroso, como já vimos; as estradas romanas que atravessavam a região do Barroso, fazem a ligação entre Braga e Chaves e Astorga com variantes e itinerários diferentes; os marcos miliários, monolitos que se fixavam ao longo das vias romanas, por vezes, com indicação de nomes e títulos honoríficos. assinalavam as distâncias de 1.000 em 1.000 passos. Dos muitos existentes ainda se conservam os que se encontraram em Vilarinho dos Padrões, Sanguinhedo.

 

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E vamos iniciando as despedidas, mas antes ainda há tempo para referir que na Internet encontrei a referência a uma  “Associação Recreativa e de Revitalização da Aldeia de Sanguinhedo”, mas apenas isso e ainda uma Dissertação de Mestrado de Arquitetura, data de 2013 e intitulada “Impacto da arquitetura na minimização do despovoamento local : Sanguinhedo, um caso de estudo”, ao qual só tivemos acesso ao resumo, que diz assim:

 

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O presente trabalho de investigação aborda a implementação de um restaurante apoiado por edifícios dirigidos ao Turismo de Habitação Rural, em Sanguinhedo, lugar de Venda Nova, um lugar quase abandonado no concelho de Montalegre. Representa a última etapa do 2º Ciclo, Mestrado Integrado em Arquitetura, a apresentar na Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Vila Nova de Famalicão. “Impacto da Arquitetura na Minimização do Despovoamento Local – Sanguinhedo: Um caso de estudo” foi o título produzido, após se analisar o estudo desenvolvido e se estabelecerem os objetivos pretendidos. A escolha deste trabalho foi motivada pelo conhecimento prévio da propriedade e região onde se pretende implementar o restaurante. Este trabalho explora o Turismo, em particular o Turismo em Espaço Rural e a forma como este pode dinamizar uma região e diminuir o seu despovoamento. A ideia surge depois do contato com a região do Barroso e suas gentes, aqui caracterizados, bem como da constatação do êxodo rural que esta região tem vivido em tempos recentes. Caracteriza-se a povoação de Venda Nova e seu enquadramento natural e geográfico fundamentando assim, a necessidade de implementação de um espaço que apoie o Turismo e sirva como âncora para não só atrair turistas, mas cativar as gerações mais novas a ficarem na sua terra natal. Cria-se, assim, um pólo dinamizador para um reinventar do espaço rural de Sanguinhedo, Venda Nova.

 

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Pois, todas as ideias são válidas e preciosas para combater despovoamento rural, o problema é que se trata de um problema estrutural, que não depende de nós e da nossa vontade, mas sim do poder central, se é que existe, pois também ele está hipotecado a quem realmente detém, e o problema maior, é que, parece-me, já não se saber que o detém. Entretanto, vamos ficando sem hospitais públicos, sem escolas, sem comércio local, sem agricultura, sem o regresso dos nossos filhos, sem os nossos saberes, sem os nossos sabores, sem as nossas tradições, enfim, sem a nossa cultura, para por fim ficarmos sem a nossa identidade.

 

E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

DA FONTE, Barroso, Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Guimarães.

 

WEBGRAFIA

https://www.booking.com/hotel/pt/quinta-da-riba.pt-pt.html, consultado às 18H50 de 11/11/2018.

http://repositorio.ulusiada.pt/handle/11067/2996, consultado às 19H30 de 11/11/2018.

 

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