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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Set18

O Barroso aqui tão perto - Viade de Baixo

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Vamos lá a mais uma voltinha pelo Barroso, que fica aqui tão perto e que é sempre um encanto andar por ele em constante descoberta. Hoje vamos até uma das 3 aldeias que têm como topónimo Viade, neste caso, Viade de Baixo.

 

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Isto de o topónimo principal se repetir em aldeias vizinhas é muito comum em Portugal, aliás no concelho de Montalegre não é caso único, pois nas Penedas (de Baixo, do Meio e de Cima) repete-se o mesmo, também no concelho de Chaves acontece nas Assureiras (de Baixo, do Meio e de Cima).

 

Mas neste caso de Viade, embora exista o Viade de Baixo e o Viade de Cima, a outra aldeia dá pelo topónimo de Antigo de Viade. Quanto ao significado do topónimo, mais à frente abordaremos o tema.

 

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Para já vamos às nossas impressões primeiras tomadas na nossa primeira visita a Viade de Baixo. E digo primeira, porque há aldeias em que ir por lá uma única vez não é suficiente. Aconteceu em Viade de Baixo onde fomos uma segunda vez, mas também uma terceira vez, e agora que comecei a entrar na sua intimidade e história, ou seja, a bisbilhotar nos documentos e publicações, penso que com tempo, uma quarta vez irá ser uma realidade, pois já me dei conta que me escaparam algumas coisas por lá. E confesso a minha culpa, pois poderia não ter acontecido assim.

 

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Pois a primeira vez em que fomos por Viade de Baixo, foi há dois anos, mais precisamente no dia 21 de maio de 2016 a partir das 16H30. Agora que já vou tendo um bocadinho de experiência nesta coisa de recolher imagens mas também conteúdos das aldeias, sei que a partir da hora do almoço é má hora para a fotografia, não só pela luz que é traiçoeira, mas também pelo calor que aperta mais (em tempo quente como foi o caso) e ainda pelos almoços do Barroso que são sempre bons e fartos, o que castra a inspiração, recomendado mais as assossegas.

 

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No trabalho de casa de organização e arquivo das imagens de Viade de Baixo do dia 21.05.16, logo me dei conta que a inspiração não tinha sido muita e que a recolha tinha ficado muito curta, principalmente depois de ter descoberto um lugar no facebook dedicado à aldeia e nele ter visto as imagens que Artur Pastor (https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Pastor) por lá tinha recolhido nos anos 50/60. Nesse dia ficou decidida uma nova visita a Viade para uma recolha mais aprofundada.

 

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No dia 14 de junho de 2017, às 15 horas. De novo numa hora não muito própria, mas desta já íamos mais informados pelo que nos resguardámos um pouco no almoço e aproveitámos aquela hora em que eles (almoços) ainda não começaram a fazer efeito. Quanto ao calor e à luz daquela hora, lá teria que ser, nesta nova ida a Viade de Baixo. Desta vez sim, saímos de lá com espírito de missão cumprida, embora como já disse atrás, ainda com algumas falhas.

 

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Mas no entretanto e na recolha de informações para novos roteiros e itinerários, dei-me conta da existência de uma capela no meio do monte. Pela proximidade só poderia pertencer a Viade e como no passado dia 1 deste mês de setembro andávamos por ali nas proximidades, resolvemos partir à sua descoberta, e diga-se, que foi uma descoberta interessante e agradável, não só pelo conjunto da capela, fonte, cruzeiro e cruz, mas também pelas vistas que desde lá se alcançam. Ah! E desta vez chegámos lá ainda antes de almoçar, aliás até estivemos por lá a fazer horas (ou minutos) para chegarmos à mesa à hora certa. Não sei se já deram conta da importância que a mesa barrosã tem nesta coisa das recolhas fotográficas e documentais… aliás há por aqui quem diga que nós vamos para o Barroso mais pela mesa barrosã do que pelas fotografias, o que não é verdade, mas também não é mentira. Digamos antes que é ouro sobre azul…  

 

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Mas entremos na intimidade de Viade de Baixo, mas antes, como de costume, vamos saber onde se localiza e como chegamos lá, sempre a partir da cidade de Chaves. Para melhor localizarmos Viade nem há como dizer que confronta com a Barragem dos Pisões, na sua margem direita, ali por onde a EN 103 vai contornando as curvas da barragem, um pouco antes de se chegar ao paredão da barragem e da aldeia dos Pisões.  Onde atrás se diz que confronta com a barragem, quer dizer-se o território de Viade, pois a aldeia propriamente dita, fica a 800 metros da barragem e entre ambas, mais ou menos a meio, passa a EN103.

 

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Já entenderam que a EN103 pode ser um caminho para lá chegar, no entanto vou recomendar outro itinerário mais interessante, pois parto do princípio que quando vamos para uma destas aldeias, não vamos lá passar o dia todo e pelo caminho podemos ir deitando um olho a outras aldeias, outras paisagens e até fazer umas paragens em locais agradáveis para se estar um bocadinho em maré de apreciação.

 

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Pois desta vez para o nosso itinerário de ida, vou recomendar-vos a estrada do S. Caetano ou de Soutelinho da Raia, se preferirem. Quando deixarem Soutelinho para trás e imediatamente ante de aparecer a placa a anunciar o concelho de Montalegre, há um enorme rochedo junto à estrada, que é de paragem obrigatória, pois é desde aí que se vê todo o planalto do Larouco a rematar na serra. É desde este ponto que a Serra do Larouco mostra todo o seu endeusamento. Eu não fiz promessa de lá parar, mas a grande maioria das vezes paro por lá para tomar a minha dose de contemplação.  

 

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Logo a seguir temos Meixide onde no final da aldeia a estrada se bifurca, com ambos os destinos dirigidos a Montalegre. Devemos optar pelo da esquerda em direção a Pedrário e Sarraquinhos, nesta, logo na entrada devemos entrar dentro da aldeia, atravessá-la e sair em direção a Zebral. Todas esta aldeias são interessantes, assim, se algum motivo o convidar a parar, pare, pois temos tempo para chegar a Viade de Baixo.

 

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Depois de deixarmos Zebral de lado sem entrar nela, seguimos em direção a Vidoeiro, uma das aldeias dos colonos de Salazar, deve ignorar as placas para o Cortiço, mas se passar por lá também fica a caminho, e a pouco mais de 1 km está na “estação de serviço” do Barracão, já na EN103 (estrada Chaves-Braga).    

 

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Aqui começa a segunda parte do nosso itinerário que servirá para ir e mais tarde regressar. Estando no Barracão é só seguir pela EN103 em direção a Braga. Vai passar pela Aldeia Nova do Barroso (outra das aldeias dos colonos de Salazar), por S. Vicente da Chã, por Travassos da Chã (a lado), por Penedones e Parafita e logo a seguir aparecem as placas a indicar a entrada para Antigo de Viade, mas não é este o Viade do nosso destino de hoje, assim, continue pela EN103 e oitocentos metros mais à frente, aí sim, terá a indicação da entrada em Viade de Baixo e de Cima, à direita. Estamos no nosso destino. Fica o mapa por via das dúvidas.

 

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Estamos finalmente em Viade de Baixo. Não se esqueça, que para regressar a Chaves, depois da visita, deve retomar EN103 mas em direção contrária àquela que tomou para chegar a Viade . Não saia da estrada e estará de regresso a casa. Mas entremos então em Viade e nas nossas recomendações.

 

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Iremos já aos pontos de interesse que vêm nos documentos e livros, mas só um apontamento, não deixe de apreciar com olhos de ver a igreja, as capelas, alminhas e cruzeiros que vai encontrar ao longo da aldeia. O seu casario tipicamente barrosão que ainda vai resistindo, os canastros e tudo o mais que lhe despertar interesse. Na Igreja vi lá um pormenor que me encheu as medidas e que fica na foto seguinte. Trata-se das escadas de acesso à torre sineira, são de uma mestria suprema, nem que fosse só por este pormenor, já valia a pena uma visita a Viade. Mas há muito mais…

 

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Vamos aos documentos, iniciando pelo livro Montalegre, onde se diz:

 

Área: 43 Km²

Densidade Populacional: 18.1 hab/km²

 População Presente: 750

Orago: Santa Maria

Pontos Turísticos: Albufeira de Pisões; Solar dos Queridos; Marco Miliário e Igreja (Viade de Baixo);

Lugares da freguesia: (10) Antigo, Brandim, Friães, Parafita, Pisões, Telhado, Viade de Baixo e Viade de Cima, Lama da Missa e Castelo.

 

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Os dados do parágrafo anterior referem-se à antiga freguesia de Viade de Baixo, ou seja, Viade foi também uma das freguesias rifadas para se unir a outra freguesia vizinha, a de Fervidelas, ou seja, atualmente chama-se União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas, pelo que, às aldeias da freguesia atrás mencionadas, acrescem agora a aldeia de Fervidelas e Lamas.

 

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E continua o livro Montalegre:

 

A freguesia de Santa Maria de Viade orgulha-se do seu passado glorioso, de que restam vestígios notórios, às vezes, de muito difícil estudo por ausência total de documentos. Referimo-nos ao bonito solar dos Queridos no qual sobressai uma impressionante pedra de armas, dos Barrosos e Mouras, e a extinta capela de Santa Rita. A dificuldade de retirar da obscura poeira dos tempos a verdadeira história destes e doutros monumentos conduz à propagação do rosário de lendas que a tal respeito se contam.

 

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E continua:

 

O vale do Regavão, que bordeja a freguesia pelo sul e nascente, dá passagem à via prima, aqui assinalada por um miliário gigante que depois se transformou na cruz de Leiranque. Não longe desse local houve um pisão – que passou a topónimo da barragem e mais acima a antiquíssima Vila de Mel, provavelmente a primeira “statio” (São Vicente da Chã seria a segunda ) entre as cidades de “Praesidium” e “Caladunum” – “mansiones” da dita via imperial. Aí, ainda se pode ver a necrópole cujas sepulturas abertas num granitoide muito mole e areento se vão esboroando com a erosão eólica e aquática. Urge acudir-lhes. Doutras eras mais recentes temos imensas notícias que dariam para grossos volumes.

 

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E ainda:

Apesar de tudo ainda temos mais de mil fontes por esses recantos e algumas, que abasteceram as povoações, merecem uma visita! São as fontes de mergulho ou de chafurdo: em Mourilhe, Arcos, Vila da Ponte, Meixedo, Telhado, Viade de Baixo… Quase todas as povoações tinham a sua.

 

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E ainda a Lenda de Montalegre com uma referência a Viade:

 

Lenda de Montalegre

 

Diz-se que andavam por aí uns fidalgotes, com avantajadas comitivas de escudeiros, pagens e criadagem os quais entravam nas aldeias, comiam, bebiam do bom e do melhor, acomodavam e alimentavam cavalos e mulas, dormiam nas melhores casas e não prestavam  contas. Traziam os barrosões de nervos alterados e incapazes de lhes dar resposta condigna visto que partiam como chegavam, fora de horas e sem avisarem.

 

Mas num belo dia uma grande comitiva subia do Minho  por Salto, Vila da Ponte, Viade, comendo os melhores leitões, vitelas e cabrito, bebendo á tripa fora, despejando dispensas e fumeiros e sem abrirem os cordões à bolsa.

 

Juntou-se o povinho com grande alarido e ameaças ao alcaide cerca dos cubelos do Castelo. Ameaçado e vaiado o alcaide ordenou ao Capitão-mor que organizasse as forças necessárias para emboscar os agressores e obrigá-los a pagarem os prejuízos causados. 

 

Foi acorrentado para o cárcere do Castelo o Fidalgo que superintendia e comandava os assaltantes sendo dada ordem aos seus criados de regressarem às suas terras. Que voltassem com as quantias que o Povo exigia pelos gastos e roubos e então seria dada liberdade ao fidalgo encarcerado.

 

Uns tempos depois chegaram os familiares do preso e pagaram as suas dívidas. De seguida foi entregue o cavalo ao prisioneiro. Que partisse e não voltasse… 

 

O homem ao montar o seu cavalo a caminho da liberdade, despediu-se com duas palavras que são muito queridas a todos os Barrosões.

 

- Monto  alegre!!!

 

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E mais:

 

As Igrejas, Capelas, Alminhas e Cruzeiros - Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém.

 

E ainda:

 

Contudo, a maior riqueza das nossas igrejas encontra-se no interior: tanto em muitos dos seus santos que escaparam à usura de sacristães, padres e “homens-bons”, como na talha que as orna, sendo que uma boa parte dela se deve a ignorados artistas autóctones. Merecem algum realce certos exemplares como Salto, Santa Marinha, Covelo, Vila da Ponte, Viade, S. Vicente, e sobretudo, pelo ruralíssimo e humílimo conjunto de talha de S. Miguel de Vilaça.

 

E também:

 

Há várias povoações com núcleos de construções tradicionais, bem conservados, muitíssimo belos e dignos de ajuda para a melhor preservação do património construído.

 

Estão neste caso Fafião, Pincães, Salto (diversos lugares de freguesia) Currais, Vila da Ponte, Viade, Carvalhais, Cervos, Donões, Gralhas, Tourém, Pitões, Parada e Sirvoselo. Em todas elas há núcleos construídos dignos de integrar os roteiros de visita ao património que o Ecomuseu defende.

 

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Continuando no livro “Montalegre”

 

No castelo de São Romão gravaram uma cabeça de boi, há milhares de anos, em sinal do culto que lhe devotavam; no século passado, os de Travaços do Rio, terra de memórias firmes e longas, gravaram a cabeça do boi campeão numa torre que lhe dedicaram. Não há muitas décadas, dezenas e dezenas de bovinos faziam novenas à roda da Capelinha do Santo António de Viade que os protegera de doenças e desastres.

 

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Capela de Stº António

 

Quanto a festas:

 

As Festas

 

Por falarmos em festas, algumas ocorrem cada ano por toda a região. As de mais nomeada e tradição são as festas concelhias ao Senhor da Piedade, que se realizam na capital, durante a primeira quinzena de Agosto; a de Salto, à Senhora do Pranto, em 15 de Agosto; a de Vilar de Perdizes, à Senhora da Saúde, a meados de Junho; as das sete Senhoras, todas elas Nossa Senhora dos Remédios, em sete localidades diferentes de Barroso, no dia 8 de Setembro, etc.

 

Muitas delas apresentam um programa de carácter etnográfico e recreativo e realizam-se em locais de impressionante envolvência paisagística. Entre estas destacam-se: a Senhora da Vila de Abril, na freguesia de Contim; a Senhora das Neves, na freguesia de Cabril; São João da Fraga, em Pitões; a Senhora de Galegos, na freguesia de Cervos (Cortiço); o São Domingos, em Morgade e o Santo António, em Viade.

 

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E arte sacra:

 

É ver e conhecer a tríade dos Pintos de Donões que tantas obras nos legaram e pedem meças a qualquer artista; são verdadeiras obras-primas que ornam ainda os altares de dezenas de igrejas, desde Montalegre a Chaves, Boticas e Valpaços. Foram exímios escultores, com algumas peças perfeitamente inéditas no nosso meio; foram pintores, douradores de altares e imagens, ensambladores e entalhadores. De todos estes exercícios guardamos espécimes de altíssima qualidade no nosso Concelho. O primeiro, Bento Pinto Júnior (1837-1922) tem obras em Donões, Fírvidas, Peirezes, Sapelos, Pedrário, Montalegre, Travaços, Cambeses e Viade; Domingos José Pinto (1874-1950) deixou obras na Vila da Ponte – a primeira imagem da Senhora de Fátima em Barroso- em Montalegre, Donões, Padroso, Nogueira (Boticas) e Bustelo, Vilarelho e Chaves (todas do concelho de Chaves); António Teixeira Pinto está bem representado nos quatro concelhos acima referidos, sobretudo na pintura e douramento de altares conquanto tenha executado diversas imagens.

 

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E agora é a vez da “Toponímia de Barroso” fazer a sua entrada:

 

VIADE

Desde 2013 – União de Freguesias de Viade de Baixo e Fervidelas

 

É o genitivo do nome pessoal Beatus; “villa” BEATI>BIADE>VIADE.

Podia ser escrito Biade pois o topónimo já em:

-1258 «Sancte Marie Biadi» INQ 1514 estava sedimentado. De igual modo a forma encontrada em

-1288 « de Sancta Maria de Biady» (Com o y dos ditos amigos sdo pedantesco arcaísmo) INQ N.A. – 492. Nas inquirições de

- 1282 «…isto he en termyo de Biadi». Aqui voltamos à forma final/inicial – onde apenas faltava o e mudo terminal cujo i já assim devia soar.

 

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 Os cornos da Serra de Barroso, vista desde Viade

 

No Portal do Arqueólogo encontrámos o seguinte:

 

Via Romana XVII

 

Troço de caminho, parte integrante da via XVII do Itinerário de Antonino. Nesta freguesia tem início alguns metros para Sul da ponte da Cambela, nas imediações da qual foi encontrada uma estela funerária, de época romana. Efetivamente na descida para a ponte conserva-se um belo troço lajeado, cujos marca dos rodados é notória. A via entrava no concelho de Montalegre junto à ponte do Arco (ponte romana), milha 35 desde Bracara Augusta ou 43 desde Aquae Flaviae, continuava pela aldeia de Vilarinho dos Padrões, Venda Nova e Castro de Codeçoso. Neste troço que contempla a freguesia da Venda Nova encontra-se submersa pela albufeira da Venda Nova. Nos Pisões, segundo Lereno Barradas atravessaria a antiga EN ao Km. 116, onde conservava um agradável troço de calçada. Desde os Pisões encontra-se submersa pela albufeira do Alto Rabagão até Villa de Mel, a Sul do Alto do Pedrouço. Na Cruz de Leiranque, local inundado pela albufeira foi encontrado um miliário, posteriormente transferido para Viade de Baixo - CNS 19818. Segundo informação anterior ao levantamento efetuado pela CM Montalegre, os restantes miliários provenientes deste troço encontram-se no Museu da Região Flaviense. É um dos troços mais conhecido da Via XVII do Itinerário de Antonino, onde foram registados miliários in situ e principalmente onde se encontraram miliários com marcação desde Chaves e desde Braga, na mesma milha, facto que não se volta a constatar no decurso desta via. Há ainda referencia de que neste percurso de três milhas romanas (cerca de 4,5 km) existiam 10 miliários, de entre os quais dois são anepígafos, um apenas se conservam as milhas, dois são da dinastia Júlio-Claudiana (Cláudio e Tibério) e quatro da dinastia dos Antoninos (Trajano e Adriano). Para obtermos uma descrição deste troço tivemos que nos limitar aos registos mais antigos (anteriores à construção da albufeira), uma vez que só é possível reconhecer este caminho quando o nível da albufeira desce consideravelmente. Na ponte do Arco, segundo Argote a via cruzava a antiga estrada nacional, continuava por Padrões, Venda Nova, correspondente ao lugar antigamente conhecido por Venda dos Padrões, Codeçoso do Arco, encosta do castro de Codeçoso, milha 38, deste ponto a via descia pela encosta Ocidental até ao rio Rabagão, que cruzava no lugar de Porto de Carros, onde existia a ponte dos Três Olhais, sobre o Rabagão, referida por Argote, e destruída pelas cheias.

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Fotografia de Artur Pastor

 

 

Agradecimentos:

 

Em tempo, umas fotografias antigas do Barroso chamaram-me a atenção. Segui a pista de uma delas e fui parar a um grupo do facebook que tinha como título “Viade de Baixo”. Por lá encontrei outras fotos antigas, igualmente interessantes, tal como a que me fez chegar a este grupo. A curiosidade da autoria levou-me entrar em contacto com uma administradora do grupo (Ana Paço), que prontamente me informou serem fotos dos anos 50/60 de autoria de Artur Pastor. A partir de aí recorri mais algumas vezes às ajudas da Ana a pedir informações sobre Viade, a última vez, há poucos dias, a respeito de uma  Capela nas proximidades de Viade e que graças à Ana ficámos a saber ser “ a capela de São António e de São Salvador do Mundo” com festa a realizar-se “no terceiro fim de semana de agosto” e que no passado “ os andores saiam da igreja de Viade e a procissão seguia pelo caminho de terra” até à capela de Stº António, com missa “ e a seguir faziam-se grandes merendeiros nos campos em volta. Da parte da tarde os lavradores que tinham gado, levavam o gado a dar umas voltinhas a capela, para que ficassem protegidos. Hoje em dia, já não se faz a procissão a partir da aldeia, já não há merendeiros e a festa e o arraial são feitos no largo da seara”.

 

Pois só nos resta agradecer à Ana Paços e ao seu grupo no facebook “Viade de Baixo” pela sua disponibilidade e informações que nos facultou, que em muito contribuíram para a feitura deste post. Já agora fica o endereço do grupo ao qual recomendamos uma visita: https://www.facebook.com/groups/viadebaixo/

 

Ficam algumas imagens de Artur Pastor e uma nossa, atual, quase do mesmo ângulo em que A.Pastor tomou uma das suas. Apenas uma coincidência, pois a minha foto foi tomada antes de conhecer a  de A.Pastor, mas deixo ambas pela curiosidade de se poder comparar o atual com a imagem de há quase 70 anos atrás.

 

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E pela certa que haveria muito mais que dizer sobre Viade de Baixo, mas para já fica isto mas pela certa que teremos por aqui esta aldeia outra vez.  Para terminar e ainda antes de passarmos ao habitual  encerramento do post. Fica uma imagem da cruz colocada no recinto da Capela de Stº. António, que também deve visitar. Sem tempo para a poder localizar, se perguntarem na aldeia onde fica, pela certa que chegarão até ela.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

 

https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1067634

https://www.facebook.com/groups/viadebaixo/

http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=2349128

https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Pastor

https://www.cm-montalegre.pt/

 

 

 

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02
Set18

O Barroso aqui tão perto - Montes, Montanhas e Serras

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Mais um sábado que passei pelo Barroso de Montalegre para amarrar umas pontas soltas do nosso levantamento fotográfico sobre as aldeias e outros lugares, com muitas paragens para registos que iam surgindo pelo caminho, como um arranque de batatas em Medeiros, um ângulo diferente sobre a ponte de Vila da Ponte, as inevitáveis e agradáveis conversas que vamos provocando com os residentes resistentes.

 

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Um sábado em cheio onde não faltaram as subidas às croas dos montes, montanhas e serras do Barroso, com muito calor, mesmo lá em cima onde a temperatura apenas descia uns míseros 2 ou 3º. Um almoço como os que costumam ser os almoços do Barroso, todos os ingredientes para chegarmos a casa de rastos com o corpinho a pedir, pelo menos, um pouco de sofá e a frescura das casas.

 

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Quero com isto dizer que com estas andanças pelo Barroso, depois ficamos sem tempo para preparámos mais uma aldeia para deixar aqui no “Barroso aqui tão perto”, mas o espaço existe e alguma coisa tínhamos que deixar por aqui, e nestes casos temos de facilitar a tarefa e preparar algo mais genérico. Porquê não os montes, montanhas e serras de onde todo o Barroso se avista e todas as montanhas e serras se dão a conhecer. Pois são essas as imagens de hoje, imagens do nosso reino maravilhoso.  

 

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E quando se fala em Reino Maravilho temos que evocar Torga. Fui, dentro do blog, à procura de Torga e do Reino Maravilhoso e encontrei por lá isto que não resisto a transcrever:

 

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“Chegado a casa, abriu-me o apetite para reler o “Reino Maravilhoso” de Torga, o mesmo de que tantas vezes se fala e se faz a citação das primeiras palavras do texto… “Vou falar-vos de um reino maravilhoso (…) fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores (…)  Vê-se primeiro um mar de pedras (…)— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... “ e nunca aparece o texto por inteiro, e é pena, pois todo ele é um poema que nos deixa nus perante a nossa identidade transmontana, o nosso ser, um retrato fiel daquilo que somos e que todo o transmontano tem obrigação de conhecer.”

                                         In https://chaves.blogs.sapo.pt/564005.html onde está transcrito o texto integral de “O Reino Maravilhoso” de Miguel Torga – Se é transmontano é de leitura obrigatória, se não o é,  também o deve ler para ficar a saber quem somos

 

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Quanto às imagens de hoje são de uma das pérolas desse “Reino Maravilhoso”, esta dá pelo nome de Barroso, com as suas serras e montanhas, com vistas que são vistas desde os seus pontos mais altos e desde onde as três principais serras do Barroso se avistam umas às outras, sendo que duas fazem um dos limites do Barroso (Serra do Larouco e Serra do Gerês) e a outra, está bem no coração do Barroso e dá pelo nome, como não poderia deixar de ser, de Serra do Barroso, todas acima dos mil metros de altitude.

 

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Pois são estas as nossas imagens de hoje, um pouco misturadas, mas todas elas tomadas desde a Serra do Larouco, desde a Serra do Barroso ou desde a Serra do Gerês, onde algumas são tomadas dentro delas para elas próprias, como acontece no caso da Serra do Gerês em alguns locais onde nada mais se vê para além do céu e da própria serra.

 

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E para a semana, próximo domingo, cá estaremos de regresso a mais uma aldeia do Barroso de Montalegre, nesta rubrica de “O Barroso aqui tão perto” quando levamos já mais 100 postagens dedicadas ao Barroso, aos seus lugares e aldeias ou temas do Barroso, e se pensam que isto terminará um dia, desenganem-se, pois o Barroso tem, de interesse, lugares, temas e motivos para toda uma vida.

 

 

26
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pondras

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O nosso destino de hoje no “Barroso aqui tão perto” é a aldeia de Pondras, que até terem inventado aquela da reorganização administrativa em 2013, era também freguesia, hoje agregada à freguesia da Venda Nova, ou seja, hoje pertence à União de Freguesias de Venda Nova e Pondras. Assim, é natural que ao longo deste post, quando me referir a Pondras, tanto o esteja a fazer em relação à aldeia como à antiga freguesia.

 

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Iniciemos pela sua localização, uma das aldeias cujo território tinha um dos seus limites no rio Rabagão, margem esquerda, mais precisamente onde a barragem da Venda Nova tem o seu início, mesmo junta à EN103 que atravessava toda a freguesia e que servia as restantes aldeias da freguesia (São Fins, Ormeche e Pai(o) Afonso).

 

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Se recuarmos no tempo, Pondras esteve sujeita a outras alterações administrativas. Segundo o Arquivo Distrital de Vila Real, Pondras foi abadia da apresentação da mitra no termo de Montalegre. Pertenceu ao concelho de Ruivães até à extinção deste, em 31 de Dezembro de 1853, altura em que transitou para o de Montalegre. Em 1839, surge na comarca de Chaves e, em 1862, na comarca e concelho de Montalegre. A paróquia de Pondras pertence ao arciprestado de Montalegre e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922. O seu orago é São Pedro Fins.

 

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Em termos de população a antiga freguesia atingiu o seu auge em 1960, com 513 habitantes, população essa que vinha crescendo desde 1864 com 287 habitantes. A partir de 1960 a linha de tendência é decrescente e tem-se mantido ao longo dos CENSOS, tendo atingido em 2011 os 131 habitantes, e se a linha de tendência se mantiver nos próximos CENSOS, dentro de 20 anos não terá qualquer habitante. O problema é que qualquer que seja a medida a tomar para travar o despovoamento rural, já vai ser tardia, pois tenho a impressão que já se ultrapassou o ponto crítico de não retorno.

 

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Só um aparte a respeito do Brasão da antiga freguesia de Pondras, pois achei curiosas as figuras do escudo, principalmente a das chaves, uma a ouro e outra a prata. Curiosas por serem comuns às da cidade de Chaves (rio, ponte e chaves). Sei que deve ser apenas coincidência. Tentei ver o significado das figuras mas não consegui. Se alguém souber, por favor, digam-nos, num comentário aqui no blog, no facebook,  ou por e’mail, tanto faz.

 

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Dizem que a história ao longo dos tempos se vai repetindo, pois cá pra mim não tardará muito e teremos no Barroso e um pouco por todo Trás-os-Montes uma nova medida tipo as “aldeias jardim” de Salazar, tal como foram apelidadas as aldeias novas dos colonos e que o concelho de Montalegre até tem algumas, que a Junta de Colonização Interna levou a efeito em meados do século passado. Só temo é que os novos colonos não sejam trabalhadores da terra, mas antes exploradores da terra,  e que em vez de pequenos baldios dados à exploração de famílias, sejam dadas regiões à exploração de grandes empresas e indústrias, supostamente portuguesas ou chinesas, tanto faz. O futuro o dirá, e não irá tardar muito…

 

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E já que abordámos a localização de Pondras e um pouco da sua História, é tempo de fazermos o(s) nosso(s) itinerário(s) para lá chegar. No último fim de semana deixámos aqui uma nova forma de abordar este assunto, ou seja, deixámos um caminho para ir e outro para vir. Hoje vamos fazer o mesmo, e podem considerar fazer os percursos ao contrário, pois tanto faz.

 

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Pois como podem ver no mapa que atrás deixámos, a nossa partida, como sempre da cidade de Chaves é feita pela estrada de Braga, a EN103, será esta que nos levará direitinhos até Pondras, pois basta não sair dela que ao quilómetro 63,7, mais metro menos metro, estaremos em Pondras. Se é dos que cumpre as regras de velocidade, demorará pouco mais de 1 hora a chegar lá. Claro que se vai em passeio, e gosta de ir parando pelo caminho, o que recomendo sempre que a coisa seja interessante, demorará mais, mas às vezes compensa. A proposta do regresso é via Boticas, pelo que deverá continuar mais umas centenas de metros pela EN103 até à Venda Nova, aí deverá virar à esquerda em direção a Salto, a entrada desta apanhar a EN311 até Boticas, a seguir Sapiãos e estamos de novo na EN103, agora em direção a Chaves.

 

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Mas regressemos a Pondras e aos seus traços culturais de aldeia, com sabores e saberes, tradições, crenças e tudo que fazem o ser de uma aldeia, traços que cada vez mais apenas têm significado na resistência do seu povo e no testemunho, ia dizer vestígios, mas ainda podemos ficar pelos testemunhos, físicos, que vão ficando para memória futura, tal como sejam algumas construções dedicadas à comunidade (capelas, igrejas, tanques e fornos do povo, chafarizes, alminhas, etc.), e que Pondras também tem, e até com alguma abundância e singularidade, como é o caso dos canastros e das alminhas, uma delas lindíssima e muito bem enquadrada. Fica a imagem:

 

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Mas nem todas são ou estão assim, pois há as que são obrigadas e desprezadas pela agressividade da modernidade. Não bastam os fios e postes elétricos ou de comunicações que são colocados sem o mínimo de respeito pelas populações e por algumas coisas que as aldeias têm de melhor (igrejas, capelas, cruzeiros, etc.), como na colocação de outros equipamentos, do lixo no caso, tiram toda a dignidade àquilo que até é património de Portugal, as alminhas, como estas que deixo a seguir. Poder-se-á dizer que é mais uma para aquelas do “Portugal no seu melhor”. Ficam as imagens:

 

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É, gostamos de mostrar aquilo que as aldeias ainda têm de interessante, mas muitas das vezes somos privados de o fazer, pois acontecem coisas destas que são verdadeiros atentados à dignidade das aldeias. Pela certa que não faltariam locais mais apropriados para a colocação destes pequenos mamarrachos cuja companhia não agrada a ninguém, eu sei, mas as alminhas, por não se queixarem, não têm culpa. Desta vez não resisti e tive de trazer aqui as imagens que ficaram atrás.

 

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Que não sejam estas imagens as que manchem a imagem de Pondras. São de lamentar, mas têm solução e Pondras são muito mais, é uma aldeia interessante, quer na sua intimidade quer na sua beleza vista a alguma distância. Também as vistas que desde a aldeia se alcançam, recomenda-se a quem gosta de paisagens que vai mudando conforme a distância, mas onde predominam o verde e o azul, quer o do céu, quer o da terra que as montanhas mais distantes oferecem ou o reflexo das águas das albufeiras.

 

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E agora é aquela parte dedicada às nossas pesquisas, em que vasculhamos nos livros, nos documentos e na internet aquilo que se diz sobre as aldeias que vistamos. Claro que vamos sempre ao livro Montalegre, penso que lhe posso chamar monografia de Montalegre, onde encontrámos:

Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém. É justo salientar que diversas outras igrejas datam dos primeiros tempos da monarquia e seriam incluídas nesse estilo. Acontece que foram sofrendo remodelações – muitas vezes a fundamentis – que as descaracterizaram. A última grande febre dos arranjos deu-se nos princípios do século XVIII e, por isso, os edifícios exibem datas dessa altura. Por exemplo: Pondras -17; Santo André- 1813; Vila da Ponte – 1710, etc.

 

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E continua:

Os cruzeiros são mais de 60 e se lhes juntarmos os calvários ainda existentes com as cruzes das estações da via sacra serão três vezes mais. Destacam-se o de Salto, Pondras, Mourilhe, Codessoso de Meixedo, de Montalegre, o da Interdependência da Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!

Pois esta imagem do cruzeiro escapou-nos, não sei porque razão, mas não a temos, talvez não o tivéssemos visto, o que é estranho ou então algum coisa, obstáculo ou outro nos impediu de tomar a imagem. Lamento mas não a tenho.

 

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E na página dedicada à freguesia de Pondras diz o seguinte:

Ocorre evidente discrepância sobre o hagiotopónimo desta freguesia. As inquirições de 18 tratam-na, e bem, por Santo Fins; o Catálogo de todas as Igrejas, 130, (reinado de D. Dinis) chamam-lhe, e mal, São Félix. Mais recentemente, voltámos, e bem, ao chamadouro correcto que é São Pedro Fins de Pondras. É provável que a confusão derive do tratamento dado na arquidiocese ao problema de São Pedro de Rates, dito primeiro bispo-fundador da Igreja de Braga, ou a D. Pedro, primeiro bispo-refundador da Igreja de Braga. De todo o modo, em Pondras, fazem festa ao príncipe dos Apóstolos, em 9 de Junho. É um caso significativo o modo de povoamento verificado visto que as principais povoações da freguesia, Pondras e Ormeche estão algo distantes do local da Igreja, por acaso (ou talvez não) junto do outeiro que foi um castro e onde demora a povoação de São Fins. (é esta a verdadeira grafia do hagiotopónimo que dá nome ao lugar onde se situa a igreja).

No cabeçalho do artigo, nos pontos de interesse, também se fala num relógio de sol em Pondras, a nossa objetiva também não o viu. Mais um lamento.

 

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Quanto à Toponímia de Montalegre, ao respeito da aldeia, diz o seguinte:

 

Pondras

Desde 2013 – União das Freguesias de Venda Nova e Pondras

Vem de “PONDERA” < PONDRA ou POLDRA. Este L de Poldra aparece por acção da reversa R: é o que se chama uma assimilação imperfeita.

Alguns toponimistas (eventuais imitadores de poldros e semelhantes raças cavalares) propõem para Poldras o radical de Poldra com o significado de égua jovem. Evidente ridiculez. Acontece que o nosso topónimo:

- 1258 Ponderas INQ 1513 explica claramente o latino neutro do plural (aqui tido por singular) pondera > pondra, com significado de peso (pondus). O facto de ser plural singularizado ajuda a ver que se trata de pedras separadas e pesadas para atravessar correntes de água. Os árabes arabizaram, como se esperava, o vocábulo e meteram-lhe o artigo al que também aceitamos. O caso das poldras é muito encontrável na evolução fonética (sem qualquer intervenção arábica) por influência das consoantes r e l como acima se disse.

Este nome justifica-se perfeitamente porque toda a freguesia se encontra situada na margem esquerda do Regavão e que só podiam atravessar em pedras passadeiras visto que não possuíam ponte. Talvez por isso a freguesia que é tão pequena se institui tão cedo.

 

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Ainda antes de entrámos na Toponímia Alegre que é parte integrante da Toponímia de Barroso, queria aqui fazer um aparte a este respeito. Como devem reparar, limito-me a citar aquilo que vem escrito na “Toponímia de Barroso”, por curiosidade, porque sempre gostei de saber a origem dos topónimos, ou nomes dos nossos lugares, no entanto não quer dizer que concorde, aceite ou valide tudo o que se lá diz, mas como é uma citação, limito-me a citar. Longe de mim de ser ou pretender ser um “toponimista”, mas parece-me que muitas das vezes o topónimo nada tem a ver com o significado que se vai buscar à origem da palavra que faz o topónimo. Parece-me e conheço muitos casos em que assim não é, mas, claro, temos que dar sempre o benefício da dúvida, ou então dizer como Firmino Aires, na Toponímia Flaviense a respeito dos argumentos utilizados por  J.L. de Vasconcelos, no Archeologo Português, sobre o topónimo da Rua da Trancada em Chaves, quando termina a sua citação dizendo: “… Os investigadores que o confirmem ou o refutem”.   Subscrevo esta!

 

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E na Toponímia Alegre temos o seguinte:

 

Pondras (Memórias Paroquiais de 1758):

(Sobre os habitantes)

“…lavradores de baixo bordo e limitada esfera mas soberbos, quase todos lagareiros de azeite em terras dos Alentejos e todos homens de alforge.”

Abade Miguel Vieira

 

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E continua:

Entre Pondras e Ormeche

Andam melros no namoro:

Eu levo por todo o lado

Saudades, amor e choro.

 

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E quase para finalizar. Sobre a aldeia de Pondras, encontrei uma página no facebook pertencente à “Associação Pondras em Movimento” e ao que parece é mesmo para por em movimento a população de Pondras, pelo menos a crer naquilo que a associação diz ter por missão: “Promover eventos de confraternização entre a povoação local”  e pela foto do cabeçalho, parece-me ter muita gente jovem. Esperemos que estes jovens ao partirem, deixem outros no seu lugar, porque sou dos que ainda acreditam neste tipo de associações sem fins lucrativos, embora, infelizmente, não costumem ter apoios ou ser acarinhadas por quem deveria ter esse dever. Não sei se é o caso, mas há algumas que conheço que assim é.  Fica o link para a página da associação no facebook: https://www.facebook.com/Associa%C3%A7%C3%A3o-Pondras-em-Movimento-148801851850059/

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

WEBGRAFIA

 

https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1067634

 

 

 

 

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19
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Lamachã

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Vamos lá, mais uma vez, até ao Barroso aqui tão perto, hoje para a aldeia de Lamachã, no limite do concelho de Montalegre a apenas 400 metros do concelho de Boticas.

 

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Lamachã é uma daquelas aldeias que não calha nos habituais itinerários do Barroso, e embora não seja uma aldeia de fim de estrada, pois é servida por uma estrada secundária que liga ao concelho de Boticas via aldeia de Lavradas, aldeia essa, que está nas mesmas condições de Lamachã. Daí ser uma estrada mais utilizada para atalhos, principalmente pelas aldeias vizinhas ou para quem conhece a região.

 

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Nós passámos lá há uns anos pela primeira vez por, precisamente utilizando-a como um atalho mas também por curiosidade. Na segunda vezque lá fomos, já foi de propósito para fazer a nossa recolha fotográfica, decorria então o mês de outubro de 2016, ao fim da tarde, em hora não muito própria para fotografar, quer pela luz que já não estava no seu melhor, quer pelo nosso cansaço de todo um dia à caça de fotografias, o que faz com que a inspiração também  se distraia.

 

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Pois ao rever as fotografias desse dia de outubro de 2016, para além do que atrás dissemos, sentimos que eram poucas para mostrar o todo da aldeia, daí, há coisa de um mês atrás fomos por lá outra vez, desta vez a horas decentes, ainda pela manhã, fresquinhos e com boa luz. Desta vez sim, sem qualquer desculpa para não termos feito o trabalho como deveria ser, e se não fizemos melhor, é porque não o sabemos fazer, para além de estarmos, isso sim, sempre condicionados àquilo que a aldeia tem para oferecer. Mas tudo correu bem.

 

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Lamachã é uma aldeia típica do Alto Barroso, mesmo porque está implantada a uma cota superior aos 1000 m de altura e no grande planalto que se vai desenvolvendo entre a Serra de Barroso e a Serra do Larouco, embora a aldeia esteja em plena Serra do Barroso.

 

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Já fomos deixando por aqui a sua localização, pois já sabemos que está a 400 metros do concelho de Boticas e na Serra do Barroso, talvez falte acrescentar que é uma das aldeias das proximidades da barragem dos Pisões (margem esquerda) a apenas cerca de 3Km, igual distância à aldeia de Negrões, onde aliás se toma a estrada que dá acesso a Lamachã. Mas também pelo final do seu topónimo “chã” podemos localizar a aldeia. Mas vamos ao itinerário a partir da cidade de Chaves, no final do qual deixaremos o nosso habitual mapa onde localizamos a aldeia no contexto do Barroso.

 

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O itinerário que recomendamos para chegar até Lamachã a partir de Chaves é via EN103 (Estrada de Braga), mas temos uma variante, embora até Sapiãos seja caminho comum. Pois a minha proposta é ir por um lado e regressar por outro, ou seja, para lá vamos sempre pela EN103 até ao Barracão, aí saímos à esquerda e tomamos a estrada municipal EM525 que liga a Criande/Morgade, ou seja, aí teremos a barragem dos Pisões à nossa frente. Deveremos seguir pela EM525 em direção a Negrões sempre junto à barragem. Em Negrões abandonamos a EM525 e tomamos a EM519 em direção a Lamachã. De Negrões a Lamachã são 2.7Km. Por este itinerário, ao todo serão 45.4km.

 

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No regresso, podemos vir via Boticas, ou seja, depois de Lamachã continuamos pela EM519 até Lavradas e logo a seguir apanhamos a EM520 em direção a Carvalhelhos, logo a seguir apanhamos a EN311 em direção a Boticas, passando pela Carreira da Lebre. Em Boticas seguimos em direção a Sapiãos onde entramos na EN 103 (Estrada de Braga), mas em direção a Chaves. Este regresso é de 38Km, mais curto que a ida. Claro que pode fazer tudo ao contrário, ir via Boticas e regressar via Barracão.

 

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Já a seguir vamos àquilo que encontrámos nas nossas pesquisas, começando pela monografia de Montalegre e logo na nossa citação inicial compreenderão porque recomendei o itinerário mais longo para chegar a Lamachã. Já agora, também eu recomendo a rota que ficará a seguir.

 

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Então diz assim o livro Montalegre:

 

A grande rota das barragens

Vamos propor um passeio ao longo das albufeiras que se espraiam pelos vales dos rios Cávado e Rabagão. São cenários majestosos de água e serra, bem vivos nos prazeres da pesca, da vela do flyserf,  do remo, da canoagem e do esqui, ou no gosto da vitela barrosã, do cabrito,  das trutas  e das carpas.

 

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E continua:

Fixe como ponto de partida a vila de Montalegre. Saia em direcção à EN 103, Braga - Chaves, seguindo em direcção às aldeias da Aldeia Nova do Barroso – aldeia dos Colonos - Morgade, Negrões, Lamachã e Lavradas, já no concelho vizinho, para ter acesso ao grande miradouro do Vale do Rabagão, que são os “Cornos das Alturas”. Lamachã e Vilarinho Seco são aldeias pequenas de rosto antigo, sorridentes nas expressões populares e rodeadas de pastos, campos de milho e centeio. Na descida para Lama da Missa pare e admire o vasto panorama da albufeira da barragem do Alto Rabagão. A truta, o escalo, a boga e a carpa são as principais espécies piscícolas existentes nesta albufeira, considerada como a maior do Norte de Portugal. Em Penedones, o Clube Náutico e de Aventura do Alto Rabagão organiza passeios de barco na albufeira para grupos até 16 pessoas, bem como regatas, passeios a pé, ou de bicicleta de montanha. Neste local está instalado o Parque de Campismo Municipal e passa também o GR 117 – Via Romana XVII.

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E continuamos no livro Montalegre:

Pelo termo de Codessoso passava um caminho medieval importante que servia diversos lugares da enorme paróquia da Chã, ao tempo das Inquirições de D. Afonso III: Negrões, Vilarinho, Lamachã, Morgade, Carvalhais e Rebordelo, Fírvidas e Gralhós, além das herdades ribeirinhas do Regavam (sic).

 

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Ainda no livro Montalegre:

 

Negrões

Também esta freguesia integrou a Comenda da Chã às Clarissas de Vila do Conde, pelo rei de D. Dinis. Em 1862, nasceu em Vilarinho de Negrões, Domingos Pereira. Ordenado padre e já abade de Refojos (Cabeceiras) contra vontade de seu tio, o também padre João Albino Carreira, filiado no Partido Regenerador, filiou-se no Partido Progressista. Fiel ao seu credo partidário, tornou-se amigo íntimo de Paiva Couceiro e recusou aderir à República em 1910. Perseguido, como os outros chefes monárquicos, após a estrondosa derrota, no espaldão da carreira de tiro, em Chaves, foi condenado a 20 anos de penitenciária. Conseguiu colocar no Brasil os seus “soldados, na ordem de alguns milhares” e regressou a Espanha e à sua actividade conspiratória. Conspirou a vida inteira. Depois da amnistia de Sidónio Pais, teve acções preponderantes na proclamação da “Monarquia do Norte”, em 1919, participando nos combates de Cabeceiras, Mirandela e Vila Real. Restaurada a República exilou-se em Espanha e foi condenado à revelia a 20 anos de prisão maior. Excluído, como Paiva Couceiro, da amnistia concedida aos monárquicos, regressou em segredo, em 1926, a Cabeceiras, onde viveu até 1942. Por falar em condenações, é de lembrar a condenação de José Pereira, de Lamachã, em 1947, a 29 anos e meio de cadeia “acusado de ser o autor moral” dum crime que de certeza não cometeu. Eram assim os tribunais e juízes fascistas.

 

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E o que nos diz a Toponímia de Barroso!? – Não sei. Mas já vamos ver.

Então diz assim:

 

Lamachã

 

São dois vocábulos acoplados: Lama e Chã, isto é, o nome comum LAMA do latino LAMA, que significa lodo, água  e terra; com o adjectivo PLANA>PLAA>CHAA>. Está documentada ainda com os dois vocábulos separados (ao que não me oponho) e referida a um povoado desaparecido, na freguesia de Salto.

-1258 «et de villa de Lama Chaa etc,».

No Arqui. Hist. Port. Já não existe a Lama Chã de 1258 de Salto mas existe a Lama Chaa, com cinco fogos, na sua freguesia de Negrões. É muitas vezes conhecida pelo dialectal oxítono Lamachão (quadra).

 

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E a Toponímia Alegre, o que nos diz:

 

Negrões, trinta vizinhos

Quarenta ladrões

E o padre quarenta e sete!

 

Quereis saber onde moro?

Eu dou-vos a direção:

Moro na rua do forno,

Correio de Lamachão!

 

De Lamachão

Nem bom homem

Nem bom cão!

 

Os de Lamachão

O que dizem à noite

Esquecem pela manhão.

 

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Várias referências a existência de um Castro em Lamachã, desde a listagem de castros em Montalegre de autoria do Padre Lourenço Fontes e confirmada na listagem de castros no “ O Archeologo Português”: Povoado da Idade do Ferro a apresentar uma estrutura defensiva constituída por duas linhas de muralhas circundantes e, do lado Este, por um fosso, atualmente usado como caminho. Na plataforma superior são evidentes os entalhes na rocha, onde entroncaria a muralha. A linha de muralha mais exterior foi recentemente reaproveitada para suportar um caminho.


Na zona intramuros são evidentes os restos de construções, tendo sido encontrados por todo o povoado fragmentos cerâmicos indígenas.

 

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Bem queríamos deixar por aqui outras informações sobre Lamachã, mas nada mais encontrámos nas nossas pesquisas. Por nós gostámos do que vimos e pela certa que o atalho por Lamachã nos irá servir mais vezes, pelo que estaremos atentos a novos motivos que por lá nos possam surgir.

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

12
Ago18

O Barroso aqui tão perto - Pelas serras com Torga

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Mais uma ida até ao Barroso aqui tão perto, mas mais uma vez sem termos por cá qualquer aldeia e até temos uma preparada em imagem, mas ainda lhe faltam as palavras para as quais não tivemos tempo de lhe alinhavar as letras. Assim, hoje vamos mais uma vez para o Barroso, sim, mas aquele que é feito de serras e montanhas e água que corre, que cai, que estaciona entre o penedio. Vamos fazer nossas as palavras de Miguel Torga, não só por também nós comungarmos da sua paixão telúrica, mas por serem também palavras inspiradas por imagens como as que deixamos hoje, aliás algumas delas foram tomadas enquanto se falava de Torga e de como tão bem entendíamos e sentíamos as suas palavras quando estamos no seu ambiente natural.

 

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É possível que esta paixão telúrica que me faz divinizar as fragas, os rios e os carvalhos signifique, afinal de contas, que não consegui desembaraçar-me da placenta de ovelha que o destino me atirou à figura, como certo inimigo fez a Maomé. Mas não me desagrada a hipótese.

 

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Estou sinceramente convencido de que a realidade campestre nem é inferior à outra, nem se lhe  opõe. Por detrás das pedras roladas e das ravinas, pulsa o mesmo coração inquieto a vida. A solução, portanto, consiste apenas em auscultá-lo com a finura de ouvido que é obrigatória nas consultas citadinas. E a mágoa que me punge não é ser montanhês por devoção: é de não ser capaz de revelar todos os mistérios que se escondem nas dobras da estamenha.

 

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Bem rústicas parecem as urzes, e a abelha tira das suas flores mel perfumado. Nada mais agressivo do que um silvedo, e o melro faz o ninho no meio dele.

 

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O mal é nosso e, neste caso, meu particularmente. Confundimos a casca com o sabugo. Talvez porque só temos casca e não merecemos a graça de comungar à mesa onde Collete recebia o corpo eucarístico da natureza. Ela, sim, podia exprimir o cataclismo de cada fecundação e decompor o arco-íris  de cada primavera. Através do sacramento do amor e da entrega, real e substancialmente, os seres e as coisas passavam a fazer parte da sua humanidade profunda e falavam depois pela sua boca.

 

Miguel Torga, In Diário VII

 

 

 

29
Jul18

O Barroso aqui tão perto - Santa Marinha

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E como hoje é domingo, vamos mais uma vez dar uma voltinha pelo “Barroso aqui tão perto”, pela freguesia de Ferral, mais precisamente, vamos até à aldeia de Santa Marinha, no Barroso que eu apelido de verde e disperso com vistas lançadas para o Gerês.

 

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Antigamente defendia que as primeiras impressões, ligadas à aparência, é que valiam. Com o tempo aprendi que não é bem assim, que afinal os pormenores é que têm valor, e a aparência é apenas uma fachada que esconde toda a intimidade. Quero com isto dizer que quando avistei Santa Marinha desde a aldeia vizinha de Pardieiros, gostei do que vi, pequenina e arrumadinha na encosta da serra. Quando cheguei à aldeia, junto ao cemitério, acrescentei mais um ponto ao gosto, não pelo cemitério, que embora até poderá ter certa beleza, não é local que eu aprecie em particular, mas pelo conjunto da pequena capela e cruzeiro.

 

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Mas com o aproximar da aldeia, onde ela está mais concentrada, nem por isso estava a gostar do que ia vendo. Fui entrando com ar de quem não iria sair de lá satisfeito, e é aqui que entram os pormenores, o conjunto dos pormenores que fez com que saísse da aldeia a dizer: - Afinal até valeu a pena!. Há por lá pormenores que fazem a diferença,   algumas preciosidades até, e já nem quero falar dos matizes do verde ou das vistas que desde lá se podem lançar. O problema da aldeia, que até nem é problema, está no ela ser dispersa, dificultando uma interpretação no seu todo, principalmente em imagem. Aliás este tipo de povoamento disperso é transversal a toda a freguesia e penso que se deve à forma/modo de aproveitamento agrícola das encostas.

 

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Mais uma vez refiro aqui as singularidades do Barroso, este, da freguesia de Ferral mas também o de Cabril a mostrar uma outra cara do Barroso, de povoamento disperso, verde, de montanha, onde praticamente não há terra plana, e a que há, é em socalcos,  onde houve a intervenção humana para aproveitamento da riqueza da terra, que aqui se apresenta fértil, graças à humidade, exposição ao sol e temperatura, em terras que já se encontram a uma cota bem mais baixa que no restante Barroso, entre os 200 e 600 metros de altitude. Isto pelo que pude observar no local, sem qualquer documentação que o valide, mas penso que não andarei longe da verdade.

 

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A descrição que faço da entrada da aldeia nada tem a ver com a entrada que irão encontrar se seguirem o itinerário que à frente irei recomendar. Acontece que o itinerário recomendado é para irmos especificamente até Santa Marinha, no entanto, nas minhas idas ao Barroso para fotografar as suas aldeias, nunca ia apenas a uma aldeia, mas a várias, daí ter entrado na aldeia vindo de Ferral, pelo qual o itinerário recomendado até nem passa.  

 

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Quem acompanha o blog sabe que esta rubrica sobre o Barroso surgiu para dar a conhecer as suas aldeias,  mas,  simultaneamente, servem como uma proposta, ou um convite para as visitar, principalmente agora em que o dinheiro não abunda para podermos ir à descoberta de outros destinos mais longínquos e caros. Juntar o útil ao agradável, sim, porque o Barroso tem uma série de destinos tão interessantes ou mais ainda que muitos dos que encontramos lá fora. Temos é que entrar nele à sua descoberta, pois continua a ser um tesouro desconhecido da maioria que vive a menos de uma hora de viagem. Mas queria eu dizer, isto se aceitarem esta minha sugestão de visitar a aldeia, que uma vez que vão à aldeia, aproveitem o dia para ver outras aldeias e outros pontos de interesse que ficam no itinerário ou na proximidade desta aldeia, pois seria um desperdício não aproveitar a ocasião.

 

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Ainda antes de irmos ao itinerário recomendado e continuando nesta onda de descoberta/promoção do Barroso, uma vez que estamos em tempo de férias de verão, porque não passar por lá uns dias de sol com banhos incluídos, numa das suas cascatas ou albufeiras. Se for como eu, ao qual já passou o gosto de ser lagarto ao sol para além do médico me recomendar sombras, estas também não faltam por lá. Uma proposta para um dia, pois sendo aqui da terrinha (Chaves) poderá ir e vir no mesmo dia, com dormida na nossa caminha. Fica prometido que no próximo domingo deixo aqui um mini roteiro com propostas para algumas albufeiras e cascatas.

 

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Vamos então ao itinerário recomendado para chegarmos a Santa Marinha, da freguesia de Ferral, concelho de Montalegre.

 

Pois desta vez apenas recomendamos um itinerário, por sinal um dos nossos preferidos, talvez porque é um dos que nos mostra também os vários matizes do Barroso, para além de passar pela vila de Montalegre, que é sempre interessante.

 

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Pois para este itinerário devemos seguir pela estrada do S. Caetano/Soutelinho da Raia. Logo na primeira aldeia de Montalegre, Meixide, devemos tomar a primeira opção de seguir via Vilar de Perdizes ou via Pedrário/Sarraquinhos. Tanto faz, a distância é sensivelmente igual e o destino será sempre o mesmo — Meixedo, mesmo antes de Montalegre. Isto já não é novidade para quem acompanha o blog, mas pode-se dar o caso de alguém vir por aqui a primeira vez ou não ser visita habitual e há sempre que repetir estes pormenores. Pois chegado a Montalegre, que é de paragem obrigatória nem que seja apenas para um café,  seguimos pela M308, em direção ao Campo de Futebol.

 

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Tínhamos ficado em Montalegre, já na M308 em direção a Sezelhe que devemos passar e seguir em direção a Paradela do Rio, com passagem por Travassos do Rio, Covelães, Paredes do Rio e Outeiro. Os topónimos têm apelido do Rio por ficarem perto do rio Cávado. Aliás este itinerário entre Montalegre e Santa Marinha é sempre feito na proximidade do Cávado e mais ou menos paralelo ao mesmo, primeiro pela margem esquerda até um pouco antes de Frades, depois pela direita até Outeiro e em Paradela já estamos outra vez na margem esquerda.

 

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Já estamos em Paradela, fácil de identificar pela Barragem que tem ao lado. Aliás entre Outeiro e Paradela vamos ter sempre a Barragem ao lado por companhia. Em Paradela não há nada que enganar. Chegado ao largo do cruzeiro, fácil de ver, pois o mesmo serve de rotunda no cruzamento, seguimos em frente, ou seja, na terceira saída da rotunda. Para não ter mesmo dúvidas, atenção às placas indicativas, pois o cruzamento está bem sinalizado. Devemos sair pela estrada cujas placas indiquem Ponteira, Sexta Freita, Covelo do Gerês e Ferral.  Até ao nosso destino, já próximo, não vamos passar por dentro de nenhuma aldeia, ficam todas ao lado, mas devemos passar ao lado de Ponteira e de Sexta Freita, logo a seguir ao desvio para Sexta Freita (mais 2km) vamos encontrar um pequeno conjunto de casas junto à estrada, com uma saída à esquerda para Sacoselo e 200 metros à frente uma saída para a direita, a nossa saída, onde devem estar as placas de Stª Marinha e Covelo do Monte, cinco curvas à frente e estamos em Santa Marinha.

 

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Curioso que ainda atrás falava em albufeiras e cascatas, pois embora Santa Marinha não tenha nenhuma delas, tem na sua proximidade algumas, mas fiquemos apenas pelas barragens, a da Venda Nova a cerca de 2.5 km, a de Salamonde à mesma distância (2.5Km) e a de Paradela um pouco mais distante, mas mesmo assim próxima, a 7.5km. Tudo distância em linha reta, pois por estrada é um pouco mais.

 

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E o que dizem os livros e documentos de Santa Marinha. Vamos lá ver se temos sorte.

 

No livro “Montalegre” encontrámos algumas referências:

 

As Igrejas, Capelas, Alminhas e Cruzeiros

Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém. É justo salientar que diversas outras igrejas datam dos primeiros tempos da monarquia e seriam incluídas nesse estilo. Acontece que foram sofrendo remodelações – muitas vezes a fundamentis – que as descaracterizaram.

 

A última grande febre dos arranjos deu-se nos princípios do século XVIII e, por isso, os edifícios exibem datas dessa altura. Por exemplo: Pondras -1725; Santo André- 1813; Vila da Ponte – 1710, etc.

 

Contudo, a maior riqueza das nossas igrejas encontra-se no interior: tanto em muitos dos seus santos que escaparam à usura de sacristães, padres e “homens-bons”, como na talha que as orna, sendo que uma boa parte dela se deve a ignorados artistas autóctones. Merecem algum realce certos exemplares como Salto, Santa Marinha, Covelo, Vila da Ponte, Viade, S. Vicente, e sobretudo, pelo ruralíssimo e humílimo conjunto de talha de S. Miguel de Vilaça.

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E continua:

 

Os cruzeiros são mais de 60 e se lhes juntarmos os calvários ainda existentes com as cruzes das estações da via sacra serão três vezes mais.

 

Destacam-se o de Salto, Pondras, Mourilhe, Codessoso de Meixedo, de Montalegre, o da Interdependência da Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!

 

Das ermidinhas, que o estro de Junqueiro abençoa, destacamos quer pela beleza paisagística do local, quer pelo encanto do conjunto “Construção humana e Natureza envolvente”: Nossa Senhora das Neves  (São Lourenço) e São Tiago (Fafião), na freguesia de Cabril; Senhor do Alívio, em Salto; Senhora do Monte (Serra do Barroso); São Frutuoso (Montalegre); Santo Amaro (Donões); Santa Marinha, em Vilar de Perdizes; S. Domingos, em Morgade; Nossa Senhora de Galegos, no Cortiço (Cervos); São João da Fraga, em Pitões; São Lourenço, em Tourém, e Nossa Senhora da Vila de Abril, em São Pedro (Contim).

 

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Ainda no livro “Montalegre” a respeito da freguesia de Ferral, mais algumas referências a Stª Marinha.

 

Ferral

Esta freguesia mudou várias vezes de nome: foi primeiro Santa Marinha de Covêlo do Gerês por oposição a São Pedro de Covêlo do Gerês; depois dava apenas pelo hagiotopónimo Santa Marinha; mais tarde foi Santa Marinha de Ferral e hoje é somente Ferral. Contudo, é da tradição local que existiu neste mesmo termo a freguesia de São João da Misarela, de que não possuímos qualquer documento escrito! Na realidade, nunca se encontraram vestígios de tal construção nem qualquer referência à sua localização. Apesar das oito povoações que integram a freguesia, o seu isolamento até ao século XVIII era tão acentuado que se tornava extremamente propício à criação e sedimentação de lendas de que é paradigma a da Misarela. Tal como na vizinha Cabril, antes das barragens, os rios eram barreiras difíceis de transpor, mesmo de verão… Por isso a freguesia foi-se alargando e anexando povoações na área de entre Cávado e Regavão: Vila da Ponte e Bustelo (freguesia anexa até ao século XIX) e Contim e São Pedro, igualmente freguesia anexa. Restos evidentes desse antigo fausto é a riquíssima talha da vetusta Igreja de Santa Marinha.

 

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E a o que nos diz a “Toponímia de Barroso”. Não sei, mas vamos ver:

 

Santa Marinha (Ferral)

Correm por aí diversas lendas sobre Marinha, Santa e Mártir. É de espantar a ingenuidade de algumas que referem a naturalidade da Santa e da sua vida bem longe dos locais onde terá nascido, vivido e sofrido o seu martírio.

Teve culto já documentado no século VIII, após a invasão árabe, e de tal forma arreigado, lendário e popular que a deram como natural de várias localidades. Na realidade Santa Marinha foi martirizada em Antioquia.

1258 - « in collatione de Sancte Marine» INQ. 1523.

 

Na Toponímia Alegre temos o seguinte:

 

Requerimento do Abade de Santa Marinha ao Senhor Arcebispo de Braga.

 

O abaixo –assinado,

Abade Albino Mendes,

De setenta anos de idade,

Sentindo-se velho e cansado

E estando-se a esgotar

O prazo da sua colocação

Que exerceu com lealdade, a Vossa Eminência vem rogar

Licença para continuar

Que para tanto autoridade tendes;

Beija-lhe o anel sagrado

O abade Albino Mendes!

 

E ainda:

 

Nomes do “Rio” intermédio:

Carabunhas de Vila Nova,

Conspiradores de Covelo,

Rabinos de Loivos,

Peixeiros de Sidrós,

Papa-ventos de Ferral,

De Viveiro não sai graeiro,

Carrapatos dos Pardieiros,

Borra-ladeiras de Santa Marinha,

Carvoeiros de Nogueiró.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

22
Jul18

O Barroso aqui tão perto - São Fins

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O nosso destino de hoje de “O Barroso aqui tão perto” é para São Fins, uma das aldeias da margem da Barragem da Venda Nova e também ao lado da EN103.

 

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Iniciemos pela sua localização e os itinerários para lá chegar, como sempre a partir de Chaves.

 

Quanto à localização já fomos adiantando estar junta à barragem da Venda Nova, mesmo no início da barragem e também junta à EN103 que liga Chaves a Braga. Tem como aldeias vizinhas e mais próximas a aldeia de Currais (a Norte) do outro lado da barragem e a aldeia de Pondras (a Sul) do outro lado da EN103, ambas a cerca de 700m. Pertence à freguesia de Pondras, ou melhor, à união de freguesias de Venda Nova e Pondras (desde 2013), concelho de Montalegre. Trata-se de uma pequena aldeia com cerca de 30 construções, metades das quais habitações. A rondar os 700m de altitude é rodeada pela barragem e por terrenos agrícolas, todos tratados.

 

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Quanto ao itinerário recomendado, sendo uma das aldeias à beira da EN103, adivinha-se que seja esta estrada o melhor itinerário, a partir de Chaves,  para chegar até São Fins. De facto é esse o itinerário que recomendamos para uma ida direta até esta aldeia, num total de 60.7Km. Mas como alternativa deixamos também o itinerário via S. Caetano/Soutelinho da Raia, com passagem por Montalegre, Sezelhe, S. Pedro, Contim e logo a seguir apanha-se a EN103, junto à barragem dos Pisões, seguindo depois pelo primeiro itinerário até São Fins.

 

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Deixo o segundo itinerário porque, pessoalmente, se tivesse de ir a São Fins iria via Montalegre e não pela EN103. Não é por uma razão em especial, pois para quem não conhecer a região ou o Barroso, tão interessante é um itinerário como o outro, no entanto, para mim que já conheço a EN103 desde que nasci, têm mais interesse as estradas secundárias que passam por um Barroso menos conhecido.

 

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De facto, embora flaviense, para além de ter nascido à beirinha da EN103, durante oito anos, mais precisamente entre os meus sete e catorze anos, fiz uma vez por ano (ida e volta) a EN103 entre Chaves e Braga. Era uma estrada que tanto ia apreciando como ia penando. Apreciando pelas vistas lançadas para as barragens, primeiro a dos Pisões, depois a da Venda Nova e por último a de Salamonde.

 

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Mas não só pelas barragens, aliás as únicas que durante muitos anos conheci, mas também pela imponência e singularidade da Serra do Gerês que ao longo da estrada íamos acompanhando. Igualmente a imponência, imagine-se, dos cornos das vacas e touros da raça barrosã, que curiosamente só começavam a aparecer após a barragem da Venda Nova. Recordo a primeira vez que vi e ouvi falar desta raça, teria os meus oito ou nove anos, deveria eu estar entretido com o meu quilo de bananas, alimento que levava para tão longa viagem, quando o Almor, colega de viagem, chamou a atenção ao irmão mais novo mostrando-lhe as vacas barrosãs, e que eram barrosãs porque tinham os cornos grandes…

 

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Aprendi a lição com o Almor, que as conhecia bem, suponho que pela sua ligação a Tourém, a sua triste ligação a Tourém, onde em bebé ainda de colo perdeu a mãe, quando estava no seu colo, numa história de loucura, de arrepiar e que Bento da Cruz conta no romance “O Lobo Guerrilheiro”.

 

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Mas voltemos à EN103 e à interessante, mas penosa viagem entre Chaves e Braga nas carreiras cinzentas do “tio Magalhães”, que paravam em todas as aldeias e demoravam cerca de oito horas, se bem recordo, a vencer o caminho. Paragens interessantes, apenas a do Barracão onde se fazia um descanso de 5 a 10 minutos e depois a paragem da Venda Nova, onde se fazia também uma paragem, mais curta que a do Barracão, mas que dava para sair a terra.

 

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Como se estas penosas viagens não bastassem, durante anos a fio as minhas habituais deslocações para Montalegre eram sempre feitas pela EN103, pelos menos até inícios dos anos oitenta assim foi, mantinha-se apenas, com o mesmo agrado, a paragem no Barracão. De resto enjoei-a, não com os meus enjoos, mas com os enjoos de quem enjoava. Em suma, hoje em dia poder-se-ia dizer que eram viagens terceiro-mundistas, que então até o eram… mas era o único que tínhamos.

 

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Mas regressemos a São Fins, onde nessas viagens passei algumas vezes, mas sem dar pela aldeia, pois o meu sentido já estava na paragem da Venda Nova. Pois trata-se de uma pequena aldeia, mas tem tudo que as grandes aldeias têm e com um toque especial, principalmente vista à distância. Rodeada de bons terrenos agrícolas onde o verde domina, rodeada pela barragem onde o azul do céu se vai refletindo.  Tem igreja, cemitério, meia dúzia de canastros e alguma vida. Para a nossa recolha fotográfica, estivemos lá duas vezes, há dois anos e há um ano, de ambas as vezes encontrámos gente na sua lide diária. Gostámos do que vimos, de estar lá e de conversar um pouco, não muito, pois não queríamos incomodar quem trabalhava, num dia de verão, por sinal bem quente. Mas já a pensar no inverno.

 

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Nas nossas pesquisas, sobre São Fins encontrámos no livro Montalegre:

 

Ocorre evidente discrepância sobre o hagiotopónimo desta freguesia. As inquirições de 1258 tratam-na, e bem, por Santo Fins; o Catálogo de todas as Igrejas, 1320, (reinado de D. Dinis) chamam-lhe, e mal, São Félix. Mais recentemente, voltámos, e bem, ao chamadouro correcto que é São Pedro Fins de Pondras. É provável que a confusão derive do tratamento dado na arquidiocese ao problema de São Pedro de Rates, dito primeiro bispo-fundador da Igreja de Braga, ou a D. Pedro, primeiro bispo-refundador da Igreja de Braga. De todo o modo, em Pondras, fazem festa ao príncipe dos Apóstolos, em 29 de Junho. É um caso significativo o modo de povoamento verificado visto que as principais povoações da freguesia, Pondras e Ormeche estão algo distantes do local da Igreja, por acaso (ou talvez não) junto do outeiro que foi um castro e onde demora a povoação de São Fins. (é esta a verdadeira grafia do hagiotopónimo que dá nome ao lugar onde se situa a igreja).   

 

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Na Toponímia de Barroso encontrámos o seguinte:

 

É outro São Pedro, ou antes, São Félix e, ao contrário do que por aí se diz, já era orago da freguesia de Pondras no reinado de D. Dinis.

 

Acontece que o culto ao mártir de Gerona São Félix, do latino Felice > Feiz > Fiiz > Fins  levou o povo a festeja-lo justamente no dia em que se festeja na igreja de São Pedro in Vinculis, em Roma, as cadeiras de ferro que agrilhoavam São Pedro após a perseguição de Herodes Agripa. A ignorância redundou na convicção de que se tratava de um só Santo. E daí o São Pedro Fins, orago da freguesia de Pondras. O hagiotopónimo deve, portanto, escrever-se São Fins! E não Sanfins.

 

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Na Toponímia Alegre, uma quadra:

 

Os de Reigoso não prestam,

Os de Currais para lá vão:

E vivam os de São Fins,

Que ainda vão tendo mão.

 

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Aproveitando a deixa, também Lourenço Fontes, na Etnografia Transmontana I, nas alcunhas das aldeias faz uma referência a São Fins, igualmente numa quadra:

 

Chinos de Currais

Chuços de Reigoso,

Laregos de S. Fins,

Bichos de Ormeche.

 

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E bem queria deixar por aqui mais um bocadinho sobre São Fins, mas como aldeia pequena, também a informação disponível é pequena, ou pouca. Bem tentámos e procurámos em toda a documentação que temos, o mesmo na internet, mas nada. Ficamos então por aqui, também com as imagens possíveis.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso ao vosso mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

 

 

 

15
Jul18

O Barroso aqui tão perto - Loivos

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” vamos até Loivos. Os de cá interrogar-se-ão — e desde quando é que Loivos pertence ao Barroso!? É certo que eu defendo que o Barroso não se fica pelos concelhos de Montalegre e Boticas, aliás José Dias Batista, autor da Toponímia de Barroso, inclui como barrosãs algumas aldeias do concelho de Vieira do Minho e de Ribeira de Pena. Pois eu estou com os flavienses mais idosos, os da montanha da margem esquerda do Rio Tâmega que, mais do que uma vez me disseram que “para lá do rio Tâmega é tudo Barroso”.

 

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Eu também acho que sim, além do mais o que define uma região  (do latim regio, regionis 'direção, linha reta; caminho direto, frequentado', de regere 'dirigir, guiar, governar[i])   é uma certa homogeneidade de elementos naturais, humanos e culturais num determinado território. É por aqui que deveremos ir, pois o Barroso não é uma região administrativa que termina onde os concelhos (administrativos) terminam. Daí, o rio Tâmega ser uma excelente fronteira natural para o Barroso, além de, de certa maneira, ser também naturalmente a fronteira entre a “Terra Fria” e a “Terra Quente”. Quanto ao fator humano e cultural, se há diferenças, não se notam, comungamos dos mesmos traços culturais e fisionómicos, da mesma pronúncia e o mesmo falar (léxico/glossário da região além dicionário da língua portuguesa).

 

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Esta minha “insistência” neste tema das fronteiras do Barroso poderá parecer uma noia minha de, como flaviense, me querer incluir no Barroso. Longe disso, pois o sangue barrosão já me corre nas veias desde que nasci e depois, se fosse verdade, estava-me a excluir do território Barrosão, pois nasci e vivo na margem esquerda do Tâmega. Mas com isto estamos a fugir à conversa inicial que era Loivos.

 

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Pois para os de cá mais distraídos ou que não sabiam, este Loivos não é aquele que fica ali junto ao vale da Ribeira de Oura, não, este pertence mesmo ao Barroso e ao concelho de Montalegre, alí a seguir a Vilaça, entre Fiães do Rio e Paradela, na croa do monte com vistas lancadas para a Barragem de Paradela e a Serra do Gerês. É para lá que vamos agora.

 

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Engraçado que faz hoje precisamente dois anos (15 de julho) que passámos por lá para fazer a nossa recolha fotográfica para o post de hoje. Eram 9 horas e tal, já tínhamos deixado Fiães do Rio para trás, à entrada, entre o contraste da luz e sombra desenhada na estrada e produzido pelo Sol ainda baixo, avistava-se a figura de um homem. Se fosse há uns bons anos atrás poderia pensar que se tratava de uma patrulha da GNR à estrada, mas a ausência de um camarada do outro lado da estrada e a sachola que levava ao ombro deu para logo perceber que era alguém que já vinha ou ainda ia dar umas sacholadas na terra.

 

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Logo a seguir entrámos na aldeia e vemos a segunda figura humana. Uma senhora já com certa idade, de pé, parada no meio de uma escadaria. Primeiro não percebemos o que fazia ali no meio da escadaria, sozinha, parada, de pé. O vestir de preto chamou-nos a atenção. Estávamos em terras em que o luto é sagrado e quando se faz por um filho ou pelo cônjuge, é para o resto da vida. Só então, andados mais uns metros é que nos apercebemos que a senhora estava também ela num momento sagrada de oração ou meditação a meio da escadaria que davam para a capela.

 

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Continuámos mais um pouco até que desaguámos num largo, suponho que o largo principal da aldeia, com umas alminhas, um banco de pedra, umas vistas de encantar para a serra do outro lado da barragem de Paradela e mais ao lado um chafariz do tipo meados do século XX, tendo por trás uma espécie de casa aberta, um coberto talvez ou mesmo um coreto, ou ambas as coisas, onde na parede estava também colocado um expositor de avisos e editais da Junta de Freguesia.

 

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Foi nesse largo que vimos também a terceira pessoa de Loivos, igualmente uma senhora, igualmente sozinha, igualmente de pé e parada, mas no meio do largo e mais nova que a anterior, mas igualmente vestida de preto, com o mesmo luto, o mesmo pesar.

 

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Tinha com ela um saco plástico dobrado debaixo do braço. Cumprimentámos a senhora e começámos a conversar. Dissemos ao que íamos e ela disse-nos ao que estava. Estava à espera do pão, pois o padeiro já tinha apitado no início do povo. Fomos conversando daquilo que é habitual nos inícios das conversas. O tempo, o calor, as vistas, onde estava as pessoas da aldeia. Entretanto chega o padeiro, “os de Pitões”, um velho conhecido nosso mesmo sem o conhecermos, mas já é habitual coincidirmos nas aldeias que visitamos.

 

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Comprado o pão a conversa continuou, não por muito tempo, pois tinha os seus afazeres, que tinha de levar as vacas à pastagem. Vacas e gado nas aldeias são motivos que fazer despertar logo as objetivas das máquinas fotográficas, mesmo que estejam em sono profundo elas despertam de imediato. Perguntámos à senhora se a podíamos acompanhar porque queríamos fotografar o momento. Que sim, que estivéssemos à vontade, e lá fomos e lá fotografámos de rajada todos os passos das vacas enquanto estiveram ao alcance da objetiva. 16 fotografias conto eu no meu arquivo, mas só fica uma, aquela que julgo que melhor congelou o momento.

 

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As vacas lá partiram para o pasto, pachorrentas como sempre, com a dona atrás, não para lhes indicar o caminho, que esse as vacas já o conheciam, mas talvez para abrir ou fechar o cancelo. E nós partimos para a descoberta da restante aldeia. Apreciámos os canastros, estas curiosas construções que mais parecem casinhas de brincar, mas que têm ainda a sua utilidade de secar e guardar o milho.

 

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E no meio das minhas apreciações, um pormenor de uma construção chamou-me a atenção. Trata-se de uma construção de paredes resistentes em pedra (granito) à vista e assente com junta seca, com dois pisos e tipicamente a construção tradicional transmontana e que fica aqui nesta foto:

 

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Na foto seguinte (após este parágrafo) deixo a mesma construção onde manchei a amarelo as principais partes estruturantes da construção, nomeadamente as dos cunhais e a de uma porta carral.  Em todas as estruturas de pedra tradicionais é utilizado este método, no entanto há um pormenor nesta construção que faz a diferença e que sem o qual, o mais provável, a construção já teria ruído. Trata-se daquelas duas pedras que formam uma espécie de laço, colocadas por cima da padieira da porta carral. Estruturalmente falando é sabido que o granito apresenta grande resistência à compressão, mas muito pouco à flexão, ou seja, pode empilhar granito um em cima do outro que ele resistirá sempre (compressão), no entanto, se o granito não for totalmente apoiado por baixo, as zonas sem apoio têm pouca resistência às forças que se exerçam sobre ela. É o caso da padieira da porta carral da foto, que dada a sua largura, pouco mais resistiria para além do seu peso próprio. É aí que com a mestria do pedreiro aparece aquela espécie de laço por cima da padieira, que mais não é que um arco de pedra resumido a um triângulo que vai absorver toda a força da restante parede (até ao telhado), libertando assim o peso sobre a padieira da porta carral, daí ainda se manter intacta, pois sem o “laço”, o mais provável é que a padieira já tivesse rachado a meio e a construção malhado no chão.    

 

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É por estas e por outras que eu gosto do nosso mundo rural, principalmente quando com alguma sabedoria e até mestria se encontram estas soluções construtivas, soluções populares de gente que nunca foi engenheiro ou arquiteto e que se calha nem sabia ler e escrever, mas que aprendeu com outros mestres de forma ágrafa.

 

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E das nossas apreciações pessoais sobre Loivos ficamos por aqui. Vamos agora ao melhor itinerário para se chegar a Loivos, que também traçámos no nosso habitual mapa, que ficará a seguir. Pois para Loivos o melhor itinerário é o da estrada de S.Caetano/Soutelinho da Raia até Montalegre. Atravessa-se a vila e desce-se a encosta em direção ao campo de futebol (M308) até Sezelhe. Aqui abandona-se a M308 e vira-se à esquerda para a M514, passa-se por cima do paredão da albufeira de Sezelhe e 2km à frente, logo à entrada de S.Pedro, vira-se à direita (não siga em frente pois vai enganado, ou seja, se a seguir a S.Pedro chegar a Contim, vai enganado, volte para trás até S.Pedro). A seguir a S.Pedro temos Vilaça e depois Fiães do Rio, 1Km à frente estamos em Loivos, a uma altitude entre os 870 e o 920m. Fica o nosso mapa:

 

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O que nos diz a Toponímia de Barroso ao respeito de Loivos.

 

Loivos

Há quem julgue que é um nome pessoal. Não vejo como é possível: primeiro por causa do plural, uma vez que há o topónimo Loivo e depois porque de loba ou lobo, mesmo do germânico Leura nunca chegaríamos a Loivos com as regras fonéticas que nos regem e devem reger.

Comecemos por informar que é de origem e significados obscuros e até desconhecidos e as opiniões conhecidas são insuficientes ou mesmo erróneas. Na realidade as propostas a partir do nome germânico “Leuba” ou do latino “Lupus” não têm pernas para andar.

Um documento de L.F. 1091 «petazo de loivo»  f.132 induz-me para uma leira, “um pedaço de terreno cultivado de loivo”. Com efeito, diz o texto-escritura duma Audia que doa bens à Sé de Braga, em Mondrões, Vila Real: “ 1º petazo de loivo quomodo levatur de illo rego rerillas cessaria et de alio parte per illa Tauza carveliza ad in prono pro ad aqua et 1º petazo de terreno in caput de illo…” etc.

Trata-se, sem dúvida de bens campestres, com formações de forraginosas (possivelmente até regados — “de illo rego”) junto de terrenos de pousio e da outra e da outra parte uma touça de carvalhas.

Conjecturo que loivos serão as “línguas de ovelha”, ou as “labaças” ervas de que muito gostam os animais, tanto os bois como, porcos e coelhos.

- 1258 «et de terreno de Lovyos similiter dant terciam partem» INQ 1515 e.

-1288 «aldeã de Lovyos que é de filhos dalgo… e fazem mal e sobervia aos das outras aldeas derredor de ssi…tanto lansam no alleo ca no seu e os filhos dalgo som. Dona Maria Mendes e Rodrigo Mendes de Frieeira e mosteyro das Juyas.

No Arq.Hist. Port. Já aparece Loivos, com 7 fogos e o topónimo vigorante.

 

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No livro “Montalegre” encontrámos:

Património Arqueológico

Megalitismo

A cultura megalítica floresceu na pré–história, no período Neolítico, que se caracteriza pelo aparecimento de utensílios de pedra polida, pela domesticação de alguns animais e início de actividades agrícolas primitivas que levaram à descoberta da cerâmica. O material mais utilizado era o sílex, com que se faziam facas, raspadeiras, pontas de seta e lanças, etc. A sedentarização do homem deixou-lhe tempo para o progresso social e religioso e, muito mais tarde, para

 a indústria metalúrgica. Contudo, a roda de oleiro e o arado parece terem surgido apenas na Idade do Bronze. Nessas eras a habitação do homem era ainda a gruta natural e a cabana rudimentar. Com os avanços referidos transferem-se os abrigos para sítios defensáveis em montes cónicos, próximos da água, constituindo povoados de várias famílias. No concelho de Montalegre aparecem e existem muitas provas da passagem desses povos em todo o território. Era com tais artefactos que o homem primitivo fazia as gravuras rupestres, caçava, pescava e descarnava os animais que abatia, em grutas como as de Loivos, junto ao Cávado.

 

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E ficamos por aqui, mas antes as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso ao vosso mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

 

 

[i] HOUAISS & VILLAR, Antônio & Mauro (2001). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. [S.l.]: Instituto Antonio Houaiss/Editora Objetiva

 

03
Jul18

O Barroso aqui tão perto - Seara

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montalegre (549)

 

Vamos lá então até ao “Barroso aqui tão perto”, com dois dias de atraso. Hoje toca a vez a mais uma aldeia da freguesia de Salto, dá pelo nome de SEARA. Mas antes de lá chegarmos (em palavras, pois as imagens já vão entrando), vamos ter por aqui alguns andamentos, o primeiro – a confissão.

 

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A confissão, ou um introito para dizer uma coisa…

 

Já o disse aqui, mas volto a repetir. Andei enganado com o Barroso durante anos a fio, para mim o Barroso conhecido era aquele que existia entre Chaves e Montalegre, umas idas a Pitões das Júnias e Tourém, e durante alguns anos de adolescente, aquando das idas para aquela que era a praia dos flavienses (Póvoa de Varzim), fui descobrindo o Barroso das barragens, ou seja, o Barroso da Estrada Nacional 103, na ligação de Chaves a Braga.

 

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O Barroso era para mim o da “Terra Fria”, agreste, dominado pelo Larouco. Vá-se lá saber porquê, convenci-me de que conhecia o Barroso, muitas aldeias de passagem, e em algumas até entrei e ia apreciando o que via. Recordo por volta dos meus 14 anos ter ido a Tourém, onde fui com o meu tio de origem minhota, mas barrosão residente por via do casamento. Em Tourém,  enquanto o meu tio foi tratar dos assuntos que tinha a tratar, eu fiquei à espera dele junto ao carro. Nisto começa a aparecer no fundo da rua uma manada pachorrenta de vacas, muitas vacas, nunca até aí tinha visto tanta vaca junta. Espanto meu quando algumas vacas começam a parar em frente às portas. 3 ali, 6 acolá, 4 ou cinco mais ao fundo, e por aí fora. Uma a uma as portas iam-se abrindo para as vacas entrarem e nas que não se abriam, as vacas permaneciam paradas, bem serenas à espera, enquanto as restantes continuavam os seus destinos.  Não acreditei no que estava a ver, Quando o meu tio chegou, eu ainda com o espanto estampado no rosto, comentei o que tinha visto. Explicou-me que nas aldeias era assim, que tal e coisa… em suma, estava-me a explicar o que era uma vezeira. O que me intrigou e ainda hoje me intriga, é como o raio das vacas paravam de livre iniciativa à porta do dono.

 

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Sendo eu flaviense de nascença, o único na família mais direta até eu ter nascido, tinha em Montalegre, terra da minha mãe, dos meus irmãos e de toda a família materna, uma das minhas outras duas terras. Era lá que tinha os meus tios, e primos e restante família e amigos da família, era por isso, também a minha terra, onde passava algumas férias, quase todos os natais e sempre o primeiro domingo de agosto, da festa do Sr. da Piedade, onde despertava com a alvorada dos foguetes,  acompanhava a grande e penosa procissão desde a igreja da Vila até à longínqua igreja do Sr. da Piedade, a volta atrás para o almoço à sombra  do arvoredo do Serrado, e de novo a descida até ao campo de futebol para ver a chega de bois. À noite a fiel presença no arraial e feito palula ia olhando o foguete no ar. Foi assim durante anos a fio. Sentia-me orgulhoso, conhecedor de todo o Barroso. Conhecia o Larouco e o seu planalto, as barragens, a Portela e a Vila como a palma das minhas mãos, a vezeira de Tourém, O mosteiro e cascatas de Pitões, o rio Cávado (bem gelado que era), o Sr. da Piedade e todas as estórias que Bento da Cruz contava no “Lobo Guerrilheiro”, mesmo antes de ele as contar em livro, já eu as conhecia de terem sido contadas à lareira, só que sem a mestria delas fazer um romance como o fez Bento da Cruz, mas com a mesma intensidade de as sentir.    

 

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Foi por estas e por outras que, depois de ter percorrido todas as aldeias do concelho de Chaves e de as trazer aqui ao blog por várias vezes, me lembrei de fazer o mesmo com o Barroso. Ainda antes de partir para todas as suas aldeias, desse Barroso que eu tão bem conhecia, presumia eu, comecei por algumas imagens da vila, depois algumas aldeias entre Chaves e Montalegre que conhecia quase todas, pelo menos de passagem. Surpreenderam-me alguns pormenores e algumas descobertas, mas nada com o qual eu não fosse a contar. E tudo foi assim, indo, até que comecei a ir para as aldeias além do planalto do Larouco, além de Pitões e Tourém, além da EN103 e das barragens dos Pisões, Venda Nova e Salamonde.

 

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Com o tempo fui dando conta que estava a entrar num novo Barroso e em novos Barrosos desconhecidos. Em vez de ir de excursão, mais me parecia ir de incursão, envergonhado só de pensar que me dizia conhecedor do Barroso quando, afinal,  até aí, não tinha passado além do seu hall de entrada e da sala de estar. Faltava-me descobrir o resto da casa, os quartos, a cozinha, os anexos, as cortes, os pátios, os seus animais de estimação, os seus jardins, as suas hortas, as suas serras e montes e até muitos residentes e vizinhos que eu desconhecia por completo. E quanto mais me adentrava por esse Barroso, mais surpreendido ia ficando, ora com o azul das serras espelhado nas albufeiras, ou com os matizes dos verdes só quebrado pelo azul do céu, com o dispersar e salpicar de vermelho dos telhados das casas, com a quantidade, formas e gigantesco penedio como nunca tinha visto, as cascatas, a água cristalina, a raça do boi barrosão, os moinhos e pisões, os canastros e ramadas que pensava não existirem no Barroso, as alminhas, a riqueza e quantidades de capelas e igrejas, os fojos dos lobos e paisagens, muita paisagem que nunca imaginei existirem. Da gastronomia, nem quero falar…só coisas boas, do melhor, mas tenho de pensar na brevidade que um post de blog deve ter, e recordemos que o nosso destino de hoje é Seara, e ainda só vamos a caminho…

 

1600-seara (116)

 

Ando nisto de descobrir o Barroso vai para 7 anos, primeiro um pouco aleatoriamente, já com o sentir de “O Barroso aqui tão perto” e tão desconhecido por nós flavienses (a pensar nos outros, pois eu supunha já o conhecer), primeiro com as tais imagens da vila e alumas aldeias e as estórias da vermelhinha de Bento da Cruz, depois com os diários de Torga,  com alguns roteiros para um dia, mas só em 2015 é que comecei a pensar a abordagem criteriosa de todas as aldeias o que implicava percorrê-las a todas, uma a uma, com o tempo que fosse necessário. Hoje, do Barroso de Montalegre apenas nos faltam uns pormenores, umas repetições, em suma, pretextos para ir indo por lá. Entretanto andamos na igualmente agradável e não menos surpreendente descoberta do Barroso de Boticas.

 

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A freguesia de Salto – as primeiras impressões

 

Não quero, outra vez, fazer a abordagem dos vários barrosos. O que já disse, está dito, está dito. Abordemos antes os vários matizes do Barroso, tal como os matizes do verde com que a freguesia de Salto me surpreendeu, mas não foi à primeira...

 

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As primeiras abordagens às aldeias de Salto foram feitas depois de já bem entrados nas terras da Chã, nas terras do Rio, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, depois descobertas todas as barragens, etc. Pensávamos que já não havia mais nada que nos pudesse surpreender, embora houvessem ainda alguns lugares emblemáticos por descobrir, como as Minas da Borralha (da freguesia de Salto) e algumas cascatas, por exemplo.

 

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Ao entrarmos pela primeira vez em terras de Salto, fizemo-lo via Boticas. Recordo ter sido um dia confuso. Primeiro fizemos a aldeia de Pomar da Raínha, atraídos pelo curioso topónimo, fotografamos o que tínhamos a fotografar, achámos a aldeia interessante e regressámos à estrada. Recordo ter sido um dia parecido com estes que estamos a atravessar, um dia, meteorologicamente falando, incerto, de trovoada, que não demorou a abater-se sobre nós. Na noite anterior não deu para fazer o trabalho de casa completo, ou seja, estudar bem, ao pormenor, o itinerário. Também costumo presumir de ter boa orientação, e até vou tendo, mas com trovoadas, a minha bússola interna fica meia desorientada, ou desorientada de todo, tal como aconteceu nesse dia, e às tantas, andávamos perdidos, já não sei bem aonde.   Reconhecia o nome das aldeias, mas pelas minhas contas não deveriam estar lá. Mas também de pouco adiantava, pois a trovoada e a intensa chuva não nos deu tréguas. Quando à noite cheguei a casa, botei-me aos mapas e cartas e verifiquei que antes de termos chegado a Salto entrei na estrada em sentido contrário, daí, quando me dirigia para Norte, eu pensava que me dirigia para Sul. Com um pouco de sol eu tinha resolvido o assunto, mas a tal trovoada, escureceu o dia, chovia que Deus a dava, confundiu-nos e estragou-nos o dia. A única coisa que recordo ter corrido bem, foi o almoço.

 

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Nesse tal primeiro dia por terras de Salto, nem por isso trouxe boas impressões e como se costuma dizer que as primeiras impressões são as que valem, quando fui por lá da segunda vez, sem trovoada, entrei na estrada em sentido certo, mas de pé atrás, ainda recordava a vez anterior... Mas logo na primeira aldeia comecei a dar-me conta que,  se calha,  estava a ser injusto com as aldeias de Salto. À segunda aldeia confirmei que sim, a partir de aí rendi-me. Não era hábito todas as aldeias nos surpreenderem tanto e por igual. Era difícil dizer qual delas a mais interessante, a mais bonita, a mais verde… Tínhamos deixado para trás algumas aldeias, as últimas Reboreda e Tabuadela, íamos a caminho de Seara. Seria esta o patinho feio da família? Pois tudo indicava que sim. A paisagem começou a mudar. Atravessávamos uma montanha despida, à nossa esquerda, noutra encosta de outra montanha, uma densa floresta de pinheiros, enquanto a nossa que iamos calcorreando em curva, contra-curva, se apresentava  bem despida, com alguma urze rasteira, talvez alguma carqueja, e a seguir mais uma curva, depois outra curva, mais outra e por aí em diante,  e sempre a mesma paisagem, até que finalmente avista-se a primeira construção de Seara, nada surpreendente, prometia mesmo ser o patinho feio das aldeias de Salto…

 

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E finalmente SEARA

 

E de repente, záz, a placa da estrada anuncia a aldeia de Seara, e lá ao fundo, depois de uma lomba da estrada, tudo parece mudar, um intenso e luminoso verde atinge-nos como um raio. Seria possível!? Era mesmo, aquilo não era real, era a miragem de um oásis.

 

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Era por volta do meio-dia, calor intenso, a barriguinha já pedia alimento… era uma miragem de certeza, estávamos tolos da cabeça, pela certa enganei-me no caminho e em vez de irmos para SEARA fomos até ao deserto do SAARA…Parámos o carro, pareceu-nos ter visto uma pessoa, um homem à porta de casa, lancei-lhe um cumprimento, respondeu. Os meus camaradas de viagem e descoberta do Barroso também cumprimentaram, o homem respondeu novamente. Era real, estava numa casa real, SEARA era real, era verde, um oásis cheio de verdura e mais além, ao longe, um surpreendente mar de montanhas. Como estávamos num dia de calor de inferno, tínhamos acabado de passar pelas montanhas do purgatório, aquilo só podia ser o paraíso…

 

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Pensava eu que o Barroso já não me podia surpreender mais, pois surpreendeu-me novamente, continua a surpreender e tenho a certeza que no Barroso que ainda me falta descobrir, agora já no concelho de Boticas, continuarei a ser surpreendido.

 

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Pois Seara, parece mesmo perdida lá pro meio das montanhas e de certa maneira até está. É pelo menos uma terra no limite ou de limites, pois incrivelmente, ou calhou,  está no limite da freguesia de Salto, mas também no limite do concelho de Montalegre e a apenas 1200 metros do concelho de Boticas e a outros tantos do concelho de Cabeceiras de Basto, está também no limite do Barroso, no limite do Distrito de Vila Real e no limite da província de Trás-os-Montes. O topónimo bem poderia ser Seara dos Limites, mas sem limites em interesse e beleza. Fiquei fã de Seara, LIKE! e ainda só entrámos...

 

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Já que andamos pelos limites de Seara, vamos ao nosso habitual itinerário para se chegar à aldeia a partir da cidade de Chaves. Desta vez recomendamos apenas um, embora haja outro possível que sai dos itinerários habituais, e até se poderá fazer um bom troço por autoestrada, mas como também queremos desfrutar a viagem até Seara, vamos deixar essa hipótese também de fora, principalmente a desinteressante e dispendiosa  autoestrada que só serve para galgar quilómetros.

 

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Pois como podem ver no nosso mapa, o itinerário recomendado, costuma ser a nossa terceira opção, no entanto é sempre o primeiro para terras da freguesia de Salto mas também para todo o Barroso de Boticas, e não tem nada que saber, pois é só apanhar a estrada de Braga (EN103) até Sapiãos, aqui vira-se para Boticas, atravessa-se a Vila e segue-se em direção a Salto, que temos também de atravessar sempre pela rua principal até à saída para Reboreda, depois só temos Tabuadela e logo a seguir, ou quase, é Seara.

 

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As pessoas e as casas

 

Ora cá temos um capítulo que nos é tão querido mas que nem sempre acontece. Refiro-me às pessoas e às conversas que vamos tendo com elas, mas também às casas, não só pela sua arquitetura tradicional exterior mas também pela sua intimidade.

 

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E desde já peço desculpas por alguma gralha que aqui possa meter, principalmente nos nomes, nos acontecimentos que venha a relatar e outros, pois quando andamos na recolha de imagens e vamos em simultâneo falando com as pessoas, não podemos tomar apontamentos de alguns relatos e dada a distância temporal desde que estivemos em Seara, pois já lá vão dois anos, não nos lembramos ao pormenor das nossas conversas, mas o essencial ficou.

 

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A primeira pessoa que vimos, já ficou numa foto atrás, à porta de casa. Foi-nos falando de Seara, do que era e do que é, e outras coisas que já não recordo, mas nos meus apontamentos registei o seu nome, Manuel, a sua idade, 80 anos e o facto de nunca ter ido a um médico e só ter dentes de origem. É um feito, sim senhor, principalmente para nós os da cidade que ainda a dor nos está a bater à porta e já estamos a correr para o hospital, e depois vai-se a ver e eram apenas gases entalados que não tiveram permissão de sair... 

 

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Recordo que após esta conversa, demos a nossa voltinha de recolha de imagens. Entrámos por uma rua que até nem parecia ter muito interesse para a fotografia, mas havia pessoas na rua, e chamou-me a atenção aquilo que parecia ser uma casa em obras de restauro que aparentemente preservava tudo que era original e no que estava feito imperava o bom gosto. Entrámos à conversa com um senhor, se bem recordo o Sr. José Fernandes, que era o proprietário da casa, que se fazia acompanhar de um outro homem, mais jovem, o seu “ajudante” no restauro da casa, que segundo apurámos, foi sendo feito com o trabalho de ambos. Casa que segundo nos informou o Sr. José é para se destinar ao turismo rural, preparando a casa, já nos acabamentos e pormenores, com tudo que a casa tinha de original, privilegiando os móveis antigos, da época da casa, que segundo um registo fotográfico que fiz, data do ano de 1709. Aliás é notório que em toda aldeia existem algumas construções centenárias.  

 

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Teve a amabilidade de nos mostrar com orgulho a casa e o seu trabalho. E se até aí já nos tínhamos rendido à aldeia e às suas vistas, acabámos por nos render mais uma vez, agora à casa, ao seu restauro e aos pormenores. Um deles, coisa que nunca tinha visto e de uma técnica simples mas surpreendente. Então não é que num dos compartimentos íntimos (suponho que um quarto no original) tinha um pequeno buraco na parede que dava para um pátio exterior, por onde se podia espreitar desde o interior e ver todo o pátio. Já desde o pátio, espreitando, apenas se via um pequenissímo troço de parede, quase nada. Uma espécie de monóculo que se utiliza atualmente nas portas dos apartamentos para ver as pessoas que nos batem à porta, mas este era apenas um buraco, sem qualquer lente ou mesmo vidro. O facto de não se ver nada para o interior, está na inclinação do buraco em relação à parede interior e na forma de cone do próprio buraco.  

 

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Dentro da casa tudo foi mantido e conservado, na cozinha os escanos, o lar de pedra no chão, na antiga adega, agora um compartimento de estar, manteve-se o lagar incluindo o seu singular sistema de espremer o bagaço, fora do lagar, sobre uma laje de pedra com uma caleira circular esculpida e saída do vinho por gravidade por uma outra caleira. Parece-me que para acondicionar o bagaço, poderia ser utilizada a estrutura de uma pipa sem os tampos. Curioso e nunca tinha visto um semelhante.

 

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As vistas que se alcançam desde a casa também são surpreendentes, pois são lançadas para o verde dos campos com o mar de montanhas de fundo. Tudo janelas com as tradicionais e antigas namoradeiras onde as pessoas se sentavam para namorar, nem que fosse e só um pouco de sol nos dias frios ou alguma frescura e uma corrente de ar nos dias mais quentes.

 

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Mas para além de nos mostrar a casa e todo o seu trabalho, o Sr. José deu-nos uma lição completa de história. Pena não ter registado tudo que me disse. Já no post de Reboreda falámos da ligação que D. Nuno Álvares Pereira tinha à freguesia de Salto, a Reboreda e outras aldeias. Pois o S. José contou-nos toda a História de D. Nuno, sua mulher Beatriz Pereira de Alvim e a sua filha Leonor de Alvim, que viveu em Seara e acabou por casar em segundas núpcias com o Duque D. Afonso ( o nosso, flaviense,  que tem estátua em frente à Câmara). Um desterro para Cristelo, aldeia que hoje já não existe, mesmo ao lado de Seara, segundo li nos meus apontamentos, terminou numa história de amor entre o desterrado Gil Pereira de Alcassus e Sofia, a mulher de Pereira de Alvim. É aqui que nos meus apontamento entra a Santa Sofia, mas esqueci apontar o porquê. Fica assim incompleta a nossa reportagem histórica, mas pode ser que tenhamos oportunidade de a completar, não só porque queremos conhecer o que resta de Cristelo como queremos conhecer a versão final da casa de turismo de Seara.

 

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Os Animais

 

Onde há gente há animais, de estimação ou “contribuintes” para a economia caseira. Vimos por lá um belo exemplar da raça barrosã, uma vaca e bem vaidosa, chamámo-la para a foto, parou e posou sem se mexer, não fosse a foto sair tremida.

 

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O burro soube e também pediu uma, mas de perfil, com ar sério, de intelectual a procurar inspiração no mar de montanhas que fingia ver ao longe, apenas com a floresta de fundo. De perfil porque fica melhor.

 

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Mas o burro não se ficou pela fotografia de perfil, quis também tirar uma foto de família, com a mulher e o filho mais novo. E o seu a seu dono. Os burros são do Sr. José. Quanto à vaca que atrás deixei, não sei de quem era, andava sozinha, solta e mais feliz como as vacas açorianas, suponho, embora todos os animais aparentarem ter um olhar triste. Já agora, porque é que os animais não sorriem!?

 

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E desta vez não tivemos tempo para pesquisas, apenas fomos espreitar o que diz o livro Montalegre, onde nos fala principalmente do “clero” de Seara:

 

  1. Vasco Gonçalves Barroso (séc. XIV) foi tetraneto de D. Egas, viveu no reinado de D. Fernando que o designou ou confirmou como alcaide do Castelo de Montalegre, em 1372. É mais conhecido por ter sido o primeiro marido de D. Leonor de Alvim – Senhora da Casa de Bragança enquanto esposa de D. Nuno Álvares Pereira. Diz o manuscrito do Padre da Seara que este D. Vasco morreu a jogar a barra com o morgado da Taipa, depois de render, isto é, a jogar o malhão, contraiu uma hérnia fatal e morreu, em 1376.

 

  1. Padre Gonçalo Barroso Pereira (séc. XVII) – Num manuscrito, pela maior parte de sua autoria, se apresenta desta forma: “Eu, o Padre Gonçalo Barroso Pereira, Reitor… de Salto, nasci no lugar de Seara desta freguesia, a meu pai chamavam André Pires e a minha mãe Inês Gonçalves, em Agosto de 1628.”… “Fui para a Vila da Ponte de 7 anos (1635) onde estudei com o Reverendo Giraldo Pereira aí vigário, primo direito de meu pai e não tive outro mestre.” Este manuscrito, em mau estado, as primeiras sete folhas quase ilegíveis e sem as últimas vinte, constituía-se, ao tempo, de noventa folhas e foi-me entregue para ser lido pelo seu possuidor, o meu grande e saudoso amigo José Jorge Álvares Pereira, de Pomar de Rainha. Foi-me penoso tomar apontamentos, dia e noite, em duas semanas, dos dados que então me pareceram mais curiosos, numa altura em que ainda não havia fotocopiadoras. Devolvi-o em tempo ao seu legítimo dono com quem passei muitas horas de alegria a interpretar os textos, alguns dos quais com imensa graça, arte e realismo. Julgo que o dito manuscrito já desapareceu, infelizmente. As notícias aí relatadas vão até 1703, já tinha o autor 75 anos de idade.

 

  1. Padre João Barroso Pereira (séc. XVII), sendo também conhecido por Padre da Seara, por aí ter nascido, freguesia de Salto – deixou-nos um manuscrito datado de 1720 de bastante valor para a freguesia e respectivos habitantes que, ao longo do século dezanove foi muito mal copiado e adulterado. Contém, apesar de tudo, muitas informações e notícias de interesse local.

 

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Quanto à Toponímia de Barroso, temos:

 

Seara

Vem do nome comum latino (exdrúxulo) Senara > Seara. Como se trata de nome formado com raíz pré-romana Sen acresceram dúvidas de acentuação e pronúncia. Talvez devido a isso se originaram casos de deslocamento do acento tónico e daí SENARA > Senra e serva ( por evidente hipérteses) que tudo são campos de cultura de cereais ou vinhas.

 

- 1258 «de Bezoo set de villa de Seara que omnes sunt monasterii de Palumbario» INQ 1512.

 

Seara era efectivamente a seara de dos habitantes de oppidum vizinho – “Crastelo” — ainda habitado nessa data como veremos — e cujos vestígios são evidentíssimos. Por tais restos se vê ainda hoje a evolução sofrida, ao nível das mentalidades e das condições materiais de vida, pelo homem primitivo, ou melhor, proto-histórico. O topónimo estav estabelecido em 1258 é, porém, a forma mais recente dos três nomes formados a partir de Senara! Deste mesmo étimo saíram também Senra e Serna e destes as Sernadas e Senradelas.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso ao vosso mail.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

 

26
Jun18

O Barroso aqui tão perto - Outeiro

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O prometido é devido e cá estamos nós, após o empate/passagem de Portugal no campeonato do mundo de futebol, com mais uma aldeia do Barroso de Montalegre, que dá pelo nome de Outeiro.

 

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Outeiro à beirinha da Barragem de Paradela, à beirinha do gigante penedo da Serra do Gerês, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês e num Barroso que nem é alto nem é baixo Barroso, antes, isso sim, um Barroso diferente marcado pelas suas singularidades.

 

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E já que iniciámos com o estar à beirinha de, também eu passei algumas vezes à beirinha de Outeiro, sem nunca ter entrado na intimidade da aldeia, e de todas as vezes, já não recordo quantas, registei na memória as três imagens com a marca Outeiro, a saber: A sua igreja, as vistas para a barragem de Paradela e as vistas para o grande penedo do Gerês, e qual delas a mais bela!?, mas atrevo-me a dizer que a que mais marca é mesmo a sua igreja, não só pela sua beleza e a particularidade de ser uma das que tem  a torre sineira separada da igreja, mas também pela sua privilegiada localização, de fazer as honras de entrada na aldeia de Outeiro.

 

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E vamos aprofundar então mais um pouco da sua localização para podermos chegar até lá, com alguns dados, mas também com os nossos habituais itinerários para lá chegar, como sempre a partir da cidade de Chaves. E continuo a dizer e a insistir que se gasta tanto dinheiro em férias longínquas, onde para além de algumas mordomias do hotel não há mais nada, e deixamos esquecido um paraíso, uma pérola do Reino Maravilhoso, o Barroso, aqui tão perto, onde há de tudo e do melhor que há, coisas que podemos tomar com a nossa simplicidade de ser transmontanos, com pessoas com as suas singularidades, mas que, tal como nós, é simples, genuína e sempre hospitaleira, mesmo com as suas desconfianças, por precaução,  mas que logo sabem quem vai, ou não, por bem.

 

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Pois Outeiro, para além de ficar à beirinha da Barragem de Paradela, à beirinha do gigante penedo da Serra do Gerês, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês em terras que nem são alto nem baixo Barroso, fica ali nas proximidades de uma das portas de entrada no Alto Minho, pois basta descer a Ferral ou Cabril, andar mais um pouco e já se respira o verde húmido do Minho, ares que já entram um bocadinho nestas terras.

 

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Pois para lá chegarmos, a partir da cidade de Chaves, temos de tomar um dos três itinerários principais de se entrar no Barroso, tendo como referência uma ou mais das suas barragens. Pois para Outeiro a barragem de referência é a de Paradela, mas para lá chegarmos teremos de passar pela barragem de Sezelhe ou à beira da barragem dos Pisões.

 

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Quanto ao itinerário que nós recomendamos, por ser o mais interessante, é o da estrada do S.Caetano/Soutelinho da Raia, Meixide, Montalegre (sede do concelho), continuar sempre pelo vale do Rio Cávado,  passar Sezelhe, Travassos do Rio, Covelães, Paredes e a seguir chega a Outeiro. Não há nada que enganar, pois a tal igreja faz as honras de entrada da aldeia.

 

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Tal como já antes tenho afirmado por aqui, para qualquer destes destinos do Barroso, embora aqui tão perto, convém levar todo um dia. Claro que há hora em que a barriguinha começa a pedir alimento, há que alimentá-la, convém, nem que seja e só para o nosso bem-estar e boa disposição.  Pois no Barroso, se não for dos que gosta de andar com o garrafão e farnel atrás, esteja onde estiver, a meia-dúzia de quilómetros tem sempre um bom restaurante onde comer, mas melhor, têm sempre bom vinho a acompanhar. Não o produzem, mas sabem o que é bom.

 

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Mas voltemos aos itinerários. Depois do itinerário que nós recomendamos via S. Caetano, temos sempre a alternativa da EN103 que atravessa a meio o Barroso e quando estivermos perto do destino, é só abandoná-la e tomar uma estrada secundária, que neste caso poderá ser a de S.Vicente da Chã a Montalegre e depois segue pelo primeiro itinerário que indicámos atrás, ou pode seguir mais um pouco pela EN103 quase até ao final da Barragem dos Pisões e a seguir ao desvio para Viade, toma-se a estrada que vai para Brandim e Contim até à barragem de Sezelhe. A partir de aí é igual ao primeiro itinerário por nós recomendado.

 

mapa-outeiro.jpg

 

Penso que é suficiente para lá chegar e se não for, faça como eu quando tenho dúvidas, vá parando e perguntando, pois haverá sempre uma alma que nos orientará no nosso caminho, mas mesmo assim, deixamos as coordenadas de Outeiro, bem com a sua altitude, pois convém saber sempre o quanto alto estamos:

     41º 47’ 16.64” N

     07º 56’ 46.62” O

     Altitude -  826m

 

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Todos sabemos que a paisagem pode ser moldada pelas pessoas, e por aqui não é exceção. Certo que às serras e relevo do terreno ninguém o molda, ou aliás, são moldes da própria natureza, às pessoas resta-lhes o dom de vestir os vales e embelezá-los (nem sempre) com as suas construções e as suas culturas no trabalhar da terra. Às vezes, mais ousados e ambiciosos contrariam a natureza, principalmente as dos rios, ribeiros, rigueiros e riachos, aprisionando a sua liberdade de correrem livremente, coisas que nunca chegarão a ser naturais, mas que com o tempo, passam a fazer parte da paisagem, e, sem querer fazer aqui a análise dos seus benefícios/malefícios, concordaremos todos que até embelezam a paisagem, mesmo porque a maioria de nós nunca chegámos a conhecer o que estes depósitos de água esconderam. Pela certa coisas igualmente belas, mas como nunca as conhecemos, delas não temos saudades. Claro que os mais idosos não poderão dizer a mesmo coisa, e pela certa, aquela água toda junta, afogou muita estória e pequenos paraísos (ou não) no qual debitaram parte do suor dos seus rostos. Mas como se costuma dizer, águas passadas não movem moinhos, embora estas também não os movam, mas movem coisas mais complexas e outros interesses.

 

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Mas voltemos às pessoas, que no Outeiro também as há, nas ruas e nas suas lides do dia a dia, pessoas com as quais até chegámos à conversa e conversámos, pena nestas recolhas não sermos dois, um para fazer a recolha de imagens e outro para conversar e dessas conversas apurar o saber, sabores e sentires deste nosso povo, o mesmo de sempre, sobretudo humilde, que se contenta com tudo, principalmente pelo sol nascer todos os dias e que se conformam com todas as agressões vindas do exterior, das quais são vítimas. Protestar também protestam, claro que protestam, mas neste mundo atual em que as pessoas não passam de números, eles valem o “quantos são”, infelizmente, agora, muito poucos.

 

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Passemos às nossas pesquisas sobre Outeiro, começando pelo seu topónimo Outeiro, muito comum entre nós, embora com apelidos à frente. Em Chaves, por exemplo temos dois, Outeiro Seco e Outeiro Jusão, todos eles outeiros que em linguagem comum significa “elevação de terreno”.

 

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Mas vamos ver o que nos diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Outeiro

“Vem muito naturalmente do nome comum “outeiro” pelo latino <al-tarium — por sua vez derivado de “outo” — “alto” < ALTU, com sentido manifestamente topográfico. Deste mesmo adjectivo é parente próximo ALTARE, (altar) dos sacrifícios pagãos e não só, sempre alto e sempre em sítios altos como são os outeiros das nossas igrejas e capelas — locais onde nasceram as povoações primeiras e permanecem a maior parte das actuais.”

 

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Na “Toponímia Alegre” consta:

 

Ó santinho Santo Ouvido

Onde tens tua morada:

Entre Sela e Outeiro

Sirvoselo e Parada!

 

Adeus lugar de Parada

Ai Jesus, quem me lá dera!

A culpa tive-a eu

Se lá estava não viera

 

Menina se tem fastio

Apegue-se a Santo Ouvido

Se não apegue-se a mim

Que ao pé do Santo resido!

 

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Vamos agora para o livro “Montalegre” que a respeito das paisagens do concelho também passa por Outeiro – os realces e sublinhados são nossos:

 

Paisagens

Barroso constitui um mosaico de paisagens edénicas. Podemos dizer que em cada canto há um novo encanto. Basta percorrer as nossas estradas municipais ou vicinais através do planalto para redescobrirmos mil recantos admiráveis. A título de exemplo referimos a estrada de Fafião a Cabril e daqui aos Padrões ou a Cela e Sirvoselo; o trajecto de Paradela do Rio a Outeiro e Parada; a travessia da Mourela com visita ao Mosteiro de Pitões e à extinta freguesia de São Vicente do Gerês ou ao São João da Fraga; (…)”

 

1600-outeiro (61)

 

Mas continua, agora a respeito da aldeia mas também freguesia de Outeiro:

 

Área: 54.4 Km²

Densidade Populacional: 3.9 hab/km²

População Presente: 202

 Orago: São Tomé

Pontos Turísticos: Castro (Outeiro); Fojo do Lobo (Parada); Lugares da freguesia: (4) Cela, Outeiro, Parada e Sirvoselo

 

1600-outeiro (67)

 

E ainda:

Em extensão territorial é a terceira freguesia de Barroso, contando apenas quatro aldeolas. Entra na conta das freguesias que bordejam a característica Mourela, além de Covelães, Paredes, Pitões, Tourém, e Randim (Galiza). Inicialmente a freguesia chamava-se Parada do Gerês, depois São Tomé de Parada, depois Parada de Outeiro e, finalmente, Outeiro, sempre sob o mesmo orago – que é e foi São Tomé. Merece referência o achado de Torques (jóias pré-históricas de oiro) encontradas na abertura da estrada de Outeiro a Paradela do Rio, no sopé do Castro que linda com o rio Cávado. É um tesouro de inestimável valor – um dos muitos que arrastam os turistas mais cultos para longe das nossas terras e assim nos levam à desertificação! Pensem nisso! Nunca fomos dignos de guardar o que é nosso!

 

1600-outeiro (64)

 

Na Etnografia Transmontana I, de Lourenço Fontes, a respeito das Nomeadas das Terras e Gentes, encontrámos:

Nomeadas das casa mais pequenas:

 

Figo na Peneda,

Mousinhos na Ponteira

Combas de Paradela,

Felizardos de Loivos,

Cletos de Outeiro,

Franciscos de Parada,

Robertos de Paredes,

Guichos de Covelães.

 

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Também na Etnografia Transmontana, mas agora a II, que aborda o Comunitarismo do Barroso, igualmente  de Lourenço Fontes, a respeito da tecelagem do linho, também Outeiro é referida:

 

Tanto se pode tecer linho, como lã. Há vários tecidos para vários fins. Desde o burel, para calças, mantas, capas etc., ao linho para leçóis, camisas, toalhas etc.. Há aldeias que vivem quase exclusivamente para este artesanato, tão pouco explorado e com tendências para morrer. (Outeiro, Fiães, Paredes do Rio).

 

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Refira-se que a Etnografia Transmontana foi publicada em 1977 e desde essa data até hoje muita coisa mudou, e quando atrás se referia que este tipo de artesanato tinha “tendência para morrer”, penso que nestas terras já morreu mesmo. Talvez os versos que virão já a seguir a foto seguinte ajudem a perceber o porquê. Estão igualmente na Etnografia Transmontana II.

 

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Da tecedeira dizem-se várias cantigas.

Coitada da tecedeira

Tem o Inferno em vida,

Pau na mão, pau nos pés,

Pau no cu, pau na barriga.

 

As boltas que o linho leba

Antes de ir p´ra tecedeira!

Eu ‘inda daba mais boltas

Para estar à tua beira.

 

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E ainda na Etnografia Transmontana II

 

Adivinha do tear:

 

Alçar a perna

Tirar e meter,

Dar à pentelheira,

Para ganhar para comer.

 

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Conta-nos ainda a Etnografia Transmontana II a respeito dos Carvoeiros:

 

O carvão faz-se mais de Inverno, que há mais vagar. Alguns que não têm outro ganha-pão, fazem-no todo o ano. Arrancam os torgos, já sem urze, com inxadões. Preferem arranca-los onde o monte tenha ardido, que deixou queimada a parte lenhosa. Em Oiteiro, Pitões e Tourém é raro o ano que o povo não queima parte da sua serra, dá boa e tenra erva, para o gado — a ucha. (…).

 

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Tecedeiras, carvoeiros e muitas mais profissões que são coisas do passado. A profissão atual da maioria dos habitantes da atuais aldeias é a de reformado resistente, reformado pela idade e resistente porque resistiu à partida. Jovens quase não há e os que há, maioritariamente emigraram ou trabalham fora e fazem dormitório da a sua aldeia, talvez porque ainda tenham por lá os pais resistentes a necessitar cuidados, e outros, ainda em menor quantidade, vão-se dedicando à pecuária, sobretudo de bovinos.

 

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Despovoamento das nossas aldeias que está bem documentado nos últimos resultados dos CENSOS da população. Outeiro não é exceção, aliás é um dos casos típicos onde a população tem decrescido abruptamente ao longo das últimas dezenas de anos, mais propriamente a partir de 1950 em que atingiu o pico da sua população com 567 habitantes (dados da freguesia), para agora (CENSOS de 2011) ter apenas 156 habitantes, aliás a partir de 1970 (377 habitantes) e desde que há CENSOS da população, tem batido sempre recordes negativos, pois o número mais baixo, até aí, que se tinha registado na população, foi mesmo no primeiro ano em que houve registos e isso já foi em 1864.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso ao vosso mail.

 

1600-outeiro (34)

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1974.

FONTES, Lourenço, Etnografia Transmontana II - Comunitarismo de Barroso, edição do autor, Montalegre, 1977.

 

 

 

 

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