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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 34

 

Repouso

 

Era de sua natureza um tipo macambúzio., de olhos grandes e vidrados, boca rasgada e um espesso bigode a cair-lhe da cara. Fizera a morte de Celeiroz logo no ano das inspecções, dera a seguir cabo do Marinho com um tiro no vazio esquerdo, mas tudo se reduzira a uns meses de cadeia. Com medo, ninguém queria fazer prova contra ele, e a justiça, diante do desinteresse de todos, desinteressava-se também. Mal a mulher da primeira vítima se calou de gritar pelos montes fora, a bala contra o Marinho partiu de uma pistola de guerra que furava tábuas de solho a cinquenta passos. Mas nem assim as autoridades se resolveram a proceder. Depois de o terem à sombra algum tempo, a porta ferrada do calabouço de Carrazedo abriu-se e o Joaquim Lomba continuou a afligir a terra.

 

Quase não trabalhava, que ninguém o queria, nem a dias nem de empreitada. Possuía contudo qualquer coisa de seu, e, com um cacho que respigava na vinha deste ou daquele e um vintém que sempre recebia de uma ajuda que uma trovoada ou o aperto de uma malhada consentiam, ia vivendo. Mas era uma existência negra a que levava, sozinho, sujo, coberto da sombra do medo e da desconfiança dalgumas léguas em redor. Outros homens tinham matado em toda a região e a fama da sua crueldade corria mundo. Ninguém se esquecia do Basílio Antunes, que assassinara a frio o moleiro de Candedo, nem do Varela, que saltara em cima da barriga da mulher e dera cabo dela. Mas a fama do Lomba abrangia outros horizontes e amargava com outro travo. Falava-se dele e corria por todos um calafrio de pavor diferente dos medos conhecidos. É que trazia estampada no rosto a ferocidade. Ao primeiro relance, a gente via que ali andavam mortes passadas e mortes futuras. Acrescia que o Lomba conhecia isto. Mazombo, ensimesmado, a marca que sentia na cara dava-lhe uma tristeza funda, de revolta esganada. Em certas horas, uma humanidade estuante, larga, generosa, que também nele morava, queria mostrar-se à luz do sol. Mas o primeiro a quem dava os bons dias cortava-lhe aquela onda fraternal em bocados. A resposta vinha seca, esquiva, a estremar os caminhos. O semblante do Lomba cobria-se então da ferocidade velha e da raiva de agora; e tornava-se ainda mais soturno e sinistro.

 

Foi por uma coisa destas e num dia destes que liquidou o Adriano. Erguera-se cedo, comera um naco de pão, bebera um trago de aguardente, e lá ia ele ver a vida. Mas o Adriano, a primeira alma que encontrou, respondeu-lhe tão arredio, que não se teve:

 

- Olha lá, ó pedaço de asno, que mal te fiz eu?

 

O outro sentiu-se perdido.

 

- Nada. Que mal me havias de fazer? Era uma explicação e um apelo à concórdia. Desgraçadamente, o coração do Lomba estava cheio de fel.

 

- O que tu merecias era que te desse uma lição.

 

Apesar de o Lomba ser quem era, o Adriano sentiu-se na obrigação de defender os brios de homem. E, embora debilmente, lá tentou:

 

- Atreve-te, Atreve-te e verás... Ora o diabo!

 

Não foi preciso mais. O Lomba chegou-se ao pé dele, ergueu a roçadoira, e de um golpe só tirou-lhe uma rodela à cabeça.

 

Mas ainda desta vez o crime ficou impune. Não havia testemunhas, a família do Adriano teve medo de uma vingança, e o Lomba continuou a mortificar Mondrões.

 

Mas também ele sentia o peso daquela cruz. Como não podia matar o concelho inteiro, nem obrigar um por um os conhecidos a falarem-lhe na paz de Deus, o aguilhão da consciência não lhe dava tréguas. Em certas horas, empolgado pela força do mal, enchia-se do próprio ódio, e não ficava espaço para qualquer míngua. Noutras, porém, um vazio infinito, um desespero sem remédio, um abandono maior do que o das pedras, prefiguravam-lhe o inferno.

 

- Quero-me confessar, senhor Prior - acabou por pedir abruptamente na quaresma, depois de entrar de rompante na sacristia.

 

- Muito bem, Joaquim... - respondeu-lhe manso e humano o capelão. - Pode ser agora.

 

Foram ambos para um canto, o padre sentou-se, ele ajoelhou-se-lhe aos pés, e começaram.

 

- Já nem me lembro de nada...

 

- Não te aflijas. Vai fazendo e dizendo comigo...

 

O sinal da cruz foi menos mal, o mea culpa passou, vieram os primeiros mandamentos e chegaram por fim ao pior.

 

- Bem, eu matei o da Gertrudes, o Marinho... E também fui quem deu cabo do Adriano...

 

O prior não sabia outra coisa. Por isso manteve-se calmo e, apenas perguntou:

 

- Estás arrependido dos teus crimes e disposto a pedir perdão a quem desgraçaste?

 

Aqui a situação bulia com mundos complicados do Lomba. Tinha vindo para se libertar do abismo sobre o qual a sua negra alma vivia debruçada. E quando tudo parecia conseguido e a serenidade estável do planalto lhe acenava já sorridente, - a dura penitência de voltar à fundura do poço! E perdeu-se:

 

- Não, senhor Prior. Nem estou arrependido, nem vou pedir perdão a ninguém.

 

O padre suava. E depois de tirar o lenço tabaqueiro do bolso e de limpar a calva, voltou, sempre brando e conciliante:

 

- Mas assim não te posso absolver, homem! Pois se tu não te queres humildar, nem te arrependes sinceramente do que fizeste... Olha lá, mas então não seria melhor para ti ires entregar-te à justiça e pedires perdão a Deus ?

 

- Eu não sou parvo! Vim aqui porque tenho confiança no senhor Prior... Agora se me não quer perdoar, não perdoe...

 

Ergueram-se ambos, tristes, desesperados daquela impossibilidade de harmonia. E mais do que até aí, a amargura, a raiva e a negridão da vida se estamparam na cara dura e desgraçada do Lomba.

 

Poucos meses depois, começaram em Mondrões os festejos da Senhora da Boa-Morte. E foi aí que o Lomba, sem poder mais, deu largas à sua angústia recalcada. Disposto a não sabia que loucura, com a pistola carregada de balas, entrou no adro e começou a fazer doudices.

 

Primeiro chegou-se ao coreto e gritou para o mestre da música:

 

- Pare lá com isso e toque uma valsa!

 

- O senhor é mordomo? - perguntou o velhote, na boa fé.

 

- Sou quem lá está. Mude de peça ou rebento-lhe os miolos!

 

O bom homem titubeou. Mas por fim, diante daqueles olhos vidrados e do sinal que lhe fez uma doceira, distribuiu novos papéis e a banda começou, de facto, a tocar uma valsa.

 

O sucesso da prepotência não deu paz ao Lomba. Pelo contrário: acirrou-lhe ainda mais o desejo de disparatar. E dirigiu-se ao do fogo.

 

- Deita lá uma dúzia de morteiros!

 

- Não posso. Só a Santos. Deus me livre!

 

- Deita ou já sabes...

 

A pistola era grande e negra, e as palavras do Lomba soturnas e frias. E o Pé-Tolo, sem mais aquelas, um a um, foi queimando os foguetões.

 

- Que estupidez é essa, ó meu burro? Quem te mandou botar desses, agora?

 

O mesário espumava de justa indignação. Mas bastou o outro apontar silenciosamente o Quim Lomba para tudo se remediar.

 

- Bem, pronto. Faz-se de conta...

 

O mal é que o assassino queria estancar a levada.

 

- Pare lá com isso já, seu trampolineiro! Desça daí

 

- O cavalheiro parece que quer conversa. Se não fosse a consideração que devo à honrada assistência...

 

Era um vendedor de drogas para todas as doenças e necessidades, que de cima de uma cadeira ganhava a vida. Homem rijo e acostumado a zaragatas. Quando, porém, lhe disseram de quem se tratava, calou-se e pôs-se a arrumar os frascos a pensar na mulher e nos filhos.

 

- E se alguém avisasse a guarda? - lembrou um, assim que se espalhou a noticia dos desacatos do Lomba.

 

- É verdade, a guarda...

 

O certo é que ficaram no mesmo sítio, sem coragem de ir denunciar o criminoso.

 

Continuaram irresolutos no adro, vagamente protegidos por aquela palavra que só por si metia respeito.

 

- Deixa lá ver a cana...

 

Simplesmente, desta vez, erguia-se diante do Lomba uma vontade. Com nove anos., o garoto, que conseguira apanhar a quimera, tinha decisão para a defender.

 

- Oh, oh! Não queria mais nada! Você é parvo ou faz-se?

 

- Deixa cá ver a cana, e cala-te.

 

- Vá lamber sabão. Ora o palerma! Faça como eu: desembelinhe as pernas.

 

Pelos olhos do Lomba o clarão de sangue e raiva passou mais vivo. Mas passou e deixou atrás de si um sorriso compassivo, terno, que lhe refrescou o coração.

 

- Então não dás?

 

- Pois não dou, não. Se estiver tão livre da peste!

 

O Pequeno largou, chamado por um morteiro que subia estrepitosamente ao ar, e o Lomba ficou sozinho, vencido, impotente, mas estranhamente feliz.

 

- Chegou para mim... - murmurou, comovido.

 

A música rompeu lá em cima numa marcha ligeira, ergueu-se no adro um polvorinho de dança, estralejaram mais foguetes, e um barulho ensurdecedor mostrava ao desordeiro que os seus caprichos e as suas balas não podiam vencer a onda de vitalidade.

 

- Chegou para mim... - murmurou outra vez, agora a caminhar vagarosamente por entre os penedos.

 

Mais fogo, uma polca, outra vez a voz do charlatão a vender unguentos, e a festa parecia uma flor a abrir-se. As horas, porém, foram passando, as aldeias, ao longe, começaram a acenar a cada um, e o adro, pouco a pouco, ficou deserto.

 

- Credo, santo nome de Deus! - exclamou a Eusébia, ao passar pelo sítio onde o Lomba despejara a pistola no céu da boca.

 

- É o Lomba. Que balas tão bem empregadas!...

 

Os olhos vítreos e arregalados pareciam querer impor ainda respeito e medo. Mas eram só eles a falar pelo corpo todo, encolhido, morto, humilde e manso como um monte de estrume.

 

- Também digo. Abençoadas mãos...

 

Seguiam caminho, sem uma palavra de pena, sem um arrepio, sem uma oração.

 

E assim o deixaram abandonado à grande e pavorosa noite da montanha.

 

Miguel Torga, In Os Novos Contos da Montanha

 

23
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 33

 

O Pastor Gabriel

 

Nunca houve em toda a montanha pastor como o Gabriel.

 

- Merecias outras ovelhas, homem! - disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquianos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.

 

- Deus me livre! já me vejo maluco com estas...

 

Mentira. O padre tinha razão. Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.

 

- Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!

 

- Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente. Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rês. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal-humorada. Mas bastava. Ao fim de algum tempo, cada cabeça como que porfiava em não desagradar ao dono, em viver sintonizada com aquele governo sem cajado. E dava gosto ver a disciplina com que o rebanho deixava o redil e atravessava o povo.

 

- Não há dúvida! Nem o mestre na escola! Continuava a rir-se por dentro. Espantavam-se com pouco. Com a pequenina amostra do muito que estava por detrás...

 

 

Na verdade, toda aquela disciplina tinha um fim, e era muito mais apertada do que parecia. Como os pastos no verão escasseavam, só havia uma solução: aceivar os nabais de noite, pela calada. Ora, para Áfricas dessas, o Gabriel necessitava de gado mudo e lesto, cegamente obediente ao comando. Por isso, sem dizer porquê nem por que não, exigia sistematicamente dos patrões que vendessem os carneiros mancos ou rebeldes, e ninguém ouvia o balido de nenhum.

 

- O teu gado não berra?

 

- Pergunta-lhe. É o berras! Ou não se chamasse ele Gabriel e não capitaneasse um bando de salteadores.

 

No meio da escuridão, abria a porta do curral e punha-se a andar. O rebanho atrás, como um cão rafeiro. À entrada da melhor sementeira, parava, perscrutava os horizontes e arrombava o tapume. Depois, em silêncio., deixava entrar os famintos e esperava que cada boca se fartasse em silêncio.

 

Se por acaso ouvia vozes ou passos de gente que se aproximava, subia acima da parede, descalçava os socos, batia com um no outro e largava a fugir com quantas pernas tinha. Não era preciso mais: quando chegava ao redil, já o rebanho lá estava.

 

 

- Não, tu hás-de ter qualquer segredo, qualquer mistério... - insinuava o Languna, a sondar.

 

- Palavra de honra que não.

 

E realmente não tinha. A coisa vinha-lhe espontaneamente, duma maneira directa, rápida, infalível, de entender e de se fazer entender por todos os seres vivos. Via um coelho na cama, falava-lhe e punha-lhe a mão em cima. Acalmava um cão açulado - a sorrir-lhe.

 

Mas esta comunhão instintiva com a natureza dos bichos não tentava o Gabriel alargá-la à natureza dos homens. Desses arredava-se discretamente., sem querer passar, nas relações com eles, do plano amorfo da neutralidade. Alugava o suor. Enjeitado, sem vintém, servia este e aquele. A indústria de Ferrede era comprar gado magro, engordá-lo e vendê-lo. Portanto, quem tinha dinheiro tinha o poder, e não valia a pena discutir. Que lhe interessava a ele perder tempo com palavreado ou mendigar intimidades que sabia impossíveis de antemão? O que os donos de cada rebanho queriam já o sabia: era que lho entoirisse de qualquer maneira. Recebia, pois, o farnel pela manhã, e ala que se faz tarde. Cada qual para o que nasce.

 

 

No verão em que fez vinte e dois anos, não pôde, contudo, ficar indiferente a um apelo que, muito embora fosse de cordeira no cio, vinha duma criatura cristã, com quem, de resto, acabou por casar.

 

Foi assim: como a serra inteira ardia na fornalha do Agosto, certo dia, no pino do sol, resolveu assestar o gado na loja. Servia então o Silvano, o maior proprietário da terra. E enquanto o rebanho, sonolento, ruminava, estendeu-se também no catre, igualmente sonolento e a ruminar. Era a hora do jantar, e lá em cima os patrões comiam e bebiam à tripa-forra. Ele, coitado, teria uma malga de caldo no fim do banquete, e viva o velho!

 

Nisto, sente passos pela escada abaixo, abre-se a porta, e a filha da casa, bonitota, mas de pêlo na venta, que nunca dera conta que o olhasse como homem e nunca lhe consentira que a olhasse como mulher, aparece de cântara na mão, ao vinho.

 

 

Em silêncio e sem se mexer, deixou-a passar para a adega, que era ao fundo, numa loja contígua Mas apenas sentiu desandar a torneira da pipa e a espuma do tinto a ferver dentro do barro lhe fez cócegas na garganta, pediu humildemente:

 

- Minha ama, dê-me uma pinga!

 

- Dou. Anda cá bebê-la...

 

Ergueu-se num pronto, saltou por cima do gado, entrou no armazém, recebeu a pichorra, levou-a à boca e começou a consolar a alma. De repente, sem mais nem para quê, a moça, calada, dá-lhe um empurrão à vasilha com a ponta do dedo. De respiração afogada e ainda engasgado, a tossir, relanceou-a toda. Ao machio, a senhora morgada!

 

E nada mais simples: pousou a caneca e dobrou a rapariga sobre uma facha de palha.

 

Miguel Torga, In Novos Contos da Montanha

 

 

16
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 32

 

 

Destinos  

 

Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.

 

- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.

 

- Dou, dou! Anda cá buscá-lo.

 

Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.

 

- Não estás de caçoada?

 

- Falo a sério!

 

Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.

 

- Olha que aceito! 

 

 

- E eu que estimo... 

 

Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.

 

- Não teimes muito...

 

- Valha-me Deus!... 

 

A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha.

 

 

- Segura lá na abada...

 

Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.

 

Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.

 

- Terão bicho?

 

- Têm agora bicho!Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!

 

Sem querer, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.

 

- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei...

 

À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.

 

- Segura lá esta pinhoca...

 

Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.

 

- Que lindo!

 

- É para que saibas...

 

Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.

 

- Cautela!

 

- Não há perigo.

 

No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.

 

- Queres mais?

 

- Não, bem hajas...

 

Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira.

 

- Adeus!...

 

O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.

 

Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.

 

- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.

 

- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa...

 

- Lá isso... 

 

Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.

 

- Fala à gente!

 

Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.

 

- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insofrida.

 

- Não. Mas amanhã...

 

- Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ?

 

- Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!

 

Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.

 

Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.

 

- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.

 

- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.

 

- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.

 

Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.

 

- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz...

 

Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.

 

- Eu queria lá um farsola daqueles! Estou muito bem assim...

 

Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.

 

A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:

 

- Sabes o que me disseram hoje na fonte?

 

- Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.

 

- Nem mais.

 

- Pois tem...

 

- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?

 

- Eu sei lá o que foi... 

 

Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.

 

- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.

 

- Já sei.

 

- O padre leu hoje os banhos...

 

- Pois leu...

 

Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.

 

- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.

 

Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.

 

- Também eu gostava dela...

 

Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.

 

Miguel Torga, In Novos Contos da Montanha

 

 

09
Abr14

Chá de Urze com Flores de Torga - 31

 

Depois de algumas passagens dos Diários de Torga (que continuarão a passar por aqui), de uma breve abordagem aos Poemas Ibéricos, é tempo de começar a deixar por aqui alguns contos. Iniciamos pelos “Novos Contos da Montanha”, que datam de 1944 e foram “germinados e medrados na Montanha”, tal como o autor nos conta na segunda edição dos contos - "Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medraram as raízes deste livro". Os “Novos Contos da Montanha” surgem na continuidade dos “Contos da Montanha”, também do autor, e não são mais que contos comuns de histórias acontecidas com gente comum, num espaço tão querido a Torga, o espaço da sua infância o do tal “Reino Maravilhoso”, feito de gente pobre que vivia de um quotidiano de fome, ignorância e desespero. Gente pobre mas eticamente muito rica que Torgã tão bem soube descrever em “O Reino Maravilhoso” – “(...)Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças. E põem naqueles pêlos da cara uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar. Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê-se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologais porque Deus não quer. Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:

— Entre quem é! (...)"

 

Mais que contos são uma homenagem à sua gente transmontana “heróis montanheses, revoltadamente livres e trágicos na sua solidão”

 

Um pouco ao acaso iniciamos com o conto Névoa. Em novas oportunidades outros contos surgirão.

 


 

Névoa

 

Já nos tempos de rapariguinha, quando as outras, da mesma idade, esguedelhadas e de nariz sujo, brincavam aos casados, ela se punha de lado, toda penteada e limpa. Esbelta e airosa, loira, branca e rosada, nem parecia criada ali.

 

- Muito bonita é a tua Celestina! A pobre Joana desfazia no elogio, com medo de qualquer castigo de Deus, e continuava a não compreender como pudera sair de si, tão feia, tão mísera e tão infeliz, uma criatura assim, bafejada da natureza. Giesta agarrada à ponta do fraguedo da sorte, que nenhum vendaval poupara, olhava com olhos incrédulos o milagre daquela flor de que fora mãe.

 

Sempre doente, desafortunada no casamento, desgraçada pela vida fora, morrera-lhe o homem quando andava grávida da filha.

 

- Não chego a ver a menina... - lamentava-se ele, logo ao terceiro mês, já com a sentença lavrada.

 

- Valha-te Nossa Senhora! Se isso são coisas que se digam!

 

- Tenho a certeza. Sofria de asma. Permanentemente a arfar, a erguer e a abaixar o peito num desesperado vaivém de náufrago a afogar-se, a inquietação contínua que criava à volta, às duas por três, transformava-se em pânico. Ao vê-lo assim esganado, até se tinha remorsos de respirar normalmente.

 

- E gostava tanto! - insistia, no fim do acesso.

 

Naquela vida sem ar e sem esperança, a cavar à sobreposse e a fumegar-se de pós da Abissínia, o sonho da filha representava um lavado horizonte de calma respiração e confiança.

 

- Há-de ser linda, que to digo eu! Sempre que falava nela, perdia-se, a descrever-lhe a beleza. Alta, branca, loira... Parecia tê-la diante dos olhos.

 

Ao lado de uma tal imaginação, a Joana, sem fantasia, pecava por míngua. Quer antes, quer depois da mortalha do homem, nunca passou de uma tímida certeza, onde cabia apenas uma rapariga ou um rapaz, e qualquer deles nem feio nem bonito, um justo fruto do seu ventre natural e terroso.

 

Mas chegou a hora do parto e, uma por uma, todas as profecias do vidente se realizaram no corpo da criança. Olhos azuis, cabelos loiros, linda...

 

- Só me admiro é como ele adivinhou isto! - dizia a Joana, a ver a filha crescer-lhe no colo.

 

- Beri-berá... - respondia a pequenita, com uma luz de resplendor à volta da inocência.

 

O retrato do Lourenço, tirado na feira dos nove, era o de um camponês de traços grosseiros.

 

Contudo, mal começou a ter tino do mundo, a cachopita ficava-se tempo esquecido a olhá-lo, numa ternura e numa admiração que a princípio comoviam a mãe. A coisa, porém, de tal modo passou as marcas, que foi preciso atirar uma palavra de desaprovação ao êxtase contemplativo.

 

Ó mulher, nem tanto! medida que os anos corriam, a saudade do homem esfumava-se no coração de Joana. A lembrança do marido sumia-se pouco a pouco, e ficava da passada vida em comum uma certeza sem nitidez, baça, que esbatia as feições do morto. A fotografia dele lá estava sobre a cómoda, numa tentativa de sobrevivência teimosa. Mas bastava-lhe fechar a porta de casa para a imagem perder os contornos. Só recordando certos factos, ou obrigando a memória a concentrar-se, conseguia que de uma nuvem esfarrapada se gerasse a figura antiga. Direcção inteiramente oposta à de Celestina que, partindo praticamente do nada, ia modelando a realidade do defunto, tirando, pondo, corrigindo, na febre de o ressuscitar em corpo inteiro.

 

- O pai era baixo, não era?

 

- Era.

 

- Eu já calculava... - Como é que calculavas?

 

- Não sei, calculava...

 

- Valha-te Deus. Um mal-estar indizível, uma zanga sem raiva, começou a apoderar-se de Joana sempre que via a cachopa absorta diante do retrato. Não conseguia resolver no espírito aquela estranha contradição: ela a distanciar-se progressivamente do marido e a filha a aproximar-se dele cada vez mais.

 

- O pai gostava muito de si, não gostava?

 

- Olha que conversa! Mulher feita, e cada vez mais bonita, a rapariga parecia não ter outro destino no mundo senão recriar um passado que não vivera. Os rapazes rondavam-lhe a porta, escreviam-lhe ou falavam-lhe, e ela mantinha-se insensível a todas as solicitações do presente.

 

- Tu não te queres casar? - perguntou-lhe a mãe a certa altura.

 

- Para quê? - Essa agora! Então para que há-de ser? Houve um silêncio penoso entre as duas, que uma resposta insólita e violenta quebrou.

 

- Para depois esquecer o homem, como a mãe fez ao seu...

 

A pobre e velha Joana sentiu estalar qualquer coisa dentro do coração. Foi uma suspeita esticada, tensa, que a brutalidade da agressão rompeu. Mas só confusamente conseguiu compreender o que se passava. A filha pareceu-lhe de repente outra mulher, e a estranheza dessa sensação perturbava qualquer análise esclarecedora. Por isso emudeceu e afastou-se devagar como se fugisse de um inimigo.

 

- O retrato? - perguntou dias depois, ao ver que sobre a cómoda já não estava o morto emoldurado no seu caixilho de arame entrançado.

 

- Não sei dele. Olhou fixamente a filha. - Então se tu não sabes, quem é que sabe?

 

A rapariga, sem pestanejar, enfrentou-a.

 

- Já lhe disse que não sei. Voluntariosa, Celestina sempre lhe metera medo. Mas agora temia-a doutra maneira. Depois da última conversa, nenhuma palavra ou intenção da filha lhe davam garantias. O clamor cada vez mais vivo da alma injustamente magoada mandava-a recuar ao primeiro sinal de perigo.

 

- Guardaste-o, é o que foi - rematou, a fugir ao embate. - Podias ter dito logo...

 

Cheia de vida, cada vez mais loira e mais formosa, a rapariga parecia um sol imerecido a iluminar a terra.

 

- É sua filha? - perguntou um feirante de longe, na altura em que lhes vendia um leitão.

 

- É. - Abençoado pai que a fez! Os olhos de uma fulguraram de alegria; os da outra nublaram-se de tristeza.

 

- Pois olhe que a boniteza dele... - desabafou a velha, quase sem querer.

 

- É você mais engraçada! - replicou Celestina, como se lhe tivessem mordido.

 

- Amiga dele é ela!... - comentou o outro.

 

- E nem o conheceu... - Mas gabo-me de o ter vivo no coração, como vossemecê nunca foi capaz!

 

O dia morreu assim azedo e os que vieram a seguir foram ainda mais amargos. Até que o verão se aproximou do fim e aquele drama também.

 

Foi em Setembro e passavam ranchos de vindimadores para a ribeira. O harmónio da rusga polvilhava a terra de uma melodia antiga, melancólica e sem préstimo. Celestina fora à costureira e a desgraçada Joana, sentada na soleira da porta, acompanhava com os últimos resquícios da coragem aquele fim de tarde desalentado. Como as uvas que iam ser cortadas, estava também madura para o lagar da morte. Apenas a prendia à vida a dolorosa lembrança de um caminho brumoso, desconsolado, com muita chuva, muito frio e algum sol que, em vez de a aquecer, a queimara. O homem fora no seu amor uma aflição constante; a filha trouxera-lhe uma angústia mais profunda ainda. Que fazia ela no mundo?

 

Que gosto poderia ter numa existência que lhe roía a velhice e matava no coração da rapariga a mocidade?

 

Sem ânimo para continuar a arder naquele inferno de lume apagado, todo de sombras e absurdos, ergueu-se, foi à cozinha, pegou na faca e na cesta, e correu pelo atalho dos Barrocos ao encontro do último rancho.

 

- Vossemecê quer mais uma mulher na roga? - perguntou, desesperada, ao maioral.

 

- Quero, quero! Mas é preciso que ela ainda distinga os bagos das folhas...

 

A velha Joana sorriu com brandura. Depois, humildemente, disse:

 

- Distingo. Mas, se me enganar, dê-me um empurrão e atire-me aos boleirões ao Doiro. É um favor que me faz.

 

Miguel Torga, In Novos Contos da Montanha

 

 

25
Dez13

Chá de Urze com Flores de Torga - 18

 

Natal

 

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. «Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser» - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

 

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

 

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

 

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

 

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

 

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

 

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

 

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

 

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

 

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.

 

- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.

 

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

 

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

 

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

 

- É servida?

 

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

 

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

 

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

 

Miguel Torga - Natal in Novos Contos da Montanha

 

 

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