Ocasionais

*BOA COMPANHIA*
Em meados dos anos sessenta, um flaviense, tal como muitos outros foi «recrutado» para as *FORÇAS ARMADAS*, para se especializar em todo o tipo de armas ligeiras e pesadas, desde a de calibre mais pequeno até ao maior.
Já «velho», lá foi empontado para a *GUERRA do ULTRAMAR*.
A estrela de Belém foi fintada pelo Cruzeiro do Sul, e o NATAL passou-o no alto-mar.
Outras *Noites de Consoada* e *Dias de ANO NOVO* por «LÁ» lhe calharam.
Desembarcou em LUANDA.
Alguns dias depois, embarcou para a Zona de Intervenção Norte.
Mal entrou na fragata, levou com o primeiro feitiço africano: foi atacado por uma febre que parecia querer derretê-lo.
Foi-lhe bem feita: não tivesse embarcado no *Vera Cruz* em tão má COMPANHIA!
Febril, queixoso, nenhum dos companheiros (e havia-os «especialistas» em enfermagem) de armas lhe deitou a mão.
Que ricos camaradas!
Um «preto», servente da tripulação da barcaça, indignado com o abandono e triste com a aflição do «branco», amparou-o, levou-o para o convés, improvisou uma cama com uns cobertores e ajeitou-lhe uma travesseira. Preparou-lhe uma bebida quente e algo para «meter à boca».
O samaritano servente da marinha chamava-se PEDRO. Disse saber para onde ia a COMPANHIA, ser natural do XINDE - QUELO, e sobrinho do soba.
Chegado à foz do rio que o seu comprovinciano DIOGO CÃO, descobriu, e onde se perdeu, o flaviense já estava milagrosamente recuperado.
Estacionado em Santo António do Zaire - SANZAIRE, afamado e difamado pela COMPANHIA que lhe arranjaram para a «Comissão de Serviço» em ANGOLA, aí ficou famoso com aquele certeiríssimo lançamento da sua faca de mato (a uma distância aí de uns quinze metros, um lagarto, repimpado no tronco de um embondeiro, ali ficou cravado com a *rambólico-dandílica* faca, mesmo o meio do seu *lombudo* lombo!), mais tarde «copiado», pelo Rambo Stallone; e pelo *Crocodilo Dundee*, um tal Paul Hogan australiano.
Aquartelado no QUELO, o flaviense requisitou a colaboração de um funcionário administrativo para transmitir à família do PEDRO do XINDE o seu desejo de a conhecer e de lhe agradecer.
Assim aconteceu. E desse encontro já está feito o relato em outro *Pitigrama*.
No QUELO, o flaviense fez facilmente amizade com os aldeãos circum-vizinhos.
E para com a criançada disponibilizou um particular carinho.
Quando chegava a qualquer uma das sanzalas, a criançada rodeava-o com mais alegria e maior barulheira do que bandos de pardais chegados às medas de centeio lá na eira da sua terra natal.
Uma fotografia com um dos pequenitos que mimava, revelada pelo sargento-fotógrafo no seu estúdio protegido pelo arame farpado, sargento Santana, foi enviada para a sua *Sissi*, lá no «PUTO»; outra, deixou-a ao seu protegido, nela inscrevendo o nome próprio e o da «cidade» de onde era natural.
Aí, nesse pedaço do ZAIRE, bem como em outros lugares onde lhe impuseram sempre más Companhias, foi fora do Aquartelamento onde encontrou quem lhe fizesse boa companhia.
Cinquenta anos após o seu regresso ao «PUTO», o autor do BLOGUE “CHAVES” telefona-lhe a perguntar-lhe se ele tinha estado no *Norte de ANGOLA* nesse meado dos anos sessenta, pois um engº. português, a desempenhar funções no Parque petrolífero do ZAIRE, assim mostrara, por e-mail, tal curiosidade, por manifesto interesse de um angolano, funcionário na mesma Empresa Petrolífera.
Confirmada a identidade, com a emocionante troca de fotografias em que o flaviense e o menino Zairense estavam amigavelmente abraçados, o «Menino do QUELO» manifestou vontade de vir a PORTUGAL dar um abraço ao seu amigo.
O autor-inventor-neologista de *Pitigramas* já escreveu um a contar a história com o título *O TITO de LÁ e o LUÍS de CÁ*, e outro em *Memoriazinhas do QUELO*.
E o TITO, mai-la sua esposa, DOMINGAS, vieram a PORTUGAL celebrar essa amizade.
E cá têm vindo todos os anos, excepto nos «covideiros».
Para vós, possíveis leitores deste *Pitigrama*, este testemunho pouco ou nenhum interesse terá, ou poderá ter.
Todavia, o propósito de ser escrito está em testemunhar mais uma particularidade da importância de um BLOGUE na vida de qualquer um de nós, assim como uma pública expressão do meu agradecimento ao autor do BLOGUE ***Cidade de CHAVES - Olhares sobre o ‘Reino Maravilhoso’***, o senhor FERNANDO DC RIBEIRO, distinto e egrégio Flaviense, pela preciosa colaboração nesta minha *glória*.
Este BLOGUE é mesmo *BOA COMPANHIA*.
M., dezassete de Dezembro de 2025
Luís Henrique Fernandes, da Granginha



