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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jan20

Ocasionais

ocasionais

 

 “AOS BISBÓRRIAS”

 

“A glória dos grandes homens

deve sempre medir-se pelos meios

de que se serviram para a alcançar”.

-La Rochefoucauld-

 

 

Depois de tantos anos já passados de “Democracia”, sinto um profundo desprezo pelas figuras, figurinhas e figurões da política nacional.

 

Por este andar, de gente cretina, medíocre, oportunista, sem-vergonha, corrupta, não tardará que o Povo português se indigne ao ponto de julgar e condenar toda a trupe que o tem traído, enganado e roubado!

 

Portugal e os portugueses têm sido governados «democraticamente», isso sim, por gente da mais perversa.

 

Na verdade, neste «jardim da Europa à beira-mar plantado» ainda caem algumas gotas de orvalho   -   já não há, jamais, um pingo de vergonha!

 

Quando se elege para a Assembleia da República uma deputada por um Partido que, arroupado por essa eleição, vai para a frontaria da Assembleia insultar a História de Portugal e enxovalhar a Bandeira Portuguesa, que mais dizer a não ser gritar «às Armas!»?!

 

Há crimes, há pecados que não têm remissão!

 

Nem nesta nem na outra vida!

 

O silêncio e a indiferença de deputados, de Ministros e do Presidente da República não tem perdão!

 

E quando deitam alarvices pela boca fora, sabem  bem utilizar «ad náusea» o chavão da  «jovem democracia portuguesa», impantes de uma vaidade assolapada, como se fossem os engenheiros e construtores de tal monumento político, convencidos que disfarçam os erros, os disparates, as vergonhas com que conduzem à decadência desta democracia, não fazem mais do que denunciar e pôr às claras a sua eterna puberdade política!

 

Passeiam-se por aí enfatuados e iludidos que o exercício das suas funções se resume a uma afirmação de «nós e os outros»!

 

Endrominado pelas dogmáticas mentiras e aldrabices de quem tem assaltado o poder e o tem governado, o povo português continua distante de adquirir consciência pública de cidadania!

 

Basta de encher este povo com promessas nunca cumpridas e com esperanças sempre enganadas e atraiçoadas!

 

Ao insaciável apetite pelo poder, essa gente maldosa e malvada, que com capa e batina de «democratas» tem administrado Portugal, essa gente-gentalha associa uma infindável desfaçatez de hipocrisia.

 

Às palavras enganadoras dos seus discursos, esses petimetres sabem combinar ardilosamente a voz enganadora.

 

E, a horas certas, servem-se com oportunidade do chavão que «os portugueses são um Povo de brandos costumes»!

 

Sê-lo-ão, sê-lo-ão!

 

Até um dia!

 

Os Portugueses são, realmente, um Povo sofredor e resignado. Aguentam o «custe o que custar» passivamente, sem protestar.

 

Mas eu deixo um aviso aos bisbórrias que abocanharam as rédeas do poder em Portugal:

 

- “A ira mais terrível é a ira dos mansos”!

 

O fado português é o de um Povo inquieto, de um Povo com destino errante, de um Povo sem descanso.

 

A decadência social, cívica, moral, cultural que se está a viver, os salafrários que ocupam os bancos, as cadeiras, os palanques e o cadeirão do poder bem que a disfarçam com feiras, festanças e festivais     e «selfies» com o pantomineiro-mor do reino!

 

E a fome que se adivinha eludem-na, nas cidades, nas vilas e nas aldeias com a «feira das sopas», já envergonhados com a «malga do caldo»!

 

O fogo de artifício é uma paixão e uma arte bem portuguesa: o êxtase que qualquer foguetório provoca no «zé pagode»!...

 

À superstição ancestral dos portugueses, os «abrileiros de 74» aparelharam-lhe o fanatismo partidário-político … e (já agora) o futebolístico!

 

Não! Não é só o «rei que vai nu».

 

Nus vão também, na sua maioria, os portugaleses. Nesta democracia aldrabada, caldeirada de política mercenária de oportunistas, corruptos, cretinos e ditadores encapuzados, a política passeia-se nua, e vazia, pelos “Passos Perdidos”, de S. Bento, e pelos jardins floreados e «selfizados», do Palácio de Belém!

 

Estamos, voltamos a estar, na era do paganismo político: nos novos altares criados pelos homens, é, como outrora, “ao homem que se imola e aos animais a quem se enaltece”!

 

O cartel dos principais Partidos políticos não tem feito mais do que reduzir os cidadãos portugueses ao papel de eleitores!

 

O descrédito da política   -  actividade que, por definição, tem por fim último o bem comum    -   empurra o homem para o individualismo egotista e, consequentemente, degrada o sentido de comunidade.

 

Quero deixar ao meu neto um mundo melhor, não uma sociedade que me faz ter saudades daquela em que fui nascido e criado!

 

M., dezassete de Dezembro de 2019

Luís Henrique Fernandes, da Granginha

 

13
Jan20

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476 - Pérolas e Diamantes: Rei-Presidente Sidónio Pais

 

Os líderes míticos portugueses são personagens de romance. Todos eles. É também esse o caso do Rei-Presidente Sidónio Pais.

 

Em abril de 1928 foi eleito Presidente da República por sufrágio universal, na altura unicamente masculino. Enormes massas de povo juntaram-se a Sidónio, aclamando-o como um salvador.

 

A verdade é que ascendeu à chefia do Estado de forma discreta a partir do exercício da sua função de professor universitário. De facto, Sidónio Pais, ao contrário daquilo que muita gente pensa, não era líder militar, nem chefe de partido. O que faz deste episódio um dos mais estranhos da história política portuguesa do século XX.

 

A verdade é que a sua vida tinha girado muito em volta do jogo a dinheiro, em que se viciou, e também dos namoros extraconjugais. Em 1906, escandalizou a sociedade ao abandonar a sua legítima esposa e os cinco filhos para ir viver com uma amante, que, por acaso, também era casada.

 

Foi só em 1910, com a implantação da República, que Sidónio Pais alcançou a sua oportuna iniciação maçónica. Começou a acumular cargos: vice-reitor da universidade, presidente da Comissão Administrativa Municipal de Coimbra, administrador da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911), ministro do Fomento e das Finanças dos primeiros governos constitucionais (1911-1912) e finalmente embaixador na Alemanha (1912-1916).

 

O célebre escritor e político republicano João Chagas encontrou Sidónio em Paris, quando ele regressava a Portugal depois da declaração de guerra da Alemanha (março de 1916) e ficou mal impressionado pela sua magreza, pelo seu mau francês e pelos rumores sobre a sua movimentada vida sexual. Não teve dúvida em o considerar uma “personalidade insignificante”.

 

Dizem que foi o modo como era subestimado o que o ajudou na conjura em que acabou por se envolver em Lisboa, no verão do ano seguinte.

 

Os pormenores da conspiração de Sidónio Pais nunca foram claros.

 

Foi com o apoio de um amigo agricultor, António Miguel de Sousa Fernandes, que, seguindo a receita tradicional para sublevar a guarnição de Lisboa, contactou oficiais de baixa patente, sargentos e voluntários civis. A polícia, informada dos seus movimentos, não o prendeu porque nunca lhe deu importância.

 

No meio da bagunça que se instalou em Lisboa, nos primeiros dias de dezembro de 1917, mal se soube da rendição do governo de Afonso Costa, o povo assaltou e destruiu as casas e os escritórios dos ministros e de todas as sedes, centros escolares, cantinas e jornais do PRP,  na capital. Multidões bailaram e cantaram à volta das fogueiras onde ardia o recheio dos edifícios saqueados: “Tudo dança, tudo dança, \ Tudo dança, tudo gosta, \ Já caiu o Ministério \ Já morreu Afonso Costa.”

 

Foi então quando Sidónio se pôs ao comando das tropas revoltadas no Parque Eduardo VII, ao princípio nervoso, depois com determinação implacável, competência técnica e bom humor, sempre a fumar e a comer chocolates. A 11 de dezembro, de presidente da Junta Revolucionária passou a chefe do Governo.

 

Avisou que “iria vinte vezes ao parque Eduardo VII para combater a demagogia”. O povo começou a admirá-lo como um “teso”, um “valente”. A oligarquia política acreditou finalmente que ele falava a sério quando afirmou: “não sirvo para ser o guarda temporário do país”. De homem discreto passou a herói providencial.

 

Sidónio aumentou os prés, melhorou o rancho e multiplicou as paradas militares, onde o exército pode exibir um novo aprumo e o recente material de guerra.

 

Resolveu então romper com os partidos republicanos. “À revolução feita com os tiros dos canhões, teria de se seguir outra, mais difícil, com base numa reviravolta de espíritos”.

 

A 9 de maio de 1918, numa cidade em festa, em cima do cavalo e de espada desembainhada, assistiu a uma enorme parada da guarnição militar da capital, enquanto dois aviões sobrevoavam a cidade. Nos dias seguintes, o Presidente teve sucessivos banhos de multidão. A imprensa notou a “excitação do público feminino”.

 

A 14 de dezembro foi alvejado no peito com um tiro, em plena gare do Rossio. Há duas versões das suas últimas palavras. Para uns terá dito: “Não me apertem, rapazes”. Para outros, despediu-se com uma deixa mais teatral: “Morro bem, salvem a Pátria”.

 

Segundo Fernando Pessoa, o sidonismo salvaguardara o que de fundamental os republicanos tinham feito: a expulsão da dinastia e a negação de um papel político ao clero católico. E, sobretudo, tentara dar um passo fundamental na eliminação do tipo de políticos profissionais, bacharéis e caciques que governavam a república como já antes tinham governado a monarquia constitucional.

 

João Madureira

 

06
Jan20

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475 - Pérolas e Diamantes: Pode não parecer...

 

Pode não parecer, mas a história não é uma ciência. É antes uma espécie de género literário. Como diz Vasco Pulido Valente, o que a academia acha que são ciências – a sociologia, as ciências políticas e, sobretudo, as relações internacionais – não passam de fraudes.

 

As ciências sociais, ainda na douta opinião de VPV, possuem o mesmo estatuto ontológico de Deus: não existem.

 

Talvez por isso mesmo, VPV se tenha dedicado às crónicas em vez de perder tempo com a história, a sociologia e fraudes afins.

 

Em muitas delas zurziu em Cavaco Silva como em centeio verde. Ele que foi um dos primeiros entusiastas do homem de Boliqueime.

 

Escreveu que o dr. Cavaco, quando foi primeiro-ministro, fez muito mal a este país. Não percebeu que o necessário era fazer a reforma de Portugal. Apesar de ter muito dinheiro para modernizar Portugal, limitou-se a mandar fazer umas estradas. E também transferiu uns subsídios para a lavoura numa tentativa de acabar com a agricultura de subsistência. E, claro está, não acabou. Deu cabo foi da outra. Deu dinheiro a pessoas que tinham duas vacas para deixarem de ter duas vacas. Os donos das vacas receberam o dinheiro, compraram um carro e abriram um café. De repente havia cafés por todo o país e a agricultura de subsistência continuou.

 

Na sua opinião, que não é única, “Cavaco é muito inculto e começa por seu muito inculto politicamente”.

 

São três os impasses que bloqueiam a sociedade portuguesa: o da modernidade, o da competitividade e o da reforma do Estado.

 

Portugal é um país em constante modernidade. O slogan é perpétuo. E a razão é simples: uma país que não produz inovação está sempre a modernizar-se, insistindo na tentativa de chegar à modernidade que os outros geraram. Só que nós chegamos sempre lá tarde e a más horas.

 

Quando qualquer governante diz que vamos inovar, o que quer dizer é que devemos ir copiar a inovação dos outros. A lengalenga já vem desde o século XVIII. A nossa modernização nunca passou de imitação.

 

Imitando melhor ou pior, o problema é que tal prática deforma sempre o modelo pretendido.

 

No topo da hierarquia do Estado temos um senhor risonho, ligeiramente sassamelo, que tira milhares de selfies e dá beijinhos a tudo que mexe. Sobretudo velhinhas, a quem se abraça e enxuga as lágrimas.

 

Ora isto não é política, nem representação. Pois ele não representa nada. Nenhuma solução ou direção política.

 

É um presidente divertido.

 

O gráfico de pirâmide da sociedade portuguesa tem atualmente a forma de uma pera. Possui uma tira gorda no meio, formada pelos que caíram de cima e pelos de baixo que subiram. Na base está uma faixa mais pequena, mas relativamente larga.

 

Assistimos a uma proletarização preocupante da classe média. Essa é a nova força social que vota preferencialmente à esquerda: professores, médicos, advogados, investigadores, enfermeiros, informáticos, analistas, arquitetos, técnicos de diagnóstico, fisioterapeutas, etc. Uma coisa os caracteriza: alta qualificação técnica, mas sem o prestígio social que antigamente lhes correspondia. Sentem-se frustrados porque ou desceram ou não subiram socialmente. Uma coisa os atormenta: a brutal precariedade das suas vidas.

 

Normalmente falamos de precariedade no emprego. Mas há ainda uma precariedade mais importante: a da situação social.

 

Não. Não se trata de socialismo, mas de procurar uma vida nova. A decência. O direito a ter futuro.

 

Portugal, e a Europa também, sabe que necessita de reformas, mas não quer reformas. O facto é que os portugueses não suportam demasiada realidade. Normalmente, costumam fugir dela, ou fazer que não a veem. Este Estado, denominado de providência, transformou o cidadão normal numa espécie de ser irresponsável. Daí os dirigentes da democracia fazerem carreira em lhes mentir.

 

Mas o problema continua a estar no sítio do costume. Os nossos políticos são quase todos maus. E as militâncias partidárias também não primam pela qualidade. A obediência assenta facilmente nos medíocres. Daí os partidos se terem transformado num bando de papagaios, sempre prontos a obedecer ao chefe. E sempre por interesse pessoal. Daí se exprimirem essencialmente através da intriga. 

 

Nenhum regime político resiste à impotência. Já chega de medo e desleixo. De corrupção. Necessitamos urgentemente de atos positivos.

 

João Madureira

30
Dez19

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Milagres lusitanos

 

Alguém muito importante anda a organizar o Dicionário Taumatológico Nacional, que, para quem não saiba, tem a ver com o estudo dos milagres.

 

Em Portugal tudo tem a ver com taumatologia. A Nação Portuguesa pode não ter nada a ver com o desenvolvimento, com a cultura, com a ciência, com a energia, com a indústria, com a agricultura e com o talento, mas tem tudo a ver com a taumatologia.

 

O milagre das rosas foi dos mais encantadores momentos da nossa nacionalidade. E transformar pão em rosas não está ao alcance de qualquer um. Mesmo transformar rosas em pão, não é tarefa nada fácil. Mas, convenhamos, a primeira premissa é muito mais poética. E Portugal é um país de poetas. E de futebolistas. E a poesia tem muito a ver com os milagres. E o futebol também. Para isso basta ver os futebolistas e os treinadores a beijarem os seus santos e a glorificarem Deus (especialmente os brasileiros, que devem, nesses momentos de fé e oração, agradecer devotamente o facto de serem fruto de um outro milagre: o de serem filhos, netos e bisnetos, de portugueses, o que é novo e enorme milagre).

 

Em Portugal existe um outro milagre, o da linguagem. Por isso os prodígios acontecem a cada dia que passa. O assombro da saúde gratuita, a maravilha da educação espontânea e o portento da segurança social universal são conquistas de um outro milagre, a Democracia, que, também ela, é sucedânea de um distinto milagre, o Estado Novo, que substituiu um outro portento, a República, que se opôs com tenacidade a idêntico prodígio, a Monarquia, que, por mor da taumatologia nacional, se viu defendida por uma rainha tão corajosa e crente que, já de pé, fustigou o criminoso que abateu o seu marido e o seu filho com a única arma de que dispunha: um ramo de flores, gritando “Infames! Infames!”.

 

Depois ver Nossa Senhora aparecer a três pastorinhos em Fátima é, digamos, um final feliz, isto enquanto ao facto em si mesmo, pois se nos cingirmos à mensagem, o milagre está em não ter acontecido o que a Senhora vestida de branco vaticinou, ou sugeriu.

 

Podemos dizer que a vida é um milagre. Podemos até dizer que os próprios milagres são um milagre. Um milagre é um empreendimento de fé. Fé em que o milagre se realize.

 

Há por aí muita boa gente que acredita piamente no milagre de acertar no totoloto ou no euromilhões, por isso se cotiza toda as semanas. E o milagre de adivinhar os números por vezes acontece. Um em vários milhões, é verdade, mas é nesse pormenor onde se consubstancia o milagre. Pois se o prémio fosse distribuído por metade dos apostadores nenhum ganhava nada que se visse. Esse é o entretenimento que o Estado pratica com todos nós. Por isso, o milagre existe na circunstância de o prémio sair ao menor número possível de apostadores, ou a nenhum, facto que transfere, para desespero dos mais impacientes, o milagre para a semana seguinte.

 

Os matemáticos fizeram as contas e afirmam que cada apostador do euromilhões ou do tolotolo tem tantas probabilidades de acertar na chave milionária como de lhe cair um meteorito na cabeça. Nunca li uma notícia relatando o caso de um ser humano ter levado com um pedregulho intergalático na cachimónia, mas quase todas as semanas leio a notícia de alguém ficar milionário com as apostas da Santa Casa. E isso é um milagre. E grande. Que o digam os afortunados com os prémios milionários.

 

Também é um milagre o amigo leitor estar a ler o que está a ler sem se incomodar. Ao preço que a batata está, já é um milagre alguém disponibilizar algum do seu tempo (pois tempo é dinheiro) a ler o que um escritor de província rabisca num órgão de informação local. Então se pensarmos no quilo do bife, apenas nos resta deduzir que os vegetarianos vão atingir os seus objectivos de transformar o ser humano num ruminante. E isso também é um milagre. Não tão grande como o de ganhar o euromilhões, mas, mesmo assim, um milagre em tudo semelhante ao de transformar o pão em rosas. Já o de transformar Portugal num país a sério, nem Deus está em condições de o garantir.

 

PS – Se o amigo leitor (ou leitora) possui um cão, e gosta dele, claro, aconselhamos que comece desde já a preparar o inverno. Por isso aqui deixamos a sugestão: adquira, quanto antes, roupa para o seu animal de estimação. E pode fazê-lo através da internet. É fácil encontrar boutiques especializadas na venda de roupa para cães, desde capinhas, chapéus, camisolas de lã, cuecas, pijamas, roupões e até botas para a chuva.

 

João Madureira

 

20
Dez19

O Factor Humano

a questão do lítio

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A questão do Lítio

 

É delicado falar com seriedade, com frontalidade e com serenidade, sobre o tema do lítio na nossa região e em Portugal.

 

Mas tenho um dever cívico de não " lavar as mãos" em relação a este assunto.

 

Todos concordaremos em que o conhecimento das nossas riquezas e dos nossos recursos é uma obrigação do Estado e de todos os cidadãos. Portanto não nos deve confundir que saibamos que temos importantes reservas de lítio e onde elas estão localizadas. Mais ainda, é urgente que o Estado tenha capacidade para fazer as prospecções necessárias no estrito respeito pelo ambiente e pelo direito das populações.

 

Na actualidade e nos tempos mais próximos, as necessidades de lítio serão crescentes, em especial para a construções de baterias que permitam o armazenamento de energia, por exemplo nos automóveis eléctricos, mas não só.

 

Também sabemos que tal pode permitir reduzir a poluição e a emissão de gases, com efeito de estufa, atenuando as tão temidas alterações climáticas.

 

Assumidas então estas posições, os portugueses e em especial e em particular os que vivem nas zonas de potencial exploração, exigem ao Estado, que este acautele os seus interesses e os seus direitos. Necessitam de clareza e de informação profunda e sincera sobre todos os impactos que a prospecção, a exploração e o processamento do lítio acarretarão.

 

Necessitam de frontalidade e que não se oculte nenhum dos aspectos negativos, porque eles serão seguramente muitos.

 

Necessitam de estratégias de compensação, multifacetadas e fiáveis.

 

Necessitam de confiar no Estado como garante profundo de direitos que não podem ser violados.

 

Para tal é indispensável que as populações sejam ouvidas para que melhor se percebam as suas angustias e as suas preocupações; as suas exigências e as suas reivindicações. Também para que possam ser esclarecidas com detalhe.

 

É importante que haja " linhas vermelhas" em termos de meio ambiente e de saúde e que as populações sintam que o Estado zelará para que elas não sejam ultrapassadas. Que não restem dúvidas sobre a qualidade e a seriedade dos estudos de impacto ambiental e das avaliações a que estes vão ser sujeitos pelas entidades públicas competentes.

 

A história recente da construção das barragens hidroeléctricas na nossa região, nomeadamente a barragem de Daivões, mostra bem como a Iberdrola tem dificuldade em corresponder à justa necessidade das populações que vão ser retiradas das suas propriedades e habitações, que ficarão submergidas.

 

A questão específica da exploração na zona de Montalegre, já concessionada à empresa Lusorecursos, em nada corresponde ao que acima foi escrito. Tudo é pouco transparente. Tudo levanta profunda desconfiança nas populações e nos portugueses. Já estamos bem escaldados com episódios análogos no passado recente de Portugal, para percebermos que as coisas não vão correr bem. Nem para o Estado português que em tanto se compromete com a Lusorecursos , nem para as populações de Montalegre ; uma  região que já tanto deu para o equilíbrio ecológico  com a grande barragem do Alto-Rabagão e que tão poucas compensações recebeu até agora.

 

Preocupa-me ver mais uma vez ex-secretários de Estado como consultores de empresas privadas que tentam fazer avultados negócios com o Estado.

 

Espera-se e exige-se dos autarcas um papel activo na promoção do esclarecimento das populações, contribuindo para a serenidade e para a seriedade de todos estes processos. Também para a sua transparência.

 

Espera-se e exige-se que defendam a região e as populações, num firme diálogo com o Estado e com as empresas envolvidas. Que garantam que, se alguma vez algum dos processos de exploração avançar, é porque nenhuma das tais linhas vermelhas foi ultrapassada e que todas as compensações devidas estão perfeitamente asseguradas.

 

É bom que os estudos avaliem também as consequências para a agricultura familiar e de montanha da região, nomeadamente os impactos de destruição directos e ainda a redução de mão de obra disponível para essa mesma agricultura.

 

Há um alerta adicional em relação ao consumo de água, bem cada vez mais raro e mais precioso, e ao risco da sua contaminação. Recorde-se que a barragem do Alto do Rabagão fornece água potável de qualidade a muito mais de 100.000 pessoas e que uma das explorações, que se anuncia, fica a escassa distância desta barragem.

 

Finalmente, e caso estejam assegurados os impactos ambientais, era muito importante que a região e o país, avançando no processo de extracção de lítio, incluam o processamento desse mesmo lítio de forma a que toda a riqueza deste processo fique ao serviço do país e das populações.

 

Manuel Cunha (pité)

 

12
Dez19

Ocasionais

ocasionais

 

“A «NOSSA» DEMOCRACIA”

 

*Numa Democracia,

a LIBERDADE morre

se for simplesmente tolerada*.

Claude Julien

 

 

Portugal é um país-tagarela, um país sem lei, um país cheio de decretos!

 

Portugal tem como matéria-prima a mediocridade política, a imbecilidade arrogante, a ignorância estúpida e um jazigo imenso da mais venenosa inveja!

 

Portugal é um país de discórdia!

 

Pela imagem que os deputados dão na Assembleia e os candidatos e a sua centúria de apoiantes dão nas campanhas (e pré-campanhas) eleitorais, é caso para se dizer que esta democracia portugalesa  é uma autêntica guerra civil   -   piadas grosseiras, insultos, provocações, calúnias, difamações, etc. são o seu pão-nosso-de-cada-dia!

 

O que se tem visto nesta democracia «sempre jovem», noviça e «nabiça» é que a incompetência, a mediocridade, a cretinice e a hipocrisia têm alastrado por contágio, particularmente nos sermões e missas cantadas das capelas político-partidárias!

 

Bastantes candidatos a candidatos, e alguns candidatos a listas e a lugares políticos   -   quer sejam lugares no organigrama do Partido, quer nos micro, médio ou máximos governamentais   -   apresentam mancheias de ideias tão inovadoras e geniais quão absurdas, apenas com a vantagem de serem recusadas e, ou, ridicularizadas!

 

Nesta democracia, todos os sapateiros querem tocar rabecão e subir acima da chinela!

 

Treinados, «lavados» (cerebralmente), para a obediência intelectual, os “Jotinhas” partidários tornam-se autómatos na obediência moral e satisfazem-se em ser uns paus mandados.

 

Nesta democracia, a «habilidade» é considerada uma qualidade superior, mais meritória, mais louvável do que o conhecimento e a competência!

 

E, à medida que a mediocridade alastra e toma conta dos principais lugares da administração pública, os competentes vão-se apagando.

 

Na política portuguesa abundam os politiqueiros a fazer o papel de governantes   -   não passam de impostores e patronos de fraudes!

 

A democracia carece de maior número de partidários que qualquer outra forma de Governo, para não ter muitos descontentes”, disse Faguet, mal ele sabendo, ou sequer imaginando, o que estava pra chegar de clientelas políticas ao «Jardim das Berlengas»!

 

Nesta democracia portugalesa, o povo é senhor de tudo, e os directórios partidários são os senhores do povo.

 

A esses farsantes sobra-lhes em astúcia o que lhes falta em sinceridade!

 

O Estado (Português), como organização político-social de uma comunidade que partilha um território, uma Cultura, uma História, e aqueles que o administram, o Governo, para reconhecerem e protegerem os direitos dos seus cidadãos exige-lhes e cobra-lhes impostos. Porém, mais do que protecção, o Estado (Português)    -   ah!  O Governo, os governantes e governantezinhos   -   mais do que protecção sujeita-(n)os à humilhação [veja-se a arrogância de ministros (p. ex., «custe o que custar»); as diatribes injuriosas de deputados (p.ex.: tratar por «peste grisalha» os velhotes, como se o marmanjo fosse filho, neto e bisneto de pais e avós incógnitos …. ou de híbridos!); as poses «à dr. Mundinho» (de predizentezecos de Municípios, CIM’s e respectivos camaristas); e ainda a arrogância e petulância de «Jotas» e «jotinhas, cretinos militantes encartados, e a de gentinha-gentalha investida como funcionária pública!].

 

Sócrates estabeleceu o princípio de que o homem de Estado devia ser sábio (aquele que está consciente da sua imensa ignorância): Os «tugaleses», ultrapassando mesmo o conceito de Platão, deram mais brilhantismo ao postulado, e determinaram que «o homem de Estado» deve ser “xico’sperto», reguila, mentiroso, falso, trampolineiro, hipócrita, trafulha, «vígaro», corrupto, enfim, maissabichãodo que sábio!

 

No “ABRIL de 74”, os grupelhos que substituíram a classe política apressaram-se a nacionalizar as empresas e as propriedades:  e, com todo o desembaraço, cuidaram das cruzadas para nacionalizar as mentes dos «portugaleses»! Falam do Futuro sem terem aprendido  -   nem sequer querido aprender   -   com o Passado e o Presente.

 

E, de então para cá, tem sido um corrupio de «nabiços» a serem ordenados sacerdotes de políticas de campanário, fazendo fingir saberem de Política, quando, na realidade, nada sabem.

 

E os «tugaleses» continuam alegremente a consentir serem castigados com impostos e mais impostos, multas, coimas, taxas e sobretaxas (moderadoras ou imoderadas), burocratismo; dificuldades e obstáculos à Justiça, à Saúde; ao Ensino, à Ciência, e acesso ao Trabalho, a uma Reforma digna, e sem tugir nem mugir, em vez de esclarecidos, apoiados e respeitados!

 

O poder político não será verdadeiramente democrático enquanto as campanhas eleitorais não oferecem a possibilidade de opções claras, enquanto o controle dos cidadãos sobre os seus eleitos e dos parlamentares sobre o executivo não for restabelecido, enquanto as grandes orientações não forem objecto de grandes debates”.-C. Julien

 

Para os nossos políticos   -   governantes, governantezinhos, predidentes disto, daquilo e daqueloutro, e parlamentares   -  parece que os portugueses são APENAS «animais vivos» e «”ALÉM DISSO” somente quando FAZEM GREVE ou «VÃO VOTAR» é que «são capazes de existência política».

 

Os Portugueses têm direito ao «simples viver», enquanto os seus políticos têm o direito ao «VIVER BEM»!

 

E, do alto da sua importância, arrogância e soberania políticas declaram que o Povo Português tem «Voz», mas só neles a Linguagem é um dom!

 

A definição mais profunda e apurada de «política», depois de percorridas todas as obras dos mais célebres e dos mais ignorados autores, e de procurados os dicionários das mais famosas Línguas e dos mais desdenhados dialectos, essa definição foi, por fim, descoberta na catacumba que vai de Castro Laboreiro a Castro Marim e das Furnas às Fajãs: *Política é a arte e o saber de «VIVER BEM», «à grande e à francesa», a arte maior de os «nossos políticos» saberem «tratar da vidinha»*!

 

Esta democracia portugalesa, regida e interpretada pela profusão de moinantes, adivinhos e profetas que se fazem passar por políticos de papelão, é bem mais uma “Feira de S. Miguel” ou “das Cebolas” que um regime político!

 

Antístenes merece regressar!

 

Mozelos, cinco de Outubro de 2019

Luís Henrique Fernandes, da Granginha

 

 

 

25
Nov19

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470 - Pérolas e Diamantes: Os karaokeanos

 

 

Atualmente, a relação com os meios de comunicação baseia-se em desconfiança e hostilidade.

 

Vivemos política e socialmente entre uma espécie de clímax trágico e uma forma de clímax humorístico.

 

Quando se fala de política já ninguém tenta ser sincero.

 

Talvez a nossa juventude seja traumática, desejando chegar a velha diretamente, sem passar pela secção da maturidade. Os nossos jovens gostam de dizer que se acalmam nos grupos de terapia, que estabilizam emocionalmente nas sessões com o psicólogo, tentando evitar o trauma da paternidade.

 

Os mais velhos lamentam-se daquilo que deixaram escapar durante as suas vidas, percebendo que já não vão a tempo de compensar o que não viveram. A beleza da juventude magoa-os.

 

Aos mais novos, a velhice aflige-os e atrapalha-os.

 

A verdade é que dependemos uns dos outros para darmos sentido à vida.

 

Muitas pessoas julgam-se astutas, mas são apenas cínicas. As melhores revelam raiva. Mas, como todos sabemos, a raiva é uma forma diferente de simpatia.

 

O que agora se valoriza não é a autenticidade, mas sim a arte da ilusão.

 

Um velho ditado chinês diz que “os príncipes tornam-se ridículos quando fingem desconhecer a causa dos seus embaraços, ou quando confundem as suas incertezas com as suas ignorâncias”.

 

A nova filosofia assenta na velha máxima: o que se pode levar desta vida é o que se come, o que se bebe e o que se brinca.

 

Caminhamos para uma sociedade corrompida onde os horizontes morais e filosóficos são escassos e, mesmo esses, subvertidos todos os dias por banqueiros, juristas, empresários e políticos.

 

Todos eles tentam esconder a verdade, que é a mola do progresso. Um dia as contradições da nossa era popular vão explodir. O que nos deve preocupar é a debilidade das lideranças dos partidos democráticos.

 

O Estado de Direito baseia-se na ética e no realismo. Não na retórica e no socialismo (ou liberalismo).

 

O todo (os direitos) não existe sem as partes (os deveres).

 

Os políticos pós-modernos são como aqueles patuscos sem graça que memorizam piadas para serem considerados uns pândegos, tendo ido para as universidades privadas frequentar cursos pré-pagos que conferem garantia imediata a certificado timbrado, para aí aprenderem como abandonar as festas antes de esgotarem o material. Produzem o mesmo efeito da comida aparentemente saudável, mas que intoxica.

 

Apesar de se detestarem entre si e nos detestarem, parecem todos velhos amigos, considerando-nos impertinentes e mal agradecidos.

 

Os partidos lá vão fazendo a sua propagandazinha: uma resma de medidas ao acaso, que não os compromete a quase nada, apelidando-as de “programa” para conferir ao arrazoado mal atamancado um cheirinho a seriedade. Numa segunda leitura, se tanto, ninguém consegue respigar um naco de pensamento organizado.

 

O povo, por seu lado, com a sua independência cidadã, lamenta-se. Mas lá vai votar. E nos mesmos, para não se deixar surpreender. Ai o povo, o povo mais a sua santa sabedoria.

 

Os partidos vivem na indiferença, sendo o centro da inércia e da incapacidade. Não sabem o que é ter vergonha. Ou falta de caráter. Os animais não conseguem aperceber-se do seu próprio cheiro.

 

Mesmo o poder autárquico se transformou num exemplo de extravagância, megalomania e, muitas das vezes, em puro latrocínio.

 

Parece que não existe um único político em Portugal responsável pelo défice e pela dívida. A oligarquia partidária confunde-se com a oligarquia dos negócios.

 

O nepotismo e a corrupção derivam da fraqueza do poder democrático e da ausência de uma entidade verdadeiramente fiscalizadora. De facto, todos nos apercebemos da irrelevância do Presidente da República, do Parlamento e das suas comissões. Nem o Governo governa, nem a Assembleia controla. E as câmaras municipais funcionam como verdadeiros feudos.

 

Temos de nos perguntar quais foram os génios que deixaram o país pobre e endividado, acumulando milhares de milhões de dívida que jamais poderá pagar.

 

Lá bem no fundo, o FMI e todas as outras instituições financeiras internacionais, sabem que Portugal é uma folha de papel que vale tanto como o Novo Banco.

 

Apesar de usarem elegantes e vistosos fatos azuis Hugo Boss, os nossos políticos, mais as suas ideias feitas, cheiram sempre a naftalina.

 

E que lindos karaokes eles fazem.

 

João Madureira

 

11
Nov19

Quem conta um ponto...

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468 - Pérolas e Diamantes: A arte e a revolução

 

 

O cantor Ricardo Ribeiro (Respeitosa/Mente) acertou na mouche: “O entretenimento é para esquecer a vida. A Arte é para lembrar a vida.”

 

Eu sou intuitivamente flaubertiano, levando, para mal dos meus pecados, o cómico ao extremo, o cómico que não provoca o riso, o lirismo no gracejo. Aprecio desgastar as coisas, exprimir-me com uma espécie de cumplicidade com o desgaste da vida. Persegue-me o sentimento da futilidade e da desintegração.

 

Foi Flaubert quem associou a noção de arte a uma gloriosa futilidade.

 

O passado costuma retornar, mas não nos faz reviver. Apesar de belos, os pássaros são tolos.

 

A criação literária está cheia de amargas alegrias. Flaubert ensinou-nos que o artista é uma espécie de alquimista que fabrica beleza com a impureza da vida.

 

Nada na arte pode ser mesquinho. O estilo, por muito que custe a algumas almas sofridas, não é essencialmente uma proeza técnica, mas antes uma questão de visão. O estilo é a maneira “absoluta” de ver as coisas. É muito mais do que vocabulário e sintaxe. Mais do que substância verbal, é espírito. É ritmo e cadência. Também é precisão e vigor.

 

Flaubert desconfiou sempre das emoções pessoais: “Podemos ser senhores do que fazemos, mas nunca do que sentimos.” Até os eunucos se consomem no seu próprio desejo estéril.

 

A escrita de ficção é também uma forma de profanar os sonhos. Mas, por muito que nos custe, a solidão não confere beleza, apenas desenvolve as depressões.

 

Escrever é uma forma de sublimar a raiva que sentimos pelas coisas impossíveis. Todos somos vítimas fáceis da solidão e da incomunicabilidade. Mas só alguns a conseguem escrever e descrever.

 

São a paródia e a ironia que nos conduzem ao culto do artifício. É daí que nasce a boa literatura. Enriquecemos sempre com todas as ilusões que perdemos. O que é derrota para uns é vitória para outros.

 

Por vezes, ou quase sempre, a relação entre o positivo e o negativo, revela a dialética com que se alicerça a obra de arte. Cito d’ A Educação Sentimental: “Ele transportou para as artes o hábito... de parodiar o que mais lhe agradava, de depreciar aquilo de que mais gostava, rebaixando todas as grandezas e denegrindo todas as belezas, para ver se elas se erguem,  depois, em toda a sua grandeza e beleza primordial...”

 

Mas há gente tão enganada que teima em procurar “o odor das laranjeiras debaixo das macieiras”. Crítica e criação afirmam-se em simultâneo.

 

No ato da escrita, é bom evitar as emoções, pois todos sabemos que quanto menos sentimos uma coisa mais aptos estamos para a descrever.

 

Há coisas que as palavras não conseguem dizer e outras que elas devem encobrir. Até porque, como escreveu Flaubert: “A palavra humana é como um caldeirão rachado onde tocamos melodias de fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas.”

 

 

Nos bons escritores existe sempre uma tensão entre o estilo e o que ele pretende descrever. Nós vemos sempre aquilo que queremos ou aquilo que podemos. Nenhuma obra de arte se salva apenas pela forma.

 

As palavras são diferentes entre si. Umas não conseguem comunicar, no entanto existem outras que transformam os textos de forma irredutível. São elas que fazem com que D. Quixote se revele ao mesmo tempo patético e grandioso.

 

São os falsos movimentos aqueles que contribuem para a impressão opressiva da imobilidade. De facto, é o que as guerras são.

 

Eu sou daqueles que acredita no herói que nunca se torna heroico. Até porque o heroísmo é pouco divertido. É como ter uma experiência espiritual num cenário de banalidade. Perde-se o efeito de paródia. Fica apenas a leve intenção da ironia.

 

Flaubert assumiu muito bem a dupla perspetiva do amor e da revolução. E por separado. Até porque agora sabemos que uma coisa e outra se excluem simultaneamente. Por isso os dois amantes vão para Fontainebleau (A Educação Sentimental).  E enquanto os dois amantes se entregam ao prazer, grassam em Paris a revolução e o sofrimento. Só que a evasão não é possível.

 

Flaubert chega até ao ponto de jogar com o conceito de revolução, uma vez que invoca os grandes cataclismos naturais responsáveis pelo caos das rochas. Não se esquecendo de salientar o aspeto irrisório das alterações políticas e das agitações quotidianas.

 

E depois do coito lá vem o arrependimento: “Ficou indignado com este egoísmo; e censurou-se por não estar lá com os outros”.

 

João Madureira

06
Nov19

Crónicas de assim dizer

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A travessia

 

 

Foi longa a travessia! Não grande, longa!

 

Ainda estava em terra quando me apercebi de que o mar estava encrespado e que não ia ser fácil. Podia esperar algumas horas ou dias ou meses, até que fosse mais seguro meter o barco ao mar, mas esperar não sou eu.

 

Fui, mesmo assim. Sabia, tanto quanto é possível saber sem ter feito, que tinha grandes hipóteses de sobreviver, por aquela convicção, na maioria das vezes estúpida ou inocente, de que havemos sempre de sobreviver a tudo. Pensava: que monstros marinhos me podem aparecer? E respondia logo depois, tenho este péssimo defeito de fazer perguntas com as respostas dentro, seja quem for ou o que for que me surpreenda por entre as ondas, ou eu ou o barco ou ambos, vamos saber contornar.

 

Ao princípio foi o vento a soprar desnorteado, vindo não se percebeu ao certo de onde, que me rompeu as velas e eu no mar alto já sem terra à vista a costurá-las! Claro que no estojo dos primeiros socorros havia agulha, linha e dedal. 

 

Depois foi o motor a falhar, uma válvula que descomprimiu, se soltou ou encravou, não percebo nada de motores, e que tive de desmontar e substituir. 

 

Depois o óleo que se consumiu em excesso pela força adicional que o motor teve de fazer contra a corrente. 

 

Depois os botes salva vidas a soltarem-se do convés sempre que o barco galgava uma onda não prevista e a tudo isso eu resisti e sobrevivi com aparente serenidade. Digo aparente porque houve alturas em que senti taquicardia e receei que o coração me saísse pela boca. No kit de socorro também havia pastilhas para isto. 

 

Depois os alimentos acabaram porque a viagem estava a durar mais do que o previsto e passei verdadeira fome, mas comecei com alguma antecedência a racionar os mantimentos como se uma voz do além me advertisse para não abusar da sorte.

 

A água doce também começou a escassear, mas um amigo tinha-me ensinado um processo de dessalinizar a água que na altura me pareceu complicadíssimo, mas que a necessidade tinha transformado em fazível!

 

Quando me convenci de que já não podia acontecer pior, começou a entrar água no casco. De facto, durante a noite tinha ouvido uns ruídos estranhos como se o fundo do barco estivesse a roçar em alguma coisa, mas naquele estado de embriaguez que é aquele em que dormimos, achei que tinha sido um sonho. 

 

Mas, se bem que tudo isto me tenha assustado a seu tempo, eu sabia que haveria sempre uma solução e que ela navegava comigo, por assim dizer, dentro do barco.

 

O pior foi quando começaram a entrar ratos! Aí eu atirei-me à água e submergi porque tenho verdadeiro pavor dessas criaturas e teria mesmo naufragado, mas os milagres acontecem: quando estava já sem ar nenhum, e tinha-o poupado bastante por causa daquele curso de mergulho que tinha feito em Ko Tao, na Tailândia, estiquei os pés e, macacos me mordam se não foi verdade, encontrei terra firma! E murmurei: Há coisas do… podia-me ter saído “arco-da-velha”, mas saiu-me um palavrão que nunca antes me tinha saído!

 

Cristina Pizarro

 

 

04
Nov19

Quem conta um ponto...

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467 - Pérolas e Diamantes: O Vermelho e o Branco

 

 

Um ano após os comunistas terem tomado o poder na Rússia, os operários de Moscovo e Petrogrado fizeram greves encarniçadas. A fome tornou-se um flagelo. Segundo Gorki “os trabalhadores cuspiam à menção do nome de qualquer bolchevique”. Tal cinismo estava resumido no lema que apareceu espalhado pelos muros das cidades: “Abaixo Lenine e a carne de cavalo! Queremos o Czar e a carne de porco.”

 

Os grevistas de Sormovo declararam: “O regime soviético, criado em nosso nome, tornou-se completamente alheio a nós.”

 

Lenine foi então alvo de um atentado por parte de uma revolucionária (Kaplan) ainda mais revolucionária do que ele. Escapou por milagre a uma bala que o atingiu com gravidade no pescoço. Kaplan foi torturada e fuzilada. Os apaniguados do querido líder bolchevique escreveram no Krasnaia gazeta, um órgão de circulação em massa, esta prova do espírito dos revolucionários da altura: “Sem piedade, mataremos os nossos adversários, às centenas. Para o sangue de Lenine e Uritsky deve haver torrentes de sangue burguês – muito sangue, tanto quanto possível.”

 

Seguiu-se o Terror Vermelho.

 

A aversão à democracia acabou por desaguar num governo mantido pela violência. Os bolcheviques, vendo a terra a fugir-lhe debaixo dos pés, viram-se obrigados a recorrer ao terror para silenciar os rivais políticos e subjugar uma sociedade que não conseguiam controlar por outros meios. A Cheka tornou-se o braço repressivo dos bolcheviques. Era um Estado dentro do Estado, abarcando praticamente todos os aspetos da vida soviética. De facto, a organização liderado por  Dzerzhinsky tanto tratava do licenciamento dos cães como lutava contra os reacionários.

 

Os seus elementos eram peritos em esmurrar portas a meio da noite, interrogar e deter pessoas sem acusações formais. E também a torturar e a proceder a execuções sumárias. Foram a principal fonte de inspiração para a criação da Gestapo e da PIDE.

 

A Cheka era, na definição de um dos seus fundadores, não uma comissão de investigações, uma corte ou um tribunal. Era um órgão de combate na frente interna da guerra civil. “Não julga, fuzila. Não perdoa, destrói todos aqueles que são apanhados do outro lado da barricada.”

 

Foi por essa altura que os esbirros da Cheka começaram a dar um arzinho da sua graça. Numa sessão do Circo Moscovo, os nada pândegos polícias políticos ofenderam-se com as anedotas antissoviéticas do palhaço Bim-Bom e invadiram o picadeiro, com a firme determinação de o prenderem. Apanhada de surpresa, a plateia pensou tratar-se de mais uma atração. Só que o artista fugiu e os perseguidores alvejaram-no pelas costas. Gerou-se uma algazarra dos diabos e o pânico tomou conta do lugar. Rapidamente a cidade se encheu de comentários a respeito do caso, com veementes censuras públicas à ignóbil atitude da polícia. Centenas de pessoas compareceram ao enterro de Bim-Bom, transformando a cerimónia numa manifestação de desagrado.

 

Parece que na Cheka não liam os clássicos. Engels escreveu que “o terror é composto de crueldades desnecessárias, perpetradas por homens assustados”.

 

Gippius, o poeta de Petrogrado, disse que durante o Terror Vermelho, “não havia, literalmente, uma única família em que alguém não tivesse sido preso, levado ou então desaparecido sem deixar rasto”.

 

Todos seguiram ao pé da letra a afirmação de Lenine de que era melhor prender uma centena de inocentes do que correr o risco de deixar um inimigo à solta.

 

Já do lado dos Brancos, a miséria humana não era melhor. A grande ajuda enviada pelos Aliados das potências ocidentais para auxiliar os exércitos que combatiam os bolcheviques, acabou por desaparecer, em virtude da corrupção. Armas, fardas, lençóis, cobertores e equipamento hospitalar, quase tudo isso foi parar ao mercado negro.

 

Vários generais incitavam os seus soldados com a promessa de pilhagens.

 

Um deles ficou conhecido como o Príncipe dos Ladrões. A grande maioria das tropas era, no dizer de um dos poucos generais honestos, “um colossal cortejo de larápios e especuladores”. Para estes homens, a guerra era uma forma de enriquecimento.

 

A cavalaria Branca transformou-se num corpo especialista em saques, roubando ao povo o pouco que lhe restava depois da coletivização dos Vermelhos.

 

Foi precisamente esta combinação de fatores que levou aos atrozes pogroms contra os judeus.

 

Bem diz o povo que uma desgraça nunca vem só.

 

João Madureira

 

 

 

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