Onde hoje se caminha a pé, antes, chegava o comboio que, do resto de Portugal trazia gente, muitos soldados, mercadorias e novidades lá de baixo. Em sentido inverso, também partia todos os dias e levava gente, muitos soldados, mercadorias da terra e novidades da milenar Aquae Flaviae, então, ainda cidade de fronteira, que também já não existe. Perdeu-se o comboio, resta a saudade de ter existido e a esperança de que, com nova gente, talvez um dia regresse. Hoje no espaço onde o comboio chegava, dormia e partia, resta uma singela recordação meia escondida no interior de um velho edifício que sobreviveu à implantação de um espaço dedicado à cultura onde às vezes até acontece.
![]()
Pelo menos gente de outras culturas vai caminhando alheada da cultura passando em frente da estação que já não vende bilhetes de ida e volta, nem guarda mercadorias à espera de serem levantadas, nem tem relógio com horas certas, nem o chefe da estação com bandeira levantada e apito na boca a autorizar partidas ou à espera de regressos. Resta o edifício, também uma singela memória de um comboio que hoje abriga os pensantes da cultura, onde as árvores nascem ao contrário, com as raízes a procurarem o céu e os galhos enterrados na terra, onde a cultura às vezes acontece, pelo menos ao lado, vai acontecendo cultura digna de louvar e de ouvir, onde muito trabalho de juventude forma muita juventude para a melodia dos sons.
![]()
Estava em dívida com esta última imagem que deveria ter acontecido aqui na quarta-feira passada dentro das “Palavras colhidas do vento…” de Mário Esteves quando referia “Caía a tarde quando voltei as costas àquelas ruínas e foi com a sonoridade das águas que regressei a Chaves, para no dia seguinte, domingo, escutar deliciado outros sons, num excelente concerto da Orquestra de Sopros da Academia das Artes de Chaves, que não só me encantou, como me deixou orgulhoso de ser flaviense.”. Mas já diz o ditado que mais vale tarde do que nunca e fica também hoje a minha homenagem ao trabalho que os “rapazes da música” estão a fazer pela música em Chaves, sendo já hoje, uma terra onde a música acontece com muitos e novos músicos, onde a música acontece com qualidade onde, aqui sim, a cultura acontece. Esta última imagem é do tal concerto da Orquestra de Sopros da Academia das Artes de Chaves que aconteceu na tarde de Domingo de 10 de Abril. Sons jovens nesta primavera de Abril.
Ainda hoje, possivelmente, acontecerá por aqui mais uma crónica. Até lá.