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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Fev20

O Barroso aqui tão perto

origem, história e território

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INTRODUÇÃO

 

Como em todas as histórias, comecemos esta pelo seu início.

 

Este blog existe há 15 anos, começou pela descoberta de uma nova palavra que tinha aparecido na intenet – “blog”. Numa tarde sem nada que fazer, a curiosidade levou-me à sua descoberta. Afinal o que era um blog!?.  Li umas coisas sobre eles e descobri ser uma ferramenta posta à nossa disposição, um espaço pessoal na internet onde poderíamos escrever, partilhar ideias e publicar imagens, vídeos, etc. Os formatos, “templates” já existia, a nós só nos exigiam, escrever e publicar, com imagens incluídas, se tal fosse o nosso desejo. Lembrei-me então do meu tempo de tropa, em que num ano passado em Angra do Heroísmo, devorava tudo que eram notícias da terrinha, num tempo em que ainda nada disto existis, nem sequer os telemóveis, quando muito o telefone para notícias muito breves, pois era caro, para conversas mais longas, recorríamos às cartas enviadas por correio. Lembro-me de na altura ir à Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo para ler o “Notícias de Chaves” que chegava lá 15 dias após ser publicado, mas eram para mim as notícias mais recentes da terrinha, onde lia tudo, incluindo os anúncios e a necrologia… Lembrei-me então, nessa tarde sem nada para fazer, experimentar criar um blog em que o destinatário seria eu próprio, ou seja, aquilo que gostaria de ler e ver se estivesse fora da terrinha. E assim foi, assim se iniciou o Blog Chaves, primeiro com pequenos textos soltos e imagens de Chaves. Pensava eu que era o único a ver aquilo que fazia, daí, nem sequer ter muitos cuidados, qualquer critério na construção do blog, do que ia dizendo e mostrando, até que apareceu o primeiro comentário, e aí, assustei-me…afinal não era só eu a ver aquilo. O restante da vida do blog, vai sendo conhecida por todos os que me acompanham e hoje todos sabemos como os blogs funcionam.

 

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De Chaves ao Barroso, apenas um passo

 

Durante os primeiros anos de blog foi inteiramente dedicado à cidade de Chaves e mais tarde também às suas aldeias e lugares, perto de 150 no total. Muita coisa, mas nada que o tempo não possa vencer. E assim foi, passaram por aqui todas as aldeias do concelho de Chaves, algumas mais que uma vez. Era tempo de o blog se expandir para lá Chaves e as suas aldeias, daí surgir a ideia de ir também até às origens, as minhas, mas que pela certa seriam também de mais gente, pois embora eu seja flaviense de nascença, a minha família materna é de Montalegre e a paterna de Vila Pouca de Aguiar. E porque não a região de Chaves, alto Tâmega e Barroso sem deixar de foram a Galiza da fronteira com Chaves e também Vinhais, pela mesma razão de também fazer fronteira com o concelho de Chaves. Uma aventura que logo à partida se propunha como demorada, pois seria necessário todo o trabalho de campo na recolha de imagens e pesquisas para falar sobre essas novas aldeias, para além das nossas impressões pessoais.

 

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Decidi assim iniciar esse alargamento pelo Barroso de Montalegre, aquele que melhor conhecia por ser terra da minha mãe, dos meus irmãos, tios primos e avós e natais de juventude. Inicialmente seria o território do concelho de Montalegre a explorar e de seguida passaria ao de Boticas, só que no entretanto, com o conhecimento da “Toponímia de Barroso”, apercebi-me que havia freguesias de Vieira do Minho e de Ribeira de Pena que também estavam incluídas no território de Barroso.

 

No levantamento das aldeias do concelho de Chaves, da margem esquerda do rio Tâmega, por várias vezes que as pessoas mais idosas, em conversa, quando se referiam ao Barroso, que para lá do rio, é tudo Barroso. Por outro lado, com a minha descoberta do Barroso além Montalegre, aquele que menos ou nada conhecia, fui-me dando conta que geográfica e fisicamente falando, o Barroso não tem uma identidade única, ou seja, características idênticas em todo o seu território, daí haver também, em versão mais ou menos oficial, a distinção entre o Alto-Barroso e o Baixo-Barroso, que eu nas minhas descobertas ia acrescentando ainda outros, que em tom de brincadeira cheguei a chamar “Barrosinhos”.

 

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De facto é impossível comparar em termos de identidade as aldeias do planalto da Serra do Larouco (Padornelos, Sendim, Santo André, Solveira, Gralhas, etc., etc., etc..) com as aldeias da freguesia de Salto, ou com as aldeias da freguesia de Cabril, entre outras. Em suma, fui-me dando conta que neste território do Barroso (e ainda só estamos no do Concelho de Montalegre), a vida das aldeias sofriam grande influência da terra onde estavam implantadas, e estas, das montanhas,  serras e rios que que lhe eram próximas, a saber, da Serra do Larouco, a Serra do Gerês, a Serra do Barros e a Serra da Cabreira, e do Rio Cávado, Rio Rabagão, Rio Cabril.

 

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Chegado a este ponto é que comecei a debruçar-me mais a fundo sobre o Barroso e o seu território, o que não foi/é fácil, partindo logo do princípio que em termos administrativos, ou melhor, em termos de divisões administrativas do território de Portugal, ao longo da história, o Barroso nunca foi província, distrito, concelho ou outro, mesmo noutras divisões do território, como as divisões para termos estatísticos, as NUTS - Nomenclatura de Unidades Territoriais para Fins Estatísticos, o território hoje conhecido do Barroso, sem ser mencionado, está incluído nas NUTS II na Região Norte e nas NUTS III na região do Alto Tâmega (Barroso de Montalegre, Boticas e Ribeira de Pena) e na Região do Ave(Barroso de Vieira do Minho).

 

Aliás se considerarmos o atual território do Barroso tal como é defendido por Montalegre, o Barroso pertence a (pelo menos) 4 concelhos (Montalegre, Boticas, Ribeira de Pena e Vieira do Minho), dois distritos (Vila Real e Braga) e a duas províncias (Trás-os-Montes e Minho).

 

Chegados aqui poderíamos, quase, dizer que o Barroso não existe, o que seria um disparate de todo o tamanho, pois todos sabemos que o Barroso existe, mas alguém poderá afirmar, com exatidão, quais sãos os limites do Barroso!? Pois, para podermos responder a isto teremos que esquecer as divisões administrativas oficiais e lançar mão da História e daquilo que ao longo dos tempos se foi dizendo sobre o Barroso.

 

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O Barroso, origem, história e território

 

Entre e segundo os escritos de entendidos que se debruçaram sobre o assunto, as fronteiras do Barroso foram variando ao longo dos tempos, embora quase todos coloquem Montalegre como a terra de origem, a terra mãe e a capital do Barroso. Excluindo o Padre António Fontes que nos seus escritos faz uma abordagem do Barroso através do fator humano com o Barrosão e o seu feitio, os restantes abordam e entendem o Barroso a partir do território de Montalegre através dos tempos, pelo fator administrativo, contrariando em parte a sua origem, pois se assim não fosse, o território de origem seria igual ao atual território, e como veremos não aconteceu assim.

 

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Por outro lado, pensava eu, que mais importante que o fator administrativo, que aos longos dos tempos foi variando e continuará a mexer nas fronteiras dos territórios, lembremo-nos que a última reorganização administrativa  ocorreu em 2013. Mas ia dizendo, que pensava eu que mais importante que o fator administrativo seria o fator geográfico, ou seja, que uma região que fica de fora das divisões administrativas oficiais se ia regulando pela geografia, ou melhor, pelas características geográficas dessas mesmas regiões, como por exemplo a terra quente, por ser quente, a terra fria por ser fria, a região do douro, pelo rio Douro, ou as terras do vale do Ave por serem do vale do Ave ou até o Alentejo por ser além Tejo, ou seja, há caracteristicas geográficas idênticas ou perfeitamente delimitadoras pelas características físicas, comos os rios, os vales, as montanhas.

 

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Sinceramente que quando iniciei esta pesquisa e estudo da região do Barroso, pensava que ela se enquadrasse em limites geográficos, que até os tem, e aí, mesmo que administrativamente o território fosse mudando práqui ou práli, o território do Barroso manter-se-ia, mas vamos ver o que dizem alguns dos documentos estudados.

 

De entre todos os documentos que encontrei, o que está mais próximo daquilo que quero abordar, é um do investigador João Soares Tavares que,  sobre o assunto,  afirma:

 

Sobre a origem da Terra de Barroso não se conhece um documento fidedigno. Teorias existem. É por certo uma região muito antiga. Dois documentos da terceira década do século XVI[i] confirmam a Terra de Barroso com diferenciadas unidades concelhias em dimensão e importância. A documentação referida certifica também a vila de Montalegre cabeça administrativa da Terra de Barroso.

 

Segundo a mesma fonte o Barroso era um vasto território que incluía o concelho de Montalegre, o concelho de Vilar de Vacas, o concelho do castelo de Piconha, o concelho do castelo de Portelo e o Couto de Dornelas.

O concelho de Montalegre possuía o maior número de freguesias[ii], o concelho de Vilar de Vacas duas freguesias apenas – Campos e Ruivães[iii], o concelho do castelo de Piconha incluía a vila de Tourém e três aldeias: Rubiás, Santiago e Meaos. Estas aldeias formaram o Couto Misto e eram habitadas indistintamente por portugueses e galegos, por último o concelho de Portelo reunia “oyto aldeas de termo as quaes se chamã omrras: Vilar de Perdizes, Santo André, Solveira (Sobreyra), Gralhas, Meixedo, Padornelos, Padroso e Sendim.” Assim assegura o “Numeramento de D. João III” do século XVI.Facto a assinalar, com base no documento citado, estas oito honras eram pequenas unidades territoriais com governo próprio, mas estavam dependentes da autoridade do alcaide do castelo de Portelo.

 

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João SoaresTavares afirma ainda:

O documento “Demarcaçam da Villa de Montalegre…” de 1538, atesta a existência dos “lugares de honras” que são os seguintes: “Aldea de Villar de Perdizes, Aldea de Gralhas, Aldea de Padronelos, Aldea de Padroso, (…) e que estas quatro Aldeas sam subditas ao Castello de Portelo. Portanto confirma a dependência da autoridade do Alcaide do Castelo de Portelo. De salientar, neste documento do século XVI datado cerca de 10 anos após o referido atrás, as aldeias de Solveira, Santo André, Sendim e Meixedo não aparecem referenciadas.

Segundo o mesmo documento, todas as unidades concelhias citadas estavam integradas na Terra de Barroso, e também coloca a vila de Montalegre cabeça daquele território. De onde se conclui a importância que apresentava.

A Reforma Administrativa de Silva Passos decretada em 6 de Novembro de 1836 promoveu a extinção de uns concelhos e a criação de outros. Houve concelhos cujos territórios diminuíram, enquanto noutros aumentaram. Esta Reforma não foi definitiva sofrendo diferentes alterações até 1853 e, no que diz respeito à Terra de Barroso prolongaram-se até 1898.

Em 1836 iniciou-se a divisão do vasto território. Nesse ano as honras citadas – Vilar de Perdizes, Santo André, Solveira, Gralhas, Meixedo, Padornelos, Padroso e Sendim – foram extintas, sendo integradas no concelho de Montalegre. Algumas destas freguesias sofreram um desvio temporário para Ervededo que anteriormente fora um couto, conforme será analisado abaixo.

 

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O concelho de Boticas criado em 1836 recebeu as suas freguesias do concelho de Montalegre. Apenas as freguesias Anelhe e Ardãos transitaram do concelho de Chaves. (Ambas pertenceram anteriormente ao Julgado de Barroso conforme se verifica nas Inquirições afonsinas de 1258 referentes àquele Julgado). Em 1855, Anelhe regressou ao concelho de Chaves.

O concelho de Boticas fundado em 1836 conforme se disse, foi extinto em 1895 para ser novamente restaurado em 1898.

Até à estabilização dos concelhos houve freguesias que saltitaram de um para outro. A freguesia de Cervos esteve apenas dois anos no concelho de Boticas. (1936-38) Em 1838 voltou ao concelho de Montalegre. Fiães do Tâmega aldeia da freguesia de Curros do concelho de Montalegre, em 1834 foi elevada a paróquia. Esteve no concelho de Ribeira de Pena entre 1895 e 1898, ano em que passou definitivamente para o concelho de Boticas. É freguesia deste concelho tendo anexado a aldeia de Veral.

Do concelho de Montalegre transitou em 1839 para o concelho de Boticas a freguesia S. Salvador de Canedo. Permaneceu em Boticas até 1895, para nesse ano incorporar o concelho de Ribeira de Pena que fora criado em 1853. Parte das aldeias dessa freguesia: Canedo, Pena Longa, Seirós e Alijó formaram uma nova freguesia com o topónimo Canedo, enquanto as aldeias Viela e Melhe integraram a freguesia de Santa Marinha do referido concelho.

 

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O pequeno concelho de Vilar de Vacas constituído pelas freguesias Campos e Ruivães, em 1706 incluía mais as “aldeias Fafião e Pincães da paróquia de S. Lourenço de Cabril, termo de Montalegre” e as aldeias “Linharelhos e Caniçó paróquia de Santa Maria de Salto, termo da vila de Montalegre”. (4) Pelo citado Decreto foi aumentado em 1836, recebendo as seguintes freguesias do concelho de Montalegre: Ferral, Cabril, Covelo do Gerês, Reigoso, Pondras, Salto, Venda Nova e Vila da Ponte. Um aumento com pouca durabilidade. Extinguiram o concelho em 1853 passando as freguesias Campos e Ruivães para o concelho de Vieira do Minho regressando as restantes freguesias referidas ao concelho de Montalegre.

O couto de Dornelas que inicialmente pertenceu ao arcebispado de Braga, em 1836 foi integrado como freguesia no concelho de Boticas. Aquele território é constituído por sete povoações.

Tourém, sede do concelho do castelo da Piconha extinto em 1836, passou a freguesia do concelho de Montalegre.

Em 1864 com a assinatura do Tratado dos Limites entre Portugal e Espanha, os três lugares Rubiás, Santiago, e Meaos, que formavam o Couto Misto, passaram a constituir território espanhol.

Algumas povoações da Terra de Barroso extinguiram-se, nomeadamente: S. Vicente do Gerês, Soutelo, Madalenas, S. Frutuoso de Barrosinho, Carrili, Padroselos. Esta aldeia que outrora pertenceu ao Julgado de Barroso é hoje uma imagem nostálgica do concelho de Ribeira de Pena.

Até se verificar a estabilização dos concelhos houve um saltitar de freguesias. Para finalizar apresento mais o seguinte exemplo: O couto de Ervededo que estava fora da Terra de Barroso, em 1836 foi também sujeito à Reforma Administrativa de Silva Passos. Nesse ano aumentou o pequeno território. Do concelho de Montalegre transitaram: Meixedo, Vilar de Perdizes (Santo André), Vilar de Perdizes (S. Miguel) e Solveira, portanto pertencentes outrora à Terra de Barroso. Com a nova constituição teve vida efémera. Foi extinto em 1853. As aldeias referidas regressaram ao concelho de Montalegre. As restantes ao concelho de Chaves.

(...)

Resumindo: Conforme se constata, a antiga Terra de Barroso incluía diferentes unidades concelhias atrás referenciadas. A Reforma Administrativa de Silva Passos de 1836 provocou transformações significativas. Actualmente, o seu território encontra-se repartido por quatro concelhos localizados em dois distritos (Vila Real e Braga) e, uma pequena parcela foi deslocada para a Galiza. Do seguinte modo: em todo o concelho de Montalegre, na quase totalidade do concelho de Boticas, (excepto a freguesia de Ardãos, que pertencia ao concelho de Chaves), no concelho de Vieira do Minho, (freguesias de Ruivães e Campos), no concelho de Ribeira de Pena (toda a freguesia de Canedo e as aldeias Viela e Melhe da freguesia de Santa Marinha). Na Galiza permanecem as aldeias Rubiás, Santiago e Meaos localizadas a norte do concelho de Montalegre.

 

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Depois de todas a história que aqui ficou sobre o Barroso, baseada nas palavras do investigador João Soares Tavares, fiquei um pouco confuso com as suas conclusões (resumo) a respeito do Barroso atual, seja como for, aquele que é mais ou menos oficial e aceite,  é o do mapa 4 que atrás ficou, no entanto, eu tenho outras fronteiras para o Barroso, que no meu entender seria o mais lógico, isto deixando de parte as fronteiras administrativas e as perdas e ganhos de território e até mesmo o fator humano defendido pelo Padre Lourenço Fontes.

 

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Claro que é, talvez, a minha visão romântica sobre o assunto, mas é baseada nas características geográficas com semelhanças e território bem definido e delimitado por agentes naturais como as montanhas e os rios. Sei que vale o que vale e não pretende absolutamente nada, nem sequer pretende ser polémico, pois aceito as fronteiras do atual Barroso. Apenas quero mostrar a minha visão sobre este assunto ou de como eu gostaria que fosse, não para me incluir nela, ser barrosão como flaviense, pois a minha costela barrosã já me chega para ser também barrosão, aliás, se fossemos por aí, eu até ficaria de fora, pois embora nascido em Chaves, nasci na margem esquerda do Rio Tâmega, que fica fora dos limites deste meu Barroso “romântico”, chamemos-lhe assim. Fica então o mapa do meu Barroso, a seguir virá a sua defesa.

 

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Pois para defesa recorro às montanhas e rios e também clima, limites naturais de territórios. Assim, se considerarmos as montanhas, poderíamos ter dois Barrosos possíveis, um mais pequeno e que ficaria circunscrito ao território entre as serras do Gerês, serra do Larouco,  serra do Leiranco, serra do Barroso e serra da Cabreira, ou seja, quase e só o concelho de Montalegre. Para o alargarmos à inclusão de Boticas, já temos que ir até um Barroso mais alargado em que um rio já entra como fronteira, o Rio Tâmega, aliás fronteira do Barroso “oficial” e “aceite” de hoje em dia, e é aí que começa a entrar o meu Barroso romântico, pois naturalmente o rio Tâmega seria uma fronteira bem definida e definitiva do território de Barroso, que por sua vez é secundado por uma outra fronteira de montanhas – a serra de Mairos e a serra do Brunheiro com remate da serra de Santa Bárbara.

 

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Por outro lado, recorrendo à história do Barroso, grande parte desse território flaviense que eu defendo como pertencer ao Barroso, já lhe pertenceu, apenas depende como se veja o movimento das fronteiras administrativas, senão vejamos, a freguesia de Anelhe já foi pertença do Barroso e se considerarmos que o Couto de Ervededo, tal como o Couto de Dornelas, foram parte integrante do Barroso, então também teríamos pelo menos 7 freguesias de Chaves a pertencer ao Barroso, a saber: Anelhe, Seara Velha (com Soutelo). Calvão e Soutelinho, Ervededo, Vilela Seca, Bustelo e Vilarelho, ou seja, da margem direita do Rio Tâmega, apenas 5 freguesias é que nunca pertenceram ao Barroso, são elas a freguesia de Stª Maria Maior, Valdanta, Santa Cruz/Trindade e Sanjurge,  Curalha e Redondelo.

 

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E fico-me por aqui. Mas antes queria acrescentar que a feitura deste post coincidiu com um outro post que tinha pensado para esta rubrica de “ O Barroso aqui tão perto”, um post dedicado ao Padre Lourenço Fontes, por altura dos seus 80 anos, que fez ontem, e ficam os meus parabéns atrasados, quando ao post, ficará para outra altura, pois tal como me disse um amigo “Nesse dia não faltarão manifestações de aplauso ao António, hoje Padre Fontes ou Padre Lourenço Fontes.”

 

E com esta me bou!

 

 

 

[i] “Numeramento mandado fazer por D. João III (1527-1530) “, in Archivo Histórico Português, vol. VII, publicado em Lisboa, 1909;  “Demarcaçam da Villa de Montalegre Concelho de Barroso Diocisis de Braga e asy dos Castellos de Portelo e Castello de Piconha e daldeas das honras anexas a elles por ser tudo termo de Barroso e Tourem”, 1538, Arquivo da Casa de Bragança, Vila Viçosa.

[ii] Foi fundado em 9 de Junho de 1273 pelo foral outorgado por D. Afonso III, Chancelaria de D. Afonso III, Livro I, f.110, I.A.N./T.T.

[iii] Vilar de Vacas teve carta de foro outorgada por D. Pedro l em 27 de Junho de 1363. (Chancelaria de D. Pedro I, livro de Doações, fls.85vº e 86, I.A.N./T.

 

 

 

17
Fev20

O Barrosão e o seu feitio

BARROSO

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No último domingo não deixei aqui nada sobre o Barroso e justifiquei essa falta com estas palavras: “(…) desculpas a quem ontem veio ao blog à procura de um post sobre o Barroso, que era minha intenção publicar, mas como o assunto a tratar é importante demais para ser tratado de forma leviana, acabei por gastar todo o meu tempo em pesquisas e a documentar-me (…)”. Pois hoje ia correndo o mesmo risco. Desvendando um bocadinho do mistério, se é que há mistério, acontece que para terminar a minha abordagem ao Barroso de Montalegre, apenas me falta trazer aqui as aldeias dos colonos, Vilar de Perdizes e a Vila de Montalegre, os restantes lugares e aldeias do concelho de Montalegre já foram abordadas. As aldeias dos colonos irão ter um post especial, em preparação. Quanto a Vilar de Perdizes, nunca cheguei a completar o levantamento fotográfico da aldeia e a Vila de Montalegre irá ter uma abordagem diferente daquilo que vem sendo habitual.

 

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Assim, está na hora de avançar para o restante Barroso, o de Boticas. Inicialmente pensava que o Barroso se completava aí, com os concelhos de Montalegre e Boticas, mas com o tempo vim a saber, pela “Toponímia de Barroso”, que havia também algumas aldeias do Concelho de Vieira do Minho e de Ribeira de Pena que pertenciam ao Barroso. Como sempre gostei de saber o porquê das coisas, fui à procura dos limites históricos do Barroso, e aí, tudo começou tcomplicar-se, aliás a única coisa que até agora dou como garantida sobre a origem de Barroso, são as palavras de João Soares Tavares que debruçando-se sobre o mesmo tema, diz logo no início da sua abordagem: “Sobre a origem da Terra de Barroso não se conhece um documento fidedigno. Teorias existem. É por certo uma região muito antiga.” E o resto são cantigas… a única coisa que se vai apontando como fidedigno é a vila de Montalegre ser apresentada sempre como cabeça do território de Barroso. Quanto ao Barroso da “Toponímia de Barroso”, não é mais que o antigo território do concelho de Montalegre, existente até 1836, e que na sua divisão dá origem ao concelho de Boticas, perdendo uma freguesia para Vieira do Minho, e “perdendo-se” também o Couto Misto. Posteriormente a freguesia de Canedo é também desanexada do concelho de Boticas. Portanto o território de Barroso, para a “Toponímia de Barroso” é o território do concelho de Montalegre tal como ele era até 1836, no entanto, aprofundando mais a investigação sobre o assunto, as coisas não são bem assim, e é por essa razão que o tal post sobre o “Barroso” demora tanto a ser parido. Mas no entretanto, deparei-me com as características do BARROSÃO, ou seja, do povo que povoa o Barroso, e esse sim, dou como validado aquilo que o Padre Lourenço Fontes nos deixa na Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso.   

 

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Desenho do Território de Barroso constante na capa (interior) da Etnografia Transmontana I do Padre Lourenço Fontes

 

Tal como disse no parágrafo anterior, ficam as características do povo Barrosão, a transcrição do que consta na Etnografia Transmontana I do Padre Lourenço Fontes, mas acrescento desde já uma nota, o que aqui vai ficar foi escrito (publicado) em 1974, já lá vão quase 50 anos, e nestes 50 anos muita coisa mudou, saímos de uma ditadura, entrámos numa democracia, a globalização ganhou terreno e a educação obrigatória começou a ser uma realidade, mas, pelo menos, essa caracterização do Barrosão que nos é dada pelo Padre Loureço Fonte dá para ficar a conhecer o que era o Barroso e o Barrosão até essa altura.

 

Ao longo desta transcrição vão ficando algumas fotografias nossas sobre o Barroso.

 

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Padre lourenço Fontes no alto da Serra do Larouco

O BARROSÃO E O SEU FEITIO

 

Acolhido nos refegos da serra, ganha robustez, e é de espírito fatalista, a pactuar com o meio em que vive. Sofre grande influência da mulher. «A mulher é terra, o homem o hóspede dela». O Barrosão é de uma passividade procriadora, enorme. Inconformado com a sedentariedade, luta pela sobrevivência.

 

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Nota-se a imposição do mais forte, embora todo o Barrosão tenha grande potencial energético e forte capacidade de vencer, pela força. É agressivo, mas acalmado pela mulher ou amigos. É dotado de muito orgulho, e forte amor à terra e aos antepassados. O torrão Natal, a sua casinha, o seu campo santo, onde repousam os seus, trazem a morrinha e saudade, quando longe da pátria, procura o pão para os filhos.

 

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Deixou o Barrosão de fugir, de caçar, de guerrear, e refugiou-se nas montanhas dedicando-se à pastorícia, sua riqueza de sempre. Por isso o Barrosão é mais pastor, que agricultor.

 

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Houve sempre nesta terra a diferença de classes dos grandes senhores feudais, religiosos, políticos e administradores. Desconfia deles, dos poderes públicos, dos estranhos, fruto deste condicionalismo telúrico. Por ter sido explorado há muito, pelos grandes da terra, o barrosão apresenta o cenho carregado, semblante triste, ar de desconfiado, por recalcamento de desejos de vingança. Aceitou a servidão, como base da sobrevivência. Excepto alguns descendentes de grandes casais, todos iniciaram a sua vida económica servindo um, ou muitos patrões. Veste sobriamente. Pouco muda o trajo. No Inverno, mais roupa, menos no Verão. Come pouco. Deficiente alimentação está a justificar muitas doenças. A mortalidade infantil é das mais altas nesta região, não só por falta de assistência médica, mas por falta de higiene, má alimentação e pouco cuidado com os primeiros meses de vida da criança. Há muito filhos zorros, filhos da curiosidade, sem pai, dizem. No entanto as mães e filhos aceites na sociedade comum, sem diferença.

 

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Falta-lhe maturidade, senso crítico, que cria por vezes injustiças sociais, que traz ídolos e vítimas. Sente-se por vezes ludibriado; é repentista, espontâneo, violento, raramente de acções premeditadas. Sofre pressões de vário género. Encara o crime a cada passo, como uma evasão a que já está habituado, à prisão. Numas aldeias mais que noutras, é vulgaríssimo o crime, em que o Barrosão está sempre pronto a assinar a sua própria destruição. Vive numa sociedade fechada, em pequenos grupos, sem influência doutras terras. Há monotonia na vida, no comer, no amor, no trabalho, em tudo até no espírito politeísta que os domina. Tem preferências afectivas. É frequente ver louvado o erro, o crime, o mal. Os casamentos com consanguíneos e o alcoolismo provocam taras frequentes. A mulher envelhece no espírito e até no corpo, muito precocemente e trabalha no duro campo com os homens.

 

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O Barrosão solidariza-se com os da terra ou família ou clan, em face de qualquer necessidade ou conveniência. Numa festa, num barulho, num incêndio, na tropa, na guerra, na emigração, o Barrosão une-se aos Barrosões. Não se deixa dominar pela força.

 

São características as feições do Barrosão. Sua fácies típica nota-se e distingue-se. São diferentes do minhoto, do homem da ribeira.

 

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Cada terra tem até um tipo de pessoa diferente de todas. Dizemos: parece de Pitões, é de Parada, é de Ponteira, é de Salto, é de Solveira, é de Gralhas, etc. Até o dialecto é diferente. Vila da Ponte, Viade, Fervidelas, Reigoso, têm uma maneira de falar, diferente do resto do concelho de Montalegre e Boticas. Omitem vogais. Dizem alquere, era, fera, em vez de alqueire, eira, feira. Dizem médo, por medo, etc.. Vilar, Meixide, Soutelinho falam doutra forma.

 

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O nosso homem é bom pagador. Não vai para a cadeia por roubar. Antes por matar, que por ladrão. É honrado, afável no trato, tem espírito de sacrifício, muito grato ao mais leve favor, inteligente e capaz de ir longe se for promovido. Não se alheia da terra-mãe, adapta-se a qualquer arte ou ofício.

 

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Não podemos esquecer a maior das nossas virtudes: a hospitalidade. A comprovar podemos ver o paço de Vilar de Perdizes, hospital de peregrinos de Santiago de Compostela. As nossas portas estão sempre abertas, nem têm chaves, nem de dia, nem de noite. Se alguém bate à porta ouve logo: entre quem é. E franqueia-se tudo: a casa, a caneca do vinho, o presunto delicioso, o melhor que tenhamos é para quem nos visita. Tem razão o poeta Alexandre de Matos ao dizer:

 

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As terras de Trá-los-Montes

Inda que a vida vá torta,

Todos encontram poisada!

Passante que bate à porta

E brade rijo: — ó da casa! —

Ouve de dentro: — lá vai…

Sente gente por-se a pé,

Saltar do catre num ai,

Ir acender a candeia,

Ao fogo vivo da brasa…

Alçar a barra da tranca,

Abrir a porta com fé,

E convidar, em voz cheia,

Estremunhada, mas franca:

Faz favor… entre quem é…

 

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O homem transforma o ambiente, mas deixa-se impressionar por ele. Por isso há factores que determinam a maneira de ser do homem. Cada cultura dá o seu cunho próprio a cada ser humano. Um desses factores mais vincantes é a situação geográfica, cujos efeitos se estendem desde o carácter e temperamento frio ou quente, à maneira de viver. Estamos no cabo do mundo, entre montanhas, ásperas, íngremes, frias, altaneiras, verdejantes, ora fustigadas por maus ventos, ora cobertas do manto branco da noiva transmontana, a neve. Não é terra de trânsito. Quem aqui vem parar, deixa sinais de costumes e cultura. Estamos isolados, sem influências contrárias ao nosso modo de viver. Vivemos, séculos sós, esquecidos do mundo, sem luz, estradas, telefone. O analfabetismo aqui atingiu o maior grau, não há leitura. Não há avanço na técnica. O arado é o mesmo dos primeiros séculos.

 

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A influência geopsíquica é de ter em conta. O nosso Inverno, longo, enevoado, chuvoso, provoca em nós a morrinha, a saudade. As curvas dos nossos montes, ora altos, ora baixos, amoleceram o nosso temperamento, a nossa falta de decisão e melancolia. Dizemos quando alguém daqui vai para terras de fora: deu-lhe o estranho, a saudade, a melancolia, da ausência do nosso meio.

 

Vemos assim uma estreita intimidade do homem, com a terra em que vive.

 

O factor étnico, ou seja da origem das raças de que descendemos é também dos maiores.

 

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Não podemos esquecer as raças que nos formaram: semítica, céltica, romana, germânica, mourisca e judaica. Não há povos mistos. Os caracteres físicos e psíquicos misturam-se nos indivíduos, segundo os cruzamentos.

 

As nossas manifestações psíquicas são de temperamento ciclotérmico, a impressão funda, reacção lenta, afectação forte, naturalmente reservados. Nisto parecemo-nos aos celtas. A nossa reserva é de carácter introvertido, desconfiado, pela sua hipercrítica. Tende à concentração no interior, no seu lar, na sua aldeia, no seu país. O nosso emigrante barrosão, não se desliga da sua terra, das suas crenças, do seu feitio. Prende-o o culto dos seus entes queridos e oragos, e dum modo peculiar o sentimento da sua propriedade. É uma saudade, que faz gemer a feição dos poetas, é lírica.

 

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Vejamos a estrutura económica-social multicentenária, inalterável, em que se trabalha para viver, prós gastos e prá mortalha. Nada se vende; é tudo para a família e gado. A unidade e comunitarismo da paróquia, em que todos fazemos falta, em que todos somos parentes, da família de sangue e religião, torna-nos mais presos, uns aos outros.

 

O influxo histórico. O povo dos antepassados, é portador inconsciente dum passado não cristão.

 

Os mouros que povoaram a Península são causadores de tudo o resto de lendas e histórias que todos os povos nos legaram. Para o povo só há a história dos mouros e mouras.

 

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A cultura e estrutura eclesiástica, mais que milenária, com seu tipo medieval, monacal, gravou profundos sulcos na formação da nossa cultura popular. Por certo que lutou contra o paganismo das religiões anteriores, mas deixou entre nós o modo de viver e ser que hoje sentimos com feições cristãs. A igreja e o lar eram e foram, muitos séculos, as nossas escolas donde emanaram todos os conhecimentos adquiridos. O sermão da missa fazia competência, com supremacia, sobre o jornal, a escola, ou outra fonte. A igreja, como não podia deixar de ser, foi portadora para nós, de uma cultura centro-europeia.

 

O Renascimento veio divorciar a cultura popular, dos não estudados, da gente da aldeia, da cultura erudita. Acrescentemos a tudo isto a influência do séc. XIX, contrário a todos as tradições.

(…)

 

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E por hoje ficamos por aqui e a ver vamos se o tal post sobre o Barroso fica pronto para o próximo domingo, onde além de todos os Barrosos que descobri, há também o meu Barroso, nem que seja apenas uma versão romântica.

17
Mai18

Parabéns Chaves!

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Fotografia de Filipa Bernardo/Global Imagens in JN 

 

“”PARABÉNS, CHAVES!””

 

 

Deixem-se ser feliz!

 

Aos Flavienses, aos Normando-Tameganos, a todas as GENTES da NOSSA TERRA peço para me deixarem partilhar convosco a consolação que recebi ao tomar conhecimento de um PROFESSOR  a Ensinar em CHAVES ter sido premiado pela sua competência, dedicação e criativade pedagógicas.

 

E acrescentar que sinto dever associar ao sucesso do premiado a capacidade intelectual, o empenho e o entusiasmo de aprendizagem dos seus Alunos transmontanos, normando-tameganos, flavienses.

 

Bem, também tenho de vos confidenciar ser eu um apaixonado pela Física, entre outras das minhas maluqueiras nas quais procuro encontrar o sentido e o significado da vida e da minha relação com Outro.

 

Para além da pequenina satisfação (ainda muito desconfiada) de saber que a actual vereação camarária anda a disfarçar pobremente os crimes, as patifarias, as cretinices dos seus antecessores dos últimos decénios; do “Desportivo” estar a botar boa figura no Campeonato  de Futebol (merecendo, pois, mais e melhor apoio e reconhecimento de toda a NORMANDIATAMEGANA e «países» circum-vizinhos); da vaidadezinha flaviense à pala do sucesso de, injustamente «discretados», outros atletas, bailarinas e artistas; hoje ando de peito-feito por ver e ouvir o nome de CHAVES escrito e falado nos “media» (média, sim e não a merda  anglicanada, falsa e errada,  de «mídia»!), por um motivo muito positivo, agradável, e até, glorioso!

 

Há, outrossim, muitas e diversificadas notáveis e dignificantes razões para se falar, para se ouvir falar e se ver escrito o nome de CHAVES, de todo e qualquer LUGAR (Vila ou ALDEIA) da NORMANDIA TAMEGANA.

 

No 10 de JUNHO, espero que o Presidente Marcelo tenha a lembrança, ditada por imperativo de justiça, (ainda não lhe chamei «burro com’uma porta!) de agraciar o Padre FONTES!

 

PARABÉNS ao PROFESSOR JORGE TEIXEIRA e aos seus ALUNOS!

 

PARABÉNS, CHAVES!

 

M., dezassete de Maio de 2018

Luís Henrique Fernandes

 

 

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30
Abr17

O Barroso aqui tão perto...

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” não tivemos tempo de preparar mais uma aldeia barrosã para mostrar aqui no blog, no entanto, esta rubrica não é feita só com as aldeias e lugares do Barroso, pois tudo que tem como tema essa região tem também aqui lugar, como vai ser o caso de hoje.

 

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A Intervenção – Associação para a Promoção e Divulgação Cultural, com sede em Chaves, desde há 10 anos que tem dedicado a sua intervenção na realização de congressos internacionais de Animação Sociocultural e na publicação de livros, contando no momento com 16 congressos realizados e mais de 20 livros publicados.

 

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Neste fim-de-semana ( de 28 a 30 de Abril), em Ponte da Barca, a Intervenção levou a efeito mais um Congresso Internacional, este subordinado ao tema “Animação Sociocultural: Turismo Rural e Desenvolvimento Comunitário”, no qual participaram mais de 40 especialistas/conferencistas nacionais e estrangeiros, dois dos quais barrosões que também eles Animadores, têm marcado presença nestes congressos. Refiro-me ao Padre Lourenço Fontes e ao Professor Doutor Carlos Fragateiro que proporcionaram ao congresso uma conversa com a seguinte abordagem: a organização de eventos, congressos de medicina popular, as sextas-feiras 13, a animação sociocultural, o teatro religioso, a intervenção comunitária e o empresário turístico no espaço rural com o projeto Hotel Rural de Mourilhe. Em suma, dois barrosões em conversa que se tornaram naturalmente em embaixadores do Barroso,  onde o Turismo Rural e o Desenvolvimento Comunitário estavam a ser debatidos. Ouro sobre azul.

 

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Uma vez que também nós estamos envolvidos nestes congressos, não resistimos ao registo em imagem dessa conversa entre dois barrosões e a partilhá-las aqui neste espaço dedicado ao Barroso, mas também a imagem de um encontro entre o Barroso com o Padre Lourenço Fontes e o Nordeste Transmontano com um careto/diabo.  

 

 

 

13
Mar16

O Barroso aqui tão perto... Vilar de Perdizes/Padre Fontes

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Cá estamos de novo no Barroso de Montalegre. No último fim de semana não passámos de Meixide que, para quem vai de Chaves, é a primeira aldeia do Concelho de Montalegre, logo a seguir a Soutelinho da Raia. Aliás Soutelinho é a aldeia mais próxima de Meixide e esta, a mais próxima de Soutelinho da Raia. Apenas uma curiosidade.

Vamos então deixar para trás Meixide com a promessa de lá voltarmos, tudo porque apenas tenho imagens desta aldeia com neve, junto à estrada, pois como o nosso destino geralmente é sempre mais além e os nossos regressos são sempre tardios, a aldeia tem-se esquivado à nossa objetiva, mas num destes dias não escapa, a paragem está prometida.

 

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Logo a seguir a Meixide temos de tomar a nossa primeira grande decisão, pois a estrada divide-se em duas opções para chegar a Montalegre, quer via Pedrário, quer via Vilar de Perdizes, vamos lá dar. Há muito que a minha opção é via Vilar de Perdizes para fazer o regresso via Pedrário. Assim, hoje, também é por Vilar de Perdizes que vamos e por lá ficaremos, aliás muitas das vezes é mesmo o nosso destino.

 

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Se o Barroso fosse um colar de pérolas, Vilar de Perdizes seria uma pérola desse colar. Razões, muitas, desde as ligadas à história, à arqueologia, à raia, às lendas, mas sobretudo e para mim com mais valia, a comunidade em si composta pela aldeia (casario) e as pessoas que a habitam, em suma, o povo/povoação.

 

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Padre Lourenço Fontes no alto da Serra do Larouco acompanhando Professores da UTAD e Animadores Socioculturais

 

Voltando outra vez ao Barroso colar de pérolas e a Vilar de Perdizes ser uma das suas pérolas, todos os colares têm uma pérola principal, a maior, mais vistosa, a que ocupa o centro do colar e, também para mim, essa pérola principal está, ou vive, em Vilar de Perdizes e dá pelo nome de Padre Lourenço Fontes. Tanto assim é que me atrevo a dizer, sem qualquer pudor, que o Barroso tem duas épocas, a APF e a DPF em que a primeira é Antes do Padre Fontes e a segunda, Depois do Padre Fontes. Padre, Etnólogo, antropólogo, historiador, guia turístico, é de tudo um pouco, mas sobretudo é um grande Animador Sociocultural que abanou o Barroso e o despertou para constar no mapa de Portugal com letras grandes. No fundo e na realidade, despindo-o de todos esses rótulos, o seu segredo está em ser um Homem simples, do povo, que o ama e tem orgulho nele, que ama o berço e o enaltece partilhando com todos, a sua história, os usos e costumes, saberes e sabores de um povo, mas também as crenças e mezinhas que curavam todos os males de uma terra que sempre foi agreste e difícil de viver, terra fria onde o frio além de congelar, doía.

 

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Padre Lourenço Fontes no miradouro da Corujeira em Montalegre acompanhando Fotógrafos da Associação Lumbudus

 

Curiosamente vamos associando o Padre Lourenço Fontes como um Barrosão de Vilar de Perdizes quando na realidade ele é natural de Cambezes do Rio. Melhor, penso eu, será dizer que ele é filho e natural do Barroso. Para a história, além de uma basta obra publicada ficará o Padre que afrontou a Igreja com os “Congressos de Medicina Popular” e o Padre das “Noites das Bruxas” que desde 2002 acontecem em Montalegre em todas as sextas-feiras 13 e o Ecomuseu de Barroso que o Município de Montalegre atribuiu o nome de Espaço Padre Fontes, como um espaço de memória do Barroso. Para quem o conhece, é um Homem simples, divertido, amigo e sempre pronto para enaltecer e dar a conhecer o Barroso.

 

 

 

27
Set15

Padre Lourenço Fontes e o Barroso

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Uma das vistas desde o topo da Serra do Larouco

Como sempre aos fins-de-semana trago por aqui o nosso mundo rural, geralmente o flaviense. Desde há muito, também, que para mim Chaves não se limita aos seus limites geográficos de concelho. Entendo antes uma pequena região à qual me sinto pertencer e sinto ser a “minha terra”, composta pelos concelhos vizinhos, incluindo os galegos, e só depois é que vem o restante reino maravilhoso de Trás-os-Montes. Digamos que este meu pequeno território é uma pérola no meio do tal Reino Maravilhoso. Tudo isto para dizer que o meu mundo rural que hoje trago aqui é o do Barroso, mas não só, pois também o Padre Lourenço Fontes tem, hoje, aqui assento.

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Padre António Lourenço Fontes

Pois tudo começa num Congresso de Animação Sociocultural em Murça, no qual o Padre Fontes, também ele um Animador Sociocultural, participou e onde a organização do congresso programou fazer-lhe uma pequena homenagem passando um dia com Ele no seu Barroso. Esse dia foi marcado para 25 de setembro (ontem) e alargado a todos os que quisessem participar. Claro que nem que fosse só por ter o Padre Lourenço Fontes com cicerone e homenageado, uma enciclopédia viva sobre o Barroso, não poderia faltar a este encontro/homenagem, mas também porque sabia de antemão que iria ser um dia bem passado, em boa companhia e na qual iria aprender e conhecer mais um bocadinho do Barroso, como sempre acontece quando temos por companhia o seu embaixador Padre Fontes.

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Padre Loureço Fontes explicando os frescos da capela de N.Srª das Neves em Vilar de Perdizes

O programa era simples e feito à medida de um dia. Claro que tinha de começar por Vilar de Perdizes, terra onde o Padre Loureço Fontes inicia a sua grande divulgação do Barroso: com os autos religiosos, os congressos de Medicina Popular, os jogos populares, etc. Esta foi a terra onde durante meio século o Padre Fontes foi pároco, animador sociocultural, psicólogo, médico, conselheiro…) muito antes ainda de dar luz às sextas-feiras 13 da Vila de Montalegre.

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Rocha em pleno Larouco - A cabeça do cão perdigueiro português

Após a visita a Vilar de Perdizes havia que subir ao Larouco, mas antes havia que visitar o autódromo de Montalegre (já na serra do Larouco) onde à tarde iria decorrer o uma prova do Campeonato Nacional de Ralicross/Kartcross e só depois a subida, sempre comentada que nos ajuda a descobrir a cabeça do cão perdigueiro a caminho do ponto mais alto da serra atingidos aos 1535 metros de altura, de onde tudo se vê e se está mais próximo do céu. Topo também dedicado ao desporto com duas pistas de parapente e nos dois últimos anos final de etapas da Volta a Portugal em Bicicleta.

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Grupo que subiu ao topo ponto mais alto do Larouco - A vaidosa já lá estava

Após o desfrute das alturas do Larouro a inevitável descida para visitar Montalegre e o seu EcoMuseu, o castelo e as ruas do centro histórico de Montalegre.

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Torres do Castelo de Montalegre

O suficiente para se poder chegar à Aldeia de Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado) para um almoço dos diabos. E o assombro deu-se com aperitivos: ferradura afumada, presunto dependurada na lareira do inferno, caldo de urtigas malditas, pão que o diabo amassou, vinho excomungado da terra santa, seguido de vitela embruxada acompanhada com batata com murro da bruxa branca. Para sobremesa: Rabanada com mel de bruxa voadora, café negro como o diabo e quente como o inferno. Doce com mel. Licor e chá levanta o pau do diabo. E o programa poderia terminar aqui que já terminava mais que bem.

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Entrada no Hotel Restaurante Rural de Mourilhe para um almoço dos diabos...

Mas embaixador que é embaixador tem de cumprir os seus nobres desígnios de representar e oferecer a sua terra, para além de o corpo pedir mesmo algum exercido para amaciar um almoço embruxado. Uma visita ao convento de Pitões das Júnias caia na perfeição numa pequena viagem comentada pelo cicerone Padre Fontes.

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Alguns participantes assistindo a uma aula do Padre Fontes - Pitões das Júnias

Convento de Pitões, há muito abandonado e maioritariamente em ruínas mas que mesmo assim é digno de ser apreciado, principalmente pela sua envolvência e por poder ser apreciado quer envolto nas suas ruinas quer do cimo do anfiteatro natural de onde se pode apreciar todo o conjunto. Já lá fui umas dezenas de vezes e volto lá sempre com a curiosidade e ansiedade das vezes primeiras. Há magia naquele local.

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Vista geral do Mosteiro de Pitões das Júnias

Para rematar, ou quase, faltava mesmo qualquer coisinha para melhor digerir o almoço dos diabos. Nada melhor que uma queimada de aguardente devidamente “rezada”, de novo em Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado).

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Padre fontes a elaborar a queimada de aguardente

E foi assim, um resumo bem resumido de tudo que se passa na companhia do Padre Lourenço Fontes, um embaixador do Barroso. Em conversa com um dos docentes da UTAD que se juntaram a esta homenagem, concordámos em que o Barroso ficará para sempre marcado por duas épocas, a do antes Padre Fontes e a do depois Padre Fontes.

 

 

 

22
Jun14

Moure - Uma aldeia do mundo rural flaviense

 

Os que por aqui vêm com regularidade sabem que aos fins de semana as aldeias têm de marcar presença neste blog, contudo não é de todo muito fácil cumprir essa promessa, pois para as trazer aqui tenho que, com alguma antecedência, passar e estar nessas mesmas aldeias. É certo que não há aldeia do nosso concelho onde eu ainda não tenha estado e lamento, mas lamento mesmo, mas mesmo muito, que das primeiras vezes em que fui às nossas aldeias não tivesse então uma câmara fotográfica para fazer alguns registos, os de então, e não vai lá muito tempo, pois as minhas primeiras incursões pelo mundo rural flaviense aconteceram nos anos 70 do século passado.

 

 

Para a História 30 ou 40 anos nada significam, principalmente quando a nossa História é milenar e tão rica em acontecimentos importantes, mas a par dessa História milenar e rica de grandes acontecimentos há toda a História de um povo que ninguém conta nem cabe nos livros História.  Há dias, aquando do encontro de fotógrafos Lumbudus em terras do Barroso tive oportunidade de, no Ecomuseu do Barroso, comprar uma suposta segunda edição do livro Negrões – Memória Branca, com fotografias de Gérard Fourel e textos de Gilles Cervera. As imagens são impressionantes, mexem connosco e fazem toda a tal História que não cabe nos livros de História. Trago aqui o exemplo deste livro porque o mesmo é feito com imagens de há trinta e tal anos atrás, do tempo em que eu não tinha câmara fotográfica, mas que ainda retenho na memória imagens idênticas.

 

 

 

Claro que em trinta e tal anos as nossas aldeias não se modificaram assim tanto e ainda é possível entrar por elas adentro e encontrar muitas das casas, ruas e lugares de então, pois é, mas a grande diferença é que então, há trinta e tal anos,  era quase impossível tomar uma imagem numa aldeia onde não aparecessem pessoas, crianças ou velhos,  ou galinhas, ou cães, ou vacas, ou burros ou até mesmo tudo isto numa só imagem (as imagens de Gérard Fourel são um testemunho disso), hoje, na maioria das nossas aldeias, entra-se, está-se e sai-se sem encontrar alma viva. E regresso ao livro de Gérard Fourel, ao prefácio da primeira edição, onde o Padre Fontes a alturas tantas dizia: “ (…) São assim mansas, ainda que negras, enlameadas, solitárias e submergidas as aldeias transmontanas. Esta quietude bíblica, pastoril, onde o tempo caminha a passo de caracol, onde nem crianças nem velhos sabem quanto anos têm, e todos sorriem à chuva, à neve, à nudez, criando para si este mundo de granito, a desafiar os séculos. E esta terra e esta gente que deslumbra a alma do poeta, do artista, do guloso fotógrafo que tenta guardar na retina da película o prato suculento, estendido na toalha branca da natureza nevada, ou negra pela lama e chuva. Hoje seremos únicos no mundo, mas foi assim (…)” Pois é, mas foi assim, era assim, mas já não é, já não há história para contar a jeito de gente de crianças e velhos sem saberem a idade. Já agora um aparte, aparte da história de hoje – A segunda edição do livro Negrões – Memória Branca, embora aumentada, está muito mais pobre sem as sábias palavras do prefácio do Padre Lourenço Fontes, que, vá-se lá saber porque, não constam nesta segunda edição.

 

 

Pois as imagens de hoje (tomadas ontem) vão de encontro àquilo que por aqui disse. Nem crianças nem velhos nas ruas, pitas e cães nem vê-los, uma estação abandonada que faz as memórias e um comboio que há 30 anos ainda lá parava, pinturas de vende-se por tudo que é sítio e, curiosamente, umas vistosas e novas placas toponímicas colocadas nas ruas e portas de casas abandonadas, não vá alguém perder-se nas poucas ruas desertas. Valha-nos a natureza que contra tudo e contra todos insiste em nascer e renascer para nos dizer que a beleza, embora selvagem, ainda existe.

 

As imagens de hoje são de Moure, aqui a meia dúzia de quilómetros de Chaves, uma aldeia que por sinal é bem simpática com olhares lançados para poente e para o Rio Tâmega cujo sussurro o silêncio da aldeia deixa ouvir, que ainda tem alguma vida (eu sei) mas que de todas as vezes que por lá fui nos últimos anos insiste em não sair à rua.       

 

 

25
Mai13

Emcerramento do I Congresso Internacional de Animação Sociocultural - Gerontologia e Geriatria

Conferência de Encerramento do Padre Lourenço Fontes

 

Capa do livro do Congresso

 

Encerrou hoje em Boticas o I Congresso Internacional de Animação Sociocultural – Gerontologia e Geriatria. Claro que quando estes assuntos são tratados em congresso por especialistas, as conclusões são sempre positivas e novos horizontes são abertos na resolução dos problemas e temas debatidos. Seria impossível trazer aqui todas as intervenções e mesmo as conclusões, e depois elas estão todas reunidas em livro, mas há uma intervenção que quero deixar aqui na íntegra, não só pelo seu autor ser uma autoridade aqui na região, a nível nacional e internacional, mas também por ser feito de toda uma cultura vivencial  no terreno junto e entre a nossa gente. Refiro-me ao Padre António Lourenço Fontes e à sua conferência de encerramento deste Congresso Internacional intitulada “O Envelhecer nas Terras do Barroso” que, com a devida vénia e autorização do autor de seguida reproduzo[1] :


Padre Lourenço Fontes


Envelhecer em Barroso  


Há uma arte de envelhecer, viver com regras ditadas pela tradição, da sabedoria popular barrosã. Vamos dar uma olhadela aos ditos e provérbios que andam de boca em boca e marcam a conduta geral de novos e velhos. Já que ditos velhos são evangelhos.


São muitos e valiosos os valores positivos,  apreciados pelas famílias dos nossos idosos e pela sociedade que os rodeia.


Velhos são os trapos, para dizer que ainda tem muito para dar. Quem de novo baila bem, de velho jeito lhe tem. Bailar cantar faz bem: quem canta seu mal espanta. Gostam de contar, cantar, rezar, ser ouvidos, orgulham-se até do sofrimento passado. Dizia uma idosa desgostosa da vida de emigrante: en France rien chante, au Portugal, tout le monde chante.


É triste ser velho, dizem em desabafo. Um velho triste é um triste velho. Para muitos é a única idade que não se recorda, nem deixa saudades. Bocage escrevia: já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento…


São o equilíbrio e estabilidade da família, pelo saber de experiencia feito. Os avôs são pais duas vezes, além da genética, passam a tradição, a cultura barrosã, os contos, as lendas, as artes e ofícios, as rezas e mezinhas, a medicina ervanária, o cancioneiro e jogos infantis, a religiosidade popular, aos netos. Sentem-se válidos, com gosto e ilusão pela vida. Quem corre por gosto não cansa.




Têm o seu lugar de destaque na família, na mesa, e na comunidade da aldeia e é cabeça de casal, representa a família, conforme as posses ocupa o seu tempo, na agricultura, vai coas vacas, apoiado no cajato, com a rês, leva o burro a comer, vai à erva para os porcos de ceva, torna a água aos lameiros, vai à feira e as festas da sua devoção, cumpre promessas aos santos, vai aos velórios e funerais, cuida das campas dos seus.


 O velho tinha razão. Atrás de mim virá, quem bom de mim fará. Serve de consolação para os mais velhos quando,  reconhecidos. O velho e o menino vão para onde lhe fizerem carinho.


Envelhecer e viver no mundo rural Barrosão, na casinha pobre, mas cheia de memórias e vivências, com o seu pé-de-meia, a reforma poupada, para o fim da vida, ou para amimar filhos e netos, com nova ou velha profissão, prolonga a vida e dá-lhe sabor.


Hoje o telefone, substituiu as cartas, muitos não sabem ler.  O Ipad com o skype, facebook aproxima os avós dos netos e filhos distantes mantendo a proximidade e companhia, se iniciados e ensinados a descobrir esta nova tecnologia.


 Gosta de regressar vivo ou morto ao seu torrão natal, onde é estimado, chorado e sufragado, onde repousam os antepassados. Ruim é o pássaro que não volta à sua ribeira.  


São os idosos os mais resistentes povoadores, animadores e defensores enraizados, heróis vencedores, combatentes na agricultura, defesa do ambiente, educadores, moradores, conservadores de cultura popular, jogos, medicina, religiosidade popular, que merecem carinho, dedicação, atenção, na esperança de um futuro promissor de bem-estar com a natureza, a família. Em aldeias desertas restam eles guias turísticos, de rostos e mãos enrugadas, alvos de fotógrafos e cineastas, jornalistas. São enciclopédia aberta, inédita, neste Barroso  antigo, velho, paraíso a descobrir.


Cada idoso que morre é uma biblioteca que se enterra, e perde, se não for registada. Mais velho que a sé de Braga, diz-se para valorizar o saber do idoso. O diabo sabe muito, porque é velho



ASPETOS NEGATIVOS


A ameaça de maus tratos, a doença, a solidão, o abandono, a pressão para fazer testamento, escritura, doação, ou venda de bens, o perigo da braseira, de caírem ao lume de morrerem sem amparo, são muitas vezes pressões que aceleram o fim, o desgosto de viver, lágrimas de desconforto. Chegam a pedir a Deus que os leve, desabafam dizendo que são um estorvo, que já não servem para nada.


O que o berço dá a tumba o leva. Acabadas as obras da casa diz-se: ninho feito, pássaro morto. Velho mudado é velho enterrado. Alguns mudam cada mês, andam à roda pelos filhos, ou estranhos, muitas vezes no estrangeiro desgostosos, fechados, onde não conhecem nada e ninguém. Pedra mudada não cria musgo. Nem sempre se adaptam ao novo ambiente, às noras, ou sogras.   Filhos criados, trabalhos dobrados . São muitas vezes os únicos moradores na aldeia, no bairro.


Lembramos a lenda do filho que leva o velho ao monte e ao deixá-lo lhe dá a capa, o velho lhe diz: leva metade da capa, para quando fores velho te trouxerem para o monte.  Filho és pai serás como fizeres assim toparás. Casa de pais, escola de filhos. Cada um sair aos seus não é pecado.


Quem faz testamento, antes que morra, merece com uma cachaporra. Os novíssimos do velho são 4: Muita tosse, pouca posse, pingar-lhe o nariz, não saber o que diz. Cabra manca não tem sesta, e se a tem pouco lhe presta. Burro velho, erva tenra. Burro velho não aprende línguas. Burro velho não toma andadura e se a tem pouco lhe dura. Velhos ao canto.  Homem velho, mulher nova, filhos até à cova. Casamento e mortalha no céu se talham.


Em toda a Europa na terceira quarta da quaresma serrava-se a velha, avó. Em Vilar de Perdizes mantemos o ritual que consiste num cantar um responso em latim de noite à porta das avós, terminando com ruídos de latas, serras, gritos. Em Tourém é de dia que os rapazes da escola vão atormentar cada velha ate lhe darem uma pouca de palha que simboliza a velha e vão queimá-la com barulho de muitos chocalhos que abanam com gritos e choros: minha velhinha... Em S. António de Monforte os homens fazem sair de casa as avós, que vão todas juntas pela manhã passar o dia fora da aldeia, no monte Pitorca, só regressando à noite.


Muitos são vítimas do abandono dos filhos, emigrados ou não. É melhor ser cão na vila, que velho em muitas aldeias, criticam algumas famílias. Outros ficam-lhes com as magras reformas, em troca ou promessa de cuidados, usando as economias dos pensionistas para combater a crise atual e o desemprego de filhos e netos.


O cancioneiro Barrosão está cheio de romances, cantigas referindo-se aos defeitos e valores do idoso.

 

Hei-de amar-te até à morte

Até depois de morrer,

Até debaixo da terra,

Meu amor podendo ser.

 

Do tempo que já passou

Do tempo que já  lá vai.

Minha mãe já se não lembra,

Quando namorou meu pai.

 

Eu  casei-me com um velho

Hei-de me fartar de rir

Fiz-lhe a cama alta

Onde não possa subir.

 

Casei-me com uma velha

Por causa da filharada.

Pega o diabo da velha

Traz-me dez duma ninhada

 

Minha sogra morreu ontem,

O diabo vá com ela.

Deixou-me a chave da adega

O vinho bebeu-o ela…

 

Eu hei-de morrer cantando,

Já que chorando nasci

Não tenho porque chorar

Chore o diabo por ti.

 

Bocage poeta de sonetos brilhantes, confessou:


“Já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento… eu me arrependo…. Oh se me creste gente impia, rasga meus versos crê na eternidade.


Citando Camões, grande Camões…só terei paz na sepultura.

 

Padre António Lourenço Fontes



[1] As imagens de ilustração são da responsabilidade do blog

 

 

22
Dez09

Petição "Padre Fontes"

Foto de Gaspar Jesus

 

Chegou  à minha caixa de correio electrónico um mail a anunciar uma petição online  intitulada “Padre Fontes”, onde na mesma consta o seguinte texto:

“Os abaixo assinados, conhecedores das relevantes iniciativas e actividades que, ao longo de toda a sua vida, o Padre António Lourenço Fontes, de Vilar de Perdizes, levou a efeito em prol da defesa das tradições sociais e culturais de Trás-os-Montes, em geral, e dos usos e costumes de Barroso, em particular, atraindo meios académicos e mobilizando a imprensa nacional e internacional para dar visibilidade à sua região, contribuindo assim para a recuperação, preservação e desenvolvimento turístico e económico das comunidades locais, estão convictos de que seria justo e merecido que o Exmo. Senhor Presidente da República lhe atribuísse um dos graus das Ordens Honoríficas Portuguesas como forma do reconhecimento da Nação e do Estado para com quem “por obras valerosas se vai da lei da morte libertando”.

 

Independentemente  de pessoalmente achar que as tais “Ordens Honorificas” da Presidência da República a maior parte das vezes não passarem de puro folclore da cagança nacional, assinei e publicito esta petição pública por achar que o Padre Fontes é um verdadeiro merecedor de qualquer homenagem que lhe seja feita, porque com a sua simplicidade de barrosão mas também de padre, elevou e publicita Montalegre, o Barroso e não só,  aos parâmetros nacionais com aquilo que a região de mais puro tem: as suas crenças, usos e costumes, mas também valorizando e aceitando a fé para além do institucionalmente aceite (ou correcto).

 

Convenhamos também dizer que por trás do Padre Fontes há um povo e uma autarquia que acreditou e valorizou os seus projectos.

 

A petição online, para o caso de a querer assinar,  está aqui:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=PF2010

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