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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Mar20

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

 

Resistir para transformar

 

Em tempos difíceis, todos temos de desempenhar múltiplas funções. O enquadramento humanista deve estruturá-las a todas. Ficam dois textos distintos, um em que, como médico, abordo directamente a situação que estamos a viver. Outro em que escrevo alguns poemas sobre as mãos. Aquelas que temos de lavar uma e outra vez, mas nunca como Pôncio Pilatos. Mãos que servem também para escrever e para tanto mais como procuro deixar nestes poemas.

 

 

As responsabilidades de cada um

 

Os dias actuais são de grande preocupação perante a actual pandemia de Coronavirus (Covid-19).

 

É altura de cada um assumir as suas responsabilidades, modificar comportamentos, informar-se e informar. Sem pânico, mas respeitando uma situação grave.

 

O quadro é muito sério no Mundo, na Europa e também em Portugal. mas é possível controlar a situação e ultrapassarmos esta "curva apertada".

 

A China é a prova disso. Há um mês atrás, a sua situação parecia descontrolada. Mas, com o empenho das autoridades, dos profissionais de saúde, e de cada um dos chineses, estão actualmente a ultrapassar a situação. Para isso foi preciso investir, construir e equipar hospitais em tempo recorde, mobilizar meios humanos e materiais. Foi indispensável disciplina e persistência em larga escala. Houve empenho e respeito pelo outro.

 

É importante que rapidamente reflictamos somos a estratégia implementada, porque ela funcionou. A taxa de mortalidade da infecção por Coronavirus é mais baixa do que aparentam os terríveis números de Itália. Muito provavelmente em Itália não foi feito um despiste em larga escala na população. Já na Coreia do Sul, onde esse despiste foi feito, a taxa de mortalidade parece ser 5 a 10 vezes menor do que a de Itália.

 

De qualquer forma, o cenário de atingirmos milhões de infectados na Europa é o mais provável. mas tal não é motivo para desistirmos de controlar a propagação do vírus. Assim a contenção nos contactos físicos, o respeitar a "etiqueta respiratória" em relação à tosse e aos espirros, evitar contactos próximos para além do estritamente necessários é importante.

 

E lavar as mãos frequentemente, com água e sabão, lavar as mãos, lavar as mãos... (ou desinfectá-las com solução alcoólica).

 

Em Portugal temos um população muito envelhecida e debilitada, parte importante dela em lares de terceira idade. Serão eles principalmente os mais frágeis perante a contaminação.

 

É necessário ouvir as recomendações da Direcção Geral de Saúde (DGS) e também é importante que estas recomendações sejam adequadas à situação e sejam feitas no momento certo.

 

É importante que a DGS ouça os profissionais de saúde que estão no terreno.

 

Os profissionais de saúde tem de ser protegidos, pois eles são indispensáveis neste processo e são também os mais expostos ao risco de contaminação.

 

Felizmente temos um Serviço Nacional de Saúde (SNS), que apesar da desnatação e do empobrecimento que sofreu nos últimos anos, é público, está ao serviço de todos e permite uma articulação directa com as estruturas de decisão política em saúde.

 

O nosso SNS tem profissionais tecnicamente competentes, de uma grande dedicação e com grandes qualidades humanas. É necessário dar-lhes meios materiais e financeiros, de forma a uma rápida decisão e uma rápida actuação. A situação vai ser crítica, provavelmente, na área dos cuidados intensivos, onde a resposta poderá estar limitada por falta de instalações, de equipamentos e de recursos humanos Tal era o alerta há muito tempo dos profissionais de saúde, dos sindicatos de médicos e de enfermeiros e da própria Ordem dos Médicos.

 

Mas o SNS tem de responder ao mesmo tempo a todas as outras necessidades de saúde da população, adaptando-se, como é evidente, a uma situação de excepção. Senão muitos serão os sofrimentos e muitas serão as mortes mesmo daqueles que não contactarem com o vírus.

 

As responsabilidades são também do lado do Governo não pode haver mais atrasos na definição de estratégias. Não pode haver mais erros. Tem de haver um ágil, rápido e eficaz apetrechamento a todos os níveis dos hospitais públicos. As cadeias de comando têm de incluir profissionais com experiência e com capacidade de liderança. Temos de saber ouvir de saber esvaziar conflitos desnecessários, porque esta vai ser uma maratona, não vai ser um sprint.

 

 Há muito que eu e outros temos alertado para os perigos do enfraquecimento do SNS.

 

Agora não há margem para adiamentos.

 

Mas o período que atravessamos não é para divergência, é para convergência. Na sociedade tem de predominar a solidariedade e o humanismo. E estou convicto que não vamos falhar.

 

 

 

As Mãos (1)

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

 

As Mãos(2)

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pro vento

 

 

As Mãos(3)

 

Há mãos pra sonhar

E pra proteger

Mãos para encantar-me

Ao adormecer

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinho

 

 

As Mãos(4)

 

Vidas miseráveis

De dedos que sofrem

Das mãos que são hábeis

Toquem no que toquem

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medo da morte

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

28
Fev20

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Os rios começam a anunciar a pesca...

Como quando chove , crescem os poemas que nascem dos rios

Alguns transbordaram para este blog, outros chegaram ao mar...

 

1600-Segirei (42).jpg

 

 

Ao meu pai

 

No palácio , em Segirei ,tudo é singelo

Abertas as portadas a nascente

Aceso o lume e morto o vitelo

A baixela já limpa e reluzente

 

Aprumam-se os amigos em abraços

Afina-se a orquestra novamente

Aguardam-se os heróis que em largos passos

Regressam de pescar no rio Mente

 

1600-(30655)-pite.jpg

 

 

Pesca

 

Para todo aquele que pesca

Toda a chuva é uma festa

Água que vem lá de cima

De um rio que não termina

 

Baptizado universal

Para quem nunca pe(s)cou

É a vida ao natural

Dum pe(s)cador como eu sou

 

1600-s-goncalo (107)-pite.jpg

 

 

Não há mar

 

Sou apenas daqueles

Que conhecemos rios

Que desaguam nas serras

Sem nunca se confundirem com o mar.

 

1600-furadouro (193)-pite.jpg

 

 

O meu Mar

 

O mar mais que uma promessa

Ele é túmulo ele é cama

Daquele que nele adormece

Ou doutro que nela ama

 

De quem lá vai trabalhar

Ou de quem brinca a pescar

Há mar no fim do amar

Podes amar-me sem mar?

 

E não há mar sem maré

Sem água que volte e vá

Ora perdemos o pé

Ora a água já não está.

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

24
Jan20

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

"Me está doliendo una pena"

 

Morreu Patxi Andión, cantautor basco, companheiro das solidões da minha adolescência. Uma companhia que se instalou na minha memória para sempre.

 

Foi um cantautor peculiar, não alinhado, com uma voz grossa "abagaçada", mas era um poeta notável.

 

Só uma vez o ouvi ao vivo, na Casa da Música no Porto, e foi tão bom. Emocionou-nos a todos quando cantou " el maestro", uma lindíssima e justa homenagem a todos aqueles professores que ensinaram as primeiras letras às crianças do interior de Espanha, tão iguais às do interior de Portugal, quando ambos os países estavam sob regimes fascistas. Da importância dos professores para combater a desigualdade de oportunidades e abrir os sonhos aos mais jovens.

 

Mas é na canção "Me está doliendo una pena", que está uma das forças maiores de Patxi Andión.

 

Me está doliendo una pena

 

Y no la puedo parar

y se revuelve en silencio

tumba abierta en soledad

y quiero hacerla cometa

para poderla volar .

Me está ganando esta pena

y no la quiero ceder

y busca por ser palabra

y es por hacerse entender

en brazos de mi guitarra

y la tengo que esconder.

 

Y en mi guitarra quisiera

dejar la pena llorar

hacerla surco en el tiempo

hacerla tiempo en el mar

hacer con la mar un viento

que se la pueda llevar.

 

Me esta doliendo esta pena

acuñada en el portal

de este vacio sonoro

que no sabe adonde va

de este vacio que lloro

por quererlo remediar.

 

Y en mi guitarra quisiera

dejar la pena llorar

romper la monotonía

de este pueblo en carnaval

de este pueblo que me duele

cada día más y más

Y que es una inmensa pena

que me tengo que callar.

 

Me esta doliendo una pena

Y me tengo que callar.

 

E escreveu tantas mais, talvez até outras mais importantes, mesmo para mim, mas agora que ele morreu aos 72 anos, no raio de um acidente de automóvel, foi esta que me veio à memória.

 

E não a calei.

 

E nunca vamos deixar que o calem.

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

 

20
Dez19

O Factor Humano

a questão do lítio

1600-cab-mcunha-pite

 

A questão do Lítio

 

É delicado falar com seriedade, com frontalidade e com serenidade, sobre o tema do lítio na nossa região e em Portugal.

 

Mas tenho um dever cívico de não " lavar as mãos" em relação a este assunto.

 

Todos concordaremos em que o conhecimento das nossas riquezas e dos nossos recursos é uma obrigação do Estado e de todos os cidadãos. Portanto não nos deve confundir que saibamos que temos importantes reservas de lítio e onde elas estão localizadas. Mais ainda, é urgente que o Estado tenha capacidade para fazer as prospecções necessárias no estrito respeito pelo ambiente e pelo direito das populações.

 

Na actualidade e nos tempos mais próximos, as necessidades de lítio serão crescentes, em especial para a construções de baterias que permitam o armazenamento de energia, por exemplo nos automóveis eléctricos, mas não só.

 

Também sabemos que tal pode permitir reduzir a poluição e a emissão de gases, com efeito de estufa, atenuando as tão temidas alterações climáticas.

 

Assumidas então estas posições, os portugueses e em especial e em particular os que vivem nas zonas de potencial exploração, exigem ao Estado, que este acautele os seus interesses e os seus direitos. Necessitam de clareza e de informação profunda e sincera sobre todos os impactos que a prospecção, a exploração e o processamento do lítio acarretarão.

 

Necessitam de frontalidade e que não se oculte nenhum dos aspectos negativos, porque eles serão seguramente muitos.

 

Necessitam de estratégias de compensação, multifacetadas e fiáveis.

 

Necessitam de confiar no Estado como garante profundo de direitos que não podem ser violados.

 

Para tal é indispensável que as populações sejam ouvidas para que melhor se percebam as suas angustias e as suas preocupações; as suas exigências e as suas reivindicações. Também para que possam ser esclarecidas com detalhe.

 

É importante que haja " linhas vermelhas" em termos de meio ambiente e de saúde e que as populações sintam que o Estado zelará para que elas não sejam ultrapassadas. Que não restem dúvidas sobre a qualidade e a seriedade dos estudos de impacto ambiental e das avaliações a que estes vão ser sujeitos pelas entidades públicas competentes.

 

A história recente da construção das barragens hidroeléctricas na nossa região, nomeadamente a barragem de Daivões, mostra bem como a Iberdrola tem dificuldade em corresponder à justa necessidade das populações que vão ser retiradas das suas propriedades e habitações, que ficarão submergidas.

 

A questão específica da exploração na zona de Montalegre, já concessionada à empresa Lusorecursos, em nada corresponde ao que acima foi escrito. Tudo é pouco transparente. Tudo levanta profunda desconfiança nas populações e nos portugueses. Já estamos bem escaldados com episódios análogos no passado recente de Portugal, para percebermos que as coisas não vão correr bem. Nem para o Estado português que em tanto se compromete com a Lusorecursos , nem para as populações de Montalegre ; uma  região que já tanto deu para o equilíbrio ecológico  com a grande barragem do Alto-Rabagão e que tão poucas compensações recebeu até agora.

 

Preocupa-me ver mais uma vez ex-secretários de Estado como consultores de empresas privadas que tentam fazer avultados negócios com o Estado.

 

Espera-se e exige-se dos autarcas um papel activo na promoção do esclarecimento das populações, contribuindo para a serenidade e para a seriedade de todos estes processos. Também para a sua transparência.

 

Espera-se e exige-se que defendam a região e as populações, num firme diálogo com o Estado e com as empresas envolvidas. Que garantam que, se alguma vez algum dos processos de exploração avançar, é porque nenhuma das tais linhas vermelhas foi ultrapassada e que todas as compensações devidas estão perfeitamente asseguradas.

 

É bom que os estudos avaliem também as consequências para a agricultura familiar e de montanha da região, nomeadamente os impactos de destruição directos e ainda a redução de mão de obra disponível para essa mesma agricultura.

 

Há um alerta adicional em relação ao consumo de água, bem cada vez mais raro e mais precioso, e ao risco da sua contaminação. Recorde-se que a barragem do Alto do Rabagão fornece água potável de qualidade a muito mais de 100.000 pessoas e que uma das explorações, que se anuncia, fica a escassa distância desta barragem.

 

Finalmente, e caso estejam assegurados os impactos ambientais, era muito importante que a região e o país, avançando no processo de extracção de lítio, incluam o processamento desse mesmo lítio de forma a que toda a riqueza deste processo fique ao serviço do país e das populações.

 

Manuel Cunha (pité)

 

18
Out19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

O Outono das Águas

 

Em termos de paisagem e de ambientes o Outono é a minha estação preferida.

 

Manhãs já frias , tardes cálidas , luminosidades e texturas que parecem afloramentos de ternura quando o Sol está a partir.

 

Não há azul tão bonito como o do céu do Barroso, nesta altura do ano .Talvez pelo verde dos lameiros, aqui e ali pontuado por flores lilases que crescem rente ao chão .Talvez pelo enquadramento dos carvalhos e das bétulas, com a sua miríade de cores outonais.

 

A verticalidade dos troncos brancos das bétulas indica-nos o azul do céu e faz-nos sentir que este pode ser a lousa onde vão escrever.

 

Por  sorte cruzou-se no meu olhar um pássaro negro com bico de sol. Ainda hoje não sei se foi ele ou foram as árvores, que desenharam no azul denso o secreto poema , naquele Outono de 2008.

 

Eu estava lá ,deitado no lameiro, talvez distraído por uma flor lilás mais próxima .Mas só hoje , tantos Invernos depois, consegui lê-lo, como se estivesse escrito a carvão na geada de uma encosta voltada a Norte.

 

Não consigo contar tudo sobre o que  os meus olhos leram , mas era sobre a vida que corria, tímida mas firme , no regato de Cervos

 

Essa água, sobre a qual pouco se fala, é fundamental porque nunca se rende à seca e humildemente resiste para o futuro.

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

 

19
Jul19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

 

1 centímetro de inteligência...

 

 

A dimensão mínima de uma truta para, depois de pescada, poder ser recolhida no cesto de pesca, é agora de 20 cm.

 

Desde que me lembro, o tamanho exigido, medido da ponta do focinho até à bifurcação da barbatana caudal, era de 19cm. Por isso nunca me ocorreu questionar o porquê desses 19cm. Sempre tinha sido assim.

 

Ora, este ano, "as autoridades" decidiram acrescentar 1cm aos antiquíssimos e até aqui imutáveis 19cm.

 

1600-trutas-20

 

É verdade que tudo isto é pouco importante, embora inexplicável. Porquê mudar? Qual a razão profunda? Porquê aumentar 1cm e não 2 ou 3cm?

 

Tantos aspectos sérios em relação às trutas, que não são abordados e, portanto, não são modificados ou resolvidos. Por isso a mim me irritou tanto esta decisão.

 

Nenhum plano para identificar pontos de contaminação de ribeiras ou de rios. Nenhum plano de renovação ou recuperação das nossas trutas autóctones. Nenhum plano para a limpeza ou para reconstrução das pequenas represas.

 

Desta vez não vou falar do meu rio Mente. Mas sim da ribeira do Mousse, que separa os termos de São Vicente, na margem esquerda, dos termos de Argemil e Roriz na margem direita. Esta ribeira está abandonada em quase toda a sua extensão. Apenas a represa do Castelo do Mau Vizinho foi recuperada e está em boas condições. Pesco nesta ribeira há mais de 40 anos e assisti à degradação das suas margens e das suas represas. Mesmo assim, ela mantém um potencial notável em termos das minhas amigas trutas.

 

1600-s-goncalo (172)

Rio Mousse, em São Gonçalo

 

A autarquia assobia para o lado, o Ministério do Ambiente, que nem sequer sabe que esta ribeira existe, assobia para o outro. Assim vamos empobrecendo, mesmo antes das alterações climáticas pelas quais os habitantes da região têm poucas ou nenhumas responsabilidades, acabarem de vez com as trutas e com a ribeira do Mousse.

 

Talvez nessa altura venha um sábio do governo explicar-me a questão do tal centímetro, que tanto me irritou.

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

27
Jun19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Muitos conhecem a minha ligação a Segirei.

O rio, a cabana, os amigos.

De Segirei era o Ramiro, um homem importante. Carteiro, pescador, caçador, pai, marido e amigo. Fica aqui um poema escrito aquando da sua morte. E um outro também sobre Segirei.

 

1600-Segirei (27)

 

Ramiro

 

Cansado já de tanto andar

Para chegar ao mesmo sítio

Voltou-se para trás a olhar

Recordou-se do início:

" Andei de saco nas costas

Com palavras emprestadas

Subi e desci encostas

Com neve, chuva e geadas

Foi tão grande a caminhada

Tanto destino tracei

Fiz do rio a minha estrada

Fiz o mundo em Segirei"

 

1600-Segirei (39)

 

Sempre Segirei

 

De Segirei que nos falta dizer

Das brasas, do escano, dos amigos

Do rio que não deixa de correr

Na mente sussurrando "estamos vivos"

 

Que mais lhe poderemos contar

Dos abraços, dos " champôos", do pão centeio

Da magia no alpendre a conversar

Da tristeza por aquele que já não veio

 

Se ao menos eu pudesse desenhar

A luz do lume na cara do Luís

O silencio do Sbou a ressonar

As tais palavras que só o Tora diz

 

Mas só dentro da memória é que nos fica

A pureza de uma noite bem passada

Ainda não nasceu artista que o consiga

A essência de Segirei é sagrada

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

17
Mai19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Se Abril é o mês da Liberdade, Maio cheira ainda a cravos vermelhos e a trabalho...

É bom associarmos o trabalho às mãos, até porque este é humano e estas são também humanas.

 

800-gente-seara-1.jpg

 

Em tempos escrevi um conjunto de quadras a que chamei "mãos dadas".

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pró vento

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos para sonhar

E para proteger

Mãos para encantar

Ao adormecer

 

Há punhos erguidos

Em plena união

Garantes profundos

Da revolução

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medos da morte

 

E se as mãos não falam

É pura ilusão

Elas não se calam

Quer queiram, quer não

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinhos

 

                                 Manuel Cunha (pité)

 

 

 

26
Abr19

O Factor Humano

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Grândola revisitada nos tempos cinzentos da troika…

 

 

.                                                              Nos tempos que vão correndo

.                                                              De crise e de recessão

.                                                              Eu cá digo: “não me rendo”

.                                                              Quero outra revolução

 

                                                             Se a História não se repete

.                                                              Nem por isso tenho pena

.                                                              Que eu quero tornar a ver-te

.                                                              Grândola livre e morena

 

.                                                              Sentir em ti um amigo

.                                                              Sonhar com fraternidade

.                                                              Voltar a contar contigo

.                                                              Juntar-te à nossa vontade

 

.                                                              Não sei até onde vamos

.                                                              Mas nem assim tenhas medo

                                                             Porque lá onde chegarmos

.                                                              Seja tarde ou seja cedo

 

.                                                              Vamos fazer uma festa

.                                                              Tu e eu e tantos mil

.                                                              Todos juntos, mais o Zeca

                                                             Voltar a cantar Abril

 

                                                               Manuel Cunha (pité)

 

1600-25-abril-2019-1

 

 

 

15
Mar19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Sonho (1)

 

É estranha a sensação de ver o leito seco de um rio truteiro.  Mais do que isso, é penoso e angustiante, principalmente se é o rio da nossa vida.

 

Mais do que a falta de água, límpida e corrente, falta o mistério da vida. Não há incerteza, nem desconhecido, apenas pó, numa exposição cruel, como se estivéssemos a ver o cadáver de alguém que amamos, mesmo se ela ainda está viva e de boa saúde.

 

Nunca mais conseguiremos, nem sequer nas maiores cheias, olhar o rio da mesma forma. Nós já o vimos morto, nu, exposto sem alma, sem chama, sem água, como se fosse um nada absoluto.

 

É como quando sonhamos com alguém que já morreu, e nesse sonho nós sentimos que há qualquer coisa de estranho e triste, que o envolve num segredo incontável.

 

1600-incend-avelelas (314)

 

Sonho (2)

 

Quando encontraram os corpos calcinados, foi impossível distinguir o que pertencia a um e o que era do outro.

 

Mais fácil foi perceber que o mais alto tinha encostado ao seu peito a cabeça do mais baixo. O emaranhado de membros estava tão fundido com os corpos, que confundia quem conseguiu olhar.

 

Talvez uma peritagem médico-legal cuidadosa chegasse ao ponto de nos contar que foi o dorso do mais alto e assim também os braços do mais baixo, os primeiros a receberem o impacto das chamas, que nenhum dos dois viu, pois o mais alto estava de costas e o mais baixo tinha a sua face encostada ao peito do outro.

 

Se a humanidade tivesse podido criar um deus para esses instantes, este poderia ter ouvido a frase dita em simultâneo: " eu protejo-te!".

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

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