Sexta-feira, 16 de Março de 2018

O factor Humano

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Sobre a escrita (segunda parte)

 

Quantas vezes perdemos a chave do carro ninguém vai saber, para além de nós próprios. As vezes que mentimos aos outros dizendo que a perdemos, no exacto momento em que a seguramos, no bolso, bem apertada entre a palma e os dedos da mão, também só nós o sabemos.

 

Raramente alguém que tem carro, deita a chave fora, menos ainda de forma a não mais a poder recuperar. Como se a parte de si mesmo que se recusa a escrever, sequer a tentar fazê-lo, tema uma outra parte, que não desiste e persiste na teimosia de testar a sorte, rodando a chave na esperança de ver a caneta trabalhar.

 

Mais triste é quando nos roubam o carro e de nada nos serve uma chave, que não pode penetrar, nada pode fazer mover, motor ou caneta.

 

Situações diversas, umas mais transitórias, outras que parecem inalteravelmente definitivas, nos podem roubar o carro.

 

A prisão, sem acesso a com que escrever, nem aonde escrever, é um desafio, mais ou menos longo, com frequência transitório, sempre com a esperança de ser finito. Aí vamos escrevendo, às vezes com consciência, outras sem que a consciência o saiba, de tal forma que quando o sabemos, já não recordamos a época e parece-nos recente o que, em regiões até aí inacessíveis da mente, se escreveu há muito tempo e só agora sabemos nosso.

 

Mais complexo é no acidente vascular cerebral. Há uma falsa ideia de que quem não pode expressar-se, porque perdeu a capacidade de falar, de escrever, até de se mover, é incapaz de pensar, de imaginar ou de recordar, apenas porque os outros, nós, não conseguimos ter acesso ao mistério que se está a passar lá dentro, como se todos não tivéssemos outros mistérios, os que disfarçamos quando nos exprimimos e os que nem nós sabemos e assim não podemos sequer disfarçar.

 

Há obras primas da literatura que apenas tiveram a sua versão escrita muito tempo depois de criadas. Existir, assim, apenas nas memórias dos que as ouviam, partindo da evidência de que só as podiam contar depois de as terem ouvido e acreditando que foram contos, com múltiplos pontos, uns acrescentados, outros retirados, tantos transformados, até alguém, ou vários, tudo cristalizarem, na aparência, por escrito.

 

Depois novos receptores, já leitores e não auditores, desfrutaram de todo o longo processo criativo e eles próprios foram novos criadores, em obra escrita ou, simplesmente, nos actos do dia a dia, naquilo a que chamamos viver.

 

Quantas "Ilíadas" terão sido criadas ou modificadas e correram em circuitos intactos de neurónios sobreviventes de terríveis acidentes vasculares? Com mais ou com menos ritmo musical, com sérias variações, por vezes de uma hora para a outra.

 

Ilíadas que apenas se passam na aldeia da sua infância, talvez só mesmo na ideia da sua infância. Com menos heróis e menos batalhas, com menos mortos, ou mesmo com nenhum, com cavalos a sério e jumentos e ovelhas. Com o nosso cão de sempre que nunca morreu nos nossos neurónios mais queridos. Numa aldeia com um rio ou com um pai deste. Estranha situação a dos cursos de água, como pais, darem origem a outros que são maiores, aos quais não conseguimos chamar filhos, como se o tamanho fosse a questão primordial.

 

Deixemos uns e outros, pais ou filhos, correrem livremente e sem barragens, com toda a energia da vida que eles libertam e voltemos aos pensamentos de alguém que não os consegue expressar e assim dificilmente chegaremos a saber quais são. Como sonhos que existiram e que não chegaram à consciência desperta, mas que um dia nos fazem mudar de rumo de forma súbita que já nem nos reconhecemos, quando olhamos de fora.

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:20
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2018

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Ao contrário do prometido, na crónica anterior, adiamos a reflexão sobre os jovens médicos para próximo mês. Fica uma reflexão sobre a escrita.

 

Sobre a escrita

 

Ás vezes começar a escrever é como rodar a chave de um carro velho, dando à ignição. Se a bateria descarregou, responde-nos o silêncio. Uma página em branco, um falhanço. Mas ainda um espaço aberto ao futuro, cheio de liberdade para usar, nosso.

 

Mais difícil é tolerar tudo isto, se estamos com pressa e se cremos a viagem como indispensável. Ou será que quando a página não se povoa de caminhos novos, é sinal que a tal viagem não era assim tão urgente, tão indispensável?

 

Outras vezes, não responde o silêncio ao virar da página e ouve-se uma sucessão de ruídos, não estranhos porque já conhecidos. Qualquer coisa entre um respirar ofegante e um desengasgar. Por uns longos segundos temos a expectativa de que a isso se seguirá o ruído mais monótono e tranquilizador do velho motor a funcionar em pleno. Então, jorram as palavras da ponta da caneta, como quando termina o verão e a sua sequia, com as primeiras chuvas de Outubro. O carro escreve por aí fora, desejando nós que não seja agora a falta de combustível a condicionar a viagem.

 

Vamos indo, sem já nos lembrarmos se o passeio era urgente. Juntamos as palavras, às vezes olhamos para a paisagem, outras chegamos ao destino, sem memória dos locais por onde passámos, das gentes ou das coisas que vimos. Ou melhor podíamos ter visto, pois elas estavam lá, mas se os nossos olhos as miraram, não as transmitiram ao cérebro ou não chegaram neste à zona da consciência.

 

Nunca saberemos se algo que não chegou à consciência pode vir a alojar-se na memória e aí estacionar, num movimento contínuo que a mantenha viva, mesmo se ninguém alguma vez tenha sabido que existiu.

 

Ou será que são também essas estranhas memórias que nos ajudam na viagem seguinte, disfarçadas de imaginação?

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:11
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Sobre as questões da Juventude

 

É consensual e considerado natural o conflito geracional.

 

Em quase todas as épocas históricas, a geração dos pais entra em “conflito” com a geração dos filhos. De alguma forma isso faz parte do processo de maturação e autonomização dos adolescentes e da sua passagem para a idade adulta (e será também um mecanismo de evolução social e histórica?).

 

Também é considerado comum, que em determinadas fases, essa oposição seja mais intensa e o conflito mais exacerbado.

 

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De uma forma geral, o que se tem assistido é a uma situação clássica em que ao espirito sonhador dos mais jovens, para alguns um certo grau de ingenuidade e um certo grau de utopia, acompanhados pelo correspondente altruísmo e por níveis elevados de solidariedade para com o outro, se opõem a maturidade, para alguns o pragmatismo e o realismo, para outros a falta da capacidade de sonhar, dos mais velhos. Recordam-se da ideia antiga: “quem não é um revolucionário na juventude, algum problema tem”? Ou seja, era natural reconhecer o espirito revolucionário e sonhador dos jovens e era comum que esse espírito se fosse perdendo à medida que os anos iam passando.

 

Estaremos de acordo em que actualmente, pelo menos em Portugal, qualquer coisa de diferente se está a passar.

 

Parece haver menos solidariedade, menos altruísmo, menos preocupação com os outros, nos jovens atuais. Menos confiança e entusiasmo em poder construir um futuro melhor para todos, talvez por isso, menos empenhamento na luta e na defesa colectiva dos seus direitos.

 

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É evidente que os tempos actuais são de aceleradas mutações a todos os níveis. Ao nível familiar com núcleos cada vez mais pequenos, com frequência sem pai ou sem mãe, ou em que os pais estão ausentes de casa por longos períodos, devido ao trabalho. Aumento da esperança de vida, da vida activa e uma espécie de recusa em deixar de ser jovem por parte dos mais velhos. Mudanças políticas mundiais (por exemplo: desaparecimento dos países socialistas) ou mudanças nacionais resultantes da integração na União Europeia, ou até do fim do serviço militar obrigatório. As mudanças tecnológicas, nomeadamente telemóvel, internet, televisão por cabo, afectam profundamente as relações humanas. A facilidade do contacto permanente contribui para a redução da autonomia que se dá em idades cada vez mais avançadas. Mudou a imprensa, mudaram os programas de televisão.

 

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O próprio sistema de ensino sofre uma profunda modificação, não só resultante das novas tecnologias, como também dos novos conteúdos com uma deriva evidente em direcção às questões técnico-científicas e em prejuízo dos valores humanistas e artísticos. Valoriza-se a memorização em detrimento da capacidade de analisar e de pensar.

 

A crise actual reduziu fortemente a confiança e a esperança num futuro melhor, em especial nos mais jovens. Formou-se assim um ciclo vicioso de promoção do egoísmo e do egocentrismo, com o desaparecimento dos sonhos, do convívio, da partilha, da solidariedade.

 

A situação é bem mais complexa e tem tradução actual, por exemplo, no exercício da medicina. Voltaremos a este tema no fim do próximo mês.

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:58
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Há muitos médicos que são escritores. Bons escritores. Curiosamente pouco são recordados como bons médicos. É uma verdade conhecida que o médico “clássico” tinha uma riqueza de contacto humano, de histórias que presenciava, de histórias nas quais participava ou que simplesmente, ouvia contar.

 

Actualmente os médicos, em geral, têm pouco contacto humano com os doentes. Muita tecnologia, pouca formação, pouca predisposição, pouco tempo, quantas vezes pouco prazer com os doentes.

 

Não nos interessam as suas “histórias”. Estamos disponíveis para os tratar de forma tecnicamente correcta, mas não estamos abertos a um contacto humano. Não me interessa aqui tanto recordar, quão importante é esse “contacto humano”, para entender os problemas, aperfeiçoar os diagnósticos e as terapêuticas e com isso melhorar a saúde daqueles com os quais contactamos. Quero é salientar o enriquecedor que é para os médicos o contacto com os doentes e com os seus familiares. Que bom ter acesso a histórias fabulosas, que julgaríamos inverosímeis, se contadas num romance ou num filme.

 

Histórias de gente anónima, tantas vezes com enorme dignidade e com tantas capacidades, difíceis de imaginar quando de passagem as olhamos numa sala de espera.

 

Com a actual evolução da sociedade, está-se a perder a humanização da medicina. Com isso, perdemos todos. Desde logo perdem os doentes, mas também perdemos nós, profissionais de saúde e principalmente perde a sociedade, porque a desumanização da medicina faz disparar os gastos inúteis do SNS e aumenta o esforço, o sofrimento, a vulnerabilidade e a despesa dos doentes. Com piores resultados finais.

 

Numa sociedade que evoluísse noutro rumo a aposta na humanização da medicina era a pedra angular de melhores cuidados de saúde, com ganhos evidentes para os doentes e com muito mais eficácia do dinheiro investido por todos nós.

 

Infelizmente o actual governo, como os anteriores, persiste em não tomar esse caminho. Não se investe o possível e muito menos o necessário prosseguindo a degradação de aspectos essenciais do SNS, com resultados negativos na saúde das populações. Tarda-se na correcção de cortes cegos, de um passado recente, que não têm outro objectivo a não ser cumprir o estipulado numa “folha de Excel” e criar boas oportunidades para os negócios privados na saúde.

 

Depois espantem-se com a corrupção crescente e com a repetição de episódios lamentáveis na área da saúde...

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:19
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Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Egoísmos e altruísmos , uma reflexão pessoal.

 

De uma forma simplificada podemos ver as pessoas egoístas como aquelas que apenas vêem o interesse delas próprias .Por oposição as pessoas altruístas centram-se no interesse dos outros A realidade é bem mais complexa, não é a preto e branco, tem matizes, mas esta simplificação ajuda a entender o texto que se segue.

 

Se há características de personalidade, pessoas altruístas ou pessoas egoístas, isto não implica sempre, comportamentos ou atitudes de acordo com essas características.

 

 Não cabe aqui a análise de componentes individuais de auto-estima ou de desvios patológicos de relação com o outro.

 

Às vezes os altruístas também têm atitudes ou comportamentos egoístas. No entanto para tal há um esforço e uma consciência que deixam um forte sentimento de culpa .Desta forma não desfrutam, na maioria das situações , das vantagens eventualmente adquiridas pelos referidos comportamentos egoístas.

 

Pelo contrário as pessoas egoístas actuam como tal com toda a naturalidade. Ou seja têm as atitudes ou comportamentos egoístas ,sem qualquer esforço ou sofrimento , não ficam com qualquer sentimento de culpa , o que lhes permite desfrutar em pleno , as vantagens que esses comportamentos lhes trazem.

 

Os egoístas ficam é surpreendidos , escandalizados e com forte sentimento de injustiça, quando alguém tem um comportamento egoísta para com eles. Pior ainda se estavam habituados a que esse alguém tivesse em geral comportamentos altruístas para com eles, dado que eles entendem esses comportamentos como devidos e naturais .Chegam a verbalizar que aqueles que habitualmente têm comportamentos altruístas se obrigam a mantê-los sempre.

 

Por outro lado quando um egoísta tem um comportamento altruísta, tende a ligar os holofotes e chamar à atenção para que todos o saibam.

 

Numa relação entre duas pessoas opostas nestas características , tende a criar-se  um desequilíbrio em que o egoísta  se comporta cada vez mais como tal , empurrando o altruísta a acentuar também os seus comportamentos . Em geral isso leva a uma ruptura.

 

Em termos de modelo de sociedade ,parece ser nítido que um equilíbrio competitivo entre egoístas , é o núcleo essencial que funciona como motor do desenvolvimento no capitalismo. Muitas dificuldades têm aqueles em que predominam as características altruístas que lhes bloqueiam frequentemente o caminho para o sucesso.

 

Por outro lado deveria ser um equilíbrio e uma sinergia entre os altruístas o núcleo essencial do motor de desenvolvimento nas sociedades socialistas. Mas são conhecidas as dificuldades concretas nesta área.

 

Não surpreende que na guerra ,ou na prisão, o egoísmo seja um mecanismo mais eficaz de sobrevivência , mas  que os verdadeiros heróis, os que ficam para a história , são aqueles que, apesar de tudo , conseguem ter um comportamento altruísta.

Manuel Cunha (Pité)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:39
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

O Factor Humano

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10 contos de reis – sem notas - 10

 

Houve uma época em que os serviços de urgências eram escassos e concentrados no litoral. No interior, apenas numa ou noutra cidade, equipas rudimentares, um médico e um enfermeiro, asseguravam as necessidades das populações.

 

Eram geralmente os mais pobres que recorriam a estes serviços, vindos das aldeias e vilas mais próximas, por vezes aproveitando o dia da feira. Havia alguma desconfiança em relação à competência ou à simpatia dos profissionais que trabalhavam nessas urgências básicas. Às vezes diagnosticava-se uma apendicite aguda ou uma hérnia complicada e era então que o próprio médico fazia de cirurgião ou de anestesista e resolvia a situação, com o apoio de irmãs freiras enfermeiras.

 

Numa dessas pequenas cidades do interior, na região centro, trabalhava um médico, dotado de uma cabeça notável, onde por vezes os neurónios se entrelaçavam demasiado, produzindo alguns comportamentos bizarros, mas controlados, tolerados pelos demais, porque naquele tempo quase tudo se perdoava a um doutor.

 

Um dia que estava de serviço, esse médico, conhecido pelo Doutor Tó, pediu ao enfermeiro que espreitasse para a sala de espera, para saber quantos pacientes estavam para ser atendidos. Quando este lhe falou em dúzia e meia, o Doutor Tó franziu o sobrolho num sorriso malicioso, ao mesmo tempo que despia a bata. "Já vais ver" disse enigmático para o enfermeiro, dirigindo-se para a porta de saída da sala de observações.

 

Com este doutor já nada surpreendia, mas o enfermeiro verificou espantado ao voltar a espreitar pela porta entreaberta, que o Doutor Tó estava sentado na sala de espera como se fosse um qualquer aldeão.

 

O silêncio existente na sala foi rompido pelo falso aldeão com uma pergunta simples. " Ele quem é, o Doutor de serviço?" e logo uma mulher mais faladora respondeu " É um tal Doutor Tó". O falso aldeão disse, com um ar assustado, " Mas esse foi o que esteve anteontem e limpou o sebo a dois...". Os outros pacientes entreolharam-se preocupados e ele prosseguiu: " Parece que lhe bebe uns canecos e não é muito certo". Dito isto, levantou-se e abandonou a sala de espera. Quando reentrou na sala de observações, vindo directamente da rua, perguntou com ironia ao enfermeiro: " Então afinal quantos é que estão?". E este respondeu com um suspiro entre a admiração e a condenação: " Cinco Doutor Tó".

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis – sem notas - 9

 

            Era uma senhora sofrida. Maltratada pelo marido e pelos filhos. Criada para tudo, desrespeitada, por vezes agredida. Vítima das dependências pelo álcool dos homens da casa. Apesar de dois deles terem nascido do seu interior, nem assim tinham piedade.

 

            Sofrida mas resiliente, encarava tudo com resignação religiosa. Era a vontade de deus, que poderia ela fazer?

 

            Não teve a alegria de ter netos. A única filha tinha-se escapado para os Estados Unidos, fugindo da condenação em que vivia a mãe. Aí estabelecera uma relação homossexual, simples, feliz, longe da brutalidade das origens. No entanto nunca voltara para visitar a família, talvez por vergonhas, talvez por medo. Telefonava com regularidade, conversas longas com a mãe, muitos silêncios e muitas lágrimas. Às vezes rogava-lhe que fugisse para a América, para junto dela, mas a Dona C. sempre respondia que a sua cruz era ali, a tomar conta do marido, dos filhos, do vinho. Não era uma pessoa muito lúcida, o que ajudava a explicar a sua submissão a todas as misérias e a todos os sofrimentos.

 

            Apesar da doença que justificava vindas regulares aos tratamentos, ia aguentando estoicamente. Às vezes às escondidas dos homens da casa, trazia-me uma malga de marmelada. Fomos estabelecendo uma relação que lhe permitia confidências e desabafos. Estranhamente tinha alguns traços de inveja e de maldade em relação aos outros doentes. Um dia disse-me: "Eles bem olham para mim, como se eu esteja muito doente, mas já vi irem uns poucos à minha frente". Na face expressava alguma malícia, que não se esperava numa mulher tão sofrida.

 

            Um dia entrou no consultório e, metendo a mão ao bolso da gabardina, disse-me muito rapidamente: " Outro dia botei esta corga pelo cu" e nesse momento colocou em cima da secretária um fragmento ressequido, com mais de 20cm. Foi a única vez que vi uma ténia.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:42
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis – sem notas - 8

 

" Sabe doutor, tive hoje uma óptima notícia, disseram-me que posso morrer aqui." contou-me, ao mesmo tempo que me sorria com uma tristeza serena  ", não imagina como é importante sabermos que temos um sítio  onde morrer", concluiu.

 

Não era habitual a abordagem este tema entre um doente e o seu médico, enfrentando uma questão que se  tornou  tabu, a da morte, na sua envolvência concreta.

 

M. foi um dos poucos doentes que consultei no seu domicílio, em respeito à sua idade muito avançada e às suas dificuldades em deslocar-se.

 

Vivia numa espécie de residência, com quartos individuais, quase um hotel. Serviam-lhe as refeições no quarto, no início numa pequena mesa , em frente a uma estante recheada de bons livros e algumas fotografias que documentavam  os dias de glória. Mais tarde, já numa engenhosa mesa que lhe colocavam no leito, facilitando -lhe uma refeição que era um dos poucos prazeres que lhe restavam, sempre acompanhada por uma modesta dose do melhor vinho generoso.

 

A posição da cama era estratégica , mesmo defronte à janela. Quando visitara pela primeira vez o local, tinha logo seleccionado esse quarto, exactamente por isso. Através dessa janela, mesmo deitado, viam-se as traseiras da rua principal. Uma canelha estreita e degradada, ladeada à esquerda pelas retaguardas pobres das velhas casa da rua direita da vila.

 

"Daqui posso olhar, mesmo que só veja duas velhas janelas , já sem vidros, as ruínas daquela varanda vermelha e restos de telhados desdentados. Às vezes senta-se lá um gato a lamber as patas e a apanhar sol. Em raras ocasiões pousa uma pomba. São os meus únicos contactos com a vida lá de fora", disse-me na última visita antes de ser internado no hospital, levado pelo INEM.

 

Como a maioria dos portugueses nos tempos actuais, lá morreu, sozinho, sem pomba nem gato.

 

Afinal foi esse o seu sítio para morrer.

 

Manuel Cunha ( pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:55
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Sexta-feira, 21 de Julho de 2017

O Factor Humano

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10 contos de reis – sem notas - 7

 

Era um velhote gasto pelos anos e pelas minas do Pejão. A inevitável silicose dificultava-lhe a respiração. Reformado há muitos anos, não se livrava dos venenos que se tinham depositado no labirinto dos seus brônquios, quase que reproduzindo nos pulmões uma réplica, em miniatura, das minas de carvão.

 

Tinha também outros problemas de saúde, principalmente uma rara doença que lhe enfraquecia o sangue, ao mesmo tempo que tornava negras as suas urinas, como se também elas tivessem o pó do maldito carvão. Não era o caso. O certo é que dependia de transfusões regulares de sangue.

 

Nessa época, acreditava-se que lavar os glóbulos vermelhos com soro fisiológico, melhorava os resultados da transfusão. Para isso era necessário um delicado e demorado processo técnico, que tinha uma vantagem: dava-me a mim, então jovem interno, tempo para conversar com o velhote e com a sua esposa.

 

Esta, apesar de passados os oitenta anos, era ainda uma mulher de bonitas e delicadas feições. Mas o que impressionava nela, o que me chamava mais a atenção, era a dedicação, a paciência, o carinho que dedicava ao marido. A forma como lhe dava de comer e lhe limpava a boca e as migalhas que lhe caiam das pernas emagrecidas. A tenacidade com que insistia em explicar-lhe as coisas, apesar da sua surdez e de um certo alheamento. A energia que tinha para o ajudar a ir ao quarto de banho, ou como desencantava umas cuecas, ou umas calças, de reserva, sempre que a próstata do marido lhe fazia uma cruel partida.

 

Apenas deixava escapar, de vez em quando, uma expressão "Oh valha-me Deus, Manel!", como uma ténue forma de protesto, não tanto contra ele, mas contra o destino deles.

 

Num momento em que estávamos só os dois, eu e ela, não resisti a perguntar-lhe: "Minha senhora, como tem tanta paciência e tanta dedicação ao seu marido?". Ela olhou para mim, com um indisfarçável orgulho, que lhe fez brilhar os olhos, e disse-me: "Sabe doutor, ele enquanto pôde, tratou-me sempre como se eu fosse uma Princesa!".

 

Manuel Cunha (Pité)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:24
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Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

O Factor Humano

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10 contos de reis - sem notas - 6

 

Não tinha sido feliz com o marido. Todo o encanto tinha terminado com o casamento. Não sentia mais afectos, nenhuma ternura, ausência de alegria em comum. Afastamento progressivo, até do ponto de vista físico. Mal se tocavam, excepto nas escassas vezes que acasalavam. Os beijos tinham secado. Às vezes chegava lhe quase uma repulsa.

 

Cedo percebeu que ele mantinha relacionamentos extraconjugais. No fundo, pouco lhe importava. Até agradeceu a redução, até à extinção, dos seus acasalamentos.

 

Nunca lhe tinha batido, mas a violência psíquica era crescente. Desprezo, críticas constantes, desconsiderações de cada uma das suas qualidades.

 

Nasceu nela também o ódio, silencioso, quase clandestino. Deu por si a desejar a sua morte, vendo nela a única hipótese de ser livre.

 

Naqueles tempos, ainda para mais naquela ilha, o divórcio era, para as mulheres, uma proscrição. Naquelas mentalidades, quase se confundia a divorciada com uma espécie de prostituta, em especial nas famílias pobres e humildes. Divórcio só era aceitável para uma mulher rica, das boas famílias. A essas tudo era tolerado, pelo menos nas aparências.

 

Fui construindo uma relação mais pessoal ao longo das sucessivas consultas, a que a sua doença crónica obrigava. A diferença de idades permitia-lhe abrir-se mais comigo.

 

O marido nunca esteve presente, nem quando ela foi internada por uma tentativa grave de suicídio.

 

Um dia, ao marido, foi-lhe diagnosticado um tumor avançado do esófago. Escassas perspectivas, rápida degradação.

 

A Dona A. expunha as suas perplexidades: "Sabe doutor, não sinto pena nenhuma dele, mesmo sendo ele o pai dos meus filhos".

 

Expliquei-lhe que tal era humano e natural, que não tinha de se sentir culpada de nada. Ficou mais tranquila. Depois da morte do marido, confessou-me sentir alivio.

 

Posteriormente, ficou apreensiva pela tristeza de uma das filhas, atingida fortemente pela morte do pai. Apesar dos maus tratos deste se estenderem também aos filhos, esta tinha conseguido um pouco mais de proximidade com ele. A tristeza dela foi-se agravando, angustiando a mãe, que se sentia revoltada, porque o marido mesmo depois de morto, lhe prejudicava a vida.

 

A senhora A. sentia-se finalmente livre mas suspeitava que, na tristeza da filha, estava envolvido o "espírito do marido": " Tinha encostado".

 

Sentindo-se liberta e com coragem, foi pela primeira vez visitar a campa do marido. Encontrando-se a sós, ordenou-lhe que desencosta-se da filha, porque senão ela excomungava-o. Quando me estava a confidenciar isto, disse de uma forma original: " Oh senhor doutor, que eu nem sei como é que se excomunga um morto. Mas ... de certeza que está na Internet!"

 

Tanto quanto sei, a filha vive hoje feliz.

Manuel Cunha (Pité)

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:54
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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis - sem notas - 5

Sobre o amor

 

Era uma enfermaria daqueles tempos, ampla e com grandes janelas, rasgadas na parede voltada para o sul. Várias camas, muita luz. Ala de mulheres, mais convívio do que intimidade.

 

Estava no começo da carreira e transbordava de entusiasmo humano. Gosto em ouvir cada história, atento a cada novidade clínica.

 

Chamou-me em especial a atenção, um velhinho digno, quase sempre sentado ao lado da cama da sua mulher, internada há vários dias, com uma trombose extensa. Aí permanecia horas, pegando-lhe na mão com ternura e aconchegando-lhe a roupa da cama. Por vezes monologava com ela, sem certezas de ser escutado, menos ainda compreendido.

 

Todos os dias explicitava, com palavras simples mas de forma nítida, o desejo de levar a esposa para casa, mal fosse possível: " Não quero que a minha mulher fique no hospital, nem mais um dia do que seja preciso".

 

Não era a postura mais comum nestas situações, menos ainda da parte de um homem. Não havia filhos, nem outros familiares próximos.

 

Entre nós comentámos o caso, com admiração e com respeito.

 

Nessa mesma enfermaria, no canto oposto, estava internada uma senhora, ainda na casa dos 50, segundo  informava o bilhete de identidade. Era um caso típico de grande discrepância entre a idade aparente e a idade real. Mantinha o hábito de se pintar e de se maquilhar, insistindo em tentar disfarçar a tragédia que a destruía: insuficiência cardíaca em fase terminal.

 

Naquela época, o meu papel profissional era considerado menor, o que me dava alguma liberdade de tempo e de conversa.

 

Esta senhora pagava uma factura de uma vida difícil, de prostituição, na parte antiga da cidade. Muito tabaco, muito álcool, muitos excessos.

 

Tinha um sorriso que desarmava, mesmo quando faltavam à maioria dos dentes. Dei por mim a elogiar a dedicação do velhinho que acompanhava a mulher em coma. Confidenciei-lhe a sua vontade de acompanhar a mulher em casa. E de como me surpreendia uma tal dedicação. Respondeu-me num tom genuíno, que não deixou margem para quaisquer dúvidas, sobre a veracidade do que dizia: "Sempre foi assim doutor, mesmo quando ia ter comigo, era sempre dela que falava com carinho e com respeito".

 

Morreu, três dias depois, de me ter contado esta história.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

O factor humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 4

Solidões

 

Finalmente podia começar uma nova vida. Foi com este pensamento que entrou num convento. Não o movia qualquer fé ou crença em qualquer deus. Apenas o desejo de liberdade. Por isso, levantava-se todos os dias às 4h00 e cumpria um extenso ritual. Uma ladainha, para ele sem nexo, mas que fazia com a mesma aparente devoção que os demais monges. Do que ele gostava mesmo era de meditar. Livre de obrigações para com os outros, livre da dominação do tempo. Simplesmente estava ali para sempre.

 

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Ao fim de uns meses, perdeu-se mesmo no calendário. Sem fio de ariadne que o guiasse, foi confundindo as semanas e as estações. Até ficar em nenhum sítio para todo o tempo. O mais difícil foi fugir da memória. Esta tinha estabelecido conexões complexas aparentemente impossíveis de desligar.

 

Isolado do mundo para sobreviver. Sem metas, a não ser a rotina da monotonia.

 

Passava horas a observar os movimentos das formigas. Mas o seu prazer preferido era o de conversar com o cão. Calmamente e sem discussões. Adormeciam ambos com frequência, sempre sem discordarem.

 

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Para esvaziar a memória, reescrevia as canções com novos versos cada vez mais simples. Também foi escrevendo contos, memórias de histórias ouvidas ou de histórias vividas.

 

Começou a ganhar tranquilidade como se simplificasse as conexões das suas sinapses.

 

Foi isso que me contou na primeira consulta de psiquiatria. Nunca soube qual era a verdade.

 

Nunca mais voltou.

 

 

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Sexta-feira, 17 de Março de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 3

 

A vida é de cada um

 

Era o meu doente mais idoso e, de alguma forma, o mais distinto. Idade para ser o meu avô, gosto pela conversa pausada. Educação extrema, só se sentava depois de eu o fazer. Chapéu por vaidade ou hábito, bengala por necessidade, embora mantivesse um andar digno, subtil e graciosamente equilibrado por aquele bastão elegante.

 

Algumas tragédias na sua vida, a morte acidental de um neto, o falecimento de um filho com cancro, a morte da mulher, após demência precoce prolongada.

 

Mantendo sempre a cabeça levantada, gostando de conversar sobre tudo e nunca procurando promover a pena ou a compaixão por ele.

 

O senhor A. vinha sempre à consulta acompanhado por uma senhora, bastante mais nova, na casa dos cinquenta anos, roupa humilde, quase sempre silenciosa. Não se comportava como familiar, tratava-o com uma consideração expectável na relação com os mais velhos.

 

Escassas palavras comigo, o estritamente necessário para esclarecer o circuito da consulta e das análises e para clarificar a toma dos remédios. O senhor A. tinha uma doença crónica que inspirava alguma preocupação, mas não limitava a sua autonomia, nem a sua capacidade física.

 

Apesar das referidas agruras da vida, na sua conversa pausada havia alegria e firmeza, temperadas por quase 90 anos de experiências.

 

Um dia apresentou-se sozinho na consulta. Não comentou porquê e eu respeitei a reserva. Pareceu-me mais triste, mais calado, mas na altura não valorizei.

 

Na vez seguinte, de novo veio só, ainda mais cabisbaixo, menos falador. Confrontei-o com a sua tristeza e a ausência da senhora. Com um suspiro prolongado tentou ser reservado e arrumar o assunto. Mas eu insisti. Pareceu-me então ficar aliviado para poder falar e explicar-se: " sabe doutor, a senhora que costumava vir comigo, a Dona G., era quem tomava conta de mim e me fazia companhia", e prosseguiu de forma subtil, que a senhora não era apenas uma simples governanta, mas desempenhava um papel mais profundo na sua vida. A tristeza era que, filhos e netos, o tinham alertado para os interesses da tal senhora. Que ela teria segundas intenções, subentendendo-se avidez pelo seu dinheiro...

 

Ele tinha decidido aceitar e por isso tinha-a afastado. Contrariado, daí a sua tristeza.

 

Não resistir em interferir: " Mas alguns dos seus filhos ou netos tem problemas económicos?". " Felizmente não doutor, estão todos muito bem na vida. Bons empregos, boas casas, dinheiro...".

 

Fiz então a pergunta inevitável. " E o senhor gosta da tal senhora? Sente-se bem com ela?". "Sinto, é com ela que estou feliz, com a sua companhia", respondeu-me de forma sentida.

 

Fiz-lhe então um desafio, que muitos considerariam desadequado. "E porque não os manda dar uma volta e chama outra vez a senhora G. para ao pé de si?", expressando-lhe que o dinheiro e a riqueza eram dele e essas decisões só a ele diziam respeito. A sua vida era uma escolha só dele.

 

Abriu-se num sorriso e despediu-se mais animado.

 

Na consulta seguinte, veio de novo acompanhado. Algo de subtil se tinha dado entre os dois, parecendo agora mais libertos.

 

Pouco depois mudei de hospital para uma cidade distante, deixando de ser seu médico. Durante 3 anos, não me faltou um telefonema natalício dos dois, simpático e agradecido.

 

Sempre achei que eu é que devia agradecer a oportunidade de me ajudarem na minha maturação como médico.

 

 

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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 2

 

" Se hoje soubesse"

 

" A doença não tinha evoluído bem. Situação grave, irresolúvel, com desfecho iminente. Ele sabia-o e por isso a necessidade de falar, de contar, de assumir, no seu sotaque alentejano. Com a serenidade de quem dominou o medo , de quem percebeu a morte e a reduziu à vida.

 

Há muitos anos tinha trabalhado no estrangeiro, longas e difíceis ausências. Viagens infinitas de camião, nele dormindo, solitário. Comer o possível, cozinhados rápidos, enlatados, sandes. Ao contrário de tantos, resistia ao assédio das mulheres, fascinadas por uns olhos de um azul denso e profundo, que olhavam para o fundo dos outros que os miravam, transmitindo sempre uma bondade profunda e serena.

 

Gostava da sua mulher, ainda mais dos seus filhos e sofria com as distâncias que o trabalho lhe impunha. Fazia tudo por eles e assim lhes foi proporcionando uma vida confortável, com a ajuda do magro salário da mulher. " Tempos passados, difíceis" resumiu-me com dignidade.

 

1600-camiao.jpg

 

"Num dia de regresso, percebi que a minha mulher estava grávida. Ao princípio tentou ocultá-lo, depois baralhar as datas, de forma a ser verosímil que o filho fosse meu".

 

Mas era tudo por demais evidente. A sua curta estadia prévia, mal se tinham encontrado na cama. Dias sem fertilidade, dias sem felicidade. " Talvez ela já andasse embeiçada pelo outro".

 

O certo é que as vozes na aldeia eram implacáveis. Sorrisos de desdém, piadas, insultos sussurrados nas costas. Até uma carta anónima, com datas e lugares. A impiedade não conhece limites.

 

Um dia ela própria assumiu, em termos quase agressivos, a roçar a provocação. A seguir veio o choro e o arrependimento, a vitimização. Que ele também tinha culpas, que era bom demais e isso tornava tudo, para ela, mais difícil.

 

gravida-post.jpg

 

O outro tinha desaparecido para longe. Não queria saber de nada, nunca assumiu nada.

 

Foram dias pesados, a chacota da aldeia, a necessidade de proteger os filhos, as dificuldades na decisão. Nas suas análises prevalecia a pena, pela mulher, pelo bebé que ia nascer, pelos que tinham nascido.

 

"Sempre precisei de tempo para pensar, de dormir em cima dos problemas, de caminhar com eles, analisando-os e simplificando-os".

 

A decisão chegou então definitiva. Perdoou-lhe e perfilhou, nos papéis e também na alma, o menino que então nasceu.

 

"Com ela as coisas nunca mais foram as mesmas. Aliás já não o eram, muito antes disso".

 

Nesse momento resisti à tentação de lhe perguntar se o menino, agora já homem, sabia que não era seu filho biológico. E ele prosseguiu até ao fim " nunca soube realmente quem foi o homem que me enganou. Mas se hoje soubesse quem foi e conseguisse encontrá-lo, queria beijar-lhe os pés e agradecer-lhe pelo filho que me deu".

 

Ao contar olhava-me nos olhos, retirando-me as angústias que o seu estado produzia em mim: " Sabe doutor, agora que estou a morrer, os outros filhos estão longe, ausentes. Este está sempre comigo e cuida de mim. É o meu carinho e o meu conforto.

 

O menino compensou tudo."

 

 

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Nota informativa

Há um mês o autor desta rubrica, o Médico  Manuel Cunha, anunciava o inicio da divulgação “10 contos de reis, sem notas”.  Contos que lhe tinham caído nas mãos, em jeito de prenda,  oferecidos por um dos seus doentes, com o compromisso de não os divulgar enquanto o doente e seus descendentes fossem vivos. Um acidente estúpido acabou por lhes tirar as vidas e os textos acabaram por ganhar a liberdade de serem publicados. Contudo os anos foram passando e só agora, Manuel Cunha (Pité) se decidiu pela sua publicação “desse hipotético livro, na certeza de ser neste Factor Humano do blogchaves, que o autor gostaria que fosse publicado”.

Se quiser rever o ”O Factor Humano” publicado há um mês, onde além da explicação do aparecimento destes “Contos” se faz a introdução aos mesmos, basta seguir este link:  FACTOR HUMANO 

 

Vamos então ao primeiro conto.

 

10 contos de reis, sem notas - 1

 

Não dizia que não, mas olhava de lado , desconfiado.

 

Corria o mês de Novembro , estávamos em plena serra do Marão e fazia um vento frio e cortante.

 

O telheiro que nos devia abrigar, não tinha qualquer protecção lateral. Os  nossos pés pisavam mato acamado , giestas e carquejas ,misturadas com bostas e cacas de múltiplas origens , várias idades e diferentes texturas.

 

conto1 (8).jpg

 

P. era o doente crucial da nossa investigação. Nessa altura estava já confinado a uma cadeira de rodas .O porquê era , para nós, a questão decisiva . Haveria nesta família a estranha situação da coexistência de duas doenças genéticas ligadas ao cromossoma X ? E se fosse o caso, seria uma simples e invulgar coincidência , ou haveria uma explicação mais científica ?

 

Por isso estávamos ali , para colher uma amostra do seu sangue , para complexos estudos laboratoriais.

 

Mas a mim começou a interessar-me P. propriamente dito e muito menos uma análise  sanguínea complexa.

 

Percebemos então que o seu grande medo era "apanhar sida "através da colheita de sangue. Que não , dizíamos nós , explicando-lhe que era tudo material esterilizado , um só uso. Finalmente convencido ,  já não se perturbou quando , ao abrirmos a mala de trabalho , as embalagens das seringas e das agulhas , caíram ao chão. Sacudidas as sujidades exteriores  e lavadas as mãos  , pudemos então abri-las , ajustar as agulhas às seringas e fazer a almejada colheita.

 

P. não acreditava na hipótese de ter uma doença genética. Aliás nem conseguimos explicar-lhe minimamente o que isso era.

 

A sua teoria e convicção era que o seu estado actual, resultava dos efeitos tardios das  chuvas tropicais, apanhadas na Guiné , aquando da Guerra  Colonial. Desde essa altura e de forma progressiva , tinha vindo a perder a força muscular , em especial nos membros inferiores , até ficar incapaz de deambular, limitado à sua cadeira de rodas.

 

Achava da mais elementar justiça ser reconhecido como deficiente das forças armadas, convicto de ter uma doença profissional, contraída durante o serviço militar obrigatório, julgava ele que em defesa da Pátria.

 

Na Guiné fora barbeiro do General  António de Spínola e com ele estabelecera uma relação que ultrapassava , de alguma forma, as habituais hierarquias militares.

 

Há sempre , até na vida militar , uma intimidade peculiar, entre barbeador e barbeado..Conversas específicas , comentários e desabafos. É mais natural para um General recordar-se do seu barbeiro soldado do que de um qualquer tenente ou capitão.

 

Por tudo isto Spínola deve ter ditado uma carta de resposta , ao pedido do seu soldado barbeiro , escrito por uma sobrinha , numa letra quase infantil. Se não a ditou directamente ,deu ordens para ela ser escrita. Sem intimidades descabidas, sem desejar sequer uma rápida recuperação , prometia empenho em assegurar a justa pensão militar de invalidez.

 

spinola.jpg

Fotografia de Eduardo Gageiro

 

Spínola afinal estava a escrever para um homem que , de navalha na mão , o poderia ter degolado em tantas ocasiões. Um soldado barbeiro disponível , mais do que ninguém , para ouvir desabafos seus , sobre oficiais subalternos , às vezes até sobre alguns políticos da metrópole.

 

À cautela Spínola propôs-lhe uma futura vinda a Lisboa, para se apresentar no quartel X. Talvez quisesse também rever o seu estimado barbeiro, certamente para verificar " ao vivo " se a incapacidade motora era assim tão relevante.

 

Não ficaram datas marcadas nem indicações para telefonemas ou telegramas.

 

Assim P. , nessa altura ainda com alguma capacidade para deambular , programou a sua visita a Lisboa. Uma boleia inicial até Amarante, onde tomou uma taça de verde tinto com uma sandes de queijo. Depois a carreira para o Porto, com almoço de tripas numa tasca de Campanhã desta vez com duas taças do tal verde tinto. Apanhou em seguida o comboio até Lisboa ,onde chegou às 16 h.

 

Convicto que o seu General estaria até tarde no quartel ,arriscou a despesa de um taxi , condicionado também pelas dificuldades motoras.

 

Apresentou-se no quartel às 16.30  h, dizendo apenas que vinha encontrar-se com o" seu "  General Spínola.

 

Foi imediatamente detido para interrogatório , embora prontamente libertado , dada a simplicidade da aparência e perante a evidência da sua incapacidade física.

 

Estávamos na tarde de 11 de Março de 1975 , com Spínola já refugiado em Espanha , após a sua falhada tentativa de golpe de Estado.

 

Tudo isto nos contou P. , antes e depois da colheita de sangue. Ficou uma história inesperada , colhida num local agreste.

 

A mais surrealista história do 11 de Março de 1975.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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