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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Nov19

A poesia de uma imagem de outono

Escrita ou por escrever no Tabolado de Chaves

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Dizem que a fotografia é uma forma de congelar um momento para todo o sempre, o que sem qualquer dúvida, é verdade, mas quem verdadeiramente a vê, observa e contempla, vive nela mais que o momento congelado. Dependendo de quem a vê, se conhece ou não o local, pode despertar em cada um vários outros momentos. Para quem não conhece o momento congelado, pode apreciar a imagem, a composição, a cor e, ocasionalmente, despertar outros sentimentos. Para quem conhece o local, é inevitável não resistir ao convite de entrar na imagem como quem entra na memória, povoando-a de outros momentos vividos, recordações que ficaram, também elas congeladas na memória tal como esta imagem o ficou nesta fotografia, como se fossem momentos de poesia, onde as folhas caídas não são mais que versos de poemas que nunca foram escritos.

 

 

02
Nov19

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

 

A LUA

 

                        O teu perfume inebriava

                        Na tua elegância tão frágil,

                        Que apetecia tanto.

 

                        Todo o teu corpo

                        Tinha oriente na pele.

 

                        A tua boca

                        Falava sorrisos

                        Para mim.

 

                        E os teus olhos

                        Projetavam claridade

                        Nas minhas sombras.

 

                        Quero descobrir os teus lugares recônditos.

 

                        Entretanto,

                        Dá-me a tua lua para eu adormecer.

 

António Roque

 

28
Set19

Pedra de Toque

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UM SORRISO.

 

                        Chamava-se Conceição, a minha mãe.

                        Era no entanto conhecida e tratada por quase toda a gente, simplesmente por São.

                        Pessoa de muitas amizades, espalhava simpatia e simplicidade, qualidades que os filhos muito lhe apreciavam.

                        Era uma mulher bonita.

                        Ainda quando solteira ganhou o terceiro prémio num concurso onde se elegeu a mulher mais linda da nossa cidade.

                        Até ao fim da vida, foi uma mulher de luta, de trabalho e de uma dedicação sem limite aos seus três filhos.

 

                        Lembrei-me há dias dela num sorriso fugaz, mas intenso e luminoso, que me ofereceram numa sessão pública onde estive presente, e que se colou aos meus olhos.

                        De tal sorte que ainda o trago comigo.

 

                        Que saudades mãe.

                        Obrigado São.

 

António Roque

18
Ago19

Pedra de Toque - O Olhar

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O OLHAR

 

 

Se não eras tu, era alguém com os teus olhos.

 

Verdes, fundos, mas mais baços, mais tristes...

 

Outrora eram brilhantes e sorriam a cada esgar.

 

Ruborizavam quando no jardim atapetado de Outono te murmurava que contigo encantaria todas as noites e que sem ti o futuro seria breu.

 

Passaram cinquenta longos anos.

 

No bulício da rua na grande cidade, revi o teu olhar sedutor, envolvo em pequenas rugas que vincavam tua pele sedosa.

 

O teu semblante e o teu corpo não exalavam a frescura que ainda consegui respirar na momentânea  viagem pela memória que me levou ao passado.

 

O tempo é inexorável. Cruel, muitas vezes.

 

Porque impiedosamente degrada, enruga, definha.

 

Para nos salvarmos é importante resguardar a memória, perscrutar a beleza que permanece por dentro.

 

Nem que seja através dos silêncios.

 

Nem que seja através do olhar.

 

 

António Roque

 

06
Jun19

Um pensamento poético sobre Chaves...

1600-(46407)

 

Um pensamento poético sobre Chaves!?

 

Às vezes, há palavras que sugerem imagens, outras vezes, é ao contrário, isto é, as imagens sugerem palavras, como no caso de hoje em que uma imagem atual me fez recuar 100 anos atrás para a rever nas palavras de Mário de Sá Carneiro:

 

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o outro.

 

 

Mas o que eles não sabem, é que as imagens também se constroem…

 

 

 

01
Jun19

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

Cristina

 

O Brunheiro chorou por ti,
Quando tu morreste.

 

As lágrimas desceram tristes,
As encostas verdejantes
E desaguaram nas levadas
Que as conduziram ate aos nossos olhos.

 

As flores da tua casa
Perderam viçosidade
Com tristeza
E com a saudade.

 

Eras miúda,
eras menina,
foi assim que te conheci,
querida Cristina.

 

Sempre lúcida,
Sempre doce,
Sempre ao lado do progresso,
Com “ Abril dentro do peito”.

 

A literatura fascinava-te.
Os teus alunos e as palavras dos poetas empenhados,
Permaneceram até ao fim.

 

Foste a primeira “Ponta Solta” que definitivamente me deixou

 

Permite-nos que sejamos teus herdeiros
Da muita poesia que te corria no sangue.
Para nós amiga, não morreste!
Permaneces …
Eras miúda
Eras menina,
Quando te conheci,
Querida Cristina !

 

António Roque

 

 

 

 

17
Mai19

O Factor Humano

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Se Abril é o mês da Liberdade, Maio cheira ainda a cravos vermelhos e a trabalho...

É bom associarmos o trabalho às mãos, até porque este é humano e estas são também humanas.

 

800-gente-seara-1.jpg

 

Em tempos escrevi um conjunto de quadras a que chamei "mãos dadas".

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pró vento

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos para sonhar

E para proteger

Mãos para encantar

Ao adormecer

 

Há punhos erguidos

Em plena união

Garantes profundos

Da revolução

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medos da morte

 

E se as mãos não falam

É pura ilusão

Elas não se calam

Quer queiram, quer não

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinhos

 

                                 Manuel Cunha (pité)

 

 

 

16
Mai19

Cidade de Chaves - Um olhar e um poema

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AO ROSTO VULGAR DOS DIAS

 

Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

 

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

 

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

 

Ao rosto vulgar dos dias,

À vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

 

Imaginar é conhecer, portanto agir.

 

 

In "No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill

 

 

 

 

04
Mai19

Pedra de Toque...

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LUISA…

 

                        Acordo sereno.

                        Mas pouco depois fico intranquilo, porque os sonhos não são perfeitos.

                        Esta manhã despertei com o teu rosto moreno, salpicado por sensuais sardas, oriundas quiçá, da África distante.

                        Os teus olhos sorrindo, irradiavam o sabor quente da tua boca e dos teus lábios molhados que já foram meus.

                        O teu corpo emanava perfume que ainda hoje retenho.

                        Ficávamos pelo caminho.

                        Separou-nos a guerra injusta e a nossa pequenez para a vencermos.

                        Perdura em mim o teu desejo fremente de dizeres sim e a leveza e doçura com que me dizias não.

                        Tinhas nome mas davas-te ao apelido.

                        Sei que perguntaste por mim quando eu estava demasiado longe.

                        Sei que no regresso perguntei por ti mas a tua vida já levava rumo.

 

                        Não é justo só agora te pôr em crónica.

                        A tua ternura exigia que o fizesse há muito mais tempo.

                        Até porque nunca julguei, ser possível, gostar tanto tanto de uma mulher como gostei de ti,

                        Depois de definitivamente te perder…

 

António Roque

26
Abr19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

 

Grândola revisitada nos tempos cinzentos da troika…

 

 

.                                                              Nos tempos que vão correndo

.                                                              De crise e de recessão

.                                                              Eu cá digo: “não me rendo”

.                                                              Quero outra revolução

 

                                                             Se a História não se repete

.                                                              Nem por isso tenho pena

.                                                              Que eu quero tornar a ver-te

.                                                              Grândola livre e morena

 

.                                                              Sentir em ti um amigo

.                                                              Sonhar com fraternidade

.                                                              Voltar a contar contigo

.                                                              Juntar-te à nossa vontade

 

.                                                              Não sei até onde vamos

.                                                              Mas nem assim tenhas medo

                                                             Porque lá onde chegarmos

.                                                              Seja tarde ou seja cedo

 

.                                                              Vamos fazer uma festa

.                                                              Tu e eu e tantos mil

.                                                              Todos juntos, mais o Zeca

                                                             Voltar a cantar Abril

 

                                                               Manuel Cunha (pité)

 

1600-25-abril-2019-1

 

 

 

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