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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Abr21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Uma espécie de borboleta

 

 

A borboleta esvoaçava em meu redor,

como se tivesse qualquer coisa para me dizer,

mas não tínhamos forma de comunicar:

eu de borboleta tinha nada

e ela de ser humano muito menos!

 

 

O seu corpo,

embora frágil,

era grande

e as asas pretas e castanhas

com pintas brancas,

penso eu,

porque ela não parava de bater as asas,

mesmo parada batia as asas

a uma velocidade que me era impossível,

por esse facto,

ter a verdadeira noção das cores!

 

 

Eu não percebia,

porque não tinha coração de borboleta,

porque é que ela batia as asas

com aquela insistência

mesmo quando estava parada!

 

 

Pensava,

eu,

“as asas são para voar”,

diziam os manuais de biologia

e a borboleta,

mesmo parada,

batia as asas

e não voava!

 

 

Aquilo fazia-me confusão

e quanto mais intrigada eu estava

mais atenção lhe prestava.

 

 

Quis apanhá-la,

não para lhe perguntar porque batia as asas,

mas para ver a sua verdadeira cor,

como se isso importasse para alguma coisa,

curiosidade de criança!

 

 

Qual o quê,

à terceira tentativa

percebi logo que a missão era impossível!

 

 

Pensei então enganá-la,

armada em esperta,

pode-se dizer.

 

 

Pensei que se eu me imobilizasse

talvez ela deixasse de me ver

ou,

pelo menos,

de notar a minha presença

e que,

finalmente,

parasse com aquele aflitivo movimento

que me cansava,

pelos vistos,

mais a mim do que a ela!

 

 

Nada,

ela continuava com a mesma impaciência,

que,

se calhar,

não era impaciência nenhuma,

mas era assim que eu a via.

 

 

Comecei então

a fixar-me num ponto da asa,

porque desistir não é o meu forte,

para ver a cor que persistia,

consciente de que podia ser um engano,

porque a mistura das cores

faz outras diferentes.

 

 

Ela não parava um segundo,

eu começava a ficar irritada!

 

 

Parecia-me que sim,

que preto ela tinha,

castanho também

e as pintas,

de que cor podiam ser

a não ser branca?

 

 

Se eu lhe notava pintas

era porque a cor,

fosse qual fosse

eu não sabia,

mas contrastava com a cor do resto da asa!

 

 

Poderia não ser branca?

 

 

Ela aproximou-se então de mim,

pousou-me na mão

e eu sorri!

 

 

Como são as coisas!

 

 

Àquela pequena distância

a cor da borboleta

não tinha importância nenhuma!

 

 

Agora que eu podia distinguir perfeitamente

as cores e os desenhos

que elas faziam nas asas,

não me interessava já para nada!

 

 

Pousou na minha mão,

sem medo,

sem vergonha,

sem ressentimento,

como se me conhecesse bem

e gostasse de mim!

 

 

E foi bom,

fez-me sentir parte da Natureza!

 

 

Àquela distância,

assim tão perto de mim,

eu já não me questionava

sobre o bater incessante das asas,

nem achei que por isso

ela estava nervosa,

ou impaciente,

ou era tola

por bater as asas

quando estava parada!

 

 

Percebi,

com uma clareza difícil de explicar,

que aquilo era uma característica sua,

como nós temos tantas,

sem nos questionarmos sobre elas:

o pestanejar incessante dos olhos

é uma coisa parecida!

 

 

E não servem os olhos para ver?

 

 

Então porque os fechamos

e abrimos,

ininterruptamente,

tal e qual a borboleta bate as asas?

 

 

Deve ser bom ser borboleta

e conseguir transmitir

verdades e sentimentos

que muitos seres humanos não são capazes,

pura e simplesmente

não conseguem!

 

 

Sim,

talvez não queiram,

é uma forma subtil

de dizer a mesma coisa!

 

 

No dia seguinte

acordei cheia de saudades dela:

porque é que as borboletas

são como a felicidade,

só duram um dia?!

 

 

Cristina Pizarro

 

06
Jan21

Crónicas de assim dizer

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Nostalgia ou Angústia!

 

 

 

Às vezes tenho saudades do que nunca tive,

mas que podia ter tido,

não fossem uns pormenores irrisórios,

umas circunstâncias indeléveis,

acasos que aceitei como sendo

e não o eram,

destinos que julguei traçados

e não estavam!

 

 

Alturas em que disse não

sem saber porquê,

só porque não tinha um porquê para dizer sim!

Como se isso fosse uma condição,

uma coisa necessária,

um pré-conceito

que hoje me parece,

tardiamente,

ridículo!

 

 

Não lamento,

porque não posso lamentar o ter sido eu

quando eu era o que fui!

Também não posso lamentar um presente

que não posso mudar

quando não depende de mim!

E do futuro,

que poderei eu dizer?

Nada!

Não me pertence,

não sou dona dele!

 

 

Eu sou um simples ser humano,

único como todos,

que tudo quer

e nada tem,

por isso mesmo!

Porque acredito,

aqui ingenuamente,

que tudo depende de mim,

mesmo o que depende dos outros!

Porque acredito num Deus inexistente

que é justo,

que é equilibrado,

que nos ilumina no caminho certo,

que cada um de nós deve ou tem que percorrer!

E esse Deus pouco existe!

Ninguém acredita nele,

ninguém espera que ele chegue,

ninguém está à espera que ele se manifeste!

 

 

Só os poetas doidos,

inspirados numa Deusa

envolta em tecidos brancos de linho ou organza,

acreditam que a salvação do mundo

está em cada um de nós!

Que ela não depende de ti

nem de mim!

Que está nos astros,

no Universo,

no que ele tem de infinito,

onde tudo se inclui

excepto o imprevisível ser humano!

 

 

Um dia,

acredito piamente,

vão nascer-me umas asas brancas

e atingirei um céu,

embora deserto do ser absoluto,

onde a paz é o único instrumento,

a estrela que nos guia

sem precisar que haja um destino!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

09
Dez20

Crónicas de assim dizer

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Como que por magia

 

Cierra la ventana,

cierra la puerta,

cierra los ojos,

cierra los oídos,

cierra todo lo que puedas,

incluso el pensamiento,

y quédate quieto.

 

Relájate cuanto puedas

y déjate dormir

sin miedos.

 

Deja que venga el sueño,

deja que venga el sueño

y de repente te encontrarás

en un Universo oscuro

relleno de un millón de estrellas.

 

Cada una de ellas

representa,

o simboliza,

una cosa que puedes tener.

 

Cuando eso sea,

cuando acontezca,

puedes abrir los ojos,

los oídos,

la ventana,

la puerta

y despertar el pensamiento,

pero hazlo despacio,

no estropees todo

con tu ansiedad,

hazlo despacio

con una cadencia

como la del tiempo,

una cosa de cada vez.

 

Las cosas vienen una por una,

de la misma forma

que se han ido.

 

No depende de ti

el irse

ni el venir!

 

No te creas,

casi nada depende de ti,

aún que a veces

te parezca lo contrario,

que el mundo

gira en tus manos,

no,

te equivocas!

 

Desde Galileo que el mundo

gira como loco

dando vueltas sin parar

en torno a si mismo

y en vuelta del Sol,

esa estrella tan distinta

que no nace para todos

como dicen,

pero solo para algunos!

Si,

para esos mismos,

los iluminados

que podrás ser tú,

yo

o el!

Eso

también no depende de ti!

 

No quiero decir

que por eso

te vuelvas la espalda

o que cruces los brazos,

no,

quiero decir

que no hay porque llorar

porque hoy la lluvia

no nos permite ver el Sol.

 

Mañana,

quizás no lo sepas hoy

ni siquiera mañana

si no abres lo suficiente los ojos,

el Sol podrá brillar

más que nunca en tu hogar,

dentro de ti,

en tu alma,

bajo tu piel!

 

Ni siquiera necesitarás

que alguien te lo diga,

tú mismo

sentirás un calor

que viene sin que sepas

bien de donde

pero oirás una voz sin timbre

que te dirá:

 

“Si,

eres tú,

tú mismo

lo que hoy he escogido

como el cuerpo

donde a partir de ahora

habitara un ser

que te hará feliz

por toda tu vida.”

 

Y en tus labios

se va a esculpir una sonrisa

que nadie va a entender,

pero que vas a sentir

como si una nueva vida,

tuya,

empezase ahí,

en ese momento,

justo en ese local,

que podría ser cualquiera

y en tu pensamiento,

como que, por instinto,

te va a venir una frase

que quizás años más tarde

vas a entender

con total y perfecta lucidez:

 

“Hoy,

he nacido yo!”  

 

 

Cristina Pizarro

 

24
Nov20

Cidade de Chaves

Jardim Público e Rosalía de Castro

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Ao cruzar aquela porta eu já sabia que qualquer coisa ia acontecer, pois acontece sempre qualquer coisa dentro daqueles muros, quase sempre regressos, alguns, tão longínquos quanto a infância, felizes quase todos, mas às vezes, os meus passos levam-me para outros caminhos e outros regressos sem infâncias, para caminhos só nossos, difíceis de explicar… desta vez, talvez pela neblina, levaram-me até duas quadras de um poema de uma poetisa que também é nossa – “ Miñaterra, miña terra/ terra donde eu me criei,/ hotiña que quero tanto,/ figueirñas que pratei,//prados, ríos, arboredas/ pinares que move o vento,/paxariños piadores, casiña do meu contento,” – Rosalía de Castro. Pois já que as portas desta vez se abriram para a poesia, ficam mais três poemas de Rosalía.

 

1600-(44891)

 

¿Que pasa ò redor de min?

¿Que me pasa qu'eu non sei?

Teño medo d'un-ha cousa

Que vive e que non se vé.

Teño medo á desgracia traidora

Que ven, e que nunca se sabe onde ven.

 

 

Alguns din, ¡miña terra!

Din outros, ¡meu cariño!

Y este, ¡miñas lembranzas!

Y aquel, ¡os meus amigos!

Todos sospiran, todos,

Por algún ben perdido.

Eu sô non digo nada,

Eu sô nunca sospiro,

Qu'ó meu corpo de terra

Y ó meu cansado esprito,

Adonde quer qu'eu vaya

 Van conmigo.

 

1600-(44887)

 

Ala, pó-la alta nòite,

A luz d'a triste e morimunda lámpara,

Ou antr'á negra escuridad medosa,

O vello ve pantasmas.

Uns son árbores muchos, e sin follas,

Outros, fontes sin auguas,

Montes qu'a neve eternamente crube,

Ermos que nunca acaban.

 Y ó amañecer d'o dia

Cando c'á ultima estrela aqueles marchan

Outros veñen mais tristes e sañudos,

Pois a verdade amarga,

Escrita trân n'os apagados ollos

E n'as asienes calvas.

Non digás nunca, os mozos, que perdeches

A risoña esperanza,

D'o qu'a vivir começa sempr'é amiga:

¡Sô enemiga mortal de quen acaba!...

 

Rosalía de Castro Murguía, in VAGUEDÁS – FOLLAS NOVAS

 

05
Nov20

Crónicas de assim dizer

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A vida foge-nos

 

 

A vida foge-nos por entre os dedos,

porque não dizemos o que pensamos,

porque não fazemos o que podemos

e porque não mostramos o que sentimos!

 

Enquanto esperamos que a vida se defina,

a vida foge-nos.

Enquanto ansiamos pelo que queremos,

a vida foge-nos.

Enquanto acreditamos que a quem amamos

venha a sentir o mesmo,

a vida foge-nos.

 

E por mais que insistamos em vivê-la

e nos agarremos de forma desesperada

ao tempo e ao espaço que nos resta e nos consome,

há sempre quem diga: Podes fazer mais e temos tempo!

 

E por mais que nos dediquemos a ela ou a alguém

é sempre um nada ou um muito pouco

comparado com o que podemos e sabemos!

 

E,

embora eu diga o que penso,

faça o que posso

e mostre o que sinto,

a vida foge-me.

 

Para onde ela iria se eu não fosse assim!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

05
Set20

Pedra de Toque

Poesia

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SISSI DOS MEUS QUINZE ANOS

 

 

Na rádio o locutor anunciou friamente a trágica nova.

 

Num apartamento em Paris, sem vida descobriram teus olhos, teu corpo.

 

Fiquei triste, triste ao saber-te morta.

 

Porque resplandecente te recordo – ai os meus quinze anos – ao ritmo ondulante da valsa, encantando a corte nos braços do príncipe.

 

Eras a Sissi dos olhos líquidos e fundos.

 

Esbagoámos, eu e minha avó, no velho Cine-Teatro ao ver-te bela e feliz no fim da fita iluminando os paços imperiais com o teu sorriso eterno.

 

Agora, a lágrima, vergonhosamente, correu para dentro.

 

A Sissi permaneceu contudo intocável na memória adolescente.

 

Depois, naturalmente, viraste mulher ao compasso da vida.

 

Na piscina dos teus olhos, os jovens de então mergulhámos adultos no sentimento, no perfume do teu corpo sensual.

 

Magistralmente, inventaste na tela a mulher de classe, lindíssima e apaixonada, que semeou carradas de talento e beleza entre os que te aplaudimos.

 

Paris que te acolheu, viu-te pela derradeira vez.

 

Paris que tu amavas de Champs-Elysées a Montmartre.

 

Soube-te, mais tarde, doente pelos dramas da vida.

 

Os caminhos desencontrados do amor e a morte violenta do teu filho gastaram-te.

 

Mas pela Sissi dos meus quinze anos, pela Romy Scheneider, pelo teu talento, pelos teus olhos verdes fundos, pelo teu sorriso quente.

 

Aqui fica a minha prece que, quando a memória desperta, ainda rezo com enorme saudade.

 

 

António Roque

 

13
Abr20

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

Céu muito nublado

 

– Não vás com tanta velocidade.
– Achas que sou oligofrénico?
– Não. Nem por isso. Mas o que é que tem isso a ver com a velocidade?
– Tudo tem a ver com tudo.
– Não sei se és oligofrénico ou não. Tenho a certeza é que aceleras muito dentro das cidades.
– Só dentro das cidades?
– E fora delas. Tu aceleras em qualquer lado.
– Mas achas mesmo que sou oligofrénico?
– O que tu és é maluco.

– Então achas que sou mesmo oligofrénico.
– O que tu és é um chato.
– Modera-te. Oligofrénico sim, chato nunca.
– Que nuvens tão escuras.
– Não disfarces.
– Vem aí uma trovoada das grandes.
– Não desvies a conversa.

– Deixei a roupa a secar na varanda e vai molhar-se toda.
– Eu preocupado com a minha oligofrenia e tu pensas só na tua roupa! És uma ingrata.
– A roupa também é tua e dos garotos. E a ingratidão tem as costas largas.
– Tens razão, as nuvens são mesmo ameaçadoras.
– Eu não te disse?
– Achas que sou mesmo oligofrénico?

– Não, não acho. O Mundo é que não te compreende.
– Assim está melhor. Mas não dizes isso só para me agradar, pois não?
– Não.

– Não?
– Não.
– Escusas de ser tão evasiva.
– Eu não sou evasiva, sou sincera e curta de palavras.
– Então achas que não sou oligofrénico? Não dizes nada?
– Vai mais devagar que isso passa. Temos muito tempo para chegar.
– Mas não disseste que querias chegar a casa rapidamente para apanhares a roupa que se pode molhar?
– Que se lixe a roupa. Eu quero é chegar a casa tranquila e inteira.
– Achas que sou oligofrénico? Achas ou não? Diz a verdade.

– …

– Está bem, eu vou reduzir a velocidade. Começou a chover. Eu gosto da chuva. E tu?
– Olha, liga o rádio.
– O teu basta.
– Achas que sou oligofrénico?
– I’m singing in the rain…

 

Ali e a semiótica

O meu amigo Mário revelou-me que anda triste porque agora já não consegue encontrar indivíduos. Confesso-vos que não percebi bem o queixume. Eu sou mais terra a terra. Ele é que gosta de pensar sobre o que os outros pensam ou não pensam, sobre o que significam determinadas palavras fora do contexto ou dentro dele, de refletir sobre a arbitrariedade das ideologias totalitárias ou sobre a indiferenciação ideológica e política que atravessamos. Fora isso, é até bom rapaz, um eficaz chefe de família, um atinado adepto do F. C. Porto e um rigoroso praticante de desporto, nomeadamente das corridas de karting. Na segunda-feira passada abandonou na mesa do café os seus amigos mais chegados. E isto porque, segundo o próprio, sendo todos de orientação política, futebolística e religiosa diferente, agora estão sempre de acordo. Parecem parvos, diz ele para quem o quer ouvir. Atualmente dizem e defendem todos o mesmo. E repete muitas vezes a frase: “Cada vez existem mais pessoas com as mesmas ideias.” E isso é assustador. Eu também acho que é. Mas penso que não é motivo suficiente para abandonar a mesa das suas amizades. Mesa que frequentou e animou durante 20 longos anos. Foi ali que debateu a questão da semiótica do marxismo, a tática e estratégia da guerra do Iraque na perspetiva de um chinês xintoísta, a liberdade aparente dos ricos, a penúria simbólica dos deputados europeus, a ontologia das operações matemáticas, a liberdade sexual em contexto cibernético, o direito internacional dos cães de caça, a influência da cor dos olhos na reprodução assistida, a importância da linguagem no crescimento dos antúrios e por aí fora, passando pela requalificação da Galinheira, o simbolismo da curva do Caneiro, a inteligência sofisticada dos embriões dos caracóis e o egocentrismo das estrelas-do-mar. A mãe do Mário disse-me que o filho falou na sua barriga, quando andava grávida de sete meses. Por isso ele é tão predestinado.

 

Epístola segunda

Escrevo-te ainda de C. Por aqui continuo a gastar os meus parcos rendimentos mas faço-o cada vez mais com redobrado prazer. O prazer de gastar, de nada deixar a ninguém, nem sequer à Misericórdia, nem a nenhuma outra instituição, seja ela de caridade, cultural, cívica, militar ou protetora dos animais e afins. Por cá a gente atrapalha-se nas ruas. São tantos os que por aqui andam de um lado para o outro que parece que o ar para respirar nos falta. Este formigueiro em constante movimento por vezes põe-me louco. Como louco fiquei quando soube que o canguru que deixei à tua guarda desapareceu na noite. É que eu tinha uma consideração peculiar pelo animal. Além de ser de estimação, era um ser estranho, mas profundo. Eu costumava falar muito com ele. E ele ouvia-me com muita atenção, interesse e bonomia. Interlocutor assim nem mesmo tu o consegues ser. Digo-te que ando um pouco desconfiado que foste tu quem o deixou fugir. Bem, fugir não, pois o animal não era de fugidas. Estava muito habituado à minha casa. Andava pelo jardim com muito estilo, cantava lindas canções de embalar que ouvia à governanta, assobiava com bastante intensidade e tocava muito bem o tambor. Por vezes até tratava da horta e tinha um carinho especial pelo talhão dos tomates e das cebolas. Desconfio que o expulsaste de casa ou o vendeste ao circo. Se tal fizeste juro que to farei pagar em duplicado, pois sou muito bem capaz de te esganar a catatua que te trouxeram do Brasil e depois assá-la e comê-la na companhia do meu cão de caça. Que te desfizesses do esquilo esquizofrénico ainda vá que não vá, agora expulsares-me o canguru da quinta ou vendê-lo ao circo, isso é uma afronta muito séria à minha pessoa e à nossa profunda amizade. E sabes bem que uma amizade pode resistir a tudo menos aos golpes baixos e aos ciúmes. Como me dói muito a cabeça, vou-me até ali à farmácia comprar umas aspirinas. Despeço-me até à próxima, enquanto aguardo que me restituas o canguru, senão vai ser o cabo dos trabalhos para nos tornarmos a dar como irmãos. Que é aquilo que somos na realidade. Envio-te este postal com um pedido de desculpas, é que no quiosque não havia outro e este é um pouco enigmático, mas nalguma coisa tinha de escrever. PS - Peço-te encarecidamente que continues a dar de comer e beber aos meus queridos animais. Especialmente à serpente coral do Texas (Micrurus tener).

 

João Madureira

 

27
Mar20

O Factor Humano

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Resistir para transformar

 

Em tempos difíceis, todos temos de desempenhar múltiplas funções. O enquadramento humanista deve estruturá-las a todas. Ficam dois textos distintos, um em que, como médico, abordo directamente a situação que estamos a viver. Outro em que escrevo alguns poemas sobre as mãos. Aquelas que temos de lavar uma e outra vez, mas nunca como Pôncio Pilatos. Mãos que servem também para escrever e para tanto mais como procuro deixar nestes poemas.

 

 

As responsabilidades de cada um

 

Os dias actuais são de grande preocupação perante a actual pandemia de Coronavirus (Covid-19).

 

É altura de cada um assumir as suas responsabilidades, modificar comportamentos, informar-se e informar. Sem pânico, mas respeitando uma situação grave.

 

O quadro é muito sério no Mundo, na Europa e também em Portugal. mas é possível controlar a situação e ultrapassarmos esta "curva apertada".

 

A China é a prova disso. Há um mês atrás, a sua situação parecia descontrolada. Mas, com o empenho das autoridades, dos profissionais de saúde, e de cada um dos chineses, estão actualmente a ultrapassar a situação. Para isso foi preciso investir, construir e equipar hospitais em tempo recorde, mobilizar meios humanos e materiais. Foi indispensável disciplina e persistência em larga escala. Houve empenho e respeito pelo outro.

 

É importante que rapidamente reflictamos somos a estratégia implementada, porque ela funcionou. A taxa de mortalidade da infecção por Coronavirus é mais baixa do que aparentam os terríveis números de Itália. Muito provavelmente em Itália não foi feito um despiste em larga escala na população. Já na Coreia do Sul, onde esse despiste foi feito, a taxa de mortalidade parece ser 5 a 10 vezes menor do que a de Itália.

 

De qualquer forma, o cenário de atingirmos milhões de infectados na Europa é o mais provável. mas tal não é motivo para desistirmos de controlar a propagação do vírus. Assim a contenção nos contactos físicos, o respeitar a "etiqueta respiratória" em relação à tosse e aos espirros, evitar contactos próximos para além do estritamente necessários é importante.

 

E lavar as mãos frequentemente, com água e sabão, lavar as mãos, lavar as mãos... (ou desinfectá-las com solução alcoólica).

 

Em Portugal temos um população muito envelhecida e debilitada, parte importante dela em lares de terceira idade. Serão eles principalmente os mais frágeis perante a contaminação.

 

É necessário ouvir as recomendações da Direcção Geral de Saúde (DGS) e também é importante que estas recomendações sejam adequadas à situação e sejam feitas no momento certo.

 

É importante que a DGS ouça os profissionais de saúde que estão no terreno.

 

Os profissionais de saúde tem de ser protegidos, pois eles são indispensáveis neste processo e são também os mais expostos ao risco de contaminação.

 

Felizmente temos um Serviço Nacional de Saúde (SNS), que apesar da desnatação e do empobrecimento que sofreu nos últimos anos, é público, está ao serviço de todos e permite uma articulação directa com as estruturas de decisão política em saúde.

 

O nosso SNS tem profissionais tecnicamente competentes, de uma grande dedicação e com grandes qualidades humanas. É necessário dar-lhes meios materiais e financeiros, de forma a uma rápida decisão e uma rápida actuação. A situação vai ser crítica, provavelmente, na área dos cuidados intensivos, onde a resposta poderá estar limitada por falta de instalações, de equipamentos e de recursos humanos Tal era o alerta há muito tempo dos profissionais de saúde, dos sindicatos de médicos e de enfermeiros e da própria Ordem dos Médicos.

 

Mas o SNS tem de responder ao mesmo tempo a todas as outras necessidades de saúde da população, adaptando-se, como é evidente, a uma situação de excepção. Senão muitos serão os sofrimentos e muitas serão as mortes mesmo daqueles que não contactarem com o vírus.

 

As responsabilidades são também do lado do Governo não pode haver mais atrasos na definição de estratégias. Não pode haver mais erros. Tem de haver um ágil, rápido e eficaz apetrechamento a todos os níveis dos hospitais públicos. As cadeias de comando têm de incluir profissionais com experiência e com capacidade de liderança. Temos de saber ouvir de saber esvaziar conflitos desnecessários, porque esta vai ser uma maratona, não vai ser um sprint.

 

 Há muito que eu e outros temos alertado para os perigos do enfraquecimento do SNS.

 

Agora não há margem para adiamentos.

 

Mas o período que atravessamos não é para divergência, é para convergência. Na sociedade tem de predominar a solidariedade e o humanismo. E estou convicto que não vamos falhar.

 

 

 

As Mãos (1)

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

 

As Mãos(2)

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pro vento

 

 

As Mãos(3)

 

Há mãos pra sonhar

E pra proteger

Mãos para encantar-me

Ao adormecer

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinho

 

 

As Mãos(4)

 

Vidas miseráveis

De dedos que sofrem

Das mãos que são hábeis

Toquem no que toquem

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medo da morte

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

28
Fev20

O Factor Humano

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Os rios começam a anunciar a pesca...

Como quando chove , crescem os poemas que nascem dos rios

Alguns transbordaram para este blog, outros chegaram ao mar...

 

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Ao meu pai

 

No palácio , em Segirei ,tudo é singelo

Abertas as portadas a nascente

Aceso o lume e morto o vitelo

A baixela já limpa e reluzente

 

Aprumam-se os amigos em abraços

Afina-se a orquestra novamente

Aguardam-se os heróis que em largos passos

Regressam de pescar no rio Mente

 

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Pesca

 

Para todo aquele que pesca

Toda a chuva é uma festa

Água que vem lá de cima

De um rio que não termina

 

Baptizado universal

Para quem nunca pe(s)cou

É a vida ao natural

Dum pe(s)cador como eu sou

 

1600-s-goncalo (107)-pite.jpg

 

 

Não há mar

 

Sou apenas daqueles

Que conhecemos rios

Que desaguam nas serras

Sem nunca se confundirem com o mar.

 

1600-furadouro (193)-pite.jpg

 

 

O meu Mar

 

O mar mais que uma promessa

Ele é túmulo ele é cama

Daquele que nele adormece

Ou doutro que nela ama

 

De quem lá vai trabalhar

Ou de quem brinca a pescar

Há mar no fim do amar

Podes amar-me sem mar?

 

E não há mar sem maré

Sem água que volte e vá

Ora perdemos o pé

Ora a água já não está.

 

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

11
Jan20

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

Onde?

 

Onde é tu andas?

Onde pára o teu sorriso?

Não te vi de noite,

Nem te vi de dia!...

 

Procurei-te no caudal do rio,

E nas flores que restam.

Nem o teu sorriso murchou com as flores

Nem se desfez com a força do caudal.

Depois da chuva, chegou o frio que penetra.

Ontem a muita música que ouvi,

Inundou-me a alma, com a emoção que se espalhou em mim.

 

O meu país, vai caminhando seguro e sereno.

Entretanto, eu queria que me aquecesses,

Com os teus olhos, com as tuas mãos, com a tua boca.

 

A minha entrada no novo ano,

Seria mais feliz!...

Mas é melhor viver sem felicidade,

Do que sem amor.

 

Amar-te-ei para sempre!

  

António Roque

 ( chaves,6/1/2020)

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