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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Ago19

Pedra de Toque - O Olhar

pedra de toque copy.jpg

 

 

O OLHAR

 

 

Se não eras tu, era alguém com os teus olhos.

 

Verdes, fundos, mas mais baços, mais tristes...

 

Outrora eram brilhantes e sorriam a cada esgar.

 

Ruborizavam quando no jardim atapetado de Outono te murmurava que contigo encantaria todas as noites e que sem ti o futuro seria breu.

 

Passaram cinquenta longos anos.

 

No bulício da rua na grande cidade, revi o teu olhar sedutor, envolvo em pequenas rugas que vincavam tua pele sedosa.

 

O teu semblante e o teu corpo não exalavam a frescura que ainda consegui respirar na momentânea  viagem pela memória que me levou ao passado.

 

O tempo é inexorável. Cruel, muitas vezes.

 

Porque impiedosamente degrada, enruga, definha.

 

Para nos salvarmos é importante resguardar a memória, perscrutar a beleza que permanece por dentro.

 

Nem que seja através dos silêncios.

 

Nem que seja através do olhar.

 

 

António Roque

 

06
Jun19

Um pensamento poético sobre Chaves...

1600-(46407)

 

Um pensamento poético sobre Chaves!?

 

Às vezes, há palavras que sugerem imagens, outras vezes, é ao contrário, isto é, as imagens sugerem palavras, como no caso de hoje em que uma imagem atual me fez recuar 100 anos atrás para a rever nas palavras de Mário de Sá Carneiro:

 

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o outro.

 

 

Mas o que eles não sabem, é que as imagens também se constroem…

 

 

 

01
Jun19

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

Cristina

 

O Brunheiro chorou por ti,
Quando tu morreste.

 

As lágrimas desceram tristes,
As encostas verdejantes
E desaguaram nas levadas
Que as conduziram ate aos nossos olhos.

 

As flores da tua casa
Perderam viçosidade
Com tristeza
E com a saudade.

 

Eras miúda,
eras menina,
foi assim que te conheci,
querida Cristina.

 

Sempre lúcida,
Sempre doce,
Sempre ao lado do progresso,
Com “ Abril dentro do peito”.

 

A literatura fascinava-te.
Os teus alunos e as palavras dos poetas empenhados,
Permaneceram até ao fim.

 

Foste a primeira “Ponta Solta” que definitivamente me deixou

 

Permite-nos que sejamos teus herdeiros
Da muita poesia que te corria no sangue.
Para nós amiga, não morreste!
Permaneces …
Eras miúda
Eras menina,
Quando te conheci,
Querida Cristina !

 

António Roque

 

 

 

 

17
Mai19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Se Abril é o mês da Liberdade, Maio cheira ainda a cravos vermelhos e a trabalho...

É bom associarmos o trabalho às mãos, até porque este é humano e estas são também humanas.

 

800-gente-seara-1.jpg

 

Em tempos escrevi um conjunto de quadras a que chamei "mãos dadas".

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pró vento

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos para sonhar

E para proteger

Mãos para encantar

Ao adormecer

 

Há punhos erguidos

Em plena união

Garantes profundos

Da revolução

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medos da morte

 

E se as mãos não falam

É pura ilusão

Elas não se calam

Quer queiram, quer não

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinhos

 

                                 Manuel Cunha (pité)

 

 

 

16
Mai19

Cidade de Chaves - Um olhar e um poema

1600-(45512)

 

AO ROSTO VULGAR DOS DIAS

 

Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

 

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

 

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

 

Ao rosto vulgar dos dias,

À vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

 

Imaginar é conhecer, portanto agir.

 

 

In "No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill

 

 

 

 

04
Mai19

Pedra de Toque...

pedra de toque copy.jpg

 

LUISA…

 

                        Acordo sereno.

                        Mas pouco depois fico intranquilo, porque os sonhos não são perfeitos.

                        Esta manhã despertei com o teu rosto moreno, salpicado por sensuais sardas, oriundas quiçá, da África distante.

                        Os teus olhos sorrindo, irradiavam o sabor quente da tua boca e dos teus lábios molhados que já foram meus.

                        O teu corpo emanava perfume que ainda hoje retenho.

                        Ficávamos pelo caminho.

                        Separou-nos a guerra injusta e a nossa pequenez para a vencermos.

                        Perdura em mim o teu desejo fremente de dizeres sim e a leveza e doçura com que me dizias não.

                        Tinhas nome mas davas-te ao apelido.

                        Sei que perguntaste por mim quando eu estava demasiado longe.

                        Sei que no regresso perguntei por ti mas a tua vida já levava rumo.

 

                        Não é justo só agora te pôr em crónica.

                        A tua ternura exigia que o fizesse há muito mais tempo.

                        Até porque nunca julguei, ser possível, gostar tanto tanto de uma mulher como gostei de ti,

                        Depois de definitivamente te perder…

 

António Roque

26
Abr19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

 

Grândola revisitada nos tempos cinzentos da troika…

 

 

.                                                              Nos tempos que vão correndo

.                                                              De crise e de recessão

.                                                              Eu cá digo: “não me rendo”

.                                                              Quero outra revolução

 

                                                             Se a História não se repete

.                                                              Nem por isso tenho pena

.                                                              Que eu quero tornar a ver-te

.                                                              Grândola livre e morena

 

.                                                              Sentir em ti um amigo

.                                                              Sonhar com fraternidade

.                                                              Voltar a contar contigo

.                                                              Juntar-te à nossa vontade

 

.                                                              Não sei até onde vamos

.                                                              Mas nem assim tenhas medo

                                                             Porque lá onde chegarmos

.                                                              Seja tarde ou seja cedo

 

.                                                              Vamos fazer uma festa

.                                                              Tu e eu e tantos mil

.                                                              Todos juntos, mais o Zeca

                                                             Voltar a cantar Abril

 

                                                               Manuel Cunha (pité)

 

1600-25-abril-2019-1

 

 

 

11
Abr19

Momentos de poesia, ou talvez não!

1600-(29980)

 

A ponte é apenas uma passagem

      Para a outra margem

                      Não interessa quem são

De onde vêm

                         Para onde vão

Indiferentes

                   Passam

                                               E

                                                             Passarão…

 

 

- Pois, bom passarão tu me saíste, ó poeta! Mas eu prefiro ter os pés bem assentes em terra, levantar voo e ir com as aves…

 

- Pra quê? Pra onde? Vais ter sempre que poisar…

 

- Se me apetecer poiso, se não, não!

 

- Se não, não, o quê!?

 

- Se não me apetecer!

 

- Ah!

 

 

 

29
Jan19

Uma imagem com nevoeiro e uma homenagem

1600-(41721)

 

“esticalirica e caixadóculos” é mais ou menos essa a imagem que retenho dele, da televisão, da “Visita da Cornélia”.  Notava-se que não era um homem qualquer, da cultura, com certeza. Vim a saber que era poeta, comprei uns livros dele que passaram a ter lugar na mesinha de cabeceira. Como as letras e arte só dão de comer a alguns, teve de se dedicar à publicidade, é o pai do  “há mar e mar, há ir e voltar”, mas esqueceu-se de lhe dar o nome, recordo ouvi-lo dizer o quanto lamentava, podia estar rico…

 

Hoje, depois de selecionar a imagem para vos deixar aqui, veio-me logo à cabeça um poema seu, que não resisto à sua partilha:

 

Homem

 

INSOFRIDO TEMÍVEL ADAMADO PURO SAGAZ INTELIGENTÍSSIMO MODESTO RARO CORDIAL EFICIENTE CRITERIOSO EQUILIBRADO RUDE VIRTUOSO MESQUINHO CORAJOSO VELHO RONCEIRO ALTIVO ROTUNDO VIL INCAPAZ TRABALHADOR IRRECUPERÁVEL CATITA POPULAR ELOQUENTE MASCARADO FARROUPILHA GORDO HILARIANTE PREGUIÇOSO HIEROMÂNTICO MALÉVOLO INFANTIL SINISTRO INOCENTE RIDÍCULO ATRASADO SOERGUIDO DELEITÁVEL ROMÂNTICO MARRÃO HOSTIL INCRÍVEL SERENO HIANTE ONANISTA ABOMINÁVEL RESSENTIDO PLANIFICADO AMARGURADO EGOCÊNTRICO CAPACÍSSIMO MORDAZ PALERMA MALCRIADO PONDEROSO VOLÚVEL INDECENTE ATARANTADO BILTRE EMBIRRENTO FUGITIVO SORRIDENTE COBARDE MINUCIOSO ATENTO JÚLIO PANCRÁCIO CLANDESTINO GUEDELHUDO ALBINO MARICAS OPORTUNISTA GENTIL OBSCURO FALACIOSO MÁRTIR MASOQUISTA DESTRAVADO AGITADOR ROÍDO PODEROSÍSSIMO CULTÍSSIMO ATRAPALHADO PONTO MIRABOLANTE BONITO LINDO IRRESISTÍVEL PESADO ARROGANTE DEMAGÓGICO ESBODEGADO ÁSPERO VIRIL PROLIXO AFÁVEL TREPIDANTE RECHONCHUDO GASPAR MAVIOSO MACACÃO ESFOMEADO ESPANCADO BRUTO RASCA PALAVROSO ZEZINHO IMPOLUTO MAGNÂNIMO INCERTO INSEGURÍSSIMO BONDOSO GOSMA IMPOTENTE COISA BANANA VIDRINHO CONFIDENTE PELUDO BESTA BARAFUNDOSO GAGO ATILADO ACINTOSO GAROTO ERRADÍSSIMO INSINUANTE MELÍFLUO ARRAPAZADO SOLERTE HIPOCONDRÍACO MALANDRECO DESOPILANTE MOLE MOTEJADOR ACANALHADO TROCA-TINTAS ESPINAFRADO CONTUNDENTE SANTINHO SOTURNO ABANDALHADO IMPECÁVEL MISERICORDIOSO VOLUPTUOSO AMANCEBADO TIGRINO HOSPITALEIRO IMPANTE PRESTÁVEL MOROSO LAMBAREIRO SURDO FAQUISTA AMORUDO BEIJOQUEIRO DELAMBIDO SOEZ PRESENTE PRAZENTEIRO BIGODUDO ESPARVOADO VALENTE SACRIPANTA RALHADOR FERIDO EXPULSO IDIOTA MORALISTA MAU NÃO-TE-RALES AMORDAÇADO MEDONHO COLABORANTE INSENSATO CRAVA VUKGAR CIUMENTO TACHISTA GASTO IMIRALÃO IDOSO IDEALISTA INFUNDIOSO ALDRABÃO RACISTA MENINO LADRADOR POBRE-DIABO ENJOADO BAJULADOR VORAZ ALARMISTA INCOMPREENDIDO VÍTIMA CONTENTE ADULADO BRUTALIZADO COITADINHO FARTO PROGRAMADO IMBECIL CHOCARREIRO INAMOVÍVEL..."

 

In  “Entre a Cortina e a Vidraça” de Alexandre O'Neill

 

 

 

08
Jan19

Momentos do Tabolado (Uma Espécie de Canção)

1600-(50062)

 

 

Acompanhe-se a leitura do texto e imagem com a música de Pedro Abrunhosa, da canção “ Momento (Uma Espécie de Céu)".

 

 

Momentos do Tabolado (Uma Espécie de Canção)

 

Um cão que se vai

Um homem que vem

A folha que cai

À beira do rio

O chapéu que sustém

Na cabeça com frio

Cachecol ao pescoço

A olhar para o lado

Num andar de moço

O Tâmega segue o seu fado

Num passear discreto

A rapariga debita

Sentimentos com os dedos

Quiçá de um amor secreto

Que nela habita

Ou serão outros enredos

Mais uma árvore despida

Dois bancos que esperam alguém

Com o azul do céu ainda acordado

A caminho da despedida

Com um sol já do dia cansado

E umas escadas que não sobem ninguém

Mais ao lado dois corações

Se as crianças atinarem no feitio

Em vez de dois serão três

E a mãe a fotografar as emoções

Da inocência a caminhar para o Estio

E assim foi um momento, uma vez

Ao fim da tarde, no Tabolado

De um domingo qualquer

Onde entram um Homem e um cão

Uma rapariga, duas crianças e uma mulher

Onde nem sequer falta o amor amarrado

Num cadeado e um

E com esta me bou

Tal como o cão, logo no início se foi

Nesta espécie de poema ou canção

Ou…

 

Até amanhã!

 

Mas antes, fiquem com o “Momento” de Pedro Abrunhosa

 

 

 

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