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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Mai19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Se Abril é o mês da Liberdade, Maio cheira ainda a cravos vermelhos e a trabalho...

É bom associarmos o trabalho às mãos, até porque este é humano e estas são também humanas.

 

800-gente-seara-1.jpg

 

Em tempos escrevi um conjunto de quadras a que chamei "mãos dadas".

 

Há mãos que se dão

E mãos que nos dão

Toma a minha mão

Não digas que não

 

Há mãos que são mães

Outras que são pão

E estão quando vens

E nunca se vão

 

Há mãos que nos dedos

Têm tal talento

Que rasgam sem medos

Caminhos pró vento

 

Há mãos que ao fazer

Brotam dignidade

Orgulho de ter

Tal capacidade

 

Há mãos para sonhar

E para proteger

Mãos para encantar

Ao adormecer

 

Há punhos erguidos

Em plena união

Garantes profundos

Da revolução

 

Ao darmos as mãos

Nós somos mais fortes

Rompemos as rimas

Sem medos da morte

 

E se as mãos não falam

É pura ilusão

Elas não se calam

Quer queiram, quer não

 

Mas mesmo sem mãos

Teremos carinhos

Dedos da emoção

De estarmos juntinhos

 

                                 Manuel Cunha (pité)

 

 

 

16
Mai19

Cidade de Chaves - Um olhar e um poema

1600-(45512)

 

AO ROSTO VULGAR DOS DIAS

 

Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

 

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

 

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

 

Ao rosto vulgar dos dias,

À vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

 

Imaginar é conhecer, portanto agir.

 

 

In "No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill

 

 

 

 

04
Mai19

Pedra de Toque...

pedra de toque copy.jpg

 

LUISA…

 

                        Acordo sereno.

                        Mas pouco depois fico intranquilo, porque os sonhos não são perfeitos.

                        Esta manhã despertei com o teu rosto moreno, salpicado por sensuais sardas, oriundas quiçá, da África distante.

                        Os teus olhos sorrindo, irradiavam o sabor quente da tua boca e dos teus lábios molhados que já foram meus.

                        O teu corpo emanava perfume que ainda hoje retenho.

                        Ficávamos pelo caminho.

                        Separou-nos a guerra injusta e a nossa pequenez para a vencermos.

                        Perdura em mim o teu desejo fremente de dizeres sim e a leveza e doçura com que me dizias não.

                        Tinhas nome mas davas-te ao apelido.

                        Sei que perguntaste por mim quando eu estava demasiado longe.

                        Sei que no regresso perguntei por ti mas a tua vida já levava rumo.

 

                        Não é justo só agora te pôr em crónica.

                        A tua ternura exigia que o fizesse há muito mais tempo.

                        Até porque nunca julguei, ser possível, gostar tanto tanto de uma mulher como gostei de ti,

                        Depois de definitivamente te perder…

 

António Roque

26
Abr19

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

 

Grândola revisitada nos tempos cinzentos da troika…

 

 

.                                                              Nos tempos que vão correndo

.                                                              De crise e de recessão

.                                                              Eu cá digo: “não me rendo”

.                                                              Quero outra revolução

 

                                                             Se a História não se repete

.                                                              Nem por isso tenho pena

.                                                              Que eu quero tornar a ver-te

.                                                              Grândola livre e morena

 

.                                                              Sentir em ti um amigo

.                                                              Sonhar com fraternidade

.                                                              Voltar a contar contigo

.                                                              Juntar-te à nossa vontade

 

.                                                              Não sei até onde vamos

.                                                              Mas nem assim tenhas medo

                                                             Porque lá onde chegarmos

.                                                              Seja tarde ou seja cedo

 

.                                                              Vamos fazer uma festa

.                                                              Tu e eu e tantos mil

.                                                              Todos juntos, mais o Zeca

                                                             Voltar a cantar Abril

 

                                                               Manuel Cunha (pité)

 

1600-25-abril-2019-1

 

 

 

11
Abr19

Momentos de poesia, ou talvez não!

1600-(29980)

 

A ponte é apenas uma passagem

      Para a outra margem

                      Não interessa quem são

De onde vêm

                         Para onde vão

Indiferentes

                   Passam

                                               E

                                                             Passarão…

 

 

- Pois, bom passarão tu me saíste, ó poeta! Mas eu prefiro ter os pés bem assentes em terra, levantar voo e ir com as aves…

 

- Pra quê? Pra onde? Vais ter sempre que poisar…

 

- Se me apetecer poiso, se não, não!

 

- Se não, não, o quê!?

 

- Se não me apetecer!

 

- Ah!

 

 

 

29
Jan19

Uma imagem com nevoeiro e uma homenagem

1600-(41721)

 

“esticalirica e caixadóculos” é mais ou menos essa a imagem que retenho dele, da televisão, da “Visita da Cornélia”.  Notava-se que não era um homem qualquer, da cultura, com certeza. Vim a saber que era poeta, comprei uns livros dele que passaram a ter lugar na mesinha de cabeceira. Como as letras e arte só dão de comer a alguns, teve de se dedicar à publicidade, é o pai do  “há mar e mar, há ir e voltar”, mas esqueceu-se de lhe dar o nome, recordo ouvi-lo dizer o quanto lamentava, podia estar rico…

 

Hoje, depois de selecionar a imagem para vos deixar aqui, veio-me logo à cabeça um poema seu, que não resisto à sua partilha:

 

Homem

 

INSOFRIDO TEMÍVEL ADAMADO PURO SAGAZ INTELIGENTÍSSIMO MODESTO RARO CORDIAL EFICIENTE CRITERIOSO EQUILIBRADO RUDE VIRTUOSO MESQUINHO CORAJOSO VELHO RONCEIRO ALTIVO ROTUNDO VIL INCAPAZ TRABALHADOR IRRECUPERÁVEL CATITA POPULAR ELOQUENTE MASCARADO FARROUPILHA GORDO HILARIANTE PREGUIÇOSO HIEROMÂNTICO MALÉVOLO INFANTIL SINISTRO INOCENTE RIDÍCULO ATRASADO SOERGUIDO DELEITÁVEL ROMÂNTICO MARRÃO HOSTIL INCRÍVEL SERENO HIANTE ONANISTA ABOMINÁVEL RESSENTIDO PLANIFICADO AMARGURADO EGOCÊNTRICO CAPACÍSSIMO MORDAZ PALERMA MALCRIADO PONDEROSO VOLÚVEL INDECENTE ATARANTADO BILTRE EMBIRRENTO FUGITIVO SORRIDENTE COBARDE MINUCIOSO ATENTO JÚLIO PANCRÁCIO CLANDESTINO GUEDELHUDO ALBINO MARICAS OPORTUNISTA GENTIL OBSCURO FALACIOSO MÁRTIR MASOQUISTA DESTRAVADO AGITADOR ROÍDO PODEROSÍSSIMO CULTÍSSIMO ATRAPALHADO PONTO MIRABOLANTE BONITO LINDO IRRESISTÍVEL PESADO ARROGANTE DEMAGÓGICO ESBODEGADO ÁSPERO VIRIL PROLIXO AFÁVEL TREPIDANTE RECHONCHUDO GASPAR MAVIOSO MACACÃO ESFOMEADO ESPANCADO BRUTO RASCA PALAVROSO ZEZINHO IMPOLUTO MAGNÂNIMO INCERTO INSEGURÍSSIMO BONDOSO GOSMA IMPOTENTE COISA BANANA VIDRINHO CONFIDENTE PELUDO BESTA BARAFUNDOSO GAGO ATILADO ACINTOSO GAROTO ERRADÍSSIMO INSINUANTE MELÍFLUO ARRAPAZADO SOLERTE HIPOCONDRÍACO MALANDRECO DESOPILANTE MOLE MOTEJADOR ACANALHADO TROCA-TINTAS ESPINAFRADO CONTUNDENTE SANTINHO SOTURNO ABANDALHADO IMPECÁVEL MISERICORDIOSO VOLUPTUOSO AMANCEBADO TIGRINO HOSPITALEIRO IMPANTE PRESTÁVEL MOROSO LAMBAREIRO SURDO FAQUISTA AMORUDO BEIJOQUEIRO DELAMBIDO SOEZ PRESENTE PRAZENTEIRO BIGODUDO ESPARVOADO VALENTE SACRIPANTA RALHADOR FERIDO EXPULSO IDIOTA MORALISTA MAU NÃO-TE-RALES AMORDAÇADO MEDONHO COLABORANTE INSENSATO CRAVA VUKGAR CIUMENTO TACHISTA GASTO IMIRALÃO IDOSO IDEALISTA INFUNDIOSO ALDRABÃO RACISTA MENINO LADRADOR POBRE-DIABO ENJOADO BAJULADOR VORAZ ALARMISTA INCOMPREENDIDO VÍTIMA CONTENTE ADULADO BRUTALIZADO COITADINHO FARTO PROGRAMADO IMBECIL CHOCARREIRO INAMOVÍVEL..."

 

In  “Entre a Cortina e a Vidraça” de Alexandre O'Neill

 

 

 

08
Jan19

Momentos do Tabolado (Uma Espécie de Canção)

1600-(50062)

 

 

Acompanhe-se a leitura do texto e imagem com a música de Pedro Abrunhosa, da canção “ Momento (Uma Espécie de Céu)".

 

 

Momentos do Tabolado (Uma Espécie de Canção)

 

Um cão que se vai

Um homem que vem

A folha que cai

À beira do rio

O chapéu que sustém

Na cabeça com frio

Cachecol ao pescoço

A olhar para o lado

Num andar de moço

O Tâmega segue o seu fado

Num passear discreto

A rapariga debita

Sentimentos com os dedos

Quiçá de um amor secreto

Que nela habita

Ou serão outros enredos

Mais uma árvore despida

Dois bancos que esperam alguém

Com o azul do céu ainda acordado

A caminho da despedida

Com um sol já do dia cansado

E umas escadas que não sobem ninguém

Mais ao lado dois corações

Se as crianças atinarem no feitio

Em vez de dois serão três

E a mãe a fotografar as emoções

Da inocência a caminhar para o Estio

E assim foi um momento, uma vez

Ao fim da tarde, no Tabolado

De um domingo qualquer

Onde entram um Homem e um cão

Uma rapariga, duas crianças e uma mulher

Onde nem sequer falta o amor amarrado

Num cadeado e um

E com esta me bou

Tal como o cão, logo no início se foi

Nesta espécie de poema ou canção

Ou…

 

Até amanhã!

 

Mas antes, fiquem com o “Momento” de Pedro Abrunhosa

 

 

 

18
Nov18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

Poema f-u-t-u-r-o

 

quando tiver a certeza biológica 
que de alguma forma cresci
quero que me olhes com
as tuas pálpebras pisadas mortas 
extremamente fatigadas 
completamente destruídas
mas ainda brilhantes
inteiramente penetrantes
como um hieróglifo egípcio
a circundar entre o nervo ótico
e a iris mais distante. 

quando tiver a certeza biológica
que de alguma forma cresci
quero olhar pela janela amarela da sala
uma floresta um campo
lá fora é tudo cinzento
inundada por felinos selvagens
Pantherinae e Felinae
empoleirados em troncos de eucaliptos e
rochas de papel antigo 
envelhecido 
manchado com café expresso
o tempo acabar-se-ia logo ali
num nevoeiro perdido a três
que só os pontos ligados
na rosa-dos-ventos
formar-se-iam um qualquer ser mitológico 
que nos ajudasse a fugir dali
daqui
de qualquer parte fora dali
daqui 

quando tiver a certeza biológica
que de alguma forma cresci
quero sentir o cheiro 
no travesseiro pequeno
que a mamã comprou
é dia de passear com mamã
estás pronto
chocolates coisas moles que na boca
só pode ter o papá e a mamã 
hoje foi dia de passear com a mamã
gostaste

quando tiver a certeza biológica
que de alguma forma cresci
quero sonhar que estou a sonhar
beijar-vos enquanto durmo na sensação 
que estou a sonhar
que estou realmente a sonhar
meio olho aberto meio olho fechado
sobre uma escrivaninha velha que o avô me deu
acabei o próximo romance amor
a ver-te beijar outro
embalando-o como se fosse eu
há anos
esse outro 
que dizem ter destruído a torre de babel
com um simples golpe de choro e chichi
que lindos estão vocês os dois

quando tiver a certeza biológica 
que de alguma forma cresci
espero que não seja tarde
para vos adormecer –
o papá gosta muito de vocês.

 

Herman JC

 

13
Out18

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

QUANDO…

 

Quando a hipocrisia me incomoda, quando o oportunismo me indigna e quando a desonestidade me repugna,

A solidão espera-me, e a vida de braços abertos recebe-me.

Fico então longe de tudo, sem saber o que quero mas quero muito.

Preciso tanto da música que me chega não sei de onde.

 

Nunca me escondas teus olhos, nem as tuas lágrimas, meu amor.

Sem eles e sem elas, não sei amar, não sei sofrer.

Em cada noite, há um beijo que nunca te posso dar.

Restam-me as tuas mãos que protegem.

A vida dói, a solidão magoa.

 

Nos meus versos tem de estar água, para eles fluírem.

 

A minha memória da tua boca, a obsessão pelo teu corpo quente,

São sempre o lenitivo,

Para abraçar os sonhos, contigo por perto.

 

António Roque

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