![]()
Sempre gostei de presépios.
Antes das férias de Natal, na Escola Primária de Vila Verde da Raia, no final das aulas, os trabalhos escolares de uma tarde, consistiam em levarmos um cesto e percorrermos soutos e pinhais para colhermos musgo e líquenes das árvores, umas pedras, materiais que depois usávamos para fazermos o presépio da escola.
Iam rapazes e raparigas e quando empinavam os carreiros, começávamos a andar para trás ou estacávamos, impostores, simulando fadiga, aguardando que elas passassem para a frente, na esperança de apreciarmos outras paisagens…
Algumas mordiam o isco, outras, manhosas, conhecedoras da marosca, acompanhavam-nos no fingido cansaço ou então sorriam, cúmplices, e desviavam-se à procura de azevinho ou então apontando para o meio dos arbustos, diziam:
- Olha merogos!
E os mais larpeiros precipitavam-se para o lugar que elas assinalavam com o dedo esticado e quando lá chegavam, nem merogueiros, quanto mais merogos!
E elas a rirem-se, os dentes da cor da geada, os lábios do fruto frustrado, a face rosada e o peito a arfar da gargalhada.
- Ah! Ah! Ah! Querias merogos …!
Recolhido o musgo, os rapazes, esquadrinhavam na aldeia, próximo das tabernas, maços de cigarros vazios, retirando-lhes a prata, que servia para fazer de rigueiro, e no lugar dos Pegões, nas margens do rio Tâmega, onde as mulheres lavavam a roupa, apanhavam areia fina, para desenhar os caminhos.
![]()
Presépio da Casa de Santa Marta - Chaves
As imagens do presépio, compradas a algum barraqueiro dos Santos, vindo de Barcelos, estavam guardadas nas arrumações da escola em caixas de madeira, onde antes bem resguardada estivera marmelada que se vendia às porções, na taberna do senhor Zezinho ou do Simão. Num dos lados, ainda se podia ler: Confeitaria Estrela.
E extasiados debruçávamo-nos uns nos outros para as ver sair pelas mãos dos professores.
E nem faltavam: o moleiro, as lavadeiras, o pescador, o fogueteiro, o matador das cebas, o ferreiro, o soldado, os músicos, sabe-se lá …; algumas, apesar das toscas feições lembravam pessoas de verdade e de tal forma, que, admirado, havia quem não se continha e exclamasse:
- Olha o tio Zé Ribeiro!
E outro:
- Aquele parece mesmo chapadinho ao tio João Bexigas!
Depois de montado o presépio, era tempo de o mirarmos de alto a baixo, até chegar ao último dia de classe.
Encerrada a escola, o presépio, por assim dizer, hibernava. Havia o da igreja, mas o nosso era melhor!
Passadas as férias, regressávamos à escola, e apesar de lá continuar o presépio, se uns olhavam para ele com satisfação, um que outro passava por ele de cabeça baixa; por certo teriam recebido do Menino Jesus algum troço de carvão!
Vieram outros dias e tive a oportunidade de ver e admirar outros presépios com mais engenho e arte, mas não posso deixar de dizer, que sempre me ficou o encanto daqueles que acompanharam a minha infância.
Conheci muitos, de escultores afamados, como Machado de Castro ou António Ferreira, ou a eles atribuídos, espalhados um pouco por todo o país, com uma execução que raia os limites da perfeição, não só pela beleza das imagens, como o enquadramento barroco e a preocupação esmerada no detalhe, pelo que, muitas vezes dá a sensação de ser uma obstinação haver quem continue a fazer presépios.
Não obstante, e é bom não esquecer, que apesar de tudo, a matéria mais usada na sua construção é a cortiça e predominantemente, o barro.
![]()
Fotografia de Mário Esteves - Presépio de Arturo Baltar
Mais para o presente e desde já me confesso admirador do escultor, Arturo Baltar, tive o privilégio de estar presente há dois ou três anos, numa das suas exposições, patrocinada pela Caixanova, realizada em Orense, onde a par de obras que retratam aspectos da realidade rural galega do século dezanove, também existiam outras que apresentavam diversas passagens do Advento.
Mais tarde tomei conhecimento que na Igreja de San Cosme e San Damián, no bairro do mesmo nome de Ourense, estava exposto um presépio da sua criação (na Galiza e em Espanha, conhecidos por Belén), desde 1982, e recentemente remodelado.
Se antes admirava o notável barrista, mais entusiasmado fiquei, não só pela obra em si, mas pelos aspectos característicos e semelhantes que se podem observar, serem comuns à Galiza e Trás-os-Montes.
E em Chaves perguntarão vocês?
Não há nada?
Há, sim senhor, um presépio na Casa de Santa Marta, feita há alguns anos pela Irmã Laurentina, com alma e devoção, outro tanto de dedicação e trabalho, que, conhecido por alguns eleitos (entre os quais este Blogue), apenas agora goza de justa fama e atenção de todos que o visitam e até dos jornais e televisão.
Mas que me perdoem, o presépio que mais admiro e perdoem a debilidade, é o de meu pai, feito há bastante tempo, ainda era um adolescente.
![]()
Imagem de Mário Esteves - Direitos reservados sobre a imagem
A então Associação Comercial de Chaves promoveu um concurso de montras de Natal e o meu pai decidiu fazer um presépio. Usou barro das cerâmicas para modelar o estábulo e o casario de Belém, que passaram pelo forno da padaria do senhor Bento Ferreira, em Vila Verde da Raia.
As palmeiras eram feitas de galhos de pinheiro e na extremidade superior, onde surgem uma espécie de alvéolos, colou penas de galinha, previamente pintadas de verde.
Já não me recordo se ganhou o primeiro ou o segundo prémio, mas uma coisa sei, nesse ano, as pessoas reuniam-se aos magotes para ver a montra.
E se naquele tempo por estes lados, ninguém conhecia o cultivo de bonsai, muitos se interrogaram como o meu pai tinha reduzido palmeiras ao tamanho do presépio, tal era a verosimilhança!
Mário Esteves