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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Mai19

Uma merenda quase perfeita

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A caminho dos 15 anos de blog, quando chego a esta hora de publicar qualquer coisa cá da terrinha, para não ser repetitivo, a escolha do tema, rua, praça ou lugar, às vezes torna-se complicado. Nas nossas publicações, geralmente, andamos por fora, na rua, mas também vivemos dentro das casas, onde também acontecem coisas, por exemplo a hora da merenda, que se faz entre o meio e o fim de tarde. Então hoje trazemos aqui uma merenda à nossa maneira, quase perfeita.

 

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Claro que temos de deitar mão às nossas coisas, nas quais, em algumas, até temos fama, tal como acontece com o presunto de Chaves, que cada vez mais vai sendo uma raridade, isto quando falamos de presunto de Chaves genuíno. A título de curiosidade, o presunto de Chaves, quando o havia em quantidade, na sua grande maioria, não era de Chaves, mas de toda a região, dos concelhos vizinhos, principalmente do Barroso. Afamou ser de Chaves, porque era aqui que ele era comercializado.

 

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Pois, para quem não sabe, aqui ficam algumas dicas para saber se o presunto é genuinamente de Chaves ou não, mas também a forma, maneira, como deve ser comido e com que acompanhar. O resumo está feito na primeira foto que vos deixo, tem lá quase tudo que faz falta a uma boa merenda, o presunto, as azeitonas caseiras, o pão centeio também caseiro, a cebola, o pimento do vinagre, um bocadinho de queijo para quebrar ou limpar o palato e a caneca de vinho tinto em jarra de barro preto de Vilar de Nantes. Quase perfeito, não fosse esta mesa (que é de uma casa comercial) não seguir as regras caseiras tradicionais de servir.

 

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 Pois tradicionalmente o presunto não é fatiado, pelo menos na forma como hoje o fazem, fininho que fica quase transparente. Não senhor, não é assim. A nossa maneira deve ser cortado em nacos e se for fatiado, no mínimo terá de ter a espessura de um dedo mindinho. Na mesa que apresentamos na primeira imagem, também lhe falta mais qualquer coisinha, que podia ser a linguiça ou o salpicão. Se for linguiça, também não é à rodela fininha que se corta, mais sim ao pedaço. Em geral uma linguiça deve ser cotada em três ou no máximo, 4 pedaços. O pão vai-se cortando conforme se come e é cortado com a espessura e da forma que se vê na imagem anterior,  e o pimento do vinagre deve ser comido conforme sai da talha, sem cortes, com uma salpicadela de sal grosso, sem cortes, a cebola deve partida em quatro partes, salpicada de sal grosso. Vinho, o necessário,  e sempre à temperatura da adega, que deve ser fresca, depois, bom apetite! è tudo para comer, menos as carabunhas das azeitonas!

 

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Por último umas dicas para saber se o presunto é mesmo de Chaves, genuíno. Primeiro o presunto é cortado à vista de todos, deve ter a forma arredondada como o da última imagem. Ganha este formato porque após a matança do porco as articulações são presas com uma corda para não se estenderem e darem o formato esguio (alongado) com que os outros presuntos se apresentam. Desta forma o presunto fica mais alto. Outra característica do nosso presunto, é ser entremeado de carne gorda, a que lhe dá um sabor especial. Se o presunto for só magro, não é de Chaves, pelo menos genuíno, quando muito, é daqui próximo, daquele que se vende na antiga fronteira com a Galiza, em Feces. Por último, para o presunto ser genuino, com vossa licença - o porco, também terá de ser genuíno, isto é, tratado com amor e carinho com todos os pertences da comida caseirinha até chegar a hora de ir ao banco, ou seja, é tratado (quase) como mais um elemento da família.

Um último aviso para o pessoal de fora que ficou com água na boca - Não venham a Chaves para comprar um presunto genuíno, pois os poucos que há não chegam para nós, quando muito, se for boa pessoa e um flaviense lhe dever um favor ou uma atenção, pode ter a sorte de lhe darem um.

 

25
Ago10

A pedido, aí vai mais presunto...presunto de Chaves

 

 

 

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Confesso que não tinha tema para hoje, mas há sempre alguém ou alguma coisa que lá nos salva a situação e nos dá o mote para umas palavrinhas, por mais debatidas que o tenham sido aqui nos últimos tempos pelo António Chaves e também eu o fui fazendo ao longo destes anos de existência do blog  – O Presunto de Chaves.

 

Na Sexta-Feira de 4 de Janeiro de 2008 eu escrevia um post intitulado « Elogio e Lamento ao Presunto de Chaves» - (http://chaves.blogs.sapo.pt/237099.html ), onde elogiava e lamentava (claro) o presunto de Chaves. Elogio porque é o melhor do mundo e lamento,  porque não o há (pelo menos para todos os dentes).

 

Ontem, nesse post de Jan.08, às 23H16 recebia o seguinte comentário assinado por Walmir T de Morais : “Meu comnetario a respeito desse ensinamento em liquidar suinos, não é nada aproveitavel para saber como seria aproveitado as partes do suino, Esperava saber como o PRESUNTO de CHAVES era manufacturado, mas so vi foi como exterminar o dito suino, muito comum em qualquer alfedia da europa. Portanto, ponha o processo. pedido e oferecido e não como exterminar o suino. OBRIGADO”

 

Pois meu caro Walmir os vossos pedidos para mim são ordens e se entendi bem o seu pedido, o Walmir pretende saber como se faz um “Presunto de Chaves”. Pois vamos lá ver se consigo, embora avise já que sou mais especialista em comer presunto de Chaves do que em fazer presunto de Chaves, pois apenas tenho visto, ou via,  como se faziam.

 

Então, para começar, recomendo que leia atentamente, outra vez, o post de 4 de Janeiro de 2008, pois aí está vertido o mais importante sobre como fazer um genuíno presunto de Chaves, pois como deverá saber ele não nasce à mesa. Mas eu vou ajudando.

 

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Primeiro, comecemos pelo nome a dar ao pai dos presuntos e que por cá chama-se “reco” e não suíno. Parece não haver diferença, mas é do tamanho deste mundo. O reco, tal como o nome indica, é mesmo reco, come tudo que lhe dão e só não come a própria cama porque lhe põem um arganel no focinho, senão nem a palha (ou cama) onde se deita, escapava. O Suíno é coisa mais fina, dorme em cama lavada e só come ração para em pouco tempo engordar para um matadouro qualquer e ser vendido à febra ou às fatias no talho da esquina. O Reco é diferente. Quando nasce é requinho, depois cresce e passa a reco e, uma temporada antes de ir à faca, passa a denominar-se ceva. São estes os que produzem o genuíno presunto de Chaves. Claro que também tem outro nome mais fino, “porco”, mas cá entre nós, reco e porco, é quase a mesma coisa, mas muito diferente de suíno.

 

No meu post de 4 de Janeiro de 2008 eu desvendava um dos principais segredos  do presunto de Chaves onde a páginas tantas dizia:     pois criar e cevar um porco para dar um bom presunto de Chaves, não era tarefa fácil e começava logo no parto da reca parideira o no trabalho diário de quase um ano, em que o reco era quase tratado como mais um elemento da família, com boas refeições quentes e a horas certas, alguns mimos, carinho e muitos cuidados. Tanto era o afecto criado com o reco, que na hora de ir à faca era comum ver as mulheres “tratadeiras” a soltarem umas lágrimas com pena do bicho.”

 

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Pois meu caro, pode crer que, se os recos não tiverem este tratamento desde a nascença até à matança, não vão dar qualquer «presunto de Chaves», quando muito, podem dar presuntos feitos em Chaves, que não é a mesma coisa. E quando eu dizia que o reco era mais um elemento da família, em termos de refeições, era-o mesmo, e, à excepção da carne e do peixe que às vezes chegava à mesa dos tratadores, o reco comia o mesmo que os seu tratadores, com muita batata, castanha, maças e outra fruta, couves e nabos e um pouco de farelo para compor a refeição, era quase tratado como mais um da família e por estranho que pareça também tratado com amor e carinho, pois dele dependiam uns meses de alimentação. Aqui está o primeiro grande segredo do presunto de Chaves, nada de rações de engorda rápida, boa comidinha, amor e carinho.

 

Outra das características do presunto de Chaves, além das suas camadas de magro e gordo, é a sua forma arredondada e não alongada como é comum nos outros presuntos. Esta é mais difícil de explicar embora não tenha nada de extraordinário, pois simplesmente (vou tentar explicar) aquando se pendura o reco para escorrer todo o sangue e arrefecer (antes de o desmanchar passado um ou dois dias), prendem-se as articulações da perna (presunto) com corda até adoptar a forma arredondada, depois do reco estar frio, já não há quem lhe dê outra forma. Qual a razão de arredondar o presunto, não a sei, suponho que seja pelo futuro fatiar e/ou até pela própria gordura característica no presunto de Chaves.

 

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Também importante para um bom presunto, é a época em que o reco se mata, pois não é por qualquer razão que se espera pelos dias mais frios de inverno, de preferência de geadas, com dias bem frios e secos. São estes pequenos pormenores e etapas que vão fazendo o bom “presunto de Chaves”, ou seja, o clima cá do sítio também conta, não propriamente o microclima (se assim o puder chamar) da veiga, mas o das montanhas de Chaves e da região.

 

Por fim a etapa  que é a segunda mais importante e também a final no fazer o presunto de Chaves que, começa quando o presunto após o desmanche entra na salgadeira e é envolvido no sal grosso (bem grosso – não sei qual o seu nome, mas é sal bem grosso com pedras ou cristais a rondar ou superiores ao cm) em local seco, fresco e escuro para estagiar por lá q.b., até ao momento certo e oportuno para de lá sair e apanhar ar, em local seco, fresco e escuro…depois é só tempo de cura  até chegar à mesa, em nacos ou fatiado… O tempo de cura, embora bastem uns meses, há quem o prefira mais curado (mais duro) e prolongue a cura por mais de um ano. Mas tudo isto também explicava no tal post de 4 de Janeiro de 2008 quando dizia, “(blá,blá,blá) até à peça rainha, que depois de passar por uns meses de sal, frio e cura iria dar, uns meses mais tarde ou até no ano seguinte, deliciosos petiscos – o presunto.”

 

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Como vê, meu caro, já então deixava os segredos de como fazer o presunto de Chaves, mas o tema, infelizmente, não era como fazer o presunto, mas em haver ou não haver “Presunto de Chaves” para poder fazer a delícia das nossas mesas.

 

Quanto ao liquidar ou exterminar os suínos, meu caro Walmir, nós por cá preferimos matá-los, com faca bem afiada em mão de mestre e uma estocada certeira no coração, pode parecer cruel, mas não é, são uns segundos apenas de uma tradição que é secular e, foi essa tradição, a matança do reco, que eu quis trazer ao blog nesse tal post de 4 de Janeiro de 2008, onde o presunto é apenas a peça rainha que resulta de toda essa tradição.

 

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Espero assim ter respondido à questão do Walmir, mas também de todos quantos não sabiam como o melhor presunto do mundo se faz, porque ainda há quem o faça. Claro que nestas minhas descrições poderá haver algumas falhas, pois como disse não sou especialista em fazer presuntos, aliás, nunca fiz nenhum, mas vi fazer muitos e também via como os recos eram criados e cevados para darem uns bons presuntos. Agora se mo puserem à mesa, digo-vos logo se é de Chaves ou não, pois a sua qualidade e gosto é inconfundível. Só uma dica para quem não o conhece, pelo menos à vista – se não tiver carne gorda, não é de Chaves.

 

Para saber mais sobre o presunto de Chaves, nem há como reler algumas das «crónicas segundárias» do António Chaves que por aqui passaram nas últimas semanas.

05
Jul10

Crónicas Segundárias - Presunto e Optimismo

 

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Presunto e Optimismo


 

(Esta crónica é para o Fernando Ribeiro, o dono do blogue, e também para o José Carlos Barros, poeta que contribui com posts em algumas Sextas. É para eles por serem das pessoas que se afligem seriamente com a desertificação e com outros problemas da nossa região.)

 

 

 

Na última crónica falei sobre o desaparecimento do presunto de Chaves, nesta queria falar sobre a importância em que ele reapareça.

 

A última crónica diz como é que o presunto de Chaves fez fama, embora ele nem sequer fosse feito exclusivamente no concelho de Chaves, também vinha do Barroso, de Valpaços, e de outras terras. É estranho que, agora, qualquer presunto feito no concelho de Chaves leve o nome de presunto do Barroso porque faz parte dessa área geográfica de produção. Como disse, acho isto um erro de marketing, do pior que vi na vida, porque é uma estupidez alterar o nome do presunto mais famoso de Portugal.

 

Vou ser optimista e dizer meia dúzia de coisas que vão parecer malucas e radicais para algumas pessoas. Mas acho que o que nos falta é fazer coisas radicais e não estar sempre a moer com a mesma mó, que cada vez está mais desgastada.

 

Acho que seria muito importante o presunto de Chaves voltar a ter o seu nome e ter também uma área geográfica de produção. É importante aproveitar a fama que ele já tem, especialmente porque Chaves é um bom nome e que tem outras coisas que fazem esse nome conhecido, como a final no Jamor, por exemplo! Além disso, o presunto de Barroso sempre se vendeu sobre o nome de Chaves e nunca houve problemas com isso. Deve acabar-se com a área geográfica de produção de presunto de Barroso e criar-se a de Chaves. Agora, vou dizer uma coisa mais radical e que vou explicar a seguir.

 

A futura área geográfica de produção do presunto de Chaves deve englobar as áreas onde se ia buscar o presunto, como Barroso, Valpaços, etc, e tentar estender-se essa área o mais possível, desde Bragança até Vila Real, e incluindo, mesmo, algumas partes do Minho e das Beiras. Isto porque em Trás-os-Montes o presunto é todo muito parecido, e também o é com o da Beira e de partes fronteiras do Minho, não haveria problemas nenhuns com diferenças na qualidade. O que imagino é que será muito difícil convencer as pessoas que isso tem lógica, especialmente se as pessoas são de Vinhais, por exemplo, que é uma terra onde se faz bom presunto e fumeiro. O orgulho e o bairrismo parolos podem ser um entrave.


E porque é que eu queria uma área tão grande a produzir presunto de Chaves? É muito simples, é uma coisa que só os parolos dos nossos governantes não vêem. Há várias razões para isso. Primeiro, o presunto de Chaves tem grande qualidade. Segundo, é muito barato, encontra-se à venda nas feiras de fumeiro de Montalegre por apenas 10 euros o quilo, por isso é um produto muito competitivo. Terceiro, o mercado nacional não está esgotado, como se vê pelo muito presunto espanhol (bem pior do que o de Chaves, e mais caro) que entra pela fronteira. Quarto, o mercado do presunto é um mercado mundial, ou quase mundial, e se se podia entrar em força no mercado nacional, no mundial ainda melhor estaríamos, já explico porquê.

 


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O que me irrita a mim nesta história do presunto é a ignorância. Tenho viajado por vários países da Europa e conheço o presunto que se encontra por aí fora. O que se encontra nos supermercados dos vários países europeus é presunto espanhol ou italiano, e um bocadinho de presunto Alemão, não muito mais, embora eu não seja um especialista em presunto europeu. O presunto é normalmente apresentado em caixas plásticas com 60 gramas (com umas 6 fatias muito finas) e que se vendem à volta dos 3 euros. É fácil fazer a conta e descobrir que por vezes pago o presunto a quase 40 euros o quilo! Mas é presunto que não vale nada, o único que sabe a presunto é o espanhol. O presunto italiano é muito famoso, especialmente o de Parma, mas eu nem gosto porque ser adocicado, não tem sal e nem sabe a presunto. O Alemão ainda é pior, não é fumado como o nosso, em que o afumar serve para secar o presunto, o alemão é exposto ao fumo, já fatiado, para ganhar o sabor do fumo, o que é detestável mas que é prática comum dos povos do nórdicos, gostam de afumar a comida desta maneira, incluindo o peixe. Por estas razões, se o nosso excelente presunto caseiro se vende a 10 euros, seria fácil competir com presunto que se vende a 30 e 40 euros o quilo, mesmo contando com o lucro dos supermercados e de despesas com transportes. Há outra razão forte que iria ajudar imenso a exportação: os emigrantes. É que nas principais cidades do mundo, como Paris, Londres, e Nova York, há muitos milhões de portugueses a viver e que têm que se contentar com o caro e fraco presunto espanhol. Se eles apanhassem lá o nosso presuntinho caseiro, nem que fosse a 30 euros o quilo, iriam comprá-lo, de certeza absoluta, e ajudariam a espalhar a fama e contribuir para a comercialização. Mas se nós nem nos fazemos ao mercado nacional... Parece-me que anda tudo a dormir.

 

Mas não é só no presunto que temos que apostar mais, é também nos fumeiros e tudo que esteja relacionado com a carne de porco. Nas feiras do fumeiro de Montalegre e Boticas os produtos esgotam. E eu acho que os preços são muito baixos. Mais uma vez, o mercado nacional não está esgotado, longe disso.

 

Falei com responsáveis sobre o fumeiro da região de Barroso e fiquei a saber que um porco dá de lucro cerca de 1300 euros, depois de descontados a comida, o abate, etc. Ou seja, quem se der ao trabalho de criar um porco e o for vender à feira a Montalegre faz em fumeiro, presunto, etc, 1300 euros limpos. Acho isto muito bom mas que pode, até, ser melhorado, porque os preços praticados são barateiros! Imaginem um casal que crie 12 porcos, fica com um ordenado limpo de 1300 euros por mês, e se quiser subsídio de férias e décimo terceiro basta criar mais 2. Como as pessoas sabem, até há uns anos as grandes casas de lavoura da região criavam uns 10 porcos facilmente e ainda tinham tempo para o resto da lavoura. Por isso, acredito que um casal possa criar sem grandes problemas uns 24 porcos (na zona de Montalegre já há várias casas que criam estas quantidades e até mais) e ter dois excelentes ordenados de 1300 euros por mês, limpinhos! Isto é um ordenado de doutor, especialmente na nossa região onde ainda há casas muito baratas e que mesmo com a criação dos 24 porcos ainda sobraria tempo para a horta e outras coisas, que também são lucro.

 

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Não percebo de que é que a nossa gente está à espera, é evidente que o que está a dar é criar porcos e fazer bom fumeiro. E não há que ter medo, já disse que o mercado nacional não está esgotado, longe disso, além de que há muito mercado para a exportação. E o lucro por porco pode ser aumentado bastante, basta reparar que nas grandes superfícies se vende fumeiro industrial espanhol a preços muito mais altos do que o do muito melhor fumeiro caseiro de Barroso.

Eu imagino o futuro da nossa região com a gente a voltar às aldeias para se dedicar ao fumeiro e encher os bolsos. Porque se alguém quiser trabalhar a sério e criar apenas porcos, pode criar uns 50 e ter um ordenado brutal de 5000 euros por mês! Não percebo porque é que as pessoas continuam a emigrar, há que criar porcos.

 

Também seria bom que houvesse vários criadores de porcos por aldeia, porque assim podem ajudar-se na matança e na feitura do fumeiro. Imaginem 6 casais numa aldeia a criarem cada um 24 porcos. De Novembro a Janeiro ajudar-se nas matanças e fumeiro, e mais tarde, quando é só deitar a comida aos porcos, podem ajudar-se na alimentação dos porcos de um casal que vá de férias. É que com ordenados de 2600 euros por mês, estes casais vão querer ir para as Caraíbas, por exemplo. Deixam os porcos com os amigos e vão curtir o mundo. Já estou a imaginar as nossas gentes estendidas numa praia das Caraíbas com um cocktail na mão e a ligar do telemóvel para o vizinho "Ó Zé, como é que vão o caralho dos recos? Tá tudo a rolar? Aqui é que se está bem, rapaz, já nem me lembram os recos nem o caralho, foda-se! Vamos mas é montar aqui umas cortes!".

 

É assim que eu imagino o futuro da região. Basta ser esperto e desenvolver este negócio. É por isso que eu acho que era bom criar uma região de produção grande, que é para ter quantidade para servir o mercado mundial e não andar a vender às pinguinhas e não ter mercadoria para servir os fornecedores regularmente. Também acredito que as pessoas que se podem fixar cá, com o negócio dos porcos, vão ter tempo para desenvolver outras actividades que são lucrativas, como as do mel, dos produtos biológicos (ainda não se faz nada disto, apesar de termos condições, e mais uma vez digo, por esses supermercados da Europa vêem-se muitos produtos desses e a preços bem altos, de certeza que há mercado para algumas coisas nossas), etc. Há que ter iniciativa e explorar os mercados, não podemos estar à espera que algum Dinamarquês passe por cá a perguntar "A como é que está o preço do presunto?". Nós é que temos que nos mexer e basta mexermo-nos um bocadinho, grande qualidade e bons preços já nós temos.

 

Até à próxima, mãos aos porcos!

 

 


28
Jun10

Crónicas Segundárias

 

 

 

 

O desaparecimento do Presunto


 

Na última crónica prometi escrever sobre o desaparecimento do presunto de Chaves.


Mas, hoje, não me está a apetecer nada escrever sobre o presunto. Primeiro porque é um tema deprimente, e segundo porque me apaixonei recentemente por uma mulher belíssima, que já era uma boa amiga, uma grande companheira, mas que, infelizmente, arranjou recentemente um namorado. E agora estou a pensar na vida, porque é que me atrasei, porque é que estou sempre atrasado, etc. Não é que esteja muito triste ou ciumento, nada disso, mas no que não me apetece pensar é nos presuntos, estou a pensar em outras pernas. Por isso, tende piedade de mim, prometo escrever um post mais profissional, dentro do meu amadorismo, sobre o presunto. Ou para compensar, até escrevo uma crónica sobre o porco completo!


Na verdade não quero dizer nada que não se saiba sobre o presunto de Chaves, e que o Fernando não tenha já dito neste blogue.


A história do presunto de Chaves encontra-se por aí na internet, como nesta notícia do Diário de Trás-os-Montes.

 

Que conta:


A história do Presunto de Chaves tem praticamente um século. Foi no longínquo ano de 1910 que Manuel Guedes, de Outeiro Jusão, o começou a introduzir no mercado lisboeta, onde ganhou a fama que hoje tem.


“Levava-o em carros de bois até à estação do comboio!”, recorda um neto do comerciante, que chegou também a estar envolvido na actividade. No entanto, a época de ouro do Presunto situou-se nas décadas de 60/70. Na altura, já Manuel tinha passado o negócio a dois filhos: António e Luís Guedes.


Os dois irmãos chegaram a colocar no mercado lisboeta uma média de 30 toneladas de presunto oriundo de Chaves e das aldeias vizinhas, que palmilhavam à procura dos melhores exemplares. Foi também na década de 70 que António Guedes, ainda vivo, decidiu alterar o esquema de distribuição do produto.


Passou a vender directamente aos restaurantes de “luxo”, eliminando os intermediários, mas ganhando uma nova responsabilidade: a de garantir a qualidade do produto, que aceitava de volta, em caso de reclamação.


Na década de 80, o mercado do presunto de Chaves sofreu, no entanto, um grave revés. Por várias razões. A mais forte terá sido a invasão do presunto espanhol no mercado português, nomeadamente o “Pata Negra”, um produto com Denominação de Origem Protegida. “Embora a preço superior, tem a vantagem de ser um produto com gosto sempre igual e ter menos desperdícios (gordura, por exemplo)”, explica o neto de Manuel Guedes, Vinhais Guedes. Por outro lado, o presunto de Chaves começou a perder qualidade. “As pessoas deixaram de respeitar as tradições, nomeadamente na alimentação e salga dos animais”, recorda Vinhais Guedes, lembrando ainda o decréscimo de produção, provocado pela emigração.

 

Mas depois destes anos todos para se fazer a fama do presunto de Chaves, que é o presunto mais famoso em Portugal, parece que o presunto acabou, como se conta na mesma notícia:

 

Certificação impossível

 

O concelho de Chaves faz parte da área geográfica de produção do Presunto de Barroso, que em 1994 obteve uma Indicação Geográfica Protegida (IGP). Esta inclusão torna agora impossível uma certificação deste género.

 

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Isto só mostra a inteligência dos nossos autarcas. Depois de quase um século de esforços para se fazer o nome do presunto de Chaves, de repente muda-se o nome para um desconhecido presunto do Barroso! Isto é que são golpes de marketing, do melhor que já vi! É como de repente a Ferrari decidir mudar o nome para Barrosini! Chama-se a isto dar um tiro no pé, mas não com uma 6,35 ou sequer com uma caçadeira, é mesmo tiro de canhão! É que Chaves é o nome que o presunto tinha, é um nome muito conhecido, mesmo por outras coisas, é um nome com impacto, e mudar para Barroso, que quase ninguém conhece, foi um grande erro. E não quero tirar o valor ao Barroso, que bem merece. Também não estou a atirar culpas a partido nenhum em especial, imagino que tenha sido uma decisão conjunta dos "inteligentes" autarcas do PS e PSD, de Chaves, Montalegre, e Boticas. Não terá sido uma coisa mesquinha, coisa de ganância, uma competição estúpida entre concelhos que deveriam saber que têm muita mais força se se unirem (porque todos temos os mesmos problemas)? É que tão estúpidos foram os de Barroso como os de Chaves.


Na próxima crónica vou escrever uma coisa optimista (para não poderem dizer que eu só digo mal), e com um ou duas ideias humildes para o caso do desaparecimento do presunto de Chaves, que eu acho que é uma coisa que tem que ser invertida rapidamente. E não vai ser só presunto, como escrevi acima, vou escrever sobre o porco completo.

 

Até à próxima segundária-porcina!

 

 


21
Jun10

Crónicas Segundárias - O Presunto Parolo

 

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O Presunto Parolo

Na última crónica escrevi sobre como é muito estranho que nos cafés de Chaves não se vendam sandes de presunto e como o único McDonalds venderá mais hambúrgueres do que todos os cafés do concelho vendem sandes de presunto. Isto é uma situação caricata e quase absurda. Como é que uma cidade como Chaves, que tem (ou tinha...) aldeias a fornecer os melhores ingredientes que há, se deixa invadir e encantar por uma multinacional que atravessa o Atlântico para vir servir comida que consiste em carne processada industrialmente e que é servida entre fatias de pão insípido, juntamente com um pacote de batatas fritas? Não é que a venda de sandes de presunto seja incompatível com a de hambúrgueres, mas em Chaves devia ser quase isso. Aqui, a venda de hambúrgueres deveria estar reservada apenas à meia dúzia de freaks que julgam que seria muito cool serem operários numa qualquer fábrica de Chicago e que por isso teriam apenas meia hora de almoço e poucos dólares no bolso para irem a um restaurant comer um steak. Santa estupidez!

Parece-me que esta situação é devida, essencialmente, à parolice e ignorância dos flavienses, não ao grande amor que têm pelos hambúrgueres. É que se pensarmos bem, não são só as sandes de presunto que não se vendem em Chaves. Basta reparar que não há nenhuma diferença entre um qualquer café de Chaves com outro do Porto ou Lisboa, os alimentos à venda são os mesmos: os mesmos bolos, as mesmas torradas, as mesmas tostas-mistas, etc.

Que é que eu queria comprar mais num café em Chaves? Algumas coisas mais, tipo: orgulho, qualidade, inteligência, e bom gosto. Sei que isto não são coisas que se comam e que muito menos se possam comprar, mas eu explico. O que eu não compreendo é porque se for ao Sport tomar o pequeno almoço não posso pedir torradas de pão centeio. Porque é que tenho que gramar as mesmas torradas de pão de forma industrial (cheio de conservantes até ao pescoço) que se servem nas grandes cidades se poderia estar a entreter-me com umas boas torradas de pão centeio? Porque é que não temos orgulho no nosso pão, que é muito melhor, e comemos aquele, feito há vários dias, vindo duma qualquer fábrica de Lisboa, ou mesmo do estrangeiro? Pedir torradas de pão centeio é pedir muito? Ainda por cima quando isso estimula a produção de produtos locais e de qualidade? Acho que não é pedir muito e até peço mais. Por exemplo, gostava de chegar ao Aurora e poder tomar um dos meus (e de muita gente) pequenos-almoços favoritos: folar com café. Insisto, os estabelecimentos deveriam promover os produtos locais e vender, também, fatias de folar. Gostava de me poder sentar no Aurora e pedir "Se faz favor, são duas fatias de folar com carne e uma malga de café". Sim, uma malga e não uma daquelas chávenas banais da meia-de-leite, que são chávenas de meia-tigela, como se diz. Seria altamente sofisticado servirem o café numas bonitas malgas onde se pudesse molhar o folar com largueza. É que são estas coisas que acrescentam valor, que dão um toque especial. Imaginem turistas vindos de Lisboa, fartos de gramar as torradas em pão de forma, chegarem a Chaves e terem a oportunidade de se deliciar com pequenos almoços de grandes torradas de pão centeio, ou fatias de folar, ensopadas em malgas de bom café. Iam daqui para Lisboa contar aos amigos "Caraças, em Chaves é que se comem pequenos-almoços excelentes, são inigualáveis!". O problema é que os flavienses pensam exactamente o contrário, julgam que se fossem vistos no Aurora com uma fatia de folar na mão e uma malga de café à frente, seriam considerados uns parolos, uns lateiros, e que a sua reputação estaria em risco (eu sei o que eles sentem porque ouvi a risota parva de alguns leitores do blogue quando pedi malgas para o Aurora, mas eu dou-vos 2 dias para pensar profundamente nisso e dar-me razão, deixem de ser parolinhos). Para eles, semelhante coisa é inimaginável. Por isso sentam-se no Aurora a comer a torrada industrial e a pensar que fazem boa figura porque podem comer o mesmo que se come em qualquer tasco de Lisboa. É também esta a razão de ninguém ser visto a comer sandes de presunto, porque as sandes de presunto estão mais próximas do agricultor da aldeia que come o presunto ao fumo da lareira do que do lisboeta, que está limitado aos bolos e aos pasteis de Chaves, especialmente se Chaves já nem presunto produz para se comerem boas sandes em Lisboa.

Mas não é só folar que eu queria nos cafés, também queria poder escolher para a merenda umas fatias de bola de centeio com carne (não a bola de carne que também se encontra nos grandes centros) ou uns rojões do soventre acompanhados de fatias de pão centeio, claro. E mais uma vez repito que as pessoas iriam adorar, especialmente as de bom gosto.

É esta mentalidade parola que fez com que o presunto de Chaves desaparecesse, tanto que desapareceu completamente. Imagino que alguns de vós não saibais! O presunto de Chaves já não existe, é verdade. Mas este tema vou deixa-lo para a próxima crónica. Imagino que vocês estejam já a pensar que são crónicas a mais sobre presunto, que isto já parecem as 1001 noites da arábia em versão presunto, mas eu não concordo, nunca é demais falar sobre o melhor e mais famoso presunto português que já existiu, sim, porque já não existe.

Até à próxima crónica presuntária!

14
Jun10

Crónicas Segundárias

 

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Presume-se Presunto



Chaves é uma cidade conhecida por várias coisas: as termas, os pasteis, etc. Eu acredito que as duas mais famosas são o presunto e os pasteis.


O fama do bom presunto é conhecida de norte a sul do país, seja por pessoas que apenas ouviram falar dele, por outras que pensam  tê-lo provado (mas era do espanhol!), ou por uma pequena minoria que realmente conhece bem o presunto de Chaves.


O mais estranho na história dum presunto tão famoso é que haverá, também, muitos flavienses que nunca o provaram! Acredito, mesmo, que alguns nunca provaram presunto nenhum.


Isso acontece porque é mais difícil encontrar presunto em Chaves do que porcos a andar de bicicleta pela Rua de Santo António abaixo. Se a alguém lhe apetecer comer umas sandes de presunto a meio da tarde e se dirigir a algum café local, não encontra algum que as sirva. Será melhor, mais fácil, e menos problemático, que a essa pessoa lhe apeteça um bolo com nome francês, por exemplo. Fica logo servido. Porque se entrarmos num café e pedirmos ao empregado "Se faz favor, arranje-me uma sande de presunto", a resposta que ouviremos, invariavelmente, é "Desculpe, não servimos sandes de presunto", acompanhada de uma expressão facial que rosna "Este deve pensar que isto é alguma tasca, foda-se!".


Imagine-se a seguinte ficção, que por incrível que pareça, hoje em dia, é perfeitamente plausível que já se tenha passado algo parecido em Chaves:


Ora, temos um turista gastronómico que chega a Chaves, todo lampeiro para comer umas boas sandes de presunto, e que entra em seis ou sete cafés onde recebe sempre a mesma e decepcionante resposta: não há. Tentando não sair derrotado, nunca imaginando sequer que é impossível comer sandes de presunto em Chaves, pergunta a um transeunte "Boa tarde, sabe indicar-me um local onde possa comprar sandes de presunto?". O flaviense, atrapalha-se, nunca antes tivera que pensar em semelhante e difícil pergunta, apenas habituado que estava, aquando da larica à hora do lanche, a entrar num café e pedir o habitual éclair, ou bola de berlim (sandes de presunto nunca lhe tinham passado pela cabeça, e muito menos pela goela, pelo menos em cafés), e por isso responde "Desculpe, não conheço sítio algum que as sirva, mas em qualquer café encontra bons pasteis de Chaves". O turista, desanimado, responde "Sim, já provei os pasteis, são muito bons, mas agora queria saborear umas sandes de presunto e não sei onde". O flaviense, que já antes tinha pensado estar a ouvir o fino sotaque de Lisboa, tenta ajudar com aquilo que acha uma bela sugestão "Você é de Lisboa, não é? É, acertei. Olhe, sabe o que lhe recomendo a si, que vem de Lisboa? Há, aqui pertinho, um McDonalds que serve uns hambúrgueres que são uma autêntica delícia, muito tenrinhos e saborosos, não conheço mais sítio algum, nem noutro McDonalds, nem no de Montalegre, que sirva hambúrgueres como aqueles. Vá por mim, experimente que vai gostar, nem se lembra mais das sandes de presunto!". O turista fica espantado e a meditar na situação "Bem, lá vou ter que engolir um éclair, porque de pasteis já estou eu farto. Afinal os flavienses não comem presunto e parecem, estranhamente, grandes fãs de hambúrgueres, uns autênticos especialistas no assunto, imagino que no drive in do McDonalds local já haja uma janelinha, com a altura adequada, para quem espere pelo hambúrguer sentado na cilha do burro, já nem na aldeia se deve comer presunto".


Parece-me que esta ficção não está muito longe da realidade. Imagino que actualmente o McDonalds venda mais hambúrgueres do que os cafés todos do concelho vendem sandes de presunto. Julgo até que será mais fácil encontrar cafés no Porto, ou em Lisboa, que sirvam sandes de presunto. Não percebo esta alergia que os flavienses têm ao presunto.


Imagino que haverá alguns adolescentes que com a "febre" dos hambúrgueres talvez nunca tenham provado presunto, ou pelo menos não provaram do de Chaves, porque as aldeias já produzem pouco e muito do que circula é espanhol.


Também será misterioso, especialmente para os turistas, que não se consiga comprar um presunto em Chaves. Só com muito trabalho e por encomenda. É muito estranho, não é? Presume-se que o presunto de Chaves venha de Chaves e se compre aí, porque se não se encontra à venda aqui, donde virá?!


Isto é triste porque o bom presunto é uma coisa que vale a pena ser saboreada. Eu adoro presunto mas sou obrigado, pelas circunstâncias, a come-lo apenas em casa. Claro que há restaurantes que o servem como entrada, mas como petisco para a merenda é quase impossível de encontrar.


Há outra coisa que eu nunca percebi no negócio dos petiscos. Nas poucas casas onde se podem comer sandes de presunto, nunca vi anunciadas sandes de presunto "chamuscado". Uma das melhores maneiras de comer presunto é grelha-lo nas brasas (chamusca-lo) e depois mete-lo, ainda a pingar, entre duas talhadas de pão centeio, por exemplo. Antigamente, no tempo em que nem dinheiro havia para as grelhas metálicas que se usam nas lareiras, punha-se o presunto a chamuscar enfiado num trocho, que primeiro se afiava e limpava com uma faca. Talvez melhor do que o presunto, para estes "chamuscos", é a carne da pá. É uma delícia roer os couratos chamuscados da pá. Hoje em dia, por razões práticas, eu "chamusco" o presunto, ou a pá, em casa, numa grelha eléctrica. Não percebo porque é que os estabelecimentos onde se petisca, como alguns cafés, não se dedicam a vender um petisco tão bom como este, parece-me que só perdem negócio. Não me acredito que se as pessoas pudessem escolher entre um hambúrguer ou um "chamusco", escolhessem o hambúrguer.


Sobre o presunto há muito para dizer num próximo post.

Até à próxima segundária.

16
Out09

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

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Texto de Gil Santos

 

A RAÇÃO NÃO É PARA QUEM SE TALHA…

mas para quem na come!...

 

Diz o povo que dos “Santos ao Natal é Inverno natural” e é bem verdade! A bem dezer eu não sei se ainda é ou se já era! É que hoje está tudo tão mudado que até os adágios começam a mentir!... Mas, seja lá como for, há muitos anos… não tantos que encontremos os animais a falar, os Invernos no Planalto do Brunheiro davam pelos peitos a uma mula! O mesmo é dizer que eram duros como o granito porfiróide do Alto da Cunha. Começava a gear ali por meados de Outubro e até Maio eram dias infindáveis de carambelo. Não passava um Inverno sem meia dúzia de fortes nevões. Nessas ocasiões o que valia ao povo e ao gado era o que se guardava nas adegas e nos palheiros. Os bichos comiam o feno ripado, quando o havia, o povo as baijes de palheiro regadas com um fiozito de azeite, para quem o tinha e acompanhadas de um cibo de carne da pá, rijada, ou uma malga de caldo engodado com pingue e viva o velho! E quem avezasse uma ceva para matar pelo Ano Novo era rico! Devidamente poupado o reco e os seus derivados haviam de dar até ao próximo Natal. Para curar as carnes os Invernos queriam-se frios e secos para que ficassem bem curtidas. Da ceva faziam os planálticos uma espécie de multiplicação dos pães: milagres autênticos que reproduziam, por mais de mil, as potencialidades gastronómicas do animal.

 

Para a engorda os porcos tinham de ser capados. O macho para não ficar borrão e a fêmea para não se levantar à cria. O borrão destinava-se à cobrição e normalmente por cada aldeia havia apenas um para cobrir todas as recas que carecessem de ficar ao ganho. Ao ritual da capagem assisti muitas vezes e impressionava-me sempre mais que a própria matança. O capador, especialista desta operação, andava pelas aldeias com um assobio próprio anunciando a sua chegada. Quem precisasse de capar animais contratava-o e o serviço era rápido e eficiente. O primeiro acto da operação consistia em dispor a ferramenta cirúrgica sobre uma toalha de linho estendida num qualquer carro de bois que estivesse estacionado no pátio. De seguida procedia à desinfecção do material com um líquido de um rosa choc que tingia tudo. Se o animal fosse macho o cirurgião fazia um rasgo em cada uma das bolsas dos testículos e retirava-os agilmente. Desinfectava a ferida com o mesmo líquido, dava quatro pontos na sutura e estava como novo. No final e já depois de tudo devidamente arrumado era oferecido ao cirurgião a iguaria frita e um copo de tinto. Em sendo reca, deitava-a de lado no chão, fazia uma pequena incisão no ventre e metendo dois dedos nas entranhas retirava aquilo que parecia ser uma pequena tripa. Desinfectava, cozia a ferida e o trabalho estava pronto. Os requinhos durante dois dias andavam abatidos mas logo arrebitavam para cevas.

Os animais, capados, no Verão anterior à matança alimentava-se como príncipes para que botassem devido corpo. Batata, farelo, e castanha eram as principais iguarias para a engorda. Comiam quanto o buxo levasse. O importante era que por Dezembro já quase não se levantassem por tão gordos estarem. Depois, antes do Natal ou perto do Ano Novo, conforme o tempo desse, o animal ia à faca. Era um ritual interessante actualmente com tendência a ser engolido pela fatalidade da globalização e pelas exigências estúpidas de uma instituição que dá pela sigla de ASAE. Marcava-se o dia com o matador, convidavam-se alguns vizinhos para o botar ao banco e acontecia mais ou menos assim:

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Nos pátios das casas ou noutros lugares que se achassem azados, punha-se um banco corrido, tosco, de quatro patas canejas para que tivesse mais estabilidade. O matador dava os últimos retoques no facalhão de lâmina dupla com uma pedra de afiar. Os homens arregaçavam as mangas e à sua ordem abriam a porta da loge onde estava a infeliz vitima. O requinho parece que até adivinhava o desenlace pois quando a porta se abria começava numa agitação e numa gritaria como se dum humano se tratasse. Botava-se a ceva para o pátio e quatro homens dos mais fortes cravavam-lhes as unhas nas orelhas no rabo e nas patas e estendiam-no de cangalhas sobre o banco da morte. Passavam-lhe uma corda pela queixada e prendiam-no ao banco. Bem seguro grunhia quanto podia, mas nem mesmo assim comovia os seus carrascos! Quando lhe aprouvesse o matador metia a faca na garganta do infeliz e numa estocada de mestre fazia-lha chegar a faca ao coração. A morte era rápida se o matador fosse experimentado, caso contrário o animal tinha muitos minutos de sofrimento até que a estocada certa o ferisse de morte.

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O sangue jorrava em golfadas pelo boeiro que a faca abriu e com a orientação desta caia num alguidar de barro aparado quase sempre por uma mulher, que após a colheita passava minutos infindos a batê-lo com uma cebola descascada para que não tralhásse. Depois de bem morto retirava-se do banco para uma cama de colmo limpo preparada sobre o estrume do pátio. Era a hora da chamusca. Com fachucos de palha a arder dois dos mais experimentados vizinhos queimavam a pelagem do animal sem deixar que o couro se tisnasse muito. A seguir era a hora de o lavar. Três ou quatro homens de pedras na mão fazendo de esfregão raspavam quanto podiam para por o defunto limpinho. Era a vez dos mais miúdos se tornarem úteis pois cabia-lhe bota a água sobre as mãos dos lavadores. Não era um trabalho fácil porque aqueles exigiam que o fio de água fosse constante, não muito caudaloso e caísse no sítio certo. O campeão haveria de ganhar o rojão das palhas! A esta fase punha-se termo com o ritual d a confecção do tal rojão das palhas. Um dos homens torcia um punhado de palha de colmo e introduzia-o no cu do reco para lhe limpar a parte terminal do intestino grosso que ficara sujo nas ânsias da morte. A este fachuco chamavam então o rojão das palhas e era oferecido a quem tivesse demonstrado melhor desempenho.

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Depois punha-se de novo o reco, já limpinho, em cima do banco onde morreu, mas agora de barriga para cima. Era a fase da abertura. O matador afiava agora as facas da especialidade que cortavam como lâminas e desenhava o corte com a ponta da uma delas através de um rasgo superficial. Então passava a retirar a couracha que era a parte externa da pele da barriga que havia de servir para fazer as alheiras. Depois retirava a gordura do soventre e o redanho para os rojões que eram entregues à mulheres para irem para os potes  ferver.

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Depois de horas de lume com uma escumadeira tiravam-se os rojões e com a gordura fervente enchiam-se potas de barro de Izei com  a gordura líquida, a que mais tarde tralhada se haveria de chamar pingue ou adubo e serviria, ao longo do ano, para temperar o caldo. Depois disto, passava-se uma corda pelo osso que une os ilíacos e à força de braços pendurava-se o morto numa trave da adega de focinho para baixo. Era a fase de retirar as entranhas. Com a ponta da faca aguçadinha fazia o matador um corte longitudinal e a tripalhada caia sobre um lençol branco que duas mulheres seguravam e a que se chamava panal. Dali as tripas iam para lavar. Era um trabalho árduo que cabia igualmente às mulheres. Árduo por várias razões. Primeiro porque era preciso limpar a parte mais desprezível do animal, segundo porque a água estava muito fria e terceiro porque, por vezes, era preciso calcorrear grandes distâncias à procura de água corrente que no planalto é rara. Depois de limpo das vísceras a carcaça haveria de estar três a quatro dias à espera da desfeita. No final deste trabalho o pessoal que participou era convidado para almoçar e do repasto faria parte o verde – sangue cozido - e rojões, tudo regado com um bom maduro tinto de Cova do Ladrão. De tarde os homens normalmente não faziam nada por culpa do tintol!

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Passados dias o matador era de novo chamado, agora para a desfeita. Consistia em separar a carne do porco por categorias para posterior tratamento. Descia-se o porco, agora hirto e rosado, da trave onde esteve pendurado para o colocar, de barriga para cima, na adega, numa cama de colmo centeio. Começava então por lhe cortar as patas e retirar a cabeça da qual retirava a focinheira e a orelheira. Depois colocava-o de costas e com um fio desenhava dois traços paralelos e longitudinais do lombo ao rabo marcando uma faixa a cortar a que se dava o nome de enguião. Seguidamente retirava o lombo e os lombelos assim como as costelas e a espinha. Os presuntos agarrados ainda às pás iam para a salgadeira onde, envoltos em sal, repousariam cerca de um mês. Passado esse tempo eram cortados os presuntos e os cimos das pás e eram colocados ao fumo para acabar uma cura de cerca de outro mês. Finda esta curtição colocam-se na adega para consumo.

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Cabeça, enguião costelas e espinha destinam-se ao fumeiro, A carne magra e alguma entremeada ia para a sorça, um caldo de vinho e alhos, e que dava origem aos salpicões e às linguiças. O resto era cozido e os ossos da soã descarnados para os chouriços e as alheiras. Um trabalho pesado que cabia às mulheres e que elas orgulhavam a casa quando exibiam, vaidosas, dúzias de lareiros com o fumeiro alinhado sobre a lareira.

 

Na maior parte das casas a matança do porco e os produtos daí resultantes destinavam-se ao consumo próprio durante o ano. E feliz de quem matava pelo menos uma ceva!... As casas mais fortes chegavam a matar meia dúzia delas. E havia até quem matasse para vender os presuntos e o fumeiro. Afinal a parte mais nobre do animal, resultando, muitas vezes, no único rendimento da casa.

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Ora a casa do Ti Zé Paranhos era uma destas. A Paranhas quanta chouriça pudesse fazer quanta vendia na feira de Chaves. Nos primeiros meses do ano não falhava numa feira. Madrugava, juntava-se com as parceiras de outros lugares e Brunheiro abaixo lá iam cada uma com sua jiga vender o que a terra e o produto do seu trabalho dava. Umas levavam fumeiro, outras níscaros, castanhas, coelhos, pitas, perus e sei lá o que mais. E raramente regressavam carregadas que não fosse com o produto das vendas. As coisas do Brunheiro eram bem tidas pelos flavienses, ávidos da qualidade dos produtos genuínos da terra. Compravam quase tudo. E Que mais houvesse!

 

Em Fevereiro num belo dia, como soi dizer-se, pois de belo pouco tinha, descia, noite ainda, a serra em direcção à praça do Arrabalde um rancho de mulheres carregadas daqueles belos produtos. A Paranhas levava uma giga à cabeça com linguiças e uma seira no braço com salpicões. Não chovia mas a manhã demorava a despontar por mor de um céu plúmbeo que fazia adivinhar por’i um forte nevão. Mas por graça do Senhor na ida nem nevou nem choveu. Atravessaram a Ponte de Trajano, quando os sinos da Madalena badalavam as sete horas. Chegadas ao Arrabalde pousaram sobre o lajedo do mercado expondo a mercadoria. Lá foram vendendo mas nada que se parecesse ao desempenho de outros dias. As dos coelhos e das pitas ainda se safaram mas no final do dia à Paranhas ainda restava metade daquilo que levara para venda. A tarde estava a ficar feia e as léguas que tinha de percorrer até casa ainda consumiam umas boas três horas, era tempo de dar de frosques! Arrumaram e quando se preparavam para a partida começou a cair uma folecra que fazia adivinhar o pior. Como de facto! Ainda mal tinham chegado ao Raio X e já nevava a bom nevar. Subir a serra naquelas condições ia ser tarefa muito difícil se bem que ainda havia umas quatro horas com de dia e isso sossegava-as.

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Ao Chegarem a Lagarelhos e com medo do isolamento das voltas das Cabeceiras, onde era hábito o Pita fazer das dele, deu-lhes o diabo para deixarem a estrada de Carrazedo e subirem a Nogueira da Montanha por Maços, para depois chegarem mais facilmente aos seus lugares. Contudo, às vezes o diabo tece-as! A neve já mal deixava divisar os caminhos e entre calçada e carreiro acabaram por se perder e não saberem aonde estavam. Não se via viv’alma por aqueles ermos a quem se pudesse pedir uma informação. O medo da noite escura começava a instalar-se entre aquelas infelizes criaturas, eis senão quando ouviram um tropel do galope de um cavalo, abafado pela neve do caminho. Era certamente a salvação, ou seria Belzebu em forma de alazão para as atazanar ainda mais?...

 

Um homem a cavalo, por sinal bastante gerigoto e apresentando uma montada bem arreada, estancou o fogoso perto delas perguntando:

 

- Boa tarde senhoras, antão vocemecês que fazem a estas horas e por estes caminhos da fim do mundo?

 

- Oh mou senhor estemos perdidas! Para fugir às voltas das Cabeceiras, com o medo do Pita, metemos por aqui mas a neve toldou os caminhos e não sabemos ir para a Amoinha Velha.

 

- Antão e d’onde bêm?

 

- De Chaves do mercado onde fomos vender uma coisitas.

 

- Antão e venderam tudo o que levavam?

 

- Não – respondeu a Paranhas – ou a modos qu’inda levo aqui meia jiga de linguiças.

 

- Pois atão vai pesada coitada. Deixe cá ver a jiga que eu la levo à garupa. Venham atrás de mim que les inxino o caminho.

 

E lá foram as vendedeiras enregeladas atrás daquela esperança desconhecida.

 

Chegadas a uma encruzilhada, o cavaleiro parou e indicou o caminho da direita como sendo aquele que deveriam seguir. Puxou as rédea esquerda do freio do alazão para a esquerda, espetou as esporas na barriga do bicho e galopando desapareceu pelo caminho da esquerda para nunca mais ser visto.

 

- O alma do diabo fodeu-me as chouriças. Filho de uma puta, havia de o levar o diabo.  Em nas comendo que tenha uma esfoura que o leve o catano!

 

- Do mal o menos Paranhas, ainda nos deixou os trocos da venda, vamos indo!... – disse resignada a Aida Pataloa.

 

- Bem falaides mas quem se fodeu fui eu… rais te parta, alma do diabo!...

 

Passado uns meses souberam que quem as tinha roubado tinha sido o malvado do Pita. Deram graças a Deus por não ter sido pior. À fama que tem por aquelas serranias podia ter ido o dinheiro, a roupa e sabe-se lá que mais!... A sorte é que a neve deve ter refreado a cleptomania do gatuno, que à laia do Zé do Telhado trazia o Planalto sempre em sobressalto.

 

Que se fonham as chouriças!... Arre!

 

Gil Santos

 

 

03
Dez08

Chaves, devaneios, professores, presuntos e confrarias

 

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Desde já um aviso à navegação. O post de hoje não é recomendável para esquerdalhos e direitalhos partidários (termos com copyright do blog Chaves e dos seus autores), no entanto é muito dado aos molestados do costume. A possível associação das imagens do post de hoje com os temas focados também poderão ser simples coincidência, e só uma imaginação muito fértil é que os associará aos temas aqui (hoje) debatidos.

 

Hoje, adivinha-se, que a maioria dos professores estarão em greve, e eu aplaudo, porque eles além de terem razão, são uma classe unida que luta pelos seus direitos. Aliás é uma classe da qual depende o futuro do país, não estivesse entregue a eles a pasta da educação. Infelizmente não detêm a pasta da formação, que essa, de tão confusa que anda na nossa sociedade democrática, não sabemos bem em que mãos para, embora as famílias vão fazendo o que podem e sabem. Pena que as outras classes da instituição pública não estejam e sejam tão unidas como a dos professores, porque neste país, debaixo da capa da democracia e com o pretexto da modernidade e do progresso está mais que instalado o estado do quero, posso e mando, ainda para mais com a legitimidade que lhes é conferida pelo voto do rebanho popular. Quantos nesta altura do campeonato não se arrependeram já do seu último voto nas urnas. Mas para povinho que é povinho, bastam duas de larachas dos políticos, para nas próximas eleições caírem outra vez naquela,  de quem é o povo que manda em democracia. Ilusões, pois quem manda, foi quem sempre mandou, os mesmos do costume, directa ou indirectamente, como lobo ou disfarçado de cordeiro, onde, já nem sequer os cabelos brancos são sinónimo de algum respeito, se calha, até são pintados para iludir.

 

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Estamos numa altura em que os ideais partidários (que outrora se apregoavam) já de nada valem, pois a realidade do contacto com o poder, transforma tudo. Esta democracia não tem ideais, e os que pensam que o têm, basta que lhes caia nas mãos o poder, para que os ideais se esvaziem e sejam iguais ou piores que os seus antecessores. Todos diferentes, mas todos iguais, tanto que os partidos políticos de tal maneira confundem ideais e trocam de ideais, que eu penso, aliás nem penso, tenho a certeza, que esta coisa dos partidos é mais uma questão de famílias da mesma cor (tais como os clubes de futebol) do que ideais. Socialismo, social-democracia, comunismo (esquerdalhos e direitalhos – termos deste blog) são tudo e a mesma coisa, pois quem controla mesmo é quem manda, e quem manda, não é que parece, mas quem sem parecer e o é.

 

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O meu encadear de ideias pode parecer complicado, mas não o é. Basta ter em atenção os últimos acontecimentos do último ano, com a subida do preço do petróleo e com a crise financeira mundial, onde fica bem demonstrado como os políticos, governos, repúblicas, ditaduras e reinos estão dependentes dos senhores que controlam o pilim ou a cheta, como quiserem, ou então chamem-lhe euros ou dólares, que a merda é a mesma.

 

São os senhores do dinheiro que tudo controlam, incluindo as suas marionetas (leia-se políticos) e ao que parece, a ganância é tanta, que nem olham a meios para se lixarem uns aos outros. Mas milhões para a frente, milhões para trás, cá estamos todos nós para controlar a crise e dar (ou repor) o seu ao seu dono. Tudo democraticamente, claro!

 

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Mas o que tem isto a ver com um blog que se dedica à cidade de Chaves!? – eu diria que tudo, pois o que se passa a nível mundial, passa-se a nível nacional e, claro, como o que é nacional é bom, também temos os seus imitadores locais, vulgarmente conhecidos pelos xerifes das cidades (isto nos States, claro).

 

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Por cá as coisas não são diferentes e quer seja um ou outro que ocupe a cadeira na santa casa do poder, as políticas nem por isso se diferenciam. Embarcam na situação e é tudo. De inovação nada e quando a há, mas valia não a haver.

 

Voltando aos professores e aos funcionários públicos, sem menosprezar os que optaram de livre vontade não enveredar pela função pública e daí deixando-os de parte desta questão, a função pública detém os melhores funcionários do mercado, pois se nos concursos públicos para preenchimento de lugares da função pública, para apenas dois ou três lugares concorrem dezenas ou centenas de cidadãos, partimos do princípio que a função pública detém os melhores técnicos e profissionais do mercado, pois estou em crer que num estado de direito e democrático, as oportunidades são para todos iguais (por isso os concursos) onde apenas aprovam os melhores. Que eu saiba a cunha é um termo que foi extinto com o 25 de Abril. Íeis-me chegados ao “cherne” da questão e às modas da modernidade das ideias dos actuais detentores do poder.

 

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Eu também sou funcionário público, que nesta altura do campeonato já todos sabem que sou funcionário da Câmara Municipal. Mas também sou flaviense e cidadão, com deveres, direitos e concerteza (com os direitos fundamentais da liberdade de expressão de qualquer cidadão) e como tal, também me acho no direito de ter opinião (embora alguns pensem que esse direito me está vedado). Pois quando há 22 anos iniciei a minha carreira na função pública (por opção), na minha instituição, existiam 4 técnicos  superiores (sem serem chefia) que desenvolviam ou superintendiam todo o trabalho técnico da instituição. Decorridos 20 anos, na mesma instituição, existem largas dezenas (se não chegarem às centenas – pois perco-me sempre na contagem) de técnicos superiores ou licenciados (doutores e engenheiros), precisamente para se desenvolver o trabalho que se desenvolvia há 20 anos atrás, mas o mais grave não está na quantidade dos técnicos, nem na sua qualidade, mas antes na qualidade (isso sim) dos serviços e na sua competência, sem menosprezar os técnicos, pois teoricamente (pelos concursos) foram os melhores e os serviços, também têm melhorado ao longo dos anos. As minhas dúvidas e apreensões, com tanto técnico superior e a sua qualidade, recaem na necessidade que tem havido em se criarem empresas para desempenharem e desenvolverem trabalho(s) que deveriam ser da competência directa da autarquia, quase parecendo que os técnicos e funcionários da autarquia não têm competência(s) para desenvolverem tal trabalho. O mais caricato da questão, é que essas empresas funcionam com os funcionários e técnicos da autarquia, ou seja, na prática são mais uma divisão funcional da autarquia mas com a diferença de terem aquelas tretas todas de um conselho de administração (ou lá o que é), assembleia geral, direcção, administradores e por aí fora, gente de fato e gravata,  com a agravante de toda essa “massa trabalhadora” além de nomeada, ser paga pelo município, incluindo alguns administradores (ou lá o que é).

 

Tomemos alguns exemplos de empresas municipais ou até intermunicipais de serviços que são ou deveriam ser da competência da autarquia ou nas quais a autarquia tem interesses e está envolvida., sem que contudo se note diferença do antes e depois da existência dessas empresas, pois tudo continua na mesma, ou para pior.

 

Começando pelas mais básicas como a recolha do lixo entregue a empresa intermunicipal :

 

- RESAT da qual não conheço os números envolvidos (pilim) mas conheço o serviço prestado e o que tenho de pagar todos os meses para trabalhar para eles. Trabalhar, sim, pois além de ter de carregar com o lixo umas boas centenas de metros (no meu caso), ainda temos que o separar, além de no caso do vidrão, o orifício ser tão pequeno, que somos obrigados a meter garrafa a garrafa.

 

- Passando à Empresa que passou a tomar conta das Termas em que a única diferença foi o aumento dos preços, a perda de regalias e a mudança de nome para SPA do IMPERADOR, nome pomposo para tudo continuar na mesma (mas com uma empresa por trás). Quanto aos transportes públicos, que também só eram para alguns,  parece que deixaram de ser municipais.

 

- MARC e restante complexo adjacente do qual só existe o nome, pois de Mercado Abastecedor – népia ou só peixe, de Plataforma logística muito menos e de parque empresarial nem se fala.

 

- Chaves Viva, que deveria tratar da cultura e eventos, no entanto se quisermos cinema, teatro, espectáculos ou exposições de arte lá temos que recorrer às associações privadas como o TEF, os TAMAGANI ou até o Casino.

 

- PROCENTRO, que ainda não entendi muito bem o que é e de quem depende, sei que tudo continua igual como antes da sua existência, pois para além de uma gajas boas que aparecem em trajes íntimos e bem interessantes, ou o Eusébio o rei da bola (diga-se publicidade) nos placares que instalaram na cidade, nada mais se vê que justifique a sua existência, além de nalguns casos se apresentarem comi um verdadeiro perigo para peões e condutores (estar atento ao próximo repórter de serviço).

 

- POLIS – Uma cena do Sócrates de quando ainda era (bom) ministro do ambiente que se constituiu (o Polis) em sociedade pública com pessoal, técnicos e instalações próprias para tratar de assuntos da cidade (POLIS).

 

- Centro Histórico – Está em formação ou já formada mais uma empresa para aplicar não sei quantos dinheiros no Centro Histórico, não se sabe ainda como e para que. Nesta temos que esperar pelo desenvolvimento dos acontecimentos. Ao que parece ou consta, a equipa Polis passa para a gestão desta empresa).

 

- FESTIMAGE – Evento entregue ao Semanário Transmontano para premiar fotógrafos indianos…ao que parece, pois pela iniciativa (que até é louvável na forma) deveria  promover em fotografia Chaves e o concelho, mas no evento fotográfico nem uma única foto aparece da região. Mas para isso estão cá de borla e a seco o blog Chaves, o blog do Beto, o Chaves Antiga,  o Blog do Dinis Ponteira, o Blog de Valdanta, o Blog de Segirei, o Blog da Aveleda, a Lai, o João, o Blog Cancelas e outros que tais, que o fazem por amor à camisola.

 

Mas tudo isto foi pretexto para chegar à recém “empresa” criada pelo município e que se chama Confraria de Chaves, que vem para resolver e promover os produtos gastronómicos regionais, entre os quais o presunto de Chaves, o pastel de Chaves, o folar de Chaves, o chouriço de Chaves, as couves de Chaves, as batatas de Chaves e tudo que sejam produtos de Chaves, que pela ambição do projecto, irá arrumar com todas as empresas municipais que existem, ou algumas, pelo menos com o SPA (pois já se sabe que depois de boa jantarada se tem de passar pela fonte das digestões difíceis) e com o Chaves Viva, pois também a confraria se propões organizar exposições, feiras e outros eventos culturais.

 

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Há que acreditar na confraria de Chaves e na sua isenção política pois na sua fundação, além da Câmara na pessoa do Sr. Arquitecto Cabeleira, está também o amigo e companheiro de longa data, fervoroso flaviense de entusiasmo contagiante e sempre disposto a novos desafios Dr. Carlos Guerra. Fiz assim minhas as palavras do mentor da confraria, também Carlos, mas Botelho,  que é também amigo e companheiro de longa data, fervoroso flaviense de entusiasmo contagiante e sempre disposto a novos desafios, como foi chamar a si a marca e o registo dos Pasteis de Chaves e outros produtos cá da terrinha. Aliás todos estes rapazes são rapazes da minha colheita e amigos de longa data, por isso o acreditar tanto neles. Força irmãos,  companheiros e camaradas! E já agora por falar em pasteis de Chaves. Será que alguém conhece a sua origem e a verdadeira receita do pastel de Chaves!? Sei que ainda os há, mas não me consta que esteja envolvidos no processo dos pasteis de Chaves, entretanto, não falta que por aí que apregoe como sendo os detentores do verdadeiro pastel de Chaves. Um bocadinho de informação e da historia do  pastel de Chaves também era preciso, mas agora todos estamos descansados, pois vem aí a confraria do pastel e de tudo que é de Chaves.

 

Sinceramente acredito na Confraria de Chaves, principalmente na questão do presunto e à qual não será estranha a eurocidade Chaves-Verin, pois a partir da confraria já se poderá vender presunto de Feces com o rótulo de “Presunto de Chaves”, pois o verdadeiro, de tanta fama, deitou-se na cama e agora só chega à boca de alguns privilegiados. Entretanto se não for um desses privilegiados, Montalegre já se encarregou de chamar a si e de certificar como da Vila alguns dos verdadeiros presuntos de Chaves, que afinal de contas, o verdadeiro presunto de Chaves, sempre foi dos concelhos vizinhos, principalmente dos concelhos barrosões. Claro que entre eles também os havia das nossas aldeias,. E digo bem – havia. Mas ainda bem que apareceu a confraria, onde pela certa não lhe vão faltar recos para bons presuntos.

 

Alguma coisa se vai aprendendo na televisão e uma delas é a fazer ironias como a Drª Ferreira Leite. Ironias que ninguém compreende, está claro! Mas que são sentidas, tal como as pedras nos sapatos….

 

 

E por hoje já chega, termino com as palavras-mensagem do Sr. Presidente da Câmara no sítio da NET do SPA do Imperador:

Chaves “É uma terra especial: Vive-se em harmonia intensa o passar das estações, há equilíbrio entre a vida na cidade, com o ritmo, o seu dinamismo e a variedade das suas manifestações e o meio rural sereno e quieto na sua beleza e qualidade.”

 

Gosto principalmente do realismo do “meio rural sereno e quieto” e bem quieto, parado, sem gente e até sem cães a ladrar à caravana que já por lá não passa, porque já não vale a pena.

 

Sejamos realistas. Chaves é de facto uma cidade onde se vive em harmonia intensa o passar das estações…. E só, ou quase apenas isso!

Até amanhã!

04
Jan08

Elogio e Lamento ao Presunto de Chaves

 

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Quem nasceu do lado rural da cidade, como eu nasci, sabe que até finais dos anos 60, inícios de 70, no nosso concelho rural das aldeias e bairros periféricos da cidade, rara era a casa que não tinha pelo menos um reco a cevar para matar por volta do Natal. Havia casas mais abastadas e com famílias mais numerosas que chegavam a ter 5, 6 e mais cevas para ir à faca. O Reco, pelo menos até à Páscoa, iria proporcionar muitas, boas e variadas refeições, sempre acompanhadas do melhor e bom que as hortas davam. Couves, batatas, grelos, nabiças… do reco tudo era aproveitado, desde o sangue e do focinho até ao rabo, patas, rins, fígado, orelhas e até as tripas e a bexiga serviam de suporte para um futuro prato de alheiras, linguiças, salpicões, chouriços de carne, de sangue. Incrivelmente tudo no reco era bom, desde o sarrabulho comido quentinho ainda em cima do lombo do porco até à peça rainha, que depois de passar por uns meses de sal, frio e cura iria dar, uns meses mais tarde ou até no ano seguinte, deliciosos petiscos – o presunto.
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E estamos chegados ao meu assunto, elogio e lamento de hoje: o Presunto de Chaves e a sua fama.
Claro que todos sabemos que cada reco dá dois presuntos. Geralmente um deles era para consumo da família e o outro era para vender. Quem matava mais que uma ceva, e punha de parte um ou dois presuntos para consumo próprio, e todos os restantes eram para venda, e nem sequer necessitavam de sair de casa para os vender, pois o negócio do presunto e os “presunteiros” encarregavam-se em ir de porta em porta e de aldeia em aldeia a comprar presuntos para mais tarde serem vendidos nas casas comerciais de Chaves, ou para serem comercializados por esse país fora, principalmente no Porto e em Lisboa, havendo mesmo casas famosas de venda de presunto em Chaves, como o foi o Maximino Vilanova ou apelidos de famílias que sempre estiveram ligados ao negócio do presunto, como o da família Guedes, entre outros.
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Claro que ainda me estou a referir ao negócio do presunto até finais dos anos 60 inícios de 70, em que o presunto produzido no concelho de Chaves não era suficiente para as encomendas ou vendas e os presunteiros tinham de recorrer aos concelhos vizinhos para satisfazer o negócio, principalmente recorriam aos concelhos barrosões de Boticas e Montalegre e também de Vinhais e Valpaços. Todo este presunto era distribuído por esse Portugal fora com o “rótulo” de presunto de Chaves, e porque era bom, fazia as delícias das mesas dos portugueses e também foi fazendo a sua fama.
Quem acompanha este blog, sabe que aos fins-de-semana, quando por aqui passam as aldeias, um dos lamentos comuns à maioria delas, é o seu despovoamento, que teve inícios precisamente nos anos 60 com o grande boom da emigração. As famílias que ficaram nas aldeias, começaram a ficar mais pequenas e envelhecidas e também os recos deixaram de povoar muitas cortes, porque já não tinham gente para sustentar ou porque já não havia gente para os criar, pois criar e cevar um porco para dar um bom presunto de Chaves, não era tarefa fácil e começava logo no parto da reca parideira o no trabalho diário de quase um ano, em que o reco era quase tratado como mais um elemento da família, com boas refeições quentes e a horas certas, alguns mimos, carinho e muitos cuidados. Tanto era o afecto criado com o reco, que na hora de ir à faca era comum ver as mulheres “tratadeiras” a soltarem umas lágrimas com pena do bicho.
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Claro que ainda há quem ceve recos para a matança de Dezembro ou Janeiro, principalmente nas aldeias que ainda vão tendo população mais jovem. Aliás as fotos de hoje provam isso mesmo e são de uma matança de há uma semana atrás em Valdanta, que segundo a autora das fotos (Lai Cruz), o matador só nessa manhã “aviou” 7 recos, 14 presuntos portanto. Mas não se convençam que esses presuntinhos vão estar por aí à venda ou que vão chegar a uma mesa do Porto ou Lisboa, ou melhor, até poderá lá chegar, mas mais depressa é dado a um bom amigo ou como forma de agradecimento, do que é vendido. Basta olhar para o pessoal que está a agarrar o bicho para ver que eles sozinhos de encarregam de “tratar” dos presuntos, além de terem sempre em reserva um presunto para uns nacos que se irão juntar a um copo de vinho na adega aquando se recebem os amigos.
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No meio dos poucos presuntos que se vão produzindo ainda poderá haver um ou outro para venda, mas coisa pouca e às vezes, até é por favor.
Íeis-me chegado ao lamento de hoje e a algumas questões: o presunto de Chaves.
«Cria fama e deita-te na cama», diz o ditado e é verdade, pois só assim consigo perceber que, por esse Portugal fora, ainda se vejam ementas e presuntos onde aparece o nome de Presunto de Chaves, pois até eu próprio, residente em Chaves, para conseguir uma fotografia de um presunto de Chaves genuíno à venda, esperei mais de três meses para consegui fotografar um exemplar, que por sinal veio de uma aldeia do concelho de Montalegre.
Conclusão, por muito que me custe e lamente, facilmente poderemos concluir que muito do presunto que por aí se come como sendo de Chaves, o mais provável é que tenha origem em Feces de Abaixo e se por um lado a muitos dos lambões políticos de Lisboa lhes é bem feito comerem gato por lebre, que outra coisa não merecem, também há os que merecem e estão a ser enganados, como a nós próprios nos enganamos, quando engrandecemos com a fama do presunto de Chaves e sabemos que o presunto é espanhol.
Esta realidade é conhecida por todos os flavienses e também das entidades que poderiam e deveriam ter algum interesse em que o presunto de Chaves fosse uma realidade para além da fama. A certificação e a genuinidade do presunto de Chaves já há muito tempo que deveria ser preocupação das entidades responsáveis do nosso concelho, além de ser um principio para “prender” alguma gente nas nossas aldeias, é que com a certificação e o assegurar da sua genuinidade já se poderia fiscalizar à posteriori o presunto que é vendido por aí fora e enriquece ementas de restaurantes, como sendo de Chaves. Claro que o “negócio” terá que ser tratado logo de raiz e dar ao nosso pessoal das aldeias as condições e a garantia de um rendimento certo para que os incentive a sua produção, porque convençam-se que é o pessoal das aldeias que faz o verdadeiro presunto de Chaves.
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Se houver interesse ainda se pode ir a tempo de fazer jus da fama que o nosso presunto tem. Entretanto os concelhos vizinhos como o de Montalegre já incluem no seu programa da tradicional feira do fumeiro o presunto de Barroso. A batata do Barroso, também já acompanha o cozido do Barroso e a vitela do Barroso, já faz boas mesas por esse Portugal fora.
Chaves aos poucos, também está a perder o velho e tradicional espaço de feira e comércio que sempre teve e foi para o escoamento dos produtos da região. Montalegre já há muito que entendeu que é com uma boa mesa e pela barriguinha que se vai prendendo a atenção dos de fora. Pelo caminho que levam, não tardam nada e estão a produzir o pastel de carne do barroso, e Chaves pelas andanças, vai contentar-se a ver passar os carros na A24.  Custa-me dizer isto, mas é o que sinto, além de uma realidade.
Conclusão das conclusões. Recos não faltam por aí, uns dão bons presuntos, outros não!
Até amanhã, numa aldeia de Chaves onde ainda há recos a dar bons presuntos e com sorte, ainda poderei comer um naco (do genuíno) em casa de um amigo, claro.
Ficha técnica do post:
Fotos da matança de autoria de Lai Cruz do blog Lai,Lai,Lai (Link ao lado).
05
Nov07

Chaves, Trás-os-Montes, Portugal... coisas poucas!

 

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Como não sou ingrato, agradeço ao SAPO mais um destaque deste blog e, claro, o continuar a permitir que este blog exista, como o seu alojamento.
 
Mas flaviense que é flaviense e transmontano, não agradece só com palavras, pois quando toca a agradecimentos agradecemos dando aquilo que melhor temos.
 
Pois pensei e repensei como havia de agradecer, mas nestas coisas não há que pensar muito, é mesmo agarrar naquilo que temos de melhor e dá-lo.
 
As nossas mulheres são as mais bonitas do mundo, mas não há nenhuma que chegue aos calcanhares da nossa Top Model. Velhinha, é certo, mas de cima dos seus dois mil anos ainda continua a fazer inveja a qualquer teen-ager e, não há fotógrafo ou turista que não se renda ao seu encanto. Top Model, Ex-libris cá da terrinha, beijada pelo Tâmega e passeada por quem a quer passear, é sem dúvida uma das nossas maravilhas, a maior, da qual qualquer flaviense se orgulha. Há quem lhe chame Ponte Romana ou Ponte de Trajano, e tudo bem, pois por ser Top Model, não deixa de ter nome. Pois esta é a minha primeira oferta em termos de agradecimento. Uma imagem nocturna, e não é para esconder as suas rugas, porque não as tem, mas porque à noite ela tem mais brilho.
 
E embora a vista também coma, no que toca a comer, nem há como comer mesmo e os flavienses gostam de agradecer com uma boa mesa. Mas neste aspecto Chaves está mal servida e, tudo que temos para oferecer são dietas rigorosas. Couves, grelos, nabiças, batatas, nabos, beterrabas, vagens, ervilhas e ervilhotos. Muito verde que as hortas e a veiga de Chaves vai dando. Mas está claro que não somos vegetarianos e vai daí que se lhes vai acrescentando umas coisas para acompanhar, umas linguiças, uns salpicões, umas costelinhas, umas alheiras, um pouco de vitela (para desenjoar) umas orelhas e pés de porco, ou tudo junto num cozido. Para quebrar o verde da hortaliça, ou então, uns milhos com tudo a monte.
 
Com a modernidade (uma boa desculpa para muitos males) por cá foi-se perdendo a tradição do mata-bicho, que era bem saudável e dava faces rosadas e aquecia (principalmente a aguardente), mas cá pela terrinha ainda se vão fazendo as refeições habituais. Claro que tal como as refeições principais, vamos ficando pelo que a terra produz ou se produz na terra. Assim, logo pela manhã nem há como um pastel de Chaves, quentinho e estaladiço, acompanhado por um copo de vinho branco e "Voilá", embora pouco, chega para a manhã. Há quem os coma e acompanhe também com um café, uma meia-de-leite ou um refrigerante (coisas que fazem mal, está-se mesmo a ver), mas gostos são gostos e o que interessa mesmo é um pastel, ou dois.
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Ao almoço uma coisa ligeira cai bem. Umas couvinhas e umas batatas da montanha, acompanhadas por um cozido, ou então, acompanhadas por uns milhos. Há quem prefira couves misturadas com grabanço (grão de bico) e umas carnes a acompanhar – Chamam-lhe rancho. Há outros que preferem grelos ou nabiças e batata assada, salada de alface, com uns nacos ou postas de vitela ou então com um cordeirinho ou cabrito (tanto faz). Claro que se vai insistindo com as carnes a acompanhar para tirar delas os nutrientes e calorias que as verduras não têm. Somos transmontanos mas sabemos dosear bem as coisas.
 
A seguir ao almoço deveria vir o lanche. Pois em Chaves não se lancha. Mas em sua substituição come-se uma merenda ou uma bucha. Claro que também aqui se dá preferência às coisas da terra, como umas azeitonas, uns pimentos do vinagre, umas cebolas com sal e um pão centeio. Claro que para desenjoar come-se um bocadinho de presunto de Chaves… (que também pode ser de Montalegre ou de Boticas) ou linguiça e salpicão cru às rodelas. Sempre coisa pouca porque logo a seguir vem o Jantar.
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Ao jantar lá vêm outra vez as couves, as batatas, as vagens, cenoura e por aí fora, tudo misturado numa boa sopa de hortaliça. Mas claro que não se vive só de sopa e depois de um dia de trabalho há que repor forças. Uns grelos, umas batatas cozidas, umas alheiras ou costelinhas grelhadas, com um pouco de linguiça grelhada para dar cor, ou então umas batatinhas cozidas, com umas rodelas de cebola e um peixinho cai sempre bem. Pode ser bacalhau, assado na brasa mas regado com muito azeite e uns grelos cozidos.
 
Para todos os pratos, a bebida pode ser vinho de Anelhe, Souto Velho, Vilarinho das Paranheiras, Soutelo, do Castelo … ou até da Adega Cooperativa, um Encosta do Brunheiro, 13º, deve chegar para combater as gorduras…
 
Claro que para a assossega da noite há quem beba um copinho de água da fonte das digestões difíceis, um seja um copinho de água quente das caldas, mas convém deixar arrefecer um bocadinho, pois os 73º C ingeridos à primeira pela certa não deixarão língua para saborear as couves do dia seguinte.
 
Claro que a modernidade dá-nos destas coisas de podermos oferecer assim as nossas couves, grelos, batatas e por aí fora, tudo à distância de um click, mas a mim pessoalmente parece tudo virtual, é assim como o beijo que um poeta escreve numa página em branco, pode estar lá com todo o sentimento e amor do mundo, pois pode, pode escrever o seu nome, mas, falta-lhe sempre o gosto.
 
Eu hoje também vos deixo aqui algumas imagens, e sou testemunha que estava tudo bom, mas claro que aqui virtualmente falta-lhe o gosto. Nem há como vir ate cá para os poder saborear pessoalmente.
 
Entretanto, amanhã cá estou com mais imagens das coisas que temos por cá, em Chaves, claro.
 
Até amanhã.

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