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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA) - Último capítulo


1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

20

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

CT_-_Cópia.jpg

 

Por Portugal

 

Tendo passado à reserva, por ter mais de 35 anos, fui colocado como advogado oficioso no Tribunal de Guerra que funciona na frente e que está instalado em Saint-Quentin, uma pequena localidade dos arredores de Airesâr-la-Lys.

 

Aboletaram-me numa ferme, onde me deram um pequeno quarto, cuja única janela deita para a linha de batalha. A esta hora em que me disponho a escrever ao povo português, terminada a minha acção militar, dando-lhe conta do que vi e do que aprendi, como é minha obrigação de patriota, o canhão troa para os lados da Bélgica. Há três dias que, sem um minuto de intervalo, se ouve para êsses lados o fogo rolante.

 

Sobre o modesto fogão do meu quarto, entre duas imagens de santos, metidas em rodomas de vidro, há um relógio. Alêm do trovão rolante, só a voz desta língua do tempo chega aos meus ouvidos.

 

Rascanho da alma toda a espécie de sentimento impuro que a injustiça dos homens ou a adversidade dos factos haja gerado dentro de mim. Liberto-me de toda a espécie de prejuízo que me prenda a sistemas. Desfaço-me de toda a espécie de compromissos que me ligue a partidos ou a pessoas. E procuro conseguir que as palavras e os juízos me corram da pena, tão natural e verdadeiramente como a luz corre duma chama.

 

Desejarei que as minhas palavras toquem o coração do povo, porque desejo medir a realidade, como aquela pêndula vai medindo o presente, como o canhão, ao longe, vai medindo o futuro.

 

Tropas Portuguesas desfilando sob o Arco do Triunfo.jpg

 

Eis o que tenho a dizer:

 

Emquanto os sistemas entre os povos não passarem do dominio do comércio, das letras e da diplomacia, e os sistemas de ordenação das sociedades se concretisarem em formulas políticas mais ou menos amplas, a guerra será sempre a condição do mundo. A victoria é que sancionará o direito. O canhão será a voz que se fará ouvir mais alto.

 

Creio num destino melhor para a humanidade, mas convenço-me de que uma era de definitiva paz e perene abundância será por muito tempo, porventura por seculos de seculos, uma generosa conceção de poetas e filósofos.

 

Creio na victoria do povo. Creio que o rebanho imenso, que pastores cúpidos têem conduzido através as idades à morte, tomará conta dos seus destinos. Os caminhos da vida social vão-se alargando e com os tempos a existência sobre este pobre planeta devastado será um pouco mais fecunda e mais feliz.

 

Mas está ainda por descobrir o estado social da perfeição e por mais que se devasse o horizonte não se vê o braço heróico que sustenha o facho que há de guiar as nações à pleniventura. A Revolução Russa é ainda, e sempre, a guerra. Lenine é um estadista tartaro que conhece Karl Marx.

 

Por cada guerra, é certo, o povo, ao mesmo tempo que vai juncando a estrada de cadáveres, vai dando mais um passo para a sua libertação. Por cada revolução, é certo, vai-se criando uma nova ordem de idéas, que se refecte e fixa nas leis como mais uma conquista de liberdade e de justiça. Mas emquanto o direito derivar da fôrça, quer esta seja detida pelas antigas classes priveligiadas, por meio de regimes pessoais ou parlamentares, quer seja detida pelo operariado, por meio de ditaduras ou pelo govêrno das classes, o povo será sempre a fácil presa da tirania.

 

Os exércitos são necessários, porque a guerra perdurará. Só pela fôrça os povos poderão defender aquele conjunto de liberdades e direitos que à custa de torrentes de sangue, e de eras de sofrimentos, ganharam e houveram, constituindo hoje o principal património da civilização.

 

Passou o tempo dos exércitos permanentes. Já não basta a cada nação um certo número de milhares de homens encarregados de velar pela sua independência e segurança. Para uma nação se defender das tentativas de agressão e de rapina dos povos visinhos, não bastam os velhos organismos militares, constituidos por profissionais. Esta guerra diz-nos que se torna absolutamente indispensável, para a vida livre dum povo, organizar as indústrias, de modo a produzir-se um material de guerra inexgotavel, e igualmente indispensável se torna o alistamento nas fileiras de todos os homens válidos, de modo a conseguir-se, nos dois sentidos da extensão e da intensidade, o maior esfôrço útil no menor prazo de tempo. Donde resulta que a soma de sacrifícios em vidas e em dinheiro será cada vez maior, e que, em vez de chegarmos ao desarmamento, caminhamos para o armamento geral.

 

Não é adecuada à nossa situação a palavra — militarismo. Esta palavra subintende uma institùição fechada, um colegio de servidores da violência, em que os seus membros teem direitos e deveres especiais e sôbre os quaes recai a responsabilidade do triunfo ou da derrota — uma espécie de casta destinada a intervir nas grandes ocasiões, quebrando ou fundindo o ataque ou a resistência do inimigo com o prestigio da sua espada e a tradição da sua heroicidade.

 

E' às massas que hoje se pede a victoria, e é às fabricas que hoje se exige a sua preparação.

 

Cada povo deve bastar-se a si próprio. O povo que se não bastar a si próprio, ou arrastará uma existência de condenado, vivendo da humilhação e da miséria, ou gravitará num sistema de alianças, que não será mais do que uma escravidão simulada. O seu comércio, a sua indústria, a sua sciência, a sua literatura, passarão para as mãos do povo que dominar êsse sistema, e a palavra independência soará a ôco, perdendo-se nos corações a fé no futuro e o culto do passado.

 

Esta guerra deu aos povos pequenos os seus grandes meios de defeza — a trincheira e o submarino. Mais do que todos os discursos dos estadistas que prégam a sociedade das nações e afirmam o direito de cada povo se desenvolver livremente, conforme a sua idiosincracia, a sua civilização e a sua história — o morteiro de trincheira e o submarino de alto mar outorgaram às pequenas nacionalidades a sua carta de alforria.

 

Não sei o que o futuro reserva à minha Pátria. Se creio que os povos encontrarão um dia uma fórmula que os apróxime directamente e dispense uma diplomacia secreta, por uma internacionalização cada vez maior do pensamento, por um estreitamento cada vez mais íntimo das relações entre os trabalhadores, creio também que as Patrias viverão eternamente, elementos necessários como são do progresso e do equilíbrio sociais. No presente estado de coisas, as Pátrias são a própria condição da vida social. Por isso todos os cidadãos devem ser implacavelmente adstritos ao serviço da sua defeza e ao serviço do seu ideal.

 

 

Eu amo a minha Pátria, e sou intolerante — confesso-o altivamente — para com todas as teorias e todos os actos das quais possa rezultar a sua fraqueza e o seu desprestígio. A grandeza do seu passado enche de orgulho e de confiança todo o meu ser.

 

A teoria das nações moribundas fez o seu tempo. As próprias nações mortas, como a Polónia, erguem-se dos seus túmulos.

 

Portugueses, é preciso crêr! A crença num outro mundo é só própria do que são incapazes de rasgar neste um caminho luminoso e largo por onde os olhos se estendam sem medo a Deus, onde os pés se firmem sem medo ao inferno. Mas qual é o homem, digno de viver, que não tem a realizar na vida uma missão? E qual é o povo, digno de si próprio, que não tem o seu destino a cumprir?

 

Eu tenho fé na minha Pátria, e quero, porisso, que a minha Pátria tenha à sua disposição a fôrça indispensável ao inteiro cumprimento da sua missão civilizadora. Quero um exercito e uma armada, que sejam as chaves da sua defeza e os instrumentos convenientes e eficazes para a realização completa dos seus destinos no mar e na terra.

 

Um país banhado pelo Oceano tem as portas abertas para o mundo, para a glória e para a riqueza — e já demonstrámos que conhecemos os caminhos do mar.

 

Todos os povos, como todos os indivíduos, devem estar preparados para defender os seus direitos e as suas liberdades: nenhum povo, como nenhum indivíduo, deve hesitar em sair à arena sempre que os seus direitos sejam portergados ou que as suas liberdades sejam ameaçadas.

 

A lição eterna, que fulgura através as idades, é a de que os povos que amoleçam numa paz, que não seja o fruto opimo dos seus esforços de cada hora e das suas energias aproveitadas ao máximo em cada minuto, e seja o rezultado duma existência de humilhações e de pavores, de uma política de hesitações e de fraquezas, deixarão embotar as suas virtudes no mais torpe comodismo e deixarão que os apetites mais grosseiros tomem o logar aos sentimentos de abnegação e de sacrifício.

 

Nas nações, como nos cidadãos, tem de haver uma conciência recta. Os cidadãos não devem limitar-se a formar juízos, embora cheios de imparcialidade e de justiça: devem descer à praça publica a afirmar o seu protesto contra a violação da lei e o esmagamento da inocência. Só tem direito a ser possuidor de idéas quem tenha uma boca para as prégar e um pulso para as defender. Do mesmo modo as nações não devem limitar-se a conceder a um povo espesinhado sob a pata do opressor algumas palavras de simpatia: teem o dever de lutar, de batalhar pelo restabelecimento do direito.

 

 

As nações, como os indivíduos, devem ter uma alma alevantada que não desanime perante as dificuldades nem recue perante os obstáculos.

 

Contestamos que a guerra seja a grande escola de sacrifício, porque nunca foi uma fonte de energia. A guerra declara-se quando o sentimento ofensivo dum povo atingiu o seu momento explosivo. E' na paz que a conciência patriótica encontra os seus motivos e os seus impulsos; é na paz que as energias nacionais se ordenam no sentido de condicionar a victoria. Porisso, os povos que não se prepararam na paz não podem sentir a guerra. A guerra é o entusiasmo dos corações acesos pela paixão da pátria; a guerra é o último período de uma época de alta cultura nacional, em que se infiltra nas massas o sentimento da superioridade da raça. As nações que não se exaltaram no amor da Pátria durante a paz, não podem marchar para a guerra, com êsse ranger de dentes que é a vontade de vencer, com êsse sereno passo que dá a certeza de se cumprir um alto dever.

 

Esta é a razão por que Portugal não sentiu a guerra. Para uns a ida à França foi um expediente dum partido, que queria salvar-se da perda iminente; para outros foi quasi uma blague. Muitos anos duma paz podre deixaram-nos apagados numa vida vegetativa, propícia ao desenvolvimento das facções políticas e obliteradora dos sentimentos fortes. O interesse de dinastia prevaleceu sobre o interesse geral, no tempo da monarquia; o espírito de seita prevaleceu sôbre o espírito nacional, no tempo da República. As questões cuja resolução era necessária ao bem do Estado foram postas de parte a favor das estereis disputas de palavras entre os intelectuais ou a favor dos instintos criminosos das harpias do poder. As narrativas heroicas das descobertas e conquistas fôram esquecidas pelas façanhas dos galopins eleitorais ou pelos crimes impunes das chafaricas secretas. O culto dos grandes homens foi substituído pela adoração extactica dos messias da governança.

 

E' preciso que volte a nós a alma heróica dos descobridores e navegantes, dos fronteiros e dos conquistadores, que levavam no peito, como um sol, a Pátria, e levavam ao alto, como uma espada, a cruz.

 

A proclamação da Republica foi um supremo instante da lucidez popular e a ida para a guerra foi o supremo instante, o unico instante, em que os nossos homens publicos tiveram a compreensão do interesse e do dever nacionaes. Sem a Republica, a nação teria cahido embrulhada no manto régio, ou aos pés de Affonso XIII, ou nos corredores do Foreing-Ofice. Sem a participação na guerra, perderíamos as colonias, e passaríamos a levar uma vida de mendigos, tateando na escuridão uma parede para guiar os passos incertos, buscando em vão na caminhada lugubre um tecto sob que descançar a cabeça.

 

A guerra não foi, em parte alguma do mundo, obra de um homem ou dum partido. A guerra foi a inevitável consequência dum estado social precário e de um sistema politico instável.

 

O que fica são os factos.

 

O facto que fica é que Portugal justificou a sua existência marchando para os campos de batalha em defeza do direito e em cumprimento dos seus tratados.

 

Antes de os Estados Unidos entrarem na guerra em prol da liberdade dos povos, pondo na balança todo o peso do seu oiro e todo o valor dos seus admiráveis soldados, houve um pequeno povo, de minguados recursos em dinheiro, em material e em homens, que nem perante a ruina certa, a ameaça de perder o seu império colonial e o risco da propria independência, deixou de cumprir o seu dever. Esse pequeno povo foi Portugal. A atual geração não podia legar aos vindouros nem maior titulo de gloria nem mais justo motivo de orgulho.

 

Quando os anos da guerra se projetarem nitidamente no horisonte do passado, a Historia, na visão panoramica dos factos, nem sequer atentará nas discussões que se teem travado sobre a necessidade ou desnecessidade, sobre a conveniência ou inconveniência da nossa participação armada na Flandres. Tudo isso que se tem escrito não é mais do que um alarido feito por políticos, entregues às suas paixões, ou por jornalistas que escrevem por oficio ou por vicio. Esse alarido nunca chegará aos ouvidos da Historia.

 

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Pintura de Sousa Lopes

 

Conta-se de um oficial francez que, tendo ficado feridos ou mortos sob um bombardeamento quasi todos os seus homens, e tendo os poucos ilesos procurado na fuga um refugio ao furacão, ao ver a primeira vaga inimiga lançar-se ao assalto, trepára ao parapeito, e, na transfiguração épica que dão as grandes horas, comandara:

 

— Mortos, a pé!

 

E os feridos levantaram-se, as metralhadoras começaram a crepitar e o assalto foi repelido.

 

Parece haver muitos portuguezes que trazem dentro de si os corações mortos. A nossa vida parece estar só nos nossos olhos para nos odiarmos, e nos nossos lábios para nos caluniarmos.

 

Aos homens que na Africa e na Flandres afrontaram a morte compete saltar para o parapeito e gritar a esses corações:

 

— Mortos, a pé!

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António Granjo 

27-12-1881 * 19-10-21

 

FIM

 

 

 

23
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)


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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

A rendição

 

O batalhão estava nas trincheiras havia perto de quatro mezes. Logo no fim do primeiro mez se começou a falar na rendição. Mas os mezes iam passando, e aquela vida gasta do apoio para a primeira linha, da primeira linha para o apoio, entre tectos esburacados e entre sacos de terra, ia-se prolongando indefinidamente. Os batalhões inglezes tinham sido rendidos. Já, na nossa frente, os inimigos tinham sido rendidos duas ou trez vezes. Nós continuavamos, como forçados da guerra, amontoados dentro dos abrigos e das trincheiras — carne pôdre atirada para o guano.

 

O general dispuzera que as penas correcionaes se cumprissem na primeira linha. Daqui resultava que um soldado a quem faltava um botão era condenado à morte, da qual só escapava pela misericórdia das balas ou pelo perdão dos morteiros. Entretanto, aqueles que tinham de responder em conselho de guerra por cobardia ou por traição, vinham para a retaguarda até serem julgados, com as vidinhas garantidas até ao julgamento. Esta sábia disposição do comando déra já logar ás coisas mais espantosas.

 

Estaria porventura todo o batalhão condenado a pena correcional e a ficar nas trincheiras até desaparecer o ultimo homem?

 

Ia-se fazendo nas almas essa impressão que produz um crepusculo continuo. Abandonavam-se os soldados á sorte, como aquele sol doente se abandonava à terra. Para os manter vigilantes nos postos, era preciso rondal-os a todo o instante. Um posto de fuzileiros tinha-se deixado surpreender e uma patrulha inimiga levara-lhe dois homens, depois de ter matado o cabo.

 

Era no dia seguinte, conforme a nota do comando, que se fazia a rendição. O batalhão, segundo se dizia, iria para Mametz. A marcha far-se-hia a pé até Paradis, onde esperariamos os caminhões que nos levariam a Mametz, para alêm de Ayre-sûr-la-Lys.

 

Nessa ultima semana de trincheiras pertencia-me ficar na reserva. Mas como um oficial de outra companhia fôra chamado não sei para que serviço, eu, que era o oficial mais moderno, fôra nomeado para o substituir.

 

 A minha ultima ronda era á meia noite. Segui com as ordenanças para a primeira linha.

 

Na escuridão as aguas dos drenos escorriam como tranças de sombra. Na Garden Trench um troço de pioneiros compunha um travez destruído na vespera por uma granada pezada. Dois soldados enchiam os sacos de terra, emquanto outros dois, de pé sobre a banqueta, os ajustavam e batiam. Nos postos da segunda linha uma das sentinelas vigiava a campanha, com a cabeça enterrada sobre os sacos, emquanto a outra, sentada, dormitava com a espingarda entre os joelhos. Sucediam-se os foguetes. Para Armentières o canhão troava ininterruptamente, incendiando o horisonte. Um foguete de suspensão ficou pairando no ar, como uma pomba luminosa, e foi descendo lentamente, deixando uma claridade de neve sobre as trincheiras.

 

No primeiro posto de granadeiros, os soldados cochichavam. Viam-se os cunhetes de granadas acumulados a um canto. Os soldados não resistiam à tentação de mandarem uma salva ao inimigo neste ultimo dia de trincheiras, na hora que precedesse a rendição. Chamei os sargentos e tornei-os responsaveis pela boa disciplina da linha. Eles bem sabiam que a retaliação não se faria esperar, desabando as descargas de morteiros sobre o batalhão que nos rendesse. Denunciava-se a rendição e porventura as estradas e as trincheiras de comunicação seriam batidas, apanhando-nos na marcha para o acantonamento. Fazia-se um dispendio inutil e criminoso de munições e praticava-se um acto de cobardia, visto que não seriamos nós a sentir a paga da agressão. Dei instruções rigorosas aos cabos que comandavam os postos para fazerem remover para os depósitos os respectivos cunhetes e fui percorrendo a linha. Num posto de fuzileiros, onde a Terra de Ninguém começava a estreitar até a trincheira inimiga ficar a pouco mais de vinte metros defronte do Lansdowon Post, debrucei-me sobre o parapeito e enterrei os olhos na noite.

 

O bosque de Biez tapava o horisonte como uma cortina de ferro. Como uma aranha colossal, a rêde d'arame emaranhava-se ao longo da linha. Apontei ao alto a pistola e o foguete partiu, abrindo-se quasi perpendicularmente á nossa trincheira. Em baixo a agua corria pelo fosso, como uma babugem da treva, como um dejecto da noite. Alvejaram para a direita os cestões que revestiam um pequeno troço da linha inimiga. Brilhou alguma coisa, para alem da rêde d'arame. Fiquei alguns minutos bebendo o misterioso fluido que, errando pelos funis das granadas e pelas covas dos morteiros, ascendia pelo talude e se metia dentro de nós como um veneno que nos fazia parar, como que apodrecer, o sangue das veias. Sentiu-se um leve rumor logo em baixo, nas primeiras fiadas de arame. Lancei outro foguete. Era um gato, que, ao ver desdobrar-se o docel luminoso, deu um salto, desaparecendo entre as hervas. Porventura teria havido ali alguma ferme, que fôra arrazada pelos sucessivos bombardeamentos, e o gato vinha, em busca do velho lar, aproveitando aquela hora de trégua.

 

Acabou o meu ultimo quarto. Recolho ao abrigo. — Porque marcho com os olhos no chão? Não cumpri eu o meu dever?

 

Quando cheguei ao abrigo, e abri a cortina de lona, que impedia a projeção da véla no campo, um oficial novo dormia, com o capote vestido, sobre a minha cama. Tinha vindo substituir o oficial de morteiros que morrerra ha dias, com o pescoço decepado por um estilhaço.

 

Sentei-me à porta. As ordenanças tinham- -se desviado para traz do abrigo e conversavam baixinho. Levantara-se um vento forte, que fazia ramalhar as arvores que ladeavam a linha d'agua que corria defronte. As estrelas fechavam continuamente as palpebras, como se o vento lhes atirasse aos olhos as poeiras imundas do imenso campo de batalha.

 

—Não tinha eu cumprido o meu dever?

 

Sim, tinha-me arriscado a morrer, como todos os outros. Estava ainda arriscado a morrer, como todos os outros. A retaguarda não era um escudo contra a morte. Um sargento inglez, que havia escapado às matanças do Yzer e do Some, que fizera sem um ferimento a guerra desde o primeiro dia e a quem tinham dado, como um premio dos seus serviços, um logar qualquer junto do nosso quartel general, havia sido morto ha dias por um torpedo largado dum aeroplano. Morria-se em toda a parte.

 

O vento parecia levantar sombras da terra e projetal-as sobre o horisonte, ensanguentado pelo reberbero das fornalhas da fabrica de munições de Yzeberg. As esquadrilhas de bombardeamento não se aventurariam na noite, afrontando a ventania, e na fabrica trabalhava-se confiadamente. — Teria eu cumprido todo o meu dever?

 

Pelo céo começaram a aparecer as primeiras manchas violáceas da madrugada. As estrelas iam-se afastando cada vez mais da terra, seguindo os caminhos remotos da amplidão misteriosa e infinda. Distinguia mais nitidamente os ramos das arvores. Uma passadeira alvejava como um ossuario.

 

0 Faltava uma hora para a rendição. Os primeiros pelotões deviam ter chagado à Croix Rouge.

 

Na primeira linha as granadas de mão estoiram com tal violencia que do comando perguntam se o sector está sendo atacado pelo inimigo. Os soldados despejam os cunhetes sobre a Terra de Ninguém, à tôa, rindo, como acometidos de loucura. Vão sahir por um mez deste inferno, desta lama, desta inundicie de sangue, de dôr, de raiva, de heroismo. Durante um mez só saberão da existência do inimigo pela presença d'algum aeroplano, voando tão alto, para se poder escapar à perseguição dos nossos aviões de caça, que nem sequer se sentirá, acima das nuvens, o barulho do motor.

 

Escorrem já pelo chão uns vagos clarões lacteos, que se precipitam com as sombras, perseguindo-as, nos drenos e nas trincheiras. No céo palido, por caminhos ignotos, as estrelas desaparecem da vista da terra.

 

O primeiro pelotão a ser rendido é o meu. As ordenanças calaram-se e procuram enxergar as primeiras cabeças por cima do paracostas da Lansdown Street.

 

Uma granada rebenta na passadeira e levanta do dreno um montão d'agua e lama que esperrinha para dentro do abrigo. As ordenanças agacham-se. Uma delas comenta :

 

— Diabo! Por tão pouco não merecia a pena incomodarem-se...

 

Outra granada rebenta adiante do abrigo, junto da Lansdowne. Uma granada pezada passa na direcção do comando do batalhão. O inimigo percebeu que se tratava da rendição e bate os caminhos, as trincheiras e os comandos.

 

A artilharia inimiga pontua de explosões o nosso abrigo. Parece dizer-nos:

 

— Bem sabemos que estais ahi, mas ainda não chegou a hora...

 

Quando a hora chegar estaremos longe. Sobe do fundo da minha consciência novamente a pergunta: — Terei eu cumprido o meu dever?

 

O bombardeamento atraza a rendição. O dia espreme-se, como uma esponja luminosa, sobre o ventre da terra. No nascente forma-se uma nuvem roxa, de bordos irregulares, como uma chaga que se abrisse na face do céu.

 

As granadas continuam a passar, espaçadamente, para a rétaguarda. O sol começa a espontar como um disco vermelho, como uma grande carranca sangrenta.

 

Chega o primeiro pelotão. Seguimos para a primeira linha fazer a rendição. Tudo está já equipado e pronto. Conforme são rendidos, as guarnições dos postos vão seguindo aos seus destinos, em direcção ao acantonamento.

 

Rendido o ultimo posto, lanço um ultimo olhar para o bosque e tomo pela Hun-Street. Quando passo pelo abrigo dum morteiro pezado, um soldado envieza para mim um olhar de rancor. Ainda não sabem, os pobres, quando serão rendidos...

 

Quero passar pela estrada de Lens, justamente por onde entrei no sector. A mesma camouflage esconde a estrada das vistas do inimigo. Dois soldados inglezes conduzem às costas o tronco duma árvore. A mesma máquina agricola jaz inerte e abandonada no campo, corroída da ferrugem, torcida, destroçada. Um oficial de artilharia atravessa a estrada, direito a um observatório.

 

Quando me vejo na estrada, levo a cabeça inteiramente vasia e apresso a marcha sem saber porquê, como uma besta de carga, acostumada às grandes caminhadas.

 

Encontro os primeiros soldados na Rue de Bois. Caminhavam aos dois, aos tres, aos bandos, derreados sob o fardo feito com o lençol impermeavel e o capote, com as mascaras e os respiradores deslaçados, com a espingarda às costas, as mãos segurando as extremidades, como quem leva um lodão. Alguns deixam-se ficar sentados nas bermas da estrada, os dolmans desabotodos, os peitos peludos à mostra, gosando a frescura duma sombra ou vendo correr aos pés um fio de água.

 

O sol cobre de glória e explendor êstes farrapos, êstes fantasmas, estas larvas humanas — êstes heroes.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

 

16
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)


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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

Os dois prisioneiros

 

A noticia correu veloz pela primeira linha. Um maqueiro tinha aprisionado dois alemães.

 

Acabado o meu quarto, enfiei pela primeira trincheira de comunicação e corri ao abrigo do comandante, a saber do caso.

 

A' porta do abrigo, no meio dum pequeno grupo, estavam os dois alemães.

 

Era proibido interrogar os prisioneiros. Tinham de ser remetidos imediatamente para o comando do batalhão e daqui para o quarrtel general, onde sofreriam o necessário interrogatório.

 

Mas os dois homens estavam visivelmente a morrer de fome, e por minha conta e risco, valendo-me da consideração que por mim tinha o comandante da companhia, dei-lhes do que havia — pão, queijo, marmelada e café.

 

Um deles falava bem o francês. Tinha sido caixeiro viajante duma casa alemã, em Paris. Disse-me que era brigadas. O outro era um soldado, sua ordenança.

 

Comiam avidamente, pegando no pão com as mãos ambas, engolindo os bocados quasi inteiros, com os olhos dilatados e uma expressão de quasi ferocidade no rosto. Emquanto comiam, o maqueiro ia-me contando como tinha dado com eles, metidos num abrigo abandonado, atraz da Garden Trench. Quando desembocava da Juntion Street tinha sentido um rumor abafado de palavras. Espreitára e vira dois vultos acocorados ao canto, com as cabeças voltadas para a parede. Puxára da pistola e intimára-os a sair. Um deles desenhou ainda um gesto de resistência, mas logo se converteram á realidade e marcharam, de cabeça baixa, deante dele, pela Garden Trench, até ao abrigo, onde os entregara ao comandante.

 

Só então reparei que os dois prisioneiros traziam dois chapéos de lona, a que tinham dado uma forma semelhante aos nossos chapéos metálicos, segurando as copas, por dentro, com duas tiras de lata. Teriam fugido dalgum campo de concentração de prisioneiros, á nossa rectaguarda, e procurariam alcançar os primeiros postos alemães ou teriam vindo fazer o reconhecimento do nosso sector?

 

O brigadas tinha acabado de tomar o café e sorria, agradecendo. Perguntei-lhe o que tinham vindo fazer.

 

Andavam ha seis dias pelo nosso sector. Estavam cheios de fome, de sôno e de sêde. Tinham conseguido fugir dum campo de concentração, perto de Calais, e depois de se livrarem vinte vezes da morte tinham podido, ha uns oito dias, ganhar um posto alemão, em frente das nossas trincheiras. Deram-lhes dois dias para descançar e mandaram-nos logo fazer o reconhecimento do sector.

 

Parecia despreocupado. Cofiava o bigode loiro e inspeccionava a farda cheia de lama. Vendo que lhe tinha caído um botão do dolman, tapou a casa com o braço, como quem esconde uma falta vergonhosa. Erecto, firme, sorridente, parecia encarar o destino com absoluta confiança.

 

A ordenança estendera a cabeça, num movimento que fazia lembrar o duma ave de rapina pousada, perscrutando hostilmente o espaço, e olhava a linha de abrigos das guarnições dos morteiros. Quando o brigadas acabou de falar voltou-se e fez-lhe qualquer pergunta, levantando de repente a cabeça. O brigadas respondeu secamente:

 

Nein !

 

E dirigindo-se para mim, creio que no receio de que eu tivesse percebido a pergunta da ordenança:

 

— Nous somes prisioniers. Nous somes cer[1]tains de la loyauté portugaise...

 

E enterrou os olhos nos meus, interrogativamente. Eu tinha ouvido falar, havia uns dias, do fuzilamento de dois espiões alemães que, tendo fugido dum campo de concentração, haviam voltado ás linhas alemãs e se tinham prestado a fazer o reconhecimento dum sector inglês. Mas não quiz deixar a esses homens, que falavam da lealdade portuguesa, uma falsa ideia sobre a sua situação. Disse-lhes que, conforme as instruções recebidas, seriam mandados ao quartel general, e aí entregues aos ingleses.

 

Os olhos do brigadas tornaram-se primeiro côr de cinza. Nas corneas passou depois uma sombra, emquanto as iris assumiam um fulgor estranho, como dois traços fuforescentes emergindo de duas ondas de treva. Fechou os olhos e desviou a cara. Vi-o trocar um olhar de inteligência com a ordenança. Este encolheu os hombros resignadamente.

 

Só me lembro de ter sentido uma impressão semelhante á que me produziram os olhos desse homem, uma vez que vi morrer dum tétano um meu visinho.

 

Arrependi-me da minha brutalidade. Um soldado entregou-me os jornais. Perguntei ao brigadas se queria ler.

 

—Mais, oui...

 

Os seus olhos tinham readquirido o verde metálico e todo o seu ser aparentava uma esplendida e impressionante serenidade.

 

Pegou no Matin e correu os títulos que encabeçavam os telegramas da guerra. Os franceses e ingleses tinham desencadeado uma ofensiva fulminante no Yzer. Eram enormes as cifras dos prisioneiros e do material apreendido.

 

— Oh! vous serez vaincus!

 

O brigadas pareceu estranhar o tom de sinceridade das minhas palavras. Fitou-me um instante em silencio e entregou-me o jornal sorrindo desdenhosamente. Esse sorriso era alguma coisa de formidável. Afrontava como uma bofetada, vexava como um escarro, indignava como a cinica apologia duma iniquidade. O sorriso desse homem era uma verdadeira arma ofensiva. Revelava um tal orgulho da raça, uma tal certeza do triunfo final, que acendia de raiva o sangue do adversário.

 

Veiu a ordem do comando do batalhão para os dois prisioneiros seguirem imediatamente.

 

Percebendo do que se tratava, perfilaram-se e esperaram o sinal de marcha.

 

— Si vous voulez, du café encore...

 

Agradeceram, emborcaram as ultimas goladas e perfilaram-se novamente.

 

Os olhos do brigadas tornaram a fazer-se da côr da cinza. Pareciam dois carvões apagando-se. A ordenança olhava agora indife[1]rentemente para tudo, repetindo automatica[1]mente os movimentos do brigadas.

 

Partiram, entre dois soldados. Atravessaram a passadeira lançada á guiza de ponte sobre a linha de agua que corria em frente do abrigo e sumiram-se na Lansdowne Street, a trincheira que ia ter ao comando do batalhão.

 

Seriam fuzilados provavelmente no dia seguinte, encostados ao muro de um cemitério ou aos troncos de duas arvores, depois de verificada a identidade e de se averiguar que tinham fugido dum campo de concentração e fornecido indicações das nossas posições ao inimigo.

 

Éramos nós, os portugueses, que os entregávamos á morte, visto que os nossos costumes não nos permitiam fuzilal-os com a serena firmeza com que o faziam os pelotões ingleses.

 

E mais do que o sorriso desdenhoso daquela boca boche, vexou-me a condição de inferioridade em que estávamos em relação ao comando geral. Aqueles prisioneiros eram nossos. Aquelas vidas pertenciam-nos. Nós é que devíamos dispor delas. Sujava-me a alma a ideia de que, não tendo a coragem de os eliminar, tomados de cobardia perante a responsabilidade de matar inimigos inermes, fazíamos o papel de os mandar para o açougue, desviando os olhos.

 

Porque não os fuzilavamos nós? Não mereciam eles a morte?

 

Se porventura esses dois ignobeis espiões tivessem escapado ás vistas dos nossos e conseguissem voltar para as suas trincheiras, com as nossas posições referenciadas, com os nossos abrigos marcados, não seriamos nós todos assassinados friamente pela artilharia alemã? Não era justo que esses homens pagassem essa tentativa de assassinio em massa?

 

Os ingleses tinham razão. A guerra tinha de ser conduzida em obediência á necessidade de vencer. Os espiões não mereciam quartel. Era preciso defender-nos — e essa defeza exigia o sangue desses inimigos que se haviam aproveitado da circuntancia de lhes haverem poupado uma primeira vez a vidà para promoverem a nossa morte e o nosso aniquilamento.

 

A guerra não podia compadecer-se com sentimentalismos de meninas românticas ou com doutrinas doentias de filosofos faceis. Era preciso vencer e todos os obstaculos tinham de ser eliminados implacavelmente. — Pois não era isto?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Sentei-me no banco de sacos de terra que se tinha feito junto da boca do abrigo, encostado á parede. Uma esquadrilha de caça fugia das linhas inimigas perseguida por outra esquadrilha de caça alemã. Um dos nossos aviões foi cercado pelos aviões inimigos, e, para se salvar, fez o loop the looping verticalmente sobre a segunda linha, escapando-se depois rente ás arvores.

 

Todos esses pensamentos de morte e de vingança não seriam, dentro de mim, o resíduo da raiva que me fizera acender nas veias o sorriso desdenhoso do prisioneiro alemão?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Os aviões boches, ao avistarem no horisonte outra esquadrilha inglesa, retiraram sobre as suas linhas e descreviam agora grandes círculos a enormes alturas, como aves de rapina que haviam deixado fugir a presa e desafogavam a cólera indireitando para o céo, numa ameaça, as meninges agressivas.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

02
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)


1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

16

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

A fuga à Morte

 

Logo que foi declarada a guerra, o tenente X., de um dos regimentos do norte, pensou em pedir a dimissão. Escolheu a carreira das armas, como poderia ter escolhido qualquer outra. Era um modo de vida. Seu pae e seu avô tinham sido oficiais do exército e levaram-no desde pequeno a inclinar-se àquela profissão, para continuar essa nobre tradição na família. Fôra colocado logo depois da promoção a aspirante no regimento aquartelado na sua terra, onde casára e a vida lhe corria tranquila e docemente, como o rio de claras águas corria entre as amigas sombras do vale. Os dois filhos que Deus lhe déra só vieram turbar essa dôce tranquilidade para o obrigarem a pensar no futuro, sonhando a cada hora com a maneira mais azada de lhes garantir o pão e a felicidade.

 

Mas, como apezar das manifestações populares às nações aliadas, apezar da campanha a favor da nossa intervenção na guerra, a ordem de mobilisação se ia demorando, e a vitoria poderia decidir-se dum momento para o outro a favor de qualquer dos partidos, o tenente X. foi-se deixando ficar.

 

Um dia soube-se que o ministro da guerra resolvera indeferir qualquer pedido de dimissão. O tenente X. entendeu que devia expôr a situação à mulher. A mobilisação estava, pois, por dias. O seu regimento devia ser um dos primeiros a mobilisar. Se partisse, a morte era quási certa. Com os meios materiais de que dispunha o inimigo, com a sua admirável preparação para a ofensiva, com a fé que mostrava ter na vitoria, ir para a França era ir para o matadouro, de cabeça baixa, como uma rez. Talvez fosse melhor desertar, fugir. Ganhava-se a vida em toda a parte. No Brasil, na Argentina, em qualquer canto, haviam de encontrar um bocado de pão. Fariam porventura fortuna. Mais tarde viria a anistia. Se os aliados triunfassem, a anistia coroaria a obra da vitoria; se triunfassem os centraes, a anistia demorar-se-ia um pouco mais, mas havia de chegar a sua hora. Eram pobres, o soldo era pequeno, estavam para ali metidos naquele poço. Os filhos teriam de ir tambêm para as fileiras, porque era necessário aproveitar as vantagens do Colégio Militar e da Escola de Guerra. A família seria assim eternamente uma dinastia de forçados do quartel, de condenados à farda.

 

A mulher, ante a perspectiva da viuvez e da miséria, a princípio concordou. Iria para onde êle quizesse. Tanto fazia estar ali como no cabo do mundo, desde que não perdesse o amparo do seu braço. Para levar aquela existência modesta, quási de indigência, em que o soldo mal chegava para as compras da praça, mais valia a pena tentar a vida por outro lado. Pois sim... Ela era sua mulher e seguiria por isso o seu destino.

 

Passaram alguns dias e a mulher entrou a pensar que ali ao menos sempre tinham parentes e conhecidos capazes de lhes acudir numa aflição. Sabia lá para onde a sorte os atiraria... O soldo era pequeno, mas era certo. Deitavam-se com um e amanheciam com dois. E lançarem-se a correr mundo, irem para o Brasil ou para a Argentina, com nomes supostos, com passaportes falsos, como criminosos da peior espécie, o coração sempre num punho até perderem de vista as costas de Portugal, sem poderem contar com o dia de amanhã, sem um braço amigo que os amparasse, era sujeitarem-se, além da vergonha, às mais apertadas privações e às mais crueis desgraças. Tinha de ir para a guerra?... Mas, nem todos haviam de lá ficar. Deus não quereria que aqueles inocentes ficassem sem pai, entregues à sua sorte como as nuvens entregues ao vento ou como as sombras entregues à escuridão.

 

Quando chegou a ordem de marchar, o tenente X. deu parte de doente. Não, não iria para a matança, sem primeiro empregar todos os meios para escapar à choupa. Era o seu direito. Não podia ter menos direitos do que um bezerro, que só de rastos se deixava conduzir ao matadouro. — Depois, tinha o govêrno consultado a nação? O exército era da nação, não era dum govêrno ou dum partido. Já lá ia o tempo em que se dispunha dos homens como de bestas. Sem lhe mostrarem as vantagens da entrada na guerra, não se prestaria a embarcar, como um fardo inutil ou como um animal votado ao sacrifício, para a Flandres. Que fossem os que andavam por Lisboa aos vivas à guerra. .. O batalhão partiu. A mulher sentia sobre si, como fléchas de fogo, os olhos dos filhos, das irmãs e das mulheres dos que tinham marchado. Quando ia para o hospital vêr o marido, nem sequer olhava para os lados, para não surpreender nos transeuntes um gesto de censura ou uma palavra de condenação. Uma vez viu à porta de casa um velho acariciar uma das crianças e dizer alto — que Deus lhe désse um coração mais valoroso do que o do pai. A mulher do oficial que fôra chamado a substituir o seu marido andava grávida e no dia da partida abortára. Passava as noites a chorar. Apezar do amor que lhe tinha, sentia que o marido lhe pezava sôbre a alma como um bloco de granito.

 

Até que um dia, olhando-o de frente, lhe disse que era preciso partir. Acusavam-no de cobardia. O seu nome andava nas bôca dos garotos, como um osso na bôca dos cães. Os que viram partir os outros, referiam-se a êle como a um ente desprezível. Ela bem sabia que fôra o amor dos filhos que o levara a baixar ao hospital. Bem lhe custava a ela, a pobre, ficar sósinha e triste, entre as saudades das horas tranquilas que tinham passado e a visão trágica das terriveis horas que se iam passar. Mas que lhe havia de fazer? Não queria que sôbre a cabeça dos filhos pezasse, como uma maldição, uma falta do pai. Era preciso partir...

 

O tenente X. pediu para lhe darem alta e embarcou comigo no transporte A.

 

Foi a bordo que o conheci. Pálido, magro, com os olhos quási sem brilho, com os labios quási sem sangue, não largava o cinto de salvação. Deparei com êle, uma noite, à prôa, debruçado sôbre as ondas, que referviam em baixo, rasgadas pela quilha, remexidas pela hélice, açuladas pelo vento. Mal lhe dirigi as primeiras palavras, logo fez menção de se afastar. Persegui-o até à popa. Encostado ao pequeno canhão, enquanto os olhos se embebiam na noite, como a água se embebe numa esponja, foi-me contando a sua vida.

 

A mulher ficára na terra com os filhos, quási desamparada. Com a carestia da vida, o soldo mal lhe chegaria para o governo da casa. Êle seguia o seu destino, caminhando verticalmente para a morte, como uma pedra solta do alto duma torre caminha para o chão. Marchava como um boneco articulado, sem vontade, sem confiança, sem fé. Obedecia ás ordens, à voz de comando, como um sonanbulo obedece à mão misteriosa que o guia. Tinha a certeza de que não voltaria. Considerava-se já vivendo por favor, disfrutando uma espécie de vida postuma, como um raio pode viver fora do sol, como uma onda pode viver fora do mar. A Morte ferrara-lhe as unhas na garganta e não o largaria mais até o estrangular e o arremessar inanimado para o chão. Sentia a alma despegar-se-lhe do corpo, como um torrão se despega duma ladeira molhada ou como uma trave se despega dum edifício em ruínas. No coração tinha só cinzas — as saudades da mulher e dos filhos. — E apezar de tudo, pessuia-o um medo horroroso de morrer, esse medo insuparavel e invencível que dizem que faz os grandes criminosos. Compreendia o que se passara na alma daquêle pobre soldado que, para não morrer na guerra, se deixara esmagar pela máquina do combóio que o transportava.— Não sabia se morreria de doença, se de ferimentos. Que lhe importava isso? Não sabia mesmo se morreria antes de desembarcar nessas terras de França, pela qual iamos combater, pagando-lhe com tamanha generosidade as crueldades de que fomos vítimas quando das invasões napoleónicas. Um torpedeamento, um acidente de bordo, qualquer coisa o poderia matar, visto que estava condenado e não podia escapar.

 

As palavras saiam-lhe mansas e trémulas, como gotas dágua pingando duma abóbada. Os braços pendentes ao longo do corpo traziam-me à idêa ramos esgalhados, presos ao tronco por um fio.

 

Encontrámo-nos depois no acampamento de Etaples. Estava quási sempre metido na tenda. Só um dia o vi errar pelo acampamento, quando uma medonha trovoada desabou sobre a colina, revolvendo as areias, arrancando as espias, e fazendo entrar para dentro das barracas baldes dágua.

 

Eu segui para a frente, e só bastante tarde tive noticias dêle, na ocasião em que o meu batalhão se reconstituía à retaguarda, depois do bombardeamento da noite de Santo António. Procurei-o. Estava cada vez mais magro. Os olhos tinham ganho um certo brilho de febre, e os braços pendulavam-lhe aos lados, em movimentos cada vez mais automáticos.

 

Resignara-se à idêa da morte. Dizia-se ancioso por que chegasse o dia de marchar para a primeira linha. Quanto mais depressa viesse um morteiro que o esquartejasse menos duraria a sua via dolorosa. Assim como assim, ninguém podia fugir ao seu destino e resolvera afrontal-o cara a cara.

 

Parecia cheio de decisão e de audácia. Reparei que os seus olhos espreitavam para o lado, como se estivessem à espera duma surpreza, ou me fitavam desconfiados, como se eu lhe tivesse saido ao caminho para lhe evitar a passagem. Outras vezes dançava-lhe um sorriso equívoco nos lábios, mas que logo se desfazia como se desfaz uma ruga à superfície da água dum charco.

 

O batalhão a que êle pertencia entrou nas primeiras linhas, à minha direita, guarnecendo o outro subsector da Ferme du Bois. O meu pelotão era o que fazia a ligação com esse subsector e fui portanto ajustar a colocação do último posto com o comandante do pelotão que alinhava com o meu.

 

Perguntei a este oficial:

 

— E o tenente X.?

 

O meu camarada informou-me entre dentes que tinha dado parte de doente, no próprio dia em que devia marchar para as trincheiras, e baixara à ambulância de Marthes. E enquanto nos lábios lhe aparecia um riso escarninho, continuava a falar do serviço, como se lhe fosse defezo ocupar-se de semelhante criatura.

 

Quando regressei ao apoio, fui à ambulância. O tenente X. tivera alta e recolhera ao batalhão. Passei pelo sitio onde êste acantonava e logo dei com êle, em frente da ferme onde estava instalada a sua companhia, sentado numa das bermas da estrada que conduzia a Bethune, com as pernas metidas na valeta, à sombra dum olmo.

 

Nem se mexeu quando me viu. Sentei-me junto dele. Como a sombra que caía do olmo, a sua voz caindo sôbre a valeta, parecia fazer uma nódoa no chão. Confessou que se possuirá duma cobardia que lhe tolhia todos os movimentos, que lhe obscurecia a alma, que lhe fazia parar o coração. Sentia sôbre si os olhos dos camaradas, dos próprios soldados, acusando-o, vergastando-o, esmagan-do-o. Qaundo saira da ambulância e se apresentara no comando do batalhão ouvira um corneteiro nas suas costas, dizer para outra ordenança:

 

— Olha o gajo!...

 

Mas não podia libertar-se da imensa miséria em que se deixara cair, como um corpo morto se deixa cair numa estrumeira. Podiam chamar-lhe cobarde à vontade. Perdera toda a espécie de vergonha e de pudor. Que o prendessem. Que o fusilassem, se quisessem. Tinha vinte e seis anos. Tinha mulher e filhos. Queria viver. Não se havia de entregar à morte, tão estupidamente como uma tábua se entrega à corrente. Tinha obrigação de resistir. Resistiria até à última extremidade. Tinham despreso por êle? Que lhe importava? A Pátria estava longe. Se voltasse, as flores cairiam sobre a sua cabeça como sobre as cabeças dos outros. E poderia erguer a toda a altura dos seus braços os corpos tenros dos filhos, porque fôra por eles que a tudo se sujeitara, mesmo a ser um miserável.

 

As primeiras palavras que ensaiei procurando chama-lo ao caminho da honra e ao cumprimento do dever, despertaram nele uma reacção tão violenta que os olhos se lhe raiaram de sangue e se lhe encheram os cantos da bôca de espuma.

 

Passados alguns dias, à hora do jantar, enquanto para os lados de Lens o canhão troava, um oficial do 34, que nos tinha vindo visitar, entre uma golada de cerveja e uma garfada de arrôs de coelho congelado, contava-nos o seguinte:

 

O tenente X baixara segunda vez à ambulância de Marthes. Depois de umas horas de observação, o diretor da ambulancia metera-lhe a guia nas unhas, com a rubrica doença simulada. Apresentado no comando, mandaram-lhe levantar o respetivo auto e fizeram-no seguir imediatamente para a primeira linha. Fôra num desses dias atraz, em que reinara em todo o sector uma perfeita calma, tendo-se limitado o inimigo a atirar algumas granadas sobre o observatório da Factory, para fazer o zero. Chegado à primeira linha, meteu-se no abrigo, sem dar palavra, e ahi se ficou, olhando o chão, abrindo e fechando maquinalmente a culatra de uma pistola de very-lights. Quando veio a hora da ronda, voltou-se para o camarada, e, tirando da carteira, pediu-lhe que a fizesse chegar às mãos da mulher. Continha 500 francos, alguns retratos e uma larga carta com instruções sobre a educação a dar aos filhos. E, já na boca do abrigo, com uma serenidade impressionante, com um olhar que parecia atravessar as caneluras da pequena abobada de ferro, disse para dentro:

 

— Não se esqueça do meu pedido. Tenho a certeza de que vou morrer...

 

Fez sinal às ordenanças e enfiou pela trincheira. Momentos depois ouviu-se a explosão dum morteiro pesado. Uma ordenança voltou ofegante ao abrigo, com a farda cheia de terra, e uma mão sangrando dum pequeno ferimento.

 

—Meu alferes, um morteiro matou o nosso tenente...

 

O alferes acudiu. O projetil dum morteiro pezado tinha cahido sobre a passadeira, destruindo um travez e esburacando a parte superior do parapeito. O corpo do tenente X estava meio soterrado na onda de lama que o rebentamento do morteiro tinha levantado. Era uma massa informe de sangue e de troços de carne. Um enorme estilhaço, que se via ainda ensanguentado e com as arestas segurando uns pequenos bocados da farda, agarrara-o pelo ventre e quasi o cortara em dois. Os intestinos descaiam-lhe para o dreno, sob a passadeira partida. Um outro estilhaço partira-lhe o craneo e retalhara-lhe a face.

 

Em todo esse dia não se ouviu mais um único tiro. Parecia que a Morte estava à espera dele e que o seu apetecido cadaver bastara para lhe saciar a fome nesse dia.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

 

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