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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jun21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)


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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

18

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

Os dois prisioneiros

 

A noticia correu veloz pela primeira linha. Um maqueiro tinha aprisionado dois alemães.

 

Acabado o meu quarto, enfiei pela primeira trincheira de comunicação e corri ao abrigo do comandante, a saber do caso.

 

A' porta do abrigo, no meio dum pequeno grupo, estavam os dois alemães.

 

Era proibido interrogar os prisioneiros. Tinham de ser remetidos imediatamente para o comando do batalhão e daqui para o quarrtel general, onde sofreriam o necessário interrogatório.

 

Mas os dois homens estavam visivelmente a morrer de fome, e por minha conta e risco, valendo-me da consideração que por mim tinha o comandante da companhia, dei-lhes do que havia — pão, queijo, marmelada e café.

 

Um deles falava bem o francês. Tinha sido caixeiro viajante duma casa alemã, em Paris. Disse-me que era brigadas. O outro era um soldado, sua ordenança.

 

Comiam avidamente, pegando no pão com as mãos ambas, engolindo os bocados quasi inteiros, com os olhos dilatados e uma expressão de quasi ferocidade no rosto. Emquanto comiam, o maqueiro ia-me contando como tinha dado com eles, metidos num abrigo abandonado, atraz da Garden Trench. Quando desembocava da Juntion Street tinha sentido um rumor abafado de palavras. Espreitára e vira dois vultos acocorados ao canto, com as cabeças voltadas para a parede. Puxára da pistola e intimára-os a sair. Um deles desenhou ainda um gesto de resistência, mas logo se converteram á realidade e marcharam, de cabeça baixa, deante dele, pela Garden Trench, até ao abrigo, onde os entregara ao comandante.

 

Só então reparei que os dois prisioneiros traziam dois chapéos de lona, a que tinham dado uma forma semelhante aos nossos chapéos metálicos, segurando as copas, por dentro, com duas tiras de lata. Teriam fugido dalgum campo de concentração de prisioneiros, á nossa rectaguarda, e procurariam alcançar os primeiros postos alemães ou teriam vindo fazer o reconhecimento do nosso sector?

 

O brigadas tinha acabado de tomar o café e sorria, agradecendo. Perguntei-lhe o que tinham vindo fazer.

 

Andavam ha seis dias pelo nosso sector. Estavam cheios de fome, de sôno e de sêde. Tinham conseguido fugir dum campo de concentração, perto de Calais, e depois de se livrarem vinte vezes da morte tinham podido, ha uns oito dias, ganhar um posto alemão, em frente das nossas trincheiras. Deram-lhes dois dias para descançar e mandaram-nos logo fazer o reconhecimento do sector.

 

Parecia despreocupado. Cofiava o bigode loiro e inspeccionava a farda cheia de lama. Vendo que lhe tinha caído um botão do dolman, tapou a casa com o braço, como quem esconde uma falta vergonhosa. Erecto, firme, sorridente, parecia encarar o destino com absoluta confiança.

 

A ordenança estendera a cabeça, num movimento que fazia lembrar o duma ave de rapina pousada, perscrutando hostilmente o espaço, e olhava a linha de abrigos das guarnições dos morteiros. Quando o brigadas acabou de falar voltou-se e fez-lhe qualquer pergunta, levantando de repente a cabeça. O brigadas respondeu secamente:

 

Nein !

 

E dirigindo-se para mim, creio que no receio de que eu tivesse percebido a pergunta da ordenança:

 

— Nous somes prisioniers. Nous somes cer[1]tains de la loyauté portugaise...

 

E enterrou os olhos nos meus, interrogativamente. Eu tinha ouvido falar, havia uns dias, do fuzilamento de dois espiões alemães que, tendo fugido dum campo de concentração, haviam voltado ás linhas alemãs e se tinham prestado a fazer o reconhecimento dum sector inglês. Mas não quiz deixar a esses homens, que falavam da lealdade portuguesa, uma falsa ideia sobre a sua situação. Disse-lhes que, conforme as instruções recebidas, seriam mandados ao quartel general, e aí entregues aos ingleses.

 

Os olhos do brigadas tornaram-se primeiro côr de cinza. Nas corneas passou depois uma sombra, emquanto as iris assumiam um fulgor estranho, como dois traços fuforescentes emergindo de duas ondas de treva. Fechou os olhos e desviou a cara. Vi-o trocar um olhar de inteligência com a ordenança. Este encolheu os hombros resignadamente.

 

Só me lembro de ter sentido uma impressão semelhante á que me produziram os olhos desse homem, uma vez que vi morrer dum tétano um meu visinho.

 

Arrependi-me da minha brutalidade. Um soldado entregou-me os jornais. Perguntei ao brigadas se queria ler.

 

—Mais, oui...

 

Os seus olhos tinham readquirido o verde metálico e todo o seu ser aparentava uma esplendida e impressionante serenidade.

 

Pegou no Matin e correu os títulos que encabeçavam os telegramas da guerra. Os franceses e ingleses tinham desencadeado uma ofensiva fulminante no Yzer. Eram enormes as cifras dos prisioneiros e do material apreendido.

 

— Oh! vous serez vaincus!

 

O brigadas pareceu estranhar o tom de sinceridade das minhas palavras. Fitou-me um instante em silencio e entregou-me o jornal sorrindo desdenhosamente. Esse sorriso era alguma coisa de formidável. Afrontava como uma bofetada, vexava como um escarro, indignava como a cinica apologia duma iniquidade. O sorriso desse homem era uma verdadeira arma ofensiva. Revelava um tal orgulho da raça, uma tal certeza do triunfo final, que acendia de raiva o sangue do adversário.

 

Veiu a ordem do comando do batalhão para os dois prisioneiros seguirem imediatamente.

 

Percebendo do que se tratava, perfilaram-se e esperaram o sinal de marcha.

 

— Si vous voulez, du café encore...

 

Agradeceram, emborcaram as ultimas goladas e perfilaram-se novamente.

 

Os olhos do brigadas tornaram a fazer-se da côr da cinza. Pareciam dois carvões apagando-se. A ordenança olhava agora indife[1]rentemente para tudo, repetindo automatica[1]mente os movimentos do brigadas.

 

Partiram, entre dois soldados. Atravessaram a passadeira lançada á guiza de ponte sobre a linha de agua que corria em frente do abrigo e sumiram-se na Lansdowne Street, a trincheira que ia ter ao comando do batalhão.

 

Seriam fuzilados provavelmente no dia seguinte, encostados ao muro de um cemitério ou aos troncos de duas arvores, depois de verificada a identidade e de se averiguar que tinham fugido dum campo de concentração e fornecido indicações das nossas posições ao inimigo.

 

Éramos nós, os portugueses, que os entregávamos á morte, visto que os nossos costumes não nos permitiam fuzilal-os com a serena firmeza com que o faziam os pelotões ingleses.

 

E mais do que o sorriso desdenhoso daquela boca boche, vexou-me a condição de inferioridade em que estávamos em relação ao comando geral. Aqueles prisioneiros eram nossos. Aquelas vidas pertenciam-nos. Nós é que devíamos dispor delas. Sujava-me a alma a ideia de que, não tendo a coragem de os eliminar, tomados de cobardia perante a responsabilidade de matar inimigos inermes, fazíamos o papel de os mandar para o açougue, desviando os olhos.

 

Porque não os fuzilavamos nós? Não mereciam eles a morte?

 

Se porventura esses dois ignobeis espiões tivessem escapado ás vistas dos nossos e conseguissem voltar para as suas trincheiras, com as nossas posições referenciadas, com os nossos abrigos marcados, não seriamos nós todos assassinados friamente pela artilharia alemã? Não era justo que esses homens pagassem essa tentativa de assassinio em massa?

 

Os ingleses tinham razão. A guerra tinha de ser conduzida em obediência á necessidade de vencer. Os espiões não mereciam quartel. Era preciso defender-nos — e essa defeza exigia o sangue desses inimigos que se haviam aproveitado da circuntancia de lhes haverem poupado uma primeira vez a vidà para promoverem a nossa morte e o nosso aniquilamento.

 

A guerra não podia compadecer-se com sentimentalismos de meninas românticas ou com doutrinas doentias de filosofos faceis. Era preciso vencer e todos os obstaculos tinham de ser eliminados implacavelmente. — Pois não era isto?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Sentei-me no banco de sacos de terra que se tinha feito junto da boca do abrigo, encostado á parede. Uma esquadrilha de caça fugia das linhas inimigas perseguida por outra esquadrilha de caça alemã. Um dos nossos aviões foi cercado pelos aviões inimigos, e, para se salvar, fez o loop the looping verticalmente sobre a segunda linha, escapando-se depois rente ás arvores.

 

Todos esses pensamentos de morte e de vingança não seriam, dentro de mim, o resíduo da raiva que me fizera acender nas veias o sorriso desdenhoso do prisioneiro alemão?

 

…………………………................................................................................................................................................

 

Os aviões boches, ao avistarem no horisonte outra esquadrilha inglesa, retiraram sobre as suas linhas e descreviam agora grandes círculos a enormes alturas, como aves de rapina que haviam deixado fugir a presa e desafogavam a cólera indireitando para o céo, numa ameaça, as meninges agressivas.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

03
Mar21

A Grande Aventura

(SCENAS DA GUERRA)


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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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Um dia fora do acampamento

 

Saimos, eu e o meu companheiro de tenda, logo de manhã, do acampamento, na disposição de visitarmos a pequena cidade situada no sopé da colina e a linda praia que se projecta no horizonte azulineo do mar, além da massa verde da floresta, como uma visão de encantamento.

 

Detivemo-nos um pouco junto duma barraca onde se celebrava o culto protestante e donde vinham os compassos solenes de um cântico religioso; e, mais adiante, junto duma messe de sargentos, donde vinham as notas alacres dum «cake-walk», atacado num piano pelas mãos dextras dalgum «cow-boy» do Canadá.

 

O «tramway», esperava. Era uma carripana digna de entrar para um museu arqueológico, e que, á falta duma mão misericordiosa que a levasse para os Inválidos, ia fazendo tristemente o transito de passageiros entre as duas cidades.

 

Um cabo português fazia a policia, exigindo as licenças. Perto de mim sentou-se uma rapariga de olhos verdes e sorriso largo, o rosto torpemente pintado, e com um chapéu que podia também ir para os Inválidos. Era uma refugiada belga. Andava por ali aos encontrões, babujada de todos esses homens que desciam do acampamento após os violentos exercícios duma instrução intensiva, ébrios de uma hora de goso, devassando com os olhos lúbricos os vestidos de todas as mulheres, rangendo os dentes á vista duma perua nua, como bestas ferozes uivando de cio.

 

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Alec (Coutts) Fraser; Etaples, França; 1900. - 'Rio abaixo, Etaples'

 

Os pobres belgas! O que se diz dessa pobre gente que os canhões alemães arremessaram para a França como rebanhos tresmalhados á busca dum refugio onde pudessem repousar a cabeça aflita de expatriados! Em volta deles faz-se uma mefítica atmosfera de suspeição, e o epíteto de espiões envolve tanto os que salvaram a civilização pela resistência ao invasor, como os que, acomodados sob as ordenanças de Bissing, encolhem os ombros e deixam correr os fados. Pobres refugiados belgas que eu encontrei por toda a parte, enxotados como animais imundos, recebidos por favor nos «ateliers» e nas «brasseries»!

 

Deslisavamos através da floresta. Corvos passeavam pelas aléas. Ao fundo duma avenida, impunha-se a fachada, de linhas arquitectónicas, do Grand Palais, onde uma duqueza inglesa á sua custa instalara e sustentava um hospital de sangue. As «misses» passavam, com os seus vestidos brancos, as suas faces maceradas de freiras confundindo-se com a brancura do linho dos colarinhos ou das toucas. Um grupo de oficiais ingleses, com os cintos envernizados, de grévas e esporas, abatendo com os «steaks» os ramos mais baixos das arvores marginais da estrada, caminhava em silencio.

 

Desembocámos na rua de Paris. Portugueses, ingleses, escoceses, australianos, canadianos, franceses, russos, belgas, cruzam as fardas e as continências, sorriem para as mulheres, param junto das montras e das vitrines, elevando-se no ar uma massa confusa de sons, feita de todas as vogais, de todas as consoantes, de todos os ditongos, como um cântico longínquo entoado por uma multidão cosmopolita.

 

— Oh! Granjo!

 

E uns braços amigos abrem-se desmesuradamente, salientando o peito forte dum meu comprovinciano. Conversamos, rimos. Uma «matelote», com a sua touca engomada abrindo em leque a meio da cabeça, o seu chalé de ramagens brilhantes semelhante ao das «chalras», com o seu ramo de flores na mão, passa por nós. Olha com certa surpresa para as minhas avantajadas proporções de carregador de alfandega e para os meus simples galões de alferes, e sorri. Na sua boca carnuda, esse sorriso toma um sabor peninsular, uma expressão viva e quente, e os seus olhos profundos, a sua testa branca, o seu cabelo preto, apartado ao meio, dão-nos a ilusão de que passa uma mulher portuguesa num costume de Carnaval.

 

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Scenas de  Guerra - Etaples -  Henry Ossawa Tanner

 

Vamos até ao Boulevard de la Mer. Um biplano repousa no areal. Na fimbria do horizonte as velas dos barcos de pesca marcam largos triângulos no ceu azul pálido. É a baixamar. Cordas de agua suja escorrem pela praia. Ao fundo do «boulevard» o «Atlantic-Hotel», onde está instalado um hospital de convalescentes, dá uma forte impressão de magestade. Em face do mar quieto, cujas ondas veem morrer num doce murmurio na praia, a sua fachada monumental faz pensar num convento. Podiam pôr-lhe o nome de Hotel do Silencio.

 

O biplano levanta voo, plana alguns minutos sobre a praia e indireita para o hangar duma escola de aviação próxima. A mesma refugiada belga que veiu comigo no «tramway» encosta-se á grade do passeio e olha indiferentemente a linha colorida das «vilas» e dos «chateaux».

 

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Almoçamos no «Grand Hotel des Bains». Ao lado da sala de jantar, escoceses sapateiam uma dança regional. Da rua vem o rumor das vozes babelicas dos que vão e veem, á espera da hora em que tenham de encarar a morte. Fico com a impressão de que toda essa gente, todo esse museu de fardas, pertence já á historia, pertence já ao Passado, e que todas aquelas vidas, já do domínio da campa, andam ali por favor e mercê das Parcas.

 

Depois do almoço, damos uma volta pela cidade. No portão de um «chateau» via-se o nosso escudo. Era uma republica de oficiais nossos. Ao metermos da rua de Moscou para o Boulevard Daloz, agitam-se vários braços numa janela, e novamente chega aos meus ouvidos a saudação amiga:

 

— Oh! Granjo!

 

Subimos. Estala o «champagne». Abre-se uma garrafa de autentico e velhíssimo Porto. Como devo partir para a frente dentro de poucos dias, com os abraços de despedida misturam-se os desejos de boa sorte. Já ia na rua, e ainda as vozes amigas repetiam:

 

— «Bonne chance»! «Bonne chance»!

 

Jantamos na pequena cidade que deu o nome ao acampamento. Ha, em França, em frente de todas as estações um hotelsito. Tomamos uma mesa nesse Hotel de Ia Gare.

 

Defronte de nós jantavam, numa mesa redonda, oito oficiais ingleses. Dois deles eram condecorados, um trazia o distintivo de ferimento em combate, e alguns mostravam no ombro, passando sob a platina e o braço, os cordões devidos a dois anos de guerra. Eram porventura veteranos do Yser e do Somme. Os seus olhos haviam presenciado as grandes hecatombes e os seus braços haviam-se erguido para apontarem aos soldados o caminho da vitória. E porventura voltariam ámanhã para a frente, para essa predestinada Bélgica, onde as grandes batalhas recomeçavam.

 

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Harry Van Der Weyden – Estuário em Etaples

 

Neste intervalo de repouso, aqueles guerreiros modernos falavam alto, soltavam estrondosas gargalhadas, diziam equivocas amabilidades ás criadas que serviam á mesa. Acudiram-me á lembrança as scenas das estalagens dos velhos romances de capa e espada, em que o tinir dos ferros se sucedia sempre ao tilintar dos copos.

 

O que seriam aqueles homens antes da guerra? Dos oito, apenas um, o mais novo, um alferes, parecia uma criatura polida e educada, saida da alta burguezia ou dalgum velho ramo da fidalguia inglesa. O sorriso discreto e afavel, as mãos finas, os olhos serenos e pensativos, o nariz levemente aquilino, as palavras medidas e cortezes, o respeito com que o ouviam os camaradas, faziam pensar nalgum baronete que a tempestade houvesse atirado para aquela mesa modesta dum hotel barato. Os outros tinham a aparência de antigos chefes de oficinas ou antigos caixeiros viajantes, que as necessidades da guerra haviam transformado em condutores de homens e que esperavam o momento da paz para regressarem ás suas habituais ocupações.

 

Os guerreiros modernos! Sem duvida, a guerra moderna perdeu muito do seu pitoresco, porque deu lugar á destruição do militar profissional. Oh! como seria bem mais interessante, em vez de vêr desfilar um batalhão inglez, vêr desfilar um terço espanhol!

 

A guerra industrializou-se. Ameaça mesmo eternisar-se. E a não ser as saias riscadas dos higlanders tudo é banal.

 

Quem me diz a mim que estes homens, trajando uma farda que muito bem pode ser um fato de passeio, não estão comendo o seu jantar depois de ganharem o seu dia num escritório ou numa fabrica?

 

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

 

24
Fev21

A Grande Aventura

(SCENAS DA GUERRA)


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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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De Brest a Etaples

 

Não sei bem por que complicadas conveniências, aos oficiaes que vão no meu transporte não é permitido ir a terra. Engrunho os hombros.

 

 Um dos meus camaradas comenta:

 

— C'est la guerre...

 

Desembarcamos no dia seguinte e formamos no caes, à espera que se organisem os comboios.

 

Debruçados de um muro alto, os habitantes olham com curiosidade estes novos soldados do Direito, que veem do extremo ocidental, para tomarem o seu logar na linha de batalha.

 

Uma velhota vende laranjas de Sagunto, embrulhadas em reclamos da casa exportadora. Anda vestida de preto, e nos olhos azuis, magoados, tristes, parece viver a imagem de algum filho morto em combate.

 

—Madame, des oranges...

 

E procuro dar à voz uma entoação de enternecida simpathia.

 

A velhota fita-me e os seus olhos adquirem subitamente um tom duro e glacial.

 

Insisto:

 

—Madame, des oranges...

 

A mulhersinha volta as costas e afasta-se, numa grande atitude de dignidade ofendida.

 

Um dos soldados dirige-se-lhe:

 

—Mademoiselle...

 

E logo a velhota tira da cesta duas laranjas, oferecendo-as ao soldado, e arremessando-me um olhar fulminador.

 

É a primeira lição de coisas. Já sei que nesta boa terra franceza terei de considerar solteiras todas as mulheres que encontrar pelo caminho. Não se pode dizer que não haja nisso certa vantagem...

 

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Os pelotões põem-se em marcha e formam em frente dos vagões que lhe são destinados.

 

Faz-se a distribuição das rações. Verifica-se que não chegam para todos. C'estl la guerre...

 

Não é possível aguentar na forma os soldados, cançados das vigílias da travessia, sentindo ainda as tonturas do enjôo, e exaustos das longas horas de formatura. Saltam às carruagens, atirando-se uns para cima dos outros, praguejando, insultando-se, empurrando-se, largando os equipamentos, disputando-se as latas de conserva. É o rebanho humano.

 

Acondicionado o meu pelotão, espapaço-me numa carruagem de 1.ª; e é mergulhado numa

deliciosa modorra, mal percebendo as vozes dos oficiaes, as pragas surdas dos soldados, os apitos das machinas, que sinto rolar o comboio.

 

Toda a noite o comboio rolou pela planície sem fim. Como cabeleiras de sombra, as florestas ondeiam na noite, e os campos deslisam, intérminos, isóchronos, sem uma parede, sem uma ondulação, como uma imensa superfície tingida de negro.

 

Um capitão, que se sentou à minha esquerda, deixou pender a cabeça sobre o meu hombro. Um aspirante miliciano, defronte de mim, encostou-se para traz e dorme tranquilamente. Uma pequena sombra, projetada pela esquina duma mala da ordem, e que vae mal segura na rêde, põe-lhe na face um laivo de mau agoiro.

 

De vez em quando o comboio pára numa estação, vê-se o kepi de um oficial francez assomar á portinhola, e continua-se rolando na noite.

 

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Numa carruagem próxima canta-se o fado. As notas penetram na treva como soluços. A voz eleva-se, primeiro gradualmente, pastosa, cheia, quasi vertendo sangue, como um coração que uns braços aflitos fossem levantando para o céo; depois a voz baixa, devagarinho, suspendendo-se, pairando, como uma

lagrima que se fosse despejando dos olhos duma estrela. Certos soluços parecem quasi gritos, como se estivessem decepando um collo; certos queixumes mais parecem os suspiros de uma alma arrancada a um corpo moribundo. A noite possue-se de maior tristeza, a paizagem carrega-se de maior negrura e a alma abandona-se-nos mais á fatalidade do destino.

 

Ouve-se uma voz, a uma portinhola visinha, cortando uma conversa:

 

— Seja o que Deus quizer!

 

Quando aparece o dia, tudo quer ver a terra estranha, pela qual se vae combater. A planície estende-se até á linha do horizonte. Aqui e ali manchas florestaes; interminavelmente, verdes pradarias, onde pastam vacas leiteiras; campos de trigo, onde a lingua doirada de um sol ainda convalescente lambe gulosamente as hastes, espalhando a sua baba luminosa pelos regos d'agua.

 

Um soldado meu conhecido, de Barroso, passa junto da minha carruagem e despede-me o estribilho regional:

 

— O' meu alferes, isto p'r'aqui é que são terras!

 

Não se vê ninguém a trabalhar. A Terra é que oferece os seus opimos frutos ao homem. Esta gente deve viver quasi sem esforço. A agua corre por todos os lados, como sangue alegre e vivo e as sementeiras gradam por si, como nos nossos campos gradam as urzes e as estevas.

 

Pobre lavador de Traz-os-Montes, rasgando a enxadão os seios da encosta para poder comer um bocado de pão, remexendo de sol a sol, todo o santo dia, as entranhas do apertado vale para poder comer umas batatas á ceia! Pobre lavrador do Douro, transportando ás costas a terra que ha-de encher os interticios dos rochedos, onde os braços da videira se enrosquem, para que o sol toste os bagos loiros das uvas! Pobre lavrador minhoto, aproveitando as arvores para enforcar as videiras, e sachando o campo com a mesma devoção com que reza o padre nosso para se assegurar uma brôa de milho!

 

Como é que se não ha-de ter criado nesta terra uma grande civilisação, se a vida parece tão fácil que basta vivel-a?

 

Soam-nos aos ouvidos, durante o dia, nomes conhecidos de cidades, de rios, de regiões. Amolecidos, enfartados da viagem, mortos por chegar ao fim, tudo passa deante dos nossos olhos como um vago cosmorama.

 

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Não sabemos ainda para onde vamos. Em Lisboa, baldearam-nos do comboio para o transporte, como a uma carneirada; em Brest meteram-nos nos vagões como uma teoria de escravos. Começam a buzinar-nos aos ouvidos com as necessidades estratégicas e o perigo da espionagem.

 

Pelo fim da tarde, o comboio estaca deante de uns barracões de madeira. Ouve-se falar portuguez. Trepa á carruagem um oficial de infanteria 6 e anuncia:

 

— E' aqui!

 

Equipamo-nos. Apeamos. Um grupo de oficiaes inglezes observa-nos. Uns prisioneiros alemães que trabalham na construção de uma nova via suspendem as picaretas e enviesam os olhares para estes novos inimigos.

 

Quando começamos a subir para o acampamento, em coluna de marcha, com uma banda á frente, um aeroplano paira por cima de nós, como um grande abutre de azas abertas, espionando a preza.

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

 

12
Dez14

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos


GIL

 

A SAGA DE UM COMBATENTE NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

DE CHAVES A COPENHAGA

introdução

 

O avô António, paizinho como gostava de ser chamado, era um homem simples. Apenas um António como tantos, sem fama, sem proveito e sem glória! Esteve em dezassete na guerra de catorze e, ao jeito do João Ninguém, Soldado da Grande Guerra, repousa no eterno silêncio dos desprezados. Para além de herói, que outro nome lhe poderemos dar, questiona Menezes:

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“Que nome poderei eu dar aos simpáticos soldadinhos, aqueles trigueiraços que das oito províncias acorreram de mochila às costas, sem faltar ao embarque para honra dos seus batalhões? Nem «serrano», nem «lanzudo», nem «gambúzio», nem «folgadinho». Baptizá-lo-ei, muito simplesmente, com o nome de João Ninguém, incarnando assim, nesta modesta alcunha, aquele português que nas horas difíceis tudo faz para Maior glória da pátria e a quem muitos esqueceram, chegada a hora dos benefícios e compensações”[1]

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 Não adornavam os seus ombros de miliciano os galões da oficialidade, mas somente as divisas de um 1º Cabo de Infantaria. Não lhe coube a sorte do cachapim, para fazer a guerra na recoca a colher os louros do front. Era apenas um dos muitos milhares que não mandava, obedecia! Foi um reles praça-de-pré da malta da trincha no Corpo Expedicionário Português.

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 Teve a desdita de nascer em tempo de guerra. Sem padrinho que o livrasse, sofreu no corpo e na alma as agruras de um destino cruel que não mereceu. E, como se não bastasse o pavor quotidiano da morte, ainda viveu as maiores privações nas trincheiras. Experienciou, inclusivamente, o miserável estatuto de prisioneiro de guerra. Do Reno à Silésia, passando pela Prússia Oriental, vivenciou o ódio do boche sob a forma da desonra, da doença, da fome e do abandono. Da rija têmpera do granito do Brunheiro, venceu as maiores adversidades e, como o carvalho das touças do Planalto, sobreviveu a uma beligerância que nunca lhe explicaram e que ele pas compris. A guerra escacholou-lhe a alma, como o morteiro a Terra de Ninguém. Marcou-lhe o ritmo para o resto da sua vida. E de tal forma que não recordamos sesta, serão ou passeio d’acavalo, sem a eterna presença das suas memórias. A sua narrativa precipitava-se como os morteiros à pilha cão: orgulhosa, fria e medonha, porém, sempre admirável e bela. A resenha era tão real que trazia consigo o cheiro à pólvora, ao gás mostarda e à maçã assada. As suas palavras remedavam o matraquear da costureira e, por vezes, até passavam a sensação da coceira provocada pelas migalhas de pão com pernas, que chegavam a ser do tamanho de chícharos.

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 Aqui daremos conta das suas memórias de gambúzio. Fá-lo-emos com a mesma emoção e o mesmo realismo com que foram escritas na trincha pelo próprio punho. As vivências, relatadas em primeira mão, genuínas, hão de arreganhar como ouriços maduros. Delas verterão as palavras como as castanhas: luzidias, escorreitas e cristalinas. A ingenuidade das suas expressões, lavradas como quem as diz, transporta-nos a uma realidade pura, ausente dos subterfúgios da escrita elaborada que desconhecia. Não se especte, por isso, literatura arrevesada. Seria até injusta tal exigência. De um homem simples, nascido nos corgos do Brunheiro, que poderíamos esperar? Muito se lhe deve por saber ler e escrever. Raríssimo privilégio para o seu tempo. Muito fez ele, movido, certamente, por uma vontade incomensurável de trazer à saciedade a sua vivência de serrano. Fê-lo com a mesma coragem com que foi aos arames ou cortou prego, a mesma abnegação com que lidou com os arraites do boche e a mesma fé com que sobreviveu à metralha e ao cativeiro. Quem sabe até se com a mesma ironia com que teria troçado dos kilt das mademoiselles de tranchée!

 

E versejou:

          Para quem nunca tinha visto                                 Perguntei se naquele campo

         Fogo de tantas maneiras                                        tinham arrancado castinheiros

         Foi uma entrada bonita                                          e responderam-me que eram covas

         Que eu tive nas trincheiras.                                   de granadas e morteiros.

 

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Quisemos, por isso, convocar na integra o seu Diário de Guerra e publicá-lo em fac-simile, para que não se perca cibo. Desta feita, cremos oferecer o encanto no seu estado mais puro. Os nossos escritos, em segunda mão, jamais conseguiriam proporcioná-lo.

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 Para que melhor se entenda o propósito, estruturámos a obra na correspondência cronológica do manuscrito do combatente. Assim, no início de cada capítulo, identificamos a paginação que no Diário lhe corresponde.

 

O objetivo da primeira parte deste livro, é o de contextualizar/esclarecer a leitura principal do Diário, a mais significativa.

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 Não se pense que foi tarefa fácil reconstituir, com o rigor que se exigia, a saga do nosso toupeira! As lacunas naturais do relato e o difícil acesso à raríssima informação do Arquivo Histórico Militar e do Geral do Exército, foram obstáculos sérios, exatamente por se tratar de um António Ninguém, com um nome igual a tantos outros!

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 Contudo, a nossa persistência, o crédito das suas vivências, mas sobretudo a nossa curiosidade pela descoberta, conseguiram afastar todos os escolhos. Desta forma, que cremos digna, contamos, com ele, a epopeia na Grande Guerra. Apesar de tudo, o que indagámos e aqui vertemos é, do nosso ponto de vista, bastante para engrandecer os feitos de quem emprestou à pátria, ingrata, tanta dor!

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 Queremos, no entanto, que esta saga vá mais longe. Que reze, também, por todos os que, ignorados, douraram a glória de quem os mandou para a trincheira.

 

Neste primeiro centenário da Grande Guerra, acreditamos que esta obra dignificará a memória de quantos empenharam a pele pela pátria imerecida!

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 À sua tenacidade e inteligência devemos o orgulho da portugalidade, ao avô António a existência. Só isso basta para esta justa homenagem.

 

Reconheçamo-la como um humilde tributo à sua coragem, um hino imperfeito à sua sobrevivência e um preito inopioso à sua memória.

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[1] Cf. Menezes Ferreira, João Ninguém Soldado da Grande Guerra, Impressões Humorísticas do cep, 1917-1919, Lisboa, Serviços Gráficos do Exército, 1921, p. 14

 

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