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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Nov18

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419 - Pérolas e Diamantes: Os olhos vingativos das sereias

 

 

Muita da literatura que por aí vigora é dedicada a desconstruir instituições tão “perigosas” como  a família, a escola, a lei e o estado-nação através dos quais a herança da civilização ocidental foi passada até nos.

 

Esta literatura, que foi glorificada e fertilizada nos escritos de Foucault, apresenta como “estruturas de dominação” o que cada um de nós identifica como instrumentos de ordem cívica.

 

Ou seja, segundo esta interpretação, é urgente libertar as mulheres da opressão masculina, libertar os animais do abuso humano, lutar ao lado dos homossexuais e transexuais contra a homofobia, e mesmo cerrar fileiras ao lado dos muçulmanos para combater a islamofobia. Mas, a fazê-lo, é necessário deixar-nos absorver pela agenda da esquerda. De outra maneira, nada feito.

 

É triste, mas verdadeiro, o  igualitarismo mais radical dos marxistas e anarquistas do século XIX, que lutaram sem tréguas, e sem hesitações, pela abolição da propriedade privada, já não possui o poder de atração global de antigamente. O slogan “proletários de todos os países uni-vos”, foi chão que já deu uvas.

 

O objetivo igualitário não permite que nada, nem ninguém, se meta no seu caminho. Nenhum costume, instituição, hierarquia ou lei existentes, pode triunfar sobre a igualdade.

 

A proclamada justiça social continua a lavar a História. Uma mão lava a outra...

 

Marx defendeu n’A Ideologia Alemã algo extraordinariamente poético. A seguir à ditadura do proletariado, o Estado definhará. Não existirá nem lei, nem a necessidade dela. Tudo será de todos. Não existirá divisão laboral. Toda a gente irá gozar em pleno as suas necessidades e desejos, “a caçar de manhã, a pescar à tarde, a reunir o gado ao fim do dia e a discutir literatura depois do jantar”. A seguir à ideologia veio a prática. E depois foi aquilo que se viu.

 

Diziam os apóstolos dessa boa nova que tudo isso era “científico” e não utópico. Afinal, tudo não passou de uma piada. Que rica seria a vida sem propriedade privada.

 

Os marxistas “científicos” diziam que só um pensamento sério nos faria acreditar que a História caminhava, ou devia caminhar, no caminho do socialismo. Depois da realidade indecorosa desse “materialismo dialético”, os historiadores de esquerda passaram a minimizar as atrocidades cometidas em nome do socialismo e a culpar as forças reacionárias pelos desastres que fizeram retardar o avanço socialista.

 

Roger Scuton, considera que “a assimetria moral, que atribui à esquerda o monopólio de virtude moral e usa a ‘direita’ como um termo de abuso, acompanha uma assimetria lógica, nomeadamente, a admissão de que o ónus da prova cai sempre no outro lado e não pode , jamais, ser retirado”.

 

A esquerda uma coisa conseguiu: burocratizar a liberdade e a justiça social.

 

Eric Hobsbawm, por exemplo, nos quatro volumes da sua História do nascimento do mundo moderno, faz uma síntese enganadora tentando branquear a experiência comunista e culpar o capitalismo de todo o mal  no mundo, o que, bem vistas as coisas, é, além de sinistro, um pouco antiquado.

 

Todos sabemos que os factos são mais interessantes e memoráveis quando fazem parte de um drama. Por isso é que a esquerda passa a vida a dramatizar porque, na sua visão, a vida moderna só pode ser dramática. Sem drama não há revoluções.

 

A História marxista só adquire significado com a classe operária no topo das prioridades. Por isso há que demonizar a classe alta e romantizar a baixa. Faz parte do jogo. Faz parte do vício.  Faz parte do drama.

 

No seus livros, Hobsbawm, por exemplo, não se incomoda com pormenores como a lei e os processos judiciais, não vê necessidade em mencionar o decreto de Lenine, de 21 de novembro de 1917, que anulava os tribunais, o foro judicial e toda a advocacia, deixando as pessoas sem a única proteção que tinham, ficando por isso sujeitas à intimidação e à prisão arbitrárias.  

 

Lenine criou a Cheka, percursora do KGB, e o poder que lhe atribuiu para usar métodos terroristas necessários para expressar a vontade das “massas” contra a vontade do simples povo, também já se esqueceu. A borracha comunista é impressionante.

 

Eric Hobsbawm também nada diz sobre a fome de 1921, a primeira das três vagas de fome provocadas pelo Homem no início da História soviética, fome que foi propositadamente usada por Lenine para impor a vontade das “massas” aos desafiadores camponeses ucranianos, que ainda não tinham aceitado incorporar as leis do socialismo científico, nem o seu papel na História.

 

A morte libertou-os das dúvidas.

 

O que mais me surpreendeu na leitura do livro “A Era dos Extremos” foi o não ter sido considerada uma obra equivalente à do branqueamento do Holocausto por David Irving.

 

Mais uma vez descobri que os crimes cometidos à esquerda não são verdadeiros crimes. E que aqueles que os desculpam, ou ignoram, em silêncio cúmplice, têm sempre bons motivos para o fazer.

 

É bem verdade, a raposa pode mudar de pelo, mas não muda de hábitos.

 

João Madureira

 

14
Mai18

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392 - Pérolas e Diamantes: Entre a justiça e o seu cúmulo

 

A eurodeputada socialista Ana Gomes, preocupada com a credibilidade da política e dos políticos, sobretudo os do seu partido, diz que o PS se deve demarcar de “quem esteve no Governo para se servir”.

 

Independentemente do julgamento que se venha a realizar, todos sabemos que o engenheiro Sócrates vivia “num desmando total em relação às suas contas pessoais”.

 

Independentemente de ser crime ou não, a divulgação dos interrogatórios evidencia, até à exaustão, a ligação do ex-primeiro-ministro ao grupo Espírito Santo, revelando “um esquema corrupto de captura de um governo”.

 

Mas atenção, e nisso Ana Gomes vai até mais fundo, “o esquema não começou com Sócrates, pois existem elementos relevantes que mostram que começou antes, nomeadamente com a questão dos submarinos ou dos Panduru”.

 

O estranho é que havia sempre um membro do Governo que vinha do BES ou ia para o BES.

 

A deputada socialista não teve papas na língua quando afirmou ao Expresso que é a primeira a dizer que se faça justiça, pois existe um facto insofismável: “A relação especial e privilegiada de Sócrates com Ricardo Salgado. Pelos vistos, estava às ordens dele e até fez negócios à conta dele. O PS não pode pôr isso debaixo do tapete”.

 

O problema é como pode fazê-lo. Por aí passa a questão da sua credibilidade.

 

Mas dêmos outra vez a palavra a Ana Gomes: “O Governo está a trabalhar bem, o que é mais uma razão para o PS não meter a cabeça na areia e assumir que não vai deixar-se instrumentalizar por um individuo mitómano, com uma vida financeira desregrada e que se prestou a que o seu Governo fosse infiltrado e manipulado por interesses de um grupo financeiro.”

 

Por isso, reafirma que o PS tem, para bem da democracia, de demarcar-se deste tipo de comportamento, de gente que estava no Governo do PS para se servir.

 

Referindo-se ao caso de Manuel Pinho, é perentória: “Um ministro que recebe um ordenado à parte da entidade que lhe pagava antes através de offshores, só pode ser por esquemas de corrupção e de evasão fiscal.”

 

Manuel Pinho logo de início lhe pareceu estranho, quando o viu a rondar o PS ainda no tempo em que o Ferro Rodrigues era secretário-geral e ela fazia parte da sua direção, na companhia de Sócrates e António Costa.

 

Via-o solícito, a apresentar-se como economista e a aparecer em todo o lado. Mais tarde, quando entrou para o Governo, pela mão de José Sócrates, lembra-se de lhe terem comentado que Manuel Pinho era “um homem do Espírito Santo”.

 

Por isso, Ana Gomes apela a que o próximo Congresso seja uma “oportunidade para escalpelizar como o PS se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos”.

 

Claro que há camaradas seus que discordam da opinião de Ana Gomes. Arons de Carvalho, um fundador do PS, considera que “Ana Gomes já se antecipou à justiça e fez justiça pelas próprias palavras”.

 

Mas ele, o tal Arons de Carvalho, declarou que não acha reprovável que uma pessoa como Sócrates possa viver com dinheiro emprestado.

 

Se calhar, muitos de nós partilhamos da mesma ideia, só que o senhor engenheiro viveu como um príncipe à custa de um seu amigo (Carlos Santos Silva) que era a verdadeira encarnação do rei Midas: tudo o que tocava transformava em euros, milhões e milhões deles. Ora isso só acontece nos contos de fadas.

 

Todos estranhamos é a forma como a ficção se transformou em realidade.

 

O PS, como instrumento de governação do país, tem de assumir as suas responsabilidades e criar mecanismos de transparência e questionamento.

 

José Sócrates disse que “sempre foi muito vaidoso” e que foi “por vaidade que se meteu na política”.

 

Fora as peneiras, temos de convir que governou com alguma lucidez. Mas o problema está no estranho facto de Sócrates ter um amigo que o financiava de uma forma alucinante. Ora tanto altruísmo é para desconfiar. Parece que o que movia as relações entre os dois não era a afetividade, mas sim os negócios, pois mandava-o levar “fotocópias”, ou, dito de outra forma, “aquela coisa de que gosto muito”.

 

É óbvio que Carlos Santos Silva ganhava dinheiro com os “favores” que fazia ao seu amigo engenheiro.

 

De todas as vezes que Santos Silva foi contatado, nunca lhe disse um único não. Respondia-lhe sempre a medo e com um lacónico “Sim…” Só lá faltava o “…meu senhor”,

 

Segundo o Ministério Público, o modus faciendi, já abundantemente explicado, de Santos Silva para canalizar o dinheiro para o amigo foi o seguinte: Comprou as casas da mãe de Sócrates com o próprio dinheiro deste e, a seguir, a mãe passou o valor da venda para as mãos do filho a título de doação; passou cheques da conta 006, que mandava levantar e depois o valor era entregue a Sócrates (ou ao seu motorista) em dinheiro; fazia levantamentos dessa conta e levava o dinheiro pessoalmente a casa de Sócrates, ou entregava-o a amigos de Sócrates que este indicava ou a uma senhora que servia de correio entre Lisboa e Paris, quando o ex-primeiro-ministro estava na Sciense Po; comprou a casa de Paris, que ficou em seu nome, mas que Sócrates decorou e mais tarde passaria certamente para o seu nome; pagava as prestações de uma quinta no Alentejo usada pela ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava; etc.; etc.; etc.

 

Mas se, por alguma razão, o juiz vier a considerar que o dinheiro em trânsito era mesmo de Santos Silva, o amigo de Sócrates é que vai pagar as favas, pois não tem modo plausível de explicar as astronómicas quantias que recebia. Só por milagre. Parece, no entanto, que os milagres não vão a julgamento.

 

Como poderá ele justificar os depósitos feitos em seu nome por Hélder Bataglia ou pelo saco azul do BES? Onde estarão as faturas da fortuna que recebeu?

 

Será o cúmulo da justiça vermos Carlos Santos Silva ser condenado e José Sócrates ficar em liberdade.

 

Por agora, a estratégia de Sócrates, Pinho, Vara e Ricardo Salgado, consiste em aproveitar a lentidão da justiça – servida pela parafernália de recursos que os bons advogados sabem usar – e ficar a marinar até se descobrir um qualquer expediente que faça prescrever os processos ou que fiquem apenas na esfera das penas simbólicas.

 

João Madureira

 

12
Jun17

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346 - Pérolas e diamantes: O vazamento das evidências

 

Laurent Binet escreveu um livro suficientemente divertido sobre Roland Barthes (escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês que fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo linguista Ferdinand de Saussure), partindo da suposição de que afinal não morreu por causa de um acidente estúpido mas antes vítima de um homicídio premeditado.

 

Ou seja, o maior crítico literário do século XX terá sido assassinado por possuir qualquer coisa de muito poderosa.  

 

A Sétima Função da Linguagem parte de uma frase inicial: “A vida não é um romance.”

 

De facto, a morte de Barthes deu-se em circunstâncias um pouco tristes. Foi atropelado quando saía de um almoço com François Mitterrand, então candidato à presidência da França.

 

Ser mestre na utilização da linguagem, todos o sabemos, é muito proveitoso. A semiótica é útil para entender o mundo e a retórica é útil para lidar com ele.

 

Para atingir o poder, a linguagem é uma arma poderosa. Binet, para construir o seu romance, parte do princípio de que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há mesmo quem mate para dominar o seu segredo.

 

Roland Barthes era um descodificar do modo humano de comunicar. Possuía até uma qualidade intelectual que os medíocres apreciam imenso: conseguia falar de bifes com batatas fritas, de carros, de filmes do James Bond, fazendo uma abordagem muito lúdica da Linguística.

 

Afinal, segundo os entendidos, a Semiologia é isso mesmo: uma disciplina que aplica os métodos da crítica literária a objetos não-literários. É o estudo da vida dos signos no seio da vida social.

 

Lá pelo meio do livro aparecem estudantes de alpargatas e peúgas distribuindo panfletos onde se pode ler: À Espera de Godard, peça em um ato, a que eu gostaria de ter assistido.

 

E também existem as personagens que buscam a verdade. Os medíocres estão espalhados por todo o lado. E a verdade… A verdade… “Onde é que ela começa, onde é que ela acaba… Estamos sempre no meio de alguma coisa.”

 

A verdade só existe se for exibida. É um símbolo. E um símbolo escondido não serve para nada. Não existe.

 

Por exemplo, Jean Daniel escreveu um editorial sobre Mitterrand no Nouvel Obsevateur, em 1966, onde apresentou esta certeza: “Este homem não dá só a impressão de não acreditar em nada: perante ele, sentimo-nos culpados de acreditar em alguma coisa. Ele insinua, como quem não quer a coisa, que nada é puro, que tudo é sórdido e que nenhuma ilusão é permitida.”

 

Numa conversa entre espiões de gabarito, a dado momento uma personagem pensa que nada existe de mais desconfortável para alguém disposto a mentir do que ignorar o nível de informação do seu interlocutor.

 

Quando se mente, há que mentir, como pensa o camarada Kristoff, apenas num ponto. E num só. Em tudo o resto tem de se ser perfeitamente honesto.

 

Barthes detesta aborrecer-se, mas oferecem-lhe tantas oportunidades que não lhe resta outra solução se não aceitá-las. Sem saber bem porquê, convenhamos.

 

Os políticos aprenderam já há muito tempo que para se ter sucesso é necessário possuir um elevado grau da arte de enunciar as evidências.

 

Barthes, sempre conciliador, alegava: “Uma evidência não se demonstra, vaza-se.”

 

A arte de governar afinal não passa de nos convencer de que o governo não é responsável por nada.

 

Por isso lhe dói o balanço das contas.

 

“O momento difícil de uma vida, a dele, a vossa, a minha, de toda a vida que se pretende ambiciosa, é aquele em que se inscreve o sinal na parede a dizer-nos que começamos a imitar-nos a nós mesmos.”

 

A linguagem, quer queiramos ou não, serve para produzir uma mensagem que só adquire sentido no momento em que existe um destinatário. Apenas os loucos tagarelam no deserto.

 

Ainda não apurei se o Laurent Binet é ou não um bom romancista, o que sim sei é que a sua fasquia é muito alta, pois considera que “se houver Deus, ele será um mau romancista”.

 

João Madureira

20
Jun16

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295 - Pérolas e diamantes: O Lado de Guermantes

 

 

Hoje tencionava falar-vos da razão que leva as pessoas que são vítimas da fome, da incúria, da corrupção e da opressão, de cada vez que há eleições, a darem a sua entusiástica aceitação aos políticos que lhes tornam a vida insuportável.

 

Tencionava, mas já não tenciono. De boas intenções está o inferno cheio. A verdade é que desisti do intento porque não consigo atinar com tais desvarios humanos. Cheguei à conclusão de que estão para lá do meu entendimento.

 

Hoje vou levar-vos “Para o Lado de Guermantes”, o volume três do “Em busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, que retrata, durante sete livros, uma época e uma consciência da França desde a III República até à Primeira Guerra Mundial. Daí a multitude de personagens socialmente situadas e psicologicamente analisadas com uma minúcia deliciosa e uma subtileza desconcertante.

 

Para Proust, a realidade autêntica vive no inconsciente e só a magia da memória involuntária a recupera.

 

O duque de Guermantes, por exemplo, tem vaidade na mulher mas não gosta dela. Segundo o narrador da “Recherche”, cada um de nós vê mais belo o que vê à distância, o que vê nos outros. Porque as leis gerais que regulam a perspetiva na imaginação tanto se aplicam aos duques como aos outros homens. E não só as leis da imaginação, mas as da linguagem.

 

Naquela época as pessoas eram delicadas e uma dona de casa não podia atrever-se a enviar um cartão acrescentando à mão: “uma xícara de xá”, “um chá dançante”, ou “um chá musical”.

 

Naqueles tempos tomava-se muito chá logo desde pequenino. Mas conhecedoras da delicadeza, as donas de casa, também não ignoravam a impertinência.

 

Os serões da aristocracia eram bem frequentados. As elites eram genuínas. Não faziam de conta.

 

Por exemplo, a senhora Leroi, uma visita lá de casa, conhecia eminentes personalidades europeias. Sendo ela uma mulher agradável que fugia ao tom das literatas, evitava falar das questões do Oriente aos primeiros-ministros, tanto como da essência do amor aos romancistas e aos filósofos.

 

Uma vez, uma dama mais pretensiosa perguntou-lhe o que era o amor. Ela limitou-se a responder: “O amor? Faço-o muitas vezes mas nunca falo dele.”

 

A duquesa de Guermantes, por seu lado, quando as celebridades das letras e da política lhe rompiam portas adentro, limitava-se a pô-las a jogar póquer. Muitas vezes, elas apreciavam mais isso do que as grandes conversas de ideias gerais a que as obrigava a senhora de Villeparisis.

 

Lá pelo meio de esclarecedores diálogos, Bloch lembra-nos que a divina Atena, filha de Zeus, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro.

 

E também falavam de “mentalidade”, na nova “mentalidade” que o caso Dreyfus estava a abrir em França e no mundo Ocidental.

 

O duque de Guermantes, um antidreyfusista, que possuía um caderninho cheio de citações e que as relia antes dos grandes jantares, tomou nota dessa nova palavra e prometeu servir-se dela quando achasse conveniente. Desde logo porque lhe agradava. Naqueles tempos nada era deixado ao acaso.

 

Quando alguém achou engraçado um dito espirituoso de apoio aos dreyfusistas, o duque de Guermantes fez questão de dizer que lhe era indiferente que fosse engraçado ou não. “Não dou qualquer importância ao espírito”, rematou. E podia-o fazer porque estava em sua casa.

 

No seu canto a duquesa, murmurava para o seu círculo mais íntimo: “Ele não pensa uma palavra do que está a dizer. É por certo por ter feito parte das Câmaras, onde ouviu discursos brilhantes que não significavam nada.”

 

Viviam-se tempos conturbados. Os mais esclarecidos tentavam atalhar as manobras antimilitaristas por parte da esquerda mais radical. Mas, avisavam, também não tinham de aceitar as disputas encorajadoras por aqueles elementos de direita que, em lugar de servirem a ideia patriótica, apenas pensavam em servir-se dela.

 

Entretanto, os mais libertários faziam o que sempre fazem: pediam o impossível. Pedir tudo é uma forma de não se conseguir nada. É como arrombar uma porta aberta.

 

João Madureira

09
Mai16

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289 - Pérolas e diamantes: o presidente, o poeta, o ministro e o homem da fruta

 

 

Espalhou-se entre nós uma espécie de saturação da novidade.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu primeiro discurso numa cerimónia do 25 de Abril, armou-se de coragem e distribuiu recados à esquerda e à direita, conseguindo assim receber mais aplausos do que é normal. O país assiste pachorrento a um banho de “marcelomania”.

 

Marcelo, que como é seu timbre e feitio, já foi contra e a favor do Acordo Ortográfico, resolveu ir a Moçambique e, entre outras minudências, mostrou vontade de reabrir a discussão sobre o AO, pois confia que nem Maputo nem Luanda vão ratificar o polémico documento.

 

O ex-comentador político quer a todo o custo surgir como presidente de todos os portugueses e, se não lhe põem barreiras, também de alguns espanhóis e de muitos cidadãos da CPLP.

 

Generoso nos sorrisos, nos abraços e nos beijos, o novo presidente parece querer ser parcimonioso na distribuição das medalhas. No dia 10 de Junho apenas vai condecorar uma pessoa: Margarida de Santos Sousa, a corajosa porteira que socorreu em sua casa feridos dos atentados na discoteca parisiense Bataclan que mataram mais de 100 pessoas, em abril de 2015. Ao contrário de Cavaco, Marcelo pretende ser contido na atribuição de medalhas que considera só se justificarem em casos excecionais.

 

Talvez fascinado com Jerónimo de Sousa, o senhor presidente Marcelo escolheu João Caraça, representante da Gulbenkian em Paris e filho do matemático comunista Bento de Jesus Caraça, para presidir às comemorações do 10 de Junho, que este ano decorrerão na capital francesa.

 

Quem também anda exaltado é o laureado poeta Manuel Alegre que no dia 25 de Abril recebeu o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, por pérolas poéticas como esta intitulada “País”: “Não sei se sem poemas há país / ou sem eles se perde o pé a fé e até / esse país que está onde se diz / Ai Deus e o é? // Alguns julgam que é tanto vezes tanto / capital a multiplicar por capital / país é um café e a mesa a um canto / onde um poeta sonha e escreve e é Portugal. // Levantou-se a velida levantou-se a alma. / Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema / há sempre um poema que nos salva / país é onde fica esse poema.”

 

Eufórico e a encher-se de prémios e medalhas, o rei do Clube dos Poetas Vivos foi mesmo mais longe, até onde nunca tinha ido, e confessou que não votou no Marcelo Rebelo de Sousa. Mas da próxima vez já não sabe. “Se isto continuar assim, se calhar voto”.

 

Que alegre anda o Manuel da “Praça da Canção”. Já não se canta como soía.

 

Imbuído desta mesma euforia anda também o senhor ministro da Educação que decidiu mais uma vez mudar os currículos das escolas públicas nacionais. Resolveu para isso deixar as instituições decidir 25% dos currículos, criar disciplinas e reforçar matérias. As metas impostas pelo seu antecessor Crato vão ser encurtadas, pois, na sua perspetiva, a “Matemática e o Português são tão estruturantes como as artes”, talvez querendo inverter a ordem dos fatores para servir como metáfora.

 

O senhor ministro faz parte do eterno problema de estarmos sempre a voltar ao mesmo. Cada novo governo cede sempre à tentação corriqueira de mudar o que encontrou feito e concluído. É essa instabilidade permanente que prejudica quem menos devia ser prejudicado em todo o sistema de ensino: os alunos.

 

Finalmente Pinto da Costa vai a julgamento. E não é nem por causa do Apito Dourado ou da salada de frutas em que anda metido vai para alguns anos. Ele, Antero Henrique e outros arguidos serão julgados no âmbito da “Operação Fénix” por terem contratado os serviços de uma empresa de segurança ilegal. Ao todo, são 57 os acusados de associação criminosa, exercício ilícito de segurança privada, extorsão e coacção. 

 

É o FCP a perder em todas as frentes. Três anos de penúria de títulos podem acabar em desastre. Quem anda à chuva molha-se.

 

Arturo Pérez-Reverte tem razão. Aos tontos não há forma de convencê-los a que deixem de o ser. É preciso descer ao seu nível. E, nesse sentido, os tontos são imbatíveis.

João Madureira

25
Abr16

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287 - Pérolas e diamantes: o amor e a retórica

 

 

Elias Canetti escreveu que ciência e verdade são conceitos idênticos. Quando uma pessoa se aproxima da verdade afasta-se dos homens. A vida quotidiana, qual auto de fé, é uma teia superficial de mentiras.

A vida ensina-nos, e nós costumamos aprender, a identificar-nos com todo o tipo de pessoas. Depois habituamo-nos. Apanhamos o gosto desse vai e vem perpétuo que nos incita a confundirmo-nos com as personagens que nos agradam.

Há homens que se deixam invadir por aquela sensação maravilhosa de euforia apenas conhecida por aqueles que se dão ao luxo de adquirirem confiança depois de se terem assegurado contra qualquer tipo de deceção.

Para quem o tem, o carácter determina até o aspeto físico. Eu sou um homem alto e magro.

Quem visitar um santuário no Japão com toda a certeza que verá à beira dos caminhos crianças agachadas junto de muitas gaiolas com pássaros cativos. As aves são previamente adestradas a baterem as asas e a alvoroçarem-se com uma cativante e expressiva agitação de trinados e gorjeios.

Os peregrinos budistas que visitam os templos compadecem-se delas e salvam-nas pensando dessa forma salvar as suas próprias almas. Em troca de algum dinheiro, as crianças abrem as portas das gaiolas e libertam os pássaros. Resgatar animais é por lá um costume enraizado.

Não lhes importa minimamente que ainda antes de chegarem ao templo, os passarinhos adestrados voltem a ser novamente engaiolados pelos seus donos.

O mesmo pássaro chega a servir centenas ou mesmo milhares de vezes como objeto da piedade dos peregrinos.

Todos sabem muito bem o que se passa logo após voltarem as costas. Depois de cumprido o ritual, o destino dos animais é-lhes indiferente.

A nossa espiritualidade vive de rituais. As almas, mesmo furiosas, estão vazias. Habituamo-nos a falar de princípios como os cegos falam das cores.

Canetti escreveu que até os homens mais fortes provam a si mesmos a sua integridade fazendo rodeios.

Já Gershom Wald, o personagem culto e torturado de Judas, de Amos Oz, considera que a desconfiança, a mania da perseguição e mesmo o ódio humano são muito menos destrutivos do que, por exemplo, o amor. “O amor do género humano tem um sabor antigo a rios de sangue. A meu ver o amor gratuito é muito pior do que o ódio gratuito: os que amam a humanidade inteira, os paladinos da redenção do mundo, aqueles que em cada geração se erguem para nos salvar sem que alguém nos salve deles, esses são justamente…”

Não, não tenham receio de contradizer o escritor. Antes pelo contrário, ele anima-se quando discordam dele. Até o podem morder, mas desde que sejam mordidelas a brincar. Nem tudo é para ser seguido à letra. Senão éramos todos ou escritores ou cães. Valha-nos Deus. Está na hora de bebermos um chá.

Se calhar está também na hora de escrever um poema novo. O problema surge quando tentamos fugir de um cão raivoso e encontramos um lobo esfaimado.

Termino citando o sábio e amargurado israelita Gershom Wald, que perdeu o seu filho único na guerra contra o inimigo palestiniano.

“Eu, meu caro, não acredito no amor universal. A capacidade de amor é limitada. Um homem pode amar cinco homens e mulheres, talvez dez e, às vezes, mesmo quinze. E mesmo isso, só raramente. Mas se alguém me disser que ama o Terceiro Mundo no seu todo, ou a América Latina, ou o sexo feminino, isso não é amor, mas retórica. Pura demagogia. Palavra de ordem. Não fomos feitos para amar mais do que um punhado de pessoas. O amor é um acontecimento íntimo estranho e contraditório.”

 João Madureira

 

PS – Jesus e todos os seus apóstolos eram judeus e filhos de judeus. No entanto, na imaginação popular cristã, o único que ficou marcado com o ferrete do judaísmo – e por isso mesmo como representante de todo o povo judeu – foi Judas Iscariote. Quando os enviados dos sacerdotes e os guardiões do Templo vieram prender Jesus, todos os apóstolos se assustaram e, temendo pelas suas vidas, dispersaram rapidamente. Só Judas permaneceu.

04
Abr16

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284 - Pérolas e diamantes: o exemplo, o respeito e a tradição

 

Estrabão, já no início do século I d. C., referindo-se aos Belgas, mas pensando com toda a certeza nos Lusitanos, escreveu que “toda a raça a que agora chamam «Gálica» é muito belicosa… mas muito simples. E, por isso, se são provocados, juntam-se de imediato para o combate, abertamente e sem circunspeção, pelo que quem os queira derrotar por meio de estratagemas consegue vencê-los com facilidade.”

 

Por esses tempos, César, diz Suetónio, não se importava com o “estilo de vida nem riqueza dos seus homens, mas apenas com a sua coragem”, por isso construiu um império e chegou a ser seu imperador.

 

Tinha aprendido com as nomeações dos seus tribunos e perfeitos, que o haviam desiludido tempos atrás. Nomeações decididas tendo como base as recomendações e os favores.

 

Na época de César eram raros os filhos dos senadores que não sabiam latim ou grego. Quanto ao grego, o ensino ficou provavelmente a dever-se a um escravo de origem helénica (paedagogus), que tratava das crianças.

 

As figuras passadas eram enfatizadas nas aulas devido ao seu orgulho em serem romanas.

 

As crianças aprendiam a admirar as excecionais qualidades romanas, tais como a dignitas, pietas e virtus, termos que possuíam uma ressonância própria e muito mais poderosa do que o seu equivalente atual, dignidade, piedade e virtude.

 

Dignitas era o comportamento despretensioso que patenteava claramente a importância e responsabilidade de um homem, impondo dessa forma o respeito.

 

Tal comportamento era importante para qualquer cidadão romano, sobretudo se ele pertencia à aristocracia e ainda mais se ocupasse um cargo de magistratura.

 

Naquela altura as elites davam o exemplo ao povo. Atualmente, as nossas elites tendem a seguir os maus exemplos do povo.

 

A pietas abarcava não apenas o mero respeito pelos deuses mas também pela família e parentes, pelas leis e tradições da República.

 

A virtus possuía fortes tendências militares, englobando não apenas a coragem física mas também a confiança, a coragem moral e as qualidades que se exigiam tanto aos soldados como aos comandantes.

 

Os comandantes eram os primeiros a morrer liderando as suas legiões.

 

Atualmente contam-se as verdades aos conhecidos lá de fora, mantendo os que nos são próximos na ignorância.

 

Os líderes invetivam-nos, condenam-nos à sua própria biografia. São por vezes cosmopolitas e mundanos como Mr. Hyde, e, outras vezes, modestos como Mr. Jeckyll. E até jogam connosco à bisca lambida.

 

Procedem como os agricultores relativamente aos patos do curral, cortam-lhes as asas para que não levantem voo quando os outros os chamam nas suas peregrinações para norte.

 

Sozinhos, não sabemos para onde nos dirigirmos. E quando não sabemos para onde ir, nenhum caminho serve.

 

Prometem sempre qualquer coisa que parece que vai chegar e nunca mais chega. São apenas remedeios, preparativos para qualquer coisa que está sempre uns passos mais à frente.

 

Pressentimos a felicidade. Mas quando pensamos que está para chegar, ela passa ao lado, escapa-se, desaparece.

 

Todas as cores partidárias fazem parte da mesma nódoa.

 

Contam-nos sempre a mesma história. Dizem-nos que é verdadeira. Nós sabemos que é mentira.

 

A desilusão é fictícia.

 

Real só mesmo a tristeza.

 

 João Madureira

07
Mar16

Quem conta um ponto...

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280 - Pérolas e diamantes: lá à frente também chove

 

E de repente os pais entraram na discussão política em Portugal. E não foi da melhor maneira. O BE comportou-se como um elefante dentro de uma loja de porcelana.

É claro que cada um tem o pai (ou pais) que lhe calhou em sorte. Por exemplo, o pai de Magnus Pym, O Espião Perfeito de John le Carré, era tão aldrabão que se chegava a enganar a ele próprio. E, sobretudo, o que é desprezível, enganava o filho com o amor que lhe devotava.

Um dia o filho, já secretário comercial e funcionário encarregado dos vistos da embaixada britânica nos EUA, respondeu em carta a Rick: “Querido Pai. Fico muito contente por aprovares a minha nomeação. Infelizmente não estou em posição que me permita tentar convencer Pandita Nehru a conceder-te uma audiência, para lhe apresentares o teu plano de apostas mútuas no futebol, embora imagine com facilidade o avanço que isso poderia representar para a economia periclitante da Índia.”

O BE, mais papista que o Papa, resolveu utilizar a imagem de Jesus num cartaz para fazer uma campanha a assinalar a aprovação da lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo, dizendo que “Jesus também tinha 2 pais.”

Dois pais também parece ter a brilhante ideia de nacionalizar o Novo Banco: não só o Partido Comunista, o que não é de estranhar, mas também o economista Vítor Bento, ex-conselheiro de Estado, primeiro presidente do ex-BES e um neoliberal assumido.

O Vítor economista veio lançar a ideia, peregrina por certo, de que a eventual nacionalização do NB serve para evitar que a consolidação na banca seja liderada por entidades externas. O PCP aplaude de pé. O PS espera sentado que a solução, qual fruto maduro, lhe caia no regaço.

Taur Matan Ruak, o presidente timorense, talvez sentindo-se órfão de mãe, resolveu acusar os dois putativos pais da independência de Timor Leste, Xanana e Alkatiri, de beneficiarem amigos e familiares em contratos do Estado, comparando tais privilégios aos que existiam no tempo do antigo ditador Indonésio Suharto, que eles combateram de armas na mão.

Matan Ruak disse no Parlamento que Xanana e Alkatiri usam a unanimidade e o entendimento para terem “poder e privilégios”. Bem-vindos sejam pois, estes dois progenitores, ao sistema democrático.

Mas voltemos ao BE. Bernardo Ferrão, no Expresso, disse que “imbecil” era a palavra certa para definir o polémico cartaz sobre a adoção gay com a imagem de JC.

A mim, que sou agnóstico, a provocação aos católicos deixou-me parcialmente indiferente. Não alinho em guerras ideológicas, nem sexuais e muito menos religiosas.

O que me deixa triste é que nem na provocação conseguimos ser criativos. As palavras impressas no cartaz são a tradução de dois placares da St. John’s United Methodist Church, publicitados nos EUA e no Canadá, um em inglês (Jesus had two dads and he turned out just fine) e outro em francês (Jesus aussi avait deux papas!).

É o nosso triste fado, nem na “imbecilidade” conseguimos ser originais.

Esta esquerda chique e bem vestida faz-me lembrar o tio do João, de um texto de António Mota, que depois de o seu sobrinho soprar as velas do bolo de aniversário, pega num caixote, senta-se no terraço e começa a encher balões. E ali fica toda a tarde: Pfffffffff… Pffffffffff… Pfffffffff…. Depois larga-os. E os balões lá vão subindo, guiados pelo vento, em várias direções. Não sabe para onde se dirigem nem onde vão parar. Nem isso lhe interessa. Acredita que algumas das sementes que levam dentro hão de germinar. Claro que dali poderão nascer algumas papoilas, mas delas nunca uma seara rebentará.

Na Tertúlia de Mentirosos, Jean-Claude Carrière refere um conto da tradição chinesa, que passo a contar aos estimados leitores, como forma de conclusão que tem a enorme vantagem de não ser conclusão nenhuma.

Um homem caminha lentamente à chuva. Um outro passa por ele apressado e pergunta-lhe: Porque não andas mais depressa? O homem lento responde: Lá à frente também chove.

 

João Madureira

 

 

22
Fev16

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278 - Pérolas e diamantes: a concisão da insinceridade

 

Vendo a guerra de guerrilhas terrorista, bombista e malabarista a alastrar pelas cidades da Europa e a campanha contra o Daesh a alastrar no Médio Oriente, lembro-me de um provérbio Abecásio que diz: “Se a água se incendiar, como é que se pode apagar?”

 

Os abecásios e os georgianos tiveram uma guerra civil há bem pouco tempo, de contornos um pouco sinistros. A implosão da URSS continua a fazer tremer a terra com as suas réplicas.

 

A escola e a cultura da guerra está impregnada na matriz da humanidade. Na Abecásia, quando nasce um menino, os parentes oferecem-lhe um punhal de ouro. Ao lado do punhal penduram um chifre para o vinho.

 

Os abecásios bebem o vinho pelo corno, como se fosse um copo, por isso apenas o podem pousar na mesa depois de o engorgitarem até ao fim. É o alibi perfeito para a borracheira. Depois é só pegar no punhal. O ouro exige mais ouro. A guerra mais guerra. E a borracheira, nova borracheira.

 

Olga V., no livro O Fim do Homem Soviético – um tempo de desencanto, de Svetlana Aleksievitch, conta que um dia os georgianos e os abecásios bombardearam uma jaula de macacos. À noite, os georgianos perseguiram alguém pensando que era um abecásio. Quem mais poderia ser? Feriram-no. Ele gritava, como é natural. Por seu lado, alguns abecásios descobriraram-no e logo pensaram que era um georgiano. Quem mais poderia ser? Perseguiram-no, dispararam contra ele. Quando amanheceu viram que se tratava de um macaco ferido. Tanto abecásios como georgianos declararam uma trégua e foram salvar o macaco. “Se fosse um homem matavam-no… Eles andam como zombies. Acreditam que estão a praticar o bem. Mas será possível praticar o bem com uma metralhadora ou um punhal?”

 

Isto é Kusturica em estilo puro… e duro.

 

Então vamos lá encher de novo os chifres e beber. Vai a cima e vai abaixo, vai ao centro e bota baixo.

 

Por isso é que os homens e as mulheres para semente rareiam.

 

Na Rússia de Putin apareceram uns cartazes que foram muito além da imaginação ao poder do Maio de 68: “Vocês nem imaginam quem nós somos.” Ou este que traduz o bloqueio democrático da nossa sociedade: “Eu não votei nestes patifes, votei noutros patifes.”

 

É mesmo verdade, não existem revoluções de veludo. O campo de batalha é sempre ocupado pelos saqueadores.

 

Gritámos nas ruas que o povo é quem mais ordena. Qual o quê! Os comícios são espetáculos políticos baratos. O circo é bem mais interessante.

 

O povo nunca decide nada, são os indivíduos ilustres aqueles que dispõem as peças do xadrez político a seu belo prazer. Na partição do brinde, eles ficam constantemente com o bolo e a nós toca-nos sempre o buraco, que é ainda menos do que a fava do bolo-rei.

 

Não faz sentido mudar de governo se nós próprios não mudarmos.

 

A grande tese de Darwin não se baseia, como erradamente muitos pensam, na ideia de que são os mais fortes aqueles que triunfam. Darwin chegou à conclusão de que os vencedores da luta pela sobrevivência são os seres mais capazes de se adaptarem ao meio ambiente. São os medíocres aqueles que sobrevivem para perpetuarem a espécie.

 

O filólogo russo Sergei S. Averintsev disse que construímos as pontes sobre os rios da ignorância, mas que, entretanto, as torrentes mudaram o leito dos rios.

 

O futuro, por mais que nos custe a admitir, é absolutamente imprevisível.

 

Perguntaram um dia a Nabokov porque é que juntava os problemas de xadrez com os poemas. Respondeu que os problemas são a poesia do xadrez, pois exigem do compositor as mesmas virtudes que caraterizam toda a arte digna desse nome: originalidade, invenção, harmonia, concisão, complexidade e uma esplêndida insinceridade.

 

Para completar o ramalhete, eu acrescentar-lhe-ia a arte da política, desde logo pela sua admirável “insinceridade”.

 

O meu sonho foi idêntico ao do original escritor, pois sempre ambicionei vir a ter uma longa e excitante carreira como obscuro conservador de lepidópteros num grande museu.

 

Sei que falhei, mas foi por pouco. Mas as borboletas continuam aí à mão de semear.

João Madureira

 

 

25
Jan16

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274 - Pérolas e diamantes: a serenidade dos sorrisos

 

Continuo a pensar que Jorge de Sena, no seu agreste discurso proferido a 10 de junho de 1977, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, presididas por Vítor Alves, resumiu a alma portuguesa de forma crua, mas real, bem ao jeito dos visionários desprezados pelos medíocres de sempre.

 

Passo a citá-lo, socorrendo-me do livro Vítor Alves – O Homem, O Militar, O Político, de Carlos Ademar: «Continua vivo “esse vício centralista da nossa tradição administrativa”, que, “sem perda da autoridade central”, continua a “manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e o menos realista quando de política se trata (…). Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista quando se veem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade.”

 

Foi com ele que aprendemos o poder de um sorriso sereno.

 

Triste continua a ser o nosso fado. Nos tempos que correm, salvo raras e honrosas exceções, não votamos em alguém. Votamos sempre contra alguém.

 

Esta gente faz sempre o contrário do que dizem os poetas. Por isso é que nunca acertam. Maiakovski avisou: “Primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”.

 

Cantar por cantar, que o façam os melhores.

 

Costumo encontrar algumas vezes a minha avó passeando no meio dos livros de Gabriel Garcia Márquez. Fico deslumbrado e cheio de saudades.

 

Aparece-me, para meu espanto, vestida com “a escrupulosa serenidade da pessoa acostumada à pobreza”. Quando se lembrava do meu falecido avô João Lorde, evidenciava o seu corpo rígido e seco e “um olhar que raras vezes correspondia à situação, como o olhar dos surdos”. A sua palidez e os seus movimentos “possuíam aquela suave eficácia das pessoas acostumadas à realidade” e revelava sempre “aquela expressão de decorosa simplicidade com que os pobres chegam a casa dos ricos”.

 

Depois ao sétimo dia chove e eu fecho o livro dos salmos tristes. A vida é quase sempre assim. Quase sempre. Quase. Sempre.

 

Eu recordo-me… Amarcord… do lindo caos que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, dessa revolução naif onde abundavam as ideias e as quimeras. Também elas murcharam, como os cravos. Agora é tudo de plástico, cravos, comida, ideias e tudo.

 

E depois entrámos na Europa. Bruxelas disse-nos o que tínhamos a fazer. Com a verdade nos enganou. O dinheiro foi distribuído às mãos cheias, mas ao povo chegaram apenas os trocos.

 

Alguma coisa mudou, temos de reconhecer. Os ricos ficaram mais ricos. Os amigos das cores partidárias subiram alto.

 

Atualmente todos achamos que vivemos melhor porque podemos andar num carro em segunda mão que continuamos a pagar ao banco. Os filhos, mesmo os licenciados, vivem às custas dos pais. Uns chamam-lhe progresso, outros crédito.

 

Os que puxam pela memória recordam-se que do 25 de Abril apenas nos resta o feriado. E qualquer dia nem isso.

 

Por hoje termino citando o narrador do romance de Marcel Proust, O Lado de Guermantes, quando semivirado para o seu amigo Robert de Saint-Loup diz: “Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam”.

 

Por tirada tão filosófica, o amigo Saint-Loup «dando-lhe palmadas como a um cavalo que tivesse chegado em primeiro lugar à meta rematou: “Tu és o homem mais inteligente que conheço, sabes”.»

 

Os diplomatas querem saber o que toda a gente pensa, os oportunistas concentram-se em perceber o que as pessoas fazem. Mas só os tolos jogam à roleta.

 

João Madureira

 

 

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