Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Out22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

607 - Pérolas e Diamantes: A poderosa linguagem humana

 

A linguagem humana é espantosa. Através da ligação de um número limitado de sons e gestos conseguimos produzir uma infinidade de palavras e frases com significados diferentes. Podemos armazenar, conceber e comunicar um incrível manancial de informação sobre tudo o que nos rodeia e também sobre o amor e sobre física quântica. A nossa linguagem evoluiu para nos abrir a possibilidade de tagarelar, de trocar ideias, de trocar informações. Com a linguagem humana sabemos quem nos odeia, quem gosta de nós, quem é honesto e quem é ladrão. Mas o mais interessante de tudo é que a linguagem do Homo Sapiens, mais do que transmitir informação sobre polícias e ladrões, tem a capacidade de transmitir informação sobre coisas que não existem de todo. Apenas ele, entre todos os animais, consegue falar sobre entidades que nunca viu, tocou ou cheirou. Só ele consegue escrever poesia e criar Deus. Foi com a denominada Revolução Cognitiva que começaram a surgir as lendas, os mitos, os deuses e as religiões. A capacidade de os sapiens falarem sobre coisas ficcionais é o aspeto mais singular da sua linguagem.

 

Quando, entre os nossos primos chimpanzés, dois machos disputam a posição de alfa, fazem-no formando diferentes coligações de apoiantes machos e fêmeas. Os laços entre os membros dessa coligação baseiam-se em contactos íntimos diários: abraços, beijos, festas, cuidados de limpeza e mútuos favores. Tal como os políticos que conhecemos em campanha eleitoral, eles andam de um lado para o outro a apertar mãos e a beijar bebés. E a tagarelar.

 

Afinal, isto já vem de longe.

 

No rescaldo da Revolução Cognitiva, segundo Yuval Noah Harari, foi a tagarelice que ajudou o Homo Sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas, ao que dizem, até a coscuvilhice tem os seus limites. Estudos sociológicos referem que a maior parte das pessoas não consegue conhecer intimamente nem falar eficazmente sobre mais de 150 seres humanos. Então como é que o Homo Sapiens conseguiu ultrapassar esse limiar crítico formando aldeias, vilas e cidades de milhares de habitantes e mesmo impérios?

 

Parece que o segredo reside no surgimento da ficção. Ou seja, como todos agora sabemos, um grande número de estranhos consegue cooperar com êxito graças à crença em mitos comuns. Esses mitos fazem parte da memória coletiva das pessoas. As igrejas estão enraizadas em mitos comuns. Os estados estão enraizados em mitos comuns. Os sistemas judiciais estão enraizados em mitos comuns. Mas nada destas coisas existe fora das histórias que as pessoas inventaram e contam entre si.

 

Está tudo centrado no ato de contar histórias e de convencer as pessoas a acreditar nelas. Contar histórias eficazes não é para todos. A principal dificuldade não reside na narração propriamente dita, mas na capacidade em levar as pessoas a acreditarem na ficção. Mas quando consegue tal feito, esse sapiens adquire um enorme poder, pois permite que milhões de estranhos cooperem e trabalhem em prol de objetivos comuns.

 

Foi dessa forma que se criaram as religiões, as nações e as empresas.

 

Ao longo da história da Humanidade, as pessoas teceram uma incrível rede de histórias complexas. Essas ficções acumularam um poder imenso. Nos círculos académicos, os estudiosos denominam-nas como “ficções”, “constructos sociais” ou “realidades imaginadas”.

 

Uma realidade imaginada não é uma mentira. Claro que existem as mentiras. Mas não há nada de especial em relação a elas. Até os cercopitecos e os chimpanzés conseguem mentir. Já foi registada a mentira de um cercopiteco a gritar, em linguagem própria, “Cuidado! Um leão.”, sem que por perto estivesse qualquer animal dessa espécie. No entanto, esse sinal de alarme assustou outro macaco que, curiosamente, tinha acabado de encontrar uma banana, fazendo com que o mentiroso ficasse sozinho para se apoderar do prémio.

 

Ao contrário da mentira, a realidade imaginada é algo em que todos acreditam, ou dizem que acreditam. E enquanto existir essa crença coletiva, a realidade imaginada exerce força sobre o mundo.

 

Desde a Revolução Cognitiva, o sapiens tem vivido uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores, do lince da Malcata e do burro Mirandês. E por outro, a realidade imaginada dos deuses, das nações e das empresas. Mas à medida que o tempo vai passando, é a realidade imaginada que se torna cada vez mais poderosa, ao ponto de ser ela quem atualmente permite que a própria sobrevivência dos rios, das árvores, do lince da Malcata e do burro Mirandês dependa da boa vontade de entidades imaginárias como deuses, nações e empresas.

 

João Madureira

 

 

19
Set22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

605 - Pérolas e Diamantes: Desabafo emocionado

 

Isto é uma terra de carnaval, cheia de gente instruída, obstruída e também de personagens pindéricas roídas de admiração invejosa, lutando contra as lágrimas e chupando no polegar. Uma terra de gente melancólica disfarçada de mosqueteiros, brancas de neve, anões e refilões, de zorros de mascarilha e florete, imperadores romanos vesgos e regedores vestidos de fato e gravata, disfarçados de doutores e engenheiros. E também de reis mouros montados em cavalos de pau. E de gente simpática. Terra turística. De águas. De águas vertidas e por verter. O bom era fazermos umas corridas de jericos. Burros ajaezados à transmontana para turista ver. E pôr toda essa gente boa a beber das nossas águas termais. Águas termais doutor Mário Carneiro. Também somos terra de gente sorridente. Até podíamos enlatar sorrisos, tal como os galegos fazem ao melocotón. E exportá-los para a Rússia que é terra de gente que não sabe rir. E também a água termal que, dizem os entendidos, faz bom cocktail com vodka e as laranjas de Freixo. Nós por cá, como qualquer outra cidade, vivemos de equívocos ancestrais, baseados em falsas histórias, glórias inventadas e lendas retorcidas. É cada vez mais difícil definir as fronteiras entre a fantasia e a realidade. E a cidade cada vez mais na mesma. Apesar de levantarem pedra e colocarem laje ou piche, a nossa terra definha. Tanto presidente para nada. Tanta eleição para coisa nenhuma. Estava a brincar. Claro que esperar e rezar tem dado os seus frutos. Nos dias festivos todos dançamos e cantamos de alegria. E não o fazemos em vão. A emoção faz-nos chorar. Especialmente quando vemos estrelejar o fogo de artifício, quer seja solto ou preso. Há mesmo dias em que o céu se enche de chuva e luminosos arcos-íris. A verdade é que nem as promessas foram vazias nem as frases tontas. A lição está aprendida, é preciso cuidar dos inimigos tanto quanto dos amigos. Alguns queixam-se de aborrecimento. Mas quem é que se aborrece nesta nossa cidade? A oposição é que anda aborrecida por não saber o que fazer. Afinal, todos gostamos de falar sobre liberdade. Afinal, não é esse o nosso sonho coletivo? Por vezes, abrimos os olhos e a luz entra dolorosamente. As tempestades de verão abrem as janelas para deixarem passar a água da chuva que também se acumula no chão, encharcando os tapetes, as sedas e as bandeiras dos triunfos passados. Com o vento rápido, até as cadeiras do poder tombam fazendo desabar quem nelas se senta, com estrépito. O som da verdade pode magoar. E a vaidade também. E nós a vê-los passar, ouvindo a música e vendo as luzes, enquanto tentamos resolver um sudoku no jornal. Anda no ar o cheiro a frango de churrasco e a batatas frias. Muitas palmas e pouca glória. Há sempre um fundo de sofrimento nas mentes iluminadas. As cicatrizes, por vezes, provocam-nos comichão. Vamos ter de substituir a arrogância do falar e a humildade de ouvir, pela arrogância do escutar e a humildade do dizer. Custa, eu sei que custa, mas este mundo está cheio de putins e trumps, zelenskis e patos donaldes, homens-aranhas, capitães-américas, tintins, bolsonaros e lulas, cavacos e sócrates. Tudo vinho da mesma pipa. Tudo batata grelada. Tudo presunto rançoso. Tudo mais do mesmo. Todos sabemos que os alemães e os russos, os transmontanos e o alentejanos são do tipo bruto. Mas o melhor mesmo é ir a Israel e desabafar junto ao muro das lamentações, ou a Fátima romper os joelhos nas lajes do recinto. Viajar dá-nos outra perceção do mundo. Mas nem isso nos liberta desta realidade, destes bonifrates de província armados em gente instruída que escreve cartas ao governador. Escrevem mal e desdenham dos escritores. Dizem-se progressistas e desdenham do progresso. Querem-nos fazer crer que a nossa felicidade depende dos nossos autarcas. Oxalá assim fosse. O sussurro também provoca ruído. Esta nova gente que diz que nos governa, e que até o faz com gosto, já não é como o tal rei que vai nu. Os novos príncipes democráticos vestem fatos domingueiros todos os dias e exibem sorrisos sofridos. Essa é a sua nudez. Estou em crer que os seus fatos são como os espartilhos das donzelas de outrora. E até escutam o hino nacional com a mão exposta sobre o lado do coração. São estes modelos que acham poder permanecer no poder pela evidência da mise en scène.

 

João Madureira

 

 

12
Set22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

 

604 - Pérolas e Diamantes: O anjinho depenado

 

 

Na feira do nosso contentamento é raro existir um espaço para estacionar o carro. As pessoas andam para cima e para baixo gesticulando, ouvindo música e pregões, vendo o fumo a subir no ar, sentindo o cheiro a frango de churrasco. Em Portugal, os frangos são de geração espontânea. E na zona dos divertimentos o barulho é ensurdecedor. O rodopio é constante: carrosséis e castelos fantasmas, cangurus e montanhas-russas, cadeiras que põem as pessoas de cabeça para baixo e aos gritos. A felicidade é tão intensa que dá medo. As crianças pedem aos adultos algodão doce com sabor a morango. Umas famílias comovem-se observando outras famílias que se comovem em reflexo condicionado. E sorriem. E acenam. Avançam aos empurrões, de aperto em aperto. Na praça, os vários elementos dos grupos de música pimba agarram-se aos microfones tentando fazer pular os jovens que já estão extasiados ainda antes dos primeiros acordes. As colunas de som berram tão alto que provocam tonturas na gente de mais idade. As jovens contorcionistas, que fazem de meninas do coro, entram no palco aos pulos vestidas com soutiens e cuecas minimalistas. E suam e sorriem como se estivessem a tentar conter a vontade de urinar. Pulam minutos e minutos, tentando seguir o ritmo frenético da música. Eu, que sou hipertenso e sofro de claustrofobia, digo à Luzia que, por causa das tonturas e das bolinhas de sabão que vejo a borbulhar na minha frente, vou para casa, não vá o Diabo tecê-las. Vou para casa ler. É o que sempre soube fazer melhor, ler. Até porque é um ato individualista. Desde os meus dez anos comecei a ler tudo o que me vinha às mãos. Um pouco antes, a minha mãe tinha resolvido fazer-me participar em todas as procissões vestido de anjo. Ela, mal me via com as aquelas asas depenadas e com o meu orgulho ferido, punha-se a chorar como uma Madalena. Eu também chorava, mas de vergonha. Era um anjo com sexo. Claro que pequenino, mas lá haveria de crescer. Era preciso dar-lhe tempo e motivos. A verdade é que tudo na religião me dava medo. Aterrava-me a igreja fria e cheia de sussurros e ecos, com as imagens dos Santos em sofrimento, com o esquife de Cristo ensanguentado encafuado debaixo do altar lateral da igreja, com o luto da quaresma, com os jejuns. Apesar dos meus medos, a minha mãe ainda teve coragem para pedir ao senhor abade para me deixar ajudar à missa. E lá fui eu fazer de menino obediente. Também tinha receio de que as mulheres mais velhas, por causa dos malabarismos que faziam com a hóstia na boca, se engasgassem e começassem a sufocar com o pão ázimo a tapar-lhes o gorgomilo. Na quaresma a mãe proibia-me de fazer barulho, brincar com os meus amigos, riscar no chão. Tudo parecia ainda mais triste. Não se podia ir ver televisão para o café, nem ouvir a telefonia em casa. Só rezar. A mãe enchia os quartos com lamparinas acesas, ao pé dos Santos. No seu, era a Nossa Senhora de Fátima que brilhava com tanta luz, de cara tão branca como a farinha triga, com os olhos tão doces como o mel e com as mãozinhas tão bem postas como as da Maria José no dia da primeira comunhão. Ainda não satisfeita com todo aquele sofrimento infantil, a mãe obrigava-me a ler alto para um grupo de devotos o jornalinho Ave Maria, que a Dona Justina distribuía aos assinantes do bairro. Depois da leitura, a mãe dizia para quem estava a ouvir: “Este meu filho há de ir para padre”. O pai fazia que não ouvia. E então, para terminar a sessão, a mãe punha-se a rezar ave-marias e pais-nossos pela conversão da Rússia, que sofria horrores debaixo da pata opressora dos comunistas. E não é que tinha razão! O Diabo tece-as. Era um tempo de penúria, simplicidade e escassez. Os pobres eram pobres, os remediados eram pobres, muitos ricos eram pobres, os anjos eram pobres, os Santos eram pobres, Nossa Senhora era pobre, apesar de vestir bem, ter a pele ainda mais branca do que os lençóis lavados com Omo e ter as mãos tão bem postas com a minha amada no dia da comunhão solene, Cristo era pobre e até o senhor Salazar era pobre. Não admira, pois, que este vosso amigo seja fraco no controle das emoções e escasso em risos e sorrisos. Confesso que me custa esconder o que sinto. Mas cada um é para o que nasce.

 

João Madureira

05
Set22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

603 - Pérolas e Diamantes: A convergência do apaziguamento

 

Estes tempos em que vivemos são tão estranhos em termos morais que já não é a porca que torce o rabo, mas somos nós que torcemos a porca. É tudo tão relativo que dá tonturas. Até as virtudes estão sujeitas a interpretações, enquadramentos e juízos de valor. A cabeça manda muito mais do que o coração. O homem de lata de Oz pode, definitivamente, deixar de se dar ao trabalho de procurar um que lhe caiba no peito. Os amanhãs deixaram de cantar, para passarem a gemer. O combate faz-se agora no vazio. A verdade é que em Portugal tanto se acredita em Nossa Senhora de Fátima como na Santinha da Ladeira. É tudo uma questão de “visões”, de luz e êxtase. A nossa teoria da relatividade é visionária.

 

As nossas boas decisões são sempre os outros que as tomam por nós, ou além de nós. Por isso é que apenas nos enganamos nas más. Mas daí não vem mal ao mundo. As más decisões só a nós nos afetam. O que nos liberta de remorsos. De genuíno tínhamos o galo de Barcelos, mas dizem que os chineses já os produzem com qualidade semelhante aos nossos. E também põem no mercado Nossas Senhoras de Fátima com repuxo de fazer inveja a muitos artistas plásticos de renome. Eles, por causas naturais relacionadas com os seus olhos rasgados, apenas se atrapalham no fabrico das nossas bandeiras devido a uma confusão relacionada com as torres. Dizem que quem provocou tamanha deselegância foi Cavaco Silva, quando içou a bandeira nacional de pernas para o ar. Ele, o tal ser mumificado em vida que raramente tinha dúvidas e nunca se enganava.

 

E lá vamos andando de governo em governo conduzidos pelo timoneiro que navega sempre tendo em vista a aproximação das eleições. O mar alto é para os outros. A nossa esquerda é bipolar, vivendo entre as suas experiências eufóricas e as traumáticas. E daí não sai. Já a nossa direita comporta-se como os casais de Nossa Senhora: vícios privados, públicas virtudes. E o povo, depois de assistir ao foguetório e ter ido apanhar as canas, põe-se a rezar: pai nosso rilha o osso, rilha-o tu que eu já não posso.

 

Uma coisa aprendeu à sua custa, o tal povo unido, em democracia o sufrágio é um critério de legitimidade, mas não de verdade.

 

Os nossos políticos podem não ter lido o catecismo, ou as obras escolhidas de Marx, mas todos leram Maquiavel.

 

Uma coisa sabemos de ciência certa, apesar de todos os políticos se confessarem convictos de que a sua ação pública é a maximização do bem-estar social, a verdade indesmentível é que as decisões públicas são tomadas pelos políticos tendo como objetivo o seu bem-estar e não o interesse da sociedade como um todo.

 

Já a classe média anda hipnotizada pela ideologia do sucesso individual. Anda a gerir circunstâncias, associações humanitárias e de solidariedade social e grupos de pressão, pois sabem que as enxurradas sociais levam tudo pela frente.

 

Os projetos para tudo rever acabam por não rever nada. É sempre tudo mais do mesmo.

 

Os guerreiros que julgávamos em repouso, afinal estão mortos. E sem o saberem.

 

As revoluções são coisas de museus e as democracias séries que se passam dentro dos tribunais com advogados a acompanharem e defenderem políticos e banqueiros acusados de crimes de burlas financeiras e desvios de capitais. Mas todos inocentes, inclusive os advogados. Já os parlamentos imitam os espetáculos de stand-up comedy, do tipo “Levanta-te e Ri”.

 

É pois normalíssimo que pessoas como nós, postas perante todas estas circunstâncias, optem pela aceitação de uma conceção mansa, pacata e burocrática da vida. Já quase todos perdemos a veneração pelas certezas e também, mais recentemente, pela dúvida metódica.

 

Os políticos de agora são técnicos superiores, ideologicamente iliteratos e socialmente instáveis, bons para venderem publicidade enganosa nas redes sociais. Mas até para isso contratam os técnicos estagiários disponíveis nas jotas partidárias.

 

Na nossa democracia institucionalizada, e estabilizada maioritariamente por um partido, o Presidente faz que preside, o Governo faz que governa e a Oposição faz que se opõe. Os juízos podem até não coincidir, mas os interesses dos interesseiros irão convergir até ao ponto do apaziguamento.

 

João Madureira

29
Ago22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

O especialista

 

O meu amigo JP é a educação em pessoa. Ou melhor, é um tratado ambulante de boas maneiras e um especialista em subtilezas. Ele expressa toda uma série de condutas e conhecimentos de um modo educado e cortês. É um mesuras, “um querido”, como o evocam as amigas da sua esposa, ou um “certinho”, um “barra”, como o distinguem os amigos. Ou um “picuinhas”, segundo a opinião da minha esposa. Mas a ela tem de se dar algum desconto, pois é muito crítica em relação aos meus amigos. O JP faz as coisas com uma urbanidade digna dos maiores encómios. E foge do antagonismo como o Diabo da Cruz. Ou o Deus verdadeiro da maldade e do pecado original.

 

O meu amigo dá-se bem com toda a gente. Elogia a conduta das pessoas bem-educadas, aplaude o bom gosto dos burgueses, enaltece o conhecimento dos sábios, exalta o estatuto social dos homens de leis e as individualidades do estetoscópio, gaba os professores eficazes e os bons alunos, eleva os presidentes de câmara que foram galardoados com a comenda no 10 de Junho, dá vivas à República, aplaude a coerência e a perseverança dos monárquicos que ainda o são depois de tantos anos de poder do povo, celebra a democracia, compreende e perdoa o Estado Novo, chora hiperbolicamente com a miséria dos pobres, emociona-se com o canto dos pássaros, com o nascer e o pôr do sol, com os discursos do Presidente da República, com as desculpas do Primeiro-Ministro, com as promessas do Líder da Oposição, adora jantar na companhia daqueles que apreciam, mais do que a qualidade dos manjares, a subtileza do acto cerimonial de comer uma refeição de acordo com a etiqueta e com as leis do protocolo, preza os fatos de lã e de linho de fino corte, entende as combinações das peças de um traje de cerimónia, sabe qual o nó de gravata que dá com os diversos tipos de colarinho, sabe lindos poemas de amor, quer eles sejam dirigidos à natureza, à fauna, à flora, ao amor em tempos de guerra, ao amor em períodos de paz, ao amor espiritual, ao amor carnal e ao amor estrito senso, distingue o bem do mal com muito rigor, apesar de liberal, distingue as classes melhor que um marxista-leninista, aprecia subjetivamente um bom estalinista, preza objetivamente um convicto capitalista, sabe rezar todas as orações dignas desse nome, conduz com um irrepreensível rigor, sabe combinar as meias com os sapatos e estes com as calças (por exemplo, com calças cinzentas devemos usar meias cinzentas, mas também podemos usar meia pretas e o cinto tem de estar de acordo com os sapatos, mas alguns especialistas defendem que o que deve estar de acordo com o cinto são as calças porque os sapatos ficam muito longe) e estas com o blazer e este com a camisa e com o cinto e com a gravata (ou vice-versa) e revela um especialíssimo gosto na escolha dos botões de punho, além disso consulta com apreciável delicadeza e elevado conhecimento técnico uma carta de vinhos, uma carta de águas, uma carta de whiskies, vodkas, ou conhaques, distingue um cordeiro do monte de um borrego do vale logo à primeira mordiscadela, caracteriza e destrinça os cogumelos pelo cheiro durante a cozedura ou no acto de os comer, que é quando todos os cogumelos se tornam mais ou menos indistintos, distingue pela pigmentação o salmão fumado de aquacultura do selvagem, diferencia as pessoas não pela cor, mas pela aura, distingue a carne de um porco bísaro de um de marca branca pela textura da carne, diferencia um pato mudo de um que grasna mesmo depois de mortos e depenados, distingue uma linguiça barrosã de uma de Chaves de olhos fechados, sabe quando comer, sabe quando beber, sabe quando deve interpelar alguém à mesa, sabe dizer uma laracha, sabe fungar delicadamente para um lenço, sabe pôr as mãos para beber, comer, urinar, acariciar um rosto, os seios, as coxas e o sexo da sua esposa, sabe beijar a sua mulher e a do próximo sem a cobiçar, sabe cobiçar a mulher do próximo dentro das regras definidas pela boa educação, sabe olhar sem ver, sabe observar sem olhar, sabe mesmo chorar sem sofrer, ou falar sem nada dizer…

 

Um dia enchi-me de coragem e pedi-lhe para me acompanhar no jantar de celebração do aniversário da minha boda. A sua presença era a modos que metade da prenda que resolvi oferecer à minha mulher. Pagava-lhe o jantar num dos melhores restaurantes do país se ele se dignasse acompanhar-me e assessorar-me em todos os aspectos relacionados com a etiqueta, o protocolo e as boas maneiras. Ele assim fez. Até lhe arranjei companhia: a sua mulher, que ele poucas vezes se aventura a tirar de casa. Tudo por causa da sua irrepreensível boa educação e etc.

 

Para não fastidiar os estimados leitores, passo, com vossa licença, por cima do especial pormenor da roupagem, não sem antes dizer que trajámos do bom e calçámos do melhor. Mas a qualidade esteve toda concentrada no repasto. Foi muito caro, mas, até por isso, inesquecível. Fomos a um restaurante da capital, de influência anglo-saxónica. Fora o pequeno detalhe do preço, a comida foi escolhida com o saber requintado do meu amigo JP. Amigos destes há poucos. A sua erudição é fruto de quase uma vida inteira de perseverante estudo e de monitorização persistente dos conhecimentos adquiridos, quer através dos livros, quer através de filmes, quer através da internet, quer através da intuição. De facto, o meu amigo JP é muito intuitivo.

 

Depois de olhar para a carta, disse que ia pedir um prato diferente para cada um de nós. Assim éramos superiormente servidos e sempre podíamos, à falta de melhor tema para conversar, dissertarmos sobre a comida. “E a bebida”, lembrei eu. “E a também a bebida”, concordou ele. “Sim”, concordaram igualmente as nossas queridas e estimadas esposas. E se a água escolhida para a sua esposa foi tema de conversa por causa do interessantíssimo preço, então o vinho deu para conversarmos cerca de uma hora (que foi o tempo que esperámos pela comida) sobre a qualidade manifesta do seu odor, paladar, textura e cor. Sobre o preço nada dissemos, por pensar, eu, que era manifestação de mau gosto e ele para tornar evidente que a qualidade está invariavelmente ligada ao custo. E ali não havia especulação. O que se pagava pelo precioso néctar era o real valor e nada mais do que isso.

 

Para mim encomendou peixe-anjo e lulas ceviche com caviar dourado e empada de arenque fumado com molho de tomates verdes. Para beber como aperitivo encomendou Bellini rosé numa flute de espumante. Para a minha mulher pediu tapas de presunto pata-negra e veado com molho de iogurte, vegetais e pedaços de manga. Para acompanhar exigiu uma garrafa de tinto Caro, um vinho argentino que, nas suas doutas palavras de expert “oferece uma adorável profundidade de fruta e é altamente focado, detalhista e elegante". “Nem mais”, disse eu. “Concordo”, concordou a minha mulher. É por essas e por outras que a minha mulher se parece muito com o meu amigo. Os seus níveis de adesão à opinião dos especialistas são assombrosos. Mas adiante. Para a sua mulher, e é nestes pormenores que se aquilata do amor e do carinho que o meu amigo dedica à sua esposa, pediu sashimi com queijo de cabra (e podem pensar que a razão que levou o meu amigo a pedir esse prato para a sua esposa foi a evidência de ela, como transmontana, apreciar o queijo de cabra, mas estão enganados, ela é doida por sashimi, e olhem que estas coisas não se topam logo nos primeiros vinte e cinco anos de casados, só lá para as bodas de ouro, e isso apenas os mais argutos e documentados, como é o caso do meu amigo JP) e pato fumado com endívia e xarope de ácer. Para ele pediu, por causa do regime, vieira recheada e salmão selvagem grelhado com vinagre de framboesa e pera-abacate. Para acompanhar os pratos da nossa dieta solicitou ao empregado uma garrafa de Sauvignon Blanc de 2005. No final encomendou um bolo, pequeno no tamanho, enorme na qualidade e colossal no preço. E para o acompanhar Perriet-Jouët reserva servido em Flutes Fantasy Cristal Atlantis.

 

Sabem, eu fui educado (enganado?) nos finais dos anos sessenta, uma altura em que o movimento naturalista, muito ao estilo de Rousseau, perguntava: “Porque não havemos de dizer aquilo que pensamos?” Mas numa sociedade civilizada têm de existir algumas restrições. Se seguíssemos todos os nossos impulsos, matávamo-nos uns aos outros.

 

E foi por essa razão que, quando me trouxeram a conta, paguei com o cartão Mastercard Platinum e comecei a implodir. Mas sempre com um sorriso nos lábios. A convivência com o meu amigo JP tem-me ajudado imenso na hora de expor os meus impulsos. Apesar de o querer matar (metaforicamente, é claro), cumprimentei-o efusivamente (também metaforicamente, claro está) na hora da despedida. Pespeguei dois beijos à esposa do meu amigo pensando que se ela fosse um porquinho mealheiro (alegoricamente, é claro) e visse transformada a comida que levava no estômago em dobrões de ouro (simbolicamente, claro está) era mulher para tilintar como uma slot machine quando dá o prémio máximo.

 

Quando cheguei à suite do hotel encomendei morangos e um champanhe mais em conta do que o servido no restaurante e fomos (eu mais a minha mulher) para os nossos aposentos. Quando chegou a hora de prestar o exame de aniversário, olhei para ela e disse-lhe que a amava cada vez mais. Ela perguntou-me, cuningulus aparte, se havia nas minhas palavras alguma ironia. Eu disse-lhe que não. Mas nós não devemos dizer sempre aquilo que pensamos. Metaforicamente, é claro.

 

 

PS – Dedicado especialmente a todos os maridos que, na companhia das suas queridas e estimadas esposas, vão comemorar no próximo inverno as bodas de prata, ouro ou diamante.

Um presente requintado é sempre uma mais-valia para a vida a dois.

Este ano o que está a dar são as peças com pelo e peles. Todos os criadores, por causa do aquecimento global, apresentaram também as suas criações em tecidos sintéticos. Mas se não é ecologista (alegoricamente, claro está), pode decidir-se por malas e sapatos, casacos e até vestidos com aplicações de pelo natural. Pode ainda optar por cabedal em casacos e vestidos.

Por favor assente o nome dos criadores, pois é aí que reside o toque de classe. Para as peças com pelo: Channel, Dolce&Gabanna, Lanvin, Vivienne, Westwood, Kenzo e Marc Jacobs. Para as peças em pele: Hermès, DKNY, Bottega; Venetta, Dior e Céline.

 

João Madureira

 

 

22
Ago22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

Milagres lusitanos

 

Alguém muito importante anda a organizar o Dicionário Taumatológico Nacional, que, para quem não saiba, tem a ver com o estudo dos milagres.

Em Portugal tudo tem a ver com taumatologia. A Nação Portuguesa pode não ter nada a ver com o desenvolvimento, com a cultura, com a ciência, com a energia, com a indústria, com a agricultura e com o talento, mas tem tudo a ver com a taumatologia.

O milagre das rosas foi dos mais encantadores momentos da nossa nacionalidade. E transformar pão em rosas não está ao alcance de qualquer um. Mesmo transformar rosas em pão, não é tarefa nada fácil. Mas, convenhamos, a primeira premissa é muito mais poética. E Portugal é um país de poetas. E de futebolistas. E a poesia tem muito a ver com os milagres. E o futebol também. Para isso basta ver os futebolistas e os treinadores a beijarem os seus santos e a glorificarem Deus (especialmente os brasileiros, que devem, nesses momentos de fé e oração, agradecer devotamente o facto de serem fruto de um outro milagre, o de serem filhos, netos e bisnetos, de portugueses, o que é novo e enorme milagre).

Em Portugal existe um outro milagre, o da linguagem. Por isso os prodígios acontecem a cada dia que passa. O assombro da saúde gratuita, a maravilha da educação espontânea e o portento da segurança social universal são conquistas de um outro milagre, a Democracia, que, também ela, é sucedânea de um distinto milagre, o Estado Novo, que substituiu um outro portento, a República, que se opôs com tenacidade a idêntico prodígio, a Monarquia, que, por mor da taumatologia nacional, se viu defendida por uma rainha tão corajosa e crente que, já de pé, fustigou o criminoso que abateu o seu marido e o seu filho com a única arma de que dispunha: um ramo de flores, gritando “Infames! Infames!”.

Depois ver Nossa Senhora aparecer a três pastorinhos em Fátima é, digamos, um final feliz, isto enquanto ao facto em si mesmo, pois se nos cingirmos à mensagem, o milagre está em não ter acontecido o que a Senhora vestida de branco vaticinou, ou sugeriu.

Podemos dizer que a vida é um milagre. Podemos até dizer que os próprios milagres são um milagre. Um milagre é um empreendimento de fé. Fé em que o milagre se realize.

Há por aí muita boa gente que acredita piamente no milagre de acertar no totoloto ou no euromilhões, por isso se cotiza toda as semanas. E o milagre de adivinhar os números por vezes acontece. Um em vários milhões, é verdade, mas é nesse pormenor onde se consubstancia o milagre. Pois se o prémio fosse distribuído por metade dos apostadores nenhum ganhava nada que se visse. Esse é o entretenimento que o Estado pratica com todos nós. Por isso, o milagre existe na circunstância de o prémio sair ao menor número possível de apostadores, ou a nenhum, facto que transfere, para desespero dos mais impacientes, o milagre para a semana seguinte.

Os matemáticos fizeram as contas e afirmam que cada apostador do euromilhões ou do tolotolo tem tantas probabilidades de acertar na chave milionária como de lhe cair um meteorito na cabeça. Nunca li uma notícia relatando o caso de um ser humano ter levado com um pedregulho intergaláctico na cachimónia, mas quase todas as semanas leio a notícia de alguém ficar milionário com as apostas da Santa Casa. E isso é um milagre. E grande. Que o digam os afortunados com os prémios milionários.

Também é um milagre o amigo leitor estar a ler o que está a ler sem se incomodar. Ao preço que a batata está, já é um milagre alguém disponibilizar algum do seu tempo (pois tempo é dinheiro) a ler o que um escritor de província rabisca num órgão de informação local. Então se pensarmos no quilo do bife, apenas nos resta deduzir que os vegetarianos vão atingir os seus objectivos de transformar o ser humano num ruminante. E isso também é um milagre. Não tão grande como o de ganhar o euromilhões, mas, mesmo assim, um milagre em tudo semelhante ao de transformar o pão em rosas. Já o de transformar Portugal num país a sério, nem Deus está em condições de o garantir.

 

PS – Se o amigo leitor (ou leitora) possui um cão, e gosta dele, claro, aconselhamos que comece desde já a preparar o Outono e o Inverno. Por isso aqui deixamos a sugestão: adquira, quanto antes, roupa para o seu animal de estimação. E pode fazê-lo através da internet. É fácil encontrar boutiques especializadas na venda de roupa para cães, desde capinhas, chapéus, camisolas de lã, cuecas, pijamas, roupões e até botas para a chuva.

Vá, não se esqueça. Depois não diga que não o avisamos a tempo. Para alguma coisa têm de servir estas crónicas. Nem que seja para ajudar o Estado a cumprir o serviço público da informação.

 

João Madureira

15
Ago22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

602 - Pérolas e Diamantes: E lá íamos cantando e...

 

A primeira vez que ouvi falar em papagaios foi quando me chamaram a atenção para um senhor que costumava inclinar a cabeça para um lado e de rodar em espiral, como é timbre dessas aves. Ou seja, vi primeiro a imitação feita por um humano de um papagaio do que a mesmíssima ave. Por essa altura também avistei pela primeira vez um macaco que um ex-combatente tinha trazido do ultramar, um verdadeiro terror para as galinhas que costumavam debicar os grãos junto às medas de palha na eira do castelo de Montalegre e no largo do Açougue. Naquela altura éramos todos crianças pálidas e franzinas que gostávamos de brincar em liberdade. Claro que também as havia coradas e rechonchudas. Essas eram poucas e pertenciam a outra categoria, mantidas a bifes da vazia e nós a caldo, pão, carne entremeada e óleo de fígado de bacalhau. Existiam os remediados, os pobres e os desesperadamente pobres. As casas eram lúgubres, as ruas empedradas. Tudo fazia parte de um refrigério feito de rituais e devoção. O frio era constante, por isso o lume estava sempre aceso em cada casa. Regalávamo-nos a ouvir o canto dos potes a ferver. Já na casa dos que comiam bifes da vazia o que se ouvia com mais frequência era a chaleira a cantar na sua voz aflautada. Estava proibido dar aos desesperadamente pobres aquilo de que não necessitavam para não criarem maus hábitos. O sistema físico das pessoas esgotava-se muito antes do sistema moral. Nós por causa das dúvidas, e do frio, pegávamos no fole e tentávamos dar ao fogo da lareira uma chama mais intensa. Havia gente capaz de dar ao fole e mergulhar em profunda meditação enquanto o fazia. Nos aparadores repousavam os retratos dos falecidos antepassados. Já nas cozinhas, os rojões hibernavam na sua própria banha, em potes de barro, escondidos nos louceiros decorados com lindas simetrias de recortes feitos em papel de jornal colados com grude de farinha de trigo. E lá íamos cantando e rindo, levados, levados sim. Nos dias de neve deslizávamos desde o Pelourinho até à Portela, fazendo quase sempre a curva acentuada da casa do Jorge sem nos despistarmos. A verdade é que não nos dávamos conta do tédio, da monotonia, da tacanhez e do moralismo daquela época. Era tudo linear. Agora passamos a vida a pensar nisso, sem proveito nenhum. Cada um é para o que nasce, e nós nascemos para a irrelevância. A vida doméstica decorria absolutamente convencional e cordata, tal como a pobreza. Ensinavam-se os pobres a respeitar os seus privilégios. Daí o céu estar à sua espera. Os pais constituíam bons exemplos e as crianças e os jovens nunca levantavam a voz em família, tinham bons modos e raramente diziam obscenidades. Muitas mães pareciam autoritárias e dominadoras, porque lá em casa mandavam elas. Eram ainda raparigas novas, vivendo entre a necessidade e a tensão. As poucas falhas das mães deviam ser analisadas no contexto da compaixão. A verdade é que os filhos também não eram as crianças ideais, apesar de obedientes, eram teimosos e obsessivos. Por vezes, tinham ataques de fúria e gritavam. Uns acabavam inevitavelmente por ser castigados, outros não. Dependia das circunstâncias. Claro que tudo isto podia ter uma explicação freudiana, mas essas subtilezas estavam destinadas apenas às tais crianças que comiam os bifes da vazia. Para nós, as justificações eram empíricas. O pão, o caldo, a carne entremeada e o óleo de fígado de bacalhau sempre se deram bem com o empirismo. Tudo o que não mata, engorda. Aos domingos, além da missa, muitos de nós ficavam encantados, na hora do almoço, com a utilização da palavra “guardanapo”, que consistia num pano branco quase igual ao que o senhor abade punha, dobrado em três, por cima do cálice da eucaristia, onde ele limpava ao de leve os lábios depois de beber o vinho e comer a hóstia, com sacrifício e bonomia. A seguir limpava também os bordos do cálice, que depois guardava no sacrário. Todos tínhamos um sentimento de apreensão quando observávamos a tristeza, a beleza, e também a riqueza de uns poucos e a pobreza que se espalhava como erva ruim. Apenas existia a necessidade. Duvidar do que nos ensinavam era proibido. E só nos lembrávamos de Santa Bárbara quando trovejava. Aquilo dava cabo dos nervos a muito boa gente que, quando estava no campo, preferia refrescar-se à chuva do que proteger-se das bátegas debaixo de um bom carvalho, não fosse o Diabo tecê-las. Brrummm… Santa Bárbara bendita que no céu estais escrita….

 

João Madureira

08
Ago22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

601 - Pérolas e Diamantes: Hábitos

 

Vivemos para vermos e sermos vistos, isso dizem e eu tento pensar que é verdade. E que até é bom. Philip Roth escreveu que “aquele que é amado pelos seus pais é um conquistador”. No caso do escritor americano parece que resultou. Já no meu acho que não. Mas uma coisa é nascer em Newark e outra na Torre de Ervededo. Contudo, depois de uma vida dedicada a várias e distintas causas, consegui, por direito próprio, o poder de assoar o meu nariz e de espirrar, sem necessitar de uma autorização especial.

 

Há um princípio filosófico que diz: “O homem só faz asneiras quando quer ter razão.” O melhor mesmo é que a razão fique com os outros. O melhor é cada um fazer o que quer, falar, tocar tambor, ferrinhos e dançar o malhão. Cada um é para o que nasce.

 

Em tempos idos, levar com o cinto, de vez em quando, era considerado um hábito saudável. E nessa altura não havia lá muito hábitos assim tão sadios.

 

Os portugueses são provincianos. O país real é provinciano. Ser mal julgado na capital é um ponto de honra. Um bom princípio educativo. A prova de que nada falhou na nossa educação provinciana. É um ponto de honra. Um porto de honra. Uma porra honrada.

 

Por vezes, aos domingos de manhã, vou até aos campos ver jogar um pouco de golfe. Gosto de observar aquele verde carregado de fertilizantes a ser invadido por hordas de ricos de segunda escolha. São os ricos frutos da nossa democracia, que até se dão ao luxo de colocarem o boné ao contrário para se mostrarem dinâmicos e descontraídos.

 

A moda de ontem já passou. A de hoje não existe. Viva pois então a moda de amanhã.

 

Agora tudo brilha, tudo tem sotaque, tudo o que é bom vem embrulhado em papel celofane multicultural. E nós a vê-los passar.

 

O segredo reside no controle das investiduras. Na paciência e nas manobras de bastidores. Tudo se ganha nas manobras de bastidores. Tudo. E mais alguma coisa.

 

A mentira é a arte da ficção. Com a verdade se engana. Os de baixo andam sempre a servir ambições. Eu, tal como Feofan Prokopovich, o arcebispo de Pedro, o Grande, marido da Czarina Catarina, também tenho para aí três mil livros na minha biblioteca. E a pergunta torna a impor-se: “O que pode um homem fazer com três mil livros?” . Talvez nada.

 

Foi o meu pai que me disse para desconfiar das pessoas que tinham o sorriso tão fino quanto as hóstias que o padre oferecia na igreja e que se limitavam a ler um único livro vezes sem conta.

 

A zebra é um animal preto com listras brancas ou um animal branco com listras pretas? Tanta leitura para nada. Tanto Deus para nada. A Humanidade está num ponto de equilíbrio. E isto tanto pode dar para um lado como para o outro.

 

Por alguma razão os advogados gostam de vírgulas e dos textos mais antigos. Há gente que pensa acabar com as dúvidas através dos pontos finais. Os mais prudentes gostam de juntar o ponto e a vírgula e os céticos andam sempre pendurados em pontos de interrogação.

 

A linguagem dos democratas está cheia de vírus. Agora inventa-se tudo: expressões, palavras, grafias alternativas, abreviaturas, corruptelas e verdades. Tudo se inventa e tudo se gere. A verdade, a linguagem da verdade, também pode adoecer e morrer. O heroísmo também cansa. Sempre pensei que o ato de esmolar do cristão o degenera pois ele julga absolver os seus pecados com a dádiva que não o empobrece. Ou seja, a ele tanto lhe faz. Isto é ter alma de negociante.

 

Dizem que a política é a arte de dominar os acontecimentos. Mas, um amigo que por lá andou ao desbarato, disse-me ao ouvido que a verdadeira finalidade da política é o interesse e a intriga a sua arma. Mais nos vale pensar na Batalha de Aljubarrota. Também me disse que o tão adorado Churchill era um grosseirão e um alcoólico e que tais atributos até constavam dos arquivos diplomáticos.

 

Olho pela janela do carro a cidade, lá do alto de São Lourenço, e penso, a sorrir, que só quando a deixo a amo.

 

Por aqui confunde-se mau génio com caráter.

 

Não fica bem aos assessores vestirem melhor que os seus superiores hierárquicos.

 

Bem, e a moral? A moral, como dizia a Agustina, por interposta personagem, é uma virtude, não uma conduta. Em Portugal, pode ser-se aristocrata e democrata ao mesmo tempo. E ninguém leva a mal.

 

O meu amigo sabe agora que há prazeres sem esperança. E que a felicidade é uma bonita palavra.

 

Ao belo está sempre pegado o feio e ao rico o pobre.

 

João Madureira

01
Ago22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

600 - Pérolas e Diamantes: Dilatações

 

Danton, que sabia muito bem daquilo que falava, afirmou que os meios revolucionários tinham sido funestos para muita gente, dado que a revolução não se propaga geometricamente, é como uma enxurrada que desmorona muita coisa útil e boa e arranca muitas raízes de bons pomares. Por cá, depois dela, após a denominada estabilização democrática, muita gente com alguma riqueza e terras, gastou algum dinheiro nas mais improdutivas, fazendo-lhes melhoramentos supérfluos, dando ordens por telefone, instalados nos seus solares como se fossem senhores feudais. Com os fundos comunitários, grande parte dos portugueses deixou-se enganar ou enganou os outros. Nunca ninguém soube muito bem quais eram os princípios da governação e da atribuição dos subsídios. E também não interessava. Desde que o dinheiro viesse, tudo estava bem. Como sempre, correu o ouro para o tesouro. Uns ficaram com as barras e os outros com a luz do seu brilho. Depois impôs-se a ideia de que o silêncio em torno do poder era a melhor forma de esconder a verdade. E foram criados os media destinados a fabricar a opinião. Com os subsídios começaram a nascer vivendas como cogumelos depois das chuvadas. E canis de rede de aço para os cães de guarda. E alarmes por toda a parte. E piscinas. Nas melhores fizeram-se até pequenos ribeiros em redor dos jardins onde se viam lindas carpas a nadar. E nas garagens estacionavam-se carros de todos os gostos e feitios. Os economistas e os empresários começaram a tomar conta de tudo. Até do poder democrático, pelo qual diziam ter desprezo. Os ricos abandonaram a sua hipocrisia e os bancos começaram a arruinar os governos, as pessoas e o país. Não se sabia de onde vinha tanto dinheiro. Nem para onde ia. Desapareceu, como por milagre. O dinheiro produz sempre a ideia de mais dinheiro. Os mais atrevidos até foram capazes de fazerem das suas mansões e das suas propriedades entrepostos para o tráfico de droga. O dinheiro misturou-se com a cultura e adquiriu poder político e financeiro. Apareceram então as grandes superfícies, esses verdadeiros palácios dos pobres onde proliferam as fibras, quer seja no vestuário, no calçado ou na carne. Onde as bijutarias têm o mesmo apelo dos enormes pastéis de nata. Por isso a multidão engorda e se apaixona por períodos renováveis, até o contrato nupcial ser denunciado por uma das partes, ou pelo facto de o colar de pérolas de viveiro ter perdido o brilho ou as pernas da princesa do bairro terem ficado como coxas de galinha. Não há nada de normal na normalidade. Foi o tempo em que se começou a propagar o conceito de nova cozinha cuja arte reside em misturar coisas que não se misturam. Os sonhos tornaram-se naquilo que são: breves imitações da felicidade. A Nação pareceu a muitos que estava grávida, grávida de progresso e com esperança no futuro. Ficou quase intratável, com todos os sintomas de gravidez: falta de menstruação, vómitos matinais, os desejos, os sentidos embotados e uma espécie de desmaios. Mas a Nação não estava “prenhe”. A gravidez não passava de uma barriga de vento. Uma gravidez psicológica. Entre nós, tudo é obra de momento. Até a dilatação da fé e do império e das trompas de falópio, que, na sua essência, não passam de redes de pescar. Os novos ricos envelheceram e agora matriculam os filhos, também já um pouco estragados pela ociosidade, em ginásios para irem nadar. Poucos são os que os frequentam regularmente, intervalando todo esse excesso de esforço e determinação com dietas de legumes crus e peixe grelhado. Mas os que sabem dessas coisas de etiquetas e protocolos, bem lhes lembram que, exceto a fome, as dietas são atributos de ricos com pedigree. Gastam mais em saladas do que em ordenados com os criados. Tudo isso pode até parecer feio, como as máscaras de beleza, mas sempre dão uma ajuda na hora de sair à rua. Uma combinação dos seus sorrisos dava um quadro do Rembrandt ou mesmo de Nadir Afonso. Ou de Júlio Pomar. Agora andam todos atrás da descoberta de novas formas de descontentamento. Deixaram de amar com paixão para passarem a amar com compaixão. A idade para aí os encaminha. Os que vão ao psiquiatra saem de lá com a noção de que estão deprimidos. A sua tristeza não tem fim. Depois de consultarem as amizades, resolvem viajar. Todos sabemos que as viagens se inventaram para combater a tristeza.

 

João Madureira

 

 

25
Jul22

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

 

599 - Pérolas e Diamantes: Medicações

 

Depois de me deitar, a insónia é pesada. Ponho-me a ler e entretenho-me a pensar, enquanto oiço música clássica para me chatear mais um pouco. Arreliado penso melhor. Teimo na leitura, que não no sono. Penso. Ou penso que penso. E nem sempre coisas lá muito coerentes. Mas…

 

Estou em crer que não há político sério que não tenha lido O Príncipe, de Maquiavel, escrito, por incrível que pareça, em 1532. “Sabemos pela experiência que as grandes realizações só foram alcançadas no nosso tempo por aqueles que não se esforçaram por cumprir as promessas que antes haviam feito, e, quando necessário, foram capazes de ludibriar os outros a segui-los ainda assim.” Até me apetecia ficar por aqui. Mas, por causa da insónia, vou seguir em frente, como dizem os locutores da rádio. O poder, por fim, justifica os meios. A demanda do poder, é uma série em vários episódios. Por alguma coisa é que os comícios políticos são espaços de tempo preenchidos com lugares-comuns a cargo dos líderes para terminarem com concertos de música pimba, pomba e pumba, onde os comboios lá vão a apitar, o bacalhau a querer alho e o vizinho a não se cansar de meter e tirar o carro da garagem da vizinha. Desligo a aparelhagem. Já chega. Tomo um comprimido e toca a dormir.

 

Bom dia, vá lá, toca a levantar. Estava a sonhar com praias, areia fininha e amarela, filas de guarda-sóis havaianos e um mar de águas cristalinas e um céu enorme e sem nuvens. E também com a rebentação das ondas ao fim da tarde e eu a correr por ali fora como se tivesse vinte anos. Depois o sonho esfumou-se. Olhei de esguelha para a lâmpada e tudo voltou ao que era antes. Resmungo e volto a adormecer. Tenho sempre uma sensação de urgência dentro da cabeça.

 

A verdade é que ando a tomar medicação para me aguentar vivo e desperto. Vem tudo em frasquinhos com os respetivos rótulos: concentração, argumentação, estilo, convicção, sentido de humor, persuasão, tolerância, sorriso afável, paciência. E ainda um que transforma a tristeza profunda em tristeza superficial, pois não consegue fazer a inversão total, pois isso podia levar à loucura.

 

Ando a lixar a tinta das portas da velha casa até à madeira. Sem objetivo. Concentro-me só em lixar. A cidade parece-me, por vezes, uma tranquila insónia de nevoeiro que toma conta dos arrabaldes até os deixar submersos. Tomo outro comprimido para deixar de sorrir, por causa dos efeitos secundários do anterior.

 

Agora adormeço entre vagares. Como já estou velho, sigo a razão da história e não as suas paixões.

 

Eu sou como os gatos que, dizem os amigos dos animais, não gostam de ninguém. Mas isso é um mito. Também eles se afeiçoam às pessoas, mas sempre à sua maneira.

 

Também vou às compras, como as mulheres, pois afirmam que assim evitam os maus pensamentos e as depressões, dado que os comprimidos não conseguem fazer tudo. Já a rapaziada fuma uns cigarros esquisitos, com um cheiro que não me parece o do tabaco. Alguma coisa temos que fazer para ocupar o vazio que há entre as pessoas. E também temos de compartilhar a solidão. E de estender o prazer do monólogo aos outros. E ir ver as bandas a tocar o solidó nas aldeias, entre velhos, cães e silvas. Nem todo o sofrimento é culpa nossa. Ave Maria cheia de graça… Mais um comprimido para o sentido de humor. Faz parte da verdade o aforismo que diz: os homens ambiciosos não esperam e os homens sem escrúpulos não recuam. Pai Nosso que estais no… Mais um comprimido para estimular o sentido de persuasão. Uma vez que não acredito em muitas coisas também não me é difícil acreditar em nada. Mais uma cápsula para a argumentação.

 

Acontece muitas vezes que, durante algum tempo, a sorte nos abandona e até as coisas mais insignificantes deixam de resultar. Por vezes temos sorte e as coisas resolvem-se sozinhas. E, outras vezes, tomamos mais uma pílula para dourar as adversidades.

 

Como não tenho jardim, pratico a jardinagem de palavras.

 

Estou a inventar. A tentar desculpar-me de uma coisa que não entendo. Para mim, inventar é uma forma de tentar perceber o mundo. E lá vai mais um comprimido para a convicção.

 

As consequências tiram a vontade a tudo. Ou a quase tudo, ou a… ou a… Até amanhã, camaradas…

 

Bom dia, vá lá, toca a levantar. Tomo logo dois comprimidos, um para a tensão e outro para a convicção. E assim começa um novo dia…

 

João Madureira

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

.17-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    FB