Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Jan26

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

761 - Pérolas e Diamantes: Cuidado com o que desejas (Confissões e Delírios – Excerto)

 

 

Curioso, os cemitérios são agora parecidos com espaços agradáveis, erva brilhante, tudo muito bem tratado entre as sepulturas. E até é frequente vermos flores frescas dispostas em jarros por cima das lajes de granito polido, rente à cruz. Muitas das visitas revelam o aspeto de alguém que está diante de uma sepultura num filme. O respeito é pose. E silêncio. É lindo acelerar pelo crepúsculo e depois passar pelo alto das colinas. Por vezes, alguém nos convida para irmos jantar a um restaurante de cozinha moderna, desses tipo estrela Michelin. E nós lá vamos, todos lampeiros, tentar entrar a pés juntos na modernidade. Mas, quando começamos a comer, apercebemo-nos que a denominada nova cozinha portuguesa não passa de má cozinha francesa. E até dá vontade de rir ver estes novos camponeses de reações lentas a comerem aquilo que não gostam com cara de quem está de dieta rigorosa. Fui com o pai à aldeia. A estrada pavimentada há apenas alguns meses já estava a esboroar-se. Saiu junto a uma vinha herdada dos seus pais e pôs-se a falar sozinho. Uma rajada de vento levou a sua voz para longe. E a sua voz começou a correr de modo imparável pelos caminhos antigos. Teve um ataque de despersonalização, um ataque de pânico motivado pelo facto de pensar que não tinha a mínima possibilidade de ser ajudado. Por vezes tem tonturas. O médico deu-lhe um tranquilizante e uma injeção intramuscular. O meu pai (adotivo) olha para mim e eu sei o que está a pensar. A vida é tédio e depois ainda mais tédio. “A província”, disse-me à bocado, “é governada por gente idiota, transformando bonitas regiões numa charada, num espetáculo de variedades, pejadas de nichos de Nossas Senhoras de Fátima, capelas, rotundas, piscinas desertas, praças graníticas cheias de repuxos de água, capelas, coretos e feiras de fumeiro e de outras idiossincrasias de origem duvidosa. Os antigos santuários dos Velhos Deuses foram profanados por gente sem préstimo, nem cultura. E chamam a isto modernidade e progresso.” Parou então de falar. E depois de algum silêncio disse ainda: “Cuidado com o que desejas.” Ele vive como um asceta. Muitas partes dos dias são como buracos negros. O pai diz que agora tudo lhe dói. A luz. O dia. A noite. O buraco fantasma do tempo a passar. Está sempre à espera. Sem estar à espera. Não sabe o que tem de esperar. Virou-se na direção do pelourinho e disse bem alto: “Os merdosos nunca mais são derrotados. Esse é o nosso mal. A nossa catástrofe.” Como o sol já vai baixo no horizonte, as sombras são mais compridas. O povoado brilha gentilmente com a luz do sol. Por vezes, a província não parece assim um sítio tão desesperadamente mau para viver. A charada parece autêntica. Paira no ar qualquer coisa de histérico. O pai tenta que vá para longe. Prevê-se chuva para amanhã. As perturbações por aqui também acontecem. Mas são pequenas. São como ligeiros sismos, apenas detetáveis com sismógrafos. O pai quis ir à missa. E aqui estamos num estado de espírito muito semelhante ao do tédio. A assembleia canta, não há coro porque o maestro está doente e uma das vozes principais está de férias, os homens cantam, as mulheres cantam, mas em vez de o fazerem em conjunto, parece que cantam ao desafio. O sacerdote enverga paramentos bordados num tecido branco que não parece algodão. No meio da cantilena, uma figura sobressai, à primeira vista pareceu-me um rapaz um pouco efeminado, pois também os há na província, mas, na verdade, era uma mulher, uma mulher jovem, com um aspeto nada mau, por sinal. A sensação de cansaço aumentou. O pai nem se levanta, nem se ajoelha, permanece sentado. No órgão, o substituto do maestro, toca acordes de Mendelssohn. Muitos dos fiéis declaram que se querem entregar nas mãos de Deus. Não sei é se o Criador lhas estenderá. Muitas pessoas esperam lá fora para cumprimentar o pai. Ele então vai até junto de um canteiro e arranca uma flor de um modo como se estivesse a pedir desculpa e depois coloca-a na lapela. O pai a filosofar: “Quão pequena é a parte que as pessoas têm na vida das outras. E quão pouco sabemos delas!” Ou seja, o pai estava comovido e impressionado, fazendo que todos sentissem que estava a encontrar-se com todos, ou com a maioria deles. Olho para o lado e reparo num pequeno retângulo de relva que ainda não aqueceu, perlada de orvalho, e na luz do Sol onde uma borboleta acastanhada, com um ar descabelado, se agarra à sebe e bate as asas já com pouca energia. Ao longe estão os bosques onde as manchas verdes se estendem a perder de vista.

João Madureira

 

05
Jan26

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

760 - Pérolas e Diamantes: A fantasia da província

 

Todos os projetos ficam pendurados nas palavras com que foram construídos. E depois, os que fazem parte das forças vivas da cidade, aparecem nos eventos manhosos de sempre, nas galas beneficentes, todos com os habituais sorrisos forçados. Os pais a fazerem de filhos pródigos e os filhos a fazerem de pais empenhados. Tudo gente proficiente. Tudo histórias que não fazem sentido nenhum. Tudo contos e ditos circulares. Conversa de surdos. As histórias da província são monótonas e descomplicadas. Pequenas. Na província há sempre alguém a seguir-nos. E os provincianos a gastar os dias e a acender as lareiras. A observar as crianças nos parques. A mexer com pauzinhos nas estrelinhas da memória. Terraços. Telhados. E manhãs de névoa. Temperaturas a cair. O frio a invadir as ruas e as casas.  E o Natal. Se há coisa provinciana, é o Natal. As decorações. A religião de boca em boca. As tradições seculares. Todos sentados em bancos, a abrir e a fechar os olhos. A rezar. A comungar. A comer. A beber. Uns a fazer planos para ir e não voltar. E outros a fazer planos para voltar e não ir. Por aqui nunca se sabe se é o bonecreiro que faz mexer o fantoche ou o fantoche que faz mexer o bonecreiro. O tom é sempre contemplativo. Todos têm um mentor. Até os mentores. A província é como um riacho cheio de banalidades e conversas de circunstância. A política é vendida pelos que estão no poder, e os seus irmãos siameses que estão na oposição, ora a retalho, ora por atacado. Eles tem o monopólio até das pequenas coisas. Tudo devidamente controlado, as empreitadas, os transportes, as infraestruturas, as licenças, as empresas ganhadoras de concursos e as suas concorrentes, os testas de ferro, os administradores e as famílias influentes. Até compram críticas jornalísticas para servirem de desculpa,  ou de promoção. Feitas as contas, não interessa se é verdade ou não. O que importa é que as pessoas acreditem. Na província todos são derrotados. Mesmo os que triunfam. A província é a sombra da capital. E isso é sempre desagradável. E é ainda mais desagradável constatar que algumas sombras que aqui nasceram ficaram enormes e chegaram ao poder para servirem de sombras aos projetores de luz da capital. Esses cleptomaníacos que sorriem como as hienas com cio. Os mais avisados daqueles que regressam à província ficam satisfeitos ao conseguirem não pensar em nada. Por vezes entretêm-se a ver a dança das mariposas ou a caçar mosquitos com mata-insetos de plástico. Esses que regressam andam pelas suas casas atravancadas de móveis antiquados, tomam duches sob a luz branca que lhes entra pela janela da varanda, fumam, os que continuam a fumar, deitam-se de bruços na cama, andam descalços pelo chão das divisões, poupam a energia, resistem às novidades requentadas, procuram as ruas mal iluminadas onde se sente mais o silêncio e murmuram monólogos, muitas vezes inspirados no “Malhadinhas”. Esperam então que as manhãs cresçam no céu. E sorriem. A força e as suas fontes são ilusórias. Daqui vê-se tudo, até o vazio profundo e impenetrável do universo. A boa vida na província é uma fantasia. Provavelmente a província também é uma fantasia. Ai esta excitação da deslealdade! A província já ultrapassou o ponto mais alto da sua revolta, sem sair do lugar. Chega sempre o momento em que temos vontade de voltar para casa. Apesar de podermos estar a milhares de quilómetros de distância. A oportunidade, e o oportunismo, contrapõem-se às traições mais antigas. Ai esta excitação da traição! A apatia ataca a qualquer hora do dia. As coisas sem importância passam a ser bastante importantes, sem darmos conta. Alguns dos que dizem dedicar-se à escrita ainda costumam passar certos períodos de tempo num quase semi-isolamento, declarando que não são capazes de arranjar uma desculpa convincente para o evitar. Depois amenizam o sofrimento autoinfligido declarando que dessa forma conseguem abrandar o seu trabalho mais sério. Apesar de estarem reformados, afirmam que não conseguem fechar definitivamente a sua caixa criativa. Sentem ainda essa sua excitação obscura. Não conseguem controlar a sua irrupção ou inspiração literária. Continuam os lutadores de sempre, desafiando o tempo e o modo, no seu tom ameno. Voam a baixa altitude. Na província tem de ser assim. Nas aldeias, as estradas estão praticamente desertas, os habitantes parecem ter sido varridos por uma revolução fora de tempo ou mesmo por um acidente nuclear.

João Madureira

29
Dez25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

Memórias do Big Bang (I)

 

Vim a Montalegre porque me disseram que o meu avô viveu aqui.

 

Uma coisa é inequívoca: a perda. Estamos sempre a perder. Todos deslizamos pela serra abaixo. A sabedoria reside na nossa capacidade para amortecer o movimento da queda. Para desacelerar o mundo. As localidades são textos. Textos que se repetem e que sobrevivem. Ou morrem. Sobre os túmulos dos mortos cresce a erva e a dor da sua ausência some-se com o tempo. As coisas que definem, fazem-nos brilhar.

 

Vencer o esquecimento é apenas privilégio de alguns. Os destinos enganam as almas. Temos de introduzir na arte os elementos da inquietação entusiástica. Temos de agradecer a quem nos ajudou no início da criação. A entrega é sempre necessária para se cumprir a arte. A arte, apesar de nascer com cada um, dá muito trabalho a desenvolver.

 

Dizem os físicos que, muito provavelmente, o nosso universo é constituído por mais de 100 mil milhões de galáxias, cada uma delas com 100 mil milhões de estrelas.

 

Uma coisa temos como certa: neste planeta medrou vida.

 

É da lei dos milagres que uma forma de vida como a nossa tenha desenvolvido a capacidade, e a audácia, de especular sobre a origem disto tudo. Arranjámos um modelo e uma explicação. Os humanos têm a necessidade de maravilhar o inexplicável.

 

O Big Bang é um desejo científico.

 

A ciência avançou quando os mais corajosos dos corajosos questionaram a sua própria mitologia. Isto, digo-vos eu, não é ficção científica de aldeia, tão ao gosto do meu pai.

 

Somos compostos por 61% de oxigénio, um gás inodoro. Mas não voamos por aí fora porque praticamente todo oxigénio está unido ao hidrogénio (10%), para formar a água. São precisos sete mil milhões de mil milhões de mil milhões de átomos para produzir uma pessoa. O ADN existe apenas com uma finalidade: criar mais ADN. O nosso ADN é simplesmente um manual de instruções para fazer uma pessoa específica. Todos os seres humanos partilham 99,9% do seu ADN. Mas não há dois seres humanos iguais. Somos o produto de três mil milhões de anos de ajustes evolucionários. Começámos a nossa viagem através da História como pontos unicelulares a flutuar em mares quentes e pouco profundos. Tudo, desde essa altura, mais não tem sido do que um interessante e longo acidente. Mas glorioso.

 

Vivo numa cidade grande que já me parece pequena, num apartamento de um velho edifício, rodeado de lojas de chineses, indianos e paquistaneses. Sou um físico atómico que faz investigação tão específica que, muitas vezes, me perco no meio dos quantas e do sentido da vida. Depois do doutoramento, sustento-me com uma bolsa de pós-doutoramento. Quando chegar o depois, logo se verá. Pertenço à geração dos mileuristas.  Por causa da calvície, rapei o cabelo que me resta e deixei crescer a barba. Pareço um judeu. Um magro e alto judeu errante. Eu sou a minha própria diáspora. Parece que a Física é coisa de judeus. Ou, provavelmente, serei árabe. O meu coração é árabe. A mim tanto se me dá. Por causa do meu aspeto, estive retido num aeroporto dos EUA para averiguações. O 11 de Setembro definiu uma nova paranoia securitária. Confundirem um transmontano com um árabe não deixa de ter piada, até porque me assemelho de igual modo com um judeu sefardita. O humor, e o desamor, está espalhado pelo mundo como uma praga. Vivo em Lisboa. Mas já morei em Nova Iorque. Nasci em Névoa, mas sou cidadão do mundo. Diz o meu pai que em pequeno eu era um pouco ingénuo e mesmo frágil, mas, ao contrário do Papa Ratzinger, não foi por ler muito O Principezinho (L Princepico, em Mirandês). Também nunca fui menino do coro, ao contrário do meu pai. Mas foi toleima que rápido lhe passou. Cresceu muito e depressa. O seu acelerador de partículas foi o 25 de Abril.

 

Como diz a expressão latina: Sua cuique persona (a cada um a sua máscara). Não é bom aproximarmo-nos dos infelizes, especialmente se formos um deles.

 

O meu pai também aqui viveu. Diz que esta é a sua verdadeira terra, apesar de ter nascido em Névoa. Foi em Montalegre que se sentiu proprietário de um castelo. Lembra-se de trebelhar entre as torres com os automóveis de tração que ele próprio construía aproveitando os carrinhos de linhas da sua mãe. Com mais uma rodinha de sabão, um elástico e um palito de carvalho construía um carro que depois de lhe dar ao elástico se movia autonomamente.

 

O meu pai nasceu em 1958, no ano em que o grande poeta Mário Cesariny ai meu deus de Vasconcelos (um verdadeiro caso de prestidigitação genial), era já quarentão e, mesmo vigiado e perseguido pela polícia política, atirou o seu folheto às paredes como um grito de euforia.

 

 

22
Dez25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

759 - Pérolas e Diamantes: A excitação da província

 

A lealdade é sempre clientelar. O território social é um santuário. Cada um tem a sua própria vocação. Mas isso não faz a diferença. E as certezas apenas incomodam. A elegância sem esforço é uma coisa de sábios. A província, para os filhos libertados dela, é uma excitação. Eles sabem que quem não veste marca não tem estilo. As boas ideias podem ser tretas. E as tretas boas ideias. Depois o veneno, desde que bem doseado, pode fazer a sua parte. Cada um tem as suas batalhas. Adaptar-se ou morrer. Por isso é que a província está morta. É uma múmia ainda mais antiga do que as roubadas por franceses e ingleses no Antigo Egipto. O seu feitio é falso. Melhor seria aceitar o defeito. As intenções progressistas na província são manifestamente antiprogressistas. Os privilegiados são broncos, todos novos-ricos. O pragmatismo é tema de conversa. É corrupção. O turismo tudo justifica e tudo encobre. Olhem lá para ele, o progresso, tão bonitinho e a justificar as manobras das folhas de Excel. Não se aceitam pedidos, nem se devolvem as folhas. E lá estão as vernissages comemorativas. Os solícitos estudantes das escolas profissionais atrás das mesas de banquete e as mesas cobertas com toalhas brancas de linho, copos de vinho tinto e branco, sumos de laranja, cola, garrafas de vinho do Porto, uísque, gim, vodca, baldes de gelo, copos, salgados e insossos, miniaturas de pastéis e bolos, fatias de presunto, empadas fatiadas, jornalistas, chefes disto e daquilo, presidentes de tudo e mais alguma coisa, artistas daquilo e disto, todos mal vestidos e a cheirarem a água de colónia de linha branca. Computadores portáteis, projetores e ecrãs. E sorrisos. Os sorrisos mais parvos do mundo. E depois lá está sempre o presidente da Câmara, por vezes hirto, outras sorridente, de fato azul-escuro estruturado e gravata cinzenta, a fazer pandã com a personalidade, na sua expressão fixa, ou ligeiramente blasé, de solenidade pensativa. Alguém da oposição comenta o facto, entre sorrisinhos cínicos e alarves, não fosse ele vinho da mesma pipa, “a pensar morreu um burro”. E os assessores, parecendo mais presidentes que os próprios presidentes, estão sempre com um olho posto no iPhone e outro no seu chefe. A província, observada de longe, mostra sempre a sua melhor face. Também é linda de contemplar vista do ar ou em voo noturno. Ou em revistas publicitárias onde se identificam as suas riquezas ocultas, os seus dorsais pré-históricos e as suas brilhantes luzes do entardecer. Depois, lá pela meia-noite, a hora da Cinderela, ela, a província, começa a escorrer solidão. Uns romantizam a pobreza. Outros dão-lhe estatuto divino. A indiferença, muitas vezes, quer esconder a dor num sítio onde não é capaz. Na província, o aroma que mais se inala é o da neutralização e o do jasmim. Mas quando o nosso partido triunfa lá vamos nós tentar beber o champanhe mais a sua iridescência. O poder a borbulhar. E nós a beber o vinho, mais as suas bolinhas gaseificadas e depois a arrotar. Lá fora a cidade está a submergir, a desmoronar-se. E por aí andam uns e outros a verem os espaços destinados para isto e para aquilo. Os burguesitos provincianos continuam a decorar as salas de estar com cortinados estampados com flores, a arrumarem os pires e as chávenas e a substituírem os ossos de plástico de cor púrpura aos seus belíssimos cadelinhos que se deitam a dormir a sesta antes de irem passear, urinar e defecar, nos espaços verdes espalhados pela cidade florida. Eles, ou elas, ou ambos, beberricam o chá feito de saquetas com sabor a limão ou a outra coisa tipo flor de estufa. Fazem tudo com gentileza, humanos e animais. Provavelmente não se divertem muito. Alguns até fazem sorrir a sua tristeza, mas todos cumprem com o seu dever. Saem a horas certas de casa, passeiam a horas certas nos jardins. Antigamente iam aos bailes, com bandas, acompanhantes e tudo o mais. As raparigas iam aos pares à casa de banho e depois ficavam no meio de uma data de gente à espera que lhes pedissem para dançar. E esperavam que a tira do sutiã ainda estivesse atrás da tira do vestido. Preocupavam-se com coisas dessas. Bons tempos. Essas espantosas criaturas eram algo entre a Branca de Neve e um animal selvagem. Feras provincianas excitadas.

João Madureira

15
Dez25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

758 - Pérolas e Diamantes: Põe-te a andar, põe-te a andar...

 

“Põe-te a andar, põe-te a andar João, já vens tarde para almoçar!” “Mas eu só quero petiscar.” “Tu queres é cear.” “Como ainda é cedo, podes jantar.” “Mas eu só quero merendar.” “Come aquilo que te põem no prato e cala-te.” “Prefiro jejuar.” “Preferes pão e água ou pão e vinho?” “Prefiro a hóstia consagrada.” “Que Deus te apanhe confessado. Senão…” “Senão o quê? Sou um santo.” “Sim, um santo de pau carunchoso.” “Viste a andorinha a fazer o ninho? Viste a raposa a entrar na toca do lobo? Grasnam os patos. E os pavões armam a cauda.” “Não te apoquentes João, que eu vou ali e já venho. Os gnomos continuam escondidos nas ervas altas. A Lua cheia brilha. Até a noite parece dia. Lá ao longe lampejam os pirilampos na tela da escuridão. Eles, os fariseus, sempre a brincar com os sentimentos das pessoas. Sempre a brincar ao faz de conta.” “Vá lá, avó, não me entretenhas. A realidade procede, por iniciativa própria, a algumas alterações. Alguém me está a ouvir do lado de lá? O pão saído do forno cheira tão bem! Os homens estão sentados à volta da fogueira. Estás a ouvir-me, avó? Conta-me uma história. És boa nisso!” “Eu vou para onde o teu sonho me manda.” “O enquadramento da história é mais importante do que a história. Não sei se estou a sonhar ou acordado.” “Isso interessa-te?” “Tenho algum dinheiro e com ele compro livros. Outros escrevo-os. As histórias nunca acabam.” “Quem te ensinou a escrevê-los?” “A necessidade.” “Andas assim tão necessitado?” “É bonito quando olhas para o céu e não vês lá nada. Só azul. Há vários azuis…” “Não desconverses, João Augusto! Tu gostas muito de falar. Queres que te dê uma moeda para te calares?” “Andar com alguma segurança pelo mundo exige um determinado domínio da linguagem. Alguma eloquência.” “Nunca mais chove. As terras estão mais secas do que a folha de bacalhau que está pendurada na cozinha.” “Queres que rezemos para que chova?” “Nem que fosse uma índia lá das Américas. Não brinques comigo.” “Ando à procura do sentido das coisas.” “Como é que vai a vida?” “Ando a habituar-me. O peso do tempo faz-me pensar que tu ainda estás viva.” “Dormiste bem? Está na hora de matares o bicho.” “Não tenho fome, avó.” “Isso não interessa. Depois quem ouve a tua mãe sou eu. Ela tem cá um feitio! Nem parece minha filha.” “Ontem fui apanhar amoras e groselhas. Não eram nada más. Bem, as groselhas eram amargas, mas, misturadas com as amoras doces, até se comeram com agrado. O pai pescou alguns peixes no rio. À noite mostrou-me a pele de uma cobra.” “Tu não tens medo dessas coisas, pois não, Joãozinho?” “Sim, tenho.” “Escuto uma tempestade lá fora. Relâmpagos e trovões. Ainda está longe. Santa Bárbara bendita…” “Bárbara é como se chama a irmã do pai. Ela é tudo menos Santa.” “Não é bonito dizeres essas coisas. É tua tia.” “Avó, acreditas na maldade intrínseca do ser humano?” “Só pela metade. Também é intrinsecamente bom. Quando pode e o deixam.” “Será que a tempestade deu cabo das amoras?” “Amanhã logo veremos. Vou atiçar o lume e assar uma chouriça no meio de uma folha de couve. Amanhã posso matar um coelho.” “Eu não gosto de coelho.” “Como está a tua mãe?” “Triste.” “E o teu pai?” “Triste.” “Vou acender a candeia. Já faz escuro.” “Será que a tua candeia tem dentro um génio? Podes pedir-lhe um desejo.” “Os génios das lâmpadas não atendem a pedidos de gente velha.” “Vou ler um bocado. Os livros sabem-me bem.” “Acorda, estás a ressonar. Não disseste que tinhas muita vontade de ler?” “Também gosto muito de falar contigo.” “Sinto o sossego da manhã e o rumor do rio. Tenho saudades de estar viva.” “E eu tenho saudades tuas. Muitas. Muitas. Muitas. Por vezes olho para o céu e deixo que a chuva me caia sobre o rosto. Gosto de pensar que estás espalhada no meio delas. Ainda me lembro do passarinho que deixei morrer dentro da gaiola. Do seu olhar de pânico. Apetece-me chorar, avó. Leio para não me sentir só.” “E as pessoas não te fazem companhia?” “Em relação à maioria, prefiro os livros. A vida lá contada é mais intensa e real do que a própria realidade.” “Sempre foste um exagerado, meu neto!” “Esta estrada ampla vai dar a nenhures. Junto ao rio está uma canoa. Parece que está ali há séculos, cheia de folhas, terra e teias de aranha. Mas ainda flutua.” “Queres ir brincar nela? Vai lá que eu volto já. Cuidado, não te deixes atropelar pelas histórias.”

João Madureira

 

08
Dez25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

757 - Pérolas e Diamantes: Alguém brinca sempre connosco

 

Sim, a província também é o lugar das casas de campo e o cenário preferido dos escritores de livros infantis, com cavalos, burros,  bezerros, bois, cabras, ovelhas, coelhos, galinhas, porcos e pastores. E de velhos professores que dormem com vacas. E dos duendes. E das bruxas. As bruxas vivem na província, em cabanas com grandes lareiras e potes sempre cheios de mistelas a cozer ao lume. Já as fadas habitam nas mansões das cidades, protegidas por muros altos e vidros duplos, aquecidas por lindos aparelhos de ar condicionado. Os poderes sobrenaturais são agora movidos a tecnologia sofisticada. Antigamente exigiam anos de trabalho. Atualmente basta ir à internet e visualizar um tutorial. Passamos pela velha estação dos comboios que presentemente é um centro cultural para frequentadores da universidade sénior, filhos e netos. Bem, ouve lá, nada de gracejos ambíguos, observações sarcásticas, sugestões oblíquas ou piadas deliciosas. Ninguém te vai perceber. Podes até ser vago, mas nunca tímido. Ainda és temente a Deus? Vá lá, sê prático. Não há problema nenhum em resistir às tentações, às coisas novas da província, sempre iguais em todos os lados, restaurantes, centros comerciais, supermercados, lojas de pronto a vestir, pizarias, macdonalds, etc. A pobreza quase nos destruiu a identidade. Mas estou em crer que o que ela não conseguiu eliminar, a prosperidade acabará por atingir. As nossas euforias terminam no dia seguinte, quando chegam as depressões. Aos grandes períodos de tristeza e melancolia seguem-se estranhas erupções de alegria. E nós ficamos ali, no meio. No meio de tudo. No meio da ponte. No meio da estrada. No meio do progresso. No meio de um livro. No meio de um discurso, ou de um poema, ou de um livro de História, ou de um livro de histórias. Sempre partículas minúsculas, secundárias. Sempre partículas. Podemos divertir, instruir, nutrir, mas nunca podemos ser aceites. Quando muito tolerados. Estamos sempre imersos em desconfiança, intranquilidade, antagonismos. Cada vez é mais esgotante a tarefa de nos vestirmos, sobretudo o calçar as meias. E também o vestir as cuecas. Custa-nos levantar as pernas. As unhas são cortadas pelas mulheres, sentadas no chão. Eles deixam crescer a barba porque quando a cortam ficam com a pele cheia de borbulhas pequenas e de pequenos cortes. Olha-se lá para fora e veem-se os jardineiros a tratar das flores. Eles, os que observam, gostam de arrancar as plantas do jardim. E de mijar nos amores-perfeitos. Nunca apreciaram estas flores. Consideram que as suas cores garridas são uma mentira da natureza. Eles nunca gostaram de jardins, pois acham que têm tudo a ver com o poder. A sua magnificência ri-se da penúria. Pensam na comida com tristeza. A sua alimentação é um sacrifício diário, folhas de alface, sardinhas em lata, sementes e outras coisas pelo estilo. E as conversas também são dececionantes, tretas sobre casas, vizinhos, cães e gatos e filhos e sobrinhos e netos e carros. E também sobre restaurantes. E sobre pontos de vista. E sobre o melhor método para fazer comparações. Hoje compara-se tudo. Até aquilo que não tem comparação. Parece que as coisas estão infinitamente melhores do que antigamente. Mas parece que isso não chega. A província continua um sítio seguro. Mas as rotinas por aqui são tremendas. E não se pode passar sem elas. Só falta organizar danças africanas para provocar a chuva, dado que realizar procissões é tarefa impossível, pois já não há rapaziada suficiente para pegar nos andores. É tudo gente vulgar, mas já não há palonços como antigamente. Noutros tempos, a vida por cá era uma charada. Agora assemelha-se a uma anti-charada. Mas continua a ser um pouco perturbador tudo isto. E tanto faz que se olhe de modo cínico ou de forma séria. O valor é idêntico. Vai dar tudo ao mesmo. Aí estão os brinquedos, a voz baixa, os empregados, os cozinheiros a orientarem o processo, a prepararem as bebidas. A intriga. Há gente que tem sensibilidade até para preparar os cafés. Os impacientes estalam os dedos. Os outros analisam. A impaciência. A sua exatidão. A discrição dos empregados é muito importante. A discrição é o princípio fundamental dos empregados. Alguém brinca sempre. Sempre. Connosco.

João Madureira

 

01
Dez25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

756 - Pérolas e Diamantes: Dizem que...

 

 

Dizem que a história não se repete, mas eu desconfio. E também asseguram que nos ensina. Eu também duvido disso. Mas. O que sei é que a desigualdade provoca instabilidade. E que os demagogos tiram partido da liberdade de expressão para roubarem, ou se afirmarem como tiranos. Dependendo da conjuntura. Também sei que, através da democracia, alguns líderes e partidos alegam serem os representantes diretos da vontade do povo. Mas não é verdade. A democracia representativa é uma espécie de ficção teatral. Eles representam a peça que escreveram, nós pagamos o bilhete e, no fim, batemos palmas. Tudo isto entre os ciclos eleitorais.

Intervalo.

O povo português é triste e assustado. Mas continua a lutar contra a derrota e o fracasso. A verdade é que este país não interessa a ninguém. O mundo muda. Portugal não. É triste. Mas a verdade não nos serve para nada. Andam-nos sempre a limar as arestas, mas continuamos quadrados como sempre fomos. Andam-nos sempre a repetir que devemos nivelar a indignação. As guerras ganham-se ou perdem-se. Mas nós jogamos sempre para o empate. Somos sempre o carro vassoura da volta do desenvolvimento. Sempre desconsolados. Mas sempre atentos aos ciclistas das equipes líderes do tour, ou da vuelta.

De que cor são os políticos? Cor de burro quando foge. Rio-me. Quando nos rimos não estamos tão sozinhos. Nem tão certos de estarmos enganados.

O desnorteio do mundo é desconcertante. Redundante. E o O’Neill a dar-nos música. Abaixo a literatice dos literatos alimentados pela literatura pedante e rebuscada. E nós a labutarmos nas circunstâncias. Na preguiça de todos os dias. Quando as palavras saltam da folha é difícil de as apanhar. Passamos a vida a fazer fretes. E para quê, pergunto eu? E nós nem assim nem assado. Há que lutar na hora certa. Senão lá se vai a eficácia. Ser da sinistra e ateu continua a ser um dislate. Ou volta a sê-lo. O que é ainda mais preocupante. E o burro a tirar água da nora. Vamos lá então fazer mais um intervalo nesta arte menor de ser videirinho.

E eu a querer pensar numa visita à Capela Sistina para ver o seu teto pintado por Miguel Ângelo e toda aquela cristandade colossal enfiada nos cueirinhos censórios.

No princípio era o Verbo, escreveu São João, com fiel certeza, mas eu estou em crer que não. Será que o Verbo era o Big Bang?

A catequese já lá vai. Agora são os professores de Português que talham nas escolas “Os Maias” em capítulos, personagens, ações, regras gramaticais, regras estilísticas e mais não sei o quê. Dói-me o coração. Chega um homem a reformado para isto! Antes fosse para aquilo. Este país é como um sofá-cama. Não é bem um sofá. E também não é lá grande cama.

A matreirice é muito sedutora.

Mas o nosso destino é sempre o da subalternidade.

Os portugueses descobriram há muito tempo o elixir da felicidade. Quando vencidos, ao fim de uma semana já esqueceram tudo. Quando obtêm uma vitória, registam-na para a eternidade.

Vivam os galos de capoeira.

Portugal é bom a fazer serenatas aos mandões deste mundo. Escolhem-nos sempre para lugares de chefia onde não se decide nada. Nisso os portugueses são exímios, em armar-se até aos dentes de sorrisos. Vá lá, deixem soar as campainhas. É com elas que se chamam os criados.

Nós somos uma nação vírgula.

O orgulho pátrio sobreaqueceu tanto que acabou por esturricar. De um putativo império colonial passámos a uma irrelevância retangular. Nós somos as Berlengas da Europa. Os nossos raciocínios são feitos de dogmas, não de ideias. Estamos sempre habituados a tudo e prontos a nada. A nada e mais alguma coisa. Temos até orgulho na nossa irrelevância.

Os sons da nossa identidade são agora mais nervosos. E os nossos egrégios avós estão sentados na cadeira do crepúsculo. Já fomos uma nação ponto de interrogação. Agora, não sei se vos disse, somos uma nação vírgula. E nós na província a atravessar as giestas. E as causas dos outros como se fossem nossas. As mães na cozinha e os pais na taberna.

Tantos silêncios sobrepostos.

E os pobres remediados a fazerem dieta e a não conseguirem emagrecer. Os da província a pensarem em ir para a capital e os da capital a pensarem rumar caras à província.

A verdade é que a gente se arredonda. Que vergonha!

João Madureira

24
Nov25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

755 - Pérolas e Diamantes: A monotonia da província

 

A monotonia da província, à falta de melhor, acaba por ser terapêutica. É bom interromper o stresse a que estávamos habituados, mas a modinho, para não sofrermos um choque. Mudanças súbitas podem matar. É também agradável ver alguns semijovens elegantemente vestidos que encarnam perfeitamente o papel de presidentes de câmara ou de coisas afins, inaugurando coisas pretensamente esculpidas em metal na coroa dos plintos. Depois cai o pano e aparecem aquelas formas bizarras que espantam as forças vivas da cidade, que, mesmo assim, batem palmas de forma esfuziante, não vá o pobre escultor, centro das atenções durante alguns segundos, sentir-se menosprezado. Ele e a sua arte. Alguém discursa, sem saber bem o quê. E todos pensam, inclusive o palrante, que passariam bem sem ouvir boa parte de tudo aquilo. E dá um certo conforto verificar que em todas as cerimónias, por mais insignificantes ou importantes que sejam, encontramos sempre presidentes e comandantes dos bombeiros. E também o senhor abade, com olhos de goraz, e o comandante da tropa fandanga dos seguidores e discípulos de Baden Powell, com os seus ridículos calções, meias e chapéus. Sempre. Finalmente, acabamos todos por reconhecer que aquilo que puseram por cima do plinto, não sendo um grande exemplo de arte figurativa, é um excitante passo em frente para a nossa cidade. A arte é sempre bem-vinda. E digo isto sem qualquer tipo de ironia. Estes eventos fazem parte dos muitos dias mágicos que se passam na província. Por aqui, toda a gente tem uma ideia de quem são os outros, o que ajuda nos contactos, na conversa e na aversão surda e muda que partilham, enquanto se passeiam pelo meio dos salgadinhos, dos bolinhos, das miniaturas dos pastéis de Chaves e solicitam uma bebida ao barman. E não vale a pena evidenciar perplexidade, mesmo de forma ligeira e breve. Por aqui, até a hipocrisia é respeitada. Tudo o que é antigo parece sempre bom. E por aqui andamos de carros elétricos ou de bicicletas motorizadas a passear pelas ruínas dos castelos, pelas ruínas dos fortes, pelas ruínas dos moinhos, pelas ruínas dos castros, pelas ruínas das calçadas romanas, pelas ruínas das escolas primárias, pelas ruínas das igrejas, pelas ruínas das pontes, pelas ruínas dos mosteiros, pelas ruínas das fábricas, pelas ruínas das telheiras, pelas ruínas dos fornos do povo. E pelos outeiros cónicos cobertos de ervas e vigiados por árvores e arbustos amblíopes. E por tojos e urzes e giestas e carquejas. E por montes de escórias de minas e por estradas solitárias e por rios de águas vagarosas. E tudo isto feito em nome do progresso e da eficiência. O nosso futuro é coxo mas avança. Pode ser melancólico, mas avança. Dizem que agora tudo é discutível. Provavelmente sim, mas tudo o que é discutível não passa de uma treta, de um puro disparate. As dúvidas esclarecem tudo. O nosso subdesenvolvimento não é apenas culpa da província. Ainda está por descobrir quem foi o génio que teve a grande ideia de desmantelar as vias férreas do interior. A esse deviam levá-lo a respirar o ar puro do Larouco, em pleno inverno, e deixarem-no a viver numa caverna. Por aqui ainda andam os filhos dos povoadores. Os netos regressaram às urbes progressistas. Isto por cá até pode ser bom para escrever poesia campestre, mas não serve para mais nada. As vistas são nítidas, os pequenos vales sinuosos, os arbustos e as pequenas árvores robustas, as rochas cinzentas, os montes iluminados pela luz do sol e o verde denso, mas no território não vive quase ninguém. Agora está tudo na moda, até o passar fome. A fome era uma coisa de pobres. Agora os ricos passam fome porque querem e fazem-no com muito estilo e rigor. De forma científica e com a ajuda imprescindível da matemática. A obesidade é uma coisa de pobres. Inverteram-se os papéis. Deus já não pode valer aos pobres pois pesam demasiado. Até para o Serviço Nacional de Saúde. Somos vítimas de toda a espécie de ingratidão. Uns engordam como porcos e outros eliminam a gordura como se fosse uma coisa fascista, ou proletária ou marxista-leninista. Sim, a província também é o lugar onde é possível apresentar um livro de fotografias, numa cerimónia onde não há livros, pois estão nos calabouços camarários destinados a serem distribuídos aos distintos parranos que nos visitam, onde o senhor presidente da câmara fala com cara de entendido. E todos batem palmas. Até o artista. Dizem que a realidade supera a ficção. E é bem verdade. Até por cá. Sim, a província é isto mesmo. E muito mais.   

João Madureira

 

 

17
Nov25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

754 - Pérolas e Diamantes: Apesar de...

 

Apesar de se olhar para as coisas com olhos de ver é necessário ter o máximo de cuidado com o imprevisível. Depois do gesto magnânimo, devemos deixar transparecer um certo toque de ignorância. Quando se volta para a província é ajuizado cultivar o jardim e evitar olhar para a sebe dos outros. E ir por aí fora mirar as coisas, olhar para as pessoas, fazer pequenas viagens pelas aldeias, jornadas privadas de descoberta. De certeza que havemos de descobrir muitas mudanças, umas boas e outras más, e até encontrar lugares onde as mudanças nunca chegam. Também é avisado cada um livrar-se de convites indesejáveis. Por vezes mostram-nos fotografias a sépia de gente importante que já ninguém conhece. Todos estamos tão acostumados a distribuir amabilidade e benevolência que qualquer tipo de confronto de baixa intensidade nos perturba bastante. A boa vontade, na província, onde todos se conhecem, pode causar aversão. É frequente andarmos com o olhar para a frente e para trás a ver se o conseguimos pousar nalgum lado que não seja notado ou que não pretenda incomodar. Não vale a pena pensar no tempo que já passou. A saudade portuguesa está a perder a sua autenticidade. A província é um lugar, ou, pelo menos, parece. E quando encontramos os velhos amigos, depois de olharmos gravemente uns para os outros, todos bebemos fazendo floreados. Logo depois começa o relaxamento. E enquanto vem outro copo, começa-se a falar de política e, durante algum tempo, passam-se bons momentos a ver quem consegue falar o pior possível do partido que está no governo e na câmara municipal e na junta de freguesia. E também dos sindicatos, do sistema educativo, do serviço nacional de saúde, da justiça, da segurança social, da televisão, dos negros e dos árabes, dos jovens e dos idosos, dos homossexuais, etc. Claro que tudo isso pode parecer pouco decente, mas é agradável. Claro que todos se sentem uma pequena fraude, mas uma fraude que se denuncia a si própria é bastante mais credível do que uma fraude escondida. Falar contra si próprio é difícil, mas continua a ser muito admirado, mesmo na província. E, depois de ainda mais um copo, que eufemisticamente se chama digestivo, ou aperitivo, conforme estamos antes ou depois do repasto, os espíritos tendem a animar-se mais um pouco. Entretanto, alguém começa a sugerir distintos lugares para se visitar. E, indistintamente, o resto da rapaziada amiga volta a discutir e a trocar recordações, sobre eles e sobre alguns outros de que se lembram melhor. E agora algo de completamente diferente. As estradas portuguesas são coisas estranhas. Servem para trazer poucos até à província e para levarem quase todos até ao lado de lá. Onde quase todos vivem. Em territórios pequenos e bem delimitados, bem regados por dinheiros públicos que quase ninguém contesta. Entre as colinas e os rios, entre o bom-senso e a paródia, entre o deve e o haver, entre o nada e coisa nenhuma. Os bonzos da União Europeia tudo fizeram para uniformizarem as maçãs, a carne do bife de bovino, caprino, ovino, avícola e suíno, a dimensão das ereções e dos preservativos e das vaginações e dos pneus dos carros e da abertura das bocas perante o espanto e da lista de insetos raros e da extensão dos nomes. E para uniformizarem pobres e burgueses e capitalistas e homossexuais e negros e anões e marrecos e pedófilos e padres e freiras e corruptos e as garrafas de vinho e de cerveja e até o amarelo deslavado dos tremoços. E a velocidade das carripanas e a biqueira dos sapatos e o tamanho da gordura dos gatos e a intensidade máxima do ladrar dos caninos. Que saudades de ir mijar em urinóis que foram a principal inspiração de Duchamp. Tínhamos, sem nos apercebermos, a perceção da arte que era a base da confiança na democracia que estava para vir ou que se encontrava em construção. Agora, cada vez mais vezes nos passam pela cabeça os pensamentos mais banais e inesperados sobre a passagem do tempo. A verdade é que as coisas que se passaram há mais tempo ainda parecem as mesmas só que com mais peso e mais rugas e mais tédio. Mas as diferenças não são bastantes para que se faça disso um drama. É sempre melhor mudar de rumo enquanto descemos, pela simples razão de que é mais fácil e até mais rápido.

João Madureira

10
Nov25

Quem conta um ponto...


avatar-1ponto

 

753 - Pérolas e Diamantes: São insondáveis os caminhos do Senhor

 

É verdade, nunca vi um palhaço negro. Nem um. Em lado nenhum. Nem na televisão. Será que existe alguma razão válida para isso? Já vi até muitos cantores de ópera negros, mas nenhum palhaço. Perguntarão vossas excelências a quem é que isso interessa? E têm razão.

Dizem que os cientistas, finalmente, descobriram a razão das zebras serem listradas: é para afastarem os insetos, sobretudo os que provocam doenças.

Mas continua o mistério da razão pela qual o grasnar dos patos não produz eco.

Isto para não falar do monte de retalhos animal que é o ornitorrinco, talvez uma das experiências mais exóticas de Deus enquanto Criador da bicharada.

São insondáveis os caminhos do Senhor.

Já agora, será que a Muralha da China é visível do espaço? Provavelmente pensa que sim. Mas a resposta correta é não. Quase todos incorremos nos mesmos erros quando pensamos. A verdade é que, na sua parte mais larga, a Muralha da China mede aproximadamente nove metros. Ou seja, a largura de uma casa pequena. Além disso, foi construída com pedras cuja cor é semelhante à das montanhas circundantes, pelo que se confunde com a paisagem. Mas não é para admirar. Dez por cento dos franceses ainda acreditam que a terra é plana. Ou seja, há bolsas de estupidez até nos países cultos e civilizados.

A maneira como pensamos é que nos leva, a maioria das vezes, a ter perceções falsas do mundo. Os seja, as perceções da realidade são muitas vezes desacertadas. Brendan Nyhan, professor no Dartmouth College, em New Hampshire, escreveu que “as perceções erróneas diferem da ignorância na medida em que é frequente as pessoas não duvidarem delas e, por isso, considerarem-se bem informadas”. Ao que se sabe, as perceções erróneas das pessoas não se combatem com mais informação, mas com melhor informação. E mesmo isso não basta. Esse é o problema.

A nossa preferência, porque gostamos de pensar rápido, é para procurar informação que confirme aquilo em que já acreditamos, sermos atraídos por informação negativa, sermos suscetíveis aos estereótipos e ainda pela nossa apetência por imitar a maioria.

Muitas das fake news somos nós que as procuramos. Por incrível que pareça, o nível de fake news depende essencialmente do nosso nível de crendice.

Uma coisa aprendi ao longo da vida, a compreensão profunda da razão de estarmos errados é o caminho certo para nos aproximarmos da realidade. Para continuarmos a ter esperança no futuro, não nos devemos esquecer que os factos ainda continuam a importar.

A verdade é que a nossa perceção do mundo anda uns passos atrasada em relação à realidade.

Francis Bacon, referindo-se à nossa adesão às ideias políticas, leia-se seguidismo ideológico ou partidário, escreveu em 1620: “Assim que adota uma opinião, o entendimento humano vai buscar tudo o resto para sustentar e concordar com ela. E mesmo que haja um maior número e um maior peso de provas em contrário, negligencia-as ou despreza-as ou, lançando mão de certas distinções, põe-nas de parte e rejeita-as.”

Está explicado o espírito de manada.

Depois de nos afeiçoarmos a uma ideia, causa-nos sofrimento psicológico abandoná-la. Daí andarmos atrás de informação (muitas vezes de origem duvidosa) que confirme as nossas certezas.

A nossa ignorância é pluralista. Do mal o menos.

É normal as nossas preocupações transformarem-se em exageros. A tendência quase geral é para seguir o rebanho.

E isto tem consequências. Cálculos recentes estimam que a fortuna de 1% dos mais ricos do planeta é superior à da totalidade do resto da população. Cerca de 73% da população do globo detêm uns meros 2,4% da riqueza mundial. Melhor será dizer da pobreza mundial.

Deste 1% dos mais ricos, 7% vivem no Reino Unido, 5% na Alemanha e 37% residem nos EUA. Na Rússia, por exemplo, apesar da dimensão da sua economia, apenas 0,2% das pessoas mais ricas do mundo lá habitam.

À escala mundial, o número de pessoas que vivem com quase nada ou absolutamente nada é gigantesco.

As nossas perceções erróneas estão sempre relacionadas com as nossas opiniões. Os nossos medos são, na maior parte das vezes, motivados, não apenas por aquilo que desconhecemos mas, sobretudo, pela incompreensão dos factos.

As pessoas escolhem os meios de comunicação que refletem o que elas já pensam. E assim se habituam a pensar mais do mesmo.

Estamos ancorados nos nossos próprios palpites. Mas, como dizia Aldous Huxley, “os factos não deixam de existir por serem ignorados”.

João Madureira

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

1600-(61066)-21-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • cid simoes

      Caro Fernando, é uma notícia triste, criei uma afe...

    • Anónimo

      É pena que assim aconteça! Este Blogue, quanto a m...

    • Anónimo

      Que pena!Mesmo assim, como se diz em inglês, "You ...

    • FJR

      Só me resta agradecer tudo o que fizeste e não foi...

    • José Alberto Pires

      Obrigado por 21 anos de companhia.Obrigado pelo t...

    FB