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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Out20

REINO MARAVILHOSO

Douro e entre os montes

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Cidade de Chaves- Arrabalde

Este blog vai a caminho dos 16 anos e, sem me queixar, pois faço-o com gosto, confesso que às vezes não é fácil marcar aqui a presença diária, sobretudo tendo como ponto de chegada e de partida, e como centro de atenção ou de convergência, a cidade de Chaves, pelo menos com alguma originalidade. Sei que essa originalidade seria possível, mas embora até tenha a vontade, disponibilidade e abertura para ela, falta-me aquilo  que é essencial para que possa acontecer – tempo. Ideias não faltam e matéria também não, o tempo para recolha e tratamento de conteúdos, esse sim, é sempre pouco.

 

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Vidago Palace

Eu sei que este blog tem como base a imagem, a fotografia. Até à presente data foram aqui publicadas 15.426 imagens, das quais 3.896 são da cidade de Chaves, 5.083 das aldeias de Chaves, 3.444 são do Barroso e as restantes são temáticas (arquitetura, arte, incêndios, pormenores, eventos,  etc.). Dentro das de Chaves, por exemplo do Arrabalde estão aqui publicadas 234 fotografias, da madalena 230, da ponte romana 189, da rua Direita 135, isto por defeito, pois os números são os do flickr, mas para eles ficarem disponíveis têm de ter a “tag” Chaves, ou Arrabalde, etc, e algumas vezes esqueço-me de as meter, peloo que os números apresentados são inferiores à realidade. Quero com isto dizer que trazer aqui a ponte romana 189 vezes e mesmo sendo a imagem sempre diferente, é sempre a mesma ponte romana, isto só para vos dizer, que muitas vezes a falta de tempo me obriga a trazer aqui tantas vezes a ponte, ou Arrabalde ou outros locais repetidamente.

 

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Chaves - Ponte Romana

Claro que com o tempo vi-me obrigado a que o blog saísse fora da moldura de Chaves e do seu mundo rural. Apareceram as rubricas temáticas, os colaboradores com as suas crónicas pessoais e os horizontes em imagem foram além da moldura, e até o nome do blog, sem ser alterado, pois continua a ser CHAVES, passou de CHAVES – Olhares sobre a cidade a CHAVES – Olhares sobre o «Reino Maravilhoso», isto também porque pessoalmente entendo que Chaves tem condições para ser o centro de uma grande região, contando com a Galiza mais próxima. Assim os olhares do blog foram além fronteiras do concelho de Chaves, entrou no Barroso, tem todo o Alto-Tâmega debaixo de mira, para já com trabalho de campo na recolha de imagens nos concelhos de Vieira do Minho (freguesias dos Barroso), Ribeira de Pena, Vila Pouca, Valpaços, Vinhais e toda aldeias de toda a raia galega confrontante com Chaves e, ocasionalmente, um pouco mais além. É nessa que estamos agora e por onde vamos continuar, mas sempre com uma certeza, a de que Chaves, cidade e suas aldeias, continuarão a marcar aqui presença diária, pois já há algum tempo que o blog tem duas publicações diárias, uma com Chaves e suas aldeias e a outras com as restantes temáticas.

 

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Ruivães - Vieira do Minho - Barroso

Hoje criamos uma nova rubrica que ira ser regular, uma vez por semana, para já com dia marcado para as quintas-feiras e que irá ter este cabeçalho:

 

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REINO MARAVILHOSO – Douro e entre os montes. Claro que o Reino Maravilhoso é o que Miguel Torga nos descreve:

 

Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida…

 

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Fisgas do Ermelo e Srª das Graças ao fundo

Um  “ …berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Mêda, Moimenta e Lamego — toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.

Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição."

 

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Douro

Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas.

Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.

 

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Freixo de Espada à Cinta

Vai ser por este “Mundo Maravilhoso” que o blog vai andar às quintas-feiras, partilhando as nossas imagens que fomos colhendo ao longo do tempo e demostrando que esta do Reino Maravilhoso, não é uma invenção do poeta, ele é mesmo uma maravilha, tendo em conta, claro que é preciso que “os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e do coração…”

 

Fica então combinado, a partir de hoje, às quintas-feiras, vou mostrar-lhes um Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não…

 

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Caretos de Podence

Já agora posso adiantar que além desta rubrica, o blog vais ter mais três novas, todas à volta da imagem e da fotografia, uma apenas de fotografia a preto e branco, outra de arte digital com base na fotografia e uma outra também de fotografia, intitulada devaneios fotográficos, em suma, poderemos dizer que é a abertura deste blog a um outro blog que temos mas que o tempo não nos deixa tratar como deveria ser suposto tratar, dai convidamo-lo a fazer aqui umas presenças, pelo menos 3 presenças mensais, a primeira fica já marcada para o final da próxima semana.

 

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Srª das Graças

Quanto a esta nova rubrica do « REINO MARAVILHOSO – Douro e entre os montes», não ira ser tão longa como a de hoje, pois terá como base apenas a imagem, nunca além das três imagens e algumas palavras.

 

 

05
Jan20

O Barroso aqui tão perto - Salto

Montalegre - Barroso (com vídeo)

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Vila de Salto 

 

Sinceramente que já estávamos com saudades de ir por terras do Barroso, embora hoje o façamos apenas virtualmente, mas é o suficiente para recordar alguns momentos que por lá fomos passando.

 

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Pois estamos de regresso aos post completos sobre as localidades do Barroso, ainda no Barroso de Montalegre e no caso de hoje, no Barroso verde de Salto.

 

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Já que estamos em maré de ser sinceros, posso dizer sem qualquer dúvida, que Salto e toda a sua freguesia, foi o que mais me surpreendeu no que me faltava por descobrir do Barroso, e a surpresa chama-se “verde exuberante” cor com que toda a freguesia é vestida. Basta ver as fotografias de todas as aldeias da freguesia de Salto que passaram por aqui para confirmar como é verdade, e não é apenas na primavera ou verão, é todo o ano. Só por isso, já valeu a pena a descoberta. Mas há muito mais, mas hoje, ficamos só por Salto, sede de freguesia.

 

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Antes ainda de passarmos ao que encontrámos nas nossas pesquisas sobre a Vila de Salto, e para rematar, ficam as restantes impressões pessoais nesta descoberta. Já sabíamos que a seguir a Montalegre, sede de Concelho, Salto seria a segunda localidade mais importante, pois não seria por mero acaso que passou a ser classificada como vila desde 1995. Uma vila relativamente recente que está bem plasmada naquilo que hoje é, notoriamente com um pequeno núcleo antigo que seria a antiga aldeia de Salto, mas hoje com a maioria do aglomerado da vila ocupada por construções muito mais modernas e recentes, com alguns edifícios públicos e/ou associativos e de habitação coletivas a destacarem-se das restantes construções, maioritariamente constituídas por moradias.

 

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Pena que a nossa praia sejam mais os núcleos antigos, os centros históricos, centenários, aqueles que estão carregadinhos de história e estórias para contar. Núcleos históricos qua acabaram por ser vítimas da modernidade, muito mais apetecível pelas melhores condições de uso e habitabilidade que oferecem.

 

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Para finalizar da nossa parte, fica o nosso mapa com o itinerário que recomendamos, com partida da Nacional 103 até Sapiãos, onde abandonamos a 103 e rumamos em direção a Boticas, aí apanhamos a Nacional 311 e se não saímos dela, a 54,3 km (desde Chaves), estamos em Salto.  Atenção à estrada, com bom pavimento e largura aceitável, mas com muita curva e algumas delas meias traiçoeiras. De vagar, pois assim também pode ir apreciando a paisagem e fazer algumas paragens, uma delas, recomendo, é junto à aldeia de Cerdedo, ainda no Concelho de Boticas, aldeia também barrosã que um destes dias também passará por aqui.

 

Fica o nosso mapa:

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Agora sim, vamos passar ao que os documentos e demais literaturas dizem sobre Salto. Iniciemos pela página oficial da Junta de Freguesia, que tem alguma informação preciosa, aliás se todas fossem como esta, tínhamos metade do nosso trabalho feito (o Link fica no final do post, nas nossas consultas):

 

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História da Freguesia de Salto

A freguesia de Salto é, quer em área, quer em população, a maior freguesia do concelho. Como espaço habitado e evangelizado, Salto é já referido no Paroquial Suévico como uma das trinta paróquias já existentes, no último terço do século VI e pertencentes à catedral de Braga. Ao longo da sua vida teve muitos momentos de glória, daí a riquíssima história desta freguesia. Enquanto os cruzados do norte da Europa atravessavam o Atlântico e o Mediterrâneo, para combater nos lugares santos, o povo portugalense trepava descalço os caminhos das suas peregrinações que atravessavam a freguesia. De tal modo que D. Afonso Henriques autorizou e apoiou a construção da Albergaria de São Bento das Gavieiras, ao monge Benedito, em 1136. Alguns nobres olharam com cobiça para esse território onde adquiriram casais ou mesmo povoações como Carvalho, Póvoa e Revoreda que eram do fidalgo-trovador D. João Soares Coelho e de suas irmãs. D. Pedro I, o tal que arrancou o coração pelo peito a Pero Coelho (bisneto do referido João Soares Coelho) e pelas costas a Álvaro Gonçalves por terem morto Inês de Castro, também cobiçou Salto. Por isso, depois de uma visita a Santa Senhorinha de Basto, de quem era devoto, cedeu-lhe fartos rendimentos da Igreja de Santa Maria de Salto.

 

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E continua a pág. da Junta de Freguesia:

O território da freguesia actual 78,6 km2 era ocupado também pela freguesia de Novaíças que incluía vários casais e herdades em diferentes povoações entre- tanto desaparecidas: Pontido, Curros de Mouro, Ulveira, Gulpilheiras, etc. Os grandes mosteiros do norte Refojos, Pombeiro e Bouro – todos levantavam daí grossas rendas. A história desta freguesia dava matéria para dez livros como este. Aqui poderá visitar a antiga casa do Capitão, agora pólo do Ecomuseu de Barroso, onde encontrará uma apresentação dos ofícios tradicionais, do Pisão de Tabuadela e das Minas do Volfrâmio da Borralha.

 

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Ainda na pág. da Junta de Freguesia:

A Freguesia de Salto com uma área de 78,54 km2 e com uma população presente a rondar as mil e quinhentas almas nas vinte povoações existentes, continua com dinamismo!

(…)

O comércio, sobretudo a restauração, está ativo e a feira semanal ao Domingo, contribui para o desenvolvimento da economia local.

 

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E continua:

As Associações da terra criam dinâmica e movimento.:

 

O Grupo Desportivo com cinco equipas a competir nos Campeonatos Distritais, movimenta dezenas de atletas.

 

O Lar de Salto acolhe dezenas de idosos e leva o comer a muitos outros. Sendo o maior empregador local.

 

As Associações ligadas à lavoura: Centro de Gestão, Agro-Florestal e de Criadores, apoiam os agricultores e promovem cursos de formação para os mesmos.

 

Os Bombeiros fazem o apoio aos doentes e mantem a floresta protegida.

 

A Banda Filarmónica continua com dinamismo e tem em funcionamento uma Escola de Música.

 

As Associativas da Caça vão trazendo até Salto gente ou para caçar ou para os torneios que promovem.

 

Os Ecomuseus de Salto e das Minas da Borralha, acolhendo visitas e promovendo iniciativas de interesse para os visitantes.

 

A Junta de Freguesia, agora, instalada na Rua Central atende todo o povo da freguesia, com serviços próprios e dos correios.

 

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E sobre a Igreja Matriz de Salto diz o seguinte:

 

Quem entra em Salto e segue até à zona central da vila, não fica indiferente à imponente imagem eclesial situada no topo da Rua Padre Manuel José Jorge, em paralelo granítico. Trata-se da antiga igreja matriz de salto, talvez o principal ícone desta vila. É um edifício de traça romântica, que foi sofrendo algumas remodelações estruturais ao longo do tempo. Nas paredes Norte e Sul da nave é possível ver troços da perfeição com que pedras foram sobrepostas na construção do edifício. Deslocados para a traseira da igreja, alinhados na bordadura do adro ajardinado e bem tratado, observam-se quatro arcas tumulares cobertas com tampas, presentando todas elas decoração e inscrições. Estes são importantes vestígios da necrópole dos tempos medievais, testemunhadores da antiga pratica de enterrar os paroquianos no adro envolvente da igreja. No interior, as estatuas de Nossa Senhora do Pranto (santa padroeira) e do Beato D. Nuno, o Condestável, que por estas terras terá treinado o seu exercito aquando das batalhas com reino de Castela.

 

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E sobre o Ecomuseu:

 

Ecomuseu de Barroso - Casa do Capitão

 

Instalado numa antiga casa senhorial, que pertenceu ao Capitão da aldeia, representante da autoridade e do poder, a nível local, este polo do Ecomuseu de Barroso, em Salto, representa algumas das atividades tradicionais mais emblemáticas.

 

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E continua sobre o Ecomuseu:

Neste espaço foram recolhidas, tratadas e inventariadas mais de mil peças. Estas, doadas pelos habitantes da freguesia, deram origem a um polo etnográfico, que permite uma visita ao que seria uma casa típica barrosã. Os temas tratados são muito variados: a raça barrosã, que é autóctone, as alfaias agrícolas manuais e de tração animal, o ciclo do pão, a cozinha de Barroso, o ciclo da lã e do linho, as minas de volfrâmio da Borralha e D. Nuno Álvares Pereira, Senhor das terras de Barroso. Este local disponibiliza uma ludoteca, uma biblioteca e uma loja de produtos locais.

 

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Uma vista de olhos pela wikipedia para as festas populares:

 

FESTAS POPULARES

 

A festa Senhora do Pranto

O pároco da freguesia de santa Maria de salto em 1758, o reitor António Alves de Sousa, fornece a sua versão para a origem do nome de salto:” Este dito lugar é assim chamado para a tradição de uma imagem com o titulo Senhora do Pranto, padroeira desta freguesia chamada a “Senhora de Salto” pela dita tradução de que de distancia de quase meio quarto de légua saltara para um sítio em que hoje está, para a lagoa e carvalheira que esta se extingui e é o sítio deste lugar.  A carvalheira secou e a lagoa enxugou de sorte de que no tempo do Estilo e parte do Outono faz a aprazível e de limitável a circunspecto deste lugar de salto”

 

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E continua:

Perante o fenómeno milagroso persistentemente repetido, da misteriosa mudança de imagem de Senhora, do lugar de Oliveira para o sítio onde seria construída, há mais de mil anos, a igreja velha, o povo devoto achou que se a Senhora dava o “salto” para este lugar era porque desejava que lhe construíssem um espaço de culto ali e por isso foi decidido construir uma capela para acolher a Senhora, nascendo a nova aldeia em seu redor, a qual recebeu o nome de Nossa Senhora de Salto ou Santa Maria de Salto, em honra do “salto da Senhora” de Terras de Oliveira para este novo lugar.

Sendo pacificamente aceite que a etimologia de Salto remete para a designação latina as saltum com o significado “caminho entre os bosques”.

Nossa Senhora do Pranto é comemorado a 15 de Agosto, dia em que a “Senhora” sai em longa e florida procissão.  A 13 de Agosto existe uma outra procissão a Nossa Senhora de Fátima.

Remetendo para 3 dias de grande euforia em Salto.

 

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Agora quanto à Festa de São Sebastião na wikipedia encontrámos o seguinte:

 

A festa de São Sebastião

No dia 20 de Janeiro, a meio do Inverno, tem lugar a Festa de São Sebastião, numa época considerada como não coincidente com o tempo festivo.

Vinha o Santo em procissão dum único andor presidir à bênção do pão e do vinho que ficava assim diferente do pão normal. Tinha mezinha, podia-se guardar de um ano para o outro que não ganhava bolor.

O bobo comunitário de São Sebastião reconhece as graças concedidas, através do esconjuro de afastamento dos cavaleiros do Apocalipse, sendo as capelas de São Sebastião situadas na entrada dos povos donde sopram os maus ventos ou donde vêm as pragas às culturas. Sabemos que a origem desta fé é muitas vezes secular, atribuída por Leite Vasconcelos a uma grande peste que assolou o país em 1505.

 

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E continua sobre o São Sebastião:

O medo da fome, da peste e da guerra de que o santo é advogado foi sempre uma espada de Damocles sobre a cabeça do povo, daí a devoção a este servo de Deus.

Em Salto, na “roda” de distribuição gratuita, são ofertados os “mordomos” benzidos, uma porção de pão e um copo de vinho. Os que assistem ao ritual levam para casa um “mordomo” a mais para cada filho, e muitas vezes outro por cada género de animais. A este pão ou carolo atribui-se poder curativo, não ganhando bolor ao longo do ano.

 

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Festa de São Sebastião que é muito popular em todo o Barroso e que todos os anos leva milhares de pessoas até elas, pois além de Salto, na atrás referida aldeia de Cerdedo também é celebrado e logo ao lado, na aldeia de Couto de Dornelas, talvez a maior de todas a par da de Alturas de Barroso onde também se festeja. Vale a pena ir a todas elas, pois embora sejam no mesmo dia, ficam a uns quilómetros umas das outras e em timings diferentes, todas elas no Barroso, embora as três últimas sejam no concelho de Boticas.

 

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Ainda na wikipedia:

 

O tempo da quaresma

A quaresma que se seguia este longo período festivo que abarca Dezembro, Janeiro e Fevereiro, impõe silêncio e jejum, com interdição do toque dos sinos, das festas, jogos ou espectáculos. É um período sagrado, centrado nos sermões e preces, cujos 40 dias culminaram na Semana Santa, e em particular na Sexta-Feira e no Domingo de Páscoa- o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia da Primavera.

 

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O sexto domingo, que dá inicio a semana santa, é chamado “Domingo de Ramos”.

 

Os dois grandes períodos opostos do Inverno e do Verão são assinalados pela matança do porco, a qual se apresenta como uma inauguração caléndarica ritual e psicológica, uma espécie de antecipação do Carnaval. O porco é a despensa do ano, que permite uma grande variedade de preparações

 

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Passemos agora à Monografia de Montalegre, onde há bastantes referências à Vila de Salto, mas a maior parte já foi abordada, mas há esta primeira que transcrevo que é curiosa e há ainda quem a defenda:

 

“A Questão de Salto” - anos de 1914 a 1916 Entre 1914 e 1916 ocorreu a Célebre Questão de Salto. Foi o caso de um algarvio, eleito pelos eleitores do Minho, chamado Augusto José Vieira decidir agitar os ânimos da boa gente nortenha. Assim, propôs (após a necessária campanha Caciquista no Minho) a anexação da freguesia de Salto ao concelho de Cabeceiras de Basto. A batalha durou três anos mas no fim tudo correu como devia: Salto foi, é e será de Montalegre.

 

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As características da freguesia:

Salto

Área: 78.6 km³

Densidade Populacional: 23.8 hab/ km²

População Presente: 1853

Orago: Nossa Senhora do Pranto

Pontos Turísticos: Casa da Fonte (Corva); Sepulturas Antrmpomórficas (Seara) Igreja Velha e Arcas Tumulares (Salto); Monte da Maçã; Casas Diversas.

Lugares da Freguesia: Ameal, Amiar, Bagulhão, Beçós, Minas da Borralha, Caniçó, Carvalho, Cerdeira, Corva, Linharelhos, Lodeiro d’Arque, Paredes , Pereira, Pomar de Rainha, Póvoa, Reboreda, Salto, Seara e Tabuadela.

 

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E agora é tempo da “Toponímia de Barroso”

 

Salto

Notável e antiquíssimo arcaísmo fonético: do latino Saltu > Salto!

A manutenção do L confirma a velhíssima constituição daquele topónimo que é referido como sede de paróquia suévica no Paroquial de 570. A Diocese Bracarense que se estendia desde Vila do Conde a Bragança e ao Minho tinha apenas trinta paróquias e entre elas Ad Saltum. Chegou a distribuir o seu território por três concelhos conquanto pertencesse sempre à Borba de Barroso. Apesar de regularmente desmembrada ainda atinge um domínio da origem dos oitenta quilómetros quadrados de área onde vigoram vinte agregados populacionais.

 

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E na Toponímia Alegre, vamos lá aos Escorricha-odres de Salto:

 

(…)

Boa terra era Salto

Se não fora geadeiro

Vem a geada leva tudo:

Não colhe nem um graeiro.

 

Não vou mais ao São Miguel

De dia ou de madrugada

Por mor da ronda de Salto

Apanhamos a traulitada (1)

 

  • (1)– Alude-se às cenas de pancadaria entre trauliteiros e republicanos na monarquia do Norte – 1919.

 

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E continua:

 

Ó moças da Venda Nova

Apertai esses coletes:

Olhai as moças de Salto,

Parecem uns ramalhetes.

(…)

Venho do Senhor São Bento,

Vou prá Senhora de Salto,

O que eu quero é dinheiro

Raparigas não me falto!

(…)

 

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E para finalizar o vídeo com todas as imagens aqui publicadas:

 

 

Para ver o vídeo diretamente no YouTube ou partilhar, sirva-se deste link:

 

https://youtu.be/BIf4TEDCBPA

 

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BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre.

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso.

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-montalegre.pt/

http://toponimialusitana.blogspot.pt

https://jf-salto.pt/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Salto_(Montalegre)

 

Links de interesse

https://www.facebook.com/pages/category/Public-Figure/Vila-de-Salto-10150135785210313/?redirect=false

 

 

 

02
Jan20

15º Aniversário do Blog Chaves - Olhares sobre o Reino Maravilhoso

blog chaves - 15 anos

1600-aniversario-15

 

Foi há 15 anos que este blog publicou o seu primeiro post, e tal como todos os anos neste dia de aniversário, deixamos aqui algumas imagens e umas palavrinhas sobre esta data, sobre o ano de 2019 que já lá vai, mas também um pouco do que prevemos para o ano de 2020.

 

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Cidade de Chaves com gente dentro

Quanto às imagens de hoje, são repetentes, uma pequena seleção (a possível e a monte) de algumas fotos que mais gostámos de ter publicado no último ano, para além de alguns gráficos com os números disponíveis sobre o Blog.

 

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Imagens ou devaneios que gostamos de fazer, talvez design mas tendo o olhar e a fotografia como base

 

Iniciemos então pelos números, sim, pelos números porque eles são importantes para sabermos quem nos visita e desde onde. Ora analisando-os, facilmente se entende que são os flavienses ausentes e outros ausentes não flavienses, mas ligados ou amigos de Chaves, que nos visitam. E, aí, atingimos o nosso objetivo, pois este blog nasceu para isso mesmo e nunca pretendeu levar Chaves aos seus residentes, esses, nós que cá estamos, podemos desfrutar da cidade todos os dias, não temos saudades de Chaves. Quando iniciei o blog, foi a pensar no tempo em que vivi fora de Chaves, em que devorava tudo que fossem notícias ou imagens da terrinha, chegando então à conclusão de que quanto mais longe estamos da nossa terra, mais ela nos pertence.

 

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Ficaram os números de Portugal que são 70% dos nossos visitantes. Se repararem Chaves não aparece, tal como Vila Real que não quer saber de nós, embora possam estar alguns incluídos nos “locais não definidos”, mas penso que esses, são de aldeias e vilas que as estatistas não sabem em que cidade as incluir, suponho eu. Já agora, os dados destes gráficos são os que as estatísticas do portal SAPO me disponibiliza no blog, portal onde este blog está alojado. Desde já fica um agradecimento ao SAPO pela sua disponibilidade e apoio ao blog nos momentos mais complicados e também pelos destaques que vai fazendo do Blog Chaves.

 

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E este ano estamos também gratos por termos chegado a dois novos continentes, refiro-me à Ásia e à Oceânia, pelo menos com força (números) para aparecerem nas estatísticas e ficarem de fora dos locais não definidos. Um agradecimento especial para quem nos visita desde a India e a Austrália que permitiram a entrada dos seus continentes. Já agora a título de curiosidade, mas também com o nosso agradecimento fica o grosso dos nossos visitantes, que são quase 60% dos que estão no estrangeiro, refiro-me aos flavienses (e outros) que estão em França e nos Estados Unidos da América. Depois temos os visitantes do Brasil e Suíça com valores acima dos 10%, logo seguido de Espanha e Reino Unido, neste último além de visitantes temos lá um colaborador do Blog que de vez em quando nos deixa por aqui uma “Crónica Estrambólica”, o Luís do Boticas.

 

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E já que estamos em maré de agradecimentos, não podemos esquecer os nossos colaboradores que tanta ajuda têm dado a este blog, ficam por ordem alfabética e espero não esquecer nenhum. Como a lista já é longa e pela certa que me iria esquecer de alguns colaboradores antigos, vou só referir os que colaboraram no passado ano de 2019 e continuarão a colaborar neste ano de 2020:

 

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Imagens da descoberta do Barroso, dos seus contrastes, desde o mais agreste que se possa imaginar a exuberância do verde mais verde

 

 

Atuais colaboradores do blog

António de Souza e Silva – Com “Discursos Sobre a Cidade”

António Roque – O nosso poeta com “ Pedra de Toque”

Cristina Pizarro – Com “ Crónicas de Assim dizer”

Gil Santos – Com “Discursos Sobre a Cidade”

Humberto Ferreira – Sem crónica, mas de colaboração preciosa nos seus avisos, alertas, correções e outras ajudas.

João Madureira – Com “Quem conta um ponto…”

Lúcia Cunha – com “A pertinácia da informação”

Luís de Boticas – Com “Crónicas Estrambólicas”

Luís dos Anjos – Com “Flavienses por outras terras” e "Vivências"

Luís Henrique Fernandes (Luís da Ganginha) – Com crónicas “Ocasionais”

Manuel Cunha (Pité) – Com “O Factor Humano”

Raimundo Alberto – Com o seu romance “Chaves D’Aurora”

 

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Imagens da descoberta de terras de Ribeira de Pena e Alto Douro vinhateiro, terras do Reino Maravilhoso

 

Ainda um agradecimento especial para aqueles que além de colaboradores, em geral,  me acompanham na descoberta do Barroso, do Alto Tâmega e Reino Maravilhoso:

 

António de Souza e Silva

João Madureira

Humberto Ferreira

 

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Um olhar sempre atento ao que devemos celebrar, a quem passa por cá e às nossas festas

 

Por último fica também um agradecimento à Associação de Fotografia e Gravura Lumbudus, à Adega do Faustino, à Sinal TV e ao António Tedim, pela colaboração e apoios às exposições de fotografia que o Blog Chaves tem realizado. Agradecimento que se estendem a todos os fotógrafos que até hoje disponibilizaram os seus trabalhos para que essas exposições fossem possíveis.

 

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Imagens de pessoas, artistas, que gostámos de fotografar: Carlos Barreira (Escultor flaviense); Cristina Valadas (Pintora); Ema Berta (pintora), João Machado (Designer e Escultor) e João Ribeiro (Pintor)

 

Por último um agradecimento especial a todos quantos nos visitam e estão aí desse lado a espera das nossas imagens e textos, e às vezes até dos nossos desabafos, devaneios e disparates, que felizmente mais que infelizmente, também fazem parte da vida. Agradecimento especial duplo para aqueles que além de nos visitarem também comentam os nossos posts. Agradecimento triplo para aqueles que nos visitam e comentam com alguma frequência, por último um agradecimento para aqueles que nos visitam, comentam, incentivam e são há muito tempo nossos amigos e amigos do blog, mesmo sem os conhecermos pessoalmente…e esta faz-me lembrar o poema:

 

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De vez em quando gostamos de regressar às origens, à Portela da minha Mãe, ao meu Liceu

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis.

Bertolt Brecht

 

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E sempre a nossa cidade, de noite ou de dia, com sol ou chuva, nevoeiro ou geadas e nevadas das boas...

 

Por último reforçamos um aviso que já aqui deixamos e que se prende com algumas alterações que nos próximos dias irão acontecendo no blog e também um aviso aos mais atentos – Perdemos o contador de visitas do nosso blog – Pois segundo o SAPO era uma componente que poderia ter conteúdo malicioso e poder-vos-ia desviar para outras páginas e conteúdos não desejados. Como não queremos que o nosso blog seja de navegação insegura, desinstalamos essa componente. Temos pena de não poder partilhar esses números convosco, que no dia em que foi desativado já íamos nos 3.389.843 visitantes, mas nós, sem ser visível publicamente no blog, continuamos a ter acesso ao número de visitas e visualizações do blog que o SAPO nos disponibiliza nas estatísticas do blog, daí o contador continuar a contar rumo aos 5.000.000 de visitantes, número para o qual pensamos fazer a grande festa do blog, na rua, mas isso ainda vai demorar  uns aninhos a alcançar, seja como for, no final do ano darei aqui conta da contagem do contador.

 

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E sempre a nossa Top Model como modelo para fotografar, de mil e uma maneiras

 

E agora mesmo para finalizar fica um apelo: façam comentários, peçam-me coisas, puxem-me as orelhas por não trazer aqui coisas que gostariam de ter e ver, eu estou por aqui de boa vontade para vos satisfazer, mas para isso, necessito de saber o que é que querem, necessito do vosso feedback.

 

Agora sim, um bom ano de 2020 !

 

 

 

 

11
Set17

O Barroso aqui tão perto - Antigo de Sarraquinhos

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Acho que foi aqui que pediram o Antigo de Sarraquinhos, pois ele(a) aqui está, é a nossa aldeia de hoje no “Barroso aqui tão perto” e esta, até calha ser bem perto do nosso ponto de partida.

 

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Ponto de partida que para quem não sabe é feito sempre a partir da cidade de Chaves que, para ir até ao Barroso, tem duas opções principais, pois outras existem mais secundárias que acabam por ir dar a estas duas principais, que embora não sejam para deixar de parte, apenas se devem considerar  por conveniência de algumas particularidades ou até para “desenjoar”.

 

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Ora essas duas opções principais são a Estrada Municipal 507, que para nós é a estrada do S.Caetano/Soutelinho da Raia,  e a outra é a Estrada de Braga que oficialmente é a Estrada Nacional 103. Neste caso de irmos até o Antigo de Sarraquinhos não hesito em nada em recomendar a estrada do S.Caetano.

 

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Graças a internet que é uma farmácia de informação, que tal como os medicamentos pode ser utilizada para o bem mas também para outras coisas e têm sempre algumas contraindicações e efeitos secundários, principalmente para os que não batem bem do andar de cima, depressivos e outros seres complicados, hoje temos acesso a toda a informação. Diz-me ela, a internet nos devidos sítios credíveis, que para chegar até o Antigo de Sarraquinhos devemos tomar a EM507 e que para lá chegarmos temos de percorrer 27.4Km demoramos 00h43 em ritmo de passeio e gastamos 3.80€.

 

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Ora aí está o Barroso aqui tão perto que às vezes é mesmo muito perto e onde temos uma preciosidade à nossa espera, como é o caso deste Antigo de Sarraquinhos que me levam direitinho ao primeiro parágrafo do “Reino Maravilhoso” de Miguel Torga, com sublinhado meu que aliás irei fazer dele lema destas aldeias do Barroso, senão todas, a grande maioria. Pois diz assim:

 

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“Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.”

Miguel Torga, in “Reino Maravilhoso”

 

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Como já vos disse atrás alguém me pediu esta aldeia. Claro que não era necessário o pedido, pois eu iria lá na mesma, mas sempre que há um pedido, das duas uma, ou a aldeia merece mesmo ser visitada ou então é o bairrismo que a pede e neste segundo caso, já sabemos que os olhos bairristas que veem a aldeia não são os mesmo de quem a visita pela primeira vez, e às vezes acontece a desilusão, mas outras há, em que tudo vai além das expetativas e se calha, os olhares do visitante até descobrem na aldeia olhares que os seus naturais, de tão habituados que estão a vê-los, não os veem.

 

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Costumo pensar e às vezes dizê-lo as amigos de confiança que o Barroso é um segredo bem guardado. Reino Maravilhoso já muitos o sabem que é mas é nas suas pérolas, em tesouros escondidos e esquecidos, que residem esses segredos. Por um lado, ainda bem que assim acontece, pois é neles que reside também a tal “virgindade original” para desfrute de uns poucos amantes privilegiados, por outro, temos pena que tais “donzelas” acabem por morrer virgens sem ninguém as descobrir, mas o mais curioso de tal sentimento é que talvez prefira que morra virgem do que vir a ser descoberta e prostituída por que não a respeita. Felizmente na maioria dos casos mantém-se a virgindade original,  infelizmente, nalguns casos, tal já não acontece.

 

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Pois o Antigo de Sarraquinhos ainda mantém a sua “virgindade original”. Sofre das maleitas do despovoamento como quase todas mas mantém a sua integridade de aldeia típica barrosã do Alto Barroso, mas não aquele Alto Barroso que, em geral,  os de Chaves conhecem, aquele Barroso mais agreste do planalto da base da Serra do Larouco. Pois embora o Antigo de Sarraquinhos fique nas proximidades já esta na transição paisagística para as terras da Chã onde o verde mais vivo já começa a marcar presença.

 

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Quanto ao casario  mantém a sua integridade do casario típico barrosão, pelo menos do Alto-Barroso onde o granito é rei e senhor. Claro que já há muito se perderam as coberturas de colmo mas nalgumas construções mantém-se os testemunhos de tal ter existido. Pecados também os há, os habituais, pecados externos introduzidos pela modernidade que entra pelas aldeias adentro sem o mínimo respeito por elas ou pelos seus ícones tendo como exemplo flagrante o largo do cruzeiro onde com tanto espaço para reduzir o ruido visual, plantaram dois postes quase em cima do cruzeiro, até me admira como não aproveitaram o cruzeiro para fazer suporte dos fios, e fico-me por aqui…

 

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Do casario destaco aquele que é mais típico e embora não haja por lá construções solarengas, há algumas que merecem destaque, para além das construções/habitações mais típicas. Pois o destaque  vai para a pequena igreja onde na sua torre sineira em vez do habitual sino tem um relógio. O Sino foi colocado numa torre sineira própria, separada da igreja mas no adro de entrada o que, esteticamente, forma um conjunto mais interessante e equilibrado.

 

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Claro que em destaque fica também todo o conjunto da aldeia (casario) mas também a envolvência e a perfeita integração da aldeia na paisagem. Mas em pormenores destaco ainda as fontes e respetivos tanques/bebedouros. Pena junto a eles já não haver a vida que outrora tinham.

 

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Mas vamos lá ao Antigo de Sarraquinhos e ao que por aí encontrei sobre a aldeia, mas antes, vamos aprimorar a sua localização e a forma de chegar lá.  Tal como disse no inicio a estrada a tomar é a Estrada Municipal 507 que passa pelo S.Caetano e por Soutelinho da Raia. Logo a seguir a Soutelinho entramos no concelho de Montalegre e quase logo a seguir temos Meixide. No final desta aldeia a estrada divide-se em duas, ambas vão dar a Montalegre, mas uma é via Vilar de Perdizes e a outra via Pedrário e Sarraquinhos. Pois devemos tomar esta última ou seja o Caminho Municipal 1006.

 

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Estamos então no CM 1006 e perto de 3 km mais à frente encontraremos Pedrário, se for com tempo, dê uma olhadela a Pedrário pois só fica a ganhar, mas como o nosso destino é o Antigo de Sarraquinhos, continuamos caminho fora até Sarraquinhos. Aqui, atenção às placas, pois devemos deixar o CM 1006 e passar para o CM 1008 e pouco mais de 2 km à frente chegamos ao Antigo de Sarraquinhos.

 

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Mas sejamos mais precisos ainda e indo de encontro aos que se servem das novas tecnologias como o GPS. Pois as coordenadas da aldeia são: 41º 46’ 40.34”N e 7º 39’ 27.28”O. Mas como sempre deixamos o nosso mapa, pois ainda há quem os prefira em vez do GPS, eu sou um deles e neles já descubri coisas aonde um GPS nunca me levaria. Mas gostos são gostos e cada um orienta-se como entender. Fica o mapa.  Ah!, falta a altitude que embora já saibamos que são terras altas gostamos sempre de saber até onde chegam, esta chega aos 950 metros de altitude.

 

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Como é costume vamos até à Toponímia de Barroso ver o que lá se diz sobre esta aldeia. Pois diz assim:

Antigo (de Espinho), dito de Arcos e, agora, de Sarraquinhos.

É obrigatório subentender o termo “casal” ou “vilar” para se juntar ao Antigo de um cavalheiro de nome ASPINUS ou ASPINIUS > ASPINIO > ESPINHO. Assim, o adjectivo Antigo vem dizer o que bem sabemos: é um “Vilar” antigo de um tal Espinho (como se nomeava o dono) – que aí se terá fixado nas invasões do Godos, depois de fazer a competente presúria dos terrenos  que lhe cabiam.

O seu nome de baptismo era pois Antigo de Espinho:

- 1258 “ de antigoo de Spino est medietas Domini Regis et est termino de Arcos” INQ 1524; depois passou a chamar-se Antigo de Arcos e era da freguesia de Cervos; finalmente, chama-se Antigo de Sarraquinhos por ficar anexa a esta freguesia."

 

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Como sempre esta Toponímia de Barroso tem o seu lado alegre onde o Antigo também é contemplado assim:

Boa lebre no Antigo

Boa perdiz em Cepeda

E à falta de boas pingas

Têm água que se beba

 

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No livro Montalegre encontrámos as seguintes referências, embora ela seja a Antigo de Arcos já sabemos que é o mesmo Antigo, o de Sarraquinhos:

 

“Há muitas sepulturas líticas móveis, talvez os monumentos mais antigos, e sepulturas fixas. Das móveis

temos exemplos em Bobadela, Sapiãos, Bustelo (Vila da Ponte), Tourém, Pitões, Santo Adrião (Montalegre) e, sobretudo, os enigmáticos arcões graníticos de Salto, a merecerem um estudo mais atento.

 

Das fixas, que normalmente aparecem em grupos, temos várias necrópoles: no Cristelo da Seara (Salto), entre Penedones e Parafi ta (Vila de Mel), em Penedones, sobre a aldeia, junto à Capela de Santo Amaro (Donões) e perto da Capela da Senhora de Galegos do Cortiço (Cervos) e de Antigo de Arcos.”

 

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E também uma referência aos cruzeiros, merecida, pena é a companhia que este do Antigo tem (referida atrás).

 

“Os cruzeiros são mais de 60 e se lhes juntarmos os calvários ainda existentes com as cruzes das estações da via sacra serão três vezes mais.

 

Destacam-se o de Salto, Pondras, Mourilhe, Codessoso de Meixedo, de Montalegre, o da Interdependência da Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!”

 

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E ainda outra referência, embora mais uma vez a Antigo (de Arcos):

 

“Pelos marcos viários e Moimentos ficámos também a conhecer a verdadeira localização da antiquíssima cidade pré-romana de CALADUNUM que deverá situar-se no termo desta paróquia. Antigo (de Arcos), Vilarinho de Arcos e Arcos – sem necessidade de arcos em rio que não possuem – trazem no próprio nome a indicação de que seria por aí o antigo opidum.”

 

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E ainda mais uma referência no livro Montalegre, embora já repetida e mencionada na Toponímia:

 

“Esta última povoação com o topónimo significativo Antigo de Espinho, que o mesmo era dizer Antigo de Aspinius (Aspini). Mais tarde foi Antigo de Arcos, pertencente ao aro de Cervos e, agora, Antigo de Serraquinhos. As voltas que a vida dá!”.

 

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E vai sendo tudo ou quase, apenas mais um reparo ou desabafo que em particular nada tem a ver com a nossa aldeia de hoje, mas com quase todas, em geral. Refiro-me à falta de vida, de gente nas nossas aldeias. Se repararem nas 25 fotos que vos deixo só apenas numa aparece vida humana, a do pastor com o rebanho, nas restantes apenas um cão e um cavalo, ninguém nas ruas e não estive à espera que as pessoas deixassem o motivo limpo, não, longe disso, na maioria das aldeias entramos e saímos sem ver alma viva, um cenário que há três ou quatro dezenas de anos atrás seria impossível de registar, mas que hoje é uma realidade. Chama-se a isto despovoamento do mundo rural que cada vez mais se vai afundando na fase de não retorno.

 

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Podia ter ignorado o parágrafo anterior, passar à frente e terminar este post em beleza, pois podia, mas não estaria a ser sincero comigo mesmo, pois se por um lado volto sempre do Barroso agradado com as nossas aldeias, com as paisagens que as rodeia e em geral  com aquilo que por lá vejo, por outro lado revolta-me vê-las esvaziadas de gente e sem ela, perder-se toda uma cultura rural, saberes, tradições… tudo, porque nas aldeias só já há duas formas de conjugar os verbos, uma conjugados no passado, outra conjugados no presente. O futuro já é impossível de ser conjugado nelas.  

 

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E finalmente passemos aos créditos e aos links para as anteriores abordagens do Barroso

 

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Bibliografia

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre:  Município de Montalegre.

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso

 

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Links para anteriores abordagens ao Barroso:

 

A

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Algures no Barroso: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1533459

Amial - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ameal-1484516

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-arcos-1543113

 

B

Bagulhão - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bagulhao-1469670

Beçós - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-becos-1574048

Bustelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bustelo-1505379

 

C

Cambezes do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cambezes-do-1547875

Carvalhais - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-carvalhais-1550943

Castanheira da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-castanheira-1526991

Cerdeira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cerdeira-1576573

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Cervos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cervos-1473196

Contim - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-contim-1546192

Cortiço - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1490249

Corva - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-corva-1499531

 

D

Donões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-donoes-1446125

 

F

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Fírvidas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-firvidas-1466833

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

 

G

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Gralhós - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhos-1531210

 

L

Ladrugães - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ladrugaes-1520004

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

Larouco - Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

 

M

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Meixide - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixide-1496229

 

N

Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-negroes-1511302

Nogeiró - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-nogueiro-1562925

 

O

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Ormeche - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ormeche-1540443

 

P

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Paio Afonso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paio-afonso-1451464

Parafita: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

Pardieieros - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pardieiros-1556192

Paredes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paredes-1448799

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Penedones -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-penedones-1571130

Pereira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pereira-1579473

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Ponteira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ponteira-1481696

 

R

Reboreda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-reboreda-1566026

Roteiro para um dia de visita – 1ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104214

Roteiro para um dia de visita – 2ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104590

Roteiro para um dia de visita – 3ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105061

Roteiro para um dia de visita – 4ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105355

Roteiro para um dia de visita – 5ª paragem, ou não! - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105510

 

S

São Ane - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-ane-1461677

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sarraquinhos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sarraquinhos-1560167

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Senhora de Vila Abril - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-senhora-de-1553325

Sezelhe - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sezelhe-1514548

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

 

T

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

 

V

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1508489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

Vilaça - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilaca-1493232

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

 

X

Xertelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-xertelo-1458784

 

Z

Zebral - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-zebral-1503453

 

 

06
Jan16

Chá de Urze com Flores de Torga - 112

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Chaves, 8 de Setembro de 1990

 

Os gestos que não fazemos à espera que outros os façam por nós. E assim perdemos a vida, que é uma expressão permanente que não pode ser adiada, nem diferida. Nenhuma prova de comunhão devemos esperar receber que não formos capazes de primeiro ousar.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

Chaves, 25 de Agosto de 1991

 

Cá cheguei, Deus sabe de que maneira. Mas eu sou como as lampreias: ou subo os meus açudes, ou morro.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

Chaves, 26 de Agosto de 1991

 

Não é possível… E foi o rastilho:

— Ó rapaz, acaba-me lá com essa ladainha do possível! Fala-me do impossível. Do impossível triunfo do teu clube. Da impossível moderação alcoólica do teu pai, da impossível atenção oficial às legítimas aspirações desta tua cidade natal. Vê se olhas a vida de uma vez para sempre sem muros à volta da imaginação.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

01
Dez10

Reino Maravilhoso * Trás-os-Montes * Portugal

 

 

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Todas as manhãs, quando acordo, o primeiro olhar que lanço para fora de casa vai em direcção ao Brunheiro. Ele é o meu barómetro e é ele quem me diz se a roupa a vestir deve ser de agasalho, mais ligeira, para chuvas ou nevoeiros. Ontem, no olhar do acordar, o Brunheiro estava vestido de Branco.

 

Desci à cidade e pelo caminho o rádio foi-me pondo ao corrente da situação – Frio, alerta amarelo, neves, estradas cortadas nas serras altas e montanhas, em suma, aquilo que poderá parecer o prenúncio de uma desgraça é afinal a alegria de muitos, principalmente dos putos, pois é um dia de borga e sem aulas, mas não só, pois também os crescidos, mesmo que não o admitam, gostam de ver a terrinha vestida de branco, principalmente quando sabem que não veio para durar.

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Eu também nunca resisto, e gosto, sou como os putos…corro logo para a neve a fazer uns bonecos, mesmo que sejam apenas fotográficos.

 

Também ontem aproveitei e fui montanha acima à procura dela. Para o Brunheiro era impossível, pois a Nacional 314 estava cortada no Peto de Lagarelhos, decidi-me então por Mairos, S.Cornélio e como aqui as coisas se começavam a complicar, em vez da opção Travancas até terras de S.Vicente, decidi-me regressar pela Bolideira e Águas Frias.

 

Pelo caminho ia-me deliciando com as maravilhas do branco, o dobrar das giestas pelo peso da neve, os patos bravos (1) na barragem de Mairos e águias por tudo quanto era alto. Sozinho no meio da imensidão do branco dei comigo a dizer: - Este é o reino maravilhoso de que Torga fala.

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Chegado a casa, abriu-me o apetite para reler o “Reino Maravilhoso” de Torga, o mesmo de que tantas vezes se fala e se faz a citação das primeiras palavras do texto… “Vou falar-vos de um reino maravilhoso (…) fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores (…)  Vê-se primeiro um mar de pedras (…)— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... “ e nunca aparece o texto por inteiro, e é pena, pois todo ele é um poema que nos deixa nus perante a nossa identidade transmontana, o nosso ser, um retrato fiel daquilo que somos e que todo o transmontano tem obrigação de conhecer.

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Sei que muitos de vós já o conheceis, e também sei que em blog textos longos não funcionam muito bem, mas vou arriscar a deixar aqui na integra o «Reino Maravilhoso * Trás-os-Montes» para relerem ou para finalmente terem o texto por inteiro, e tal como quando se comem cerejas, quando o começarem a ler, já não param.

 

Sei que o texto não precisa de ilustrações, mas pelo caminho vou deixando algumas da nevada de ontem. Divirtam-se.

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UM REINO MARAVILHOSO

(TRÁS-OS-MONTES)

 


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.


Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

 

— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

 

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano é megalítico porque o nume invisível ordena:

 

— Entre!

 

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

 

Reino, nestes livros sinistros que são os dicionários, é um substantivo masculino com rei à frente. Imaginem!... Como se fossem suficientes um léxico e um monarca para definir e governar uma realidade irreal!

Pelo que diz respeito a mandar, é o que sabemos

 

— Para cá do Marão...

 

Mandam todos. O poder que atravessa a muralha e penetra ali,  se tem corpo, se tem nome, ou perde a marca individual e se transforma em símbolo, ou morre. Tem de ser sempre, quer sela Pio X ou Pio XII, o «nosso Santo Papa Leão XIII», que é quem a Maria Purificada elege em cada conclave na sua Vila de Freixo de Espada à Cinta...

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Incapazes de uma obediência imposta de fora, os habitantes da terra apenas consideram naturais e legítimos os imperativos da própria consciência. O eco duma ordem estranha à sua harmonia interior desliza pela crosta das almas sem as perturbar. As mais altas dignidades de além fronteiras nada mais representam do que puras expressões nominais de valores abstractos. Meta-se um cristão por qualquer dos caminhos que levam ao coração geográfico desse mundo encantado. De certeza que lhe aparece um semelhante de aguilhada na mão, socos pregados e roupa de saragoça, a perguntar:

 

— O meu Senhor, sempre é verdade que o nosso rei agora é o Doutor Afonso Costa?

 

Faça o que fizer o Tamerlão invasor, a mesma vontade que ele julga dobrar o deseroíza e vence. É ela que, a bem ou a mal, acaba por dispor das riquezas que lhe pertencem: das águas de regadio, dos baldios, da mulher e dos filhos, e de si. De tudo o que na vida material e espiritual tem grandeza e sentido. No pormenor, no que não é seiva de ninguém, dão sentenças o Regedor e o Senhor Abade, que, afinal, pregam editais nas portas e sermões nas igrejas...

A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Mêda, Moimenta e Lamego — toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.

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Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.


Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas.


Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.


Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.


Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão...


O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, emana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra do Horeb — a vara mágica do patriarca substituída agora por um alvião de saibramento. Por toda a parte apetece saboreá-lo, porque mesmo onde a neve, o sincelo e o suão crestam a esperança, mesmo aí ele parece veludo no paladar. Mas há lugares santos onde a santidade é maior. Assim acontece no Roncão, Samos de todos os Samos.


Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.


Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia: cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençóis, faz o bragal das noivas.

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De figos, nozes, amêndoas, maçãs, pêras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos. Ver uma encosta de Barca de Alva coberta de flores de amendoeira, ou o solar de Mateus a emergir dum mar de corolas sortidas, é contemplar o inefável. Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta: — a castanha. Assada no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença...

 

É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.


Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha- se a bisarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.


Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou da índia.


Mas o panorama zoológico não se fica pelo animal de vista baixa que se desfaz em torresmos e chouriços. Passando pelo lobo do Eusébio Macário, que só por si vale um tigre do Kipling, pelo boi de Miranda, que só lhe falta falar, e pelo bicho da seda que de Bragança aveludou em tempos Ceca e Meca, temos ainda a perdiz, a fera da Mantelinha, que nenhum forasteiro deve deixar de ver. Em Outubro, quando o sol ainda a espreguiçar-se de sono lava a cara na fonte de Casal de Loivos, certo perdigueiro, que sobe o monte colado ao chão, já com um aceno perfumado a fazer-lhe cócegas no nariz, pára de repente siderado. Manda-se-lhe dar a pancada. O navarro entra, e só então Sua Senhoria aparece. Cabeça alta de quem olha o mundo de cima, peito largo aberto ao vento, pés seguros de almocreve. — Pfrrruu..u..u. Lá vai ela! Quando o tiro lhe acerta e cai, parece uma deusa morta... No cinto, ainda se lhe tem respeito...

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A truta, que representa com dignidade e bravura o mundo da barbatana, é nos açudes que mostra o que é. Sobe por eles acima como os rapazes pelos mastros ensebados, e só com sofismas a pescam uns filósofos sem filosofia, que vale a pena observar, de cana em riste e saltão no anzol. Quem for a Boticas, coma um peixinho desses e beba-lhe «vinho de mortos» em cima. Pelo que houver,  fico eu. Acudo-lhe com o único remédio decente que se conhece para moela fraca — um quarto de Pedras ou de Vidago, águas minerais que nascem perto. A terra é de tal natureza que, não contente com as dádivas a céu aberto, encerra nas entranhas riquezas que não têm conto. Entra-se no ventre duma serra, e é ferro, é oiro, é chumbo, é estanho, é volfrâmio, é zinco, é urânio, é tudo quanto Vulcano forjou. Caldas, então é um benza-te Deus. São famosas as de Carrelão, as de Moledo, as de Alfaião, as de Chaves, as Carvalhelhos e as de Sabroso — porque de todas elas fazem milagres perfeitos. E vêm então peregrinos de muito longe — gente que arrebentou ou se envenenou a comer um boi e a beber um tonel — curar nelas o estômago, o fígado, a gota, os eczemas e a melancolia. Tomam-nas durante quinze dias. Ao cabo, regressam, de corpo novo e alma nova.


Os naturais é que raramente precisam delas, por serem homens de muita saúde e sobriedade.


Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças. E põem naqueles pêlos da cara uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar. Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê- se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologaís porque Deus não quer. Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:

 

— Entre quem é!

 

Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.


Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.


Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo émundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.

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Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militança, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Africas e Oceanias. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Mourejam como leões, fundam centros de solidariedade humana por toda a parte, deixam um rasto luminoso por onde passam, e voltam mais tarde, aos sessenta, de corrente ao peito, cachucho no dedo. e com a mesma quimera numa mala de couro. Gastam cem contos numa pedreira a fazer uma horta, constroem um casarão com duas águias no telhado, e respondem com ar manhoso a quem lhes censura um amor tão desvairado às berças:

 

— Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho…

 

E continuam a comer talhadas de presunto cru.


Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. E ali ficam nuns cemitérios de lívida desilusão, à espera que a lei da terra os transforme em ciprestes e granito. Alegrias gratuitas têm poucas. Embebedam-se nas festas e nas feiras, batem a cana-verde nos dias grandes, e gozam os robertos e as vistas que levam de povo em povo um sofisma de ventriloquia e a irrealidade serôdia das terras do Preste João.

 

— Ó Zé Roberto:

Queres casar comigo, que sou uma rapariga bem boa?

Bem boa! Bem boa! Bem boa!


Olha o «Vaticano», olha o «Vaticano», com as suas 365 janelas e o Papa a olhar a uma delas… Quem quer ver? Quem quer ver?

 

Nas romarias, verdadeiramente, não se divertem. Pagam nelas o dízimo espiritual ao santo ou à santa com quem têm contratos pelo ano fora, e fazem a barrela das suas relações humanas.


A capela da devoção fica no alto do mais alto monte que rodeia a freguesia. E eles sobem então pela serra acima, quer à vara do pálio, quer a alombar o andor, quer de joelhos, a abrir uma chaga de sofrimento no corpo pecador — mas sem tirar os olhos do inimigo com quem hão-de medir forças no arraial. Sobem numa penitência inteira. Ao descer, vêm numa manta, esfaqueados.


Dessas mortes ficam pelos caminhos memórias de pedra com alminhas do purgatório a pedir orações, que são a História intima do reino resumida em padre-nossos. A outra, toda feita de lendas e fantasia, tem o seu tombo no coração dos que são poetas, e conta-se nas fiadas. Na loja dos bois, ao calor aconchegado da bosta quente a fermentar a palha, envolto na luz pacífica de uma candeia de azeite, o rapsodo mais velho começa:

 

No tempo da Princesa Clarimunda...

 

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A meia-noite o fuso pára nas mãos adormecidas das fiandeiras. Erguem-se todos. Mas no dia seguinte chega-se ao fim.


De Celtas, lberos, Romanos, Moiros, etc. e tal, e dos do tempo dos afonsinos, os velhos dão pouca relação. Em todo o caso mostram os dólmens do Alvão, a Porca de Murça, a ara do deus Aerno, os castros desfeitos, os altares de Panóias, a ponte romana de Chaves e a Domus Municipalis de Bragança. O tempo mudou os símbolos da fé, deliu as inscrições sagradas, e relegou para a penumbra da arqueologia o que foi vivo e útil. Por isso, olham todas essas relíquias numa espécie de melancolia esquiva, Renúncia inconformada, que, num desesperado esforço de encontrar os secretos tesoiros da unidade eterna, às vezes os leva a meter um cartucho de dinamite nas pedras veneráveis, a ver se elas resistem à inquietação do presente.


É certo que há escolas pelo pais a cabo onde as leis inexoráveis do perecível e do imperecível são explicadas. De uma sei eu em que certa palmatória de cinco olhos faz decorar tudo quanto no mundo se descobriu até à raiz quadrada. Mas mesmo nos remos maravilhosos acontece a desgraça de o povo saber duma maneira e as escolas saberem doutra. Acabado o exame da quarta classe, cada qual trata de sepultar sob uma leiva, o mais depressa que pode, a ciência que aprendeu.


A não ser o Senhor Varatojo, que dá sota e ás ao mais pintado doutor. Na inquebrantável decisão de levar tudo ao fim, na teimosia que, uma vez segura da sua verdade, não cede a nenhum argumento, e no gosto inquieto de conhecer, podia ter sido um novo Fernão de Magalhães. a dar a volta aos mundos de agora. Mas como infelizmente a pátria não convida os filhos para tais empresas, empregou-se na Câmara, come do bom e do melhor à custa de quem lho vai meter no bico, toca bandolim. e lê quantos romances se escreveram. Depois conta-os na farmácia, e pinta o diabo se alguém o desmente.

 

— Tenho a certeza matemática! — grita congestionado.

 

E tem, porque sabe de cor as vírgulas e as peripécias. Outro dia chegou mesmo a ir a Paris, só para ver num parque público o banco onde uma heroína qualquer deu um beijo ao namorado. Entra esbaforido na estação da Vila, pede um bilhete, e ai vai ele. Chegou lá, não quis saber de mais nada:

 

— Faça favor: onde é o Bosque de Bolonha?

 

Olhavam-no todos como quem olha um fenómeno, mas sempre lhe disseram.

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Parecia um tiro pelas ruas a cabo. Ao fim duma hora de caminho, chegou ao sítio. Examinou, calculou, andou, virou, tornou, até que deixou sair do peito um arranco de triunfo:

 

— Foi neste!


— Neste, o quê?!

 

Ele então explicou. Assombrados e cépticos, os de lá puseram-se a rir. Felizmente que o romance estava escrito em francês...


E como alguém duvidasse, já não do juízo do homem, mas de tudo se ter passado mesmo, mesmo naquele banco, o Senhor Varatojo mostrou a página do livro, tirou do bolso do colete o relógio, e provou:


— A cena passa-se no dia 24 de Agosto, às quatro horas. Ora bem: estamos a 24 de Agosto e são quatro horas em ponto. O banco onde os dois se sentaram tinha sombra. Não há mais nenhum com sombra. Portanto...


Meteu-se outra vez no comboio, cabeçudo, e retomou as suas funções, sentado à secretária, sempre com as virtudes do povo na ponta da língua, a garantir que Camilo é o cronista do Reino, e a confessar que vai todas as noites ao jardim da Carreira ouvi-lo sobre política, religião e literatura. Ainda não encontrou fonte onde bebesse com tanto gosto...


Os contribuintes pagam a décima e riem-se. Que diz o Senhor Varatojo!? O Camilo! O Camilo levou mas foi uma grande coça na Senhora da Azinheira, outra na Senhora da Saúde, outra na Senhora dos Remédios... Fazia-se fino!


Engole em seco e muda de conversa. Como é também da mesma laia, capaz de cobiçar a mulher do próximo e varrer uma feira a estadulho, não insiste. Sabe muito bem que vive entre irmãos que não mudam de camisa para esbofetear o mais pintado, seja ele o autor do Amor de Perdição, mas que também lhe tiram o chapéu, caso o mereça. Fracos em letra redonda, sabem todos honrar a grandeza verdadeira. E a prova é que lá o têm, a esse trágico inventor de tragédias, entronizado no coração das fragas, a receber o carinho eterno da terra onde foi menino e génio. Bateram-lhe realmente nas romarias, mas deram-lhe o maior bem que se pode ter:


O nome de Transmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama Reino Maravilhoso de que vos falei.

 

Miguel Torga, In «Portugal», 1950.

 

 

(1) - Em tempo - Por um comentário a este post fiquei a saber que as aves que eu identifiquei na barragem de Mairos como patos bravos afinal são corvos-marinhos. As minhas desculpas.

24
Out09

um título breve para expressar os tons do nosso reino maravilhoso servido em mares de montanhas e calmarias resistentes do mais interior que Chaves - Portugal tem

 

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É aqui o verdadeiro reino maravilhoso, não aquele que está atrás dos montes, mas na sua conjugação plena de estar entre os montes, num ondulado de montanhas em que o verde da intimidade se perde no azul distante salpicado pela espuma da agitação do oceano servido em suaves raios de luz.

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Aqui a maré sobre um pouco de tom, mas abriga por detrás dela a calmaria de uma despedida de verão, uma despedida ainda quente, onde o calor faz confundir os sentidos e a metamorfose das cores mostra a verdadeira resistência de quem, insiste e teima na verdura perdida no amarelecer avermelhado do tempo em que é tempo cair por terra…mas ainda hão-de vir os ventos fortes que o(a)s façam cair.

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Carregal - Chaves - Portugal

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Bem lá no cimo, onde o mar de montanhas, por tão alto - se acalma, reina a calmaria. Talvez pela proximidade do céu, não há  quem perturbe a paz do reino, que continua a ser maravilhoso, onde até, os guerreiros descansam as suas andanças.

 

21
Out09

Mais Chaves sem Torga

 

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Embora Miguel Torga seja uma companhia quase diária e, a sua obra, seja a obra que tenho na “mesinha de cabeceira” tenho saudades das suas palavras, não das que ele escreveu, que essas já são eternas, mas das que ele deixou de escrever com a sua partida.

 

Gostaria de ver Chaves de hoje aos olhos de Torga, com a mesma "rudeza" e poesia de quem sempre viu com os olhos da verdade.

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Infelizmente Torga jamais acordará com um assobio salutar e, jamais escreverá sobre Chaves. Restam-nos as suas palavras registadas ao longo dos anos nos seus diários e na sua obra, entretanto, Chaves continua a assobiar para o lado, devendo-lhe a devida homenagem…

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Chaves, 24 de Setembro de 1971

 

Gosto destas cidades pequenas, frutos urbanos em que a polpa deixa ver ainda o caroço à volta do qual se desenvolveu: a praça do município, enquadrada pelo castelo, a igreja matriz, a casa da Câmara e a Misericórdia, com o pelourinho no meio a garantir a justiça. Superam gregariamente – na sua disciplina alinhada e varrida – a anarquia e a promiscuidade do aglomerado aldeão, conferem liberdade e dignidade ao habitante, que, além disso, pode continuar nelas e respirar o oxigénio puro do campo, a ver a paisagem, e a saudar a alvorada com um assobio salutar, como o que me acorda todas as manhãs desde que aqui venho.

 

Miguel Torga, In Diário XI  

 

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