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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jun19

Apenas uma imagem...

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Fui aos livros dos poetas à procura de palavras para este momento, mas não as encontrei, a umas faltava-lhe a luz, a outras a melodia, outras havia que não tinham cor, muitas sem alma, quase todas sem aromas, algumas tinham um rio mas faltava-lhe o brilho, outras tinham árvores mas faltavam-lhes os matizes dos verdes, outras tinham céu mas faltava-lhe o aveludar das nuvens e a quase todas lhes faltava a inocência, frias, em demasia, e se tinham doçura,  não tinham alegria… desisti, custou-me mas desisti que este momento tivesse o poema que merece, e eu, com o medo de o estragar, nem sequer me atrevo a dizer uma palavra…

 

05
Jun19

Momentos da Cidade de Chaves

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De vez em quando apetece-me e é bom viver estes momentos silenciosos da noite, parece que tudo para para nos pertencer por inteiro.

 

Pois é, embora eu até seja a favor do novo acordo ortográfico, penso que precisa de uns pequenos ajustes ou então exceções para não acontecer o que atrás aconteceu, quando  o para do verbo parar se junta a proposição para.

 

Então, para não haver confusão, reescrevo o primeiro parágrafo com uma exceção assumida por este blog, ou melhor, por mim, pois temos colaboradores que não aderiram ao novo acordo ortográfico. Assim sendo, o primeiro parágrafo passa a ter a seguinte grafia:

 

De vez em quando apetece-me e é bom viver estes momentos silenciosos da noite, parece que tudo pára para nos pertencer por inteiro.

 

04
Jun19

Da Nascente do Rio Tâmega até aos Lagos de Stº Estêvão

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É aqui nesta paisagem que ele nasce, aparentemente seca, mas é terra alagadiça, lá na croa da serra, tão alagadiça é que dá origem a três rios, seguindo cada um a sua vertente da montanha, o nosso Tâmega, o Rio Lima e o Rio Arnoia.

 

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Durante umas largas centenas de metros é apenas um carreiro de água, pouco mais que um rego.

 

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Nos primeiros passos, conhece também as suas pequenas, mas primeiras grandes aventuras. Acontece a sua primeira cascata. Cabe na palma de umas mãos, mas não interessa, dá para lhe agitar a jovem adrenalina sem perder a compostura.

 

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Mais à frente espraia-se, e à sua escala forma um grande lago, talvez com três metros de largura, afinal o Rio Tâmega é apenas uma criança acabada de nascer,  e quando ainda se é bebé, há coisas pequenas que parecem enormes.

 

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Depois lá vai seguindo a sua marcha, sempre a descer, às vezes mais rápido outras vezes mais lento, depende, não dele, mas das terras floridas que atravessa e que o vão perfumando, com um perfume selvagem, certo, flores que misturadas com as suas águas cristalinas podem ser remédios para muitas maleitas, é assim que o povo vai curando as suas, e por fim, sempre por entre paisagens mais ou menos floridas, mais ou menos verdes, atinge o vale, de Laza.

 

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Mas deixa também para trás outras paisagens, à primeira vista até se poderia pensar ser uma pintura de arte contemporânea, mas infelizmente é apenas o que resta de um incêndio que em vez da verdura do pinhal que outrora teve, deixa a nu o ziguezaguear de caminhos por entre terra queimada.

 

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E finalmente o Tâmega encontra a companhia de catraios mais crescidos mas que não lhe roubam o seu nome. O que manda é o que vem de mais longe, mesmo que mais pequenino em tamanho. Em Tamicelas no mesmo ponto, é entalado entre dois afluentes que depois de misturados dão lugar a um Tâmega já mais bem compostinho.

 

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E como se dois não bastassem, mais à frente recebe outro bem maior, mas igualmente nascido ali por perto, mas tudo bem, passará a ser água da sua água, agora já um Tâmega ainda jovem mas muito mais adulto, ainda transparente e cristalino. É aqui que o deixamos para trás, perdemo-lo de vista para mais tarde o atravessarmos em Verin, mas com olhares a darem prioridade à estrada sem reparamos nele.

 

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Chegados já a Portugal, ali pelo cruzamento de Stº Estêvão, saímos da estrada em direção aos seus grandes lagos, aqui já é o Sr. Rio Tâmega, bem adulto. Espreitámos para o grande lago, mas depois de o termos visto e acompanhado tão límpido, puro,  transparente e cristalino, a objetiva da máquina recusou-se a fotografá-lo mais e  focou-se apenas nas papoilas e malmequeres da sua margem. Para não estragar a prosa, não a contrariei!

 

Até amanhã!

 

 

16
Mai19

Cidade de Chaves - Um olhar e um poema

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AO ROSTO VULGAR DOS DIAS

 

Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

 

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

 

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

 

Ao rosto vulgar dos dias,

À vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

 

Imaginar é conhecer, portanto agir.

 

 

In "No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill

 

 

 

 

09
Mai19

Cidade de Chaves, um olhar sobre o rio

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Muitas vezes tento descobrir na cidade de hoje a vila que outrora Chaves foi. Da cidade temos muitos documentos, incluindo fotográficos, pois temos a sorte de em Chaves ter havido fotógrafos para registar todo o século passado e editores que passaram muitas dessas fotografias à prensa, quer em livros, anuários, revistas, etc,  quer em postais, pois se assim não fosse, muitas delas ter-se-iam perdido. Já da vila antiga de Chaves, apenas existem alguns documentos escritos e alguns desenhos, sobretudo militares, dos quais se realçam os de Duarte d’Armas. Mas às vezes também sou surpreendido com documentos bem mais recentes que me trazem à memória coisas que ainda são da minha geração e que hoje e que facilmente, sem dar por isso, esqueci.

 

Ao andar hoje numas leituras do “Chaves, Cidade Heróica” – (1978),  de Francisco Gonçalves Carneiro, às tantas na leitura encontrei isto, ao respeito da nossa Ponte Romana:

 

A escritora D. Emília de Sousa Costa, nas « Lendas de Portugal», assevera que ela também encantou  uma pobre mourinha que para sempre se deixou ficar escondida sob um dos arcos.

Já uma vez — conta a escritora — a moura pediu a um cavaleiro que a beijasse, para desonera-la do encanto. Ele, timidamente, recusou, com escrúpulos de cristão: fugiu-lhe, «insensível aos lamentos da infeliz que em noites de luar, presa pelas tranças aos ramos desgrenhados dos chorões, soluça e geme, de modo a apiedar o coração mais esquivo».

Eu nunca ouvi os gemidos da mourinha. Ouvi, sim, o orquestrado coaxar das rãs, agora afugentadas pelos trabalhos de desassoreamento. Teria partido, também, com elas, a moura encantada?

 

 Pois o que me fez trazer aqui estas palavras, não foi a ponte romana, nem a lenda, nem os gemidos da mourinha que também nunca ouvi,  mas sim “o orquestrado coaxar das rãs”, que ultimamente também não oiço no nosso rio… pode ser que ainda coaxem e de tão habituado que esteja ao seu coaxar já não dê por isso, mas penso que não... A noite já entrou na sua fase de silêncio, fui lá fora, afinei o ouvido e só a melodia de um rouxinol quebra o seu silêncio.   

 

11
Abr19

Momentos de poesia, ou talvez não!

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A ponte é apenas uma passagem

      Para a outra margem

                      Não interessa quem são

De onde vêm

                         Para onde vão

Indiferentes

                   Passam

                                               E

                                                             Passarão…

 

 

- Pois, bom passarão tu me saíste, ó poeta! Mas eu prefiro ter os pés bem assentes em terra, levantar voo e ir com as aves…

 

- Pra quê? Pra onde? Vais ter sempre que poisar…

 

- Se me apetecer poiso, se não, não!

 

- Se não, não, o quê!?

 

- Se não me apetecer!

 

- Ah!

 

 

 

10
Abr19

Cidade de Chaves, com um olhar além do rio e da ponte...

1600-(29771)

 

As imagens falam por si mas também podem despertar estórias que temos guardadas num cantinho qualquer da memória. Ao ver esta imagem, claro que os meus olhos passeiam pelo rio, pela nossa top model Ponte Romana, pelas cores do entardecer, etc., mas lá ao fundo, um pequeno monte na subida para a croa da Cota de Mairos, traz-me à lembrança o Manolo. E perguntarão — Quem é o Manolo!? — e eu respondo-vos, o Manolo é um amigo galego que conheci há uns bons anos atrás, que foi criado com o avô numa aldeia galega que dá pelo nome de Vilarello, precisamente localizada a umas centenas de metros atrás daquele pequeno monte na subida para a croa da Cota de Mairos, e fixei esse pormenor, porque, dizia-me o Manolo, que quando era puto, nas redondezas, o único local que tinha eletricidade era a cidade de Chaves, então à noite escapulia-se de casa do avô e subia a esse pequeno monte para ver o brilho das luzes da cidade de Chaves. Diz que ficava por lá horas em maré de espanto e apreciação, imaginando toda uma vida de cidade que teria de haver por baixo daquelas luzes. Chaves era o mundo! Já mais rapazote, contava o Manolo, vinha às feiras de Chaves com o avô que,  depois de uma volta pela feira, recolhiam aos tascos da Rua das Longras até se fazerem horas de regressar a Vilarello. Já homem feito e professor em Orense, o Manolo sempre que podia vinha a Chaves num dia de feira e ia recordando os passos que dava com o avô, agora sozinho de tasco em tasco na Rua das Longras. Uma vez disse-me: Já viajei muito, já corri muito mundo, todos os continentes, conheço muitas cidades, mas de todas, as mais bonitas que conheci, foram o Porto e XAVES. Sim, tudo em galego, com letras maiúsculas e realçado,  que ele quando dizia CHAVES, também era em maiúsculas que as dizia e com realce na voz e em galego, claro!…

Os tascos das Longras, ao longo dos anos foram fechando, penso que o último resistente (O Sequeira) também já fechou, quanto ao Manolo, sem sítios para poisar, também deixei de o ver, mas ficou o registo das suas estórias que recordo sempre que vejo aquele montinho lá ao fundo, onde a terra toca o céu.

 

Um bom dia de feira!

 

 

28
Mar19

De poldra em poldra...

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Não quero acreditar no sobrenatural e quando às vezes, as circunstâncias da vida, me podem levar a pôr a hipótese de poder acreditar, depressa desmonto a teia de pensamentos que me levam a tal. Hoje, por exemplo, passei parte da noite a pular de pensamento em pensamento como se estivesse a pular de poldra em poldra as poldras do rio, num vai em vem de quem chega à outra margem e regressa de poldra em poldra à margem de origem, assim continuamente… Entre mãos tinha a publicação dos posts de hoje, o responder ao mail de um amigo, aparentemente coisas de rotina, em que só custa começar, depois é só navegar por aí fora até chegar a bom porto. O problema é quando o nosso barco encalha num banco de areia e por mais que se insista em sair de lá, mais se enterra… mas num de repente, zás, abrimos o arquivo de fotografias e logo a primeira que vemos, dizemos, é mesmo esta. Instintivamente e sem qualquer razão,  levantamo-nos, vamos à estante dos nossos livros de companhia, mandamos mão a um livro qualquer, abrimos ao acaso numa qualquer página, começamos a ler a partir de um ponto qualquer e quando chegamos ao fim, vemos que eram mesmo aquelas as palavras que nos faltavam, que queríamos, que procurávamos para desencalhar e para parar de vez com o vai e vem da travessia das poldras. Foi assim que encontrei a imagem de hoje e as palavras para a ilustrar,  que agora vos deixo:

 

Coisa limitadora, a amizade!! Sobretudo negativa, no ponto de vista intelectual. Ou é uma contínua transigência, ou uma fonte de arrelias. Só a oposição anónima — inimiga, no fundo — estimula e faz criar. Diante dela, o espírito voa como entende. Nem há direcções proibidas, nem poços de ar pessoais, onde se cai com o coração na boca.

 

Parece à primeira vista  que seria justamente de um convívio pacífico, diário, fraterno, que sairia o tónico ideal de que todo o artista necessita. Mas não. Sem falar no cansaço a que somos atreitos, e que ao cabo de certo tempo deseroíza tudo — poemas e virtudes —, criando à volta de cada obra ou de cada atitude um vácuo de aceitação amorfa, neutra, habitual, por temperamento e por motivos de vária ordem a nossa vida individual e social, passados os breves dias da mocidade, entra num túnel crepuscular de anedotas e digestões. E, naturalmente, uma presença ou consciência de que possa perturbar esse nirvana é olhada com enfado. Daí que instintivamente cada qual vá limando, até sem dar por isso, as arestas do seu espírito, para não levantar atritos. A guerra perpétua é impossível, tanto nas relações dos povos, como nas das criaturas. E surge insensivelmente o compromisso: nem se medem as irregularidades do caudal criador, para não ofender, nem se agitam as águas estagnadas do afecto, para não perturbar. Ora um artista não pode limar as arestas de maneira nenhuma. Pelo contrário. Se os outros envelhecem, desistem, e por cansaço ou piedade o poupam a críticas e a desilusões, ele é que precisa de estar sempre vivo e alerta. E eis a mortificação. Sedento de calor humano e agrilhoado ao seu destino de inquietador, o desgraçado vê-se entre a espada e a parede. Para ser fiel aos sentimentos, tem de parar; para não trair a sua estrela, tem de prosseguir. E nessa incómoda carroça de duas rodas, que caminham em direcções opostas, lá vai ele, umas vezes a esconder o que faz, outras a ler uma página como quem espeta um punhal ou arrisca a própria vida.

Miguel Torga, In Diário VI

 

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