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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ABATE.

 

Com as mãos crispadas, Reis mirou a arma que, sorrateiramente, retirara de uma gaveta da secretária. Segurou firme a velha, mas ainda ativa pistola e viu, não mais do que a um lapso de tempo, o cigano estatelar-se ao chão, ensanguentado. O arrogante inimigo estava a perder, não só essa liberdade e juventude, que tanto queria prolongar, mas o bem mais precioso de todo ser e que, ao desejo de Reis, a Pneumónica deveria ter levado consigo para sempre.

 

Por muitos segundos, o pai de Aurora respirou com dificuldade, quase à apoplexia, enquanto via o seu desafeto agonizar sobre o piso encerado do escritório. Ainda que a cadeia o viesse albergar, Reis sabia que as leis do país, como em quase toda parte no mundo, sempre são maleáveis para quem tem fortuna. Aquele, portanto, era de facto um bom momento para acabar com a maior parte dos seus infortúnios.

 

Empunhou a arma com firmeza, mas, afinal, controlou-se. Ainda que viesse a ser liberto de pronto pela Justiça dos ricos, ainda mais que, àqueles tempos, o ato se atenuava como um crime de honra, Reis pensara, de repente, em sua família. Não estivesse ele, o patriarca, a ser um Édipo, mesmo sem Laio nem Jocasta, a trazer mais e mais desgraças para a Tebas da Grão Pará. Pôs-se então apenas a gritar com fúria – Tu, seu... seu... Cospe-te daqui! Rua, seu canalha, rua! Hás de pagar ainda, algum dia, por tudo o que fizeste! – ao que, estonteado, Hernando correu porta afora. Nem por menos se haveria ali, qualquer minuto mais!

 

Gerente e amigo de Reis, o Mota entrou na sala do escritório, a tempo de socorrê-lo com uma generosa água fresca e açucarada – Pronto, pronto, vê lá se te acalmas! – mas seu chefe foi até à saída lateral e esbravejou – Que vás à pata que te chocou! – ao que o Mota, sem a indiscrição de perguntar quem era o gajo acabado de sair, disse-lhe apenas que, no beco da Travessa do Loureiro, já lá estavam dois tipos muito estranhos a esperar pelo rapaz e os quais, mais céleres do que uma lebre na caçada, seguiram a correr junto com ele, rumo à Ladeira do Trajano.

 

  1. DESPEDIDA DE SOLTEIRO.

 

Às vésperas das bodas de Alfredo, o noivo estivera a gozar com os amigos do Liceu os seus últimos momentos de puto livre. Andar na gandaia, como fazia sempre que pudesse, em um...

(continua)

 

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12
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. COMBATE.

 

Passaram muitos dias e noites a trotar pela veiga, com suas crinas de sóis e luas, sem que o jovem se dignasse a atender aos vários chamados de Reis, que lhe mandava insistentes recados para o moço ir à Quinta, a fim de tratar de “um assunto muito importante e de interesse comum”. Bastante enraivecido, Papá constatou, então, que já estava quase a perder a dignidade e, ao voltar do comércio, dirigiu-se à casa onde moravam os Camacho.

 

Atendeu-lhe a matriarca, com peculiar educação e alguns salamaleques exagerados, pois ela já se havia com a total certeza de que o filho andara a aprontar uma tontice, e (sem trocadilho) da maior gravidade. Logo, porém, apressou-se a dizer, com visíveis contradições no fraseado, que o filho estava a visitar uns parentes em Nazaré. João Reis considerou então que, a esse gajo cobarde, melhor seria chamá-lo a receber em sua loja principal, à Rua Santo António. Lá ele dispunha, inclusive, de uma discreta saída para a Travessa do Loureiro, justo a ser usada como acesso alternativo ao seu escritório.

 

Foi por essa pequena entrada que, algumas tardes depois, sem aceitar o convite de tomar assento, Hernando postou-se em pé, diante da mesa do pai da brasilita. – O senhor está a me chamar, não é? Pois eu gostava de saber o porquê de tanta insistência. Posso saber do que se trata? – e, diante de tal petulância, o sangue aflorou às têmporas de Reis. Este também evitara sentar-se (o que iria colocá-lo em posição submissa) e se esforçava por não ceder aos impulsos de esganar o pescoço do rapaz, a seu ver o mais cínico e abominável dos homens.

 

Iniciou a entrevista, porém, com as mais educadas maneiras – Apesar do que o povo fala de sua gente, conheço muitos ciganos de bom caráter e educação. Seu pai mesmo, pelo que vejo aos jornais, é bastante conhecido da elite de Chaves e até participa de banquetes, como foi citado, recentemente, na despedida do doutor Vicente Aragão. A senhora sua mãe, inclusive, me parece uma senhora muito distinta e trabalhadeira. De sua irmã e do seu cunhado, tenho apenas bons conceitos. Seu irmão Paulino é um jovem sério e, segundo falam, até muito estudioso. Disseram-me até que vai ocupar um alto cargo na administração do Concelho.

 

O Camachito confirmou, com um aceno de cabeça e Reis continuou – Estou até mesmo a saber que seu primo Inácio fez mal a uma rapariga não-cigana, moradora em Valpaços, mas com ela contraiu matrimónio de modo livre e de boa vontade. Tão bons eram os sentimentos dele para com ela que, na hora do copo d’água, a todos pareceu estar o rapaz muito alegre com as bodas e assaz feliz com a noiva, pois viram mesmo os nubentes, a todo o momento, fazerem públicas demonstrações de carinho e de...

 

Hernando interrompeu-o, rude e bruscamente – Por favor, senhor Bernardes, já sei aonde o senhor quer chegar. Pois que a isso cheguemos logo, se me faz favor! – o que deixou João Reis mais e mais irritado, a medo de perder o controlo em definitivo – Bem sabe o senhor o que fez à minha menina. Não são coisas de um homem digno, mas não lhe pedi que viesse aqui para ofendê-lo, ainda que o senhor mereça. – e mais irado ficou o Reis, quando o rapaz encarou-o, com toda a sua peculiar arrogância – Sua filha sabia muito bem o que estava a fazer. Não lhe levei ao logro nem a falsas promessas. Fez o que fez, porque quis.

 

 Tal assertiva deixou o Papá ainda mais exasperado – Oh céus, como são fracas as criaturas de Deus! Pensar que a minha Aurita, desde quando ainda era um pouco mais do que miúda, já amava o senhor! – e, sem esconder o imenso desprezo – O senhor!!! Pois faça ao menos como seu primo e todos os cavalheiros que se prezam. Case com ela! – ao que sucedeu uma longa pausa, na difícil conversação, até que Hernando falou – O senhor não deve desconhecer que não há lei alguma, em todo Portugal, que m’ obrigue a perder o celibato por sua filha. O senhor bem sabe, melhor do que eu, que ela já é maior de idade e, portanto...

 

Reis lhe fez lembrar que – A rapariga de Valpaços também já era emancipada e o Inácio… – ao que o cigano contestou – Ora, pois, o Inácio! O que eu tenho a ver com isso? Ele é ele, eu sou eu. Se calhar, vai ver que, de facto, ele ama demais essa rapariga. Sei lá... Fez o que ele quis e o que achou por bem fazer. Cá eu, no entanto, não vê o quanto ainda sou jovem? Não quero ver perdida assim, de pronto e, pra tão logo, a minha liberdade. – o que fez o patriarca dos Bernardes murmurar, para si mesmo, que perdida, no entanto, esse patife já lhe quisera a filha!

 

Em último apelo, João Reis propôs ao rapaz – Se calhar, passado algum tempo após nascer o bebé, o casal poderá divorciar-se e então... Depois disso, o senhor Hernando poderá se haver como quiser. Quanto à criança, nós a criaremos com todo o nosso... – mas o cigano o cortou, de pronto – O divórcio não é bem visto pela minha gente. Ademais, essa rapariga... se ela se pôs a perder comigo, assim, tão facilzinho, o que me garante... vamos, diga-me o senhor... que segurança eu vou ter de que ela, mesmo ao viver comigo por um breve tempo, será sempre honesta?

 

 

  1. ABATE.

 

Com as mãos crispadas, Reis mirou a arma que, sorrateiramente, retirara de uma gaveta da secretária. Segurou firme ... 

 

(continua)

 

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05
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BUENA DICHA.

 

Só muitos dias depois de saber da prenhez de Aurora, no entanto, como sói fazerem os filhos ciganos, em momentos de grande tensão, Hernando correu a pedir à mãe que deitasse cartas à mesa, para ver sua sorte.

 

Apesar de obrigada a cumprir os preceitos tradicionais e, portanto, não poder recusar o que o filho pedia, não apetecia a dona Mariazita saber-lhe do destino. Tinha medo de que as cartas (como no dito popular - as cartas não mentem jamais!) não lhe mentissem sobre mortes, doenças ou quaisquer outros perigos iminentes, que pudessem ocorrer ao Hernandito ou a quem mais de sua família. Posta sobre a mesa a cartomancia, a cigana falou ao rapaz com um ar apreensivo, sobre o facto novo de a dama de ouros, aquela que sempre aparecia junto ao valete do mesmo naipe (pois que, para ela, o filho era sempre de ouros), agora ser de copas. Portanto, ou ele mudara de namorada, ou, a que estava a ser sua, deixara de ser moça para ser mulher.

 

Anteviu, então, que Hernando ia passar por alguns momentos de grande tensão e até mesmo riscos de morte. Aliás, algo de bem aterrador já estava a se planejar por dois outros valetes. Profundamente aborrecida, Mariazita ergueu a carta da dama – É a filha de nossos vizinhos, não é? Seu tonto, seu aparvalhado! – ao que Hernando – Ora, pois, minha mãe, é melhor que não te metas nisso! – e ela – Ai meu Deus do Céu, valei-me Santa Sara!

 

  1. COMBATE.

 

Passaram muitos dias e noites a trotar pela veiga, com suas crinas de sóis e luas, sem que o jovem se dignasse a atender aos vários chamados de ...

 

(continua)

 

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29
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. JUDAS DE ALELUIA.

 

Para uma vingança mais fácil, mais leve e em muito boa hora, logo surgiu a ocasião.

 

A ideia de execução foi da própria Arminda e os irmãos se encarregaram do mais, ao chegar o dia de malhar o Judas, por obra e graça, gracejos e graçolas dos putos e miúdos, no Sábado (então considerado) de Aleluia. As maltas andavam à solta pelas ruas, à cata desses bonecos de pano com enchidos de palha por estripar.

 

Perto da Quinta do Caneiro, os caçadores de judas encontraram um espantalho vestido de cigano à moda tradicional e com um lenço encarnado ao pescoço, que a todos lembrava o perfil de um certo morador da vizinhança. Ao esventrarem o boneco, trajado de modo tão garrido e adornado de joias baratas, os garotos acharam vários papeizinhos que, atendo-se apenas a crimes de honra e de responsabilidades morais, expunham o quê e a quem se destinava o testamento do Judas.

 

Nestas profanas Escrituras, certo cigano era descrito como pessoa de péssimo caráter. Narrava-se a todos o seu vergonhoso comportamento de marialva e dom-joão, para com mais de cinquenta mulheres trasmontanas de boa-fé, que a todas o gajo alcançava iludir e, logo mais, já estava ele a dar às de vila-diogo. Isso era verdadeiro quanto à qualidade dos logros, mas, no que tangesse à quantidade, decerto que exageravam. Acabavam por torná-lo admirado e enaltecido por muitos machões trasmontanos, os que lhe eram da mesma laia.

 

 

  1. BOCA FECHADA...

 

...não entra mosquito. Apesar de Hernando dizer-se bom de briga e, quem sabe, até chegar a sê-lo, embora se conhecessem dele apenas as habilidades no Malhão, o rapaz viu, nas bofetadas de Zefa, uma pequena amostra do que lhe poderiam fazer os irmãos de Aurora. Ademais que eram vizinhos bem próximos. Havia também o hercúleo Manuel de Fiães, que lhe viera segurar as golas do paletó e fazer ameaças, com ponderáveis chances de se tornarem realidade.

 

O cocheiro fora por conta própria até ao cigano, a gastar com ele o que lhe era a única sovinice, ou seja, o verbo – A ca... casar não te po...posso... obri... brigar, seu velhaco... – e chegou a soltar a voz de enxurrada, como fazem os gagos a cantar – Mas vou deixar-te estropiado, com as minhas mãos na garganta e um chute nos colhões, se di... disseres a qualquer pessoa que ela está... tá... grá... grávida de ti, a menina Aurora! – Isso fez Hernando balbuciar, com as faces mais brancas do que as do cadáver que, ele próprio, já estava a se imaginar – Está bem, ó pá, deixa estar! – e até mesmo a tartamudear, como se estivesse, sem querer, a imitar o moço de Fiães – Des... des... desta boca, ja... ja... jamais sairão coisas que… que... que se não devam dizer!

 

Percebeu então que, muito antes de João Reis saber dos feitos, o cocheiro já desconfiava dos factos, graças a algumas imprudências dos amantes, no fortuito relacionamento que desejavam manter em segredo. Manuel nunca vira nada disso com bons olhos, mas não sabia, àquela ocasião, que atitude deveria tomar.

 

 

Hernando tratou, pois, de silenciar acerca de tudo que se passara entre ele e a filha de João Reis. Controlava-se até mesmo nas tavernas da Madalena quando, entre vários outros gajos fanfarrões, a se enfrascar de pinga, sentia ganas de contar – Oh, pá, nem sabes de uma, andei a ganhar as graças de uma rapariga e logo lhe mostrei o que é ser um garanhão dos bons! – e até à dona Mariazita, sua mãe, quando esta perguntou – Que andaste a fazer por aí, meu parvo, que estás a cismar no bestunto, feito um asno? – respondeu – São coisas da minha cachola, ó mãe, não metas cá o bedelho, pois já não te sou mais nenhum fedelho que ainda esteja por desmamar.

 

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Bairro da Madalena, Chaves antiga (PT). Postal público. Foto Alves.

 

 

  1. BUENA DICHA.

 

Só muitos dias depois de saber da prenhez de Aurora, no entanto, como sói fazerem os filhos ciganos, em momentos de grande tensão, Hernando correu a pedir à mãe que...

 

(continua)

 

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22
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AMOLADOR DE FACAS.

 

Certo galego, amolador de facas; era nele em quem os irmãos de Aurora estavam a cogitar, ao planejarem os mil e um (e mais alguns) modos de vingar a honra da irmã. Teriam só que aguardar o próximo mês quando, à primeira semana, como sempre ocorria, passava ao Raio X o Ti Manolo. Era um galego de Ourense, com sua roda de amolar tesouras e facas. E os ouvidos, também, porque era com sibilantes assobios que ele assinalava a sua presença, como se estivesse a anunciar a si mesmo, à moda dos amoladores no Barroso – “Cá está pro que amolais! Agulhas e dedais! E ‘otras cositas más’”.

 

Ao ouvir os silvos da roda, as mulheres acorriam das casas, com seus instrumentos de cozinha, cegos pelo uso ou necessitados de desamolgar. Também lhe levavam os chapéus-de-chuva a colocar varetas, louças partidas para colar com arte e panelas rachadas a consertar. Aqui e ali, posto que também conhecido por se dedicar a funções menos nobres, donos de quintas faziam-no adentrar os terreiros e estábulos, para Manolo lhes capar os porcos, bezerros, cavalos e cães. Por exercer também tal ofício, até contavam histórias de alguns ricos proprietários de terras, em aldeias do Barroso, que lhe tomaram os préstimos para justiçar os autores de suas filhas desonradas ou, até mesmo, reparar alguma injustiça de que se julgassem vítimas, em alguma demanda com outros aldeães.

 

Foi o caso de um pequeno proprietário no Douro, que se houvera roubado por um vizinho de um modo cobarde e perverso. Este pagara propinas a alguns homens da Lei e ganhara a questão, deixando o pobre homem quase na miséria. Quase, porque algum dinheiro ainda sobrou para chegar às mãos de Ti Manolo, quando o injustiçado já estava a bordo de um vapor em pleno oceano, bem longe do local onde as mãos que lavariam a afronta não seriam as do injustiçado duriense. Dele, seria apenas o gozo de uma esperada notícia.

 

Adveio que o vizinho corrupto (e corruptor) estava a passear sozinho por um carreiro deserto e recebeu um golpe na nuca que o deixou alheio ao mundo. Ao acordar viu, aflito e aterrado, que lhe haviam roubado uma das joias mais importantes de seu tesouro pessoal. Não imaginava quem fosse o autor, mas sabia muito bem dos porquês e do possível mandante. Aos mais íntimos, e apenas a estes, contou que – De repente, a fera estava ali, bem ali, diante de mim! Era um lobo faminto que me atacou, mas eu resisti bravamente, a lutar pela minha vida. A besta fera não conseguiu me arrastar para sua toca e me fazer de ceia, mas... acabou por levar um pedaço do melhor de mim, como sobremesa. Que se vão os anéis, ora diabos! Mas que me fiquem os dedos! – mas, nesse caso, facto é que o dedo restante só poderia servir de mero resíduo fisiológico.

 

 O certo é que, pelo sim, pelo não, nunca mais o Ti Manolo apareceu naquelas paragens.

 

 

  1. AMOLADOR DE FALOS.

 

A mais comentada façanha do amolador foi, certa vez, deslocar-se até ao Porto para encontrar o almocreve salafrário que, aos fins de nada e de nenhuns, senão por estúpida fanfarronice, valera-se da ingenuidade de uma sobrinha do próprio Ti. O atrevido fugira logo depois do ato consumado, certo de que o galego que amolava facas, mas também sabia cegar uns canivetes, nunca iria alcançá-lo.

 

Quando, na Ribeira, os empregados da hospedaria onde o moço se albergara foram acudir aos seus gritos, um sangue abundante manchava os lençóis. Viram então que o infelicitado hóspede, entre gritos de intensa dor, já não estava mais a contar com dois de seus trazidos mais preciosos. A Polícia do Porto, no entanto, ficou a desconhecer, para sempre, quem fora o rústico autor dessa terrível cirurgia. É que Manolo, ao cabo da obra, dissera ao eunuco, em bom Galego, ora aqui traduzido – Melhor que não contes nada a nenhuns, senão te venho, te pego de novo e te desfaço do resto. Vais ter que mijar sentado, feito uma dama!

 

Os irmãos de Aurora ficavam muitas horas a contar essas e várias outras histórias do amolador de facas, algumas já transformadas em lendas regionais - Ti Manolo é que é bom nesse mister; o Ti já está quase a passar cá por Chaves; ora, pois, temos de falar com o Ti capador; Ti Manolo está sempre a gostar de ver cheio o cofrezinho dele; o Ti não vai recusar nenhum serviço; esse cigano maroto logo vai saber, com o Ti Manolo, porque se diz “morto o bicho, morta a peçonha ... Enfim, era Ti Manolo pra cá, Ti Manolo pra lá, Ti Manolo pr’ acolá

 

Papá acabou por lhes ouvir o que estavam a planear e os chamou às falas – Todavia, meus rapazes, o momento é de tal sorte delicado que, portanto e porquanto, qualquer ato impensado poderá prejudicar ainda mais a tranquilidade da nossa família. Estão a me escutar ou querem que lhes mande lavar as orelhas com a esfregona? – o que levou Afonso e Alfredinho, após o sabão do pai, a nada mais pensarem ou planejarem, em seus arroubos de vingança. Meros arrebatamentos juvenis, na verdade, pois não tinham em si mesmos, em seus modos sensíveis e generosos, a menor aptidão para cozinhar aquela célebre iguaria, que se come em prato frio.

 

  1. JUDAS DE ALELUIA.

 

Para uma vingança mais fácil, mais leve e em muito boa hora, logo surgiu a ocasião. A ideia de execução foi da própria Arminda e os irmãos se encarregaram do mais, ao chegar o dia ...

 

(continua)

 

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15
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NÓS.

 

 

Graças à boa Zefa, Aurora concertou um encontro com Hernando, apesar de toda a vigilância familiar. Por mais que houvesse ensaiado mil palavras duras para dizer ao rapaz, sentiu uma alegria tão grande e sem controlo ao revê-lo que, de si para si, obteve a evidente certeza de que ainda o amava. Duro, frio e distante, todavia, era o gajo que estava agora diante de si – Que estás a querer, menina, diz logo, pois não estou a dispor de horas perdidas – e ela, no seu tom humilde de sempre – A perder me deixaste!

 

Os braços, que já estavam a preparar os carinhos para o abraço, caíram tristes ao longo do corpo – Papá quer que venhas até ele, para te falar sobre nós – ao que ele contestou – Mas em quantos nós ele me quer atar? – e, de súbito – Quer dizer, então, que todos em tua casa já estão a saber do que fizeste? Pois que bem me ouças... – então ele expeliu toda a sua fanfarronice – Cuida que os teus irmãos não estejam a querer me pegar de jeito, como fazem outros por aí, pois esses franganotes podem se dar muito mal. Que não se metam comigo! Sabes que sou muito bom de briga – ao que completou, a mostrar uma navalha – E de corte!

 

Aurora persignou-se – Ai meu Deus misericordioso, que não venha a se dar connosco uma desgraça maior! E então, vais falar com o Papá? – Não sei, vou pensar. Nada me obriga a procurar esse senhor – ao que ela, revoltada – Nada?! Mas nada, como, Hernando e esta criaturinha que está a crescer dentro de mim?! – Ele, todavia, foi ainda mais áspero e ríspido – Que tenho eu a ver com isso? Fizeste porque quiseste! E sei lá se, com outros mais, já não andaste também a brincar pelos túneis da Galiza?! – e, a cuspir crueldade – Os homens não têm asas de anjo, mas as mulheres... todos sabem que vós tendes o Diabo no corpo. E como vou lá saber se, de facto, o sangue a correr nas veias desse miúdo é o mesmo que corre nas veias de meu pai, de meu avô e de todos os meus ancestrais?! – ao que a rapariga apenas olhou para ele, estarrecida.

 

Zefa, porém, que a tudo assistia, chegou-se até ele, armada da força de quem amassa o trigo para fazer pão, ou de quem torce, com firmeza, os lençóis acabados de lavar. Aplicou-lhe à cara dois bons e sonoros tabefes. Doeram, pois – Ai que estupor de mulher, que estás a fazer?! Cuida que, se fosses macho, eu pra já te arrebentava as ventas e… e… tudo o mais que me apetecesse te quebrar! – mas a criada já se valia de um porrete para defesa, quando o gajo meteu o rabo entre as pernas e estas… para quê vos quero! Evadiu-se por entre as árvores do pomar, rumo ao portão, a praguejar e esbravejar, fulo de raiva, com as faces avermelhadas pelas mãos de Zefa – Que estropício! Que bruxa! Que megera!

 

  1. AMOLADOR DE FACAS.

Certo galego, amolador de facas; era nele em quem os irmãos de Aurora estavam a cogitar, ao planejarem os mil e um (e mais alguns) modos de vingar a honra da irmã. Teriam só que...

 

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08
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

Uma noite inesquecível chegou, de repente, à memória de Aurita.

 

 

  1. VIGILANTE.

 

Papá estava com a pistola nas mãos, em companhia de Manuel de Fiães, a proteger a casa e os que nela habitavam, de algum monárquico fugitivo que estivesse a correr pela Estrada do Raio X e achasse, por bem, ou por mal, acoitar-se na Quinta.

 

Naquela noite de gritos de Viva a República ou Viva a Monarquia, em doze de Julho de 1912, a menina Aurita, quase a completar os dez anos de idade, deixou Mamã a rezar com os mais no quarto e se dirigiu ao patriarca – Que estás a fazer, Papá, com essa pistola? – e este, que não era dado a carinhos físicos aos filhos, pegou-lhe o queixinho e lhe respondeu, com a ternura expressa nos olhos e na voz – Estou a velar por todos nós, cá desta casa, minha boa menina. Especialmente por ti, a modo e à sorte que nunca, em tempo algum, homem nenhum apareça para te fazer mal!

 

 

  1. SILÊNCIO.

 

No dia seguinte, João Reis mandou chamar todos à sala de estar, inclusive Alice e as criadas, para um pronunciamento de suma importância. Ao cocheiro, não precisava convocar, porque além de leal, já era de seu feitio ser discreto, retraído, caladão.

 

Papá recolheu-se ao gabinete e, tão logo soube que todos já estavam à sua espera, foi até à sala e disse, em tom pausado e firme – Vou falar por agora, de uma só vez e basta! Durante todo o tempo que se fizer necessário, nenhum dos senhores há de abrir a boca para as pessoas lá de fora, a falar de qualquer coisa – e enfatizou – QUALQUER COISA que se passe aqui dentro, entre as paredes da quinta! – após o que falou, com mais dureza ainda – Nem mesmo aos parentes mais chegados! Não comentem nada sobre qualquer assunto que diga respeito à nossa família! – e concluiu – Estão todos a perceber o que lhes falo ou querem que lhes meta na cabeça, uma vez mais, esse voto de silêncio que todos, aqui, devem guardar? Pra já, é só. Estamos conversados!

 

A partir desse dia, as refeições passaram a ser uma hora de grande constrangimento, para aquela filha proscrita do coração paterno, mormente quando Papá dirigia-se a Florinda ou aos irmãos – Dizei a essa menina que me passe o azeite! Dizei à menina que me chegue cá o vinho! Dizei à menina que melhor faz ela em comer alguma coisa, pois não quero que se venha a estender, por sua causa, cortinas pretas às janelas! – todavia, com o passar do tempo, os mais e a própria Aurora acabariam por assumir as rotinas de suas vidas, ainda que, agora, ligeiramente modificadas.

 

 

  1. NÓS.

 

Graças à boa Zefa, Aurora concertou um encontro com Hernando, apesar de toda a vigilância familiar. Por mais que houvesse ensaiado ....

 

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02
Jan19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SENTENÇA.

 

Aurita não pôde mais suportar esse incómodo silêncio que lhe parecia infinito. Murmurou, baixinho – A bênção, Papá! – e completou, de modo quase inaudível – Me perdoe, Papá, o senhor me perdoe! – mas passou mais algum tempo, angustiante, sem que ele se manifestasse. Por fim pronunciou, em tom igualmente baixo – Que o verdadeiro Senhor de todos nós e a sua Mãe Santíssima te abençoem e te perdoem, pois que, do perdão e da bênção deles, é que mais estás a precisar! – e, a erguer a voz – Mas o que fizeste, rapariga, tu, a quem sempre estivemos a mimar, com todo o nosso amor?!

 

Voltaram-se para ela duas tochas de fogo – Como é que podes ser assim tão tonta e não pensar que o passo que deste não te fez perder só a ti, mas a toda a tua família? Não percebes, ora, pois, que ainda poderás fazer que percamos muito mais? Trazer a desgraça a esta casa, que Deus sempre gostou de abençoar?! – Calou-se um migalho, depois bebeu um gole de conhaque – Já não bastava o teu irmão Alfredo, a se haver pelos cantos com essa maluquinha, trazendo a vergonha a esta quinta... Mas ele é homem e até se pode compreender. Os homens, ainda mais quando são uns meros frangotes, têm certas necessidades que as mulheres não têm... – embora a menina Aurita, agora mulher, já bem soubesse que tal axioma não era lá, assim, tão digno de crédito.

 

Esperou, silente, que o Papá concluísse – Mas tu, tu, que és uma menina, como é que foste tão estúpida, a cabo de perder a cabeça com esse patifório, esse… esse canalha, que dizem ser cristão, mas... Santa Sara me perdoe, ele há de ser mesmo é devoto de Satanás! – e, após uma tonelada de silêncio (pois que o silêncio, ás vezes, pesa muito e era demais o volume do fardo que ela estava a suportar), Reis estendeu o indicador na direção da vidraça. Parecia um juiz à hora da sentença – De hoje em diante, não sairás desta casa a lugar algum, enquanto não deres à luz esse fruto infeliz do teu transtorno e desatino! Nunca dês a cara a nenhuma das janelas, nem passes perto delas, sem que esteja fechada e não te possam ver! – Olhou então com ódio para o outro lado da rua – Manda dizer a esse malfeitor que me venha falar o mais breve possível – e, por fim, o que iria fazê-la arrebentar de soluços – Nunca mais me dirijas a palavra, nem mesmo para pedir a minha bênção!

 

Aurora correu aos prantos até seu quarto, onde Alfredo a esperava. – Que asneira é essa que vieste a cometer, minha irmã? – Oh, Alfredinho, deixa-me em paz, por caridade! Por piedade, irmãozinho, deixa-me com essa dor a magoar, da cabeça aos pés! – mas o rapaz segurou-lhe as mãos – Oh, maninha, eu só vim dizer que não estou a te julgar nem condenar. Espero de coração que tudo se arranje bem, para o bem de todos nós. E que hás de contar sempre com o ombro amigo de teu irmão, nem que ele te sirva, apenas, para encostar a face e chorar os desabafos! – e ela, então, balbuciou – Obrigadinha, Alfredo, que Deus te pague! – e se atirou ao leito, agora sem lágrimas, oca e esvaziada por dentro, a olhar para o infinito que se estendia além das paredes, além da veiga, além do Brunheiro, além do mundo!

 

Uma noite inesquecível chegou, de repente, à memória de Aurita.

 

 (continua)

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18
Dez18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NASCER DA AURORA.

 

As dores do parto começaram naquele segundo domingo de outubro de 1902, quase ao alvorecer, na pequena casa com jardins laterais, de onde exalava um forte aroma de bogaris, à Rua Veiga Cabral, não muito longe da Praça da Sé. Chegava até ali o barulho de fogos, a saudarem o início da procissão. Daí a nada, as ruas da cidade que, àquela altura, era uma das maiores e mais populosas do país e, nesses dias, enchia-se mais ainda com os forasteiros, iriam coalhar-se de devotos, uns a acompanharem a procissão, outros apenas a assistirem a passagem do Círio.

 

Enquanto sua cunhada Ermelinda assistia a irmã, João Reis pediu a um vizinho que lhe providenciasse uma charrete e, ao cocheiro, que fizesse voar os cavalos, sempre ao desvio das ruas por onde a romaria fosse passar. Seguiram até à morada de uma excelente parteira, lá para os lados do Umarizal. Tiveram enfim a sorte de achar a senhora em casa, ainda a mexer na panela o vatapá, feito à moda local, nos finalmente desse almoço de domingo do Círio que, para os paraenses, é um ror de pratos típicos da gastronomia amazónica, tão farto quanto os natais brasileiros ou as consoadas lusitanas.

 

Ao se aproximarem de volta a casa, um chorinho de bebé deixou João Reis preocupado. A vinda da parteira tinha sido quase em vão, pois a criança não quis esperar e já viera ao mundo pelas mãos de uma vizinha “curiosa” que, para esse mister, entendia ao menos dos procedimentos imediatos.

 

Reis olhou amorosamente para sua querida Flor e, a seguir, sentiu-se inebriar de uma grande ternura por sua primogénita, aquele serzinho frágil, miúdo, que acabara de nascer. Pois que resolvera chegar às primeiras horas da manhã, chamaram-na de Aurora. Seria este o nome que, logo em breve, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, os santos óleos e a água benta iriam confirmar.

 

(continua)

 

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11
Dez18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIA DO CÍRIO.

 

Era dia do Círio de Nazaré e as vigilengas chegavam como cardumes na Baía de Guajará. Ancoravam no Porto do Sal, nas Docas do Reduto ou ao Ver-o-Peso, a trazer de vários vilarejos, próximos ou distantes, situados à beira de rios e igarapés (riachos largos e, muitas vezes, profundos), os romeiros para a tradicional procissão paraense.

 

foto cap-145-1.PNG

Docas do Reduto, Belém do Pará (BR). Postal antigo (1885). Autor desconhecido.

 

A catedral de Santa Maria de Belém (1771), na Cidade Velha, é um templo de especial beleza em seu interior. Dela iria sair (como nos dias atuais) o cortejo com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, a original. Essa pequena escultura foi achada, a um ribeiro, por um pescador de nome Plácido, perto de onde se ergue, atualmente, uma imponente basílica em louvor à Santa. A ela se atribuem milagres, contam-se lendas. Na véspera, havia sido trasladada para a Sé, desde a capela do Colégio Gentil Bittencourt, onde até hoje, após a quadra nazarena, a Santa volta a ser guardada pelas freiras que regem a instituição.

 

Com a placidez própria de uma santa em seu andor, resguardada em sua Berlinda, que ainda se encontrava no interior da Catedral, a veneranda Senhora esperava, pacientemente, o início da procissão. A Berlinda é um oratório revestido de flores e frisos dourados, com seus quatro lados de vidraça transparente, em cujo interior a Santa é carregada.

 

A imagem é guarnecida de um rico e trabalhado vestuário, em que sobressai um manto ornado de pedras preciosas, bordado por piedosas senhoras da elite local, especialmente para a grande procissão. O conjunto se completa com uma coroa de ouro para a Virgem, onde hábeis mãos de ourives locais incrustaram valiosas pedras da região. Na praça ao lado da Matriz, já lá estava o Carros dos Milagres, com esculturas e painéis pintados, a representarem os pretensos milagres mais conhecidos da Virgem. Entre estes, o que teria contemplado o próprio pescador caboclo que achou a preciosa imagem e o dos marujos, salvos de um naufrágio em alto mar. Adiante, o Carro dos Votos estava a carregar partes diversas do corpo humano, confecionadas da mesma cera com que se fazem as velas. Fiéis também traziam muitas casinhas de madeira ou feitas com a polpa de miriti (palmeira típica da região), além de vários outros tipos de oferendas, todas para honrar as promessas e as consequentes graças obtidas. Ao chão, estavam ainda enroladas as cordas com as quais, de um lado e de outro da procissão, homens e mulheres iriam fazer a Berlinda mover-se para adiante, circundada e, ao mesmo tempo, isolada da multidão.

 

O ato de puxar a corda é um manifesto de gratidão a Nossa Senhora de Nazaré e, ao mesmo tempo, um pagamento pelas promessas atendidas pela Santa. É um sacrifício tão árduo ou mais do que o dos penitentes, que acompanham a romaria de joelhos, ou dos que, então, ficavam a carregar pesados potes de barro com água fresca, para amenizar a sede dos romeiros, sob o forte calor tropical (substituídos, hoje, por copos e garrafas de plástico). Suados, descalços, colados uns aos outros, esses pagadores de promessas enfrentam com a corda, de facto, um ritual doloroso, mormente porque as mãos, se não forem envolvidas em panos bem resistentes, ficam geralmente muito magoadas. Os pés, doridos, cheios de calosidades, podem até mesmo ficar em carne viva.

 

foto cap-145-2.PNG

Círio de N. S. de Nazaré, Belém do Pará (BR). Postal público, antigo. Autor desconhecido.

 

Outro tipo de carne, porém, em certa época, chamou a castíssima e reverendíssima atenção de um bispo. Este denunciou à Santa Sé que muitos fiéis, ou melhor, verdadeiros infiéis estavam a profanar aquele rito votivo, pois se aproveitavam da contiguidade física para o que ele chamou de “obscenidade, depravação e sem-vergonhice”. Essa prática de puxar a corda, segundo o bispo, “jamais deveria ser permitida, menos ainda em um cortejo de santificada devoção”. Daí em diante, como é costume até hoje, os homens passaram a puxar a corda de um lado e as mulheres do oposto. Sempre suados, descalços, colados uns aos mais de seu próprio sexo, muitos a desmaiarem de insolação.

 

Ainda assim, dizem que alguns puxadores, atingidos pelos descontrolos carnais que a situação lhes propicia, acabam por se deixar transportar a levitações nada místicas. A esses cuidados imprevistos, porém, não os alcançou o castíssimo e reverendíssimo bispo de antanho!

 

(continua)

 

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