Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Abr19

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. HERMES.

 

 

Ao mesmo dia em que, a um gaguejar maior do que a tartamudez do cocheiro, Maria de Tourém veio contar a Florinda tudo o que se passava na Vila, dos mexericos, à boca pequena, aos impropérios de línguas enormes, o sempre mui nobre e leal Mota adentrou a sala de Reis, à Rua Santo António, como se fora Hermes, o deus grego das mensagens. Postou-se em pé, diante do patrão, imóvel e se pôs a apreciar o belo óleo de José Malhoa à parede, próximo à janela. – Que foi, Motinha, que estás a querer? – e o Papá indagou de novo, a melhor observá-lo – Que tens, homem de Deus? Estás a passar mal? Doenças se curam, Mota. Isto é, quase todas – e a repetir para si mesmo – Quase todas!

 

Este foi um gancho para o seu fiel assessor dizer ao que vinha – Estejas a me perdoar, João Reis, mas quando se tem alguém à estima, devemos ser sempre fiel e contar tudo o que se passa à volta, não achas? – no que Reis – Porque me falas assim, algum problema no escritório? Algum empregado está a se comportar como não deve? – mas antes que o outro lhe respondesse, uma nuvem passou diante dos olhos e logo se lhe mostrou um péssimo mormaço.

 

Já nos últimos dias, Reis percebera que, ao passar diante de algumas pessoas da cidade, estas o cumprimentavam de modo estranho. Já sabia dos boatos sobre a tísica e até mesmo sobre a hanseníase, a bíblica e milenar lepra dos estigmas e preconceitos de outrora. Talvez porque todos nós, em geral, queremos sempre retardar a consciência dos maus sucessos que estão prestes a advir, o patriarca tapara o quanto pudesse o Sol em seus olhos, com a peneira de nuvens que, agora, o Mota estava prestes a desanuviar – Está bem, Mota, podes falar. E se bem me parece, é algo muito grave, não é?

 

O gerente, enfim, mirou João Reis, face a face – Grave, meu amigo, muito grave, mas… ora, pois, é preciso que eu te diga! Bem sabes tu que, muito mais do que o simples facto de trabalhar contigo, somos amigos de velhos tempos, não é mesmo? E, infelizmente... achei que devia contar-te sobre algo tão... – ao que Reis, nervoso, tentava acalmar o outro – Calma, homem, fala, já estou a me preparar para o piorio – e o amigo sincero contou-lhe, então, o que a ele chegara de tão constrangedor e lhe parecia irreparável, pois toda a cidade já estava a comentar – Andam a dizer por toda parte que uma de tuas meninas… – Engasgou-se. Tossiu. – Tu sabes, meu velho, estás a perceber o quê. Se me perdoas, eu mesmo já guardava só comigo uma vaga desconfiança do facto, desde o dia em que aquele gajo – então calou-se, a fitar de novo o quadro na parede.

 

Pôs-se a lembrar, por despropósito, dos mensageiros da Antiguidade que, após trazerem más notícias, eram a seguir executados. O que Reis sentiu, no entanto, foi um misto de profunda tristeza com um súbito alívio. A péssima nova estava a lhe trazer, ao espírito, uma limpeza similar aos clisteres das lavagens intestinais ou dos purgantes de jalapa que se davam aos miúdos, para matar as bichas do ventre. – Enfim, tem que ser. Acabou – ao que o Mota – Me perdoa, Reis, ser eu a te contar uma coscuvilhice como essa, mas enfim... havias de saber – porém Bernardes – Está bem, Mota, sempre te serei muito grato. – e, após se guardar em silêncio, por alguns segundos, indagou, afinal, sobre a mais penosa questão – E estão a dizer de quem? – Não, não, ao menos que eu saiba, ficam só a levantar estúpidas suposições. E por serem tão estúpidas, digo-te que chegam a falar até daquele pobre rapaz, o cocheiro.

 

 

Àquela noite, ao cear, João Reis quis apenas a sopa, ao que lhe perguntou Arminda – Que tens, Papá? Estás a passar mal? – Um pouco sim, minha pequerrucha, mas não é nada que possa tirar de ti esse belo sorriso, que o Papá tão bem te quer à face. – e, após esperar que todos acabassem, pediu à Maria que lhe levasse o café ao gabinete. Quanto ao charuto, esta noite, o puro de Havana não dançou qualquer rumba ao cabaré de fumaça que ele, habitualmente, construía diante de si.

 

Florinda, após ir à cozinha, para concertar com as criadas os finalmentes do dia e planejar os iniciantes da manhã seguinte, encaminhou-se até à cadeira onde o rico maridinho parecia meditar. Ao sentir os passos de sua Flor e, ao vê-la chorar, este ergueu-se, voltou-se para ela e a abraçou bem forte.

 

Disseram-se apenas e ao mesmo tempo – Então, já sabes!

 

 

  1. FÚRIAS.

 

Em uma biga espartana, puxada pelas Fúrias, em forma de cavalos e um landó, Aldenora chegou em casa a gritar, de um modo que muito assustou a sua – Mamã, Mamã! Ai de mim, que desgraça!...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

 

09
Abr19

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. MISTÉRIO.

 

 

Que raios de mistério está a acontecer lá na quinta Grão Pará? – assim comentaram entre si os colegas de Afonso, aqueles que estudavam consigo para os exames preparatórios à admissão em Coimbra. É que o rapaz, sem boas ou más alvíssaras, acabava de lhes pedir que concertassem outro sítio para continuar os estudos em equipa – E tu nos abandonas? – Não, também lá estou! – e como já conhecessem de Afonso o seu pouco falar, trataram de atender ao seu rogo, não sem antes confessarem que ficariam com muita saudade dos bolos de laranja e dos sumos de limão da boa dona Florinda.

 

A essa altura, começava-se a espalhar o boato de que uma das filhas de Reis estava a se finar em casa, com uma doença incurável. Tísica, talvez. No entanto, não lhe poderiam enviar flores, como à célebre Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, porque a rapariga era menina direita e, portanto, virgem. Outros mais aventavam a hipótese de que seria lepra e, ao passarem pela Quinta, punham-se ao largo do possível lazareto. Prendiam a respiração e se persignavam em mil e um sinais da cruz, para esconjurar o mal.

 

A notícia chegou logo até a alguns empregados, parentes e amigos mais chegados de Reis e ele, atarantado, teve que se desdobrar com firmeza em numerosos desmentidos. Asseverou a todos que, em sua casa, estava tudo a correr muito bem, na santa paz do Senhor. Para já, logo vieram algumas pessoas em socorro dos curiosos, a contarem que estavam sempre a ver as meninas da Quinta e estas pareciam bem viçosas. Também à janela, já tinham visto muitas vezes a menina Aurora, cujo feitio sempre fora mesmo de pouco sair à rua. Na verdade, Mamã e as irmãs aconselharam a prenha que, ao menos algumas vezes por dia, aparecesse à janela, cujas vidraças, agora, eram cobertas por cortinas de croché. Ela precisaria, apenas, de tomar os devidos cuidados, a modo que os de fora não lhe enxergassem o proeminente barrigão.

 

 

  1. GRALHAS DO DILÚVIO.

 

 

Os flavienses sempre foram conhecidos por terem uma virtude especial, a discrição. Como em toda parte do mundo, porém, sempre haveria afamadas criaturas como as irmãs Vila-Passos. Eram beatas de diária comunhão, mas dadas às más línguas, sempre a fossar a vida de quem pudessem extrair algum bom mexerico e depois espalhar a notícia pelos quatros cantos das pontes, ruas, ribeiros e veigas de Chaves. Norteavam-se as irmãs pelo dito popular “no melhor pano cai a nódoa”. Acabavam com frequência, como sói acontecer, por virem a prejudicar seriamente a vida dos outros, embora jurassem na igreja, de mãos postas, amar o próximo como a si mesmas.

 

Posto que morassem ao andar superior de uma casa na Rua do Caneiro, perto do ribeiro homónimo e, portanto, da Quinta Grão Pará, passaram a ter seus dias alegres e cheios, com as constantes incursões de bisbilhotice junto àqueles que, dos Bernardes, eram íntimos ou próximos. Insinuavam-se, portanto, ao Manuel, à Zefa, à Manuela e até a alguns vizinhos das cercanias, com perguntinhas amáveis, mas cheias de anzóis aos peixes e minhoquinhas nas pontas. Rebentavam de curiosidade para saber o que, realmente, estava a se passar atrás das cortinas de crochê da casa dos Bernardes, o que lhes valeram umas patadas verbais e gaguejantes do cocheiro, mais fortes do que um coice do Azeviche.

 

Tal-qualmente as águas do Caneiro que, a tanto baterem nas pedras duras, acabam por lhes deixar alguns porosos furinhos, é possível que as duas malignas irmãs tivessem acabado por conseguir o seu intento. Por uma improvável justiça que se lhes deva fazer, no entanto, pois tampouco fossem as Vila-Passos as únicas da vila a coscuvilhar a vida alheia, nunca se veio a saber, de plena certeza, que tenham sido elas as primeiras a colocar no éter as ondas de transmissão da verdade, sobre a infeliz rapariga dos cabelos cor de trigo e olhos cor do céu, uma das quatro filhas do senhor João Reis.

 

Pelo facto de ser bem grande o respeito que todos tinham aos Bernardes, muitas das tagarelices iniciais eram feitas apenas à meia voz, comiseradas, sem intenção de destruir. Logo uma extensa onda de coscuvilhice, todavia, como que provinda de uma inundação do Tâmega, tal a que veio causar sérios prejuízos à cidade em 22 de dezembro de 1909, espraiou-se por toda Chaves – Sabes a filha do Reis, a mais velha e aloirada? – motivo de assunto nos lares, tavernas, cafés, lojas, talhos, padarias... enfim, em todos os sítios da vila flaviense.

 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

02
Abr19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CÁRCERE.

 

Aurora prosseguia em sua prisão de grades invisíveis, sem que João Reis ao menos lhe dirigisse o olhar. As irmãs do meio continuavam a hostilizá-la de leve, sempre que podiam ou, quando nada, a lhe manifestarem uma discreta indiferença. Arminda, porém, sempre lhe vinha acariciar a barriga e perguntar pelo bebé. Afonso continuava a cumprimentá-la gentilmente, como sempre o fizera, sem que ninguém nunca soubesse o que lhe ia à mente, quanto a isso ou a qualquer outro facto do quotidiano. Além de Mindinha e da Mamã, Alfredo e Alice também eram carinhosos consigo.

 

Flor continuava a se desvelar em cuidados com a filha, que nunca deixara de lhe ser bem querida, tão quanto os mais de sua prole. Um dia chegou mesmo a gracejar com Aurora – Ai, menina, que não me venhas a ter sete miúdos de uma vez, como a Maria Mantela! – Ai, Mamã, não estejas a brincar com isso, cala-te, porque bem sabes que… – e as duas completaram – Os anjos podem dizer amém! – ao que Florinda deu uma breve risada e sua menina prenha esboçou, nesse raro momento, um largo sorriso. Algo que há muito tempo não fazia e não iria fazê-lo, por mais tempo ainda – Mas os anjos não podem mais desfazer o que está feito! – e, ao dizer isso, o riso de Aurita se fez siso e o juízo levou-a a uma repentina tristeza. Arrepios e um ar de preocupação toldaram sua mente – Ai, meu bom Jesus! E se… já não diria sete, mas se lhe viessem mais de um… mais de dois… mais de quantos?! –

 

É que Aurora estava a lembrar-se de uma lenda urbana que vem sendo transmitida de gerações a gerações flavienses, mormente quando todos de um clã se reúnem ao pé do lume, nas longas noites de inverno. Já pelos idos de 1634, o Arcebispo de Braga e primaz da Espanha, Dom Rodrigo da Cunha, escrevia sobre a tal senhora. Efetivamente, é possível que o essencial desse episódio tenha vindo a ocorrer, de facto, ainda que não pelos excessos de imaginação e a forma que nos legou a narrativa popular.

 

 

  1. MARIA MANTELA.

 

O que se conta da história de Maria Mantela é que, há séculos perdidos na memória, morava tal senhora com o seu marido Fernão Gralho, à Rua da Misericórdia, próximo à Igreja Matriz de Chaves.

 

Certo dia, acercou-se dela uma mulher com dois filhos gémeos, a lhe implorar uma esmola. Maria negou-se a proceder a esse gesto caridoso e ainda tratou a mendiga com certa dureza, colocando-lhe em dúvida a honestidade – Como podes, de um homem só, ter gerado mais de um filho?! – e, embora também desprovida dos conhecimentos científicos de que hoje dispomos, a mendicante sentiu-se bastante ofendida em sua honra e dignidade, mesmo após Fernão Gralho intervir em seu auxílio.

 

Não obstante o fidalgo pedir desculpas, ante as palavras grosseiras de sua esposa, além de lhe oferecer algumas moedas, a esmoleira disse então, quando a sós com Maria – Cuida que, muito em breve, poderás ficar prenha. Vais ser castigada pelo que acabas de mo dizer! – e esse praguejar causou uma profunda angústia à Mantela, durante todos os meses da gravidez que, de facto, veio a lhe sobrevir logo após o incidente. De mais a mais, arrependia-se sinceramente pelo que dissera à mendiga.

 

Quando afinal deu à luz, o marido estava ausente, pois fora caçar perdizes. O parto deixou Mantela aterrada. Nasceram-lhe sete gémeos e ela, em sua ignorância contextual – Ai, meu Deus, como há de ser isso?! Se eu sempre fui fiel ao senhor meu marido?! – posto que ainda mais se afligia, com a lembrança do que ela própria havia dito à indigente mulher. Como mostrar ao senhor Fernão Gralho esses sete filhos?! – Mãe Santíssima, o que ele vai pensar de mim?! – e, transtornada, pediu a uma criada da casa que fosse lançar ao Tâmega seis dos recém-nascidos, deixando ficar apenas o de aparência mais forte e melhor constituída.

 

A criada saiu pesarosa com os bebés, sem saber como executar essa tão hedionda missão. Caminhou pelas Poldras até ao meio do rio, colocou em uma das alpondras o cesto coberto, onde os seis gémeos dormiam e se pôs a rezar, pedindo perdão ao bom Deus pelo crime que estava prestes a cometer, ao mesmo tempo em que vacilava, presa da maior indecisão.

 

poldras-fr.PNG

Poldras. Chaves (PT). Foto de Fernando Ribeiro,

cedida pelo autor. (Original a cores).

 

Eis que, nesse instante, voltando da caça, estava a passar por ali o próprio Fernão Gralho – Que estás a fazer aqui no rio, com esse cesto tão grande, que às lavaduras não me pareces vir? Podes me dizer o que trazes dentro dele? – A mulher contou-lhe, então, que uma cadela havia parido sete cachorrinhos e ela, com muita pena, vinha até ao Tâmega para afogar seis deles, ficando em casa apenas o de melhor raça –ao que o patrão arguiu – Ora, pois, mulher, porque matar essas criaturinhas de Deus?! – e lhe pediu para ver os filhotes. A criada, após mostrar os meninos, ajoelhou-se e tudo confessou ao patrão.

 

Fernão Gralho encolerizou-se, mas logo se compadeceu da loucura da esposa, que, supondo o crime perpetrado, certamente iria arrepender-se por toda a vida, o que, de facto, já lhe ia n’alma. Achou que deveria compreendê-la e, portanto, perdoar. Reteve consigo o cesto e ordenou à serviçal que fosse dizer, à compungida senhora, que a ordem fora cumprida. Instou igualmente à criada para que esta, por toda a vida, guardasse o mais absoluto segredo sobre o real destino dos recém-nascidos. Espalhou então os filhos rejeitados em seis aldeias do Concelho de Chaves, à guarda de casais por ele remunerados.

 

Durante dez anos, Fernão Gralho tinha dó ao ver a esposa sofrer, mas considerava isso uma penitência para a Mantela, cheia de remorsos por um crime que ela julgava ter cometido, pois sempre lhe vinham à lembrança os inocentes que mandara sacrificar. Ao principiar o undécimo ano, Gralho pediu à mulher que mandasse preparar um grande banquete, ao qual de nada faltasse, pois iriam obsequiar alguns convidados. À hora desse almoço, quando Maria Mantela dirigiu-se à sala de refeições, ficou petrificada. Sentados à mesa, havia sete rapazinhos todos iguais, nos trajos e nas feições, tornando-se impossível distinguir qual deles era o único filho que ela estivera a criar. Consternada, atirou-se aos braços do marido e este esclareceu o que se passara junto às Poldras. Acabava assim, para a Mantela, o sofrimento que deixara sua alma angustiada. Antevia-se agora uma promessa de felicidade geral.

 

Diz-se que os sete gémeos tornaram-se párocos de sete igrejas, erguidas por eles mesmos em aldeias do Concelho. Muitos asseguram que, em tempos idos, havia na Igreja de Santa Maria Maior uma lápide com o seguinte epitáfio:

 

“Aqui jaz Maria Mantela,

com sete filhos arredor dela!”.

 

 

Hoje, na parte antiga de Chaves, ao Jardim do Bacalhau, há uma estátua de mulher com um filho ao colo, criada pelo Mestre Teixeira Lopes para homenagear todas as Mães. Todavia, tão logo foi assentada no local, passou a ser considerada, na boca do povo, como a estátua de Maria Mantela.

 

  1. MISTÉRIO.

 

Que raios de mistério está a acontecer lá na quinta Grão Pará? – assim comentaram entre si os colegas de Afonso, aqueles que ...

(continua na próxima terça-feira)

 

 

fim-de-post

 

26
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRAZERES MODERNOS.

 

O mundo corria, o tempo escorria e todos acorriam ás novidades do século XX. Aos rapazes, exerciam grande fascínio os novos cavalos de metal, as motocyclettes, como a Minerva, que “com maior multiplicação, trepa melhor a todas as rampas” ou a Alcyon, que, “sólida, elegante e simples, sobe todas as rampas com grande velocidade”. Esta última era a preferida dos sonhos de Afonso, mas o rapaz, timidamente, escusava-se de pedir ao Papá tão precioso mimo e obter um NÃO de resposta, o que lhe seria bastante constrangedor.

 

Nas ruas de Chaves, alguns raros abastados já começavam a fazer aparecer automóveis como o Paicard de 7 cavalos ou o Bayard-Clément, de 7 a 8 cavalos e 2 cilindros, “baratíssimo e extremamente cómodo, que se usa com pneumáticos Michellin e Dunlop”, como diziam os reclamos nos jornais. Já havia até flavienses que sonhavam em participar de uma corrida de carros, como tinha sido a recente Volta de Portugal. Para esse percurso do Porto ao Faro, realizado em pleno fevereiro do último inverno, “o Sporting Club de Chaves mandou um representante, num magnífico Fiat, pneu Goodyear, consumindo o óleo Spidoleine, à incrível velocidade média de 35 quilómetros por hora”.

 

Um magnífico Renault, a uma ensolarada tarde de junho, deteve-se à frente da Quinta Grão Pará e dele saltou Sidónio, sem capa e batina, mas com um elegante fato de verão, a gozar suas merecidas férias de estudante. Vinha convidar Aldenora e as irmãs para um passeio, nos arredores da vila flaviense. Quando apenas três raparigas entraram no carro, o rapaz perguntou – E Aurora? – as irmãs entreolharam-se e Arminda foi prática – Ela mandou agradecer, pede muitas desculpas, mas não lhe apetece sair hoje de casa. – ao que Sidónio lamentou – Acho que ela está a perder um belo passeio.

 

Foi, especialmente para os noivos. Dentro dos razoáveis limites, as irmãs de Nonô lhes permitiram ficar bem à vontade e até guardaram, nos aprazíveis sítios onde havia muito a apreciar, conveniente distância para deixá-los a sós. Apesar da estrada íngreme e de terra batida, o que mais agradou a todos foi apreciarem, mais de perto e em seu interior, as ruínas do Castelo de Monforte.

 

1600-castelo-monf (299).jpg

 

A caminho desse castelo, Sidónio falou-lhes da “pedra bolideira”. Trata-se de uma rocha de formato irregular, quase oval, achatada, com mais de 3 metros de altura e cerca de 10 nas medidas (quase iguais) de comprimento e largura, cortada ao meio e solta do chão, a integrar o conjunto de grandes blocos graníticos do maciço que se vê às encostas da serra do Brunheiro, a uns 18 quilómetros a leste de Chaves, como se fossem gigantescos e pétreos cogumelos.

 

Esse enorme pedregulho destaca-se por uma particularidade muito interessante e, quando o moço, ansioso por transmiti-la às raparigas, contou que a Bolideira, apesar de suas várias toneladas, pode ser balançada em um movimento oscilatório, por qualquer pessoa, com apenas um simples empurrão, as meninas puseram-se a rir e pediram que lhes contasse uma peta mais plausível, se é que se pode falar assim das inverdades. Ao se verem, contudo, diante da rocha, e moverem o famoso bólide de um lado para o outro, soltaram risinhos de pasmo e de alegria, como se estivessem diante da oitava maravilha do mundo.

 

bolideira.PNG

Pedra Bolideira, Trás-os-Montes (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Alguns dias depois, a se aproveitar de um inesperado e eventual relaxamento das intransigências de João Reis, em permitir às filhas (menos à desditosa Aurora, decerto) uma relativa liberdade de saírem, algumas vezes, para meras diversões, Sidónio levou a noiva, com as costas bem guardadas por Mindinha e Aurélia, a um evento inesquecível: um baile, por demais concorrido, nos vastos salões do palacete Botelho.

 

Mais uma vez o rapaz perguntou pela Aurita. Previamente concertada com as irmãs, Aldenora explicou que a menina andava bastante deprimida, a falar até em se recolher a um convento e se tornar esposa de Jesus, ao que ele sorriu – Ainda bem que é ela e não tu, a querer esse tipo de matrimónio. Não me apetecia ter que brigar por ti, minha Nozinha, com um rival assim, tão poderoso e mais forte do que eu!

 

O baile fora organizado por um grupo de raparigas da elite de Chaves, às quais um cronista do jornal “A Região Flaviense” elogiou os “tons de grande distinção, salões belamente ornamentados e com uma deslumbrante iluminação”. Todos se divertiram à farta e, apesar das preocupações, Papá não reclamou que Sidónio só trouxesse as filhas de volta após as seis da manhã, hora em que o baile terminou. O noivo ficou arrebitado de vaidade, ao ver que o velho Bernardes confiava em si. O que ele não sabia era que Reis andava a mergulhar, cada vez mais, em uma terrível apatia.

 

Sidónio levou ainda as meninas, nessas férias, a outros bailes de fundo beneficente. Mais adorável ainda foi uma soirée promovida, dessa vez, por rapazes das melhores famílias da Vila, entre os quais se incluía o noivo de Nonô, realizada nos salões da Associação Recreativa Flaviense. Dessa vez, porém, tal como em alguns outros eventos a que levou a noiva, ele não mais perguntou pela futura cunhada.

 

  1. CÁRCERE.

Aurora prosseguia em sua prisão de grades invisíveis, sem que João Reis ao menos lhe dirigisse o olhar. As irmãs do meio continuavam a...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

19
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SEGREDOS D’ AURORA.

 

 

A ausência de Aurita, no casório do irmão, foi muito marcada pelos parentes e, em especial, pelos três únicos convidados do noivo, os mesmos que a ela se referiram na casa de Maria do Rasgão. Logo se deu aos presentes a devida justificativa, uma súbita indisposição estomacal que acometia a menina. Os mais, todavia, ficaram bastante desconfiados de um facto bem estranho: já estava a se tornar notória e muito comentada a frequente ausência da menina, em qualquer ocasião aonde a família Bernardes viesse a público.

 

A Sidónio, em carta que enviou de Braga a Aldenora, causou muita deceção o facto de seus pais e sua irmãzinha, após as bodas, não terem sido convidados para o regabofe familiar. Nas poucas vezes em que o rapaz viera a Chaves, nesse período, Aldenora não conseguiu evitar que ele a visitasse na Quinta. Pedia então a Arminda e à Lilinha que não aparecessem à sala e dizia que as três irmãs haviam saído. Só temia que o rapaz, por algum acaso das leis fisiológicas, precisasse ir à casa de banho e surpreendesse Aurita ao corredor.

 

Quando precisava resolver alguns assuntos do casamento, como escolher modelos de convites que seriam, ao seu tempo, mandados imprimir na Tipografia, Livraria e Papelaria Mesquita, no Largo dos Anjos, alegava os mais variados pretextos para cuidar de tais preparativos em casa de dona Joaquina, sua futura sogra. Esta sempre lhe perguntava sobre a saúde de Aurora e Nonô respondia às evasivas, ou com falsas notícias, previamente concebidas.

 

A essa altura, planeavam-se na cabeça de João Reis mil formas de ocultar ao mundo a prenhez de Aurita. Tinha pensado em mandá-la ao Pará, mas a viagem, então realizada por navio, durava de doze a catorze dias. Em sua consciência de pai e até de amor pela menina, um sentimento magoado, mas que ainda resistia lá no fundo de si, não convinha impor à filha esses longos maus-tratos. Havia também as possíveis consequências de risco para o feto, nessa longa travessia, devido às condições em que Aurita se encontrava.

 

Também cogitou de enviá-la à quinta de Sant’Aninha de Monforte. De acolá, todavia, alguém poderia fazer chegar até Chaves uma joia de coscuvilhice como aquela, tão fulgurante, pronta para adornar os mexericos pendentes de muitas orelhas da Vila. Acrescia também que, lá na serra, as condições para o parto eram deficientes, bem mais do que já seriam cá em baixo. Chegou a pensar no Gomes e em sua companheira de Vidago, mas estes não eram lá muito de se confiar. Mandar a menina ao Porto ou a Lisboa, segregando-a a uma casa em discreto arrabalde, pareceu-lhe uma ideia melhor. Teriam, porém, que mandar a criança à roda, sabe lá de quem ou de onde, pois as dos conventos já não estavam mais a existir. E ainda que corresse nessa criaturinha o sangue de um patife, corria também o seu e o de Florinda.

 

O Diabo tecera o manto. Agora, haviam de se cobrir com ele e enfrentar o frio dos amanhãs.

 

 

  1. PRAZERES MODERNOS.

 

O mundo corria, o tempo escorria e todos acorriam ás novidades do século XX. Aos rapazes, exerciam grande...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

12
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BODAS.

 

Ao dia das bodas de Alfredo e Alice, tudo bem simples, como Reis mandara arranjar com o padrinho da rapariga e, mais ainda, como agora tinha que ser, face aos recentes maus sucessos, o noivo, com um ar de puto choramingas, estava a parecer um miúdo que fora posto de castigo a um canto da sala. As irmãs, essas choravam mesmo, ainda que baixinho e Mamã se esforçava por esconder o pranto em seu lenço bordado que, em uma das mãos cerradas, mantinha a um canto da boca.

 

À hora em que o padre perguntou se haveria alguém a impedir o contrato sacramental, quase lhe veio a João Reis uma vontade de gritar – Pare, senhor Cura, pare! O menino Alfredo ainda é menor e não estou mais a querer emancipá-lo. – Conteve-se, porém, consciente de que, ainda que fosse Reis e não um rei, à palavra dada, não podia voltar atrás. Isto viria, por certo, converter-se em um escândalo que não seria desejável, mormente àquela altura dos acontecimentos, ainda que fossem relativamente poucos os convidados a renderem seus cumprimentos na sacristia.

 

Sem copo d’água, as poucas pessoas ali presentes limitavam-se a comentar – O Alfredinho e a noivinha, eles ainda são tão jovens! – E ora, pois, então não sabes que estão a casar assim por já terem “aberto as duches antes dos banhos eclesiais”?

 

 

Os noivos voltaram à Quinta Grão Pará apenas com os da casa e os familiares de Alice, ou seja, o padrinho Gomes, sua amásia e alguns parentes de Vidago. À casa dos Bernardes, estava a aguardá-los um almoço digno, mas sem o tradicional galo de capoeira, como era costume nas comemorações solenes. Enfim, embora um repasto bem recheado, não era mais especial dos que os servidos em qualquer domingo. Sobre isso o Gomes, apesar de atafulhado, a ponto de quase lhe estourarem os botões da braguilha da calça, teceria depois alguns maus comentários com a sua não menos obesa companheira. Soubesse ele do que antes, às secretas, João Reis ordenara a Florinda, sobre o cardápio a servir (ordens que esta não as cumpriu de todo) – Só o trivial! Para o que é, pelo que é e para quem é, bacalhau basta!

 

Quanto à Carmela, a amásia do Gomes, também lhe causou muita estranheza que, apesar de pedir, até mesmo com uma inconveniente insistência, não a deixassem nem ao menos dizer – “Como vais?” – à menina Aurora, da qual ela própria vivia a comentar – É uma cachopinha tão bela, que eu... ai, Jesus, com todo o respeito, bem pode ser comparada à Virgem de Fátima!”

 

Enfim, ao entardecer, após uma merenda com folares, queijos do Alentejo e muito vinho, os de Vidago partiram e os nubentes se recolheram a um quartinho nos fundos da Quinta, junto ao estábulo, que Florinda mandara arranjar para o casal com todo conforto, ao que não faltaram monogramas bordados nas fronhas dos travesseiros e vasos com rosas de várias cores, doadas por tia Hortênsia.

 

 Só então Mamã reparou nos amores-perfeitos que Aurita estava a plantar, no jardim.

 

Roxos, como na Quaresma.

 

 

  1. SEGREDOS D’ AURORA.

 

A ausência de Aurita, no casório do irmão, foi muito marcada pelos parentes e, em especial, pelos três únicos convidados do noivo, os mesmos que a ela ...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

05
Mar19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VÉNUS DESONRADA.

 

Alfredo estava feliz, a esquecer tudo o que não queria que lhe viesse à mente, naqueles fugazes instantes que lhe precediam as mãos algemadas. Sabia que, na manhã seguinte, estaria a bater em sua porta, de novo, com o seu manto frio e mãos cruéis, a inexorável realidade. Tinha agora, ao seu lado, três de seus melhores amigos, aqueles com os quais aprendera a nadar no Tâmega e que, muitas vezes, tinham ido à própria Quinta buscá-lo para as pândegas. Bons momentos, quando saía com os putos para farrear, sob os olhares reprobatórios do senhor Reis, mais fingidos do que verdadeiros – Rapazes, ah, os rapazes! – e o sorriso condescendente de dona Florinda, que os não deixava sair sem antes provarem de seus famosos bolinhos de cenoura e até de alguns deliciosos Pastéis de Chaves, confeiçoados àquela mesma tarde.

 

Conversa vai, conversa vem, puseram-se os moços a falar das meninas da Vila, com os maiores respeitos a umas e bem marotas insinuações a outras. De repente o Zeca Sarmento, já inebriado por muitos teores alcoólicos, virou-se para o futuro noivo e disse – Cá o nosso Alfredinho é que… olha, Alfredinho, com todo respeito, mas tuas irmãs são um quê de bonitas! Umas verdadeiras Vénus, como as desses pintores... Mas vestidinhas, é claro, digo-te isso com todo o respeito! Vamos lá que a Lilinha ainda esteja a vicejar e a Mindinha mal esteja a se pôr, mas ah! Tivesse eu, pra já, a idade das outras duas…

 

Vitinho Mendes acrescentou – De facto, ai que bela família, a tua! E que raparigas finas, prendadas, educadas. – e o Lucas Bó – Bem servido vai o Sidónio, que já está a pronto de levar a Aldenora pro altar. Já o que pensam da Aurora por aí... – uma frase cortada e infeliz, que deixou Alfredo sério, de repente – Ora pois, e então... o que pensam da minha irmã por aí? – Ora, ela é uma linda rapariga, todavia... – ao que o jovem Bernardes – Todavia...? – Pois é, ela é muito bonita, mas é pena que a tua irmã, pelo que todos dizem por aí…

 

Eis que Alfredinho, como que livre, por alguns momentos, dos teores alcoólicos, ou com estes ainda mais acentuados, levantou-se. Com as faces cheias de cólera, agarrou Lucas pelos suspensórios (posto que todos estivessem à vontade, com os paletós e coletes jogados aos espaldares das cadeiras) – E o que é que todos, por aí, estão a dizer da minha irmã, hem? Hem?! Fala! Fala senão eu te…

 

Essa atitude do jovem Bernardes muito fez estranhar ao Zeca e ao Vitinho, pois nunca o tinham visto assim. De ordinário, era sempre tão calmo, tão afável, além de muito educado, uma qualidade inerente a todos os da Quinta Grão Pará. O Lucas, porém, que tinha pavio curto para o mais bobo estopim – Senão tu, o quê?! – também segurou Alfredo pelo colarinho.

 

Assim ficaram, olhos nos olhos, os velhos camaradas, a um passo de se tornarem os dois mais novos inimigos. O Vítor e o Sarmentinho tentavam, de todo modo, apartá-los, mas o Bó gritava para Alfredo – Ô pá, me larga, tira essas

mãos de cima de mim! Ou vais querer que t’as devolva de jeito? – enquanto aquele, para lá de transtornado – Pois então cá me digas, seu Lucas Boboca! O que estás a insinuar sobre a irmã dos outros?!

 

Foi esse o quadro a que Justina deparou-se, ao chegar de volta ao salão. A calhar que o menino Alfredo e os mais, todos eles assíduos e amados clientes, estavam agora a se meter em uma pessegada, que não convinha mais a uma casa direita como a dela, Maria do Rasgão valeu-se de toda a sua autoridade de heroína republicana e rasgou o grito – Parem com isso, parem, que lhes meto porta afora com pontapés ao cu, seus putos, que mal acabaram de chupar as pontas dos cueiros molhadinhas de açúcar, que suas mãezinhas lhes davam para deixar de chorar!

 

Diante dessa voz firme e incontestável, a exigir que os miúdos devolvessem a ordem a casa, os rapazes se apaziguaram – Calma, Alfredinho, todos estão a dizer por aí, apenas, é que a Aurita é austera demais, compenetrada demais… – disse o Vítor e o Sarmento acrescentou – Claro, é essa a imagem que tua irmã sempre nos traz à mente – ao que o Vitinho – O que alguns estão a pensar e outros a dizer… é que, de tão séria, tão sisuda, tua irmã vai acabar num convento – e o Lucas Bó, a concluir – O que é uma pena, Alfredo, a Aurita não merece! – e a pensar em outras penas, Alfredo concordou – É, ela não merece!

 

Graças à heroína condecorada pelo Governo e pelos desgovernos da vida, logo os contendedores estavam a se abraçar e, felizmente, tudo acabou em águas de bacalhau. Voltaram a beber o fino e o vinho, despreocupados e alegremente, como se nada tivesse acontecido. Ou, o que é pior, como se nada estivesse por acontecer, pelo menos ao Alfredo. Um futuro de grilhões invisíveis e de reais incertezas.

 

  1. BODAS.

Ao dia das bodas de Alfredo e Alice, tudo bem simples, como Reis mandara arranjar com o padrinho da rapariga e, mais ainda, como agora tinha que ser, face aos recentes maus...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

26
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DESPEDIDA DE SOLTEIRO.

 

Às vésperas das bodas de Alfredo, o noivo estivera a gozar com os amigos do Liceu os seus últimos momentos de puto livre. Andar na gandaia, como fazia sempre que pudesse, em um circuito de petiscadas, da Madalena às Portas do Anjo, regadas a muito vinho (e alguma cachaça, decerto) e com o Alfredo ora a sorrir, ora a se fingir de zangado, pelo presente de casamento que os três lhe deram: uma latinha com a famosa Pomada Vegetal Alemã. Segundo diziam os putos, a galhofar, além de suas propriedades dermatológicas, essa pomada era capaz de ressuscitar até a virilidade de um defunto.

 

Tomaram o rumo do entorno do Forte São Neutel, lugar então muito ermo, onde uma das raras casas era a de Consuelo Tarraxa. Essa matrona dizia a todos, sobretudo aos da Lei, que apenas abrigava em sua casa, sem lhes cobrar o aluguel, jovens órfãs que se viam à janela, provindas de outras vilas e aldeias de Portugal. Acrescia ser apenas por um especial sentimento de caridade que lhes dava de comer e de vestir. Fazia questão de esclarecer ainda mais e de frisar muito bem: posto que não fosse mãe dessas moçoilas, não lhes tinha nenhum controlo se as rebeldes meninas ficassem a beber, a dançar e a trocar intimidades com os rapazes do Concelho. Omitia apenas que elas só faziam a alegria dos moços em troca de alguns réis, dos quais um manhuço acabava sempre por cair aos bolsos da bondosa senhora.

 

As hormonas saciadas, mas ainda não a garganta, os rapazes foram acabar a noite de pândegas na tasca de Maria do Rasgão, a quem resolveram fazer um brinde. Homenageavam a bravura com que ela, apesar de mulher de má fama, lá pelos idos de 1912, ajudara a expulsar os monárquicos de Chaves e agora, em sua tasca, recebia as mulheres de vida alegre (nem sempre tão alegre assim) apenas para se divertirem com os seus amantes ou gigolôs, comerem, beberem e dançarem, com eles ou sozinhas, aos começos ou aos fins de noite, ora pois que, aos intervalos da noitada, elas atendiam aos seus fregueses em outros locais.

 

Tais raparigas, além de prestarem serviços a putos insaciáveis, serviam também a respeitáveis cavalheiros da Vila e dos arrabaldes, que mantinham as suas santas mulheres no altar de suas casas e, à sorrelfa, corriam a satisfazer-se, com as “pecadoras”, de tudo aquilo que jamais fariam no sacrossanto leito conjugal. – Achas que vou mordiscar os mesmos seios onde os meus miúdos estão a sugar? Profanar com o meu sexo os lábios maternos que estão sempre a beijá-los?! – e, por conveniência, esqueciam que as prostitutas também emprenham, também têm filhos e, portanto, também possuem os lábios maternos que, se ficarmos a seguir o mesmo raciocínio hipócrita, não se deveriam profanar...

 

Os quatro amigos encheram taças de champanhe e recomeçaram a se enfrascar, mais e mais – Ora, pois, pois, vamos a ele ou o quê?! – ele era um brinde à grande heroína Justina Maria da Silva, agora reconhecida como uma senhora de bem e que ficou muito comovida com os rapazes. Correu a buscar lá dentro uma caixa, bastante manuseada por tantas amostragens aos fregueses, onde guardava a condecoração que recebera das autoridades, tão logo a república se restabeleceu em Trás-os-Montes.

 

 

  1. VÉNUS DESONRADA.

 

Alfredo estava feliz, a esquecer tudo o que não queria que lhe viesse à mente, naqueles fugazes instantes que lhe precediam as mãos algemadas. Sabia que, na manhã seguinte, estaria a bater...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

19
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ABATE.

 

Com as mãos crispadas, Reis mirou a arma que, sorrateiramente, retirara de uma gaveta da secretária. Segurou firme a velha, mas ainda ativa pistola e viu, não mais do que a um lapso de tempo, o cigano estatelar-se ao chão, ensanguentado. O arrogante inimigo estava a perder, não só essa liberdade e juventude, que tanto queria prolongar, mas o bem mais precioso de todo ser e que, ao desejo de Reis, a Pneumónica deveria ter levado consigo para sempre.

 

Por muitos segundos, o pai de Aurora respirou com dificuldade, quase à apoplexia, enquanto via o seu desafeto agonizar sobre o piso encerado do escritório. Ainda que a cadeia o viesse albergar, Reis sabia que as leis do país, como em quase toda parte no mundo, sempre são maleáveis para quem tem fortuna. Aquele, portanto, era de facto um bom momento para acabar com a maior parte dos seus infortúnios.

 

Empunhou a arma com firmeza, mas, afinal, controlou-se. Ainda que viesse a ser liberto de pronto pela Justiça dos ricos, ainda mais que, àqueles tempos, o ato se atenuava como um crime de honra, Reis pensara, de repente, em sua família. Não estivesse ele, o patriarca, a ser um Édipo, mesmo sem Laio nem Jocasta, a trazer mais e mais desgraças para a Tebas da Grão Pará. Pôs-se então apenas a gritar com fúria – Tu, seu... seu... Cospe-te daqui! Rua, seu canalha, rua! Hás de pagar ainda, algum dia, por tudo o que fizeste! – ao que, estonteado, Hernando correu porta afora. Nem por menos se haveria ali, qualquer minuto mais!

 

Gerente e amigo de Reis, o Mota entrou na sala do escritório, a tempo de socorrê-lo com uma generosa água fresca e açucarada – Pronto, pronto, vê lá se te acalmas! – mas seu chefe foi até à saída lateral e esbravejou – Que vás à pata que te chocou! – ao que o Mota, sem a indiscrição de perguntar quem era o gajo acabado de sair, disse-lhe apenas que, no beco da Travessa do Loureiro, já lá estavam dois tipos muito estranhos a esperar pelo rapaz e os quais, mais céleres do que uma lebre na caçada, seguiram a correr junto com ele, rumo à Ladeira do Trajano.

 

  1. DESPEDIDA DE SOLTEIRO.

 

Às vésperas das bodas de Alfredo, o noivo estivera a gozar com os amigos do Liceu os seus últimos momentos de puto livre. Andar na gandaia, como fazia sempre que pudesse, em um...

(continua)

 

fim-de-post

 

 

12
Fev19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. COMBATE.

 

Passaram muitos dias e noites a trotar pela veiga, com suas crinas de sóis e luas, sem que o jovem se dignasse a atender aos vários chamados de Reis, que lhe mandava insistentes recados para o moço ir à Quinta, a fim de tratar de “um assunto muito importante e de interesse comum”. Bastante enraivecido, Papá constatou, então, que já estava quase a perder a dignidade e, ao voltar do comércio, dirigiu-se à casa onde moravam os Camacho.

 

Atendeu-lhe a matriarca, com peculiar educação e alguns salamaleques exagerados, pois ela já se havia com a total certeza de que o filho andara a aprontar uma tontice, e (sem trocadilho) da maior gravidade. Logo, porém, apressou-se a dizer, com visíveis contradições no fraseado, que o filho estava a visitar uns parentes em Nazaré. João Reis considerou então que, a esse gajo cobarde, melhor seria chamá-lo a receber em sua loja principal, à Rua Santo António. Lá ele dispunha, inclusive, de uma discreta saída para a Travessa do Loureiro, justo a ser usada como acesso alternativo ao seu escritório.

 

Foi por essa pequena entrada que, algumas tardes depois, sem aceitar o convite de tomar assento, Hernando postou-se em pé, diante da mesa do pai da brasilita. – O senhor está a me chamar, não é? Pois eu gostava de saber o porquê de tanta insistência. Posso saber do que se trata? – e, diante de tal petulância, o sangue aflorou às têmporas de Reis. Este também evitara sentar-se (o que iria colocá-lo em posição submissa) e se esforçava por não ceder aos impulsos de esganar o pescoço do rapaz, a seu ver o mais cínico e abominável dos homens.

 

Iniciou a entrevista, porém, com as mais educadas maneiras – Apesar do que o povo fala de sua gente, conheço muitos ciganos de bom caráter e educação. Seu pai mesmo, pelo que vejo aos jornais, é bastante conhecido da elite de Chaves e até participa de banquetes, como foi citado, recentemente, na despedida do doutor Vicente Aragão. A senhora sua mãe, inclusive, me parece uma senhora muito distinta e trabalhadeira. De sua irmã e do seu cunhado, tenho apenas bons conceitos. Seu irmão Paulino é um jovem sério e, segundo falam, até muito estudioso. Disseram-me até que vai ocupar um alto cargo na administração do Concelho.

 

O Camachito confirmou, com um aceno de cabeça e Reis continuou – Estou até mesmo a saber que seu primo Inácio fez mal a uma rapariga não-cigana, moradora em Valpaços, mas com ela contraiu matrimónio de modo livre e de boa vontade. Tão bons eram os sentimentos dele para com ela que, na hora do copo d’água, a todos pareceu estar o rapaz muito alegre com as bodas e assaz feliz com a noiva, pois viram mesmo os nubentes, a todo o momento, fazerem públicas demonstrações de carinho e de...

 

Hernando interrompeu-o, rude e bruscamente – Por favor, senhor Bernardes, já sei aonde o senhor quer chegar. Pois que a isso cheguemos logo, se me faz favor! – o que deixou João Reis mais e mais irritado, a medo de perder o controlo em definitivo – Bem sabe o senhor o que fez à minha menina. Não são coisas de um homem digno, mas não lhe pedi que viesse aqui para ofendê-lo, ainda que o senhor mereça. – e mais irado ficou o Reis, quando o rapaz encarou-o, com toda a sua peculiar arrogância – Sua filha sabia muito bem o que estava a fazer. Não lhe levei ao logro nem a falsas promessas. Fez o que fez, porque quis.

 

 Tal assertiva deixou o Papá ainda mais exasperado – Oh céus, como são fracas as criaturas de Deus! Pensar que a minha Aurita, desde quando ainda era um pouco mais do que miúda, já amava o senhor! – e, sem esconder o imenso desprezo – O senhor!!! Pois faça ao menos como seu primo e todos os cavalheiros que se prezam. Case com ela! – ao que sucedeu uma longa pausa, na difícil conversação, até que Hernando falou – O senhor não deve desconhecer que não há lei alguma, em todo Portugal, que m’ obrigue a perder o celibato por sua filha. O senhor bem sabe, melhor do que eu, que ela já é maior de idade e, portanto...

 

Reis lhe fez lembrar que – A rapariga de Valpaços também já era emancipada e o Inácio… – ao que o cigano contestou – Ora, pois, o Inácio! O que eu tenho a ver com isso? Ele é ele, eu sou eu. Se calhar, vai ver que, de facto, ele ama demais essa rapariga. Sei lá... Fez o que ele quis e o que achou por bem fazer. Cá eu, no entanto, não vê o quanto ainda sou jovem? Não quero ver perdida assim, de pronto e, pra tão logo, a minha liberdade. – o que fez o patriarca dos Bernardes murmurar, para si mesmo, que perdida, no entanto, esse patife já lhe quisera a filha!

 

Em último apelo, João Reis propôs ao rapaz – Se calhar, passado algum tempo após nascer o bebé, o casal poderá divorciar-se e então... Depois disso, o senhor Hernando poderá se haver como quiser. Quanto à criança, nós a criaremos com todo o nosso... – mas o cigano o cortou, de pronto – O divórcio não é bem visto pela minha gente. Ademais, essa rapariga... se ela se pôs a perder comigo, assim, tão facilzinho, o que me garante... vamos, diga-me o senhor... que segurança eu vou ter de que ela, mesmo ao viver comigo por um breve tempo, será sempre honesta?

 

 

  1. ABATE.

 

Com as mãos crispadas, Reis mirou a arma que, sorrateiramente, retirara de uma gaveta da secretária. Segurou firme ... 

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • P. P.

      Maravilhosos olhares.

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado Pedro. Um forte abraço desde este Reino M...

    • Miluem

      Pois os gatinhos acham que tudo aquilo em que põem...

    • Pedro Neves

      Belíssimas fotos!

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pela retificação, eu sabia que era grémio...