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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Jan20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. REALEJO.

 

 

O verão chegou radiante, às margens do Tâmega e, aos domingos, senhoras passeavam com seus guarda-sóis, circundados por franjas e brocados. Rapazes e raparigas circulavam pelas orlas com as suas bicicletas. Os miúdos punham-se a brincar de jogos ao ar livre, ou arrebitar, até às nuvens, seus papagaios de papel. Os pescadores dominicais, com roupas coloridas e leves da estação, pareciam de longe um conjunto de manchas ou borrões multicores, como a um quadro de pintor pontilhista.

 

À exceção de Aurora, marginalizada em casa e a cuidar da Quinta, as irmãs foram com Mamã, Alice e a sobrinha gozar as delícias da estação. Postaram-se à margem esquerda do rio, próximo ao Jardim Público, onde estenderam sobre a relva uma toalha de xadrez encarnado e branco e algumas outras maiores, sobre as quais podiam deitar e repousar.

 

Não muito distante dali, um velho tocava realejo, a fim de chamar a atenção dos passantes para o seu adestrado Periquito da Sorte. A avezinha tirava com o bico uns papeluchos, nos quais se lia a buena dicha dos interessados. Aldenora foi até ao realejo e lhe saiu a seguinte quadra, que a levou a refletir sobre o mundo, por muitas e muitas vezes mais, além da ocasião:

 

          Goza a vida todo tempo

          que o tempo não volta atrás

          Quem hoje dá gargalhadas

          amanhã, já não ri mais!

 

Ao acabar de ler o papelucho, ergueu os olhos e viu, diante de si, um rapaz que a fitava intensamente. Há meses que ele não a via e ela, agora sem a máscara de carnaval, estava cada vez mais bela. O rapaz a mirava enlevado, como se diante de uma joia preciosa que lamentara perder, muito mais do que ao valioso cachucho atirado ao Tâmega. Mal ele começou a gaguejar qualquer coisa, porém, Aldenora devolveu o olhar por uns breves segundos, virou-lhe as costas e tornou para junto dos seus.

 

Disseram-lhe, então, que Sidónio atravessou a ponte, margeou o lado direito do rio e seguiu seu caminho, sempre a olhar para a bela flor que ele, com a sua covardia, deixara a correnteza levar para sempre.

 

Ao voltarem todos a casa, Nonô olhou para a outra margem do Tâmega, qual se esta fosse um outro mundo. Mundo dos fidalgos e damas da elite flaviense, ao qual ela talvez nunca mais tornasse a pertencer. Se é que algum dia o frequentara, senão por alguns belos e fugazes momentos.

 

Quando um dia pranteara esse amor contrariado e as deceções que o noivo lhe trouxera, Aldenora vira também escoar-se, da Galinheira à Pedra da Bicuda, o último ensejo para que ela, Lilinha e Arminda viessem a frequentar, com mais assiduidade, os ambientes elegantes dessa chamada elite. Se dela tivesse participado mais um pouco, talvez tivesse tido a possibilidade de encontrar outro pretendente mais firme e corajoso em seus propósitos e sentimentos… ou será que toda essa nata, melhor diria, toda essa malta, da qual Sidónio fazia parte, também estaria agora a lhe virar as costas?

 

Cada vida é uma vida, cada ser um ser. Compreendia, agora, que muitas coisas poderiam ter sido diferentes, para ela e as irmãs, se, mesmo antes dos insucessos de Aurora, o Papá não tivesse sido sempre aquele homem austero, quase um misantropo, arredio ao convívio social com as outras famílias de Chaves, a forçar as filhas, mesmo as emancipadas, a uma entediante clausura.

 

 

  1. BONS ARES.

 

Alfredo decidiu partir com Alice para Buenos Aires, onde um amigo galego, ex-companheiro de pândegas a Verín, estava a...

 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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07
Jan20

Chaves D´Aurora

ROMANCE

1600-chavesdaurora

 

 

  1. AMARGA PAIXÃO.

 

A Reis não gostava, em hipótese alguma, casar Mindinha ou qualquer uma de suas filhas (a não ser, talvez, Aurora, por uma inconsciente ideia de punição), com o senhor Cazarré, por mais rico e próspero que este se apresentasse. Sabia-lhe da enorme fama de mulherengo, com vários filhos caboclos ou mulatos a se espalharem pela Amazónia, o que muito atormentara a cabeça da primeira esposa do leirião, uma brasileira que o fez viúvo ainda jovem e sem lhe deixar (ironias da vida) nenhum herdeiro.

 

Por outro lado, também não convinha a Reis mencionar os desregramentos do pretenso genro, pois não podia esquecer o que já era do conhecimento de todo o seu clã familiar, a existência de Zerlindo, o outro filho que ele próprio deixara no Brasil. Papá, todavia, sempre estivera a considerar tal história apenas um pequeno deslize da sua juventude. Em nada se julgava semelhante ao caráter marialva e irresponsável do gajo que, àquela altura, pretendia fazer-lhe de sogro.

 

Eis que mais um problema surgiu para transtornar a mente do patriarca. Outro conhecido lá do Pará que, por essa altura, também andava a Chaves, fez chegar aos ouvidos de Papá que o senhor Cazarré tinha por amante, em Belém, uma cabocla de maus modos e má língua, tida e mantida por ele com as rendas e prendas pelas quais ele a mimava e aos filhos bastardos. A dita cuja ameaçava fazer a maior balbúrdia, à porta de qualquer igreja onde, aquele que a fizera “teúda e manteúda”, ao menos pensasse em se unir a outra mulher em matrimónio.

 

João Reis decidiu enviar uma carta bem desaforada ao leirião – Isso cá não está mau! Ora que só me faltava esta! – Arminda, porém, instou-o a desistir – Não, Papá, não faça isso. Esqueça. Vou casar com ele, assim mesmo e pronto. E nem vou me dignar a saber da existência dessa mulher. Se lá no Brasil ela quiser fazer alguma pessegada, ora pois que ela se entenda – então acentuou, o mais tonante possível – “com o meu marido” – deixando os mais da casa bastante intrigados, pelo facto de que, ao contrário da relação de suas irmãs rejeitadas com os seus concernentes rejeitadores, não se percebia, pelo menos até àquela altura dos factos, que Mindinha estivesse a nutrir qualquer sentimento especial pelo atacadista leirião.

 

Em vão os pais tentaram demovê-la desse casório e, até mesmo, fizeram-na ver que ainda não era emancipada. Papá chegou a dizer que não ia permitir tal imprudência e insensatez, mas ela contra-argumentou – Nem o Santo Padre, o Papa! Seria capaz até de fugir, pra me casar com o meu noivo! – e o disse com tal veemência, que a todos assombrava, não restando ao patriarca senão pedir à menina que escrevesse ao senhor Cazarré, colocando-o a par do que fora sabido e, por ela, a propósito, decidido.

 

Em carta que chegou de resposta, algum tempo depois, o atacadista garantiu que nenhum escândalo público iria atingir a menina e que, se preciso fosse, casariam no civil e no religioso em sua própria residência. Prometeu ainda que  colocaria, como sentinela permanente à porta da casa, por quantos dias e meses fossem necessários, um vigia sinaleiro, espécie de vigilante noturno que fazia a ronda urbana e usava um estridente apito.

 

(E tudo ocorreu assim, como consta de relatos posteriores. Todos, a amante, a noiva e o leirião, cumpriram exatamente o que prometeram, cada um ao seu modo).

 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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  1. REALEJO.

 

O verão chegou radiante, às margens do Tâmega e, aos domingos, senhoras passeavam com seus guarda-sóis, circundados por franjas e brocados. Rapazes e raparigas...

 

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31
Dez19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. DOCE PAIXÃO.

 

 

Não sabiam os mais da casa que, nesse intermédio de tempo, Aurélia já tentara roubar para si o que, em sua cabeça, julgava ser todo seu. Dias antes, após descer pela escada social, em uma das visitas à Quinta, Cazarré deparou-se à frente da casa com a rapariga. Esta, sorrateiramente, dera a volta pelo porão e agora lhe estendia uma caixa redonda, com bombons de fino chocolate suíço.

 

Marialva bem vivido, dom-joão de muitas caboclas de Belém, o leirião logo viu que tinha bacalhau no meio das sardinhas, nesse rico mar de pescaria onde, há alguns dias, ele já vinha atirando os seus cúpidos anzóis. Após lhe saberem bem alguns bombons, escolheu um em formato de bastonete, despiu-o com gestos sensuais de seu invólucro de papel e o colocou, com dois dedos adentro, entre os lábios de Aurélia. Como já tivesse escurecido, certificou-se de não sentir ninguém à vista e empurrou gentilmente a Lilinha para dentro do porão. A seguir, para trás da porta entreaberta, achegou-se mais perto da rapariga.

 

A menina parecia estar paralisada, hirta como estátua de mármore e nem de longe pretendia gritar. Tinha, porém, o coração aos saltos, quando Cazarré abraçou-a e aproximou seus fartos bigodes aos lábios dela. Assim, Aurélia Dias Bernardes experimentou pela primeira vez um corpo de homem a se encostar ao seu e, de seguida, o seu primeiro beijo. Um beijo doce, suíço-achocolatado.

 

Em outras visitas de Cazarré, sempre quando ele descia pela escada social e Arminda, a um visível desinteresse, não ia sequer lhe dar um aceno de adeus, seguiam-se momentos rápidos e furtivos entre Lilinha e o leirião. Ninguém dos seus, porém, inclusive a irmã mais nova, jamais poderia imaginar o que se passava nos subterrâneos do clã familiar.

 

Acabaram-se os bombons, mas os beijos continuaram vorazes, agora com hálito e gosto de carne condimentada, de cebolas, enchidos, vinhos, charutos e o mais que fosse, dentre as heranças do jantar. Certa vez, assustou-se bastante, ao ver a calça do leirião roçar no seu vestido por algum tempo e o rosto dele ficar estranho, afogueado, como se estivesse prestes a falecer. Depois ele acalmou-se, pespegou em sua face um rápido beijinho e logo se escafedeu, sem dizer palavra.

 

 

Chegou, enfim, o dia da partida do noivo. Antes, Cazarré agendou com João Reis sua volta a Chaves, na primavera do ano seguinte. Viria formalizar o compromisso que ora assumia com a sua Arminda e o juramento de sempre honrá-la, perante os homens e diante d’ Aquele que tudo sabe e a tudo vê (ainda que, na opinião de Rodrigo, um olho com miopia, catarata e outras divinas deficiências).

 

O atacadista despediu-se de todos, mas, dessa vez, quem estava à frente da casa era a graciosa Arminda, aquela que, algum tempo depois, já no Brasil, o leirião viria a receber em matrimónio. De Mindinha, porém, nem um beijinho à face ele ousava pedir, quanto mais roubar. Arriscou um olhar para cima e fez um breve aceno à Lilinha que, a uma das janelas, abraçava uma boneca de pano, fetiche com o qual tentava minorar suas carências. A menina retribuiu com uns tímidos dedinhos, lívida de dor pelas tentativas vãs e o fracasso dessa conquista amorosa, sem nem ao menos um beijo de adeus.

 

Trazia também, junto a si, a caixa de bombons vazia, guardada como lembrança. O que ela estava a sentir na boca, a essa altura, era um gosto de chocolate ruim. Amargo, mofado, envelhecido.

 

 

  1. AMARGA PAIXÃO.

A Reis não gostava, em hipótese alguma, casar Mindinha ou qualquer uma de suas filhas (a não ser, talvez, Aurora, por uma inconsciente ideia de punição), com o senhor Cazarré, por mais...

 

 

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24
Dez19

Chaves D´Aurora

um romance de raimundo alberto

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ACEITE.

 

 

A filha caçula já estava a completar dezasseis anos de encanto e juventude. Ao juízo de Papá e de Mamã, Arminda ainda estava bastante verdinha para se deixar conduzir à vida matrimonial, pois esta, além dos deveres conjugais, incluía também administrar uma casa, supervisionar os criados, cuidar dos filhos e... ufa! O mais. Enquanto, à volta de si, todos lhe discutiam o futuro, a rapariguinha... nem ela! Limitava-se, à mesa do jantar, a fazer patinhos com miolos de pão e um pouco d’água, parecendo a todos que meditava profundamente sobre...a arte de fazer patinhos com um pouco d’água e miolos de pão.

 

A menina, entretanto, refletia: sim, até podia ser que o Tempo lhe favorecesse mais do que às irmãs e, alguns anos depois, já quase esquecidos os factos do presente, algum rapaz de Chaves viesse a amá-la e lhe pedir a mão, a qual seria entregue sob as bênçãos de Deus. O mais provável, todavia, é que ela também já estivesse condenada a pagar, na condição de solteirona, pelos falhanços de Aurora e a consequente desonra da família. Só não podia entender, por ser ainda tão jovem, porque haveriam de marcar com essa nódoa de desmoralização a três boas e prendadas raparigas, cujo comportamento irrepreensível nada tinha a ver com o que ocorrera à desafortunada irmã.

 

A todos surpreendeu, em um domingo posterior, quando, na sala de visitas, diante de todo o clã e do leirião, que estava a saborear pastéis de Chaves e os famosos biscoitos de Mamã, além de degustar um vinho d’Alentejo e bebericar alguns licores e um Porto, Arminda levantou-se de repente do chão, onde brincava com o Mocho, seu tareco, dirigiu os olhos até ao convidado e disse, para estupefação de todos – Senhor Cazarré, se o senhor quer-me de facto para esposa e assim lhe apraz, caso-me consigo – apesar de, mais tarde, abrir-se com as irmãs – Sou muito nova ainda e cá estou a saber disso, mas não percebo mais qualquer outro futuro para mim, neste cabo do mundo!

 

O comerciante de azeites e vinhos saiu da Quinta ébrio de satisfação, com as pernas bambas, graças também às taças de vinho verde do Minho que, sem mas nem meio mas, não recusara, por educação, a gentil oferta de beber um pouco mais. Dias depois, diante dos olhos admirados da família e da inveja visceral de Nonô, ele mimou a caçulinha com um precioso anel de noivado, um cachucho onde estava a brilhar uma pedra solitária.

 

Nesse momento, porém, todos se voltaram para a menina Aurélia, que estava a chorar copiosamente. Aldenora perguntou – Que tens, menina? Que deu em ti, ora, pois, será que queres tão bem assim à nossa irmã, mais do que todos nós que a amamos tanto? – e Papá – Porque estás a chorar, afinal? – ao que Lilinha apenas balbuciou – É de emoção! Eu... eu estou tão emocionada!

 

 

 

  1. DOCE PAIXÃO.

 

Não sabiam os mais da casa que, nesse intermédio de tempo, Aurélia já tentara roubar para si o que, em sua cabeça, julgava...

 

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17
Dez19

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. REAÇÕES.

 

 

Aldenora e Aurélia tentaram derrubar, pelos mais alegados motivos, a eventual concretização desse enlace de Arminda com o leirião. A começar, por estarem ambas cientes de uma atroz realidade: a de estar cada vez mais difícil, ao menos por uns bons (maus) tempos, a possibilidade de virem a casar com algum jovem flaviense de família tradicional, ou, até mesmo, qualquer “bom partido” de alguma vila do Concelho, próxima ou distante. Portanto, Papá jamais deveria permitir que, à mais nova, fosse dado o direito de casar antes das outras. Por outro lado, o senhor Cara Azeda (assim posto a nomear por Nonô) era muito mais velho do que a caçula, com idade bastante para lhe ser pai e (exageravam) até mesmo avô, embora ele mal estivesse a passar dos 50. Apontavam-se vários pequenos defeitos ao pretenso cunhado, que elas iam enumerando, pelo facto de já o estarem a observar muito bem, sempre que ele por lá aparecia, o que, aliás, estava a se dar com uma frequência cada vez maior.

 

Havia um motivo especial para Lilinha tentar impedir a união da irmã caçula com o senhor Cazarré. Já com alguns pequenos tufos de algodão à volta das orelhas, ele viera causar, sem que ninguém soubesse, uma forte paixão em Aurélia. Como diria um escritor de folhetim, havia algo a dilacerar seu coração, pois esse pretendente da irmã estava a se incluir, justamente, no perfil de suas preferências amorosas. Ademais, sem que os outros notassem, a não ser ela mesma, se o leirião lançasse o olho direito para a irmã, o glóbulo esquerdo, igualmente lascivo, estava sempre a cair sobre a outra Bernardes, a que por ele se apaixonara. Também não lhe escapava (e aterrava) que ambos os olhares bidirecionais desse homem tivessem o mesmo brilho famélico e voraz daquele velhote pervertido de sua infância.

 

Assim é que, tão logo se anunciava a presença do comerciante leirião, a rapariga corria a escolher um de seus melhores vestidos de menina e maquiava de tal forma o rosto de menina, que mais parecia, no todo de menina, uma boneca de porcelana de menina, recém-tirada da caixa de seus brinquedos... de menina. Tais arroubos de menina levou Papá, por duas ou três vezes, a mandá-la correr até à casa de banho e lavar, como ele assim classificava, esse rosto de fantochada.

 

  1. ACEITE.

 

A filha caçula já estava a completar dezasseis anos de encanto e juventude. Ao juízo de Papá e de Mamã, Arminda ainda estava bastante...

 

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10
Dez19

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

  1. SENHOR CAZARRÉ.

 

De Além-mar também chegou a Chaves, na Primavera, um velho conhecido e freguês de Reis, lá no Pará. Era o senhor Joaquim Cazarré, natural de Leiria, próspero sócio de uma importadora de vinhos, azeites e outros géneros de Portugal como nozes, amêndoas, avelãs e que tais, com uma grande casa comercial na Cidade Velha de Belém. Por seus estudos farmacêuticos, entretanto, ao que mais apreciava dedicar era à sua farmácia, no Centro, onde sobressaía a venda de chás e mezinhas medicinais, favorecida pelo rico herbanário da região.

 

Albergado no Hotel de Chaves, uma interessante construção de pedras aparentes à Rua das Couraças, em frente a uma das muralhas que restam da vila medieval, foi convidado a cear ou almoçar algumas vezes na Quinta e, ao final, recolhia-se com Reis a palestrar na sala íntima do patriarca. Entre um havano e outro, um cálice do Porto e outros mais, o leirião fez uma proposta a que o flaviense não esperava – Que achas tu, ó Reis, de me casares a uma de tuas meninas? – o que levou o anfitrião a fazer uma longa pausa, esticando o tempo de refletir no que responder e, enfim – Primeiro, terei que perguntar às meninas se alguma delas te quer aceitar. A me pores de lado a menina Arminda, que mal acabou de largar as bonecas e a minha outra menina… a Aurora… enfim, tu bem sabes o que aconteceu…

 

O de Leiria o surpreendeu mais ainda – Mas ora, pois, ó Reis, se é da menina mesma que estou a falar! Não vejo nada de mal em me casares com a rapariga, se ela, com todo respeito, já não está mais a se pôr, já está posta e se é justamente dela que estou a me interessar! – e Papá, ao escutar essas palavras, puxou bastante ar aos pulmões, sorriu de alegria, a olhar para um passe-partout de pelúcia, bordado a estanho, com o retrato de Aurora. Sentiu, então, um grande alívio, acompanhado da esperança de voltar a viver com os miolos em paz. Sua filha desmiolada iria ter, afinal, um marido e um lar, traria de volta sua honra e a de toda a família. Fatinha, por certo, estava a ganhar um verdadeiro pai.

 

Já o visitante, todavia, apontava para outra foto, com o sorriso de Arminda – Ora pois, aí tens. Cá está. Estás a ver que ela já não é tão pirralha assim, não é mesmo? – forçando Reis, meio a contragosto, comunicar à sua Mindinha e aos mais, na ceia do dia seguinte, as intenções do pretendente.

 

 

  1. REAÇÕES.

 

Aldenora e Aurélia tentaram derrubar, pelos mais alegados motivos, a eventual concretização desse enlace de Arminda com o leirião. A começar, por...

 

 

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03
Dez19

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

  1. BATINAS RASGADAS.

 

Certa manhã de sábado, Afonso e os companheiros partiram até às margens do Mondego, onde já todos se viam com suas batinas, a cantarem canções alegres pelas estreitas ruas de Coimbra. Levavam, como principal bagagem, muitos quilos de esperança. Poucos dias depois, já estavam de volta. Dessa vez, porém, sem ao menos poderem cantar um triste fado. É que, dentre os rapazes dessa equipa de estudos, apenas o Tomazinho Varapau, filho do dono de uma farmácia em Chaves, é que se houvera bem nos exames, e estava a ganhar, assim, a aptidão para, daqui a alguns anos, queimar as fitas e se tornar um novo bacharel flaviense.

 

Tanto o rapaz vitorioso, quanto os demais colegas de Afonso, todos disseram lamentar muito por ele, que sempre estivera a parecer muito bem preparado para os exames. Alguém, no entanto, cogitou que os insucessos da família talvez perturbassem o rapaz de tal sorte que, ao chegar o tão ansiado momento, um misto de insegurança e impotência o abateu.

 

Ao ver João Reis a esperá-lo na Estação, Afonso atirou-se aos braços de Papá e chorou, copiosamente, sem ao menos pensar nos que estavam ao redor. Era a primeira vez que chorava em público, em toda a sua vida. Reis que, de ordinário, não era dado a demonstrar qualquer carinho para com os filhos, passou os braços de modo canhestro pelos ombros do rapaz e lhe afagou a cabeça. – Deixa estar... deixa estar... hás de tentar de novo.

 

 

Algumas semanas após esse facto, o rapaz procurou o pai ao escritório da Rua Santo António, a lhe dizer que não pretendia mais qualquer tentativa de ser admitido a uma universidade, fosse a de Coimbra, do Porto, Braga ou Lisboa, pois estava a querer mesmo era trabalhar no armazém da Rua das Couraças e juntar dinheiro para emigrar ao Brasil.

 

Pelas cartas do Pará que chegavam até Afonso, João Reis e Florinda já andavam desconfiados de algo que, finalmente, agora lhes era dado conhecer. O segundo da prole estava apaixonado por correspondência (similar ao que, no século XXI viria a ocorrer entre usuários da Internet, mas, àquela altura, sem a rapidez e outras características virtuais de hoje).

 

A correspondente era a prima Inezita, filha da Tia Nazica, parenta de Mamã por parte de pai, o aveirense das famosas bengaladas. A menina, pois, nascera e habitava com os seus em Belém do Pará. As cartas trocadas pelos primos, às quais se anexavam fotos de um ao outro, com belas dedicatórias, cartões postais de lá e de cá, folhas ou flores secas e perfumadas, demoravam quase dois meses a cair nas mãos dos destinatários (e se gastavam outros tantos mais, para chegarem as respostas). Era, pois, com uma disfarçada, mas percetível ansiedade, que Afonsito esperava a chegada do comboio que lhe trazia tal correspondência, com as sempre bem-vindas palavras da amada de Além-mar, em pacotes nos quais se incluíam também, por vezes, alguns doces de compota de frutas tropicais (“feitos por mim”, dizia Inezita).

 

 

  1. SENHOR CAZARRÉ.

 

De Além-mar também chegou a Chaves, na Primavera, um velho conhecido e freguês de Reis, lá no Pará. Era o senhor...

 

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26
Nov19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. BAILE DA ELITE.

 

À segunda-feira de carnaval, Flor sabia que, dentre as filhas, apenas Aurora já estava emancipada e, de acordo com a Lei, a única a poder usufruir de certa liberdade de ir e vir fora de casa, embora também soubesse que esses direitos não eram lá muito respeitados pelo patriarca da família. Não foi senão a muito custo que Florinda consentiu que Aldenora e Aurélia acompanhassem Afonso a um baile no Liceu.

 

Com seus melhores trajos de gala (que deram pulos de alegria nos armários, quando souberam que iam sair à farra, pois na Quinta Grão Pará viviam às naftalinas, carentes de uma oportunidade para se mostrarem à sociedade), viram-se os irmãos em um baile realmente chique, pleno de homens e mulheres elegantes, a darem preferência às meias máscaras venezianas, previamente encomendadas. O próprio diretor do Liceu, de sobrecasaca e cartola, trazia ao rosto um pequeno disfarce aveludado, uma espécie de máscara similar a um pince-nez.

 

Era um delírio de valsas que faziam as meninas ficarem com saudades e suspirarem por um bis. Enorme o consumo de confetes, serpentinas e uma ou outra bisnaga que, ao contrário do Entrudo, continha apenas água perfumada. Afonso e as irmãs divertiram-se a gosto, especialmente Nonô que, mesmo oculta sob a meia máscara, era bastante requisitada pelos rapazes da festa e decerto que não estava propensa a recusar nenhum convite.

 

Eis que se aproximou de Aldenora um rapaz de belo porte, muito elegante, a se fantasiar com o trajo típico de mágico (aquele que, alguns anos depois, faria consagrar a personagem Mandrake, nas bandas desenhadas de revista). Com a indispensável cartola e a bengala, enormes suíças, falsa pera no queixo e parte do rosto coberto por uma máscara, o moço já estivera a fitá-la desde algum tempo, com indisfarçável insistência. Chegou-se educado, cheio de mesuras, mas com uma voz arrebatadora – A bela e gentil menina dá-me o prazer desta valsa? – o que fez a máscara negra de Nonô empalidecer e, por baixo dela, suas faces reais embranquecerem mais ainda.

 

O que já estava a desconfiar, agora se confirmava – Perdoe-me, senhor, mas não estou a dançar – e ele insistiu – Porquê? Acaso algum felizardo já a tem, em compromisso? – ela não respondeu – Mas a menina valsa tão bem, como acabo de ver… e com tantos do salão! – ao que Nonô continuou calada, enquanto o “mágico” prosseguia a mirá-la fixamente, sem tugir nem mugir, como que possuído do mais alto e sincero enlevo. Até que ela suplicou, afinal – Por favor, senhor, estou comprometida, sim – e ele, com visível deceção, engoliu em seco e exclamou – Comprometida?! – Ela completou – Sim, e com um cavalheiro! – além de acentuar essa palavra, repetiu-a – Um ca-va-lhei-ro, senhor! Como eu disse, um homem, um verdadeiro homem de caráter! Desses que não estou cá a ver nenhum, à minha volta. – pelo que, dito isso, o “mágico” afastou-se, virou-se uma vez mais para fitá-la e se retirou da festa.

 

Aldenora dançou de raiva até ao amanhecer. Em seu quarto, sentiu-se inerte, como se o tempo e o mundo estivessem parados em torno dela. Ao invés de pensar no grande Deus de Amor a quem sempre venerava, dirigia-se agora ao pequeno e alado deus do Amor – Porque, para tantas criaturas, existe o Amor e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de amar? Porque nem sempre se tem a quem mais deseja? – ficou a se perguntar, ao lembrar todas as histórias que já lera na vida, desde as de Eça ou de Zola até às mais lamechas. Se tal sentimento existe apenas na teoria, porque não eliminar de todos os dicionários, poemas, contos, romances e canções de todos os tempos e de todas as línguas, essa palavra tão vezes dita, desdita, bendita, maldita, que a ele corresponde?!

 

Tinha pertinho de si o exemplo de carinho que, mesmo após tantos anos e tantos desenganos da vida, sua mãe e seu pai ainda nutriam, um pelo outro. E ela… porque ela, tal como aconteceu à sua desgraçada irmã, entregara-se a um amar que não foi infinito, apenas infinitivo?! Porque, graças ou desgraças a um sentimento que fora tão forte dentro de si e ela, agora, tanto questionava, sentia-se como a volumosa Pedra Bolideira, que a gente faz mexer e balançar com um simples toque de mão, mas o pedaço de rocha não rola para longe, não cai, não sai do lugar?!

 

Dentro de si, agora, o carnaval já era Quaresma.

 

 

  1. BATINAS RASGADAS.

 

Certa manhã de sábado, Afonso e os companheiros partiram até às margens do Mondego, onde já todos se viam com suas batinas, a cantarem canções alegres pelas estreitas ruas de Coimbra. Levavam, como principal bagagem, ...

 

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05
Nov19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. FOLIÃO.

 

 

Ao passarem pela Rua do Postigo das Manas, eis que Aurora entreviu Hernando, próximo às escadas de mesmo nome, em companhia de vários gajos e moças, quase todos mascarados.

 

A grande paixão da vida de Aurita lá estava, no Postigo, a dar puxões de mentirinha nos cabelos de uma princesa com a saia esfarrapada, coberta de tiras coloridas, que trazia à cabeça uma coroa de papelão, forrada de papel dourado. A moça abrigava-se do frio com um manto de lã tingida, como se fosse púrpura, a cor preferida dos nobres e reis. O rapaz também estava em trajo carnavalesco, porém difícil de definir o que representava. Bem poderia ser o marujo Simbad ou o Pirata dos Sete Mares. Na verdade, o que parecia ser, mesmo, era um artista de circo tradicional.

 

Ao avistarem a mal camuflada Carochinha, logo reconhecida, como aliás já o fora, durante o longo percurso da caleche, por quase todo mundo, foliões do pequeno bloco de Hernando puseram-se a caçoar e a gritar motejos aos “companheiros” de Adelaide, alguns a abusarem até mesmo de gestos e palavras bem chulas. Aurélia, Arminda e Aurora começaram a chorar, mesmo que fosse a primeira por medo, a segunda por vergonha, enquanto bem diferentes eram as razões da terceira. Quanto à Aldenora, esta ficou bastante indignada, porque também reconhecera o cigano. O mesmo ocorreu com a Qu´ridedé, que ficou séria, de repente, como nunca a viram antes. Quando esta rogou ao Manozé que pusesse os cavalos a trotar, o mais rápido possível, para bem longe dali, aconteceu de Hernando, ao perceber que uma das raparigas ainda olhava fixamente para trás e para si, destacar-se da malta e correr atrás da Carochinha, devolvendo à moça a fixidez do olhar – Reconheceu-me! – pensou ela, e ele – E não há de ser ela?!

 

Atarantada com a deceção das raparigas, Adelaide implorou-lhes que não a fizesse perder a amizade e a consideração de Florinda. Prometeu-lhes, para compensar os insucessos do dia, levá-las na segunda-feira a um baile no teatro, uma diversão bem mais calma e familiar. A falar por si e pelas irmãs, Aldenora comentou que, de qualquer modo, aquilo tudo havia sido uma experiência nova e interessante para todos. Agradecia, porém, o outro convite, por achar que, para esse evento, Mamã se veria constrangida a não dar sua permissão, temerosa das recomendações de Papá.

 

Ainda bem, pois nem Adelaide sabia que a pândega iria correr solta e rasgada nesse baile público. Vissem as meninas Bernardes o que não agradou à própria Dedé, tal como foi relatada por um outro cronista anónimo, do jornal “A Região Flaviense”: (...) “Uma animação que se diria selvagem! Postadas aos camarotes, raparigas sem qualquer brio e até regateiras de má fama, como as irmãs Saldanha, umas conhecidas causadoras de tumulto que, uma vez, agrediram dois sargentos com palavras de baixo calão, apraziam-se em atirar os mais diversos tipos de objecto à cara dos cidadãos da plateia. Sem mais nada à mão, faziam das serpentinas um novelo bem considerável e alvejavam pacatos indivíduos em baixo que, surpreendidos pela violência do choque, voltavam-se para elas e estas, felizes com a façanha, mostravam-lhes a sorrir os dentes”. (O cronista explicava, então, que alguns dentinhos eram bonitos, mas outros pareciam uns meros cacos de dentina, que nem um estereótipo de bruxa ousaria mostrar).

 

Pior mesmo, só o baile em uma casa à Rua do Poço que, segundo um artigo de J. Sotto Maior, no mesmo jornal, era “com entrada a tostão, bastante rasca, onde tresandava a vinho e a pouca-vergonha. O que teve de mais chiste e mais graça foi a Murinheira, dançada no palco por um grupo de indivíduos em trajo selvagem e sertanejo. A única pequena manifestação de espírito deste ano.”

 

 

  1. BAILE DA ELITE.

 

À segunda-feira de carnaval, Flor sabia que, dentre as filhas, apenas Aurora já estava emancipada e, de acordo com a Lei, a única a poder usufruir...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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29
Out19

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ENTRUDO.

 

As meninas Bernardes adoraram conhecer o Entrudo, mas, de outro ponto de vista, ficaram aterradas. Chegaram a temer até por sua própria integridade física. Enquanto Adelaide estava a se divertir às largas, aquela novidade toda, para as meninas, não lhes parecia mais do que uma patuscada grosseira, vulgar e, sobretudo, violenta.

 

Ao Campo da Fonte, ao Jardim Público, à Madalena, seguindo pela ponte até ao Arrabalde, continuando para o Tabolado ou por toda a Santo António e o Largo das Freiras, estavam todos a brincar o carnaval, na mais plena animação.

 

ponte romana.PNG

Ponte romana, Madalena e parte do Jardim Público. Foto (cedida) de Fernando Ribeiro. Original a cores.

 

Eram maltas de miúdos e rapazes, magotes de homens e mulheres de todas as idades, provenientes da vila e das aldeias do Concelho, que estavam – Ao jeitinho que lhes gosta o Mainemigo! – assim diziam as beatas, a se benzerem, às janelas de suas casas. Essas devotas, se alguns passantes as provocassem com palavras e gestos, jogavam sobre eles baldes com água suja, ou até mesmo com outros líquidos malcheirosos, de indubitável procedência.

 

Era bem grande o número de foliões, a maioria mascarados que, tal como os “rapazes” dessa comitiva de Adelaide, travestiam-se como pessoas do sexo oposto, mas sempre a caricaturar o outro género com as mais exageradas atitudes e trejeitos. Em um vale-tudo de gostos e inspirações, outros cobriam-se com farrapos de roupas gastas e chapéus bragueses de muito uso, alguns a se fazerem de bonitos, outros horrendos e disformes, a imitarem cegos, coxos, aleijados. Outros mais exibiam fantasias de centuriões romanos ou ciganas medievais, por sobre ceroulas, calções e outras peças de lã que os resguardassem do frio. Havia até uma Maria Mantela, com sete homens barbudos de fralda e chuchinha na boca, cada um com o nome de um pároco atual de alguma vila ou aldeia próxima, escrito no babadouro.

 

Muitos borrachos punham-se a urinar, de modo inconveniente e exibicionista, diante do primeiro muro de pedras que encontrassem. Em alguns becos, surpreendiam-se até pessoas em outros atos naturais da criação, mas que, por serem feitos em público, tornavam-se obscenos. Para sorte de Dedé, nem uns nem outros chegaram aos olhos das meninas pelas quais estava responsável e que, felizmente, só tiveram vistas para o que acharam a melhor atração da festa, a passagem dos Cabeções. Eram enormes bonecos de várias cores, feitos com papel endurecido e, por serem as suas cabeças desproporcionais aos corpos, alguns pareciam baixotes, devido à elevada cartola, outros altos demais, em um interessante “trompe d’ oeil”.

 

Certas brincadeiras estapafúrdias, porém, foram as que mais chocaram as quatro irmãs. Foliões mascarados levavam paus e bengalas a fim de se defenderem de (ou atacar) quem tentasse reconhecê-los. Provocados pelos putos, giravam seus porretes a um círculo em torno de si, podendo atingir qualquer um que não conseguisse esquivar-se a pronto. Garotos preparavam canas de sabugueiro, a fazer destas um tipo de canudo, pelas quais jogavam água colorida com beterraba nas pessoas ou até mesmo (como faziam as beatas às janelas), sabe-se lá o quê! Rapazes lançavam bombas de estoirar, que rabeavam como osgas ligeiras entre as pernas das raparigas.

 

Essas muitas ações de mau gosto, tradições perdidas no tempo e que, possivelmente, remontavam às Carnaválias romanas, constituíam a característica máxima do Entrudo. Conforme o cronista anónimo de um jornal da época, “atirava-se nos outros de tudo que pudesse sujar e, até mesmo, nem que fosse um pouquinho só, mas nem sempre de leve, magoar. De tudo se valiam, desde as inofensivas serpentinas coloridas de papel, que se dependuravam nos fios eléctricos, até graxa, carvão, pó de sapato, tinta de pintura a óleo, cinzas, farelos, sendo a preferida de todos, e a de maior desperdício, a farinha de trigo”. Ao partir para casa o último folião, as ruas e calçadas ficavam esbranquiçadas pelo cereal moído.

 

Logo o pequeno bloco de Adelaide começava a retornar à Galinheira, a pedido do próprio Manozé, enquanto a sua Qu´ridedé gargalhava, como se fosse um bandalho, por ver que o moçambicano recebera na cara uma mistura de ovos com farelo, menos provido de sorte do que as meninas e do que ela própria, todas “apenas” cobertas de farinha.

 

 

  1. FOLIÃO.

Ao passarem pela Rua do Postigo das Manas, eis que Aurora entreviu Hernando, próximo às escadas de mesmo nome, em companhia de vários gajos e moças, quase todos...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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