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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Ago20

Chaves D´Aurora

Romance - Últimos Capítulos

1600-chavesdaurora

 

  1. CHAVES DA ILUSÃO.

 

A última escada, o último apito, a última esperança já lá se foram. A rapariga se agarra firme à amurada, para não cair, enquanto se põe a contemplar a terra que mais e mais se distancia. Nela ficará, para sempre e tão distante, um certo gajo com luvas cor de morcela. Aquele pelo qual tanto ansiava e que a fizera conjugar, ao mesmo tempo, os verbos amar e desamar. Aurora prosseguirá, no entanto, a carregar consigo a tentativa de esquecê-lo, como a um indesejável inquilino de algum sótão em sua memória, ou, mais apropriadamente, de um porão cada vez mais sombrio.

 

Em vão.

 

Posto que entregasse a esse rapaz muito mais do que havia de si mesma, pressente que jamais o deixará de trazer dentro de si, no mais recôndito de suas esferas pessoais. Pelo menos até que, finalmente, a imagem de Hernando Camacho se venha a definhar, diluir-se, evadir-se da sua mente insana; porque também terá chegado o tempo de seu corpo insano apagar-se, diluir-se, inexistir. Ao cabo de tudo, agora ela percebe afinal quem é o homem a quem entregara muito mais do que amor, esse alvo tão perseguido e o mais complicado de todos os sentimentos humanos, mas que, não obstante, os próprios amantes o transformam, tantas vezes, em algo efémero, banal, fugaz.

 

Um choro de criança miúda, proveniente da terceira classe do navio, alcança-lhe os ouvidos e ela percebe, então, o inteiro teor das palavras de Totonha, a velha sibila. Sílaba por sílaba, Aurora as guardara de cor, ou seja, ao coração. Lá no camarote, a dormir junto aos avós, está aquela que será sua constante companhia por todos os anos do resto de sua vida. Um serzinho em botão que a ela caberá regar com o seu desvelo e ajudar a florescer, com todo o seu amor.

 

Aos dias seguintes, no navio e nas terras do seu destino, muitos homens como o tripulante alemão, ou mesmo esse jovem que ali estivera perto dela, com sua luva cor de morcela, olharão para si, então no esplendor de sua beleza e juventude e, sem saberem dos insucessos da rapariga, estarão a lhe transmitir educados, gentis e cavalheirescos sinais de interesse amoroso. O que se haverá de saber, no entanto, por todos os que com ela vierem a conviver, é que jamais voltará a se entregar a homem nenhum.

 

 

  1. CHAVES D’ AURORA.

 

O dia, finalmente, alvorece. As chaves dessa alba, Aurora há de guardá-las consigo, para sempre. A radiosa manhã, ainda que fria, favorece a que ela veja se distanciarem, cada vez mais, os últimos recantos desse Portugal que ela tanto ama e nunca deixará de amar. Terras que serão, agora, inversamente d’além-mar (e às quais ela não sabe, mas já prenuncia, ninguém de seu clã original irá volver, jamais).

 

Murmura então a si mesma – Ah, Hernando, eu te amei entre flores de giesta, mas nem mil pontas de tojo me fariam tanto magoar! – e a olhar para as águas do mar, alcança-lhe à lembrança o canto das lavadeiras, às margens do Tâmega:

 

 

“Olhos pretos roubadores

porque vós não confessais

dos débitos que fazeis vós

dos corações que matais?”

 

F I M

 

 

 

Chaves, Portugal, 22 de março a 27 de maio de 2010.

Rio de Janeiro, Brasil: revisão final em junho de 2015.

 

 

lavadeira do tamega.JPG

 

 

Lavadeira no Rio Tâmega. Chaves antiga (PT).

Postal público. Foto Alves.

 

 

FEITURA (OU “MAKING OFF”):

 

Os dados essenciais, sobre os factos que inspiraram este romance, foram-me fornecidos pela verdadeira Maria de Fátima, em Belém do Pará, pouco antes de ela vir a falecer. Era apenas um novelinho que conseguira amealhar, sobre a sua origem flaviense. Constituía, porém, o bastante para servir de fio condutor à narrativa desta saga familiar.

 

Procurei envolver os Bernardes com as tradições locais e os eventos históricos e quotidianos que eram noticiados nos jornais da região, entre 1912 e 1926, os quais se encontram disponíveis na Biblioteca Municipal de Chaves. Presumo que muitos desses episódios guardem, de uma forma ou de outra, alguma semelhança com os vividos de facto pelos protagonistas. Quanto à Belém do século XIX, os dados foram recolhidos na imprensa e na bibliografia local. Pesquisei também, outros temas, como os ciganos e suas tradições.

 

Foram numerosos os dados importados daqueles periódicos, que incorporei à história de Aurita, como se dela fizessem parte. Curioso notar que o anúncio sobre a “venda de mobiliário” foi publicado em uma data bem próxima à da partida dos Bernardes para o Brasil. Era deles, possivelmente.

 

Pessoas reais da época, citadas nos jornais, como o dentista, a pianista etc., misturam-se a personagens históricas, como António Granjo e Maria do Rasgão, e às lendário-urbanas, como a Moura da Ponte, Maria Mantela e outras. Quanto à Zefa, à Adelaide, ao primo Rodrigo e tantas criaturas mais, inclusive as que existiram de facto, como os Camacho, os Sidónio (o filho, foi o único do qual localizei o túmulo, no cemitério de Chaves), o Cazarré e Alice, foram todos desenvolvidos pela imaginação do autor, tal como a maior parte das ações e situações em que eles se envolvem, no romance. Já os Bernardes, com os quais, exceto o patriarca, cheguei a conviver, são híbridos de realidade e ficção. Fictícia, também, é Sant’Aninha de Monforte, uma síntese de várias aldeias trasmontanas.

 

No que se refere à Quinta Grão Pará, julgo tê-la reconhecido em um casarão ainda remanescente à Rua do Raio X, nº 135, ao comparar com um croqui trazido pelos Bernardes para o Brasil. Os interiores, todavia, são descritos de forma inteiramente imaginária.

 

Foram da maior importância os meses em que convivi com os habitantes da cidade, a recolher dados, linguagens e tradições locais, como a Festa de N. S. das Brotas, a Procissão do Senhor Morto, até ao Horto, em Santo Amaro, ou as viagens a aldeias próximas, à Pedra Bolideira e ao Castelo de Monforte

 

Interessante notar que as descrições do Carnaval em Chaves, conforme colhi aos jornais da época, assemelham-se às de escritores cariocas dos séculos XIX e XX, sobre o Entrudo no Rio de Janeiro. Da mesma forma, os folguedos portugueses de São João, parecem até resgatados da minha infância, em algumas cidades da Amazónia.

 

O texto sobre a lápide mortuária, que aparece no sonho de Aurora, foi tomado de empréstimo ao seu autor, Mário Fernandes Nazareth. Está esculpido no túmulo da família Bernardes, ao Cemitério de Santa Izabel, em Belém do Pará.

Por fim, um registo pessoal: certa ocasião, por volta dos anos 60, a verdadeira Florinda Bernardes, em uma casinha simples de um subúrbio belenense, ao manifestar sua imensa nostalgia de Portugal, que só a palavra saudade pode definir, olhou para mim e disse – “Quem sabe se tu, ó rapaz, que tanto aprecias viajar, não vais ter algum dia lá em Chaves?” – ao que Aldenora, ao seu lado, acrescentou – “E quem sabe se não serás tu, que tanto gostas de escrever, a contares, um dia, a nossa história?!”.

 

Rio de Janeiro, junho de 2010.

Raimundo Alberto.

 

 

POSSÍVEL LOCAL DA QUINTA GRÃO PARÁ, À RUA DO RAIO X, N° 135,

CF. CROQUIS EM PODER DO AUTOR.(Fotos comparativas):

 

foto-1.JPG

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Frente e lateral direita.

 

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Lateral direita.

 

 

FONTES:

 

Ainda que se trate de uma obra de ficção, relacionarei, dentre as fontes consultadas, as que me foram de suma importância para a feitura do romance, listadas em formato livre, ou seja, fora dos padrões académico-bibliográficos:

 

  • Site / blog www.chaves.blogs.sapo.pt, de Fernando Ribeiro.

 

  • Jornais “O FLAVIENSE” e “A REGIÃO FLAVIENSE” – exemplares esparsos do período 1910-1926, na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

  • “ETNOGRAFIA TRANSMONTANA, VOL. I – CRENÇAS E TRADIÇÕES DO BARROSO e VOLUME II – O COMUNITARISMO DE BARROSO”, de António Lourenço Fontes, editados pelo autor, o primeiro em Braga, 1979 (2ª edição) e o outro em Vila Real, 1977.

 

  • “A IGREJA DE SANTA MARIA MAIOR DE CHAVES”, de Francisco Gonçalves Carneiro, edição do autor, Braga, 1979.

 

  • “ESTUDOS FLAVIENSES – 1 – O CICLO DO NATAL NA REGIÃO FLAVIENSE”, com ilustrações de Nadir Afonso e textos de Francisco Gonçalves Carneiro, João da Ribeira, António Granjo, Heitor Moraes da Silva e outros, editado pela Associação Cultural dos Amigos de Chaves, em 1963.

 

  • “CIGANOS – ROM – UM POVO SEM FRONTEIRAS”, de Nelson Pires Filho, Madras Editora Ltda., São Paulo (SP), Brasil, 2005.

 

  • “A TRAJETÓRIA CIGANA”, artigo de Patrícia Terra e a reportagem “MINORIA”, publicados na revista Terceiro Mundo, Brasil, em datas não registadas pelo Autor.

 

  • “MAGIA CIGANA”, artigo de Anastácia Benvinda, no jornal O Povo Cigano, Rio de Janeiro, novembro de 2007.

 

  • “HISTÓRIA DA LOCOMOÇÃO TERRESTRE”, da coleção “A Ciência Ilustrada”, de Erik Nistche, Livraria Morais Editora, 1966.

 

  • “PARÁ, CAPITAL: BELÉM – MEMÓRIA & PESSOAS & COISAS & LOISAS DA CIDADE”, de Haroldo Maranhão, editado pela FUMBEL-Fundação Cultural do Município de Belém, Gráfica Supercores, Belém do Pará, 2000.

 

  • Reportagens sobre BELÉM ANTIGA, publicadas (em datas diversas) nos jornais belenenses O LIBERAL e A PROVÍNCIA DO PARÁ.

 

  • “GUIA VISUAL DE PORTUGAL, MADEIRA E AÇORES”, publicado pela Folha de São Paulo, Brasil (apud Dorling Kindersley Limited, Londres), em 1999.

 

  • “DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA”, versão on-line.

 

  • “DICIONÁRIO PRÁTICO ILUSTRADO LUSO-BRASILEIRO”, publicado por Lello & Irmão – Editores, Porto, 1995.

 

  • “DICIONÁRIO DE PORTUGUÊS - SCHIFAIZFAVOIRE- CRÓNICAS LUSITANAS”, de Mário Prata, Editora Globo, 1993.

 

  • Artigo sobre a “IGUALDADE ENTRE HOMENS E MULHERES EM PORTUGAL”, do sociólogo Carlos Nunes, publicado no jornal A VOZ DE CHAVES, março de 2010.

 

  • Dados sobre PORTUGAL e outros temas do romance, colhidos à ENCICLOPEDIA BRITÂNICA, Editora Encyclopediae Britannica do Brasil Publicações Ltda., 1981.

 

  • Artigos de autores diversos sobre a Pneumónica, Primeira Guerra Mundial, aparições em Fátima, os Ciganos em Portugal e outros temas abordados na obra, colhidos na Internet, via GOOGLE, WILKIPÉDIA e outros sites de busca e informação.

 

  • Pesquisas de linguagem em obras de autores clássicos e modernos – Eça de Queiroz, Miguel Torga, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, José Saramago, Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares, o flaviense Rogério Ribeiro Gomes e outros.

 

 

 

AGRADECIMENTOS:

 

  • Ao primo Mário Fernandes Nazareth e, em memória, à saudosa M. L., por seus informes essenciais sobre a saga dos Bernardes.

 

  • Ao poeta, escritor, ator e diretor luso-português Jorge Carlos Amaral de Oliveira (Mané do Café) pela inestimável cooperação na revisão desta obra.

 

  • A Fernando D.C. Ribeiro, pelos dados colhidos em seu blog www.chaves.blogs.sapo.pt.
  • e por me fazer conhecer, in loco, várias aldeias ao entorno de Chaves, a Pedra Bolideira e o que resta do Castelo de Monforte;

 

  • À senhora Maria Isabel Viçoso, da Galeria Antígona, em Chaves, que me cedeu os livros do admirável escritor Padre Lourenço Fontes, sobre o Barroso; ao Dr. Alfredo Carneiro, pela amável cessão das obras de seu pai Francisco Gonçalves Carneiro; ao Sr. Rogério Ribeiro Gomes, pela oferta de livros de sua autoria; e a Nazareno Tourinho, pelas obras sobre Belém antiga com as quais me obsequiou.

 

  • A todos os gentis e eficientes funcionários da Biblioteca Municipal de Chaves, nos anos de 2006 e 2010.

 

  • À Sra. Carla Sofia Simões Fernandes, do Arquivo da Universidade de Coimbra, pelos informes sobre exames de admissão à Universidade.

 

  • À Fraulein Angelika Arlander, pela foto que fez de mim, junto à estátua de Fernando Pessoa, no Chiado, em março de 2010; e ao fotógrafo Sr. Carlos, de Chaves, pela recuperação de algumas fotos de Portugal que eu julgava deletadas.

 

  • Aos senhores Ilídio, dona Ana, dona Alda e Patrícia, do Hotel Residencial 4 Estações, em Chaves, pelo apoio inestimável durante todo o processo de criação do romance; ao senhor Dinis Ponteira, que me ensinou a distinção entre urzes, giestas, tojos e outras plantas de Trás-os-Montes; ao senhor Amável (que faz jus ao nome) e família, pela acolhida em sua casa, na aldeia de São Lourenço; à dona Maria da Luz e senhor António Miranda Chaves, pelo contacto com outras aldeias do Concelho; à dona Miquelina e aos seus familiares, do Café e Restaurante Rampa; a Hugo Marceneiro e Paulinha Chaves, em seu Bar Bago, próximo à Ponte Romana, bem como a todos os demais participantes das leituras de poesias no Bago, às noites de quartas-feiras (primavera de 2010), pela boa acolhida e incentivos ao projeto do autor; a Eliana de Castela e a Fátima Guabiraba, por algumas observações revisionais.

 

  • A todos os mais, enfim, cuja valiosa colaboração, por lapsos de memória alheios à minha vontade, deixei de registar.

 

Raimundo Alberto

 

 

Nota Final do Blog Chaves

 

Termina aqui esta longa caminhada de trazer todas as terças-feiras um ou mais capítulos do romance “Chaves D`Aurora”. Sim, já lá vão 4 anos, quando no dia 12 de julho de 2016 publicámos aqui o primeiro capítulo dos 241 capítulos do romance “Chaves D`Aurora”, pouco tempo após ter lido o romance pela primeira vez. Tempo apenas para obter autorização do autor, Raimundo Alberto, para o começar a publicar. Senti então que o deveria partilhar no blog, não só porque o romance se passa em Chaves e envolve a família flaviense “Bernardes” que mesmo com alguma ficção não deixa de ser uma família e uma estória real, mas também porque com ele se faz a História da cidade de Chaves do primeiro quartel do século XX, por sinal rico em acontecimentos, desde a queda da monarquia e a implantação da República, tentativas de derrube da jovem República com a última invasão monárquica de Paiva Couceiro em Chaves, abordagem a António Granjo, a pandemia da Gripe Espanhola tão idêntica à do corona vírus que hoje atravessámos, etc, etc, etc, tudo isso e muito mais do viver em Chaves nos início do século passado. É um romance que fala de nós flavienses e em particular de uma família flaviense regressada do Brasil que aqui vivia bem e feliz,  até que um acontecimento transformou as suas vidas e a fez voltar ao Brasil, para nunca mais voltar, a não ser o autor do romance, Raimundo Alberto, descendente dessa família, que já nasceu no Brasil,  mas que veio a Chaves para sentir na primeira pessoa a cidade e os locais que os seus antepassados aqui viveram.

 

E agora é o nosso tempo de agradecer a Raimundo Alberto a gentiliza de nos permitir a publicação total do romance neste blog, mas mais ainda, por ter aceitado o nosso convite para dar continuidade a esta crónica “Chaves D’Aurora”, não com o romance, mas agora com crónicas suas sobre as suas vivências em Chaves e outras temáticas, assim o

 

Chaves D’Aurora continua na próxima terça-feira,

 

com o mesmo autor, apenas lhe mudamos o cabeçalho para marcar a diferença sobre o romance, em que deixamos a Aurora mulher, para temos as auroras dos dias de Chaves, e não só, Raimundo Alberto é que sabe, as palavras serão suas. Fica o novo cabeçalho desta crónica, precisamente com uma aurora dos dias de Chaves, com uma imagem tomada desde o alto da serra de Soutelo, com a cidade de Chaves mergulhada no nosso habitual nevoeiro, presença de tantas auroras de Chaves:

 

chaves-aurora-cab-2

 

Até à próxima aurora, a acontecer aqui na próxima terça-feira.

 

 

 

 

28
Jul20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. TREVAS.

 

Diante de João Reis Bernardes, as trevas eram metáforas de um outro Portugal, não mais aquele em que vivera, há bem pouco tempo e, agora, estava prestes a deixar. A obscuridade social e política de sua pátria estava apenas no início. Aos anos seguintes, os governos antidemocráticos de Carmona e sucessores iriam desferir duros golpes sobre o regime republicano e todos os seus atos e instituições liberais. Decretariam o encerramento do Congresso e sua dissolução; a substituição, por comissões administrativas oficiais, das câmaras municipais eleitas em sufrágio popular; a dissolução dos partidos políticos e das organizações operárias; o restabelecimento de privilégios e da livre interferência da Igreja em assuntos nacionais; a censura à imprensa; prisões, interrogatórios e torturas, como nos tempos da Inquisição; exílios forçados, deportações et coetera, levando às masmorras ou à morte numerosas vítimas, contrárias ao governo ditatorial,

 

Os grupos capitalistas dominantes, todavia, estariam favorecidos como sempre, a se valerem das benesses governamentais do Estado. Tudo isso iria compor um regime totalitário que, no ano de 1933, acabaria por mergulhar o país, em uma das mais duráveis e funestas ditaduras do século XX, a do (oficiosamente chamado) Estado Novo, sob a clava de chumbo político-económica de Oliveira Salazar.

 

Somente aos 25 de abril de 1974, os cravos da liberdade e da alegria nacional iriam adornar os cabelos das raparigas, as lapelas dos rapazes, as mãos das crianças, o coração dos idosos, a alma dos portugueses e, enfim, as mentes de todos os verdadeiros democratas, em várias partes do mundo. Trariam, também, o contentamento geral dos povos das ex-colónias, logo em breve libertas e a se governarem por si próprias.

 

 

  1. CHAVES DA ILUSÃO.

 

A última escada, o último apito, a última esperança já lá se foram. A rapariga se agarra firme à ...

 

(continua  e TERMINA na próxima terça-feira)

 

 

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21
Jul20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. LUVA.

 

Lá em baixo, os estivadores estavam, enfim, a acabar sua faina. Restavam agora poucos volumes a carregar para o navio. Ao último apito do paquete alemão, deu-se um aperto enorme no coração de Aurora Bernardes. Correu então pelo convés, até ficar acima e diante do sítio por onde entravam os passageiros retardatários da terceira classe. Estava a olhar, ansiosamente, para essa outra escada, prestes a ser também recolhida, quando percebeu, pelo canto dos olhos, achegar-se de si a luva de couro cor de morcela, cor do seu amado, adorado e mil vezes perdoado cigano.

 

Estremeceu.

 

O coração disparou.

 

Tocou-lhe afinal, ao ombro, a mão enluvada.

 

Sabia que finalmente, ao seu lado, estava agora outro homem, maduro, regenerado, pronto a fazê-la feliz em qualquer parte da Terra. Ali estava o homem que a fez, algumas vezes, tocar as cordas de sol; não obstante, em outras ocasiões, as teclas de dó; que levou a si a cantar lá seus fados como ré; e que, agora, em misericordiosa benesse, irá proporcionar-lhe o prazer de tocar todas as notas da escala de seu ser.

 

Estava ali a sua tábua de salvação, o bálsamo a curar feridas d’alma, o porto seguro onde atracar o seu destino. Não importa aonde ela vá com ele. Há que lhe dar as mãos e descerem correndo, antes que seja recolhida a última escada, antes que soe o último apito. Agora ela vai estar, para sempre, ao lado do homem que sempre amou e amará por toda a vida.

 

 

  1. FUGA.

 

Ao percorrer o deque do Hildebrandt, o patriarca dos Bernardes encaminhou-se até ao sítio bem acima de onde a última escada (a que dava às partes inferiores do navio), acabava de ser recolhida. Eis que, do ponto onde estava, divisou dois vultos de negro que desciam apressados os degraus, rumo ao cais.

 

Teve ímpetos de gritar – Aurita! Aurita! Não faças isso, volta, sua tresloucada! – mas antes que o desejo se concretizasse na garganta, os dois evadidos sumiram, entre as brumas da enevoada manhã.

 

 

  1. ENLUVADO.

 

A luva cor de morcela! Aurora está presa da mais plena emoção, nem ao menos consegue mover-se para contemplá-lo, mas sente, pressente: ali está o seu rico cigano. A mesma estatura, a mesma compleição física, o mesmo tipo de trajo… Ali está ele, enfim, a mirá-la, admirá-la, com um olhar de ternura que, em tempo algum, havia antes demonstrado. Ainda sem divisar o amado, sente que a mão direita deste, leve e gentilmente, acaba de lhe pousar sobre o ombro. Vira-se afinal para abraçá-lo, pronta para lhe dar, incondicionalmente, todo o profundo amor que tem a oferecer.

 

Um ricto de espanto, porém, desfigura o seu rosto. O sorriso e a alegria de Scarlett O’Hara, o vento levou para alguma Tara distante. As raras brisas da manhã estão a debochar de sua circunstância.

 

A luva é de um jovem campónio de Santo Estêvão, filho de um conhecido de seu pai e, agora, também emigrante. – Menina Bernardes! Que estás a fazer por cá, a essa altura da madrugada? Cuida que já passa, e de muito, a hora de se haver aos lençóis! – e em sofrida tentativa de resposta, ela balbucia ao companheiro de viagem – Obrigada, não te preocupes. Já estou a recolher – e o rapaz afasta-se dali, por entre as brumas, até seus aposentos da terceira classe.

 

 Ao olhar o porto que virava um ponto a se distanciar, cada vez mais, o corpo de Aurora balançou-se perigosamente sobre a amurada e, diante das águas escuras como um chocolate amargo, viu-se ela a cair na musse de espumas confeiçoada pelas ondas.

 

Seu corpo apareceria boiando, dias depois, em algum sítio do litoral.

 

 

  1. TREVAS.

 

Diante de João Reis Bernardes, as trevas eram metáforas de um outro Portugal, não mais aquele...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

 

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14
Jul20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

 

  1. PERDIDO!

 

Graças à perda do monopólio da borracha, a Amazónia era agora uma região de economia em decadência, que só viria a se reerguer várias décadas após. Bastava-lhe dedicar-se a alguns ramos de negócios inoportunos ou que não os conhecesse bem; viesse ele a confiar e ser vítima de sócios corruptos, inescrupulosos, velhacos, que lhes roubassem toda a parcela de seu capital; e, mesmo sujeito a esses e outros riscos da atividade comercial, ainda permanecesse no quadro constante de depressão e melancolia que trouxera de Chaves, enrolado em seus neurónios de papelão; enfim e assim, o desenho de sua penúria estaria finalmente esboçado.

 

Montava-se, dessa forma, o piorio de seu completo desastre pessoal e financeiro. Na mais cruel miséria, sem um migalho de património a mais para solapar e ante à inevitável falência, teria que bater com os seus, famintos e esfarrapados, à porta de algum parente remediado.

 

Pior ainda se o fosse à casa do marido de sua Arminda (o que iria consumar-se de facto no Brasil, como tudo ou mais que o atemorizava, conforme relatos posteriores). Que flagelo moral para ele, João Reis, o provedor de suas meninas, inclusive de Flor, que mal sabia se prover sozinha e da pobre miúda, que de nada e nenhuns, nem de si mesma, ainda estava a saber!

 

Sozinho, ali no convés, diante da imensidão do mar escuro que se revelava aos olhos do patriarca, como se todo o navio fosse apenas ele só, um imenso couraçado João Reis, agora sem blindagem e à deriva, eis que o pranto retido naqueles últimos anos chegou-lhe em rajada, como lufadas a emanar de seu furacão interior. O mui digno flaviense, lusitano e brasileiro João Reis Bernardes chorou. Um pranto forte, viril, aliviado, a desfazer, um por um, os nós imediatos de sua garganta. Pois que outros nódulos – íntimos, invisíveis, imateriais – eram impossíveis de desatar.

 

 

  1. LUVA.

 

Lá em baixo, os estivadores estavam, enfim, a acabar sua faina. Restavam agora poucos volumes a carregar para o navio. Ao último apito do paquete alemão, deu-se um aperto enorme no coração de Aurora...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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07
Jul20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. PERDAS, PERDAS, PERDAS!

 

 

Ao retornar à cabine, Reis balançou a cabeça para a sua Menina Flor – Levou-a, o patife! – e Mamã, após dar um longo suspiro, abraçou-o e deu vazão ao pranto, como se fora uma ave que acaba de perder um filhote para os predadores da Vida. Ajoelhou-se e se pôs a orar pelo destino da filha desatremada. Ao mesmo tempo, rezou contrita por aquele doce pingo de gente ao seu lado, inocente de tudo à volta de si, a dormir tão plácida sob os cobertores de lã, entre os alvos lençóis, com apliques artesanais de panos coloridos, a formarem bichinhos, florezinhas, estrelinhas e que tais.

 

Ao ver o marido repor as luvas, o chapéu e o sobretudo – Para onde estás a sair de novo? Aonde vais, a essa altura, meu bom Reis? – mas ele tranquilizou-a – Vou só um pouquinho lá fora, pegar um ar fresco ao convés do navio. Gostava de fumar um pouco (e esse pouco seriam muitos e muitos cigarros, um atrás do outro). Talvez o frio que faz lá fora me esfrie cá essa caixa de fósforos na cabeça, que está aos raios de me acender todos os lumes e os ver explodir de uma só vez, como aos fogos de São João!

 

Ao passear pelo deque do Hildebrandt, o patriarca andou até perto da proa, encostou-se à amurada e se pôs a tentar distinguir o mar por onde, logo mais, ele haveria de singrar o seu destino. Certo e tão incerto, como os pélagos vorazes, em todas as suas comparações! A paisagem que agora se apresentava, todavia, aos olhos de João Reis, era apenas turvação, neblina, nenhum horizonte à vista, escuridão.

 

– Perdas! Perdas! Perdas! – explodiu para si mesmo. Vieram-lhe então à lembrança as palavras de Totonha, na estação dos comboios em Chaves. – Oh, céus! As profecias da velha sibila! Mas em que foi que eu errei na vida?! O que de menos ou demais eu fiz ou deixei de fazer, ao tempo certo?!

 

Ah, esse incómodo, importuno, impertinente companheiro de viagem, o medo! Não da morte prenunciada para algum migalho de tempo a mais, pois todos nós iremos um dia, afinal, cair nos braços desse Morfeu eterno e mergulhar no sono fatal. Seu maior temor era da miséria, sobretudo para os seus. Levava joias de ouro e prata da mulher e das filhas; óleos de bons pintores, enrolados em canudos de papelão e alguns outros bens vendíveis; papéis com valor cambial, além de muitas libras esterlinas a serem trocadas no Banco do Brasil. Para as filiais de casas bancárias portuguesas no Pará, já havia transferido quase todo o património financeiro que amealhara, graças à alienação de seus bens em Chaves.

 

Tinha condições, portanto, de reconstituir suas posses e reconstruir no Brasil, com segurança e conforto, sua vida e a de toda a família. O que temia, então, senão as incertezas do mundo? – Totonha de Murça... aquela velha é um opróbrio ambulante! – cismou e, de raro, sorriu. Logo o riso se desfez, ao pensar que ele já não era mais o mesmo, aquele que, no século anterior, partira ao Além-mar e, graças ao seu tino comercial e perseverança, fizera por lá ótimos negócios. Hoje, entretanto, era um homem sem ânimo para lutar contra as suas próprias fraquezas, todas estas pelas quais se via dominado. As adversidades da vida o abatiam como a um pássaro migratório que se perdeu da revoada e ficou a voar sem direção.

 

 

  1. PERDIDO!

 

Graças à perda do monopólio da borracha, a Amazónia era agora uma região de economia em decadência, que só viria a se reerguer várias décadas após. Bastava-lhe dedicar-se a ...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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30
Jun20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ESPERANÇA.

 

Dentre os passageiros de qualquer classe do navio, Aurita era a única a enfrentar, àquela hora da madrugada e ao convés do vapor, o intenso frio de inverno europeu. Os tripulantes a bordo, às voltas com as últimas providências de embarque, já sequer lhe notavam a existência.

 

A exceção ocorreu graças a um oficial da tripulação, que passou por si com a sua bela farda e um garboso porte. – Enton, fraulein portugueça, estás a ir parra Brasile? – ela apenas acenou com a cabeça, e ele – Mas o que estar a fazer por cá um raparriga tan especial, aqui nesse frio, sozinha? – Ela permaneceu calada, ao que ele – Estar bem, Mademoiselle. Me desculpa. Mas quando navio sai, tem que ir pro seu cabine – e ela, quase inaudível, dirigiu afinal algumas palavras ao oficial. – Está bem, senhor, deixa estar. Já lá me vou. Obrigada.

 

Só então o viu melhor, antes que ele se afastasse. Era um jovem louro, esbelto, de uma viril formosura. Fitou-a de longe, uma vez mais. Talvez, da parte dele, só a esperança de um namorico inconsequente, durante as duras semanas de travessia. Todavia, ela desviou o olhar para o chão. Considerou consigo mesma que, pelo menos como fêmea, nunca mais haveria de ter olhos para homem algum, a não ser o único Adão para o qual ainda guardava as suas pupilas de Eva. Ou, a melhor traduzir o seu firme empenho, Aurora jamais entregaria as chaves de seu corpo a qualquer outro, que não fosse Hernando Camacho.

 

Uns poucos minutos mais, viu passos rápidos a se aproximarem e, entre alguns homens a correr pelo convés, distinguiu o jovem oficial de ainda há pouco, a voltar acompanhado do Papá, de Afonso, e de mais um outro homem, fardado, que ela supôs ser o comandante do navio. Escondeu-se entre duas vigas de ferro e algumas cordas, o corpo todo a tremer. Ouviu apenas alguns lamentos de João Reis, a se afastar com o filho e os oficiais de bordo – Patife! O finório nos carregou a Aurita, sabe-se lá pra onde!

 

Passado algum tempo, o silêncio voltou. Era dado, então, o penúltimo sinal da partida, chamando os eventuais retardatários. A escada de acesso à primeira classe fora retirada.

 

O Hildebrandt já estava, afinal, quase pronto a singrar o oceano dos Atlantes.

 

 

  1. PERDAS, PERDAS, PERDAS!

 

Ao retornar à cabine, Reis balançou a cabeça para a sua Menina Flor – Levou-a, o patife! – e Mamã, após dar um longo suspiro...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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23
Jun20

Chaves D´Aurora

Romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. EMBARQUE.

 

 

As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar aos carregadores do cais e despachar as bagagens na aduana, encaminharam-se todos ao andar da primeira classe, onde ficavam os camarotes reservados aos Bernardes.

 

A miúda ficaria junto com os avós, enquanto as quatro filhas iriam em outro camarote exclusivo. Quanto a Afonso, coube alojar-se em uma cabine, onde três rapazes brasileiros seriam seus companheiros de viagem. Estes se punham a manifestar, o tempo todo, a alegria própria dos jovens e logo fizeram Afonso desanuviar-se de qualquer má lembrança, exceto por uma: ironia das ironias, seus temporários convivas, daí a duas semanas, estariam voltando a Belém e a São Luís do Maranhão, com os diplomas de bacharéis oriundos de... Coimbra.

 

Ao ver esses moços, ainda com suas capas e batinas coimbrãs, Aldenora lembrou-se de António Sidónio. Recitou então, para si mesma, alguns versos do poeta João de Deus:

 

 

“Adeus, meu amor perfeito,

Adeus tesoiro escondido

E de guardado, perdido

No mais íntimo do peito.

 

(…)

 

No mesmo arbusto onde o ninho

Teceu a ave inocente

Se volta à quadra inclemente

 Acha abrigo o passarinho;

 

 

Mas eu nesta soledade

Quando em meus sonhos te estreito

Rosto a rosto, peito a peito

Acordo e acho a saudade!”

 

 

Como Aurora estivesse a passar perto de Nonô, àquela altura, acometeu, a esta, uma pequena maldade. Ficou a sussurrar, bem ao pé dos ouvidos da irmã, aqueles mesmos versos. Fazia isso agora, porém, a um modo áspero, irritante, desprovido de qualquer lirismo. Aurora, porém, como lhe era habitual, apenas baixou os olhos e se deteve imóvel, prisioneira de sua humilde expiação. Ao mesmo tempo, sorriu para consigo mesma, ao se dar conta de que, daí a algumas horas, estaria bem longe dos tormentos maldosos da irmã e de tudo o mais.

 

Tão logo percebeu que as irmãs já estavam a dormir, pois o paquete alemão só partiria ao amanhecer, deixou sob a nécessaire de Arminda três cartas: uma para os pais, outra para os irmãos e, por fim, uma bem especial para a pequena Fátima. Agasalhou-se o mais que pôde e colocou, em uma pequena sacola de couro, apenas o que viesse a precisar de imediato. Ia ao Sabe Onde e ao Sabe Deus, sem sequer abraçar sua miúda pela última vez, a medo de que a espada de Salomão cortasse ao meio, não a criança, mas ela própria, impedindo-a de tomar o caminho da felicidade incerta a que se propusera tomar. Ao passar, porém, pelo camarote dos pais, ouviu o chorinho da pequena Fátima. Para acalmá-la, Mamã cantarolava uma canção de ninar, com esses belos versos anónimos que o povo cria:

 

“Dorme, dorme, pequenina

que a mãezinha logo vem

Foi lavar os teus paninhos

à lapinha de Belém.”

 

Isso chamou-a aos cuidados de mãe. Escondeu a sacola, bateu levemente à porta e tomou a filha ao colo. Ao lhe oferecer o peito que Fátima, com os seus dois aninhos, ainda sugava com avidez, a miúda logo adormeceu. Aurora atirou-se então aos braços de Florinda, a chorar copiosamente – Perdão, Mamã, perdão por tudo! Perdão para sempre! – e a pensar que a rapariga lhe falasse apenas dos males sucedidos e que já não se podiam reparar, Flor disse apenas – Está bem, minha Aurita, deixa estar! Deixa estar, que tudo já lá se foi!

 

A menina ajoelhou-se junto ao pai, que lhe dera as costas e fingia olhar as águas pela escotilha – Pelo amor de Deus e da Santa Virgem, me perdoa, Papá, me perdoa! – Este, porém, calado estava, calado ficou. Aurora ergueu-se, fechou a porta da cabine, pegou a sacola que deixara ao corredor e tomou o rumo do convés. A aurora já se fazia evidente. O Sol estava prestes a se barbear, fazer suas abluções, vestir o fato, o colete e o sobretudo e logo sair de sua casa estelar para mais uma de suas radiantes jornadas, ainda que, na atual estação, menos aquecedora.

 

 

  1. ESPERANÇA.

 

Dentre os passageiros de qualquer classe do navio, Aurita era a única a enfrentar, àquela hora da madrugada e ao convés do vapor, o intenso frio de inverno europeu. Os tripulantes...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

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16
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. ADEUS, PORTUGAL!

 

 

No Porto, ainda teriam que ficar, por uma noite e um dia inteiro, em um hotel de luxo perto da estação de São Bento, na qual todos se viram extasiados com o átrio, revestido pelos belos murais azulejados de Jorge Colaço. Ao providenciar uma estadia de lords e ladies a um hotel de alta classe, enquanto aguardava o embarque no Hildebrandt, o patriarca anuviou-se de repente ao lembrar as profecias de Totonha e os seus próprios pesadelos. Um frio lhe desceu goela abaixo. Seriam talvez, àquela altura, os últimos e raros momentos dos três erres - riqueza, requinte e regalia - que, a si mesmo e aos seus, ele ainda poderia proporcionar?

 

estcao s-bento.JPG

Estação de S. Bento - Porto

Aurora, que dissera a Hernando o nome desse hotel, sentava-se por horas a fio na luxuosa sala de estar, contígua à receção, a fingir que folheava revistas e jornais, mas com os olhos a se dirigirem, com frequência, à rua em frente. Punha-se vigilante, com os olhos a atravessarem o vidro pelo qual se via o exterior, ou diante dos imensos espelhos verticais de cristal do recinto, nos quais também se refletia a sua ansiedade.

 

Tal ânsia, porém, ao menos àquela altura, teve de ser contida pelas circunstâncias. Foi obrigada a se retirar do salão e a se recolher ao quarto, tão logo viu o Papá adentrar o recinto, a fim de ler os jornais do dia.

 

O assunto em maior evidência era o novo governo a se instalar no país, com a insurreição militar golpista que fizera triunfar, finalmente, o conjunto de forças reacionárias contrárias à República e ao progresso social. Unidas em torno de um objetivo comum reacionário, compunha-se de várias correntes, bem diversas: militância da Igreja Católica, nos púlpitos e fora dos templos, em sua constante cruzada contra o governo republicano; alguns setores monárquicos remanescentes; uma significativa parcela do exército português, que aspirava a um governo militarizado e à instituição da ditadura; republicanos da direita, que a tudo isso apoiavam. Toda essa malta conseguira, afinal, alcançar os seus objetivos políticos e civis, aos 28 de maio de 1926 e, infelizmente, devido ao contexto histórico e, sobretudo, económico, obter o apoio da maioria do povo, religioso e conservador.

 

Deixara de vigorar a constituição de 1911 e foram suprimidas as instituições parlamentares e liberais da república democrática. Em 1928, assumiria a presidência do país o general Fragoso Carmona, cargo no qual ficaria por muitas décadas, até sua morte (1951). As mãos de ferro sobre Portugal seriam, de facto, as do verdadeiro detentor do poder central, o senhor doutor António de Oliveira Salazar (1889-1970), que interpretava os fundamentos do catolicismo a um modo bem pessoal, tão beato, reacionário e fascista quanto o do Cardeal Cerejeiras. Esse alto dignitário da Igreja em Portugal aclamava Salazar, tal como o povo em geral, por ele ter implantado importantes diretrizes na economia do país. Inicialmente bem vistas, por seus acertos emergenciais, estas vieram a se tornar depois, no entanto, bastante questionáveis, quer pelos falhanços na ampliação e exclusão das camadas mais pobres, quer pela estagnação da produtividade em geral.

 

Diante de tudo isso, João Reis lembrou-se da proclamação da República no Brasil, um evento golpista e ditatorial. Murmurou então, para si mesmo – É, Reis, estás a ver que essas políticas, no fundo, tem suas nuanças, mas são como um cardume de sardinhas. Tudo igual.

 

  1. EMBARQUE.

 

As luzes do Hildebrandt faziam-no parecer, sobre o Douro, uma imensa aldeia povoada. Após João Reis pagar...

 

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Cais da Ribeira - Porto - Fotografia de Carlos Relvas

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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09
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

 

  1. TRÁS-OS-MONTES, ADEUS!

 

 

Após os últimos beijos e abraços, João Reis e os seus partiram rumo ao Porto. Assentada à cabine do comboio, Florinda tomou das mãos do marido entre as suas e tentou arrefecer-lhe a melancolia – Deixa lá estar, deixa lá... ora, pois, quem sabe... na terra para onde voltamos, ainda haveremos de ter bons momentos. Quem sabe, até... ainda seremos felizes!

 

À janela, descortinava-se um Portugal que estavam prestes a abandonar. Pinheiros, carvalhos, penedos; pequenas ou mínimas aldeias com suas casas de granito à volta de um largo, com uma igrejinha e um tosco mercado, tudo construído com pedras da região; uma mulher com um pano à cabeça e seus trajos típicos de aldeã; uma carroça, que vai ou regressa do trabalho no campo… O comboio voluteava pois, como serpente, por entre a beleza e o pitoresco da paisagem. Todavia, esta não trazia, aos Bernardes, um mínimo sequer de encantamento. A paisagem no interior de cada um deles era outra. Seca, disforme, sombria.

 

CP0025.jpg

Fotografia gentilmente cedida por Humberto Ferreira

 

Arminda nada sabia do que esperar, ao se fazer esposa do leirião (com quem de facto casaria e deixaria muitos descendentes, conforme pósteros relatos).

 

De Afonso, havia a expectativa por ver afinal, ao vivo, a cores e em três dimensões a sua futura esposa (com quem, de facto, viria a casar e ter vários filhos e netos, como também consta de pósteros relatos).

 

Para Aldenora e Aurélia, tudo se resumia em uma página por escrever, sabe-se lá o quê, em branco, tal qual a neve que estava a se mostrar, por aqui e por ali, pelas serras ao longe. Aurora, ainda mais confiante agora, a lembrar as profecias da velha sibila, nutria-se da certeza de que Hernando, mais terno, mais amoroso e amadurecido, viria buscá-la ao Porto e conduzi-la, enfim, até aos confins do aconchego, até muito além das raias da felicidade.

 

 

 

  1. ADEUS, PORTUGAL!

 

No Porto, ainda teriam que ficar, por uma noite e um dia inteiro, em um hotel de luxo perto da estação de São Bento, na qual todos se viram...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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02
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. IRREVERÊNCIA, ADEUS!

 

O motorista atual de Dedé era um rapaz mais baixo, mais franzino e até alguns anos mais velho do que os valetes anteriores. Bicanço, bexigoso, era também aquilo que não se podia negar em dizer – um feio.

 

Florinda custou a perguntar, mas não resistiu – E o Manozé? – Anda a Lisboa, casadinho com uma pretinha da Guiné Bissau – Ele era bem mais simpático do que esse, agora, não é? – Ora, pois, era e é. – ao que, maliciosa – Também tinha muito mais jeito para os outros afazeres do que esse aí, percebes, mas... esse aí também tem seus predicados. – Mamã não conseguiu disfarçar a indiscrição – Esse rapaz, nas funções da casa… serve-te bem? – ao que Dedé, a entender o alcance da curiosidade da amiga – Para os precisos dele do dia a dia, sim e até para as minhas urgências, que agora são cada vez mais raras, porque a idade me chega e já não me atiro de caixão à cova, como antigamente. Sabes como é… agora estou igual a muitas esposas flavienses: é mais servir a ele do que ele a mim, percebes?

 

Tapou a boca de lado, com uma das mãos e baixou, o mais que pôde, o tom de voz – Esse aí, apesar dessa cara feia e da falta de jeito, é de uma fúria insaciável, abana e refresca os meus calores como se fosse um vendaval, um ciclone, um furacão – sussurrou – Pena que ainda não aprendeu a ser menos rapidinho e, portanto, só na terceira viagem é que eu deixo de ficar a ver navios em pleno Tâmega! Apressado come cru, percebes, mas se o rapaz se satisfaz, assim... – tornou-se séria, de repente – Esta vida é só dois dias. Bebe-se a água conforme o pote. – e logo voltou sua alegria – Ah, minha Flor, nem te conto: o Manozé vai ser pai! E já ficas sabendo o resto: vou ser madrinha do miúdo. Desta vez, no papel e na pia de verdade. Que o pequerrucho, até chegar a se pôr… já vou eu estar sentadinha e a fazer crochê, numa cadeira de vovó – então soltou uma risada escandaleira, como era de seu feitio.

 

Florinda sorriu, a experimentar um de seus raros momentos de descontração, embora a fingir que não percebia os olhares de reprovação que, a todo momento, lançava-lhe o marido. A certa altura, porém, levou aos olhos o lencinho de cambraia. – Essas pessoas queridas, cá na estação, e mais tu, Adelaide – Voltou-se para a cunhada, um pouco adiante – E tu também, Comadre Hortênsia! Ah, isso fala à gente! Obrigadinho, a todos vós! Ainda mais depois de… de tantas agruras que me souberam mal!

 

Adelaide ponderou então, comovida – Melhor, minha Flor, que o vento nos leve o chapéu, mas nos deixe a cabeça! Coisas de ontem, curam-se amanhã. Estejas bem, minha boa Flor! – e disse, então, as palavras que, em seguida, todos estavam igualmente a proferir e que mais pareciam as frases de um réquiem – Vão com Deus, meus entes tão queridos, para todo o sempre lembrados. Cá ficamos.

 

1600-ca (990).jpg

 

 

  1. TRÁS-OS-MONTES, ADEUS!

 

Após os últimos beijos e abraços, João Reis e os seus partiram rumo ao Porto. Assentada à cabine do comboio, Florinda...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

 

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