Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRAVE AVIDEZ.

 

Grávida de alegria, Aldenora via aproximar-se, cada vez mais, o dia tão ansiado por si e por certo aluno da Universidade de Braga. Os anos que passaram haviam sido uma infinidade para Nonô. Por toda a semana, distraía-se apenas a ensaiar no coro da Igreja Matriz, para cantar aos domingos, durante a Missa das dez. Agora, porém, faltavam apenas alguns dias para tudo melhorar e estes, apenas um lapso de segundos para os deuses, eram, para os amantes, uma eternidade. Dali a alguns meses, seu noivo, já então como o senhor doutor António Sidónio Cordeiro Filho, estaria de volta a essa tão feliz Aldenora, que reabriria ao bem amado as portas da Quinta e do coração. Estas últimas, certamente, em sua constante expectativa, já se mantinham sempre abertas.

 

Ávida se havia a rapariga de que o próprio Tempo andasse mesmo a patas de lebre e não aos cascos de tartaruga, pois o que mais ansiava estava prestes a chegar. Os pais respetivos já concertavam, entre si, quando iriam começar os banhos à Cúria e começavam a pesquisar as mais fidalgas formas de oferecer aos convidados, quando se realizassem as núpcias, o melhor copo d’água. Maio do próximo ano, portanto, para a ansiosa rapariga, era um porto de venturas até onde remava o seu barco de sonhos e do qual já se previa o momento de alcançar.

 

 

Na mesma infortunada tarde da revelação do doutor Fagundes à Mamã, Nonô saíra para o curso de Datilografia, ao qual Papá lhe permitira fazer com muita reserva, por não vislumbrar nisso, até então, qualquer sentido prático para a filha, conquanto já estivesse a melhorar o futuro de muitas moças pobres. Este, decerto, não seria o caso de Aldenora, à qual só apetecia conhecer as artes do teclado para passar a limpo os poemas, em geral açucarados e pueris, que ousava enviar ao seu António.

 

Ao chegar de volta a casa, em seu quarto, abriu uma caixinha de madeira, cuja tampa encerada estava a mostrar uma colagem de reproduções de pinturas clássicas, casais em momentos de casto idílio, aos bosques ou jardins. Dela retirou as cartas de Sidónio, ao longo de todos esses anos. – Ai como são tantas! – E, ainda que mancebos não chorem, algumas se mostravam borradas, em alguns trechos, por lágrimas do rapaz, caídas em momentos de pura emoção. Ao sair do aposento, para atender a um chamado de Mamã, olhou para a mesinha de cabeceira de sua cama. Sidónio sorria-lhe, com a sua capa e batina.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

16
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MATER PIEDOSA.

 

 

Tal-qualmente Santa Luzia, com os olhos expostos na bandeja, Mamã entrou no quarto, o coração nas mãos – Ai que a minha menina está com alguma moléstia muito grave. Algum mal, que Deus nos livre e guarde… será que a Morte está querendo vir buscá-la e nem as cruzes e os signos de Salomão da Zefa, nas portas e janelas, teriam forças de impedir? – mas ao vê-la entrar, Fagundes foi logo pronunciando – Sinto muito, minha boa amiga, sinto muito, pelo que vos tenho a dizer.

 

Florinda afligiu-se, mais e mais – Ai meu bom Jesus de Matosinhos, será pneumonia? Cancro?! Tísica?! Sífilis é que não é, por certo, nem haveria de ser, pois a menina… – o que levou Fagundes a hesitar um pouco, mas… tinha que dizer! Então, foi logo aos dois pontos – Embora não seja próprio, a considerar os factos, que eu deva me congratular convosco, nem lhe dar os parabéns – fez uma breve e constrangida pausa – A senhora em breve vai ganhar um neto, minha boa Florinda. – notícia que a levou quase ao desmaio – Ai, doutor, nem a brincar!!! – mas logo Mamã se arrependeu do que dissera. Falara assim por não lhe chegarem, àquela altura, outras palavras a balbuciar, em todo o seu pasmo. Ainda bem que o médico não entendeu – Que estais a dizer, dona Flor? – Nada, doutor, nada. Nem eu mesma sei o que digo. Nada. Mais nada.

 

A seguir, com o sopro de um ar triste a lhe balançar a cabeça, de um lado para o outro, o velho médico da família guardou seus instrumentos na maleta de couro, própria dos esculápios da época. Dirigiu-se, então, à rapariga – Vou acompanhar a menina por todos os meses que virão. Sua santa mãe sabe o quanto honro e sempre hei de honrar os meus juramentos. Saberei, portanto, guardar a necessária e devida discrição. – Fez outra breve pausa – Tão somente espero e desejo que tudo, ao fim e ao cabo, ainda venha a ficar bem. E que ainda venhas a ser feliz! – Após o que, apertou em silêncio as mãos de Florinda, pegou o chapéu e a valise e se encaminhou à saída, onde Manuel já o esperava com o landó.

 

Mamã sentou-se ao pé da cama, cruzou as mãos e disse, a olhar para o soalho, enquanto fazia berlindes de seus olhos, para não se desmanchar em pranto – Então era isso que estavas a querer me contar, naquele dia? Ah, meus cachinhos de ouro, como deixaste isso acontecer?! Onde é que estavas com o juízo?! – ao que, passados alguns minutos e suspiros, a pergunta fatal – Quem foi? – e, em seguida, ante a mudez da filha – Quem é que pode ter sido esse desgraçado, meu bom Jesus? – A rapariga, porém, nada disse e, em resposta, apenas aumentou os soluços, que exprimiam sua dor mais profunda.

 

– E agora, minha Aurita, como é que vou dizer tudo isso ao teu pai?

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

09
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO.

 

Chegou, afinal, o dia da consulta com o doutor Abel Fagundes que, por algumas semanas, estivera a andar a Vidago, para tratar de alguns clientes antigos que por lá deixara, desde o tempo em que começou a exercer as funções médicas na região. Foi recebido com muitas festas, biscoitos de nata, café e um licorzinho de tangerina. Após examinar a garganta de Aurélia e ouvir os achaques da senhora dona Flor, chegou a vez de Alice, a futura esposa de Alfredo, cujo padrinho, o Gomes, já tratara de despachar para a casa do noivo antes mesmo do casório. Apesar das apreensões de Mamã e da própria carioca, o doutor Fagundes comprovou que a menina não estava prenha.

 

O médico da família dirigiu-se então ao quarto de Aurora, onde esta, sabedora da visita que se lhe ia fazer àquela data, pusera-se de cama desde o início da manhã, dizendo-se mal, muito mal, mas que o doutor lhe viesse falar a sós. Naqueles tempos, não ficava bem que assim fosse, mesmo sendo ele um quase ancião. Fagundes, porém, era de plena confiança do Reis e, destarte, sua filha já não era uma rapariguinha impúbere. Após tocar naquele corpo, ao qual, até então, só a outro homem (e de forma bem diversa) ela deixara tocar, o bom senhor sentou-se ao pé da cama, pensativo, com as mãos a lhe cobrirem os olhos e a fronte.

 

Há palavras breves e silêncios infinitos.

 

Sem olhar para a cliente, pôs-se a refletir o quanto lastimava por vê-la assim, embaraçada, em ambos os sentidos da palavra. Enfim, perguntou – Como foi isso, menina? – e logo pensou no desgosto que havia de ferir o coração de seus pais. Levantou-se e olhou firme para a examinada – Será para o próximo outono – e quase a falar para si mesmo – Já passei por momentos assim como este, mas… como vou comunicar esse diagnóstico? Melhor seria dizer: esse prognóstico… não, não, falar ao Reis, nem que me pagassem os honorários em dobro! Mas como dizer isso à senhora tua mãe? Ou preferes que ela saiba de ti mesma?

 

Aurora não respondeu logo, pois nem sequer conseguia encará-lo. Virou a face à parede, como diante de um padre confessor e lhe contou tudo (digamos quase tudo e ao modo que pudesse contar). Reportou-se tão-somente ao milagre, sem nomear o santo (ou o nada santo, no caso). Depois pediu – Por favor, doutor, mande chamar até cá a minha boa mãe e diga a ela, o senhor mesmo, toda a verdade. Assim me vai melhor – ao que Fagundes respondeu, apenas – Cá está bem. Tem que ser!

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

02
Out18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CERIMÓNIA DO CHÁ.

 

À noite desse mesmo dia, quando todos dormiam, Alfredinho esgueirou-se a bicos de pés para trás do biombo. Passou por um belo jardim, onde mulheres de quimono faziam a cerimónia do chá. Uma delas até sorriu, a lhe estender uma chávena de fina porcelana e ele agradeceu-lhe com um olhar maroto. Outras duas o conduziram a um ambiente ornado de lanternas e flores de cerejeira, onde o aguardava uma bela gueixa, a quem abraçou como um samurai sedento de carinhos, em uma cena de Nô ou Kabuki, porém mais picante do que os singelos roteiros originais.

 

Iniciou-se, então, uma cerimónia do chá, mas de tisanas bem outras, que se repetiria por muitas noites, pois “a gente se acostumando, já não quer senão daquilo”, até que… até que o médico da rapariguinha, pasmo em seus muitos anos de ofício, dissesse à mulher do Gomes que algo de muito milagroso estava a se passar com a cliente. Na verdade ela ficara, mui rápida e efetivamente, curada de um mal que ele sequer pudera diagnosticar – Talvez uma alergia, de causa desconhecida – pois ao clínico não alcançava ainda a existência de certos sintomas, cujos males sabemos ser, atualmente, de fundo psicossomático.

 

Quando partiu de volta a Vidago, Alice carregou na bagagem algo mais entre as suas carências de mulher. Saudades. Como Aurora, ela também mergulhava em um sentimento de amor por alguém que tinha o mesmo curso das águas do Tâmega, ou seja, uma só direção, pois quanto ao rapazote, este apenas se preocupava com o que faria o Gomes, o que diria seu pai e, enfim, que maçadas lhe trariam as consequências dessa atitude impensada. O menino dizia a si mesmo – Ora, Alfredo, só podias estar mesmo viradinho do miolo, a ponto de fazer o que não devias, te meteres nos assados com essa rapariguinha! Agora é que são elas! Mas… tinha que ser! Foi! Melhor, meu caro, é não te deixares ferver em pouca água. Espera e vê, com muito jeitinho, pra que rumo te vai soprar o vento.

 

O vento não demorou a soprar. Alfredo voltava do liceu, quando viu Papá à sua espera, ao pé da escada lateral. João Reis começou solene – Senhor Alfredo! Temos cá uns ís, para lhes pôr os pingos! – mas logo se desfez da formalidade – Ó pedaço de asno! Não achas que já estás bem crescidote para reloucares desse jeito, desonrar a casa onde vivem tua mãe e tuas irmãs, a ponto de levares à perdição uma rapariguinha que veio cá alojar-se, sob a nossa proteção e lhe dares “a esmola antes do padre-nosso”? Antes, porém, que João Reis lhe chegasse bordoadas às costas, tratou logo de dizer – Eu caso, Papá, eu caso! Oh, Papá, me perdoa, fui um tonto, eu sei, perdi a cabeça, mas pode mandar dizer ao senhor Gomes que me caso com ela, meu pai, está bem que me caso! – e para já correu até Mamã, a se refugiar no regaço da mater amorosa, mater compadecida e agora, mater inconsolada.

 

 

  1. CEIA SEM CHÁ.

 

À ceia, em silêncio, ouviam-se apenas alguns talheres a tocar nos pratos, uns de leve e intermitentes, outros nervosos e sem parança. Ao final, Papá disse baixinho, à Mamã, que logo se mandassem preparar os banhos na Madalena, convidassem somente os parentes mais chegados e, sobretudo, não se falassem em copo d’água. Tudo haveria de ser simples e rápido, apenas com os cumprimentos a se darem lá mesmo, à sacristia.

 

Antes de se recolher ao seu gabinete doméstico, Reis olhou para a filha e lhe bateu de leve nas mãos, a um gesto de carinho, tão inusitado quanto imprevisto – Ainda bem que és mulher, minha Aurora e não estás a sair por aí, atrás de uns rabos de saia e a me dar umas maçadas, como o teu irmão. Se bem que já estás à altura de arranjar um bom marido. Se não o fizeres, veremos nós o que fazer. A propósito, tua mãe m’o disse que não andas lá muito bem de saúde. Nosso querido doutor Fagundes está a voltar por esses dias a Chaves e vai examinar essa menina, a ver se já não está a chegar em breve algum outro Alfredinho por aí... Vamos pedir, ora pois, que te veja também e a todos de casa, para sabermos a quantas anda a saúde aqui na Quinta.

 

Aurita ficou imóvel, lívida, sem saber como disfarçar. Salvou-a, em boa hora, a intervenção de Arminda – Papá, Papá, olha cá, olha só que lindo mimo a Tia Adelaide me deu! – e mostrou um estojo com guarnições de prata na tampa e um forro aveludado no interior, contendo pentes e escovas de madrepérolas.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

25
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. POMADA MARAVILHA.

 

O Gomes havia pedido ao Papá que acolhesse na Quinta, por uns dias, uma afilhada sua e de sua ex-esposa. A rapariguinha, chegada recentemente do Rio de Janeiro, estava a morar com ele e sua atual companheira em Vidago. Já entradinha nos 24 anos e sem casar, Alice parecia, no entanto, menina que mal deixara de ser. Era muito calada e, aos dizeres de seu padrinho, bem comportadinha. Não daria, portanto, nem um ai aos Bernardes, caso viesse a passar alguns dias na Quinta Grão Pará, a fim de se tratar em Chaves de uma doencinha na pele, que se estava a mostrar muito renitente. A menina já havia experimentado de tudo e nada lhe dava jeito. Nem mesmo a famosa pomada que o Gomes sempre mandara aviar, ao preço de 310 réis, na Pharmácia Pereira, em Chaves e assim anunciada em um jornal da região:

 

“A Pomada Vegetal Alemã faz curas milagrosas de males como varizes, erisipela, eczema, furúnculos, queimaduras, frieiras ulceradas, herpes, impigens, hemorróidas, úlceras extremas e dermatoses de toda natureza. Composta unicamente de raízes e sucos de plantas medicinais, não contém nenhuma espécie de banha. Esta pomada só por si extrai o pus, elimina a carne esponjosa, desinfecta e cicatriza qualquer ferida. Há dezenas de casos de curas, comprovadas com atestados devidamente reconhecidos”.

 

Apesar dessa mazela que, além da menina, só o clínico e a amásia de Gomes sabiam em que parte do corpo era acometida, Alice era muito graciosa, miudinha, jeitosinha, toda certinha, que dava um gostinho de olhar. Era, porém, muito tímida, embora isso talvez escondesse, no fundo, uma grande dissimulação de menina sonsa e namoradeira. Quem sabe por isso, ou quiçá porque a administração doméstica não desse à Mamã muito tempo para outras preocupações, ou, ainda, porque confiasse bastante no comportamento moral de seu ai-jesus adolescente, Mamã não havia notado o que Aldenora logo lhe veio chamar à atenção – Mamã, esteja a ficar de olhos abertos, pois cuide que o Alfredo está a arrastar as asas para a carioca.

 

Desde quando chegara à quinta, a menina vivia colada ao belo Alfredinho, cujos paleios estavam sempre a diverti-la. Passaram depois aos cochichos e risinhos. Ao se encontrarem fora das vistas de todos, beijinhos e algumas outras pequenas liberdades já eram trocados entre os jovens. Só vinham a se largar quando sentiam gente por perto.

 

Alice dormia a um canto da sala de estar, em um cómodo improvisado, por trás de um biombo japonês, onde Mamã colocara para a hóspede um colchão e todas as comodidades que estivessem ao seu alcance. Um dia, Alfredo, que era o único alegre, extrovertido e brincalhão do clã dos Bernardes, perguntou à menina – Mas afinal, de que estás a tratar com os médicos? – E achas que te vou dizer? – Eu sei o que é. Na pele, não é? Mas como é lá isso? – Parece urticária – E passa? – Diz o doutor que não. E há certos dias, como hoje, que só tem um pouquinho – Onde é? – Não posso contar!

 

– Mostras-me? – Alfredinho, isso lá são modos?! Olha o respeito comigo! Porque achas que te vou mostrar?

 

Mostrou.

 

(continua)

 

 

fim-de-post

 

 

 

18
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. O TEMPORA! O MORES!

 

Alguns dias depois, veio ao conhecimento de todos o que nenhum dos Bernardes jamais pudera imaginar. Foi certo dia em que Aurora, como estivesse indisposta, deixou-se ficar ao leito, por algum tempo mais. À hora do almoço, quando Papá chegou, ela foi acordada por um burburinho de vozes que vinham da sala de estar, nas quais sobressaía a de Reis – Mas como é que pôde acontecer isso em nossa casa?! Que sem-vergonhice lastimável! E o que podemos fazer agora, se a menina, quem sabe, já está a parir um filho dele? Essas rapariguinhas… francamente, elas não sabem se guardar! – e, a tentar resumir em bom Latim – O tempora! O mores!

 

Aurora foi até ao pequeno oratório de louça que havia em seu quarto, ajoelhou-se e pediu, a todos os santos, que lhe dessem coragem para enfrentar melhor os infortúnios. As irmãs entraram no recinto, a falarem nervosas entre si e a rapariga perguntou – O…o... o que está a se passar na sala? – ao que as manas se atropelaram mais ainda, todas a falar ao mesmo tempo – O quê, como?! Estás a dizer que não sabes?! – Que mal feito! Que desgraça! – Como é que uma rapariga se deixa levar assim?! – Então não sabes, também, que já pode estar a crescer um miudinho, nessa barriga pecadora?

 

A palavra “miudinho” levou a brasilita quase ao desmaio, enquanto as irmãs prosseguiam – E tu sabes quem contou tudo ao Papá? – a outra completou – A própria Alice, a afilhada do António Gomes, aquela que dormia na sala, no meio das japonesas... – A essa menção, Aurita ficou perplexa – A Alice?! Mas como é que essa menina... como é que ela ficou a saber que eu... que isso lá... – no que foi interrompida por Nonô – Ora, não te lembras que ela passou uns dias aqui em casa? – e a primogénita dos Bernardes já estava mesmo a cair ao chão, desfalecida, quando Lilinha exclamou – Como é que pôde o Alfredinho fazer isso?! – o que a deixou mais confusa – Quem? O Alfredinho? O meu próprio irmão? Não, ele não!!! Não, não!!! – e foram as irmãs que, dessa vez, também ficaram confusas – Mas como não? Se nós já sabemos que foi ele o autor. – Papá está furioso. Do que ele menos chamou nosso irmão foi de irresponsável... – E está só a esperar que o mano chegue do Liceu, para lhe dar uma sova – Mas o Papá já garantiu ao senhor António que o maninho, vai por que vai casar com a menina Alice!

 

Aurora respirou, enfim, aliviada. Consternou-se, porém – Mas o nosso Alfredinho?! Ele só tem dezassete anos! – Honras são honras, Aurita, há que se respeitar o bom nome das raparigas! – ao que, depois, disse-lhe Mamã – Os pais é que devem, ora, pois, sempre ensinar as meninas a guardar seus tesouros, com as chaves de muita virtude e prece. Não achas tu que sempre deva ser assim?

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

11
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. JOANA DA AZENHA.

 

O meio mais próximo de transporte para o éden podia ser concertado com a velha Joana da Azenha, que morava com sua filha a uma casita de pedra, na estrada que vai dar à Galiza, perto da capela de São Bento. A casa, se hoje ainda a vemos de pé, em abandono e bastante maltratada pelo tempo, não menos estava do que isso, àquela altura.

 

A Azenha nada falou, nem boa-tarde. Apenas mandou, com um mero gesto, as duas entrarem. As três mulheres ficaram em silêncio. Um rosto de rapariga jovem, mas feio e triste, apareceu por entre os panos desbotados de uma cortina, que servia de porta de acesso ao resto da casa. A um aceno da velha, a moça bexiguenta trouxe uma bacia de alumínio, uma chaleira de água fervendo e uns panos que, por sinal, pareciam bem lavados – Venham! – e as quatro mulheres passaram a um quarto mui pobremente mobilado, com uma cama a que faltava um dos pés, substituído por alguns tijolos. Aurora deitou-se sobre uns lençóis que, estes sim, não pareciam bem lavados há muito bom tempo. Expunham-se manchas antigas, de aspetos diversos e que as águas e os esporádicos sabões não conseguiram apagar.

 

Zefa dissera à sua dileta menina que esse ato seria bem mais seguro e cómodo, se o fosse fazer ao Porto, com algum médico dedicado a esse mister, ainda que, obviamente, de modo clandestino. Que motivos argumentar, porém, para fazer tal viagem, apenas em companhia da criada? Além dos seus alfinetes e de um pequeno empréstimo que a Zefa lhe concedera, a desfalcar de seus parcos guardados, o manhucinho de moedas só daria mesmo para cair nas mãos (ou garras) da Azenha. Não lhe restava, portanto, senão valer-se da suposta experiência dessa velha ex-parteira, que perdera o status profissional e já estivera hospedada na prisão de um concelho do Alentejo, por causa dessas mesmas práticas de agora. O que Aurita não sabia é que essas funções de Joana já eram benditas por umas e amaldiçoadas por outras, dentre várias mulheres casadas e solteiras de todo o concelho flaviense, que vieram render-se aos préstimos da mal encarada senhora. E mais: a um número bem maior do que se poderia supor.

 

A velha valeu-se de um caneco de louça barata, já meio desbeiçado, e lhe deu a tomar uma beberagem estranha, em que talvez se misturassem pernas de sapo das ilhas de São Tomé, filetes de cobra das matas de Angola e infusão de bichos peçonhentos de Moçambique. Do que seria mesmo certo compô-la, todavia, seria uma poderosa cachaça do Brasil. Colocou depois entre os dentes de Aurora um lençol retorcido, que a cliente deveria morder bem forte, o quanto fosse necessário. O golpe (quase) mortal adveio quando, já prestes a levar a pobre rapariga ao desmaio, Joana pediu a Zefa que lhe ajudasse a atar os pés e as mãos da embaraçada às quinas da cama. Para citar uma expressão da época, o piorio!

 

Aurita lembrou-se então da pobre Anabela, quando viu, com os olhos esbugalhados, aproximar-se de si a velha, com alguma coisa estranha nas mãos. Algo que lhe parecia enorme, tão apavorante quanto as espadas dos irmãos Garcia Lopes a executar os mouros, apesar de estes, como reza a lenda, pedirem clemência e rendição.

 

De repente, um choro de bebé ecoou dos fundos da casa, o que deteve a Azenha e esta foi até à porta do quarto resmungar – Ó raios cagados de mulher, anda logo a cuidar dessa criatura, antes que me faças aborrecer e te mostrar os meus coices! – e, por essa mesma porta entreaberta, Aurita viu passar a filha da velha, a tentar acalmar, com um biberão, um miúdo ainda tenro, com apenas alguns meses de nascido.

 

A um sus repentino, Aurora pediu a Zefa que a desamarrasse, levantou-se da cama, arrancou o lençol de entre os dentes, tirou da bolsinha uma parte do dinheiro que trazia e os pôs nas mãos da Azenha. Esta apenas balançou a cabeça, a dizer – Ora pois, portanto, tem que ser, tem que ser, se queres assim, pois assim está, tu é que sabes – enquanto Aurita agarrava as mãos de Zefa e saíam ambas a correr, celeremente, de volta à Estrada do Raio X.

 

 

(continua)

 

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

 

04
Set18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SER HUMANO.

 

Já havia quem estivesse a considerar, nas primeiras décadas do século passado, em alguns centros e guetos mais intelectualizados do planeta, que, sem prejudicar a ninguém nem a si própria, toda pessoa teria, acima das leis humanas e divinas, o direito de fazer de seu corpo o que bem lhe aprouvesse. Alguns pensadores já estavam a afirmar, inclusive, que um feto ainda não tem a condição primária e essencial do ser humano, a consciência. Esta começa a ser adquirida somente à altura do terceiro mês uterino, quando o feto interage com os primeiros estímulos da vida exterior.

 

Outros, mais radicais, acreditavam que essa humanização só se concretiza quando o recém-nascido vem a se conhecer, não só como algo vivo em si mesmo, mas também como um ser gregário e tomar consciência da sua condição social. Para isso, reportavam-se a alguns casos de crianças criadas entre lobos ou outros bichos na floresta e que nunca se adaptaram à vida entre os seus semelhantes, mesmo depois de resgatadas para a urbe. Ficaram para sempre a se comportar como os outros animais, de onde não mais se poderiam definir como seres humanos.

 

Tais ocorrências, todavia, nada tinham em comum, nem se poderiam comparar com o oportunismo do questionamento histórico, feito por alguns clérigos do Vaticano, ao tempo das grandes viagens e descobertas de novas terras, quando a Igreja alimentou a controvérsia relativa aos índios da América e aos negros d’África, se estes ou aqueles teriam alma ou não. Desde que se considerasse que uns e outros não tinham alma, poderiam ser mortos ou escravizados pelos cristãos do Velho Mundo, sem que, com isso, viesse a ser transgredido o “Não matarás“ dos Mandamentos.

 

Facto é que, em todos os tempos e lugares do mundo, muitas mulheres, por necessidade imperiosa ou por outras razões, profundamente íntimas, acabam tomando a decisão de extirpar, de sua história privada, um ser que poderia crescer indesejado e infeliz.

 

Presa às suas convicções religiosas, Aurora já considerava aquele pequenino grão de areia, sem nenhuma consciência de si e do mundo, como um ser que já tivesse alma. Na verdade, porém, o que não queria mesmo era ver-se livre daquele pedacinho de Hernando, que ainda vivia em seu coração e a quem pensava menos odiar do que perdoá-lo.

 

No mais, somava-se o medo de que nada, em tudo aquilo, viesse a dar certo. Ou ainda, pior: que também lhe fosse tirado algo bem mais definitivo, uma perda impossível de reparar, a própria vida. Alguns muitos temores se plantavam, enfim, à mente da primogénita dos Bernardes, em uma pior colheita, devido às histórias que Zefa lhe contava de anjinhos desasados, tal como se deu com a criadinha de uma das mais conceituadas mansões de Chaves.

 

A menina Anabela engravidara do morgado da família e o patrão obrigou-a a ser levada a um antro sinistro e abominável. À falta de recursos e de assistência adequada, a que mesmo a incipiente Medicina da época pudesse prover, inclusive com as sanções legais, até então inexistentes, o que resultou foi que, como tantas vezes ocorre pelo mundo afora, a intervenção de pessoas inábeis não deu certo. A pobrezinha juntou os tamancos para sempre. Foi enterrada às pressas por um serviçal de confiança, que se fez passar por tio de Anabela, antes que a Polícia viesse perguntar as causas do desenlace.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

28
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SETE SANGRIAS.

 

Mais uma vez humilhou-se perante o amado, ao pedir à Zefa que o fosse procurar, mas Hernando foi bastante seco e rude com a criada – Cuidem que essa lengalenga já está a me apoquentar demais! Aurora bem sabe que há uma solução. Se calhar, ó barrosã, tu mesma hás de encontrar uma mulher experiente e que possa dar a isso os devidos cuidados – palavras que deixaram a jovem horrorizada – Não, não, que isso nunca, minha boa Zefa! Já são pecados demais a me acusar São Pedro, quando o bom velhinho se negar a me abrir as portas do Paraíso.

 

– Está bem, menina, vamos pedir ajuda à santa Natureza. A barrosã pôs-se a procurar, nas feiras e quitandas, a Erva de Sete Sangrias, a jeito de fazer um chá que fosse tomado pela rapariga durante sete doses diárias. Tal mezinha era considerada, entre os conhecedores da medicina popular, como a mais eficiente para os propósitos desejados, mas Zefa só conseguiu trazer, de suas andanças, algumas folhas e cascas menos afamadas.

 

Na avidez de se desembaraçar, a jovem prenha tomou apenas alguns goles de cada uma das tisanas, posto que todas elas soubessem a um gosto muito amargo, indefinível, que ela tentava, entre mil caretas, minorar com mel e rebuçados. Tudo isso fazia Aurita passar mal, muito mal, somado aos enjoos e vómitos constantes. A cândida Mamã os supunha de causa hepática e mandava sua primogénita tomar chá de fiolhos. Sequer podia imaginar que sua menina tivesse algum contacto mais próximo com outro homem, que não os de seu lar. Exceto os colegas de Afonso ou Alfredinho, ainda assim em ocasiões eventuais, as meninas conviviam, no máximo (ou ao mínimo) com Manuel, o cocheiro.

 

Aurora tremia de mil sensações contraditórias, sua razão a dizer sim e o coração batendo não. Por chavão que fosse (ou como um infame trocadilho, em relação à sua história recente), não se via qualquer luz ao fim do túnel. Na álgebra da vida, já não parecia haver qualquer solução que chegasse ao xis de seu problema. Como equacionar essa questão, para o bem do interesse geral? Que fazer com essa infeliz semente que germinara por meios impróprios, ao momento não certo, mas que, embora ainda fosse uma coisa amorfa e sem consciência de si e do mundo, Aurita já sentia como sua e bem amada? Ainda mais que esse filho também era dele, daquele por quem ainda nutria um amor que não deveria, mas… quem consegue entender como se elaboram os pensamentos versus sentimentos, em tantas cabeças humanas? Como esquecer que, na balança dos neurónios, razão e paixão têm pesos tão diferentes?!

 

Os chás amargos de Zefa, no entanto, Aurora bebia sofregamente, na esperança de que tais preparados lhe viessem acabar, de uma vez por todas, com as amarguras que, ela própria, pusera a fervilhar em sua vida. O fruto de seu ventre, contudo, era bem forte e resistia, mas embora ela já começasse a querer bem a esse botãozinho dentro de si, sentia-se pressionada a decidir que ele não deveria desabrochar. Murchasse, pois, como um malmequer, tirado à força pela raiz.

 

Bem antes que esse querubim perdesse as asas para virar um ser humano, ao se cortarem também, junto com o cordão umbilical, os apêndices aliformes invisíveis que esses anjinhos trazem às costas, era preciso, portanto, mandá-lo de volta para o Céu. Ele tinha que partir logo, do jeitinho em que ainda estava, para reintegrar, com os de sua legião, a orquestra de querubins e serafins, e, com sua harpa, tocar as melodias que constituem o supremo deleite divino, no jardim celestial.

 

Em outro jardim, o da Quinta, vicejavam agora, pelas mãos de Aurora, alguns poucos amores-perfeitos.

 

Amarelos.

 

(continua)

 

 

 

 

fim-de-post

 

21
Ago18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SENHOR MORTO.

 

Na Sexta-feira Santa, a procissão do Senhor Morto saía da igreja matriz até ao Horto do Calvário, uma pequena elevação da vila, em Santo Amaro. João Reis e todos da família dirigiram-se à Santa Maria Maior, para acompanhar o sacro cortejo. Aurita sobrepôs-se com algumas peças de vestuário que não chegassem a dar à vista, encheu os bolsos com as moedas de seus alfinetes e de tudo o mais que lhe fosse preciso de imediato, o que ensejou Maria a comentar, em alto e indiscreto bom som – Ai, menina Aurora, como estás gordita!

 

A rapariga esperou que a procissão seguisse até ao Horto, para aguardar os fiéis se distanciarem da igreja e, assim, chegar até ao ponto combinado com Hernando. Ao seguir com os demais fiéis, Aurita fingia-se contrita com o terço e as orações. Cada vez mais, porém, afastava-se dos familiares, até chegar às últimas fileiras. Esgueirou-se até aos fundos do templo, seguiu pela Rua da Ordem Terceira e foi até à Rua da Misericórdia, ao beco onde Hernando já haveria de estar à sua espera.

 

Passaram-se minutos, muitos, mais até do que lhe dava conta a ansiedade, enquanto ouvia soar, cada vez mais longe, os cânticos da procissão que se afastava, até as vozes dos fiéis sumirem de vez. Perto de si, porém, aproximaram-se apenas alguns cães vadios a ladrar e uma velhota, muito apressada, que lhe lançou um olhar entre curioso e inquisidor. Deu-se conta, então, de que ele não vinha. Não viria, talvez, nunca mais.

 

Tremeu então de pavor, ao lembrar que o corpo morto de Nosso Senhor já estaria a chegar ao seu jazigo no Horto. Tentou cortar por atalhos que nem bem conhecia e, felizmente, ao correr até ao Largo de Santo Amaro, onde a procissão estava começando a galgar a ladeira do pequeno Calvário flaviense, chegou a tempo de se unir aos seus. Lá no alto, à volta da capela, Papá e os mais estavam a procurá-la por entre os fiéis que já se espalhavam por toda parte. Por enquanto, supunham apenas que esse extravio fosse acidental, como sói acontecer nas romarias.

 

Ao subir para onde eles estavam, escutou de pronto os ralhos de Papá – Por onde andavas, menina, que já estavas a preocupar tua mãe? – o que estava igualmente subentendido: e a mim próprio, também. Ela respondeu, então, com a humildade de sempre – Ora, pois, portanto... estava por aqui mesmo, me perdi um pouco lá atrás – e, erguendo o terço – A rezar por mim, pelo Papá, por todos nós – que de rezas, ela andava a precisar e muito, ainda que, aos santos e ao Senhor Deus Misericordioso, não parecessem importar, nem um pouco, os seus rogos desesperados.

 

 

 

calvario.JPG

Capela do Horto, em Santo Amaro. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto, 2010.

 

(continua)

 

 

fim-de-post

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Fartei-mede rir quando li a estória do sr.Taveira ...

    • Anónimo

      Julia, O meu voto vai para a Igreja da Misericordi...

    • Anónimo

      Hoje, dia 12 de Outubro de 2018, acabo de ler este...

    • Anónimo

      https://m.youtube.com/watch?v=glT3deDW0_o

    • Anónimo

      Olá Fábio, Gostava muito de lhe oferecer um livro ...