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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Jan18

O Barroso aqui tão perto - S.Sebastião na Vila Grande - Dornelas

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Tal como prometemos ontem, vamos até uma das festas comunitárias do Barroso, uma das mais populares, talvez pelas suas características. Trata-se da Mezinha de S.Sebastião ou a Festa das Papas, como inicialmente se denominava, que todos os anos se realiza em 20 de janeiro na Vila Grande, da freguesia de Dornelas, concelho de Boticas.

 

Por cá também é conhecida como a festa do Couto de Dornelas. Mas isto do Couto de Dornelas é história que em tempo oportuno será aqui abordado no blog, fica para quando a nossa rubrica de “O Barroso aqui tão perto” entra nas aldeias do concelho de Boticas. O oficial é que esta aldeia tem como topónimo “Vila Grande”.

 

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Andei mais de trinta anos para ir a esta festa, no entanto, testemunha-o o meu arquivo fotográfico, só lá fui pela primeira vez em 2011, e fiquei fã, ou como costumo dizer, fiz promessa de a partir de aí, lá ir todos os anos, e assim tem sido, e este ano não foi exceção.

 

Nos anos anteriores fui deixando por aqui as imagens, a história da festa com as suas lendas, alguns números ligados ao que vai para a Mezinha do S.Sebastião e um pouco da festa popular que se vai fazendo enquanto se aguarda que a mezinha seja coberta com a toalha de linho e comece a receber os alimentos a todos os convivas.

 

Como já começo a ser um veterano nesta festa, embora numa festa secular oito anos de festa não sejam nada, talvez fosse melhor dizer que tenho sido mais um dos figurantes na permanência da continuidade da tradição da Mezinha de S.Sebastião, onde como tal, já vou conhecendo os cantos da casa e os tempos (timings) em que as coisas acontecem, e para não estar a repetir aquilo que disse nos anos anteriores, vou deixar por aqui um resumo do que acontece durante uma das minhas manhãs de 20 de janeiro na Vila Grande.

 

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Despertar bem cedinho para chegar a tempo e horas de ver a mezinha ainda despida de adornos e gente. Coisa complicada pois não somos só nós a fazer o mesmo, mas dá sempre para sermos dos primeiros. O popó fica no sítio do costume, pois desde que o descobrimos não queremos outro e permite-nos iniciar o final da mezinha e vê-la a descer pela rua abaixo até à curva da meta final. Esta é quase sempre a primeira foto que tomamos no local.

 

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Pelo caminho, ao longo da mesinha, o habitual vai-se repetindo para contribuir para a tradição.  Uns marcam logo o seu sítio de pouso, a banca das chouriças e restantes pertences do reco, agora em fumeiro, lá está no sítio do costume, e nós rua abaixo vamos lançando olhares e a objetiva até onde o motivo chama a sua atenção. Um deste olhares que também é habitual é o que lançamos sempre até à aldeia vizinha de Antigo, que serve sempre para nos indicar as condições meteorológicas do dia.

 

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Ao todo a mesa da Mezinha do S.Sebastião da Vila Grande tem cinco centenas de metros onde por volta do meio dia, após a missa a bênção do pão estará ocupada por milhares de convivas, mas lá iremos, para já continuamos a nossa descida até à “Casa do Santo”, é lá o ponto de encontro com outros amigos habituais e onde os fotógrafos e televisões se juntam para os principais registos, pois é lá que estão os potes ao lume, o pão depositado e os mordomos na azáfama final de fazer comida para milhares de pessoas. Também é por lá que parámos.

 

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Assim, aqui no largo da “Casa do Santo” é de paragem obrigatória. Cumprimentam-se e trocam-se umas palavras com fotógrafos amigos que vamos encontrando nestas andanças, mas sempre com um olho na janela/montra da “Casa do Santo” onde vão servindo umas malgas de sopa feita no pote. Um pequeno almoço à moda antiga das aldeias que além de um sabor único, aquecem até à alma, o que em dias frios, como sempre acontece nesta altura do ano, caem como ginjas.

 

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Nos potes a carne de porco fumada que irá acompanhar o arroz que mais tarde entrará nos mesmos potes e seguirão para a grande mesa acompanhada do pão que repousa em depósito. Potes ao todo, este ano eram 24. Mais pote ou menos pote, é esta a quantidade de todos os anos. Quanto às quantidades de carne, arroz e pão, já a contabilizamos num dos anos anteriores. Presentemente já não recordo as quantidades, mas é sempre a suficiente para chegar até ao fim da mesa e sobrar. Este ano talvez tivesse sido mais um pouco, pois com o dia 20 a coincidir com um sábado, a enchente de pessoal é sempre maior.

 

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Depois do ritual de comer a sopa do pote, de visitar a sala dos potes e o depósito do pão é aguardar pela chegada do pessoal, e umas voltas ao longo da mesa onde os lugares vão sendo ocupados aos poucos até encherem, o que acontece num abrir e fechar de olhos. Tomados os lugares há mesa, só lhes resta aguardar. Há no entanto quem prefira um lugar mais sossegado, a sós, em momentos de apreciação ou até de introspeção, sei lá, nunca sei o que vai na cabeça de cada um…

 

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Quanto a nós, aproveitamos sempre esses momentos de espera para uma visita obrigatória à parte antiga da aldeia, onde o cruzeiro, igreja e pelourinho são pontos obrigatório de visita, mas também para fotografar os nossos habituais modelos e um ou outro pormenor que não acontece todos os dias.

 

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E volta para aqui, volta para ali, o tempo vai passando, a missa acaba e em jeito de procissão o padre da paróquia, o Presidente da Câmara de Boticas e este ano também acompanhados pelo padre Lourenço Fontes, dirigem-se à Casa do Santo, onde o padre benze o pão, para  logo de seguida começar a labuta de dar de comer a quem espera ao longos das cinco centenas de mesa.

 

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De seguida o pessoal de serviço começa por colocar a toalha de linho ao longo da mesa, seguido do pedido de esmola acompanhado do beijar do S.Sebastião, o homem da vara com a medida onde se coloca um pão, uma caçarola de arroz e outra de carne. E assim de vara em vara lá vai ficando o pão, arroz e carne. Os convivas apenas terão de por os talheres e a bebida.

 

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Mas o comer vai além daquele que o Santo proporciona, pois muitos dos convivas trazem o farnel de casa que acrescentam à mesa,  e que,  seguindo o comunitarismo de momento tão comunitário, vão pondo à disposição dos seus vizinhos de mesa.

 

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E enquanto uns comem, e outros esperam, a rapaziada de Ventuzelos (Chaves) vai alegrando a festa com os seus desfiles e a sua música de concertinas e bombos.

 

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Tal como o povo costuma dizer “merenda comida, companhia desfeita”. Na Mezinha do S.Sebastião, na Vila Grande de Dornelas,  também não é exceção. Ainda os últimos da mesa não estão servidos, já os primeiros estão de partida. A festa para os convivas dura uma manhã, para o pessoal da aldeia penso que durará todo o dia.

 

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Para quem não conhece, este abandono tão cedo da festa pode parecer estranho, mas estamos em dia de S.Sebastião e não é só na Vila Grande que se comemora e há festa, daí que, o pessoal que parece estar de regresso a casa, está antes a caminho de uma festa próxima, a maioria com destino a Alturas de Barroso, a meia dúzia de quilómetros, onde a todos é servido um prato de feijoadas, um pão e um copo de vinho. E viva a Festa.

 

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Também o nosso destino passou por Alturas do Barroso, com passagem obrigatória em Vilarinho Seco, mas em termos de festa ficámo-nos pela Vila Grande, pois nas Alturas foi só mesmo de passagem. O dia ia longo e algum o cansaço já pedia o regresso a casa. Para o próximo ano há mais.   

 

 

 

 

 

 

22
Jan17

O Barroso aqui tão perto - Festas do S.Sebastião

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o b tao perto

Como já vem sendo habitual nos últimos anos, o 20 de janeiro é dedicado às festas do S.Sebastião no Barroso, daí hoje incluirmos esta reportagem na habitual rubrica dos domingos de “O Barroso aqui tão perto…”, que até aqui tem sido dedicado ao Barroso do Concelho de Montalegre , mas hoje, excecionalmente, vamos até ao Barroso de Boticas com os festejos do S.Sebastião, antecipando um pouco a nossa entrada nas aldeias de Boticas. Assim, hoje, apresentamos também aquele que irá ser o cabeçalho de “O Barroso aqui tão perto…” com uma imagem do concelho de Boticas,  para a abordagem que futuramente faremos a todas as suas aldeias.

 

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Então hoje vamos até aos festejos do S.Sebastião da Vila Grande da freguesia de Dornelas e o S.Sebastião das Alturas do Barroso, mas também com uma abordagem à aldeia da Gestosa e Vilarinho Seco, como também um pouco da história do S.Sebastião (Santo) e da mesinha do S.Sebastião (lenda), por partes.

 

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1 - S. SEBASTIÃO

São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do século III, e desde muito cedo  que os seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé.

Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o facto de Sebastião ser um cristão de coração.

A figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda pessoal.

Nessa destacada posição, Sebastião tornou-se  no grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo.

Visitava com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva, consolava e animava os candidatos ao martírio aqui na terra, que receberiam a coroa de glória no céu.

Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado.

Diocleciano sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza  defendeu-se, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos.

O Imperador, enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas.

Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no,  amarraram-no  a um tronco de árvore e atiraram contra ele uma chuva de flechas. Depois  abandonaram-no para que sangrasse até a morte.

À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene escondeu-o na sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar o seu processo de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusados de inimigos do Estado.

Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma.

Uma piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, as suas relíquias foram solenemente transportados para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas.

Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.

As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, viram-se livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo.

 

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2 - A LENDA DA MESINHA DE S.SEBASTIÃO

 

Reza a lenda,  que há muitos, muitos anos, houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.

Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:

“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

 

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos, mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a proteção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade.

Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua proteção, renovaram a promessa: «… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

 

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3 - Mesinha de S.Sebastião na Vila Grande

 

As fotos que têm ficado até aqui são da mesinha de S.Sebastião da Vila Grande, da freguesia de Dronelas. A introdução com a história do Santo e da Lenda apenas se deve a que muitos populares, incluindo da Vila Grande, associam o início destes festejos às segundas invasões francesas. Ora na deslocação deste ano um natural da aldeia puxava o assunto à baila, onde afirmava que teve acesso a documentos em que provavam que os festejos da Vila Grande já se realizavam muito antes das Invasões Francesas. Dada a história do santo, a sua data de nascimento e ao ser venerado como padroeiro contra a peste, a fome e a guerra, entre outros, é natural que os festejos já venham de há longa data, como também é natural que lhe dessem mais significado e importância a partir das segundas invasões francesas.

 

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Quanto à mesinha de S.Sebastião da Vila Grande já nos anos anteriores deixei por aqui o seu funcionamento, mas eu volto a repetir num breve apontamento.

 

Ao longo da rua principal da aldeia é colocada uma mesa com mais de 500 metros de comprimento, que é coberta com uma toalha de linho onde são colocados um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne de porco, distanciados de aproximadamente um metro. Antes da distribuição há uma missa, depois a bênção do pão e só depois começa a distribuição da comida, antecedida pelo pedido de “esmola” ou ajuda para as despesas (cada um dá o que quer) e o beijar do S.Sebastião.

 

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No entanto o preparar da festa pelas gentes da aldeia começa muito antes. O Pão começa a ser cozido no forno com 4 dias de antecedência, cozendo ininterruptamente durante esses 4 dias fornadas de 35 a 40 pães de cada vez até atingirem os 1200 pães necessários para a festa, dos quais 400 pães são para colocar na mesinha de S.Sebastião e os restantes para vender aos visitantes, pão esse que é composto por uma mistura de milho, centeio e trigo. . Quanto ao arroz, 110 Kg,  e à carne, mais de 400 postas,  são cozinhados durante toda a noite para começarem a ser distribuídos a partir do meio-dia. A cozedura do pão é feito por turnos de 7 a 8 pessoas durante os 4 dias.

 

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Claro que na noite que antecede a mesinha de S.Sebastião,  grande parte da população da Vila Grande envolve-se com os trabalhos da festa para logo de madrugada começar a receber os primeiros peregrinos.

 

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Peregrinos que vêm de todo o lado, principalmente do Norte de Portugal, com maior participação da gente do Barroso e do Minho, individualmente, em grupos de amigos ou mesmo em excursões que aos poucos vão enchendo toda a rua ao longo da Mesinha de S.Sebastião, ao longo da qual vão reservando lugar e petiscando nas merendas que vão trazendo.

 

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Também o pessoal da imprensa nacional e estrangeira (jornais e televisões) não são alheios à festa, mas também um elevado número de fotógrafos amadores individuais ou de associações, como é o caso do nosso grupo de Associados Lumbudus que marcámos sempre presença ou elementos da Associação Portografia do Porto, este ano com pelo menos 5 associados.

 

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Quanto aos preparativos da festa, tal como dissemos, começa pelo menos com 4 dias de antecedência com o cozer do pão. Quanto à Mesinha do S.Sebastião, comido o pão, o arroz e as postas de carne, o pessoal destroça e quase como num milagre, desaparece num instante, tanto que por volta das 2 da tarde a mesa está completamente vazia, mas claro que há uma razão para tal, é que o S.Sebastião não se comemora só na Vila Grande, pois na aldeia vizinha das Alturas do Barroso também há festa e em Salto, um pouco mais à frente, idem aspas. Mas estas com características diferentes.  Claro que nós também não somos exceção e acabada a festa na Vila Grande também rumámos  os nossos destinos até as alturas do Barroso, mas por etapas.

 

 

4 – Gestosa

 

A caminho das Alturas do Barroso passa-se ao lado da Gestosa. Todos os anos parámos lá num alto onde a aldeia se vê juntinha ao lado de um verdejante vale. Todos os anos ficamos com o apetite de a visitar, mas este ano não resistimos e fizemos o desvio para uma visita breve mas também para ir adiantando trabalho de levantamento fotográfico da aldeia como memória futura para um devido post dedicado à aldeia.

 

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Para já fica a informação de que gostámos daquilo que vimos, pois se lá de cima é interessante, o seu interesse aumenta quando lhe entramos na intimidade, mas descrições ficam para o tal post futuro. Mas gostámos tanto que lhe dedicamos a nossa imagem de arte digital

 

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5 - Vilarinho Seco

 

Vilarinho Seco é de paragem obrigatória para repor forças, nem que seja só com um café que é sempre bem acompanhado, quer pelos amigos do costume quer pelos improvisados concertos de cantares acompanhados pelas concertinas dos vários grupos minhotos que invadem estas festas.

 

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Mas claro que não resistimos a tomar mais umas fotos daquelas que é uma das aldeias mais interessantes de todo o Barroso, também para memória futura de um post que surgirá quando passarmos definitivamente para o Barroso do Concelho de Boticas. Mas desta vez, além das imagens registámos também em vídeo a improvisada atuação de um duo que tanto quanto entendi era a primeira vez que tocavam juntos.

 

 

Claro que a paragem por Vilarinho Seco é sempre breve pois o destino é mesmo Alturas do Barroso par terminar o dia, que ainda só vai a meio.

 

 

6 – Alturas do Barroso

 

Aqui os festejos em honra do S.Sebastião são outros. Em conversa com uma natural das alturas, perguntava-me de qual das festas gostava mais, se a da Vila Grande ou das Alturas. A resposta foi a politicamente correta – Gosto das duas. Mas além de politicamente correta também foi sincera, pois ambas as festas são interessantes, apenas são diferentes, mas há sempre coisas que gostámos mais numa festa do que na outra, mas já lá vamos.

 

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Desde criança que oiço falar das Alturas do Barroso e dos Cornos do Barroso, curiosamente só há anos soube que a aldeia das Alturas está juntinha aos Cornos do Barroso e daí, suponho, a proveniência do topónimo, pois de facto, a aldeia implantada a quase 1200 metros de altitude é a mais alta que se localiza na Serra do Barroso.

 

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Mas como se não bastasse ouvir falar da aldeia desde miúdo, quando comecei a ler a obra de Miguel Torga tropeço com dois momentos registados por torga nessa aldeia, o primeiro data de 1956 que passo a transcrever:

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

 

Miguel Torga in “Diário XI”

 

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O segundo momento de Torga, mais recente, data de 1991:

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

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E faço minhas as palavras de Torga, principalmente estas: - “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha”, sim, é verdade e tal como Torga – “Não por mim, que venho cheio de boas intenções,” mas por medo a que as pessoas pensem que as minha intenções não são boas, mas ainda   – “Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso” o que também é verdade, pelo menos desde que descobri esta aldeia, é sempre com gosto que regresso a ela, nem que seja e só por altura do S.Sebastião, mas passo por lá mais vezes.

 

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Pois além da curiosidade que tinha desde miúdo, Torga aguçou-me o interesse em conhecer também esta aldeia e também como ele apreciei a aldeia, o seu povo, o casario e a festa do S.Sebastião.

 

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Pois quanto à festa só lhe conheço o lado profano, aquele do comer e beber, pois nunca tive a honra de assistir à parte religiosa, que suponho que obrigatoriamente existira.  Tudo porque os da Vila Grande, como já atrás referi, só têm festa da parte da manhã e assim vamos deixando as Alturas para a parte da tarde, mas fica a promessa que numa das próximas vezes invertemos a ordem.

 

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Pois quanto à parte que assistimos, é em quase tudo diferente da festa da Vila Grande. Começando que a das Alturas é feita debaixo de teto e a ementa é servida em prato. Uma feijoada da boa, um copo de vinho e um pão. Segundo consta, pois nunca estivemos até ao fecho, a festa prolonga-se pela noite adentro, enquanto houver peregrinos com vontade de comer.

 

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Mas claro que a parte do comer é só um breve momento, pois a festa esta lá dentro mas também à porta ou nas ruas da aldeia. Os improvisados concertos de cantares ao som da concertina são uma constante onde menos se espera ou melhor, em todos os lugares.

 

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Uma visita, passeio, pelas ruas da aldeia também é obrigatório e se houver um pouco de conversa com as suas gentes, tanto melhor, e desta vez até fomos felizes nesta parte, pois além de fotos consentidas ainda tivemos direito a uma demonstração de como se lança o peão e uma história das antigas, também com direito a imagens, mas também estas ficam para um post futuro dedicado à aldeia, com o S.Sebastião de parte, embora a referência seja obrigatória.

 

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E quase a terminar há que referir a simpatia das pessoas das Alturas, não só as que estão envolvidas no trabalho de dar de comer e beber a tanta gente mas também da aldeia em geral.

 

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E não só, pois a aldeia também surpreende pela gente jovem, coisa que já vai sendo raro nas aldeias barrosãs e em geral do interior transmontano. Pelo menos do dia de S.Sebastião assim é.

 

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E por fim, ficam as fotos prometidas e consentidas, ah! e já ia esquecendo, este ano o S.Sebastião aconteceu em plena vaga de frio polar, talvez por isso não havia neve como em alguns dos anos anteriores e o sol apareceu com a sua alegria do costume…

 

E quanto às festas do S.Sebastião, até pró ano!

 

 

23
Jan16

A Mesinha de S. Sebastião - Couto de Dornelas - Cerdedo - Vilarinho Seco e Alturas do Barroso

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Aos sábados aqui no blog é dia da nossa ruralidade, daquela que vai além da cidade e das vilas, a ruralidade mais rural, a das nossas aldeias, não só as de Chaves, mas de toda a região envolvente, incluindo todo o Barroso onde o comunitarismo desde sempre fez parte da sua força para vencer os trabalhos de uma terra quase sempre ingrata. Comunitarismo que se reflete também nas celebrações religiosas e que se transforma em festa envolvendo toda a aldeia e comunidade. Mas há festas comunitárias e festas comunitárias que o são mesmo, abertas a toda a comunidade que nela queira participar. São assim as de S.Sebastião no Couto de Dornelas e das Alturas do Barroso, ambas do concelho de Boticas. Festa que desde que a descobrimos fizemos promessa de lá voltar todos os anos.

 

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As imagens de hoje são dessas mesmas festas comunitárias que vão sendo apresentadas pela sua ordem cronológica, em que a primeira imagem que vos deixo coincide com a nossa chegada ao Couto de Dornelas à Mesinha de S.Sebastião. E assim vai sendo, com o decorrer da manhã e do dia até entrarmos na noite, já noutra aldeia. Mas lá chegaremos.

 

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Comecemos então pelo Couto de Dornelas, topónimo pelo qual é vulgarmente conhecida a aldeia, mas penso que não é bem este o seu topónimo, pois o oficial é mesmo a Vila Grande de Dornelas.

 

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Mas falemos da festa onde gostamos de chegar logo pela manhã para não perder pitada, ou quase, pois para por lá a festa começar logo de manhã, grande parte dos seus habitantes já anda há dias a trabalhar para ela. Então na noite que antecede a manhã da festa, nem se fala, é que dar de comer a milhares de pessoas, não é pera doce.

 

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Mas passemos a explicar as imagens. A primeira é da nossa chegada onde a mesinha do S.Sebastião já estava montada na rua principal, mais coisa menos coisa são 400 metros de mesa. Logo pela manhã começam a chegar as pessoas das aldeias vizinhas, mas também os residentes da aldeia marcam presença nas ruas, algumas vestindo ainda as tradicionais capas de burel. Na cozinha comunitária ultima-se a confeção das últimas carnes e arroz em mais de vinte potes dos grandes. Ao lado, o pão já cozido, aguarda a distribuição pela mesa, tal como as gigas de vime cheias de pratos e malgas de madeira.

 

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A visita à cozinha é obrigatória, embora à área de trabalha o acesso seja restrito, pois é apenas para quem trabalha ou para quem como nós blogers e fotógrafos, jornalistas e televisões querem fazer a reportagem e captar outras imagens que só lá dentro são possíveis. Entretanto pela manhã a cozinha serve algumas sopas em malgas para os primeiros forasteiros, e gente que trabalha, consolar os estômagos, pois a comida só sai para a mesinha (a tal dos 400 m) depois da missa e de benzido o pão. Coisa que só acontece por volta do meio dia. Assim, até lá, há tempo de dar uma volta pela aldeia e de apreciar o seu casario mais típico.

 

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Entretanto a mesinha, que pela manhã estava vazia (veja-se a primeira foto), ao meio dia está repleta com milhares de pessoas a aguardar que de vara a vara (a medida) caia um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne sobre uma toalha de linho que previamente cobriu a mesinha de madeira.

 

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Mas ainda antes de a comida chegar à mesa, há o ritual do peditório para ajudar a festa e o desfilar da imagem do S.Sebastião, que os crentes, um a um, vão beijando à sua passagem.

 

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Depois sim, a comida. Pão caseio mistura de centeio e milho, arroz e o naco de carne de porco. É tudo bom, com o sabor que só os potes lhe sabem dar, mas quem vem de fora vai acrescentando sempre qualquer coisinha à mesa, como bolos de bacalhau, linguiças e salpicões, presunto, vinho entre outras coisas, que os estômagos agradecem sempre.

 

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Nós marcamos sempre lugar no final da mesa. Assim podemos ir fazendo as fotos ao longo dos 400m de mesa e no final também saborear a oferenda. É ponto também de reunião de outros amigos fotógrafos ou não, como no caso da última foto com o nosso amigo A. Tedim, Luís Alves e um “cerdedense” vizinho do Couto de Dornelas que de tanto nos falar da sua terra resolvemos passar por lá para a conhecer, e em boa hora, pois foi a surpresa do dia, que o resto já conhecíamos. As próximas seis imagens são de lá, de Cerdedo.

 

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Lembram-se de há dias eu dizer por aqui que havia dois Barrosos, o agreste e o verde. Pois por aqui misturam-se os dois, ou seja, nas terras mais baixas o verde é tão intenso que parece ter luz própria mas, mesmo ao lado, começa a subir-se à croa das montanhas, a luz apaga-se e o agreste predomina.

 

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Então em dia de chuva com neblinas altas, Cerdedo apresentou-se como uma revelação desenhada com a mestria de um artista, daqueles mesmo artistas, verdadeiros. Nada ficou ao acaso, o desenho dos caminhos, os recortes dos muros, a colocação dos canastros, os tons da pintura dos verdes nos lameiros salpicados de amarelos torrados de bois e vacas, os sépias das folhas secas que teimam não soltar-se das árvores.

 

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Até o casario parece ter sido arrumado de modo a não incomodar a harmonia da restante composição, fundindo-se com ela, fazendo parte dela.

 

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Este encanto podia ter sido magia do momento, com as neblinas altas que mais não eram que nuvens de chuva a apagar por completo o azul do céu e a intensidade da luz do sol para que as sombras não apagassem o brilho da chuva caída sobre o todo de uma paisagem que mais parecia uma tela roubada do caixilho de uma pintura para não quebrar a coerência da composição.

 

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Por último, ainda em Cerdedo e ainda as pinturas, agora numa tela de Silva Porto, “Guardando o rebanho” que recordo desde miúdo por ter uma reprodução pendurada numa das paredes da sala de casa dos meus pais, só que, o pastor de Silva Porto caminhava para nós, e o pastor do Cerdedo, como cena final, afasta-se de nós.

 

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Poderia terminar aqui o post que já ficavam bem servidos, mas hoje estou generoso e quero contar-vos, sobretudo em imagem, o resto do dia, pois embora a última imagem seja de Cerdedo, quase não tínhamos saído, ainda, de Couto de Dornelas, e o nosso destino nesse momento era mesmo Alturas do Barroso.

 

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E tínhamos ainda pela frente que subir quase toda a Serra do Barroso e fazer uma passagem com paragem obrigatória em Vilarinho Seco, mas antes, ainda havia tempo de parar no meio da serra para apanhar umas imagens, nem que fossem apenas as dos tais devaneios.

 

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E depois sim, Vilarinho Seco que tal como o Cerdedo foi uma agradável descoberta de há anos atrás e por isso temos de parar sempre por lá para ver se continua tudo lugar e não houve qualquer doidice que estragasse a composição, mas há também o Pedro, onde é também obrigatório parar para botar um copo, mesmo que seja um café.

 

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Por último as Alturas do Barroso onde se celebra com festa, também comunitária, o S.Sebastião, mas aqui de forma diferente. Infelizmente chegamos lá sempre tarde, já quase em hora de termos que regressar, mas cumprimos sempre a promessa. Fotograficamente falando é que as coisas se complicam, pois se em Cerdedo até deu jeito a luz não estar muito intensa, aqui, dava-nos jeito haver mais alguma, mas enfim, não se pode ter tudo. Assim,  fica uma imagem noturna.

 

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E com isto ficam aqui vinte imagens sobre o Barroso, que temos aqui tão perto e que é sempre tão interessante ir por lá para recordar o que conhecemos e descobrir novas pérolas, quase sempre com o atrativo da sua simplicidade ou mesmo virgindade.

 

 

 

25
Jan15

O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 2

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Apresentamos em duas partes o S.Sebastião do Barroso porque de facto é assim que acontece por lá, ou seja, a primeira parte em Couto de Dornelas e a segunda em Alturas do Barroso, mas entre as duas aldeias há ainda a paragem obrigatória em Vilarinho Seco onde sem festa, a festa continua.

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Do Couto de Dornelas às Alturas do Barroso pouco mais são de 10 quilómetros e Vilarinho Seco fica sensivelmente a meio do trajeto, assim a paragem obrigatória nesta aldeia não se deve à distância, mas antes pela necessária hidratação ou mesmo um simples café, mas também pela festa que sempre acontece e pela beleza da aldeia.

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Toda esta região do Barroso tem uma beleza singular devido a ainda ir mantendo a sua integridade de um núcleo de construções que mantém as características das construções típicas do Barroso. A não ser um ou outro caso isolado as coberturas de colmo já fazem parte da história, apenas a estrutura dos beirais testemunham que um dia existiram. Penso que poderia e ainda pode haver uma solução interessante uma sobrecoberta, mas isso ao S.Sebastião até pouco interessa. Resumindo, queria eu dizer que é sempre interessante parar em Vilarinho Seco nem que seja para tomar meia-dúzia de imagens que são sempre interessantes.

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Mas o nosso destino é mesmo Alturas do Barroso. A saída de Couto de Dornelas acaba por acontecer quase sempre depois das duas da tarde, pelo caminho além da paragem obrigatória em Vilarinho Seco há sempre outras paragens ocasionais. Ora aqui porque há que tomar umas fotos às vacas a pastar, ora ali porque há neve, ora acoli por outra coisa qualquer, às vezes até por um chichi dum mais apertado é preciso parar e assim, quando se chega a Alturas do Barroso já a tarde está mais pra lá do que pra cá, então se o céu está encoberto com nuvens a tarde chega mesmo a cheirar a anoitecer.

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Claro que nós vamos lá pela festa da festa, pela festa da fotografia , mas também pela feijoada do S.Sebastião. às vezes é complicado conciliar tudo mas descomplica-se, pois a missão tem de ser cumprida e cumpre-se.

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Claro está que com tantos afazeres o regresso à terrinha já é feito noite escura, via Montalegre. Éh! É aquela tal noia de nunca regressar pelo mesmo caminho ou então apenas o pretexto para passar por Montalegre, para ver se o castelo está no sítio e se a Vila e a Portela continuam no seu lugar.

 

E assim vai sendo o cumprir da promessa do 20 de janeiro.

Até pró ano.

 

 

24
Jan15

O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 1

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Ora vamos lá até ao S.Sebastião, hoje o do Couto de Dornelas, pois não é a única povoação que celebra o 20 de janeiro com uma festa comunitária.

 

Então para apanhar tudo desta festa convém ir cedo. Para mim se chegar lá por volta das 8h30 ou 9 horas, já está bem, pois ainda se apanham as ruas despidas de gente e podemos apreciar a verdadeira dimensão da mesinha de S.Sebastião ao longo da rua principal da aldeia.

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De seguida há a visita obrigatória aos potes e ao pão. A entrada para a zona de trabalho, onde durante toda a noite os potes cozinharam o manjar a servir, não é de visita livre, e compreende-se, pois só incomodam quem trabalha, mas depois de negociar a reportagem com o “porteiro”, a porta abre-se. Claro que depois de tanta foto ao pão e aos potes, o “porteiro” acha por bem que também deve sair em uma e, como o prometido é devido, cá fica ela.

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Os potes são muitos, pão ainda mais, mas a gente é tanta que não há outro remédio e depois há que precaver, pois mais vale sobrar do que faltar.

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Depois há que esperar pela missa. É tempo de dar uma voltinha pela aldeia, e assistir à chegada dos peregrinos. Uns mais carregados que outros, mais ou menos abrigados, vão marcando lugar à mesa e enchendo a rua principal da aldeia.

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Neste tempo livre uma ou mais passagens pelo largo do Cruzeiro são sempre obrigatórias, mesmo porque é por ele que se vai até à igreja, quer se vá a missa ou não.

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Entretanto poucas são as ombreiras das portas que ficam livres. Abrigam um pouco do ar de neve e parecendo que não dão sempre um certo descanso ao corpo para além de ser um sítio sempre privilegiado para ver quem passa.

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À missa nem todos vão e ainda bem, pois embora a igreja até nem seja das mais pequenas, seria impossível comportar todos os peregrinos, mas há sempre os mais devotos que mesmo que não tenham lugar dentro, ficam à porta ou no adro.

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Terminada a missa há que seguir a cruz, o S.Sebastião e o Padre que partem em procissão até à bênção do pão.

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Acabada a bênção a cruz e o Padre regressam à igreja mas o S.Sebastião fica. Juntam-se a ele o homem das esmolas, o homem da vara (medida) e os homens das toalhas de linho e começando a desenrolar-se estas em cima da mesa, logo vai a vara medir onde cairá um pão, um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, de porco.

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Logo de seguida aí vai mais uma vara para medir onde cairá outro pão, mais um caçoilo de arroz e um pedaço de carne , com vossa licença, também de porco. E assim sucessivamente durante umas centenas de metros quase mil, entre as esmolas que vão caindo na cestinha e o beijar o S.Sebastião.

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Passada a procissão da distribuição do comer, há que lançar a mão à navalha, cortar o pão e a carne e bora lá, há que comer, pois o frio e a espera já se tinham encarregue de abrir o apetite e a barriguinha já agradece.

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Comida do pote e pão do forno a lenha. A comida não tem pela certa a apresentação ou os enfeites de “la fine cuisine”, então o arroz… mas garanto-vos que é uma iguaria, um autêntico manjar dos deuses.

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Se alguém duvidar das minhas palavras que vá lá, este ano já não vai a tempo mas para o ano há mais, ou então perguntem a quem lá foi ou tem promessa de lá ir, mas já se sabe que por mais deliciosas que as palavras sejam, vão-lhe faltar sempre o sabor, o momento, a companhia.

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E merenda comida companhia desfeita, mas em festa, sempre em festa, pois embora pareça que a festa acabou e que o S.Sebastião regressou ao seu altar, é pura ilusão. Em Couto de Dornelas é um até para o ano que vem, mas uns quilómetros mais à frente e uns bons metros mais acima, há mais S.Sebastião, mais festa comunitária, mais manjar, é para lá que ruma agora a procissão de peregrinos, mas essa fica para amanhã, hoje o tempo de antena deste blog vai inteirinho para o Couto de Dornelas, sito no concelho de Boticas, em Barroso, Terra Fria de Trás-os-Montes, apenas um cantinho deste Reino Maravilhoso.

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Ah!, já ia esquecendo a promessa feita às meninas da Universidade Sénior, aquelas que também queriam sair na televisão. Pois embora por aqui a imagem seja estática não é tão efémera como na TV, e cá ficam.

E quanto ao S.Sebastião do Couto de Dornelas fica um – até para o ano!

 

 

 

21
Jan15

Festa do S.Sebastião barrosão

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Lá fui eu pagar a promessa ao S.Sebastião barrosão, das terras altas e frias de Boticas.

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Esperava-se neve, mas em Couto de Dornelas só frio, mas não o suficiente para calar a festa da música enquanto se espera pela mesa completa.

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Depois sim, pão, arroz e carne de porco oferecido pelo S.Sebastião, o resto e por conta de cada um, incluindo os talheres, mas se não os houver, também não há problema – o vizinho do lado desenrasca.

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 Vilarinho Seco

Mas o S.Sebastião não se fica por Couto de Dornelas. Um pouco mais acima, em Alturas do Barroso, também espera pelos peregrinos, mas antes há a passagem obrigatória com paragem em Vilarinho Seco onde mesmo sem S.Sebastião a festa continua.

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E por fim Alturas do Barroso que para fazer jus ao nome conserva a neves dos últimos dias para visitante ver e até brincar. Claro que o frio continua, não estivéssemos nós em plena terra fria, mas também não era nada do outro mundo, era frio apenas.

E por hoje fica esta breve passagem, no próximo sábado deixamos por aqui mais algumas imagens do S.Sebastião barrosão e da festa comunitária das suas aldeias.

 

 

21
Jan14

Festa comunitária do S.Sebastião - Barroso

 

O Transmontano tem muitos traços culturais comuns que nos diferenciam dos minhotos, dos alentejanos ou dos algarvios, por exemplo,  mas por muito que esses traços nos tornem iguais no ser transmontano e por vivermos atrás dos montes, por detrás de cada monte ou conjunto de montanhas, há uma realidade que é singular, própria de quem habita os sopés dessas montanhas, singularidade que se revela até nas pequenas diferenças dos contornos das montanhas, dos pequenos vales e da paisagem, no ar que se respira, na luz…em suma, há traços culturais que diferenciam os transmontanos das outras províncias, mas entre nós transmontanos também há traços que nos diferenciam uns dos outros.

 

 

Ontem lá fui eu em peregrinação até ao S.Sebastião do barroso, não por devoção ao santo mas por devoção à tradição e a um traço da cultura barrosã – o comunitarismo -  que ainda vai resistindo por lá e, como era conduzido sem ter de me preocupar com a estrada, ia deitando com mais atenção o olhar à paisagem e é escusado, mal se sai do concelho de Chaves a paisagem transforma-se, o ar torna-se mais frio e como diria Torga, sentimo-nos mais próximos do céu onde até as montanhas mais altas vestem a pureza do branco para dar mais luz ao inverno.

 

 

O destino era, como já vem sendo hábito no 20 de janeiro, as festas comunitárias do S.Sebastião do Couto de Dornelas e das Alturas do Barroso e tal como também vem sendo hábito gostamos de chegar lá logo pela manhazinha para assistir ainda à montagem da mesinha do S.Sebastião que por sinal só é mesinha no nome, pois é bem comprida. Mas gostamos de a ver ainda sem vivalma a marcar o lugar ou à espera que venha a vara para saber onde vai cair o pão, a caçarola de arroz e as carne de porco, gostamos de visitar que já anda há dias a trabalhar para a festa e que passou as últimas noites em claro na cozedura do pão, o arroz e a carne estejam prontos para todos os forasteiros logo após a missa do meio-dia.

 

 

Desta vez o S.Pedro, talvez arrependido pela zanga do último ano quando mandou que chovesse durante todo o dia, mandou cancelar a chuva ou então seriam influência do Bispo de Vila Real que este ano coloriu a festa com a sua presença e a bênção do pão. Foi-se a chuva mas ficou o frio e também aqui, no frio,  se notam as tais diferenças de que falava no início, pois o frio do Barroso, embora muito mais frio que o nosso frio do vale, sente-se menos e é mais fácil de suportar.

 

 

Mas vamos à festa em que nada há a acrescentar às edições anteriores. A tradição mantém-se. Rezada a missa, benze-se o pão que começa a sair para a longa mesa, e quase que em simultâneo a toalha de linho vai-se desenrolando ao longo da mesa, a vara mede onde deve cair o pão, em cima deste vem pousar a caçarola de arroz e a lado a carne, o S.Sebastião vai acompanhando os trabalhos enquanto os fiéis lhe beijam os pés e lhe dão uma esmola. Depois é só sacar da navalha, puxar do garrafão e saborear os sabores que também aqui são do Barroso, únicos. Quem já se deliciou com a iguaria, sabe do que falo, os potes fazem milagres e os minhotos sabem-no, pois os autocarros não se enchem só de boas intenções.   

 

 

“Merenda comida companhia desfeita” diz o povo e no Couto de Dornelas é uma realidade, pois aqui a promessa paga-se em duas frentes e a outra fica a uns tantinhos quilómetros de distância e bem mais próximo de céu, a neve do último nevão de há dias é uma testemunha disso mesmo, ainda nos cantos mais sombrios ou nas elevações mais elevadas.  O próprio nome da aldeia não engana – Alturas do Barroso e mais alto que a aldeia, ali nas redondezas, só mesmo os Cornos do Barroso como se estivessem por ali de sentinelas a separar o Barroso de Montalegre do Barroso de Boticas.

 

 

Aqui a mesa ao longo da aldeia é substituída por um salão, e o arroz e carne de porco, substituídos por uma feijoada, mas tal como no Couto de Dornelas não há forasteiro que saia da aldeia sem um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho. O S.Sebastião aqui não percorre a mesa mas está à entrada do salão num florido altar improvisado. À porta, do lado de fora, há sempre música e bailarico ao som das concertinas, de preferência, as mesmas que no Couto de Dornelas deram música aos cantares e desafio.

 

 

Mas a festa não se faz só pelo Barroso, pelas paisagens, pelas iguarias e pela música, pois estas festas também são lugares de encontros de amigos, alguns que não vemos há muito, outros há meses, outros só lá, outros que atravessam todo o Portugal para dizer presente, mas também há surpresas de outros amigos que aparecem por lá por não terem resistido à tentação de satisfazer a curiosidade de ver a festa, amigos que trazem amigos e que, depois de serem picados pelo bichinho da festa, passam à promessa de regressar todos os anos.

 

 

O regresso a casa ora se faz pelo Barroso de Boticas ora pelo Barroso de Montalegre. Este ano calhou ao de Montalegre pois o Deus Larouco também ele vestido de branco,  apelava a um olhar e nós fomos lá olhá-lo.

 

E é tudo. Para o ano, por esta altura, contamos estar cá de novo.

 

A meio-dia teremos aqui os "Estratos" da Rita.

 

27
Jan13

Semana do S.Sebastião da Vila Grande - Couto de Dornelas - 7

Para rematar a Semana das festas comunitárias do S.Sebastião da Vila Grande no Couto de Dornelas, ficam os olhares de António Tedim.

 

António Tedim é um fotógrafo amador natural da Maia, membro da Portografia – Associação Fotográfica do Porto,   e da fotografia diz apenas ser um apaixonado. Paixão que já o levou a ser premiado dezenas de vezes em Portugal, Espanha, França e Alemanha.

 

Aos amantes de fotografia, recomendo ter o António Tedim debaixo de olho, cujo trabalho poderá ir sendo visto no seu blog:


http://www.antoniotedim.blogspot.pt/

 

Ou no facebook:


https://www.facebook.com/antonio.tedim.7

 

Retomando uma antiga colaboração, a partir da próxima quarta-feira António Tedim marcará também presença assídua neste blog Chaves com uma imagem semanal.






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