Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Jan21

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – INVERNO

Histórias que o Inverno me Contou

1600-paredes (107).jpg

 

 

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – INVERNO

 

No olival, os homens e as mulheres entregam-se à lida de colher das oliveiras a azeitona, que se oferece entre a folha miúda. Estendem ao redor do tronco a serapilheira e varejam os ramos, braços ao alto, até cair o fruto. E como ficam felizes se o ano é de fartura! Transportada a azeitona para o lagar, é medida na «fanga» e depositada na «tulha» até encher. Verdes umas, negras as outras. Lavadas e depois moídas entre a pedra das mós, lá as temos, então, cantando, a correr das bicas. Na bica de baixo, a «almofeira», líquido escuro da azeitona em talha, na bica de cima, a riqueza do fruto transformado em azeite. Mas muitas outras são as tarefas que o Inverno traz para serem cumpridas.

 

Finda a colheita no olival, inicia-se a poda das oliveiras. As noites são longas e os dias curtos e frios. Os rostos e as mãos dos homens e das mulheres tornam-se roxos, ásperos e gretados. Mas o Inverno não os amedronta. Os homens e as mulheres sabem que a terra e os animais necessitam do seu esforço e do seu saber. Que a Natureza, sem a sua ajuda, não poderia ser tão pródiga e tão amiga. Portanto, aí estão eles, a desafiar a invernia no desempenho das tarefas que encontram pela frente. A satisfazerem o pedido da terra e dos animais, porque gostam de retribuir em conhecimento e em cuidados a riqueza que os animais e a terra têm para lhes oferecer.

 

Ei-los a fazer a lavoura, as adubações e as sementeiras. A prosseguir nas vinhas as podas e as arroteias para novas plantações. A colher nos laranjais as laranjas e as tangerinas. A engarrafar os vinhos nas adegas. A abrir covas para semear as amêndoas e as nozes. E valeiras para semear os melões. A abrigar nas hortas as plantas que não resistem ao frio. A semear as cebolas, os espargos, os espinafres, os nabos e as cenouras. E também os alhos e os morangueiros. A podar as roseiras e os arbustos. A resguardar as plantas que vão florir mais cedo – como as azáleas e as camélias. A semear nos alegretes as calêndulas, as lobélias e os amores-perfeitos. E a plantar as ervilhas-de-cheiro, os jacintos, as túlipas e as anémonas.

 

Com os animais redobram os cuidados. Renovam-lhes as camas para estarem sempre enxutas. Agasalham e dão melhor comida às vacas leiteiras. Reservam verdura às ovelhas que tiveram crias. E tratam das colmeias, dos pombais, das capoeiras… Num trabalho constante, que não acaba mais.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

 

04
Out18

Alminhas

1600-coimbro (92)

 

De vez em quando a Soledade Martinho Costa “rouba-me” umas fotografias para ilustrar os seus textos. Eu pago-lhe com a mesma moeda, e de vez em quando “roubo-lhe” os textos para ilustrar as minha fotografias. Claro que são roubos consentidos por ambos. Hoje fica mais um texto da Soledade, sobre alminhas, que tantas vezes me interrompem viagens, fazendo-me parar para as tomar em registo fotográfico. Vamos lá, então, às alminhas. O texto é da Soledade.

 

1600-pondras (30).jpg

 

«ALMINHAS»



O culto religioso das «Alminhas», designação pela qual são conhecidos piedosa e popularmente estes altares ou nichos propiciatórios em favor e memória dos defuntos, apresentam-se como pequenas construções, construídas em pedra ou cimento, guarnecidas por pequenas imagens religiosas, esculpidas em pedra ou barro, ou pintadas de forma singela em azulejo, alusivas aos santos ou ao Purgatório. É frequente encontrá-las erguidas à beira das estradas, nos caminhos, nas encruzilhadas, ou mesmo no meio dos campos, quer em locais ermos ou habitados. A revelar, quase sempre, o acto de mão piedosa, dado pela deposição de algumas flores, ou pelo acender de uma vela, lamparina ou candeia de azeite, cuja chama, a alumiar a noite, nos faz lembrar os que já não se encontram entre nós.

 

1600-seara-velha (958)

 

Localidades há onde são entregues aos habitantes «correndo a roda às casa», a fim de que todos possam contribuir para a sua preservação, limpeza e alindamento. Aquele que a tiver a seu cargo deverá alumiá-la todas as noites até findar o seu mandato. Daí, o uso, mantido em certos lugares, de se realizarem «peditórios de azeite para as alminhas», ou proceder-se à entrega dele em cumprimento de promessa. É também usual efectuar-se uma novena, em que durante esses nove dias a pessoa que fez a promessa vai alumiar as «alminhas» e fazer orações.

 

1600-morgade (44)

 

Símbolos da religiosidade e do sentido piedoso do povo, deve-se às confrarias das almas, no século XVII, a sua contribuição para a divulgação das pinturas do Purgatório nelas representadas. No século XVIII as irmandades e confrarias das almas espalham-se de norte a sul do País.

 

Nas suas inscrições, pedem apenas a quem por elas passar, uma breve oração em seu favor, ou tão-só, um pensamento piedoso por sua intenção.

 

«Irmão, lembrai-vos das Almas que estão no Purgatório com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria», ou «Ó vós que ides passando/Lembrai-vos das almas que estão penando», ou ainda «Ó vós que aqui vindes tão descuidados de nós/Lembrai-vos das almas/Que nós nos lembramos de vós», são alguns dos dizeres afixados nesses altares.

 

1600-coimbro (192)

 


Em Sesimbra, por tempos idos, as «alminhas» eram lembradas naquela vila (devido às terríveis epidemias de cólera e de febre-amarela que dizimaram a população em 1856 e 1857), praticando-se o piedoso culto de se subir ao Calvário, local situado no Forte de Santa Cruz, onde as vítimas foram enterradas por não haver espaço nos cemitérios, para colocar junto à cruz ali existente lanternas com azeite para «alumiar as almas».


Soledade Martinho Costa

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

 

 

 

 

21
Jun18

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – PRIMAVERA II

1600-castelo (58).jpg

 

 

Na frente da casa, a roseira-rubra abre o veludo de um botão numa rosa encarnada.


— A quem ofereces tu essa rosa, acabada de abrir? – pergunta-lhe uma borboleta-do-brejo, a bailar nas suas quatro asas.


— Ao teu olhar, que reteve a beleza de a descobrir! – responde a roseira-mãe, no perfume que lhe veste a folhagem.

 

1600-Canico (19).jpg

 

Aqui e além, repousam as casas na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemidas, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer. Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo. Gratas por terem vivido tanto e por tantas coisas terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias – que guardam dentro de si, como os livros. Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica! Construída de muitas vidas e de muitas histórias. Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas. Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que, por si, são igualmente amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.

 

1600-torgueda (81).jpg

 

Mas a Primavera também lembra aos homens e às mulheres que as tarefas esperam para serem cumpridas. Que a terra não cessa de pedir o seu amanho e os animais a atenção de que necessitam. Agora, que o sol começou a subir no horizonte e os dias têm o tamanho das noites, é preciso prosseguir o trabalho nos campos. Porque os homens e as mulheres amam e respeitam a terra que cultivam. Conhecem-lhe os segredos. Satisfazem-lhe os pedidos. Deslumbram-se a cada nova sementeira. Assim, lá os temos, a fazer a monda dos cereais de Inverno. A sachar e a recolher as favas, as ervilhas, as batatas e as cebolas. A semear nas hortas os rábanos, os pimentos, as cenouras e o feijão. E ainda a salsa, os coentros e o tomilho. A plantar nos canteiros os gladíolos, as begónias, os malmequeres, os goivos e os girassóis. E a enxertar o azevinho, os lilases e as roseiras. Num trabalho constante, homens e mulheres recolhem o mel das colmeias. Mudam os enxames e substituem as abelhas-rainhas. Retiram os abrigos às cerejeiras, já sem receio das geadas. Engarrafam os vinhos nas adegas. Fazem cavas junto ao tronco das árvores para lhes dar a frescura apetecida.

 

1600-corva (78).jpg

 

Quanto aos animais, também estes aguardam os seus cuidados. Por isso, vigiam a postura das galinhas nas capoeiras. Dão alimento verde às vacas nos currais. Engordam os bois e os leitões. Tratam dos coelhos, dos perus, dos patos e dos pombos. Levam ao pasto as cabras e as ovelhas. Começam a tosquia do gado, porque o calor já se faz anunciar. Numa tarefa infinda, que começa com os alvores da madrugada e só termina à tardinha, quando o sol se põe e o céu anuncia que a noite não tarda a chegar.

 

Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que a Primavera me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

Fotografias de Fernando DC Ribeiro - Blog Chaves

 

 

26
Mai18

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE PRIMAVERA I

1600-avd-soutelinho-12_36532195656_o.jpg

 

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE PRIMAVERA I

 

De mansinho, como só ele sabe, o dia acorda a Primavera no azul da manhã. Mira-se ao espelho, no cristal das gotas do orvalho que a madrugada lhe deixou, e estende os olhos pelos campos sem fim. Verdes, tão verdes, assim, reflectidos no seu olhar de luz!

 

O sol, seu companheiro de sempre, faz-lhe companhia. Na Primavera levanta-se mais cedo, liberto da preguiça de ficar escondido entre os lençóis do sono.


— Quero ver como vão as coisas lá em baixo, na Terra. Quero zelar por elas. Ajudar a terra a florir e a frutificar. Essa é a tarefa que me cabe cumprir – murmura ele. Portanto, deita mãos ao trabalho. Ou seja, afadiga-se a lançar sobre a terra a quentura dos seus raios para que a semente desponte, a flor tenha perfume e o fruto a doçura que o fará cobiçado.

 

1600-larouco-150_20218158266_o.jpg

 

— O sol é um mágico! – segreda o canavial à brisa que passa.


— O sol é um trabalhador cheio de coragem! – afirma o rio, na sua viagem sobre as pedras.


— O sol é o irmão da Natureza! – acrescenta a macela a oscilar nos ramos.


— O sol é um amigo de todos nós! – congratula-se o homem, que cultiva a terra, a imaginar a seara que há-de ceifar nos meados do Verão.

 

Mas como o dia tem de aproveitar o tempo, ei-lo a bater à porta das casas da aldeia, atento aos passos e às vozes; a saltar os muros de pedras sobrepostas, onde espreitam os tufos de conchelos e erva-moleirinha; a subir ao topo das serras, entre veredas de murta, verbenas e boninas.


As borboletas, as libélulas, as joaninhas, os besouros e as abelhas andam também numa roda-viva a saborear a liberdade que a Natureza lhes oferece.

 

1600-misarela (99).jpg

 

— Bom dia! Bom dia! É Primavera! – repetem sem parar, deslumbrados com a beleza que os rodeia e curiosos de tanta novidade.


Aqui e além ouvem-se os grilos, as cigarras e os ralos, a desenferrujarem a sua música dos muitos dias de silêncio e merecido descanso. Nas hastes e nos tronos das plantas e das árvores rebentam os renovos, orgulhosos do vigor que fará a seiva correr com força redobrada nas suas raízes, adormecidas durante os meses frios do Inverno. É a vida que volta. Que começa ou recomeça. É o letargo interrompido. O sono que termina. O pousio que cessa. Daqui em diante, são os dias a encherem-se de sons, de aromas, de colorido. E também a certeza de que a Primavera não deixa nunca de nos maravilhar num repetido e sempre renovado canto!

 

1600-workshop-a-sa-292_13979394417_o.jpg

 

Mas engalanados ficam também os moitões de tojo, a esconderem a aridez dos picos debaixo de um manto de florinhas de oiro. Numa mistura de cores, de formas e perfumes, fazem-lhe companhia os almeirões, juntinhos, a formarem tufos de flores lilases; os resmonos azuis, a confundirem-se com a flor do rosmaninho; a flor das estevas, olhar castanho-escuro a espreitar nas cinco pétalas translúcidas; o lilás das flores da malva, pincelado em cada pétala com três filetes roxos, e o branco e o amarelo dos pampilhos a salpicarem o vermelho das papoilas.

 

canico.jpg

 

Tanta beleza, tanta, por esses campos a perder de vista! E um perfume sem par a respirar na aragem! Mas as casas… Ah!, as casas são as flores mais bonitas da paisagem!

 

Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que a Primavera me contou»
Ed. Publicações Europa-América
Fotografias: Fernando DC Ribeiro

 

 

30
Mar18

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – DIA DE INVERNO II

1600-padornelos (229).jpg

 

— Quem será o primeiro? O mais afoito? Qual dos meus vizinhos e companheiros se atreverá a pôr a cabeça fora do ninho ou do buraco onde se recolhe? Quem terá coragem de convidar-se para um passeio nesta manhã tão fria? – interroga-se o pardal, ainda sonolento, a espreitar, aconchegado, no beirado da casa. — Mas, assim… Brrrrrr! Com este frio! – e acomoda-se de novo no casaco de penas que lhe veste o corpo. 

Comadre lebre, à porta da toca, orelhas levantadas, deita um olhar ao matorral que cerca a sua casa.


— Não há dúvida de que esta alvura fica bem bonita, assim, pousada sobre as casas e os campos, como um manto de lantejoulas brancas! – exclama ela. – O pior é que de beleza ninguém enche a barriga. Enchem-se é os olhos, isso sim. Agora o papinho, era bom, era! Hoje, por exemplo, com tanta beleza, enchia-se a barriguinha até fartar. Mas não. Pobres dos bichos que têm de procurar alimento nas manhãs como esta! Que, por mim, pouco me ralo. Vou continuar a dormir um sono e só pela tardinha tenciono pôr as patas fora da toca. Quanto ao frio, ora, no Inverno já estou habituada. Também, para alguma coisa me há-de servir o fato de pêlo… – e a lebre entra na toca e volta a enroscar-se na cama quente do calor do seu corpo.


O sol começou agora mesmo a levantar-se. Primeiro, a bocejar por entre os lençóis de neblina com que se tapa. No Inverno, levanta-se mais tarde. Ou recusa-se, mesmo, a levantar-se. A debruçar-se, por pouco tempo que seja, lá em cima à janela de sua casa. E a terra fica mais fria sem o calor dos seus raios e menos alegre sem a claridade do seu esplendor. Mas o sol, talvez para se fazer mais desejado, esconde-se atrás do reposteiro cor de cinza que veste a abóbada do céu. E não se mostra, o maroto. Não dá sinal de si. Não se vê rasto dele. Às vezes entretém-se a pregar destas partidas dias e dias a fio – ainda que saiba muito bem a falta que faz!


As aves queixam-se:


— Sem o sol tiritamos de frio!


Os homens dizem:


— Quem dera que o sol desponte!


A terra pede:


— Anda, meu amigo, vem até mim, que morro de saudades. Bem sabes que sem ti não sou ninguém…

 

1600-outono (34)


É nesta altura que o sol não resiste mais e aparece. Feliz por se saber amado mostra-se lá em cima. E retribui à terra a sua prova de amor com o beijo mais dourado dos seus raios.


A manhã alonga os passos pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado como dois amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro! O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo nas pétalas que fecham ao entardecer. Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada - que gosta de enfeitar Dezembro quando chega o Natal.

 

1600-chuva (8)

 

A tarde toma agora o lugar da manhã que parte. Instala-se, sacode o algodão das nuvens e põe-se toda de um azul-celeste. Tão azul se põe, que o céu se confunde com o mar, a mostrar-se, lá ao longe, aos olhos do povoado. Parecem um só, de braço dado: o mar e o céu! Mas verde e não azul, fica o mar quando está zangado e cinzento o céu, quando, sem revelar porquê, a tristeza o invade.


As figueiras, despojadas de folhas, erguem, como abraços apontados ao céu, os troncos esguios, num protesto. Ao verem as laranjeiras agasalhadas na copa redonda da rama verde-escura, sentem, com maior nostalgia, a nudez cinzenta que lhes veste o corpo. O Outono cobiça e rouba as suas folhas e o Inverno não lhes devolve o adorno com que se embelezam. Por isso, saudosas do bem que perderam, segredam entre si: «Que sorte a das laranjeiras. Sempre bem vestidas, sempre perfumadas, enfeitadas de frutos no Inverno!» E têm razão. Viajantes de mares longínquos desde a China, lá estão elas, as laranjas, entre a saia rodada das laranjeiras, a lembrar marés e caravelas no primeiro pé de laranja doce. À sua volta, as outras árvores quase pararam por completo a dádiva cíclica dos frutos. Mas as laranjeiras, árvores de folha perene, orgulham-se de oferecer nos ramos os gomos sumarentos durante a estação fria do Inverno. Quanto às figueiras, árvores de folha caduca, terão de esperar um pouco mais. Até à chegada da Primavera, altura em que começam a vestir de novo o aconchego dos seus vestidos verdes. Tão verdes como, por vezes, a cor do mar que banha os países onde, roxos ou brancos, amadurecem os seus frutos.

 

1600-passaro-soledad

 

No céu, a cor azul-celeste deu lugar ao tom azul-escuro. Sinal de que a noite vai chegar. As nuvens, vindas de um sítio que só elas sabem, correm, correm de novo pelo céu fora como se tentassem agarrar o vento. Agarrar o vento? Oh, não! O vento é que as empurra. E elas não protestam. Obedecem. Umas atrás das outras, num galope sem freio à sua frente.


Com o vento, veio a noite, agasalhada na sua capa de breu. É nela que oculta a escuridão que lança sobre a Terra para que esta adormeça. E também as sombras, que num bailar constante, têm por missão velar-lhe o sono, até que a Terra desperte e o dia amanheça.


— Pai! Pai Pinheiro! Onde se esconderam as estrelas do céu, que não as vejo?
— Atrás das nuvens… - responde o pinheiro, pai da pinha que baloiça ao vento entre as agulhas finas.
— Agasalhadas nelas porque têm frio?
— Não, minha filha. As nuvens não podem aquecer as estrelas, porque são elas que trazem a chuva!
— Ah! – diz, simplesmente, a pinha.
— E tu, não dormes? – pergunta o pai.
— Ainda não. Penso que as estrelas fazem falta no céu…
— Sim, as estrelas do céu são as mais bonitas que enfeitam os pinheiros!

 

Recolhido de novo sob o telhado da casa, o pardal, cabecinha enfiada no casaco de penas, dorme. Sonha, talvez, com o fim do Inverno. Com o ninho, que há-de construir, com os ovos, os filhos, o perfume das flores e as searas de trigo… E nem dá pela chuva que começa a cair.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Histórias que o Inverno me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

 

 

08
Fev18

Histórias de Inverno

1600-barroso (133)

 

Há dias a Soledade pediu-me uma foto para ilustrar um texto seu, hoje fui eu que lhe pedi o texto para ilustrar a foto e o post de hoje. Espero que gostem.

 

*******************************

 

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE INVERNO

 

Já desperto, eis o Sol, nesta manhã de Inverno, curioso como só ele, a espreitar por tudo quanto é canto. Dá os bons-dias e lá começa, num afã, a tornar mais luminosos e menos frios os campos onde a geada de manso se instalou.

 

Entorna-se pelo povoado. Cobre os caminhos e as telhas das casas enfeitadas de musgo. Espreguiça-se nos muros onde trepam como estrelas verdes as folhas da hera. Desce ao rés do mar e cumprimenta as ondas, meninas buliçosas em correrias loucas. Sobe ao monte e deixa-se rolar por ele abaixo a brincar às escondidas pelos moitões de tojo e urze roxa, pelos tufos de rosmaninho e alecrim, pelos maciços de giesta, de cardos e silvados.

No olival, os homens e as mulheres começam a entregar-se à lida de colher das oliveiras a azeitona, que se oferece entre a folha miúda. Estendem ao redor do tronco a serapilheira e varejam os ramos, braços ao alto, até cair o fruto. E como ficam felizes se o ano é de fartura! Em sacos ou poceiros, transportam a azeitona para o lagar, onde é medida na fanga e depositada na tulha, até encher. Verdes umas, negras as outras. Lavadas e depois moídas entre as pedras das mós, lá as temos, então, cantando, a correr das bicas. Na bica de baixo a almofeira, líquido escuro da azeitona em talha. Na bica de cima, a riqueza do fruto transformado em azeite. Convertido no milagre do alimento e da luz. O oiro liquefeito no prato e na candeia – ou na lamparina, que alumia o sono e também a vigília do santo.

 

1600-Vilarinho-seco (128)-3.jpg

 

Mas outras são as tarefas que o Inverno traz para serem cumpridas. Finda a colheita no olival, inicia-se a poda das oliveiras. As noites são longas e os dias curtos e frios. Os rostos e as mãos dos homens e das mulheres tornam-se roxos, ásperos e gretados. Mas o Inverno não os amedronta. Os homens e as mulheres sabem que a terra e os animais necessitam do seu esforço e do seu saber. Que a Natureza, sem a sua ajuda, não poderia ser tão pródiga e tão amiga. Portanto, aí estão eles, a desafiar a invernia no desempenho das tarefas que encontram pela frente. A satisfazerem o pedido da terra e dos animais, porque gostam de retribuir em conhecimento e em cuidados a riqueza que os animais e a terra têm para lhes oferecer.

 

Ei-los a fazer a lavoura, as adubações e as sementeiras. A prosseguir nas vinhas as podas e as arroteias para novas plantações. A colher nos laranjais as laranjas e as tangerinas. A engarrafar os vinhos nas adegas. A abrir covas para semear as amêndoas e as nozes. E valeiras para semear os melões. A abrigar nas hortas as plantas que não resistem ao frio. A semear as cebolas, os espargos, os espinafres, os nabos e as cenouras. E também os alhos e os morangueiros. A podar as roseiras e os arbustos. A resguardar as plantas que vão florir mais cedo – como as azáleas e as camélias. A semear nos alegretes as calêndulas, as lobélias e os amores-perfeitos. E a plantar as ervilhas-de-cheiro, os jacintos, as túlipas e as anémonas.


Com os animais redobram os cuidados. Renovam-lhes as camas para estarem sempre enxutas. Agasalham e dão melhor comida às vacas leiteiras. Reservam verdura às ovelhas que tiveram crias. E tratam das colmeias, dos pombais, das capoeiras… Num trabalho constante, que não acaba nunca.

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Meu caro, gostei do post sobre os lápis das Casas ...

    • FJR Barreiro

      Este foi mais um assassínio feito à nossa terra. E...

    • Anónimo

      O porque e qual a razão de fazerem estas aberraçõe...

    • Anónimo

      Lindíssima esta sua foto. Espero que o texto não a...

    • FJR - Barreiro

      Tantas idas a pé eu fiz. E era tão feliz ao fazê-l...

    FB