Sexta-feira, 30 de Março de 2018

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – DIA DE INVERNO II

1600-padornelos (229).jpg

 

— Quem será o primeiro? O mais afoito? Qual dos meus vizinhos e companheiros se atreverá a pôr a cabeça fora do ninho ou do buraco onde se recolhe? Quem terá coragem de convidar-se para um passeio nesta manhã tão fria? – interroga-se o pardal, ainda sonolento, a espreitar, aconchegado, no beirado da casa. — Mas, assim… Brrrrrr! Com este frio! – e acomoda-se de novo no casaco de penas que lhe veste o corpo. 

Comadre lebre, à porta da toca, orelhas levantadas, deita um olhar ao matorral que cerca a sua casa.


— Não há dúvida de que esta alvura fica bem bonita, assim, pousada sobre as casas e os campos, como um manto de lantejoulas brancas! – exclama ela. – O pior é que de beleza ninguém enche a barriga. Enchem-se é os olhos, isso sim. Agora o papinho, era bom, era! Hoje, por exemplo, com tanta beleza, enchia-se a barriguinha até fartar. Mas não. Pobres dos bichos que têm de procurar alimento nas manhãs como esta! Que, por mim, pouco me ralo. Vou continuar a dormir um sono e só pela tardinha tenciono pôr as patas fora da toca. Quanto ao frio, ora, no Inverno já estou habituada. Também, para alguma coisa me há-de servir o fato de pêlo… – e a lebre entra na toca e volta a enroscar-se na cama quente do calor do seu corpo.


O sol começou agora mesmo a levantar-se. Primeiro, a bocejar por entre os lençóis de neblina com que se tapa. No Inverno, levanta-se mais tarde. Ou recusa-se, mesmo, a levantar-se. A debruçar-se, por pouco tempo que seja, lá em cima à janela de sua casa. E a terra fica mais fria sem o calor dos seus raios e menos alegre sem a claridade do seu esplendor. Mas o sol, talvez para se fazer mais desejado, esconde-se atrás do reposteiro cor de cinza que veste a abóbada do céu. E não se mostra, o maroto. Não dá sinal de si. Não se vê rasto dele. Às vezes entretém-se a pregar destas partidas dias e dias a fio – ainda que saiba muito bem a falta que faz!


As aves queixam-se:


— Sem o sol tiritamos de frio!


Os homens dizem:


— Quem dera que o sol desponte!


A terra pede:


— Anda, meu amigo, vem até mim, que morro de saudades. Bem sabes que sem ti não sou ninguém…

 

1600-outono (34)


É nesta altura que o sol não resiste mais e aparece. Feliz por se saber amado mostra-se lá em cima. E retribui à terra a sua prova de amor com o beijo mais dourado dos seus raios.


A manhã alonga os passos pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado como dois amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro! O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo nas pétalas que fecham ao entardecer. Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada - que gosta de enfeitar Dezembro quando chega o Natal.

 

1600-chuva (8)

 

A tarde toma agora o lugar da manhã que parte. Instala-se, sacode o algodão das nuvens e põe-se toda de um azul-celeste. Tão azul se põe, que o céu se confunde com o mar, a mostrar-se, lá ao longe, aos olhos do povoado. Parecem um só, de braço dado: o mar e o céu! Mas verde e não azul, fica o mar quando está zangado e cinzento o céu, quando, sem revelar porquê, a tristeza o invade.


As figueiras, despojadas de folhas, erguem, como abraços apontados ao céu, os troncos esguios, num protesto. Ao verem as laranjeiras agasalhadas na copa redonda da rama verde-escura, sentem, com maior nostalgia, a nudez cinzenta que lhes veste o corpo. O Outono cobiça e rouba as suas folhas e o Inverno não lhes devolve o adorno com que se embelezam. Por isso, saudosas do bem que perderam, segredam entre si: «Que sorte a das laranjeiras. Sempre bem vestidas, sempre perfumadas, enfeitadas de frutos no Inverno!» E têm razão. Viajantes de mares longínquos desde a China, lá estão elas, as laranjas, entre a saia rodada das laranjeiras, a lembrar marés e caravelas no primeiro pé de laranja doce. À sua volta, as outras árvores quase pararam por completo a dádiva cíclica dos frutos. Mas as laranjeiras, árvores de folha perene, orgulham-se de oferecer nos ramos os gomos sumarentos durante a estação fria do Inverno. Quanto às figueiras, árvores de folha caduca, terão de esperar um pouco mais. Até à chegada da Primavera, altura em que começam a vestir de novo o aconchego dos seus vestidos verdes. Tão verdes como, por vezes, a cor do mar que banha os países onde, roxos ou brancos, amadurecem os seus frutos.

 

1600-passaro-soledad

 

No céu, a cor azul-celeste deu lugar ao tom azul-escuro. Sinal de que a noite vai chegar. As nuvens, vindas de um sítio que só elas sabem, correm, correm de novo pelo céu fora como se tentassem agarrar o vento. Agarrar o vento? Oh, não! O vento é que as empurra. E elas não protestam. Obedecem. Umas atrás das outras, num galope sem freio à sua frente.


Com o vento, veio a noite, agasalhada na sua capa de breu. É nela que oculta a escuridão que lança sobre a Terra para que esta adormeça. E também as sombras, que num bailar constante, têm por missão velar-lhe o sono, até que a Terra desperte e o dia amanheça.


— Pai! Pai Pinheiro! Onde se esconderam as estrelas do céu, que não as vejo?
— Atrás das nuvens… - responde o pinheiro, pai da pinha que baloiça ao vento entre as agulhas finas.
— Agasalhadas nelas porque têm frio?
— Não, minha filha. As nuvens não podem aquecer as estrelas, porque são elas que trazem a chuva!
— Ah! – diz, simplesmente, a pinha.
— E tu, não dormes? – pergunta o pai.
— Ainda não. Penso que as estrelas fazem falta no céu…
— Sim, as estrelas do céu são as mais bonitas que enfeitam os pinheiros!

 

Recolhido de novo sob o telhado da casa, o pardal, cabecinha enfiada no casaco de penas, dorme. Sonha, talvez, com o fim do Inverno. Com o ninho, que há-de construir, com os ovos, os filhos, o perfume das flores e as searas de trigo… E nem dá pela chuva que começa a cair.

Soledade Martinho Costa

Do livro «Histórias que o Inverno me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

 

 

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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

Histórias de Inverno

1600-barroso (133)

 

Há dias a Soledade pediu-me uma foto para ilustrar um texto seu, hoje fui eu que lhe pedi o texto para ilustrar a foto e o post de hoje. Espero que gostem.

 

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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE INVERNO

 

Já desperto, eis o Sol, nesta manhã de Inverno, curioso como só ele, a espreitar por tudo quanto é canto. Dá os bons-dias e lá começa, num afã, a tornar mais luminosos e menos frios os campos onde a geada de manso se instalou.

 

Entorna-se pelo povoado. Cobre os caminhos e as telhas das casas enfeitadas de musgo. Espreguiça-se nos muros onde trepam como estrelas verdes as folhas da hera. Desce ao rés do mar e cumprimenta as ondas, meninas buliçosas em correrias loucas. Sobe ao monte e deixa-se rolar por ele abaixo a brincar às escondidas pelos moitões de tojo e urze roxa, pelos tufos de rosmaninho e alecrim, pelos maciços de giesta, de cardos e silvados.

No olival, os homens e as mulheres começam a entregar-se à lida de colher das oliveiras a azeitona, que se oferece entre a folha miúda. Estendem ao redor do tronco a serapilheira e varejam os ramos, braços ao alto, até cair o fruto. E como ficam felizes se o ano é de fartura! Em sacos ou poceiros, transportam a azeitona para o lagar, onde é medida na fanga e depositada na tulha, até encher. Verdes umas, negras as outras. Lavadas e depois moídas entre as pedras das mós, lá as temos, então, cantando, a correr das bicas. Na bica de baixo a almofeira, líquido escuro da azeitona em talha. Na bica de cima, a riqueza do fruto transformado em azeite. Convertido no milagre do alimento e da luz. O oiro liquefeito no prato e na candeia – ou na lamparina, que alumia o sono e também a vigília do santo.

 

1600-Vilarinho-seco (128)-3.jpg

 

Mas outras são as tarefas que o Inverno traz para serem cumpridas. Finda a colheita no olival, inicia-se a poda das oliveiras. As noites são longas e os dias curtos e frios. Os rostos e as mãos dos homens e das mulheres tornam-se roxos, ásperos e gretados. Mas o Inverno não os amedronta. Os homens e as mulheres sabem que a terra e os animais necessitam do seu esforço e do seu saber. Que a Natureza, sem a sua ajuda, não poderia ser tão pródiga e tão amiga. Portanto, aí estão eles, a desafiar a invernia no desempenho das tarefas que encontram pela frente. A satisfazerem o pedido da terra e dos animais, porque gostam de retribuir em conhecimento e em cuidados a riqueza que os animais e a terra têm para lhes oferecer.

 

Ei-los a fazer a lavoura, as adubações e as sementeiras. A prosseguir nas vinhas as podas e as arroteias para novas plantações. A colher nos laranjais as laranjas e as tangerinas. A engarrafar os vinhos nas adegas. A abrir covas para semear as amêndoas e as nozes. E valeiras para semear os melões. A abrigar nas hortas as plantas que não resistem ao frio. A semear as cebolas, os espargos, os espinafres, os nabos e as cenouras. E também os alhos e os morangueiros. A podar as roseiras e os arbustos. A resguardar as plantas que vão florir mais cedo – como as azáleas e as camélias. A semear nos alegretes as calêndulas, as lobélias e os amores-perfeitos. E a plantar as ervilhas-de-cheiro, os jacintos, as túlipas e as anémonas.


Com os animais redobram os cuidados. Renovam-lhes as camas para estarem sempre enxutas. Agasalham e dão melhor comida às vacas leiteiras. Reservam verdura às ovelhas que tiveram crias. E tratam das colmeias, dos pombais, das capoeiras… Num trabalho constante, que não acaba nunca.

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América

 

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