Soutelo - Chaves - Portugal

Soutelo
E chegou a vez de irmos até Soutelo, uma das aldeias da periferia da cidade de Chaves, mas nem por isso perde a sua ruralidade, basta entrar nela para nos sentirmos numa aldeia genuinamente transmontana.

Por sinal uma das aldeias mais afamadas do concelho de Chaves, pelo menos até há 40 ou 50 anos atrás, tudo pelos seus teares, as suas tecedeiras, as suas mantas, mas não só.

Como Soutelo já passou por aqui algumas vezes e já dissemos tudo o que tínhamos a dizer sobre a aldeia e freguesia, passemos aos teares, às tecedeiras e às mantas, ou ausência delas, baseado num projeto académico que não passou disso, e quando muito poderá estar perdido numa estante qualquer.

“Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. E (se) não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância.”
Jorge Dias
(A Etnografia como Ciência)

Como naturais e residentes neste concelho de Chaves, fomos assistindo nestas últimas décadas ao despovoamento das aldeias e ao perder de tradições e saberes que eram parte da vida quotidiana da sociedade rural. A esta situação não foi estranho o novo sistema político democrático introduzido em Portugal a partir de Abril de 1974, onde socialmente passou a haver mais justiça e igualdade, mas também onde economicamente foram abertas as fronteiras a novas oportunidades e novos empreendimentos localizados no litoral e junto às grandes cidades, que ofereciam às pessoas um garante de vida mais eficaz e justo, rodeadas de todas as infraestruturas sociais básicas como as da educação, saúde, habitação, transportes e acesso à cultura, lazer para os tempos livres e oportunidades. Em suma fez-se a revolução e saiu-se de um sistema ditatorial para entrar diretamente em democracia e liberdade plena sem que estruturalmente se estivesse preparado para viver um novo sistema político e mais tarde uma adesão à Comunidade Europeia, com todas alterações prévias que se exigiam e impunham de modo a combater uma real assimetria e desigualdade existente em Portugal entre o litoral e o interior e sem saber quais as consequências futuras ou a sua sustentabilidade. Pois todo este conjunto de fatores teve as suas consequências, tendo-se agravado as assimetrias já anteriormente existentes e que hoje, passados 38 anos, deixaram as suas mazelas nas zonas interiores rurais devido a um êxodo massivo da população mais jovem, para os grandes centros e litoral ou para a emigração, indo agravar também aí a qualidade de vida e justiça social que inicialmente se mostrava promissora para um futuro melhor.

É certo que no mundo rural quase não havia condições de vida dignos e toda a vida das pessoas andava na prática à volta da subsistência, com muito trabalho árduo em que um sistema político fechado ao exterior obrigava também as populações a serem autossuficientes, criando toda uma economia local de produção dos artigos e produtos quase e apenas para as suas necessidades. Existia toda uma economia do utilitário onde o acessório e o dispensável não tinham lugar nem razão de existir, onde as profissões existiam dependentes umas das outras e conforme as necessidades.

Com o novo sistema político e a abertura económica à novos empreendimentos e comércio exterior, passaram a existir no mercado todos os produtos que satisfaziam as necessidades mais básicas da população, com boa aparência, alguma qualidade e a um preço baixo ou muito acessível, provenientes quer do exterior quer de fabrico ou produção nacional e que, aos poucos, foi matando toda uma série de atividades artesanais e respetivas profissões, sem ter havido a mínima preocupação de preservar, modernizar e reconverter/adaptar todas as atividades, profissões e produções artesanais que existiam, de modo a serem um garante de vida das populações envolvidas nessas atividades, permitindo também assim a sua fixação nas suas terras de origem.

A consequência foi o abandono das aldeias, da agricultura e de uma série de atividades e profissões, algumas seculares. Abandono esse que se fez sentir essencialmente na população jovem e ativa, trazendo como consequência o envelhecimento da população rural do interior, a mesma que detém ainda os saberes de uma série de atividades artesanais e que, com o abandono da população jovem, perdem também os aprendizes a quem poderiam transmitir as tradições e saberes.

Devem ser raras as famílias do concelho de Chaves ou de toda a região interior norte, onde, ainda hoje, não haja uma peça artesanal de barro preto de Vilar de Nantes ou de Bisalhães, uma toalha ou lençol de linho , uma colcha de algodão, uma manta de lã, uma passadeira ou tapete de tiras, uma cesta de vime … coisas que passaram dos avôs para os filhos ou netos, muitas vezes feitas pelos próprios avôs ou compradas na feira semanal da vila ou cidade mais próxima.

A cidade de Chaves, graças à sua localização geográfica, sempre foi conhecida pelas suas feiras semanais, culminando na grande feira anual (Feira dos Santos) onde ao longos dos tempos esses produtos utilitários e artesanais fabricados na região eram comercializados ou trocados. Eram famosos os barros pretos de Vilar de Nantes, não só pela sua qualidade e resistência, mas também por apresentar uma gama variada de peças utilitárias de uso diário na vida das famílias, como as talhas de vários tamanhos, as travessas, assadeiras ou alguidares, também de vários tamanhos, os púcaros, os tachos, as cafeteiras, pratos, etc. Tudo que era de uso comum, no dia a dia das famílias, que pudesse ser feito em barro, Vilar de Nantes fazia-o e tanto assim era, que em Vilar de Nantes, em todas as famílias, havia oleiros ou cesteiros, que era outra das atividades da aldeia.

Também ao nível do utilitário e do utilitário-decorativo, as roupas, tapetes, cobertas, colchas e mantas, entre outros, ao longo dos tempos eram confecionadas um pouco por todas as aldeias, embora houvesse aldeias que tinha melhores condições naturais para desenvolver determinados tipos de trabalhos, como os das mantas, trepadeiras (passadeiras e tapetes), liteiros e cobertores.

A aldeia de Soutelo foi uma das aldeias que sobressaiu na confeção de mantas, cobertores, liteiros, trepadeiras e atoalhados, mas principalmente pelas mantas e cobertores, Soutelo ficou famosa em todo o Norte de Portugal, de onde vinha gente de todas as localidades para comprar as “mantas de Soutelo” nas feiras semanais, mas principalmente na feira anual dos Santos, que até tinha o dia 30 de Outubro dedicado à venda exclusiva destes produtos e daí esse dia ficar conhecida como o da feira da lã.

Toda a freguesia de Soutelo que é composta por duas aldeias (Soutelo e Noval) vivia à volta do tear, direta ou indiretamente, pois se as mulheres se dedicavam ao manuseamento da lã, linho, algodão e do tear, os homens tratavam da matéria-prima, com o cultivo do linho e toda a transformação até chegar a fio de tear, ou com os rebanhos de ovelhas para delas retirar a lã e fazer o seu tratamento. Reza a história ainda recente que rara era a casa da freguesia de Soutelo onde não se tecia ou houvesse um tear e, segundo testemunham ainda hoje na freguesia, não tinham mãos a medir, pois além das peças para satisfazer as necessidades das próprias famílias, havia as vendas das feiras e as encomendas das populações de outras aldeias que não se dedicavam ao tear, havendo aqui um sistema de trocas em que a lã, o linho ou o algodão eram fornecidos por quem encomendava e as tecedeiras de Soutelo confecionavam as mantas, cobertores ou o que fosse solicitado, tendo ainda direito a uma compensação monetária e/ou de produtos agrícolas que não produziam, por exemplo azeite.

Hoje ainda existem alguns teares e tecedeiras em Soutelo, mas os teares estão desmontados ou parados e as tecedeiras fazem parte da população mais idosa da aldeia, mas não é por essa razão que os teares já não tecem, mas antes, porque ao longo dos anos foi perdendo os mais jovens e a mão de obra para tratar da matéria prima mas também porque terminou a procura dos seus produtos, tudo graças a tecelagem industrial que inundou o mercado com produtos aparentemente idênticos a preços baixos.

Abordada a história da tecelagem na freguesia de Soutelo e detetada a origem do seu abandono, eis-nos então chegados ao nosso projeto, que terá como objetivos gerais a recuperação da arte da tecelagem e da fama que Soutelo ostenta na sua história. Claro que com estes objetivos principais se pretende também alcançar outros objetivos mais específicos e de ordem cultural e social, como o de travar o despovoamento da freguesia e se possível o repovoamento, ocupar o tempo livre de reformados e da terceira idade em geral, arranjar uma ocupação/trabalho para desempregados e jovens à procura do primeiro emprego. (…)

Isto eram algumas das palavras de introdução ao “projeto”. No projeto seguiram-se as técnicas, teorias e outros a ter em conta neste género de projetos de âmbito social, a parte técnica por assim dizer que não tem muito interesse para este post, daí passarmos diretamente às conclusões do mesmo.

Nunca tanto como hoje em dia se tem falado em crescimento, desenvolvimento ou ambas, acrescentadas da palavra sustentável. A economia, os livros, as teorias, exploram até à exaustão os termos e os conceitos. Por lá encontra-se o que se deve e não deve fazer, existem até alternativas conforme os pensamentos liberais, conservadores ou mais radicais para, teoricamente, por caminhos diferentes, se alcançar o mesmo objetivo. Está tudo nos livros, nas cabeças dos teóricos, e de tão preocupados que andam com esses assuntos e as suas teorias, esquecem-se de descer à terra, à realidade, ou melhor – às realidades - aos povos e povoados, ao ser humano. Depois as teorias falham por causa disto, por causa daquilo, pela alavanca que não alavancou, etc.
Sempre gostamos de complicar aquilo que é fácil e tal como na fábula da “Galinha dos Ovos de Ouro”, em vez de nos preocuparmos em manter a galinha para ter o precioso ovo de ouro diário, matamo-la para dela tirar todos os ovos de uma vez, e acabamos por ficar sem eles.

No projeto que se deixa queremos manter a galinha viva, que embora já não ponha ovos, queremos que ensine os filhos e netos a pô-los, e já nem se querem de ouro, mas dos normais, daqueles que se podem partir e com eles fazer ovos estrelados ou omeletes.
Infelizmente trata-se de um projeto académico (…) baseado num caso real. Soutelo existe, as tecedeiras e os teares também, mas nem as tecedeiras nem os teares tecem. (…)

E para finalizar, fica aquele que já vem sendo habitual na abordagem às nossas aldeias, um vídeo com a maior parte das fotografias publicadas até hoje neste blog sobre a aldeia que aqui trazemos, no presente caso a aldeia de Soutelo.
Link direto para ver no youtube:




































