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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Out20

Vivências

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Os jovens de hoje (felizmente, nem todos…)

 

Como parte das minhas funções profissionais contactei durante vários anos, oralmente e por escrito, com jovens, alunos e ex-alunos do Ensino Superior. Poderia aqui alongar-me sobre o quão mal se escreve, em termos de ortografia ou pontuação, havendo erros que me deixavam absolutamente espantado (apesar de ter visto muitas coisas, acreditem…). Mas não vou por aí, preferindo, antes, refletir um pouco sobre a pobreza de ideias…

 

Os jovens que hoje terminam a sua formação académica cresceram na era dos computadores, dos telemóveis e da Internet, num contexto de pleno acesso à informação e com ferramentas de comunicação sem comparação possível com qualquer outra época da nossa história. Seria, pois, expectável termos uma geração de mentes esclarecidas, ávidas de mais conhecimento e com facilidade em comunicar. A verdade, porém, é que a realidade me parece algo diferente. Será que estes jovens sabem, por exemplo, interpretar um texto literário um pouco mais complexo ou fazer uma exposição por escrito sobre determinada situação? Quantos sabem orientar uma pesquisa que não seja no Google ou formalizar uma opinião própria sobre um qualquer tema da atualidade? Sempre que são chamados a refletir ou a comunicar de uma forma um pouco mais séria ou formal a maioria experimenta uma dificuldade gritante... Arrisco-me a dizer que se lhes tirarmos o smartphone das mãos, muitos deles quase não saberão como comunicar com os outros, quanto mais ter uma conversa com alguma seriedade…

 

Podemos discutir acaloradamente as causas para esta situação e procurar respostas no sistema de ensino, mas a verdade é que muita desta cultura nem sequer se aprende na escola - aprende-se em casa, com o exemplo dos pais, aprende-se com a vida e muito por conta própria, desenvolvendo hábitos de leitura, de crítica construtiva, de pesquisa, de gosto pelo conhecimento, aprende-se com a leitura de mais livros e de menos disparates nas redes sociais, aprende-se através de uma maior intervenção cívica… E isto exige um esforço maior do que olhar para um écran e mover os dedos sobre um teclado…

 

Luís Filipe M. Anjos
 
 
Leiria, setembro de 2020

 

 

 

10
Set20

Vivências

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EN 2

 

Se fosse adequada às necessidades dos nossos dias ela seria a verdadeira espinha dorsal do país, desde Trás-os-Montes ao Algarve, ao longo de mais de 700 quilómetros. Mas a estrada nacional nº 2, de Chaves a Faro, não é, claramente, uma estrada dos nossos dias… É, antes, uma estrada que foi sendo esquecida ao longo de décadas, com troços perdidos para integrarem outras vias mais recentes, semáforos e rotundas nalgumas localidades, e até sentidos únicos e um troço submerso pela construção de uma barragem… Já não é uma estrada para viajar pelo país (queremos quase sempre chegar depressa a todo o lado), mas antes uma estrada que serve quase exclusivamente quem mora nas suas proximidades.

 

Mas o encanto continua lá - curvas, contracurvas, sinais antigos, marcos na berma, retiros para descansar, com boas sombras e fontes de água fresca… Num país pequeno, mas apesar de tudo tão diverso como o nosso, a EN 2 é a estrada que melhor liga toda esta diversidade de paisagens, gentes, culturas e modos de vida. Nenhuma outra estrada ou autoestrada nos consegue proporcionar esta visão de Portugal (pelo contrário, como bem sabemos, quando viajamos numa autoestrada não vemos nada…).

 

Ocasionalmente, leio na Internet relatos (e são cada vez mais) de quem se fez à estrada e percorreu a EN 2 de uma ponta à outra, de carro ou em duas rodas, ao longo de vários dias. Pessoalmente, nunca a percorri mais além do que a zona centro: Vila Real, Régua, Lamego, Viseu, e pouco mais. E mesmo nesta pequena parte nunca a percorri rigorosamente no seu traçado original, pois, saindo de Chaves, bastam uma meia dúzia de quilómetros para nos apercebermos de várias alterações de traçado para eliminação de curvas ou desvio de localidades (ao chegar à subida de Outeiro Jusão, temos logo a primeira…). Mas confesso que tenho curiosidade e também muita vontade de um dia, sem pressas, me aventurar a percorrê-la em toda a sua extensão. Quando o fizer, terei, certamente, uma grande vivência para partilhar…

 

Luís Filipe M. Anjos

 

 

14
Ago20

Vivências

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Somos uns privilegiados

 

Léon, Espanha. Dezembro de 2017. Estamos a almoçar calmamente num restaurante “buffet” mesmo em frente ao “Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León” e a certa altura da conversa, em família, concordamos com a ideia de que somos realmente uns privilegiados por vivermos neste tempo: somos Portugueses, viajamos livremente para Espanha para uns dias de férias e estamos a experimentar propostas gastronómicas não só deste país como também de outras paragens bem mais longínquas. Se recuarmos 40 ou 50 anos, até ao tempo dos nossos pais ou dos nossos avós, nada disto seria possível de vivenciar com esta facilidade. Prosseguindo e alargando um pouco o âmbito da conversa fazemos o exercício mental de imaginar como seriam estas mesmas férias noutros tempos.

 

A diferença começaria ainda antes de partirmos – não teríamos o Booking para pesquisar o hotel online, nem o Google Maps para ver a localização, a existência de lojas ou restaurantes nas proximidades, a distância e o percurso a pé até ao centro da cidade; não teríamos um cartão MBNet gerado na hora numa App no smartphone para efetuar a reserva; não teríamos a mesma facilidade na pesquisa de informação sobre os locais a visitar na cidade, os horários dos monumentos e os preços das entradas…

 

Depois, já na viagem, não teríamos o GPS para nos conduzir pela melhor rota, principalmente no interior das cidades, nem uma pen com as nossas músicas preferidas para ouvir no rádio do carro.

 

E, finalmente, já no destino, não teríamos máquina fotográfica digital (ou um telemóvel) para poder tirar uma centena ou mais de fotografias sem a preocupação de ter ou não ter rolos nem o receio de verificar após a revelação (no regresso a Portugal) que, afinal, metade delas ficou mal; não teríamos wi-fi no hotel para usar o Messenger e falar à borla com os familiares e amigos, ao final do dia, ou ver como vai estar o tempo no dia seguinte…

 

Somos, realmente, privilegiados por vivermos neste tempo… e, muitas vezes, nem nos apercebemos disso…

 

Luís Filipe M. Anjos

 

 

24
Jul20

Vivências

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Algarve

 

Podemos viajar por todo o país, tanto pelas velhinhas estradas nacionais como pelas modernas autoestradas, que nunca encontraremos nenhuma placa que indique “Minho”, “Trás-os-Montes”, “Beira Baixa” ou o nome de qualquer outra região de Portugal. Mas há uma exceção… Quando passamos Lisboa, em direção ao Sul, a par com a indicação das localidades por onde vamos passando, a palavra “ALGARVE” (assim mesmo, em maiúsculas, muitas das vezes) começa a aparecer de forma regular, num destaque perfeitamente despropositado que quase nos leva a pensar que este é o único destino que realmente interessa a quem viaja por estas estradas… De repente, é quase como se estivéssemos a viajar para outro país…

 

Chegados ao ALGARVE, aquele Algarve das praias e do turismo por todo o lado, não estamos noutro país, mas quase parece, pois as diferenças são tantas que é impossível não reparar nelas. Para onde quer que olhemos só vemos referências a hotéis, aparthotéis, aldeamentos turísticos, parques aquáticos, quase sempre com nomes a invocar o mar, o sol ou a praia, e a maioria das vezes em Inglês: Village, Club, Ocean, Beach… Os cafés e restaurantes, e até mesmo o restante comércio, acompanham também esta realidade e apresentam a sua oferta em Inglês, e muitas vezes também em Francês e em Alemão. Onde quer que se vá, quer seja a praia ou o supermercado, vêem-se turistas, muitos turistas e as palavras que mais ouvimos são estrangeiras… Na receção do aparthotel onde ficamos hospedados - e um pouco por todo o lado, diga-se de passagem - abundam folhetos a promoverem passeios de barco, expedições em todo-o-terreno, passeios de BTT, aulas de golfe, aulas de mergulho…enfim, toda uma infinidade de atividades para nos inserir ainda mais neste movimento gigantesco de gente e mais gente…

 

Descanso? Silêncio? Por aqui é um pouco difícil… Para mim, uns dias neste ALGARVE dos turistas servem, essencialmente, para mudar de ares, ver novas paisagens durante a viagem, e esperar pela placa “Leiria” no regresso a casa…

 

Luís Filipe M. Anjos

Páscoa de 201



17
Jul20

Vivências

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Algarve

 

Podemos viajar por todo o país, tanto pelas velhinhas estradas nacionais como pelas modernas autoestradas, que nunca encontraremos nenhuma placa que indique “Minho”, “Trás-os-Montes”, “Beira Baixa” ou o nome de qualquer outra região de Portugal. Mas há uma exceção… Quando passamos Lisboa, em direção ao Sul, a par com a indicação das localidades por onde vamos passando, a palavra “ALGARVE” (assim mesmo, em maiúsculas, muitas das vezes) começa a aparecer de forma regular, num destaque perfeitamente despropositado que quase nos leva a pensar que este é o único destino que realmente interessa a quem viaja por estas estradas… De repente, é quase como se estivéssemos a viajar para outro país…

 

Chegados ao ALGARVE, aquele Algarve das praias e do turismo por todo o lado, não estamos noutro país, mas quase parece, pois as diferenças são tantas que é impossível não reparar nelas. Para onde quer que olhemos só vemos referências a hotéis, aparthotéis, aldeamentos turísticos, parques aquáticos, quase sempre com nomes a invocar o mar, o sol ou a praia, e a maioria das vezes em Inglês: Village, Club, Ocean, Beach… Os cafés e restaurantes, e até mesmo o restante comércio, acompanham também esta realidade e apresentam a sua oferta em Inglês, e muitas vezes também em Francês e em Alemão. Onde quer que se vá, quer seja a praia ou o supermercado, vêem-se turistas, muitos turistas e as palavras que mais ouvimos são estrangeiras… Na receção do aparthotel onde ficamos hospedados - e um pouco por todo o lado, diga-se de passagem - abundam folhetos a promoverem passeios de barco, expedições em todo-o-terreno, passeios de BTT, aulas de golfe, aulas de mergulho…enfim, toda uma infinidade de atividades para nos inserir ainda mais neste movimento gigantesco de gente e mais gente…

 

Descanso? Silêncio? Por aqui é um pouco difícil… Para mim, uns dias neste ALGARVE dos turistas servem, essencialmente, para mudar de ares, ver novas paisagens durante a viagem, e esperar pela placa “Leiria” no regresso a casa…

 

Luís Filipe M. Anjos

Páscoa de 2015

 

 

12
Jun20

Vivências

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O fim do Secundário… há 30 anos

 

Estamos em junho de 2020. Há precisamente 30 anos concluí o 12º ano na Escola Secundária Dr. Júlio Martins, muitas vezes ainda chamada a “Técnica”, devido à sua tradição no ensino técnico ao longo de várias décadas.

 

Turma 11º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

Quis o destino que fizesse parte da primeira turma do Curso Técnico Profissional de Secretariado, iniciado no 10º ano. O facto de sermos uma turma pequena (15 alunos) e termos professores extremamente dinâmicos (principalmente a nossa coordenadora de curso, a Professora Maria Arminda Machado) permitiu que as nossas aulas fossem muito para além da mera exposição de conteúdos. Em disciplinas como Português ou Filosofia aprendíamos a pensar e a questionar, e nas aulas práticas simulávamos um verdadeiro ambiente de empresa, com a atribuição de responsabilidades, definição de tarefas e de prazos para a sua execução.

 

As visitas de estudo ao Porto eram um dos pontos altos do ano letivo e nelas fazíamos questão de incluir funcionários não docentes, lado a lado connosco e com os nossos professores (recordo-me da participação, do Sr. Pavão, da secretaria, e da D. Céu, telefonista). Visitámos, entre outros, os estúdios da RTP, a empresa de computadores IBM, o Palácio da Bolsa, a central dos CTT, e o jornal “Público”. Estas visitas incluíam também uma vertente um pouco mais lúdica e recordo-me da visita ao Castelo do Queijo, na Foz, ao Monte da Virgem, em Gaia, ao Shopping Brasília, na Boavista, e até de uma ida ao cinema, no ano em que a visita se estendeu por dois dias…

 

Turma 12º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

O contacto com a realidade do mundo do trabalho sempre foi uma preocupação e por isso efetuámos também algumas visitas de estudo em Chaves. Estivemos nas instalações da Caixa Geral de Depósitos, num gabinete de contabilidade, e na estação dos CTT, onde me recordo do absoluto espanto de toda a turma ao ver uma mensagem enviada de Vila Real sair impressa de um telefax, ali à nossa frente, em Chaves…

 

E, assim, ao longo dos 3 anos do curso, adquirimos conhecimentos e desenvolvemos competências, mas sobretudo, e principalmente, crescemos para a vida…

 

Luís Filipe M. Anjos

Leiria, junho de 2020

 

 

15
Mai20

Vivências

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Um café em Espanha

 

Um almoço, um jantar, ou até um simples café, podem proporcionar-nos uma satisfação bem diferente, dependendo do momento, do local onde estamos ou das pessoas que nos acompanham.

 

Corunha, dezembro de 2016. Acabámos de visitar o Parque de São Pedro, um antigo ponto defensivo onde sobressaem dois impressionantes canhões de defesa da costa, que foi magnificamente convertido num imenso parque impecavelmente cuidado e que é, sem dúvida, o melhor miradouro para a cidade.

 

São quase três da tarde e é hora de almoçar (em Portugal, em circunstâncias normais, já teríamos, obviamente, almoçado, mas nestes dias em Espanha, sem compromissos, os nossos horários andam um pouco diferentes…). Para não nos demorarmos mais, entramos no restaurante ali mesmo no parque e almoçamos calmamente: “primero plato”, “segundo plato”, “postre” e, para terminar, um café.

 

Qualquer português que saia de Portugal sabe da dificuldade que é tomar um bom café no estrangeiro - ou nos sai um café desenxabido, ou pedimos normal e vem exageradamente curto, ou pedimos cheio e mais parece servido numa chávena de chá… Pergunto ao empregado como é servido o “café solo”, que em Espanha é geralmente o mais próximo do nosso café expresso. Ele apercebe-se que somos portugueses (talvez já se tenha apercebido antes, mas só agora o demonstra) e pergunta-me como se pede um café em Portugal. Pode ser simplesmente “café”, digo eu… Ele acena-me que não com a cabeça, como quem está mentalmente à procura de outra palavra. Também pode ser “bica”, ou então… “Eso es… uma bica” - interrompe ele, sorrindo. Uns breves minutos depois eis que chegam os nossos cafés e… surpresa… Delta!

 

E, assim, no final de um agradável almoço em família, com a imensidão do Atlântico, a Torre de Hércules, a Praia de Riazor e toda a cidade da Corunha como moldura, lá em baixo, saboreamos um fantástico café Delta…que, pelo momento, pelo local e pela companhia nos soube maravilhosamente bem...

 

Luís Filipe M. Anjos

Corunha, dezembro de 2016

 

 

10
Abr20

Vivências

vivenvias

 

São Salvador do Mundo

 

 

Chaves. Agosto de 2019. Estamos a chegar ao fim de uns dias com a família e, tal como já fizemos em outras ocasiões, queremos aproveitar o regresso a casa para conhecer um pouco mais do nosso país. As alternativas são duas: a cascata das Fisgas de Ermelo, no Parque Natural do Alvão, ou o Miradouro de São Salvador do Mundo, na região do Douro. A decisão acaba por ser tomada apenas na véspera da partida, e já à hora do jantar, mas ainda muito a tempo…

 

A viagem inicia-se com o trajeto normal até Vila Real. Segue-se a EN 322, em direção a Sabrosa, passando por São Martinho de Anta, a terra natal de Miguel Torga. Depois de Sabrosa inicia-se a descida até ao Douro e a paisagem começa a encantar-nos, ao ponto de ainda pararmos num dos miradouros antes de chegarmos ao Pinhão.

 

No Pinhão, o coração do Alto Douro Vinhateiro, deparamo-nos com um movimento algo inesperado de turistas que aqui chegam por diversos meios: autocarro, comboio, barco e, claro, também de automóvel… Visitamos a estação e admiramos os magníficos painéis de azulejos que representam a paisagem e a vida das gentes destas terras durienses – as vinhas, a vindima, a pisa das uvas, os barcos rabelos…

 

A chegada ao miradouro de São Salvador do Mundo acontece após o almoço. Daqui observamos o vale do Rio Douro com as suas enormes encostas escarpadas, as suas vinhas a perder de vista e, ao fundo, a Barragem da Valeira. Aqui existia, antes da construção da barragem, o famoso Cachão da Valeira, o obstáculo mais difícil para os barcos Rabelos que transportavam as pipas de vinho para as caves, em Vila Nova de Gaia. A história relata-nos vários naufrágios neste ponto do rio, como aquele que vitimou o escocês Barão de Forrester, um estudioso e grande amigo do Douro, em 1861, numa viagem com D. Antónia Adelaide Ferreira. Facto ou lenda, diz-se que a Ferreirinha se salvou porque as suas saias se comportaram como um balão e a ajudaram a flutuar até à margem do rio, enquanto que o barão foi arrastado para o fundo devido ao peso das moedas de ouro que levava no seu cinto…

 

Luís Filipe M.Anjos

Leiria, agosto de 2019

 

13
Mar20

Vivências

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Subir para cima da secretária

 

Na última cena do filme “O Clube dos Poetas Mortos” os alunos do Professor Keating, um a um, levantam-se, sobem para cima das suas secretárias, e com “Oh Captain, my Captain!” - certamente uma das frases mais célebres do mundo do cinema - agradecem ao controverso Professor que os deixa depois de ter sido afastado pela Direção do Colégio. Mas este ato de subir para cima da secretária ocorre primeiramente numa outra cena do filme, quando o Professor Keating, a meio de uma aula sobre Shakspeare, surpreende a turma e, lá do alto da sua secretária, pergunta aos seus alunos:

 

- “Por que razão subi aqui para cima?”

 

- “Para se sentir mais alto…” – responde um deles.

 

- “Eu subi para cima da secretária para me lembrar que devemos olhar constantemente para as coisas de uma forma diferente… O mundo parece muito diferente visto daqui. Não acreditam? Venham ver…”.

 

E, então, os alunos, cada vez mais surpreendidos, aceitam o convite e sobem, também eles, para cima da secretária do Professor para terem o mesmo ponto de vista dele…

 

Subir para cima da secretária.png

 

Saber mudar de perspetiva. É isto que muitas vezes nos falta na vida do dia-a-dia, em casa, no trabalho, na escola, nas relações com os outros e, sobretudo, perante as adversidades que nos surgem… Somos tão convencionais no pensamento e tão inflexíveis que perdemos a capacidade de mudar o nosso ponto de vista, perdemos a capacidade de olhar para a mesma realidade de um outro ângulo, de cima, de baixo, de lado, de mais longe (para ver toda a envolvente), de mais perto (para ver mais em pormenor), seja como for… apenas de um outro ângulo… E, depois, quando o conseguimos, quer seja após um esforço intencional ou simplesmente porque aconteceu, vemos que tudo parece, de repente, ter novos contornos, como se a realidade tivesse mudado, quando, na verdade, a única mudança que ocorreu foi em nós, na nossa perspetiva…

 

Então, por que não, de vez em quando, subir para cima da secretária?

 

Luís dos Anjos

 

13
Fev20

Vivências

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A luz ao fundo do túnel… ou o comboio?

 

Passados todos estes anos já não consigo particularizar a situação em concreto, mas recordo-me que foi numa conferência ou seminário, ainda nos meus tempos de estudante, no Porto, que ouvi um orador um pouco menos convencional do que os demais explicar de uma forma engraçada a diferença entre um otimista e um pessimista. Ambos estão a caminhar no interior de um túnel há já muito tempo quando a certa altura começam a ver uma luz ao fundo. O otimista reage euforicamente, começa a correr e exclama que finalmente já vê a luz ao fundo do túnel. O pessimista agarra-o e diz-lhe para fugirem em sentido contrário, pois o mais certo é ser um comboio que vem em direção a eles!

 

A luz ao fundo do túnel… ou o comboio? O copo com água até meio está meio cheio… ou meio vazio? Em quase tudo na vida há duas maneiras (às vezes, até mais…) de ver as coisas e temos sempre a liberdade de escolher uma visão mais positiva ou mais negativa para avaliar uma determinada situação. A verdade, no entanto, é que no nosso dia-a-dia tendemos quase sempre a ver o lado mais cinzento (para não dizer negro) da realidade. Dir-me-ão que as notícias que os meios de comunicação social difundem (orientadas muitas vezes, ou quase sempre, pelas audiências) não ajudam. Dir-me-ão também que as redes sociais “apanham” e amplificam exponencialmente todas as situações menos agradáveis da realidade, levando-as a níveis por vezes inimagináveis. Tudo isto é, lamentavelmente, verdade e não o podemos esconder. Mas também não nos podemos deixar vencer por essa visão pessimista. É preciso acreditar sempre, não permitir nunca a queda no comodismo e na resignação, pois se nos deixarmos dominar pelas circunstâncias teremos certamente maior dificuldade em ultrapassar os obstáculos. E a verdade é que aconteça o que acontecer o mundo continuará a girar e os nossos filhos continuarão a contar connosco para o seu futuro!

 

Luís dos Anjos

 

 

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