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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Nov19

Vivências

1996

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1996

 

Estamos no último ano da Universidade. Já se passaram cinco anos desde que gritámos “Entrei” ao ver o nosso nome e o nome de um curso nas listas afixadas naquele minúsculo Gabinete Coordenador do Ingresso no Ensino Superior, em Vila Real.

 

Ao longo destes últimos anos muita coisa mudou na nossa vida. Deixámos a cidade que nos viu nascer, ficámos mais longe dos amigos de sempre, mas ganhámos outros que também nos acompanharão pela vida fora. Alargámos horizontes. Assistimos a centenas de aulas - entusiasmantes, algumas, aborrecidas, outras. Adquirimos conhecimentos que nos ajudarão a ser bons profissionais, e outros que rapidamente iremos esquecer e que nem entenderemos nunca por que razão constavam dos programas. Passámos dias inteiros na biblioteca, fotocopiámos sebentas, apontamentos e livros que depois nem lemos, fizemos dezenas de trabalhos de grupo e discutimos por causa de alguns.

 

Aprendemos também muito fora das salas de aula: uma nova cidade, novas rotinas, novas caras, praxes, Queima das Fitas, festas, bons filmes no cinema e, principalmente, muitas horas de conversas, de desabafos, muitas alegrias e algumas tristezas. Crescemos muito, mas o mundo que conhecíamos cresceu ainda mais do que nós.

 

O fim do ano aproxima-se e já nos sentimos com o “canudo” na mão, mas também já sentimos saudades destes tempos que vamos deixar para trás. A tuna canta “Quero ficar sempre estudante”, mas sabemos que não é possível. Segue-se o mundo do trabalho, uma nova etapa, com as suas responsabilidades e as suas exigências. Percorremos os jornais, falamos com professores, vamos a agências de trabalho temporário, ouvimos rumores de estágios aqui ou ali e vamos à procura de informação… Não temos Internet nem sequer um telemóvel na palma da mão, mas não nos falta o entusiasmo nem a vontade firme de agarrar o futuro.

 

  1. A vida de estudante está a chegar ao fim. Apesar das dúvidas, não temos medo. Todos temos a certeza que vamos conseguir, mas não imaginamos onde vamos estar em 2020...

 

Luís dos Anjos

 

 

 

11
Out19

Vivências

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1990

 

Estamos no 12º ano, na Escola Secundária Dr. Júlio Martins, mas que ainda é conhecida como “Técnica”, consequência da sua longa tradição no ensino técnico, como o comprovam as várias oficinas existentes. Estamos a terminar o secundário e é o segundo ano de existência da famosa PGA (Prova Geral de Acesso) que irá contar para a entrada no Ensino Superior e que todos fazemos, mesmo sem termos certezas quanto ao que vamos decidir no futuro. A prova é de cultura geral. Preparamo-nos para temas da atualidade, como a “Perestroika” de  Mikhail Gorbachev, a CEE, os problemas ecológicos, o mundo em mudança, mas sai-nos José Régio com um texto sobre a importância de saber ler para lá das palavras.

 

Em casa temos apenas a RTP e mais alguns canais espanhóis para ver. Ainda não existem a SIC nem a TVI, mas a maioria de nós (pelo menos na cidade) já tem telefone fixo. À sexta-feira à noite e ao fim de semana é hábito sair e ir até à cidade. Ainda não existem telemóveis nem Facebook, mas tudo se combina com uma tremenda simplicidade (às vezes até com dias de antecedência) e, à hora marcada, mais atraso, menos atraso, a malta aparece no “Espelho”, no “Jennifer’s” ou no “Sétima Arte”… Conversa-se, toma-se um café ou bebe-se um copo, sem toques de telemóveis nem ninguém alheio da conversa a olhar para o smartphone… Daqui, alguns seguem para uma noite mais animada numa discoteca, outros regressam a casa, a pé, com as conversas a continuarem pelo caminho (das Caldas até Santa Cruz são cerca de quatro quilómetros que não assustam). De vez em quando arranja-se uma boleia com alguém mais velho que já tem carro ou que conseguiu convencer o pai a emprestar-lhe o dele.

 

1990.Temos 18 ou 19 anos e começamos a sentir o futuro nas nossas mãos. Muitos de nós sonham com a entrada na Universidade, outros pensam na tropa e na possibilidade de por lá ficarem, outros, já fartos dos livros, pensam apenas em começar a trabalhar… Todos acreditamos que ainda vamos mudar o mundo… (e vamos, mas não da forma como pensávamos). Nenhum de nós imagina onde vai estar em 2020...

 

Luís dos Anjos

 

13
Set19

Vivências

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1982

 

Estamos no 5º ano, naquela que é hoje a Escola E.B. 2,3 Nadir Afonso, mas que naquela altura era apenas conhecida como “Ciclo”. Ainda somos “putos”, mas já vamos a pé para a escola, e somos muitos, vindos dos lados de Santa Cruz e do Bairro da Quintela. Não há passeios nem estradas alcatroadas, mas sim pó, no verão, e lama e charcos de água, no inverno. Mais ou menos a meio caminho, na zona da oficina do “Joaquim das Molas”, para encurtar distâncias, atalhamos por um carreiro pela berma de um campo de cultivo e nem mesmo a falta de iluminação no regresso a casa, já noite nos dias de inverno, nos faz alterar o caminho. Na zona do estádio passamos por uma estrada que já não existe, entre a muralha do Forte de São Neutel e o campo de treinos do “Chaves”. Demoramos cerca de meia hora a caminhar, mas ninguém se queixa…

 

Na escola, quando um professor falta temos um “furo” - não há aulas de substituição - e, então, jogamos à bola num dos campos ou num qualquer outro espaço improvisado. Alguns, mais destemidos (nos quais me incluí também algumas vezes…), saem da escola, percorrem as redondezas e até vão explorar um terreno de mimosas, junto à muralha do Forte de São Francisco, onde constroem cabanas e inventam aventuras… No quiosque, entre o “Ciclo” e a “Técnica”, um Cornetto custa 30$00 (0,15 €…), mas muitas das vezes não temos dinheiro que chegue e acabamos por comprar um Fizz, que custa 15$00, ou um simples gelado de gelo, que custa 7$50…

 

Em casa, na televisão, temos a RTP 1 e uns dois ou três canais espanhóis. Não temos TV cabo, nem Internet, nem telemóvel, nem qualquer consola de jogos, mas como ainda não sabemos o que isso é, também não sentimos a sua falta… Aliás, precisamente por não termos nada disso, passamos mais tempo na rua do que em casa (ao contrário dos “putos” de hoje) e, por norma, só regressamos quando nos chamam (várias vezes) para almoçar ou jantar.

 

Temos 10 ou 11 anos, somos felizes, não temos ainda planos para a vida e nem imaginamos onde vamos estar em 2020…

 

Luís dos Anjos

 

 

09
Ago19

Vivências

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"Salam alaykum"

 

Agosto de 2018. Aterrámos em Oujda, após pouco mais de uma hora de viagem, e seguimos agora de autocarro em direção à costa do Mediterrâneo, no extremo nordeste de Marrocos. A viagem demora cerca de uma hora e o nosso guia, simpático e muito prestável, vai-nos transmitindo algumas informações sobre o que nos espera nos próximos dias e também sobre o país que escolhemos como destino de férias. Não fala nem Português nem Espanhol, antes uma mistura das duas línguas, mas entendemo-lo perfeitamente.

 

Marrocos é a nossa primeira viagem para fora da Europa. Comparativamente, estamos pouco mais longe do que Madrid - e bem mais perto do que Paris, por exemplo - mas as diferenças são muito mais notórias, a todos os níveis. Por aqui fala-se Árabe, mas também Francês, e logo que saímos do aeroporto surpreendem-nos as inscrições por toda a parte nestas duas línguas em simultâneo, desde as placas de sinalização rodoviária até aos placards publicitários, o que se explica pela influência da presença francesa nesta região até à década de 50 do século passado.

 

"Salam alaykum" – é assim que o nosso guia nos ensina como se deve cumprimentar em Árabe. Traduzindo para Português significa “Que a paz esteja contigo”. Na resposta, a outra pessoa deve dizer "Alaykum salam", ou seja, “Que a paz esteja contigo, também”. Entre amigos e familiares mais próximos a saudação pode ser apenas “Salam”, que significa “Paz”. Em qualquer uma das formas temos a referência à paz, um bem que os Marroquinos muito prezam.

 

Nos dias seguintes não aprendemos muitas mais palavras árabes, mas surpreendemo-nos com os mercados e a forma como se compra e vende de tudo, em todo o lado; deliciamo-nos com os sabores requintados das tajines e do couscous; percebemos o porquê de as mulheres usarem burka, inclusive na praia, e mesmo dentro de água… No fim, no regresso a casa, sentimos que voltamos um pouco mais ricos por tudo aquilo que vivenciamos. Por isso, só nos resta dizer “Shukran!” (obrigado!).

 

Luís Filipe M. Anjos

Leiria, agosto de 2018

 

12
Jul19

Vivências

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O meu Facebook

 

Em junho de 2010 escrevi um texto intitulado “Um dia destes ainda adiro ao Facebook…”. E acabei mesmo por aderir algum tempo depois, tranquilamente e sem exageradas euforias, muito mais tarde do que outros da minha geração, que se apressaram a entrar nesta era das redes sociais com medo de perder sabe-se lá o quê, mas ainda muito a tempo... Dizia eu nessa altura que quando aderisse ao Facebook seria para cultivar as amizades que tenho - e que muito prezo - e nunca para substituir o que de melhor temos na vida: as relações humanas, cara a cara, olhos nos olhos, porque nenhuma rede social, por mais fantástica que seja, substituirá jamais uma boa conversa numa mesa de café ou um almoço lá em casa, com amigos reais…

 

Hoje, passados quase 10 anos, mantenho a mesma ideia. Utilizo o Facebook para contactar com quem está longe, para reencontrar alguns amigos que a vida levou para outras paragens, para divulgar as minhas publicações e nada mais… Não publico fotografias minhas nem das festas de fim de ano da escola das minhas filhas, nem das férias que fizemos no verão, nem tão-pouco dos sítios onde estou a cada instante, seja no restaurante mais chique da zona ou na sala de espera do dentista… Também não atualizo a minha foto de perfil todas as semanas como alguns fazem (já agora, com que frequência se deve atualizar?) nem ligo à irritante pergunta “Em que estás a pensar, Luís?” que insiste em surgir quando entro na aplicação e que fica ali à espera de uma resposta minha…

 

Por vezes, alguns amigos meus mais ativos nestas andanças estranham e perguntam-me por que não faço mais publicações ou não procuro adicionar mais amigos (isto de adicionar amigos só porque sim é do mais fácil que há). Na verdade, por uma única razão: não sinto essa necessidade, pelo menos por agora… E como me sinto bem assim, este vai continuar a ser “o meu Facebook”…

 

Luís Filipe M.Anjos

Leiria, junho de 2019



 

14
Jun19

Vivências

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Conseguiríamos hoje?

 

 

Estamos a 1000 metros de altitude, algures entre as serras da Arada e de São Macário, no limite dos distritos de Aveiro e Viseu. Nos últimos quilómetros da nossa viagem percorremos a A25, a EN 16, a EN 227, a R326 e agora o CM1123, uma estrada que já não é nem nacional nem regional… Deixamos para trás o país das autoestradas, percorrido a grande velocidade, como quem tem sempre pressa em chegar a algum lado, e estamos agora em pleno país rural, onde a estrada, estreita, sinuosa e com mau piso, nos obriga a ir devagar e a apreciar a paisagem. E a paisagem, aqui no topo destas serras, é deslumbrante!

 

A estrada segue em direção ao Santuário de São Macário, e por aqui também se pode chegar até aos Passadiços do Paiva - certamente um dos caminhos mais improváveis para lá chegar… Entretanto, deixamos a estrada num corte à esquerda e o alcatrão termina logo ali para dar lugar a um estradão de terra e pedras. Seguimos mais alguns metros de carro e depois estacionamos e continuamos a pé por uma descida acentuada que se estende por quase três quilómetros.

 

Gourim 3.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

Chegamos, então, a Gourim, uma aldeia abandonada, perdida no fundo dum vale, mas que em tempos teve vida, graças à agricultura, à pastorícia e, sobretudo, à exploração de volfrâmio. Hoje, a única atividade que por aqui existe é a de um pequeno espaço de turismo rural que promove diversas atividades na área do desenvolvimento pessoal, tais como yoga ou meditação, para quem procura, por umas horas ou uns dias, fugir à azáfama da cidade…

 

Gourim 5.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

O silêncio e a beleza da paisagem imperam para onde quer que olhemos e inspiram-nos. Estamos longe de tudo e de todos e sentimos que aqui teríamos tempo para tudo: passear, ler um livro, escrever, meditar, ouvir música... Mas, se tivesse mesmo de ser… Se tivéssemos mesmo de viver hoje aqui, como viveram as sucessivas gerações desta aldeia, sem água canalizada, eletricidade, transportes, televisão ou Internet, apenas com a natureza e a nossa vontade… Conseguiríamos?

 

Luís Filipe M. Anjos

Setembro de 2017

 

 

15
Mai19

Vivências

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Mudar de paisagem

 

Não há nenhuma indicação no local, nem sequer vem assinalado nos mapas ou nas aplicações de GPS, mas, viajando de norte para sul, pela A1, há um ponto a partir do qual percebemos que deixamos o norte e entramos no sul: a Serra de Aire e Candeeiros, a seguir à passagem por Minde, poucos quilómetros depois de Fátima. Aqui, mais ou menos a meio da descida, o horizonte alarga-se à nossa frente e vislumbramos uma paisagem completamente diferente… Ainda não chegamos lá, mas já se percebe que estamos claramente mais perto do Alentejo do que do Minho ou das Beiras.

 

Estamos em julho de 2014, são dez da manhã, e vamos a caminho de Alvito, uma pequena localidade a meio caminho entre Évora e Beja. A viagem prossegue, cruzamos o rio Tejo em Santarém, almoçamos em Évora e chegamos a Alvito ao início da tarde. Nos dias que se seguem, instalados numa agradável unidade de turismo rural, nas proximidades da vila, não vemos serras nem vales, mas sim planícies e uma ou outra pequena elevação. Pessoalmente, não sou um grande apreciador destas paisagens. Habituei-me a ver a Serra do Brunheiro, a Serra do Larouco, as curvas do Reigaz e, claro, o Marão… Por isso mesmo, gosto mais do verde das montanhas e do cinzento das fragas do que destes tons dourados e secos.

 

Mas sabe bem mudar de ares e de paisagens, até porque acredito que isso também nos ajuda a ver as coisas com outros olhos, com outra perspetiva. No norte e no centro, temos montanhas e vales, subidas e descidas, estradas com curvas e contracurvas, como que a lembrar-nos que a vida é uma caminhada sinuosa, com muitos altos e baixos… Em contrapartida, no sul, temos planícies de vista desafogada, como que a lembrar-nos que é também possível descobrir horizontes mais largos, ver mais longe e, sobretudo, ver mais à nossa volta…

 

É assim no nosso país, e é também assim na nossa vida…

 

Luís dos Anjos

 

12
Abr19

Vivências - O Centenário da "Técnica"

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O centenário da “Técnica”

 

A Escola Secundária Dr. Júlio Martins celebra este ano o seu centenário. Em 100 anos de vida cabem milhares de histórias, vivências e peripécias, tantas quantas o número de alunos, professores e funcionários, tantas quantas as aulas, as visitas de estudo e as mais variadas atividades realizadas. A “Júlio Martins” também foi a minha escola do 7º ao 12º ano, entre 1984 e 1990, mas, à semelhança de todos os meus colegas, dizia sempre que andava na “Técnica”, pois era assim que a escola era conhecida, consequência da sua longa tradição no ensino técnico.

 

Turma 12º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

Da minha passagem pela “Técnica” recordo, no 7º e 8º ano, as aulas de Trabalhos Manuais (ou oficinais, já não sei bem como eram designados…) – Têxteis, Madeiras, Eletrotecnia, Mecânica, Secretariado… - onde íamos experimentando um pouco de cada área à procura de gostos e vocações. Depois, no 9º ano, a opção pela área de Administração e Comércio, uma das mais frequentadas da escola. Finalmente, no Secundário, a frequência do Técnico Profissional de Secretariado, no primeiro ano de funcionamento do curso na escola. Uma turma pequena, muito unida, e um grupo de professores dinâmicos e empenhados que procuravam acompanhar e envolver-nos na evolução do mundo e das tecnologias. Nas aulas práticas continuávamos a aprender datilografia com as teclas da máquina de escrever tapadas com quadradinhos de fita-cola preta, mas já tínhamos ao mesmo tempo informática numa sala recentemente equipada com computadores Amstrad 1512 (com dois drives de diskettes de 5 ¼” e sem disco rígido!), onde elaborávamos relatórios num processador de texto fantástico (naquela altura) chamado “Tasword”…

 

Turma 12º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

Hoje, a “Técnica” já não é a mesma que conheci, nem poderia ser – cresceu, modernizou-se, tornou-se sede de agrupamento. A última vez que lá entrei foi há já largos anos, ainda antes da profunda remodelação que sofreu. Vejo que está muito diferente quando lá passo, sempre que vou a Chaves. Apenas as memórias continuam as mesmas… as minhas e certamente as de todos aqueles que por lá passaram…

Luís Filipe M. Anjos

Abril 2019

 

 

08
Mar19

Vivências - Serralves

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Serralves

 

As fotografias que ilustram esta crónica são enganadoras. Não estamos no campo nem em nenhuma quinta de turismo rural. Estamos no centro do Porto, mais concretamente na Fundação de Serralves, a não mais do que uns 200 ou 300 metros da Avenida da Boavista, um espaço que eu já conheço desde os meus tempos de estudante na Invicta, no início dos anos 90, e que agora, em família, revisitamos mais uma vez.

 

Serralves 1.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

A Fundação de Serralves foi criada em 1989, mas a origem deste espaço remonta a 1923 quando Carlos Alberto Cabral, 2º Conde de Vizela, herdou a Quinta do Lordelo, uma propriedade de veraneio da família situada, na altura, nos arredores da cidade e que foi sendo ampliada com a aquisição de terrenos adjacentes, atingindo nos anos seguintes uma área de 18 hectares. Hoje, aquilo que genericamente designamos por Fundação de Serralves integra, na verdade, vários espaços distintos: a Casa de Serralves, um exemplar único da arquitetura Art Déco dos anos 30 do século passado; o Museu de Serralves, o mais importante museu de arte contemporânea em Portugal, autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, inaugurado em 1999; e o Parque propriamente dito, com uma grande diversidade de plantas e árvores, tanto de origem autóctone como exótica, que proporciona uma oportunidade privilegiada para, em pleno centro da cidade, estar com contacto com a natureza.

 

Serralves 2.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

Optamos por comprar bilhetes apenas para a visita ao Parque, deixando o Museu para uma próxima oportunidade. Seguimos por um dos muitos caminhos possíveis, percorremos magníficos jardins harmoniosamente interligados entre si, passamos pelo lago e pela mata, até que chegamos ao grande prado, onde encontramos vários animais em liberdade e, finalmente, à horta pedagógica. Desfrutamos da beleza do local, do silêncio, da harmonia com a natureza. Pelo caminho, observamos ainda várias esculturas da Coleção da Fundação de Serralves expostas em permanência no exterior numa espécie de museu ao ar livre. É, sem dúvida, um espaço que merece ser visitado!

 

A tarde avança e ainda nos restam duas horas de viagem até casa. Iniciamos o caminho de regresso ao carro e esperamos voltar em breve.

 

Luís dos Anjos

 

08
Fev19

Vivências

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Profissão: eterno consumidor

 

 

Sem que nada façamos para isso, somos diariamente bombardeados com dezenas, senão mesmo centenas, de mensagens publicitárias (umas claramente explícitas, outras mais subtis) e, a menos que andemos permanentemente com os olhos e os ouvidos fechados, pouco ou nada podemos fazer para o evitar. Os apelos ao consumo há muito que deixaram de ser veiculados pelos meios tradicionais, como a rádio, a televisão, os jornais e as revistas, e assumem hoje formas extremamente diversificadas e criativas: outdoor’s nas ruas, paragens de autocarro, degraus de escadas nas estações de comboio e metro, terminais Multibanco, páginas da Internet, e-mail’s, SMS’s…

 

Mas o principal objetivo das empresas já não é apenas a produção de bens ou a prestação de serviços que satisfaçam as necessidades dos seus clientes. O principal objetivo, hoje em dia, é encontrar uma forma de transformar os seus clientes em eternos consumidores. E para lograr este objetivo existem duas vias possíveis: a obsolescência programada e a obsolescência percebida, duas expressões que podem soar estranhamente, mas cujo significado é facilmente percebido numa pequena explicação.

 

A obsolescência programada mais não é do que uma filosofia de projeto e construção de bens para uma determinada vida útil (de preferência, não muito longa), tornando-se de seguida obsoletos e de reparação difícil ou economicamente pouco ou nada vantajosa (já todos nós quisemos reparar um pequeno eletrodoméstico avariado e acabámos por comprar um novo, por ser mais barato). Mas, ainda que os produtos continuem funcionais, o contínuo lançamento de novos produtos, com novo design, novas caraterísticas ou novas funcionalidades (a maioria das vezes de uma relativa relevância) cria igualmente em nós uma sensação de obsolescência do nosso produto – a obsolescência percebida – levando-nos, a pouco e pouco, à convicção da necessidade de o substituirmos.

 

E assim, de uma forma ou de outra, vemo-nos à mercê dos grandes interesses comerciais e tornamo-nos eternos consumidores… ainda que tentemos resistir…

 

Luís dos Anjos

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