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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Ago19

Vivências

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"Salam alaykum"

 

Agosto de 2018. Aterrámos em Oujda, após pouco mais de uma hora de viagem, e seguimos agora de autocarro em direção à costa do Mediterrâneo, no extremo nordeste de Marrocos. A viagem demora cerca de uma hora e o nosso guia, simpático e muito prestável, vai-nos transmitindo algumas informações sobre o que nos espera nos próximos dias e também sobre o país que escolhemos como destino de férias. Não fala nem Português nem Espanhol, antes uma mistura das duas línguas, mas entendemo-lo perfeitamente.

 

Marrocos é a nossa primeira viagem para fora da Europa. Comparativamente, estamos pouco mais longe do que Madrid - e bem mais perto do que Paris, por exemplo - mas as diferenças são muito mais notórias, a todos os níveis. Por aqui fala-se Árabe, mas também Francês, e logo que saímos do aeroporto surpreendem-nos as inscrições por toda a parte nestas duas línguas em simultâneo, desde as placas de sinalização rodoviária até aos placards publicitários, o que se explica pela influência da presença francesa nesta região até à década de 50 do século passado.

 

"Salam alaykum" – é assim que o nosso guia nos ensina como se deve cumprimentar em Árabe. Traduzindo para Português significa “Que a paz esteja contigo”. Na resposta, a outra pessoa deve dizer "Alaykum salam", ou seja, “Que a paz esteja contigo, também”. Entre amigos e familiares mais próximos a saudação pode ser apenas “Salam”, que significa “Paz”. Em qualquer uma das formas temos a referência à paz, um bem que os Marroquinos muito prezam.

 

Nos dias seguintes não aprendemos muitas mais palavras árabes, mas surpreendemo-nos com os mercados e a forma como se compra e vende de tudo, em todo o lado; deliciamo-nos com os sabores requintados das tajines e do couscous; percebemos o porquê de as mulheres usarem burka, inclusive na praia, e mesmo dentro de água… No fim, no regresso a casa, sentimos que voltamos um pouco mais ricos por tudo aquilo que vivenciamos. Por isso, só nos resta dizer “Shukran!” (obrigado!).

 

Luís Filipe M. Anjos

Leiria, agosto de 2018

 

12
Jul19

Vivências

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O meu Facebook

 

Em junho de 2010 escrevi um texto intitulado “Um dia destes ainda adiro ao Facebook…”. E acabei mesmo por aderir algum tempo depois, tranquilamente e sem exageradas euforias, muito mais tarde do que outros da minha geração, que se apressaram a entrar nesta era das redes sociais com medo de perder sabe-se lá o quê, mas ainda muito a tempo... Dizia eu nessa altura que quando aderisse ao Facebook seria para cultivar as amizades que tenho - e que muito prezo - e nunca para substituir o que de melhor temos na vida: as relações humanas, cara a cara, olhos nos olhos, porque nenhuma rede social, por mais fantástica que seja, substituirá jamais uma boa conversa numa mesa de café ou um almoço lá em casa, com amigos reais…

 

Hoje, passados quase 10 anos, mantenho a mesma ideia. Utilizo o Facebook para contactar com quem está longe, para reencontrar alguns amigos que a vida levou para outras paragens, para divulgar as minhas publicações e nada mais… Não publico fotografias minhas nem das festas de fim de ano da escola das minhas filhas, nem das férias que fizemos no verão, nem tão-pouco dos sítios onde estou a cada instante, seja no restaurante mais chique da zona ou na sala de espera do dentista… Também não atualizo a minha foto de perfil todas as semanas como alguns fazem (já agora, com que frequência se deve atualizar?) nem ligo à irritante pergunta “Em que estás a pensar, Luís?” que insiste em surgir quando entro na aplicação e que fica ali à espera de uma resposta minha…

 

Por vezes, alguns amigos meus mais ativos nestas andanças estranham e perguntam-me por que não faço mais publicações ou não procuro adicionar mais amigos (isto de adicionar amigos só porque sim é do mais fácil que há). Na verdade, por uma única razão: não sinto essa necessidade, pelo menos por agora… E como me sinto bem assim, este vai continuar a ser “o meu Facebook”…

 

Luís Filipe M.Anjos

Leiria, junho de 2019



 

14
Jun19

Vivências

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Conseguiríamos hoje?

 

 

Estamos a 1000 metros de altitude, algures entre as serras da Arada e de São Macário, no limite dos distritos de Aveiro e Viseu. Nos últimos quilómetros da nossa viagem percorremos a A25, a EN 16, a EN 227, a R326 e agora o CM1123, uma estrada que já não é nem nacional nem regional… Deixamos para trás o país das autoestradas, percorrido a grande velocidade, como quem tem sempre pressa em chegar a algum lado, e estamos agora em pleno país rural, onde a estrada, estreita, sinuosa e com mau piso, nos obriga a ir devagar e a apreciar a paisagem. E a paisagem, aqui no topo destas serras, é deslumbrante!

 

A estrada segue em direção ao Santuário de São Macário, e por aqui também se pode chegar até aos Passadiços do Paiva - certamente um dos caminhos mais improváveis para lá chegar… Entretanto, deixamos a estrada num corte à esquerda e o alcatrão termina logo ali para dar lugar a um estradão de terra e pedras. Seguimos mais alguns metros de carro e depois estacionamos e continuamos a pé por uma descida acentuada que se estende por quase três quilómetros.

 

Gourim 3.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

Chegamos, então, a Gourim, uma aldeia abandonada, perdida no fundo dum vale, mas que em tempos teve vida, graças à agricultura, à pastorícia e, sobretudo, à exploração de volfrâmio. Hoje, a única atividade que por aqui existe é a de um pequeno espaço de turismo rural que promove diversas atividades na área do desenvolvimento pessoal, tais como yoga ou meditação, para quem procura, por umas horas ou uns dias, fugir à azáfama da cidade…

 

Gourim 5.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

O silêncio e a beleza da paisagem imperam para onde quer que olhemos e inspiram-nos. Estamos longe de tudo e de todos e sentimos que aqui teríamos tempo para tudo: passear, ler um livro, escrever, meditar, ouvir música... Mas, se tivesse mesmo de ser… Se tivéssemos mesmo de viver hoje aqui, como viveram as sucessivas gerações desta aldeia, sem água canalizada, eletricidade, transportes, televisão ou Internet, apenas com a natureza e a nossa vontade… Conseguiríamos?

 

Luís Filipe M. Anjos

Setembro de 2017

 

 

15
Mai19

Vivências

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Mudar de paisagem

 

Não há nenhuma indicação no local, nem sequer vem assinalado nos mapas ou nas aplicações de GPS, mas, viajando de norte para sul, pela A1, há um ponto a partir do qual percebemos que deixamos o norte e entramos no sul: a Serra de Aire e Candeeiros, a seguir à passagem por Minde, poucos quilómetros depois de Fátima. Aqui, mais ou menos a meio da descida, o horizonte alarga-se à nossa frente e vislumbramos uma paisagem completamente diferente… Ainda não chegamos lá, mas já se percebe que estamos claramente mais perto do Alentejo do que do Minho ou das Beiras.

 

Estamos em julho de 2014, são dez da manhã, e vamos a caminho de Alvito, uma pequena localidade a meio caminho entre Évora e Beja. A viagem prossegue, cruzamos o rio Tejo em Santarém, almoçamos em Évora e chegamos a Alvito ao início da tarde. Nos dias que se seguem, instalados numa agradável unidade de turismo rural, nas proximidades da vila, não vemos serras nem vales, mas sim planícies e uma ou outra pequena elevação. Pessoalmente, não sou um grande apreciador destas paisagens. Habituei-me a ver a Serra do Brunheiro, a Serra do Larouco, as curvas do Reigaz e, claro, o Marão… Por isso mesmo, gosto mais do verde das montanhas e do cinzento das fragas do que destes tons dourados e secos.

 

Mas sabe bem mudar de ares e de paisagens, até porque acredito que isso também nos ajuda a ver as coisas com outros olhos, com outra perspetiva. No norte e no centro, temos montanhas e vales, subidas e descidas, estradas com curvas e contracurvas, como que a lembrar-nos que a vida é uma caminhada sinuosa, com muitos altos e baixos… Em contrapartida, no sul, temos planícies de vista desafogada, como que a lembrar-nos que é também possível descobrir horizontes mais largos, ver mais longe e, sobretudo, ver mais à nossa volta…

 

É assim no nosso país, e é também assim na nossa vida…

 

Luís dos Anjos

 

12
Abr19

Vivências - O Centenário da "Técnica"

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O centenário da “Técnica”

 

A Escola Secundária Dr. Júlio Martins celebra este ano o seu centenário. Em 100 anos de vida cabem milhares de histórias, vivências e peripécias, tantas quantas o número de alunos, professores e funcionários, tantas quantas as aulas, as visitas de estudo e as mais variadas atividades realizadas. A “Júlio Martins” também foi a minha escola do 7º ao 12º ano, entre 1984 e 1990, mas, à semelhança de todos os meus colegas, dizia sempre que andava na “Técnica”, pois era assim que a escola era conhecida, consequência da sua longa tradição no ensino técnico.

 

Turma 12º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

Da minha passagem pela “Técnica” recordo, no 7º e 8º ano, as aulas de Trabalhos Manuais (ou oficinais, já não sei bem como eram designados…) – Têxteis, Madeiras, Eletrotecnia, Mecânica, Secretariado… - onde íamos experimentando um pouco de cada área à procura de gostos e vocações. Depois, no 9º ano, a opção pela área de Administração e Comércio, uma das mais frequentadas da escola. Finalmente, no Secundário, a frequência do Técnico Profissional de Secretariado, no primeiro ano de funcionamento do curso na escola. Uma turma pequena, muito unida, e um grupo de professores dinâmicos e empenhados que procuravam acompanhar e envolver-nos na evolução do mundo e das tecnologias. Nas aulas práticas continuávamos a aprender datilografia com as teclas da máquina de escrever tapadas com quadradinhos de fita-cola preta, mas já tínhamos ao mesmo tempo informática numa sala recentemente equipada com computadores Amstrad 1512 (com dois drives de diskettes de 5 ¼” e sem disco rígido!), onde elaborávamos relatórios num processador de texto fantástico (naquela altura) chamado “Tasword”…

 

Turma 12º D - Técnico Profissional de Secretaria

 

Hoje, a “Técnica” já não é a mesma que conheci, nem poderia ser – cresceu, modernizou-se, tornou-se sede de agrupamento. A última vez que lá entrei foi há já largos anos, ainda antes da profunda remodelação que sofreu. Vejo que está muito diferente quando lá passo, sempre que vou a Chaves. Apenas as memórias continuam as mesmas… as minhas e certamente as de todos aqueles que por lá passaram…

Luís Filipe M. Anjos

Abril 2019

 

 

08
Mar19

Vivências - Serralves

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Serralves

 

As fotografias que ilustram esta crónica são enganadoras. Não estamos no campo nem em nenhuma quinta de turismo rural. Estamos no centro do Porto, mais concretamente na Fundação de Serralves, a não mais do que uns 200 ou 300 metros da Avenida da Boavista, um espaço que eu já conheço desde os meus tempos de estudante na Invicta, no início dos anos 90, e que agora, em família, revisitamos mais uma vez.

 

Serralves 1.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

A Fundação de Serralves foi criada em 1989, mas a origem deste espaço remonta a 1923 quando Carlos Alberto Cabral, 2º Conde de Vizela, herdou a Quinta do Lordelo, uma propriedade de veraneio da família situada, na altura, nos arredores da cidade e que foi sendo ampliada com a aquisição de terrenos adjacentes, atingindo nos anos seguintes uma área de 18 hectares. Hoje, aquilo que genericamente designamos por Fundação de Serralves integra, na verdade, vários espaços distintos: a Casa de Serralves, um exemplar único da arquitetura Art Déco dos anos 30 do século passado; o Museu de Serralves, o mais importante museu de arte contemporânea em Portugal, autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, inaugurado em 1999; e o Parque propriamente dito, com uma grande diversidade de plantas e árvores, tanto de origem autóctone como exótica, que proporciona uma oportunidade privilegiada para, em pleno centro da cidade, estar com contacto com a natureza.

 

Serralves 2.JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

Optamos por comprar bilhetes apenas para a visita ao Parque, deixando o Museu para uma próxima oportunidade. Seguimos por um dos muitos caminhos possíveis, percorremos magníficos jardins harmoniosamente interligados entre si, passamos pelo lago e pela mata, até que chegamos ao grande prado, onde encontramos vários animais em liberdade e, finalmente, à horta pedagógica. Desfrutamos da beleza do local, do silêncio, da harmonia com a natureza. Pelo caminho, observamos ainda várias esculturas da Coleção da Fundação de Serralves expostas em permanência no exterior numa espécie de museu ao ar livre. É, sem dúvida, um espaço que merece ser visitado!

 

A tarde avança e ainda nos restam duas horas de viagem até casa. Iniciamos o caminho de regresso ao carro e esperamos voltar em breve.

 

Luís dos Anjos

 

08
Fev19

Vivências

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Profissão: eterno consumidor

 

 

Sem que nada façamos para isso, somos diariamente bombardeados com dezenas, senão mesmo centenas, de mensagens publicitárias (umas claramente explícitas, outras mais subtis) e, a menos que andemos permanentemente com os olhos e os ouvidos fechados, pouco ou nada podemos fazer para o evitar. Os apelos ao consumo há muito que deixaram de ser veiculados pelos meios tradicionais, como a rádio, a televisão, os jornais e as revistas, e assumem hoje formas extremamente diversificadas e criativas: outdoor’s nas ruas, paragens de autocarro, degraus de escadas nas estações de comboio e metro, terminais Multibanco, páginas da Internet, e-mail’s, SMS’s…

 

Mas o principal objetivo das empresas já não é apenas a produção de bens ou a prestação de serviços que satisfaçam as necessidades dos seus clientes. O principal objetivo, hoje em dia, é encontrar uma forma de transformar os seus clientes em eternos consumidores. E para lograr este objetivo existem duas vias possíveis: a obsolescência programada e a obsolescência percebida, duas expressões que podem soar estranhamente, mas cujo significado é facilmente percebido numa pequena explicação.

 

A obsolescência programada mais não é do que uma filosofia de projeto e construção de bens para uma determinada vida útil (de preferência, não muito longa), tornando-se de seguida obsoletos e de reparação difícil ou economicamente pouco ou nada vantajosa (já todos nós quisemos reparar um pequeno eletrodoméstico avariado e acabámos por comprar um novo, por ser mais barato). Mas, ainda que os produtos continuem funcionais, o contínuo lançamento de novos produtos, com novo design, novas caraterísticas ou novas funcionalidades (a maioria das vezes de uma relativa relevância) cria igualmente em nós uma sensação de obsolescência do nosso produto – a obsolescência percebida – levando-nos, a pouco e pouco, à convicção da necessidade de o substituirmos.

 

E assim, de uma forma ou de outra, vemo-nos à mercê dos grandes interesses comerciais e tornamo-nos eternos consumidores… ainda que tentemos resistir…

 

Luís dos Anjos

11
Jan19

Vivências na Galiza

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Vivências na Galiza

 

Dezembro de 2011. Aproveitando a vinda a Chaves para estar com a família no dia de Natal, e juntando-lhe mais uns dias de férias até ao final do ano, seguimos viagem para a Galiza. Saímos de manhã, com tempo chuvoso e, por isso mesmo, vamos andando calmamente. Em Ourense deixamos a A-52 e atravessamos a cidade para seguir na direção de Lugo, o nosso primeiro ponto de paragem. O rio que aqui passa é o Rio Miño, e aproveito para explicar à minha filha mais velha que é o mesmo rio que iremos voltar a cruzar quando entrarmos novamente em Portugal, dali a uns dias. Na cidade destacam-se as suas várias pontes de estilos muito diferentes, desde a Ponte Romana, no Centro Histórico, à Ponte do Milénio com a sua arquitetura futurista, à qual ninguém fica indiferente.

 

luis-anjos (1).JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

Almoçamos em Lugo e, no período da tarde, visitamos a parte antiga da cidade, no interior das muralhas romanas que se estendem por mais de dois quilómetros e sobre as quais é possível caminhar, desfrutando de uma vista ainda mais soberba sobre todo o casario. A chegada à Corunha acontece já pela hora do jantar e com algum cansaço das mais pequenas da família.

 

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Fotografia de Luís dos Anjos

Os dois dias que passamos na Corunha deixam-nos verdadeiramente encantados com a cidade. Saindo do hotel, começamos por percorrer um extenso jardim à beira mar, com estátuas e menires, que nos leva até à Torre de Hércules, um imponente farol de construção romana; depois, descemos pelo centro da cidade, por ruas e praças, e chegamos à Avenida da Mariña, onde admiramos as típicas fachadas com varandas de madeira e vidro, que deram à Corunha a designação de Cidade de Cristal. Numa vertente mais cultural visitamos o Aquário Finisterra, a Casa das Ciências e a Casa do Homem, três locais diferentes, mas igualmente interessantes para uma visita em família.

 

luis-anjos (3).JPG

Fotografia de Luís dos Anjos

No dia do regresso a casa esperam-nos quase 500 quilómetros, o que, com as inevitáveis paragens de quem viaja em família, se traduz praticamente num dia de viagem. Entramos em Portugal por Valença e, tal como prometido à minha filha, lá está o Rio Minho, por ali correndo serenamente há séculos, delimitando dois países…

 

Luís dos Anjos

 

 

14
Dez18

Vivências - Vidas Virtuais

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Vidas virtuais

 

  1. Num mundo ainda sem smartphones nem tablets, e com a Internet a dar os primeiros passos, os jogos online tal como hoje os conhecemos não existiam. Mas existia o “Tamagotchi”, um dispositivo eletrónico colorido, semelhante a um porta-chaves, que se levava para todo o lado no bolso das calças ou na mochila, com um pequeno écran onde, em animações extremamente rudimentares, “vivia” um animal de estimação virtual que tinha horas para comer, brincar, dormir e fazer “xixi”. Mais ainda, se não fosse devidamente “tratado” pelo seu dono, o bichinho podia mesmo acabar por “morrer”…

 

  1. O Tamagotchi “morreu”. A Internet generalizou-se há já alguns anos e com ela surgiram centenas de jogos online que simulam a vida real em praticamente tudo aquilo que possamos imaginar. É hoje possível (virtualmente) planear e construir cidades, comandar exércitos, gerir uma quinta, comprar e vender empresas, treinar um clube de futebol ou ser uma estrela de rock em permanente digressão…

 

Vinte anos separam estes dois momentos. Vinte anos de profundas mudanças a nível tecnológico, mas também a nível familiar, cultural e social, que nos obrigaram, como nunca no passado, a um esforço gigantesco de adaptação a novas realidades. Mas apesar de todas as mudanças continua a ser fácil encontrar um traço comum entre o Tamagotchi, o Farmville, o Second Life ou um qualquer outro jogo deste género. Todos eles são criados e têm sucesso (e viciam, em muitos casos) porque existe nas nossas sociedades uma massa imensa de insatisfeitos com a vida do dia-a-dia que procuram refúgio (diariamente, ou quase) a construir e a tratar de uma vida virtual, dentro de um pequeno écran em forma de retângulo, onde sabem que nada existe verdadeiramente – nem coisas, nem pessoas, nem sentimentos, nem emoções - mas onde tudo é sempre extremamente fácil, à distância apenas de uma meia dúzia de cliques…

 

 

09
Nov18

Vivências

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Estranho pequeno-almoço

 

Alvito. Julho de 2014. Estamos a passar uns dias de férias numa agradável unidade de turismo rural, bem no meio da típica paisagem alentejana. Mas a localização é irrelevante, pois a cena que presenciamos poderia certamente passar-se em qualquer outro local. Estamos a tomar o pequeno-almoço e numa mesa ao lado da nossa está um casal sensivelmente da nossa idade com um filho e uma filha, ambos adolescentes. Silêncio. O pai, entre pratos, talheres e chávenas, conseguiu encontrar espaço para o seu tablet e vai-se repartindo entre o pequeno-almoço e a atividade no tablet. O filho esqueceu-se da refeição e está agora empenhadíssimo num qualquer jogo, com os olhos fixos e os dedos movendo-se velozmente sobre o ecrã do seu smartphone. A filha ausentou-se por momentos e, para nosso espanto, regressa com um tablet nas mãos. Neste atípico quadro familiar apenas a mãe está verdadeiramente a tomar o pequeno-almoço… sozinha. Na nossa mesa falamos sobre o saboroso pão alentejano, comentamos a simpatia dos proprietários do espaço, trocamos opiniões sobre o que vamos fazer durante o dia… Na mesa ao lado, silêncio até ao fim da refeição.

 

De regresso ao nosso bungalow não deixamos de comentar este estranho episódio e, em jeito de brincadeira, digo que eles não falaram, mas, se calhar, comunicaram entre si via Internet, com os seus equipamentos… Obviamente que não o fizeram, e se o tivessem feito, então, a situação seria ainda mais surreal… Em termos abstratos, não me parece que haja nada de errado em estar de férias e consultar o e-mail pessoal (não o do emprego), navegar pelas páginas dos jornais online, jogar um jogo no telemóvel ou conversar com os amigos no Facebook. Mas será razoável e absolutamente necessário fazê-lo às nove da manhã, à mesa do pequeno-almoço, em família…?

 

Haja paciência!

 

Luìs dos Anjos

 

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