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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jun18

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – PRIMAVERA II

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Na frente da casa, a roseira-rubra abre o veludo de um botão numa rosa encarnada.


— A quem ofereces tu essa rosa, acabada de abrir? – pergunta-lhe uma borboleta-do-brejo, a bailar nas suas quatro asas.


— Ao teu olhar, que reteve a beleza de a descobrir! – responde a roseira-mãe, no perfume que lhe veste a folhagem.

 

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Aqui e além, repousam as casas na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemidas, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer. Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo. Gratas por terem vivido tanto e por tantas coisas terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias – que guardam dentro de si, como os livros. Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica! Construída de muitas vidas e de muitas histórias. Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas. Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que, por si, são igualmente amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.

 

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Mas a Primavera também lembra aos homens e às mulheres que as tarefas esperam para serem cumpridas. Que a terra não cessa de pedir o seu amanho e os animais a atenção de que necessitam. Agora, que o sol começou a subir no horizonte e os dias têm o tamanho das noites, é preciso prosseguir o trabalho nos campos. Porque os homens e as mulheres amam e respeitam a terra que cultivam. Conhecem-lhe os segredos. Satisfazem-lhe os pedidos. Deslumbram-se a cada nova sementeira. Assim, lá os temos, a fazer a monda dos cereais de Inverno. A sachar e a recolher as favas, as ervilhas, as batatas e as cebolas. A semear nas hortas os rábanos, os pimentos, as cenouras e o feijão. E ainda a salsa, os coentros e o tomilho. A plantar nos canteiros os gladíolos, as begónias, os malmequeres, os goivos e os girassóis. E a enxertar o azevinho, os lilases e as roseiras. Num trabalho constante, homens e mulheres recolhem o mel das colmeias. Mudam os enxames e substituem as abelhas-rainhas. Retiram os abrigos às cerejeiras, já sem receio das geadas. Engarrafam os vinhos nas adegas. Fazem cavas junto ao tronco das árvores para lhes dar a frescura apetecida.

 

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Quanto aos animais, também estes aguardam os seus cuidados. Por isso, vigiam a postura das galinhas nas capoeiras. Dão alimento verde às vacas nos currais. Engordam os bois e os leitões. Tratam dos coelhos, dos perus, dos patos e dos pombos. Levam ao pasto as cabras e as ovelhas. Começam a tosquia do gado, porque o calor já se faz anunciar. Numa tarefa infinda, que começa com os alvores da madrugada e só termina à tardinha, quando o sol se põe e o céu anuncia que a noite não tarda a chegar.

 

Soledade Martinho Costa
Do livro «Histórias que a Primavera me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

Fotografias de Fernando DC Ribeiro - Blog Chaves

 

 

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