Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Vilar de Nantes - Presente, tradição e o passado

28.05.16 | Fer.Ribeiro

1600-vilar-nantes (448)

 

Vilar de Nantes, aldeia e freguesia

 

O prometido é devido e cá estamos nós com Vilar de Nantes, a aldeia atual, as tradições que se vão mantendo e um pequeno regresso ao passado não muito longínquo mas bem diferente dos tempos de hoje, muito graças à proximidade da cidade em que a freguesia ainda rural de outrora localizada nas faldas da Serra do Brunheiro,  cedeu para uma freguesia urbana de periferia, funcionando maioritariamente como um dormitório da cidade. Daí contrariar a tendência do despovoamento e envelhecimento da população de que a maioria das aldeias sofrem, sendo uma das freguesias mais populosas da cidade, a terceira mais populosa logo a seguir às freguesias urbanas de  Stª Maria Maior e Stª Cruz Trindade.

 

A tradição

 

1600-corpo-deus-16 (115)

 

E se a freguesia de Vilar de Nantes cresceu, sobretudo com a construção de novos bairros (Traslar, Bairro de S.José, Lombo, Cruzeiro) com gente oriunda de outras freguesias, manteve nas suas duas aldeias (Nantes e Vilar de Nantes) os seus núcleos históricos com a sua gente de origem, a mesma que ainda vai dando continuação às tradições, sobretudo as que estão ligadas à religião e suas celebrações, como aconteceu há dois dias atrás com o Corpo de Deus e o enfeitar das ruas com passadeiras floridas.

 

1600-corpo-deus-16 (320)

 

São dessas passadeiras floridas que hoje vamos dar conta, onde em cada rua ou largo fica a sua decoração por conta dos residentes nessas ruas e largos, cada uma a querer mostrar a sua arte numa rivalidade saudável de contribuir para o todo da celebração.

 

1600-corpo-deus-16 (210)

 

São verdadeiras obras de arte feita de pétalas de flores da época em que o colorido vivo dos amarelos, laranjas  e vermelhos ou a brancura de outras contrastam  com os verdes escuros da folhagem. Um trabalho coletivo, comunitário de muitas horas de trabalho que vai desde a recolha das flores, a separação das pétalas, a feitura dos desenhos aquando na sua colocação no chão, a rega para as manter frescas e viçosas além de lhe dar um certo brilho, onde todos, ou quase todos, trabalham, desde as crianças, mulheres e homens.

 

1600-corpo-deus-16 (104)

 

Uma arte efémera pois é realizada para durar apenas uns minutos, os suficientes para receber os passos da procissão que à sua passagem deixam as passadeiras coloridas desfeitas, mas gratificante para a fé de quem as faz e para que a tradição se cumpra como deve ser cumprida. Pela minha parte, um bem-haja para quem contribui para esta arte popular e tradicional.

 

Vilar de Nantes de ontem e de hoje

 

vilar-nantes-1.JPG

1600-corpo-deus-16 (76)O mesmo local fotografado por Gerald Bloncourt,  50 anos depois

 

Embora há dois dias atrás a minha missão em Vilar de Nantes fosse de mais uma vez fazer o registo das passadeiras coloridas e procissão do Corpo de Deus, levava comigo uma segunda missão de confirmação. Mas explico melhor para melhor se entender. A fotografia além de poder ser uma arte é um precioso e valioso documento que nos pode oferecer em imagem a história dos lugares e de uma época, contribuindo assim para a própria História mas também um valioso documento de estudo para as ciências sociais, e aqui, vale mesmo aquela máxima de “vale mais uma imagem que mil palavras”.  Fotografar a nossa gente nem sempre é uma tarefa fácil, por várias razões, mas há uma que em princípio poderia ser uma vantagem para o fotógrafos que conhece e vive nas comunidades que fotografa que acaba por atraiçoá-los, pois o conhecimento dessa comunidade transforma-a também em banal.  Mas já quem nos visita e quem nos vê com os olhos de outra cultura, tem um modo diferente de olhar e captar pormenores preciosos, os mesmos que para nós são banais.

 

vilar-nantes.JPG

 

1600-corpo-deus-16 (87)

O mesmo local fotografado por Gerald Bloncourt, 50 anos depois

 

Gérald Bloncourt um fotógrafo de origem haitiana dedicou-se nos anos 50 e 60 do século passado  a captar e registar momentos do povo português, principalmente a vida dos emigrantes portugueses em França.  Gérald Bloncourt regista  um quotidiano de vida difícil, até de  miséria nos "bidonvilles" (bairros de lata) que acompanhou ao longo de três décadas. Mas ao longo desse tempo veio também a Portugal, à origem desses mesmos emigrantes, focando-se, como é natural, nas terras do interior do Norte de Portugal, onde fez registos preciosos. Pois nos seus registos em Portugal, Gérald Bloncourt também passou por Chaves e por Vilar de Nantes. Da sua coleção deixo aqui hoje dois registos que o fotógrafo legendou como “Portugal 1966 – Região de Chaves”, mas que pelos dados que as fotografias nos oferecem tudo indicava serem de Vilar de Nantes. Foi precisamente o obter dessa certeza que me levou a mostrar estas fotos a naturais da aldeia que me confirmaram isso mesmo. Junto às fotos de 1966 estão as de hoje (de há dois dias), do mesmo local e mais ou menos do mesmo ângulo, precisamente 50 anos depois. As diferenças são notórias, aliás na segunda foto apenas um pequeno muro de pedra se mantém com  fontanário que estava junto ao antigo tanque. Na primeira foto, penso que só mesmo o bocadinho da Serra do Brunheiro se mantém mais ou menos igual.